Home Blog Page 99

Bosque Rodrigo Alves proporciona imersão virtual na Amazônia

0

Visitantes participam de experiência em realidade virtual e “entram” na floresta amazônica durante exibição de filmes no Bosque Rodrigues Alves. Foto: Paula Lourinho

Com 142 anos de história, o Bosque Rodrigues Alves – Jardim Botânico da Amazônia é um dos principais patrimônios naturais e históricos de Belém (PA). Em seus 15 hectares, o espaço abriga mais de 10 mil árvores e cerca de 435 animais, consolidando-se como um verdadeiro santuário da fauna e da flora amazônica.

Além de oferecer lazer à população, o espaço também atua como ferramenta de educação ambiental, recebendo escolas para visitas guiadas que estimulam o aprendizado sobre preservação da biodiversidade.

Uma experiência diferente de educação ambiental marcou a programação deste domingo (15) no Bosque. Em parceria com a Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais, o espaço recebeu a exibição em realidade virtual dos filmes ‘Amazônia Viva’ e ‘Amazônia Pra Sempre’, proporcionando ao público uma vivência imersiva na floresta amazônica.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A atividade foi realizada na brinquedoteca do bosque e utilizou óculos de realidade virtual, que permitem aos participantes “entrar” no ambiente da floresta e acompanhar, de forma imersiva, imagens que mostram tanto a beleza natural da Amazônia quanto os desafios enfrentados para a sua preservação.

Menino participa de experiência imersiva com óculos de realidade virtual durante exibição de filmes sobre a Amazônia. Foto: Paula Lourinho

Tecnologia para aproximar o público da floresta

Os filmes exibidos têm cerca de dez minutos de duração e já foram apresentados em diferentes regiões do Brasil, além de receberem reconhecimento em festivais nacionais e internacionais.

De acordo com um representante da iniciativa organizadora, Gabriel Dias, a proposta é utilizar ferramentas interativas para estimular a reflexão sobre o futuro da Amazônia.

“A Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais foi gerada pela ONU com o objetivo de trazer mais conscientização e também mais ações ambientais, por meio de informações científicas e exposições interativas, como é o caso da exibição dos filmes Amazônia Viva e Amazônia Pra Sempre. A ideia é mostrar o contraste entre a beleza da floresta e os problemas que ela enfrenta, além das consequências para a fauna, a flora e também para todos nós”, explicou Gabriel.

Bosque de Belém é inovador com várias novas tecnologias no mundo virtual
Crianças acompanham a exibição do filme sobre a Amazônia durante atividade de educação ambiental no Bosque. Foto: Paula Lourinho

Segundo ele, os filmes também destacam o papel dos povos que historicamente contribuem para a preservação da floresta.

“Queremos lembrar que essa preservação envolve também os povos originários, indígenas e quilombolas, que sempre ajudaram no cuidado com as florestas. A ideia é mostrar que preservar a Amazônia significa preservar a vida como um todo”, acrescentou.

“A ideia é mostrar a beleza da floresta e também os desafios que ela enfrenta, para despertar mais consciência sobre a preservação da Amazônia”, destaca Gabriel Dias. Foto:  Paula Lourinho

Experiência indicada a partir dos 12 anos

Por conta do uso dos óculos de realidade virtual e da abordagem do conteúdo, a experiência é recomendada principalmente para adolescentes e adultos. A idade indicada para assistir aos filmes utilizando o equipamento é a partir de 12 anos, quando os participantes já conseguem compreender de forma mais direta as mensagens transmitidas.

Crianças utilizam óculos de realidade virtual para assistir aos filmes sobre a Amazônia durante atividade educativa no Bosque. Foto: Paula Lourinho

Para crianças menores, a iniciativa também desenvolve outras atividades educativas com linguagem mais lúdica. A organização mantém parcerias com instituições como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), que disponibiliza materiais didáticos e jogos interativos voltados à conscientização ambiental.

O administrador do Bosque, Josias Reis, ressaltou que atividades como essa reforçam o papel educativo do local.

“Trazer experiências como essa para dentro do Bosque fortalece o nosso trabalho de educação ambiental. Quando as pessoas têm contato com tecnologias que mostram a floresta de forma tão real, elas passam a compreender melhor a importância de preservar esse patrimônio natural que nós temos”, destacou o administrador do Bosque Rodrigues Alves.

Leia também: Bosque Rodrigues Alves: um pedaço da floresta na ‘Cidade das Mangueiras’

“Quando as pessoas têm contato com experiências como essa, conseguem entender melhor a importância de preservar a floresta”, destaca Josias Reis, administrador do Bosque. Foto: Paula Lourinho

Famílias destacam importância da atividade

Quem participou da experiência destacou o impacto da tecnologia na forma de perceber a floresta. O estudante Diego Jaques, de 13 anos, que visitava o Bosque com o irmão Lorenzo Jaques, de 12, contou que a sensação foi surpreendente.

“Parece que a gente está dentro da floresta mesmo. Dá para ver os detalhes e sentir como se estivesse andando pela Amazônia. Foi uma experiência muito legal e faz a gente pensar mais sobre cuidar da natureza”, relatou o estudante.

O pai dos dois, Mauro Jorge, morador do bairro do Souza, afirmou que atividades como essa ajudam no aprendizado das crianças.

“É muito importante trazer esse tipo de experiência para elas. As crianças aprendem de uma forma diferente, mais dinâmica. Quando elas sentem a floresta dessa maneira, entendem melhor porque precisamos preservá-la”, disse.

Outra visitante foi a pequena Eva Cruz, de 12 anos, que participou da atividade ao lado do pai, Roger Cruz, morador do bairro do Marco. Para ele, iniciativas educativas em espaços públicos contribuem para formar uma nova consciência ambiental.

“Quando as pessoas têm contato com experiências como essa, conseguem entender melhor a importância de preservar a floresta”, destaca Josias Reis, administrador do Bosque. Foto: Paula Lourinho

“Esse tipo de atividade aproxima as crianças da realidade da Amazônia. Muitas vezes elas ouvem falar da floresta, mas não conseguem imaginar. Com a tecnologia, elas conseguem visualizar e entender a importância de cuidar desse patrimônio”, afirmou o pai.

O Bosque Rodrigues Alves funciona de terça-feira a domingo, das 8h às 16h, permanecendo fechado às segundas-feiras para manutenção. A entrada custa R$ 2, com gratuidade para crianças de até 6 anos, idosos e pessoas com deficiência. Crianças de 7 a 12 anos pagam meia-entrada. No último domingo de cada mês, o acesso é gratuito para todos os visitantes.

