Nomes curtos, sonoros e de fácil pronúncia estão entre as preferências das famílias do estado. Foto: divulgação
O nome Ravi foi o mais escolhido pelos pais no Amazonas em 2025. Ao todo, 369 crianças foram registradas com o nome no estado, garantindo a liderança no ranking dos mais registrados nos Cartórios de Registro Civil amazonenses neste ano.
Na sequência aparecem Helena, com 352 registros, e Aurora, com 339, evidenciando a forte presença de nomes curtos, sonoros e de fácil pronúncia entre as preferências das famílias do estado. O ranking também aponta equilíbrio entre tradicionais e tendências contemporâneas, com destaque tanto para nomes bíblicos quanto para escolhas modernas.
O levantamento integra a base do Portal da Transparência do Registro Civil, administrado pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), entidade que congrega os Cartórios de Registro Civil do país e reúne informações sobre nascimentos, casamentos e óbitos registrados em todo o território nacional. A plataforma permite consultas por nomes simples ou compostos, com recortes por estados e municípios, oferecendo um panorama detalhado das tendências regionais.
Além dos líderes, figuram entre os mais registrados no Amazonas:
Arthur (337),
Maria (308),
Heitor (281),
Miguel (277),
Maria Cecília (271),
Gael (268)
e Maria Helena (265).
O ranking estadual também destaca a recorrência de nomes femininos clássicos como Maria, além de nomes compostos e opções bíblicas amplamente difundidas no estado.
Foto: Reprodução/Agência Brasil
“O ranking mostra como as escolhas das famílias acompanham tanto valores afetivos e culturais quanto tendências que se consolidam nacionalmente. Os Cartórios de Registro Civil têm a missão de acolher essas escolhas e transformá-las em identidade, cidadania e segurança jurídica desde os primeiros dias de vida”, afirma David Gomes David, presidente da Associação dos Notários e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg/AM).
10 nomes mais registrados no AM em 2025 (Geral)
Ravi – 369
Helena – 352
Aurora – 339
Arthur – 337
Maria – 308
Heitor – 281
Miguel – 277
Maria Cecília – 271
Gael – 268
Maria Helena – 265
10 nomes mais registrados no AM em 2025 (Masculino)
Ravi – 369
Arthur – 337
Heitor – 281
Miguel – 277
Gael – 268
Noah – 239
Samuel – 227
Theo – 221
Gabriel – 215
Anthony – 199
10 nomes mais registrados no AM em 2025 (Feminino)
Helena – 352
Aurora – 339
Maria – 308
Maria Cecília – 271
Maria Helena – 265
Maitê – 246
Cecília – 206
Eloá – 174
Maria Alice – 170
Alice – 169
Sobre a Anoreg/AM
Criada em 27 de abril de 1999 e sediada em Manaus, a Associação dos Notários e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg/AM) é regida pelo Código Civil e pelas normas aplicáveis à atividade, além de seu Estatuto. É a única entidade com legitimidade reconhecida pelos poderes constituídos para representar os titulares dos serviços notariais e de registro no Amazonas. Atua de forma cooperativa com as Anoregs estaduais, sindicatos das especialidades e outras entidades da classe.
Tartaruga de 200 quilos é devolvida à natureza. Foto: Divulgação/Ibama
Uma tartaruga marinha de aproximadamente 200 quilos voltou à natureza depois de receber tratamento veterinário. O animal foi resgatado em 14 de novembro, em uma prainha de Pracuúba, no interior do Amapá, com um ferimento em uma das nadadeiras.
A soltura aconteceu no dia 18 de dezembro, perto do local do resgate. A equipe percorreu cerca de três horas de viagem a partir de Macapá até chegar ao ponto.
Animal de 200 quilos é devolvida à natureza — Foto: Ibama/Divulgação
O animal é uma fêmea, com 96 centímetros de casco. Ela recebeu atendimento especializado com apoio do Projeto de Caracterização e Monitoramento de Cetáceos (PCMC).
Antes de ser devolvida ao rio, a tartaruga ficou no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas/Ibama), na Zona Norte de Macapá.
Animal de 200 quilos é devolvida à natureza — Foto: Ibama/Divulgação
A ação foi coordenada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e contou com apoio da Estação Ecológica de Maracá-Jipioca e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O Gavião Kyikatejê é um marco histórico no futebol brasileiro. Criado dentro de uma aldeia no sudeste do Pará, o clube tornou-se o primeiro time indígena a competir em torneios profissionais reconhecidos pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Sua trajetória une esporte, cultura e resistência, e simboliza a força de um povo que encontrou nos gramados uma nova forma de expressão e afirmação de identidade.