*Com informações da Agência Belém

João Coelho de Miranda Leão: uma história no Amazonas

0

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Antes de tratar do Dr. João Coelho de Miranda Leão, quero destacar seus ancestrais para lembrar mais uma vez que o atavismo é uma lei biológica. A família dos Miranda Leão conta mais de um século de atuação no Amazonas, em vários setores da atividade humana: no magistério, no comércio, nas ciências, na política, etc.

Como patriarca, destaco o nome do Coronel José de Miranda Leão, mandado à Luzéia em 1839 para combater os cabanos, levando 880 homens para expulsá-los da Mundurucania, o que conseguiu. Pelos idos de 1870, ainda forte prestou à Província do Amazonas relevantes serviços a causa pública, na sua qualidade de Deputado.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Outro de sua estirpe, foi o professor Manoel de Miranda, uma encarnação de sábio que se educara em Paris, aprendendo na Sorbonne, voltando para sua terra, entregando-se ao magistério e ao jornalismo. Fortaleceu seu cintilante espírito nos dogmas da igreja. Sua filha, srta. Maria de Miranda Leão – a mãezinha – foi Deputada Estadual do Amazonas, também primando pelo talento e pela cultura, tendo vinculado sua vida ao ensino e caridade. E, nesta geração, ainda esteve em Manaus o professor Homero de Miranda Leão, poeta, Deputado Estadual.

Doutor Miranda Leão a quem passo a me ocupar, foi um ramo vigoroso dessa árvore genealógica que tem enriquecido o Estado do Amazonas de ótimos frutos. Quem contará a sua biografia, melhor que ninguém é seu filho, Doutor João Miranda Leão, poucos dias após seu desaparecimento. Trata-se de uma peça inédita, escrita pelo nobre professor Themistocles Pinheiro Gadelha.

Doutor Miranda Leão nasceu em 9 de janeiro de 1869, em Maués, antiga Luzéia, tendo sido seus progenitores, o Capitão Rodrigo José Coelho de Miranda Leão e dona Olímpia Monteiro da Costa Leão. Órfão cedo de pai, esteve ainda adolescente no Rio Madeira, onde adquiriu prática de trabalho comercial, servindo de guarda-livros na antiga do Cel. José Gentil Monteiro da Costa, veio a Manaus e seguiu a Belém.

Iniciou no secundário, partindo para o Ceará, fazendo curso secundário completo em Fortaleza. Por onde exerceu o magistério, tirava o necessário para se manter. Desejando abraçar a carreira médica, seguiu para Bahia, mas ali esteve pouco tempo, transferindo-se para o Distrito Federal, onde terminou o acadêmico.

Aplicado e estudioso, conseguiu o curso no internato, Hospital da Misericórdia, e em 1899 defendeu tese com a dissertação Seções cirúrgicas dos tendões e suas indicações, recebendo o diploma de Doutor em Medicina.

João Coelho de Miranda Leão: uma história no Amazonas
João Coelho de Miranda Leão. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Casou com dona Luzia Valente de Miranda Leão e embarcou sem demora a Manaus, fixando residência. O casal teve dois filhos: João e Geraldo. Nomeado Inspetor Sanitário e nas dolorosas quadras da febre amarela, o diretor do Serviço Sanitário lhe confiou a chefia dos trabalhos de profilaxia especifica, cargo que lhe pôs todo seu empenho, não conseguindo êxito por lhe terem negado os recursos materiais em todas as exigências de tão árduos os trabalhos.

Coube-lhe ter sido em 1905 com Alfredo da Matta e Worferstan Thomas, um dos iniciadores dos estudos das verminoses no Amazonas, quanto a suas transmissões terapêuticas. Neste estudo empregou a Petivéria, mucuracaá, em diversos casos um eficaz resultado. Incumbindo a assistência aos leprosos no Umirizal, aventou a criação de colônias agrícolas e leprosários modelos.

Na diretoria do Serviço Sanitário cargo que desempenhou com muita competência, deu provas de seu profissionalismo conhecedor de moderna higiene. Na horrível fase endêmica da gripe em Manaus, em 1918, se revelou um verdadeiro apóstolo. O povo manauense e o poder público esquecidos de serviços, jamais deverão olvidar o seu nome, pois ele se sacrificou nesse posto de honra.

Aliado a qualquer campanha em prol do bem a amparar e proteger os pequenos, jamais se recusando no auxílio dos desamparados.

avenida constantino nery manaus
João Coelho já foi um dos nomes dados a atual Avenida Constantino Nery em Manaus. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Foi um entusiasta de quaisquer assuntos que se ligassem ao Amazonas, terra a qual dedicava uma grande admiração, voltando-se para estudá-la, especialmente os dialetos de certas tribos. Fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia, de que foi vice-presidente, do Instituto Geográfico e Histórico, a cujo conselho pertenceu, médico do Hospital de Misericórdia e da Beneficente Portuguesa, quando neste eram gratuitos os serviços e (de que fora afastado quando houve remuneração), membro fundador e ativismo propagandista do Clube da Seringueira, de que foi brilhante ornamento, fundador da Sociedade Amazonense de Agricultura, Miranda Leão jamais desmereceu da admiração e da simpatia a ele dedicadas. Em todos esses cargos e funções, Miranda Leão trabalhou e serviu a sua terra natal com elevado critério e sabe.

Um fato trágico que seu filho e biografo não se referiu, mas que a impressa destacou em comovidas colunas foi seu suicídio, com um tiro de revólver na cabeça, em 26 de junho de 1920. O ato de desespero não fora previsto por ninguém, mesmo pelos seus íntimos, pois era um homem equilibrado e sua vida não estava embaraçada.

Murmurava-se que havia descoberto estar contaminado com lepra, ele que tinha sido diretor e médico do Leprosário do Umirizal a montante de Manaus.

Seus principais trabalhos

  • Secções cirúrgicas dos tendões e suas aplicações – Tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio, 1899.
  • Profilaxia da ancilostomose e tricocefalose em Manaus – 1914;
  • Seringais plantados no Município de Maués – Seringueira n.° 2 – 1916;
  • Devemos plantar seringueiras no Amazonas? – Seringueira n.°1 – 1916;
  • A farinha de mandioca Seringueira nos 3,4,5,6,7 – 1916;
  • Água filtrada Seringueira nos 9 e 10 – 1917;
  • A Içaubas (atta columbica) Seringueira n.° 8 – Distancia entre seringueiras plantadas Seringueira n. 9 e 10 – 1917;
  • O pão de milho e trigo Seringueira n.11 – 1917;
  • A farinha alimentícia de papilionáceas e de cereais, Seringueira n.°14 – 1917;
  • Avisos sobre higiene – Manaus – 1918;
  • A gripe por influenza – Amazonas – Médico n.°5 – 1919;
  • Noção de profilaxia da varíola – Imprensa Off. – 1919;
  • Profilaxia do tifo exantemático (avulsos) – 1919;
  • Tratamento de gripe Imprensa Off. – 1919;
  • Nota biográfica do Dr. Alfredo da Matta (inédita) – 1919;
  • Amazonas Médico nos 13, 16 – 1922.

Deixou, além de trabalhos sobre a língua tupi, uma excelente obra Apostilas de Latim (inédita).

*Dados biográficos compilados do livro Dicionário Amazonense de Biografias, do autor Agnello Bittencourt.

Leia também: Cláudia Maria Daou Paixão e Silva: importante responsabilidade social na Amazônia

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Estudos preliminares são realizados em urna funerária encontrada na Ilha do Bananal

0

Urna funerária encontrada por indígenas na Ilha do Bananal pode revelar novas pistas sobre povos antigos do Tocantins. Foto: Divulgação/Iphan

O Núcleo Tocantinense de Arqueologia (Nuta), da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), participará dos estudos preliminares de uma urna funerária encontrada na Ilha do Bananal. O material foi recolhido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) após comunicação feita pela comunidade indígena Javaé, que localizou o artefato em território tradicional.

No processo de análise, o Nuta atuará como instituição responsável pela guarda e pesquisa arqueológica do material. O núcleo fará a documentação técnica da urna e conduzirá procedimentos de curadoria e conservação necessários para garantir condições adequadas às análises científicas e à preservação do patrimônio arqueológico.

Leia também: Ilha do Bananal, no Tocantins, é a maior ilha genuinamente fluvial do mundo

Segundo o curador do Nuta, professor doutor Genilson Nolasco, o trabalho envolve diferentes etapas de controle e registro do material.

“O Nuta atua como instituição de guarda e pesquisa arqueológica. Recebemos o material, asseguramos a rastreabilidade e realizamos a documentação técnica, com registro, inventário e fotografia, além da curadoria e da conservação do conjunto, garantindo condições adequadas para os estudos científicos e para a salvaguarda do patrimônio”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, por se tratar de um contexto funerário localizado em território indígena, as etapas do trabalho seguem cuidados éticos específicos. “Todas as etapas são conduzidas com os devidos cuidados éticos, assegurando tratamento respeitoso aos remanescentes e responsabilidade na divulgação das informações”, explicou.

Estudos arqueológicos com a urna

Entre os procedimentos previstos estão estudos laboratoriais preliminares, que incluem a decapagem controlada da urna e a retirada sistemática dos materiais associados ao contexto funerário.

Após essa etapa inicial, o material passará por processos de curadoria e conservação preventiva. Também serão realizadas análises voltadas à identificação de características biológicas e culturais relacionadas ao contexto do achado.

Segundo o curador, os estudos podem contribuir para estimativas sobre idade e sexo do indivíduo associado ao contexto funerário e para a análise da cerâmica utilizada na produção da urna. “A análise classificatória da cerâmica considera elementos como pasta, técnica de fabricação, forma e acabamento. Esses dados permitem comparar o material com outros registros arqueológicos da região e levantar hipóteses sobre a tradição e a fase arqueológica às quais a urna pode estar vinculada”, pontuou.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Contribuição para pesquisas na região

Para o pesquisador, a participação do núcleo no processo de estudo do material também amplia a produção de dados científicos sobre antigas ocupações humanas no Tocantins.

Ao registrar, conservar e analisar o artefato, o Nuta contribui para transformar a descoberta em evidência arqueológica qualificada. Esse processo permite compreender práticas funerárias, tecnologias ceramistas e contextos culturais associados a povos que habitaram a região ao longo do tempo.

“Quando a descoberta passa por registro técnico, conservação e análise científica, ela se transforma em fonte de informação para a arqueologia. Esses dados ajudam a compreender práticas culturais e contextos históricos relacionados às ocupações humanas no território”, ressaltou.

urna funerária encontrada pelo povo Javaé no tocantins
Foto: Divulgação/Iphan

Leia também: Atlas Arqueológico do Tocantins busca democratizar acesso às informações do estado

Pesquisa e preservação do patrimônio

O trabalho integra as atividades institucionais do Núcleo Tocantinense de Arqueologia, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários (Proex) da Unitins, por meio da Diretoria de Assuntos Estudantis e Esportes.

Além da preservação do material arqueológico, as análises realizadas pelo núcleo podem contribuir para futuras pesquisas acadêmicas relacionadas à história e à arqueologia da região.

Segundo o curador do Nuta, a organização e conservação do material ampliam o potencial de geração de dados científicos e de novas perguntas de pesquisa. “A curadoria e o estudo preliminar ampliam as possibilidades de investigação sobre o material e podem subsidiar pesquisas acadêmicas mais aprofundadas no futuro”, afirmou.

Os estudos iniciais devem fornecer elementos para compreender o contexto arqueológico do achado, além de contribuir para o conhecimento sobre as antigas ocupações humanas na região da Ilha do Bananal e do vale do Araguaia.

*Com informações da Unitins

Panamá, o mais importante hub logístico e financeiro da América Latina

0

Foto: Reprodução/Tourism Panamá

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

A missão da Associação PanAmazônia, após visita ao Porto de Chancay, em Lima, deslocou-se para a cidade do Panamá, com o objetivo de conhecer seu famoso Canal e a Zona Livre de Colón. O Panamá, situado no istmo centro-americano que une a América do Norte e do Sul é famoso por seu canal interoceânico que tornou o país um importante hub logístico e financeiro internacional. O Canal do Panamá, extraordinária proeza de engenharia, foi construído entre 1881-1914 objetivando ligar os oceanos Atlântico e Pacífico. A hipótese de um canal na área desafiou europeus desde o século XVI na incessante busca de uma passagem capaz de contornar as tormentas do Estreito de Magalhães e do Cabo Horn, encurtando as longas distâncias do perigoso trajeto.