A equipe representa o povo Gavião Kyikatejê, pertencente ao tronco linguístico Timbira, que vive na Terra Indígena Mãe Maria, localizada entre os municípios de Bom Jesus do Tocantins e Marabá, no interior do Pará. A ideia de formar o time surgiu como um projeto social, com o objetivo de fortalecer a juventude indígena e criar oportunidades dentro da comunidade.
O clube foi fundado oficialmente em 2009, sob a liderança do cacique e ex-jogador de futebol Pepkrakte Jakukrekaperi, conhecido como “Zeca Gaveão”. O projeto nasceu de forma simples, com jogos amistosos entre os jovens da aldeia, mas rapidamente ganhou força e atenção nacional. Pouco tempo depois, o Gavião Kyikatejê se filiou à Federação Paraense de Futebol (FPF) e começou a disputar competições oficiais.
Já em 2014, o Gavião Kyikatejê alcançou um feito inédito: participar da primeira divisão do Campeonato Paraense, tornando-se assim o primeiro clube indígena a competir em um torneio profissional estadual. A conquista foi um marco não apenas para o povo Gavião, mas também para todas as comunidades indígenas do Brasil.
A cultura do povo Gavião Kyikatejê dentro e fora de campo
O futebol, no contexto do Gavião Kyikatejê, é mais do que uma prática esportiva: é uma extensão da cultura e da organização comunitária. Antes das partidas, por exemplo, é comum que os jogadores realizem rituais tradicionais, como pinturas corporais e cantos em língua indígena. Esses elementos reafirmam a ligação entre o esporte e as tradições do povo.
O uniforme do clube também carrega símbolos da cultura Gavião. As cores vermelho e preto representam, respectivamente, a força e a resistência. O escudo traz o desenho de um gavião, animal sagrado e símbolo de coragem.
Além disso, os jogos do time são acompanhados por torcedores da aldeia e das comunidades vizinhas, que levam para as arquibancadas maracás e cantos típicos, transformando os estádios em verdadeiros espaços de celebração cultural.
A presença do Gavião Kyikatejê nos campeonatos também tem um papel educacional. O clube incentiva o estudo e o respeito às tradições, mostrando aos mais jovens que é possível conciliar o esporte com a preservação da identidade indígena. Muitos dos atletas que já vestiram a camisa do time vivem na aldeia e se dividem entre os treinos e as atividades comunitárias, como a caça, o plantio e as assembleias tradicionais.
A direção do Gavião Kyikatejê também adota práticas de gestão inspiradas na coletividade indígena. As decisões importantes são tomadas em conjunto, com participação da comunidade e do cacique. O projeto, além de promover o futebol, estimula o orgulho étnico e reforça o senso de pertencimento dos Kyikatejê.
Desafios e conquistas no futebol profissional
Apesar do simbolismo e da visibilidade, o caminho do Gavião Kyikatejê no futebol profissional não tem sido fácil. O clube enfrenta dificuldades financeiras, desafios logísticos e limitações de infraestrutura. A aldeia Mãe Maria fica a mais de 500 quilômetros de Belém, o que encarece o deslocamento para jogos e compromissos oficiais.
Ainda assim, o Gavião Kyikatejê conquistou respeito dentro do futebol paraense. Entre os anos de 2014 e 2020, o time disputou diversas edições do Campeonato Paraense, enfrentando clubes tradicionais como Remo, Paysandu e Águia de Marabá. Mesmo com orçamentos modestos, conseguiu manter um elenco competitivo e atrair atenção da mídia nacional e internacional.
O clube também se tornou tema de documentários e estudos acadêmicos sobre a relação entre esporte e identidade indígena. Em 2015, o Gavião Kyikatejê foi retratado no curta-metragem “Gavião Kyikatejê Futebol Clube”, que destacou o cotidiano dos jogadores e a importância do projeto para o fortalecimento cultural da aldeia.
Mais do que os resultados em campo, o maior legado do Gavião Kyikatejê é a inspiração. O time mostrou que o futebol pode ser uma ferramenta de integração social, de valorização da diversidade e de reafirmação da presença indígena em espaços onde antes havia pouco reconhecimento.
O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública para suspender o Projeto Amazon Rio, que atua na certificação e venda de créditos de carbono em áreas do município de Manicoré, no Amazonas. Segundo o órgão, parte do território do projeto se sobrepõe a áreas de comunidades tradicionais, sem que tenha havido consulta livre, prévia e informada.