Foram os Estados Unidos, entretanto, que, por meio do tratado Herrán-Hay, de 1903, ganharam a concessão para construir a desafiante obra. Inaugurada em 1914, a estratégica hidrovia de 82 km completa o percurso por meio de um sistema de comportas e reservatórios que elevam por gravidade navios a 26 metros e os retorna ao nível do mar. Por ano, passam pelo canal cerca de 15 mil navios (máximo de 366 m de comprimento, 49m de boca e 15,2 m de calado), tornando-se rota de navegação fundamental que possibilitou reduzir a viagem entre os oceanos em cerca de 15.000 km, e, dessa forma, revolucionar o comércio marítimo global.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Na bela capital Panama City, arranha-céus modernos, cassinos, restaurantes e hotéis de alto padrão convivem com as construções coloniais do distrito de Casco Viejo (o centro histórico da cidade) e a floresta tropical do Parque Natural Metropolitano. O Panamá é um destino cada vez mais procurado também por aposentados pelos serviços de alta qualidade e custo de vida razoável, salientando-se que investir no país não exige moradia permanente. Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), descrevem a economia do Panamá baseada principalmente no setor de turismo e serviços, cerca de 80% do seu PIB e a maior parte da sua receita externa.

Os serviços incluem bancos, comércio, seguros, portos de contêineres e registro de navios-almirante, serviços médicos e de saúde e turismo. Em 2025 o PIB per capita do Panamá alcançou aproximadamente 20,000 dólares (Brasil: em torno de US$11,000). Embora não seja membro da OCDE, o país frequentemente passa por avaliações da Organização tendo em vista adequar suas políticas fiscais e comerciais a padrões internacionais.

Deve-se observar que o Panamá é estratégico para negócios de modo geral. Sobretudo por se constituir hub logístico global, dispor de forte setor financeiro, economia dolarizada, portanto estável, além de alta conectividade marítima e aérea, sendo porta natural de entrada para América Central, Caribe, México e as Américas Central e do Norte. Além do mais, o país proporciona segurança, qualidade de vida e mercado imobiliário estável. A segurança pública no Panamá é considerada alta, especialmente em comparação com outros países tropicais.

O risco de desastres naturais é baixo, o que garante estabilidade para os moradores. A proximidade com os Estados Unidos é também um diferencial importante, com voos rápidos para cidades como Miami e Orlando. O mercado imobiliário no Panamá oferece opções acessíveis e diversificadas. Há disponibilidade de imóveis desde a movimentada Cidade do Panamá até áreas costeiras tranquilas. Os preços são consideravelmente justos, permitindo a realização de sonhos de morar próximo ao mar do Caribe.

Em reunião da Associação PanAmazônia semana passada, o diretor executivo Belisário Arce apresentou um resumo da Missão e sua contribuição à política regional de integração pan-amazônica. Ressaltou as vantagens acarretadas para esse fim oferecidas pelo Porto de Chancay, em Lima, Peru, enquanto o empresário David Israel, que organizou a visita ao Panamá, destacou dados do governo brasileiro que apontam corrente de comércio bilateral Brasil/Panamá da ordem de R$1,6 bilhão de dólares em 2025, cerca de 35% das exportações brasileiras para a América Central.

Observou que, por meio do Acordo Mercosul–Panamá seria possível estabelecer bases para criação de uma Área de Livre Comércio entre as partes, facilitando investimentos e cooperação logística e portuária no uso do Canal do Panamá e da Zona Livre de Colón e viabilizando exportações da ZFM para além mar. Por seu turno, a Zona Livre de Colón, localizada na entrada atlântica do Canal do Panamá, uma das maiores zonas francas de comércio do mundo, opera de fato como centro de redistribuição para América Latina e Caribe. Poderia vir a tornar-se parceiro natural de Manaus. Ao que salientou Israel, houve tentativas de operacionalização de acordos, como em 2012, já expirado; e em 2025, quando autoridades voltaram a discutir a renovação dessa parceria para a retomada de projetos conjuntos.

Manaus já mantém um pé na capital panamenha. A brasileira “Panama Connection Turismo”, do amazonense David Israel, foi instalada como destino turístico e plataforma de negócios para brasileiros. A iniciativa busca aproveitar parte dos cerca de 20 mil passageiros que escalam na Cidade do Panamá em voos da Copa Airlines rumo ao Caribe, Estados Unidos, Canadá e México, incentivando-os a utilizar o programa “Panama Stopover” para permanecer no país por alguns dias e conhecer suas praias, ilhas, montanhas e oportunidades de compras.

Além do turismo, a empresa pretende atuar como hub de serviços, reunindo profissionais das áreas de imigração, investimentos, setor imobiliário e logística internacional, aproveitando também a estrutura comercial da Zona Livre de Colón. Israel salienta que a segurança pública no Panamá “é considerada alta em comparação a outros países tropicais e que, dada a proximidade com os Estados Unidos e cidades caribenhas atraem muitos turistas anualmente”.

Leia também: O porto peruano de Chancay e o comércio transfronteiriço pan-amazônico

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Engenheiro de som do Amazonas recebe troféu Grammy que venceu por álbum de Beyoncé após um ano

0

O engenheiro de som amazonense Henrique Andrade comemorou nas redes sociais a chegada do Grammy. Foto: Reprodução/Instagram-n_hee_k

O engenheiro de som amazonense Henrique Andrade comemorou nas redes sociais a chegada do troféu do Grammy de ‘Álbum do Ano’, conquistado ao lado de Beyoncé pelo trabalho no disco ‘Cowboy Carter’. A artista ganhou a categoria pela primeira vez em 2025.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Natural de Manaus, Henrique participou da produção de faixas como Protector, Sweet Honey Buckiin, Bodyguard, Spaghettii, Ameriican Requiem e Blackbiird, todas presentes do mais recente trabalho da cantora norte-americana.

“Hoje à noite estamos celebrando, porque finalmente ele chegou. E agora vou levá-lo para casa. Fazer história com Beyoncé é um sentimento que não consigo colocar em palavras”, disse ao segurar o prêmio pela primeira vez.

O produtor aproveitou a ocasião para refletir sobre a trajetória profissional e deixou um recado motivacional aos seguidores.

“Essa jornada me ensinou que nada supera a paciência e o trabalho duro… mesmo quando, no momento, não parece que vai valer a pena. Sou imensamente grato”, escreveu.

1° Grammy do amazonense?

Este é o primeiro prêmio Grammy da Academia de Gravação dos Estados Unidos na carreira do amazonense, que já possui outros dois troféus do Grammy Latino, dedicado apenas a artistas da América Latina. Além de Beyoncé, Henrique já trabalhou com nomes como Justin Bieber, Bad Bunny, Zayn Malik e Raye.

Outros dois brasileiros também celebraram a conquista ao lado da cantora: Matheus Braz, do Rio de Janeiro, e Dani Pampuri, de São Paulo. Braz, que colabora com Beyoncé desde 2021, agradeceu à artista e à equipe Parkwood. Já Dani destacou que o prêmio simboliza seus 40 anos de vida e representa a resiliência e colaboração do trabalho em estúdio.

Leia também: Artista indígena do Acre faz apresentação no Grammy Latino com DJ Alok

Engenheiro de som do Amazonas que venceu Grammy por álbum de Beyoncé celebra chegada de troféu após um ano
Engenheiro de som amazonense Henrique Andrade. Foto: Divulgação

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

Fibras naturais da Amazônia chegam ao tapete vermelho do Oscar em vestido usado por Alice Carvalho

0

Foto: Reprodução/Instagram-Normandooficial

A moda brasileira teve um momento de destaque no tapete vermelho do Oscar. A atriz Alice Carvalho, integrante do elenco do filme ‘O Agente Secreto’, indicado a quatro estatuetas, compareceu à cerimônia com um vestido criado pela marca amazônica Normando, confeccionado a partir de fibras naturais de malva e juta produzidas pela Companhia Têxtil de Castanhal, maior produtora dessas matérias-primas nas Américas.

A peça leva para um dos eventos mais prestigiados do cinema mundial não apenas a estética contemporânea da moda brasileira, mas também uma história de sustentabilidade e valorização da bioeconomia.

Com estrutura inspirada em um blazer — ombros marcados e bolsos, códigos característicos da estética da Normando — o vestido tem construção de alfaiataria e acabamento todo alinhavado à mão. A parte inferior se abre em uma silhueta fluida, próxima ao formato sereia.

Para garantir conforto e usabilidade, os estilistas aplicaram um forro de algodão por termocolagem, reforçando o compromisso da marca com peças que unem design e funcionalidade.

“Trabalhamos com as fibras da Castanhal no nosso dia a dia. Já apresentamos peças feitas com elas na São Paulo Fashion Week e no Baile da Vogue. O vestido mistura malva e juta e foi pensado para ser confortável, com atenção à ergonomia e ao toque na pele”, explica Emídio Contente, diretor criativo da Normando.

Leia também: Da Índia para o Brasil: a jornada da juta e da malva no Amazonas

Nativa da Amazônia, a malva é uma fibra natural, leve e resistente, assim como a juta, que foi levada à região por imigrantes japoneses, na década de 1930. Comumente usadas em sacarias (como as que levam a marca Cafés do Brasil) e embalagens sustentáveis, ambas ganham protagonismo na moda feita pela Normando.

“Em um mundo em que quase todos os modelos já foram criados, a matéria-prima é o que existe de mais inovador. E não há nada mais tecnológico do que a floresta, com a tecnologia da natureza, da semente e da mão humana”, afirma Marco Normando, diretor criativo da marca.

Segundo ele, levar um vestido feito com fibras amazônicas ao tapete vermelho do Oscar é uma forma de reposicionar o olhar internacional sobre a região. “Queremos mostrar uma Amazônia contemporânea, de tecnologia, cultura e diversidade, longe de estereótipos”.

“Estar na origem de um vestido no Oscar coloca não só as fibras brasileiras, mas toda a sua cadeia produtiva, em um outro patamar. É um momento importante de valorização dos pequenos produtores de malva da Amazônia”, afirma Flávio Smith, diretor-executivo da Castanhal.

A presença da empresa nessa criação reforça a importância da cadeia produtiva sustentável das fibras amazônicas. Há 60 anos, a companhia transforma juta e malva cultivadas em áreas de várzea em fios, telas e tecidos utilizados por diferentes setores da indústria. O cultivo segue o ciclo natural das chuvas e dos rios amazônicos, sem irrigação artificial, adubação química ou desmatamento. Toda essa cadeia da fibra remove mais gás carbônico (CO²) da atmosfera do que emite, o que caracteriza uma operação carbono negativo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O modelo produtivo também tem forte impacto social. A empresa mantém parceria com comunidades ribeirinhas, oferecendo assistência técnica, fornecimento de sementes e compra garantida da produção com preço previamente acordado, o que gera renda mais estável para centenas de famílias. Toda a cadeia é rastreável, do plantio até a transformação da fibra, e auditada por organismos certificadores independentes, assegurando critérios de manejo ambiental e condições éticas de trabalho.

Fibras amazônicas na moda contemporânea

Além da dimensão ambiental e social, as fibras amazônicas oferecem características valorizadas pela moda contemporânea: são biodegradáveis, resistentes e possuem estética natural versátil. Para Emídio Contente, essa conexão entre tradição e inovação também é pessoal. “A malva sempre esteve presente no cotidiano do interior do Pará. As crianças brincam com ela, fazem cabelo de boneca. Minha avó fazia bolsas de juta para vender. Trabalhar com essas fibras é também uma forma de honrar essa memória.”

Ao vestir Alice Carvalho no Oscar, a Normando e a Castanhal transformam o tapete vermelho em uma vitrine para a moda brasileira e para o potencial criativo da Amazônia, onde design e sustentabilidade caminham lado a lado.

“Levar esse vestido ao Oscar é colocar o Brasil, junto com nosso cinema, onde ele merece estar, com a Amazônia em evidência”, celebram os designers.

Pesquisadoras no Pará estudam murumuru como opção à liberação sustentada de fármacos

Estudos com o murumuru foram feitos na Ufopa em parceria com instituições nacionais e internacionais. Foto:

Uma palmeira muito comum na região amazônica, Astrocaryum murumuru, ou simplesmente murumuruzeiro, que é rica em ácido láurico, mirístico e oleico, está sendo estudada no Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Farmacotécnico e Cosmético (LPDF), ligado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) como alternativa sustentável aos sistemas de liberação de fármacos para uso na indústria cosmética e farmacêutica.

Testes com a manteiga de murumuru como base para o desenvolvimento desses sistemas de liberação demonstraram “ótimo” desempenho. Esse sistema de liberação de fármacos desenvolvido a partir de manteiga vegetal apresentou resultados promissores em testes laboratoriais, com excelente perfil de liberação e penetração cutânea, sem toxicidade.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Os achados indicam potencial para a criação de formulações tópicas mais seguras, com menor risco de irritação e maior aceitabilidade pelos usuários. A proposta pode contribuir para tratamentos dermatológicos mais acessíveis e bem tolerados, ao mesmo tempo em que integra eficácia terapêutica e responsabilidade ambiental no desenvolvimento de novas tecnologias de saúde.