O inquérito conduzido pelo MPF apontou que 13% da área do projeto está sobreposta ao Território de Uso Comum (TUC) de Manicoré. O restante incide sobre áreas utilizadas pelas populações locais para atividades de extrativismo, pesca e caça de subsistência, práticas essenciais para a reprodução cultural, social e econômica dessas comunidades.
Um Território de Uso Comum (TUC) é uma área ocupada por povos e comunidades tradicionais no Amazonas, reconhecida como espaço coletivo de subsistência e reprodução cultural. Nesses territórios, as populações desenvolvem atividades como extrativismo, pesca e caça, fundamentais para sua sobrevivência e identidade social.
Na ação, o MPF solicita que a Justiça determine a paralisação total e imediata de qualquer atividade relacionada ao projeto, incluindo novas validações, auditorias, emissões, transferências ou vendas de créditos de carbono. O pedido é direcionado à Empresa Brasileira de Conservação de Florestas (EBCF) e outras entidades envolvidas. Confira abaixo:
Certificadora internacional Verra
Co2x Conservação de Florestas
Renascer Desenvolvimento Humano
HDOM Consultoria Ambiental
Embora a EBCF afirme ter realizado reuniões com as comunidades, o MPF destaca que os encontros foram pontuais e não respeitaram os modos de vida locais.
Sitio habitado há mais de 50 anos na região do rio Manicoré. Foto: Jolemia Chagas
“Fazer uma reunião de algumas horas nas quais informações são despejadas nas comunidades, muitas vezes formadas por pessoas sem conhecimento formal, não caracteriza consulta nos moldes da Convenção nº 169 da OIT”, afirma o órgão.
O MPF pede que as empresas sejam condenadas solidariamente ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 10 mil para cada comunidade afetada. Além disso, solicita indenização por danos materiais equivalente ao valor total da venda dos créditos de carbono, estimado em US$ 430 mil (cerca de R$ 2,2 milhões).
O órgão também requer a declaração de nulidade de todos os créditos de carbono gerados pelo Projeto Amazon Rio e que a certificadora Verra seja obrigada a cancelar as certificações já emitidas.
Vespasiano morreu aos 32 anos e deixou um único livro. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
João Alfredo de Mendonça era um jornalista proeminente da região. Apesar de haver outros redatores no modesto jornal “O Município”, ele se destacava pelo trabalho meticuloso e o faro de repórter à moda antiga, caracterizado por um estilo descritivo repleto de adjetivos.
Seu breve período de residência em Porto Velho ocorreu antes da era do rádio no Brasil, iniciada em 1923, no Rio de Janeiro. Naquela época, toda a comunicação social acontecia através das páginas impressas em tipografia e nas telas silenciosas dos cinemas.
“Cantores” e “trovadores” – como também eram chamados os poetas – declamavam em bares e cineteatros; quando possível, publicavam na imprensa, um estágio anterior à publicação em livros. Foi numa dessas “cantorias” que Mendonça conheceu Vespasiano Ramos, em 1914, em Belém.
Quando se conheceram, a fama do poeta já era grande na cidade. “A voz melodiosa e gemente, a voz de sofredor, de caminhante do infinito”, assim o “cantor” Vespasiano Ramos foi descrito pela crítica de “O Estado do Pará”, após uma apresentação repleta de “bravos!” em novembro de 1912.
Mendonça e Vespasiano fundaram juntos a Associação de Belas Letras de Belém. O poeta já havia trabalhado com o jornalista na “Folha da Noite”, importante matutino do Pará, onde também promoviam conferências, tertúlias e saraus, como o Festival de Poesias no Teatro da Paz. Ali, Vespasiano conviveu com Humberto de Campos e Maranhão Sobrinho, maranhenses, e com Mendonça, paraense de Abaeté, grandes nomes da literatura.
O jornalista João Alfredo de Mendonça passou por muitos percalços nesse meio tempo. Chegou a ser julgado por homicídio em 1913 e 1914. O tempo passou. Em 1916, aportou em Porto Velho o poeta já reconhecido no Maranhão, Piauí, Pará e Amazonas: Joaquim Vespasiano Ramos, Vespa para os amigos.