Evidências até agora

As implicações clínicas de uma liberação prolongada são explicadas pelas pesquisadoras Amanda Caroline Esquerdo da Silva e Profa. Dra. Kariane Mendes Nunes, coordenadora do LPDF. “É possível manter concentrações terapêuticas por um período mais prolongado com uma única aplicação, o que reduz a frequência de uso, melhora a adesão ao tratamento e aumenta o conforto e a segurança do paciente”, esclarece a pesquisadora Kariane Nunes.

De acordo com os estudos desenvolvidos ao longo de quatro anos e depois de 25 tentativas no laboratório, verificou-se que a estrutura de “mesofase hexagonal” foi determinante para a liberação sustentada do metronidazol. Isso significa que sistemas líquido-cristalinos são especialmente desenvolvidos para promover a chamada liberação controlada de fármacos.

“Na mesofase hexagonal, sua estrutura é formada por canais cilíndricos altamente organizados, que funcionam como verdadeiros ‘reservatórios’ microscópicos para o fármaco. Essa estrutura dificulta a difusão rápida do fármaco para o meio externo, fazendo com que ele seja liberado de forma gradual e sustentada ao longo do tempo”, explica Nunes.

Leia também: Murumuru: semente utilizada como cosmético pode ser utilizada na construção civil

Sob a orientação de Kariane Nunes, a pesquisa foi desenvolvida pela jovem cientista Amanda Esquerdo, 25 anos, como resultado de cooperação técnica vigente da Ufopa com a Università degli Studi di Parma (UNIPR, Itália) e a Universidade de Brasília (UnB).

A equipe acaba de publicar um estudo em um renomado veículo científico, o Journal of Drug Delivery Science and Technology, intitulado “Advancing a surfactant-free sustainable drug delivery system based on the Amazon Astrocaryum murumuru butter for topical application”, que em tradução livre significa “Avanço de um sistema sustentável de liberação de fármacos, livre de surfactantes, baseado na manteiga amazônica de murumuru (Astrocaryum murumuru) para aplicação tópica”.

“A publicação em uma revista de prestígio internacional representa o reconhecimento da qualidade científica, da originalidade da proposta e da relevância global da pesquisa desenvolvida na Amazônia. Demonstra que o grupo de pesquisa da Ufopa está produzindo ciência competitiva em nível internacional, com rigor metodológico e inovação tecnológica”, comemora Kariane Nunes.

De voluntária a pesquisadora

Com sua trajetória iniciada ao ingressar no curso de Bacharelado em Farmácia da Ufopa, foi como voluntária do Laboratório de Farmacotécnica que Amanda Esquerdo, mesmo antes de conquistar uma bolsa de pesquisa, despertou seu interesse pela transformação da matéria-prima em soluções terapêuticas. Desde então esse tema se tornou central na sua pesquisa: foi base do seu trabalho de conclusão de curso (TCC) e de sua dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGSA), do Isco. 

Com o aprofundamento dos estudos na universidade italiana, concluiu que “transformar biodiversidade em conhecimento aplicado” não é só possível como também recompensador, pois eleva o potencial científico da biodiversidade regional para o patamar de fonte de inovação farmacêutica e possibilidade de valorização científica dos recursos da Amazônia.

“Tal evidência destaca a manteiga de murumuru como uma matéria-prima promissora para o desenvolvimento de formulações tópicas, capaz de aliar desempenho tecnológico, biocompatibilidade e menor risco de irritação. Mais do que um insumo regional, ela se mostra uma plataforma tecnológica com potencial real de aplicação farmacêutica e dermocosmética”.

A pesquisa, de acordo com Amanda, reforça a relevância da manteiga de murumuru como excipiente funcional, e não apenas como componente veicular em produtos.

pesquisa com murumuru no pará
Amanda na Ufopa. Foto: Lenne Santos/Ufopa

Ela acrescenta a isso o fator “resiliência científica” no processo, tanto na pesquisa quanto no reconhecimento do resultado, com a publicação do artigo na revista internacional:

“Essa conquista simboliza muito mais do que um artigo publicado, demonstra que ciência de qualidade não é determinada exclusivamente por infraestrutura sofisticada, mas por consistência, relevância e comprometimento. Mostra, sobretudo, que pesquisas desenvolvidas na Amazônia, mesmo aquelas consideradas ‘simples’ em termos estruturais, podem alcançar visibilidade e reconhecimento em periódicos de alto impacto”.

Ela destacou o papel fundamental da Ufopa, especialmente pelo apoio institucional concedido por meio de edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Tecnológica (Proppit), ressaltando que o incentivo foi decisivo para viabilizar a publicação e reforçar a importância de políticas de fomento à produção científica na região.

Valorização das cadeias produtivas locais do murumuru

Amplamente utilizada na indústria cosmética, principalmente para tratamento capilar, a manteiga de murumuru pode ser uma alternativa sustentável ao uso de produtos sintéticos, por exemplo.

“O avanço é considerável do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico sustentável e da valorização das cadeias produtivas locais, uma vez que reduz o uso de excipientes sintéticos, que podem prejudicar o meio ambiente e a saúde pública, e diminui os gastos com pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos e cosméticos, já que os tensoativos são adjuvantes farmacêuticos caros, além de agregar valor às matérias-primas amazônicas, contribuindo para o avanço da bioeconomia regional”, completa Nunes.

Cosméticos verdes e floresta em pé

Sendo uma tendência cada vez mais crescente entre os consumidores a utilização de produtos baseados na natureza, o resultado para a coordenadora da pesquisa é animador.

“Esse resultado só nos mostra quanto podemos avançar em segurança, eficácia e sustentabilidade no que tange ao desenvolvimento de medicamentos cada vez mais verdes”, afirma Nunes, que complementa: “Além disso, ao transformar recursos naturais em produtos de alto valor agregado por meio da ciência, reforçamos o compromisso com o princípio da ‘floresta em pé’, demonstrando que é possível gerar desenvolvimento econômico sem abrir mão da conservação ambiental”.

Além da relevância científica e da sustentabilidade destacadas pela pesquisadora Kariane, o diretor de Pesquisa da Proppit, Bruno Batista, ressalta quesitos estratégicos dos resultados dessa pesquisa, por exemplo: química verde, colaboração internacional, alternativa a insumos importados, protagonismo regional, inovação em saúde e inclusão de comunidades tradicionais.

Segundo Batista, “o estudo prova que ingredientes naturais da região podem substituir surfactantes e excipientes sintéticos importados, fomentando uma base tecnológica local independente e ecologicamente correta”, isso tudo somado à promoção da valorização da sociobiodiversidade e da contribuição para a inclusão socioeconômica de comunidades da floresta que trabalham com a extração sustentável dessas sementes.

Dra. Kariane Nunes (à esquerda) e a mestra Amanda no laboratório de Fármacos da Ufopa. Foto: Lenne Santos/Ufopa

O que ocorre a partir de agora

Um pedido de patente e o aprimoramento da formulação. Esses são os próximos passos da pesquisa, de acordo com Kariane Nunes; ela acrescenta ainda que o foco neste segundo momento será a otimização da estabilidade, da eficácia e da reprodutibilidade do sistema desenvolvido.

“Paralelamente, pretendemos avançar com o depósito de pedido de patente, visando à proteção da tecnologia e à viabilização de uma futura transferência tecnológica. A partir dessa etapa, abre-se a possibilidade de estabelecer parcerias com a indústria farmacêutica ou cosmética, ampliando as perspectivas de aplicação prática do produto e potencial escalonamento para testes clínicos, conforme a maturidade tecnológica alcançada”.

*Com informações da Ufopa

Museu de Geociências da UFPA: acervo conta história geológica da Amazônia

0

Foto: Alexandre de Moraes/UFPA

Com um acervo que reúne minerais, rochas e fósseis, o Museu de Geociências (MUGEO) da Universidade Federal do Pará (UFPA) desempenha um papel importante na divulgação científica e na preservação do patrimônio geológico amazônico. Vinculado ao Instituto de Geociências (IG), o espaço funciona como ambiente de ensino, pesquisa e extensão, aproximando a Universidade da sociedade.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Criado a partir de coleções acadêmicas formadas por professores e estudantes do curso de Geologia, o museu surgiu inicialmente como uma coleção simples de amostras de minerais que passaram a ser reunidas para atividades didáticas.

A instituição foi oficialmente inaugurada em 21 de dezembro de 1984, durante as comemorações dos 20 anos do curso de Geologia da UFPA, a partir da iniciativa e da curadoria inicial do professor Marcondes Lima da Costa.

“Atualmente, o museu reúne mais de 2.400 amostras catalogadas, incluindo minerais, rochas, minérios, gemas, biojóias e fósseis provenientes de diferentes regiões do Brasil e do mundo, com destaque especialmente para a Amazônia”, explica o professor da Faculdade de Geologia e atual curador do Museu de Geociências, Alan Albuquerque.

Leia também: 5 museus históricos para entender a evolução de Belém

Museu de Geociências da UFPA: acervo conta história geológica da Amazônia
Foto: Alexandre de Moraes/UFPA

Acervo científico e patrimônio geológico

O acervo do MUGEO permite observar diferentes formações geológicas e compreender processos naturais que ocorreram ao longo de milhões de anos. Entre as peças preservadas, estão dezenas de peças – como os raros meteoritos – que representam um registro natural da história do planeta terra. De acordo com o curador, preservar esse material também significa preservar conhecimento científico.

“Cada mineral, rocha ou fóssil guarda informações sobre a história da Terra. Essas amostras funcionam como registros naturais que permitem reconstruir processos geológicos que ocorreram há milhões ou até bilhões de anos”, destaca o professor, reforçando a relevância da preservação desse patrimônio para o contexto amazônico, uma região que naturalmente possui grande diversidade geológica e importantes reservas minerais.

Além de funcionar como um espaço de exposição, o museu também desempenha um papel fundamental na formação acadêmica de estudantes e pesquisadores. O local é utilizado em aulas práticas e atividades de pesquisa em cursos da área de geociências, como Geologia, Geofísica, Meteorologia e Oceanografia, além de receber visitas técnicas de estudantes de outras áreas, como engenharia e ciências biológicas.

Para o professor Alan Albuquerque, a presença de um museu de geociências em uma universidade amazônica é estratégica para o desenvolvimento científico da região. “A região amazônica possui uma das maiores diversidades geológicas e minerais do planeta, e compreender essa riqueza é fundamental para o desenvolvimento científico, ambiental, social e econômico da região”, afirma.

Leia também: Portal Amazônia responde: existem pedras preciosas no Monte Roraima?

Museu de Geociências da UFPA: acervo conta história geológica da Amazônia

O museu também apoia atividades acadêmicas em diferentes níveis de formação, desde a graduação até a pós-graduação, contribuindo para projetos de pesquisa e iniciativas de formação científica, além de contribuir para despertar o interesse pela ciência da Terra e para valorizar o patrimônio geológico da Amazônia.

Ciência, sociedade, território e consciência ambiental no Museu

O Museu de Geociências também desenvolve atividades voltadas para a comunidade externa, recebendo estudantes da educação básica, universitários, professores e visitantes em geral. As visitas podem ser individuais ou em grupos, frequentemente acompanhadas por estudantes do Programa de Educação Tutorial (PET) de Geologia.

Além da visitação pública, o museu participa de eventos científicos e promove atividades educativas, como oficinas, exposições e minicursos, iniciativas que ajudam a popularizar o conhecimento geológico e ampliar a compreensão sobre o território amazônico e sobre a relação entre sociedade e natureza.

“O Museu de Geociências é um espaço aberto ao conhecimento e à curiosidade. Ele mostra que a história da Terra está registrada nas rochas, nos minerais e nos fósseis que fazem parte do nosso cotidiano. Conhecer o museu é também descobrir como a ciência ajuda a compreender a natureza e a importância da Amazônia para o planeta”, conclui Alan Albuquerque.

Mais informações sobre o espaço estão disponíveis na página do museu dentro do site do Instituto de Geociências ou na página sobre ele dentro do site do Grupo de Mineralogia e Geoquímica Aplicada (GMGA), a qual também possui algumas amostras/coleções do acervo. O museu funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. A visitação é gratuita. 

*Com informações da UFPA

Dicas de como plantar mudas em três ambientes diferentes

0

Plantio de mudas. Foto: Reprodução/Amazon Sat

A Fundação Rede Amazônica (FRAM) realiza, no Acre, as ações do Projeto Consciência Limpa, uma iniciativa que envolve educação ambiental, sustentabilidade e participação da comunidade. O projeto atua há mais de 20 anos na Região Norte e busca ajudar a população a entender melhor os problemas ambientais e adotar atitudes mais responsáveis no dia a dia.

Através da educação, ações práticas e a comunicação assertiva, o projeto visa incentivar mudanças de comportamento na Amazônia, sempre com o objetivo de melhorar a qualidade de vida no planeta. Uma dessas atividades benéficas para o planeta é o plantio de árvores de forma responsável.

Plantar árvores é um gesto que representa não só a manutenção do meio ambiente, mas a garantia da qualidade de vida para futuras gerações. Além do papel essencial de regular o ar que respiramos e a temperatura da terra, as árvores também fornecem abrigo e alimento por meio das suas sombras e frutos.

Leia também: Projeto Consciência Limpa promove educação ambiental e sustentabilidade no Acre

No entanto, apesar de parecer simples, realizar o plantio de árvores envolve uma série de cuidados para que tudo ocorra de maneira correta.

O tipo de ambiente, por exemplo, é um fator determinante que precisa ser observado para o desenvolvimento correto das plantas. Geralmente, existem três tipos de ambientes: urbanos, rurais e florestais ou de recuperação ambiental.

Confira algumas dicas do que plantar em diferentes ambientes:

Áreas urbanas

Em locas públicos como ruas, calçadas e quintais, é importante seguir alguns cuidados em relação ao tipo de árvore, espaço do plantio e ao solo. A primeira dica é escolher árvores nativas, ou seja, oriundas da região. Isso porque tais espécies já estão mais adaptadas ao clima e ao solo, o que ajuda a fortalecer a relação ecológica da região, bem como a preservação do biodiversidade local.

Plantio de mudas em canteiro, na cidade de Manaus.
Plantio de mudas em canteiro, na cidade de Manaus. Foto: Divulgação/Semmas

Outro cuidado é a o local escolhido para o plantio das mudas. Observe se o espaço é suficiente para o crescimento das árvores e se a luz solar predomina no local. Evite plantar próximo de estruturas como muros, fiações elétricas ou tubulações de água e esgoto, fatores que podem atrapalhar o desenvolvimento das árvores. Respeite também a distância de aproximadamente 3 metros entre uma muda e outra.

Em relação ao solo, é necessário que a cova para plantio tenha entre 40 a 60 centímetros de profundidade e largura, respectivamente. Além disso, é recomendável que a terra retirada para o procedimento seja misturada com adubo orgânico ou composto.

A irrigação, que consiste na técnica de fornecer água às plantas, é fundamental para o desenvolvimento das espécies. Nas primeiras semanas, irrigar as mudas é essencial para o enraizamento das mudas, além de garantir a sobrevivência da espécie. Nos períodos de estiagem, manter as mudas hidratadas é crucial para que ela possa ter um crescimento de qualidade.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Áreas rurais

O plantio de mudas em áreas agrícolas ou rurais geralmente envolve um maior planejamento e cuidados mais específicos para a sobrevivência e bom desenvolvimento das plantas. Clima, solo e recursos disponíveis são fatores avaliados antes do início das mudas.

O local, como de praxe, é o primeiro fator que precisa ser observado. Para o plantio correto, é necessário que o espaço esteja limpo, livre de matos ou gramas e adequado para a distância de 3 a 6 metros entre uma muda e outra, dependendo da espécie.

Plantio na região rural de Taquaruçu Grande, em Tocantins
Plantio na região rural de Taquaruçu Grande, em Tocantins. Foto: Ruraltins/Governo do Tocantins

Dependendo do local, as condições do solo precisam ser analisadas antes do plantio. Uma das medidas recomendadas é o estudo da fertilidade do solo e promover as devidas correções de nutrientes, como aplicação de calcário e adubos para eliminar riscos de espécies não se adaptarem.

O período chuvoso é a época ideal para o plantio das árvores. Isso se deve a combinação de alguns fatores: a umidade natural do solo, nutrição, drenagem e temperatura do solo durante as chuvas contribuem decisivamente no desenvolvimento mais rápido e saudável das mudas.

Uma dica importante também é a proteção das mudas, com a utilização de cercas ou protetores para evitar danos causados por animais e vândalos. Preencher o entorno da muda com matérias orgânicas como folhas ou capim também protege o solo de enxurradas e evita o crescimento de ervas daninhas.

Áreas florestais

O plantio de mudas em áreas florestais é ideal para projetos de reflorestamento ou recuperação de áreas degradadas. A exemplo dos espaços urbanos e rurais, é fundamental priorizar espécies nativas da região, já adaptadas ao clima e ao solo, bem como o plantio no período chuvoso para facilitar o estabelecimento e a irrigação das mudas.

Outra importante medida é o monitoramento das espécies, pois a observação das folhas, o desenvolvimento dos caules, ajudam na identificação de possíveis pragas ou doenças durante o crescimento das mudas. Esse acompanhamento nos primeiros anos é essencial para garantir o sucesso da recuperação ambiental.

Plantio de mudas em área de reflorestamento em Rondônia.
Plantio de mudas em área de reflorestamento em Rondônia. Foto: SOS Amazônia

Cuidados gerais

Independentemente do ambiente, o plantio de mudas envolve alguns cuidados básicos:

  • Escolher mudas saudáveis, com folhas verdes e sem manchas, caules firmes, raízes bem formadas e sem pragas;
  • Abrir uma cova maior que o torrão da muda;
  • Na hora do plantio, o colo da planta (ou base do tronco) deve estar no nível do solo;
  • A irrigação nos primeiros meses é essencial, com aumento de frequência nos períodos secos;
  • Usar estacas de madeira (tutores) para manter a muda reta e protegê-la de ventos fortes, animais ou pisoteios;
  • Adubação periódica, se necessário.

Consciência Limpa

O Consciência Limpa é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio da Energisa, Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA AC), Governo do Acre e apoio institucional da Organização em Centros de Atendimento (OCA), Secretaria de Estado de Administração do Acre (SEAD AC), Life Show Produções e Eventos, Instituto Descarte Correto, Duque Sustentabilidade e Estácio Unimeta.

Áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono que florestas na Amazônia, mostra estudo

0

Foto: Paulo Bernardino

Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Leia também: Portal Amazônia responde: como funciona o CO₂ na atmosfera?

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).

Leia também: Empresas criam plataforma para mapear créditos de carbono na Amazônia

Áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono que florestas na Amazônia, mostra estudo
Foto: André Dib

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO e CH ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

Carbono nas áreas geram alertas

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.

*O conteúdo foi originalmente publicada pela Agência FAPESP, escrita por Luciana Constantino