Vitrines para os bardos, todos os jornais que se prezavam reservavam espaços para essa vertente literária, considerada maior que crônicas, novelas e contos. Trovadores eram artistas, enquanto os demais eram “polemistas” remunerados e partidários. Vespasiano Ramos era o “Poeta do Amor”, um parnasiano sentimental e lírico, sempre envolto em reflexões apaixonadas e sensuais, como em “Cruel”:
“Se o desejo que eu tenho ela tivesse,/ Se os meus sonhos de amor ela sonhasse,/ Aos meus fogos talvez não se opusesse” (…).
Em 2016, ato da Academia Rondoniense de Letras em homenagem a Vespasiamo Ramos, no centenário de sua morte. Jazigo do poeta no Cemitério dos Inocentes foi revitalizado pela ARL. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
Vespa veio para os confins da Amazônia – Porto Velho tinha apenas dois anos como cidade constituída – fugindo de um amor não correspondido. Decidiu, para manter-se longe da boemia e da amada, embrenhar-se no seringal do ricaço Aureliano Borges do Carmo, um amigo que conhecera no Pará e que vivia em Papagaios, atual cidade de Ariquemes. O poeta pretendia trabalhar como guarda-livros [como se chamavam os contabilistas na época] de Aureliano.
O próprio João Mendonça relatou: “Chegara o poeta a Porto Velho no dia 3 de novembro de 1916, a bordo do ‘Andresen’, navio pertencente à frota mercante de Manaus, onde Vespasiano tomara passagem na gaiola, com destino ao seringal de propriedade do seu amigo coronel Aureliano Borges do Carmo”.
Ainda a bordo, o poeta mandou um bilhete e um presente, portador de ambos o contínuo Rufino, que fora buscar a correspondência oficial da prefeitura, trazida pelo agente do posto embarcado. No bilhete, escrito a lápis, Vespasiano pedia que o amigo Mendonça fosse ao navio, onde o aguardava “com uma cervejinha gelada, desejando um bom dia e outros singelos gracejos que caracterizavam o poeta”, contou Mendonça ao receber a mensagem.
Foi com a ideia de escrever o livro “Poema da Amazônia” que Vespasiano Ramos deixou o Rio de Janeiro e regressou a Belém, de onde rumou para o Madeira, em busca do seringal, que lhe oferecia refúgio propício e ambiente espiritual para tentar o empreendimento que constituía o seu grande sonho.
Vespasiano tinha 32 anos e havia acabado de lançar no Rio de Janeiro, entre convivas da clássica Confeitaria Colombo frequentada por imortais da Academia Brasileira de Letras, o livro “Cousa Alguma”, sua única obra reunida. Muito antes, ainda adolescente, já publicava trabalhos nos jornais de sua terra natal, Caxias, “a cidade dos poetas” que também deu ao mundo Gonçalves Dias e Coelho Neto.
Em 15 de novembro de 1916, o jornal “O Município” publicou o poema “Ave, França”. Um mês depois, Vespasiano começou a dar mostras da sua fragilidade. O médico Joaquim Tanajura foi chamado e o diagnosticou com tuberculose. Também o assistiu, com a mesma opinião, o veterano médico Carlos Grey, que vindo de Manaus – onde clinicava desde o século anterior – passou uma temporada em Porto Velho.
O amigo jornalista quis levar o doente para sua casa, mas ele recusou, preferindo permanecer hospedado na redação do próprio jornal. Vespa viveu apenas algumas semanas em Porto Velho. É reconhecido como “O precursor das letras” e símbolo de Rondônia no Mapa Brasileiro de Literatura desenvolvido em 2017 pela revista Super Interessante, pois foi o primeiro a emergir após a criação da atual capital rondoniense.
Na verdade, Vespasiano chegou a estas paragens já doente, sofrendo de cirrose, mas ainda assim não dispensava um trago. Quando Mendonça foi tomar uma cerveja com o amigo ao entardecer às margens do Rio Madeira, percebeu que Vespa estava “muito pálido e trêmulo”. No dia 22 de dezembro, enquanto Mendonça preparava a edição especial de Natal, perguntou ao poeta:
– “Vespa, queres escrever uns versos para “O Município?”.
“Pedindo umas folhas de papel de impressão e um lápis, sentado na rede armada a um canto da sala, perto dos caixotins onde o tipógrafo Durval Lopes, com o componedor em punho, formava os paquêts, Vespasiano Ramos, sob a ardência de uma febre de quase quarenta graus, escreveu de um ímpeto, sem emendas, formosos versos que refletem todo o misticismo de sua alma simples e cheia de bondade e ternura”, registrou João Alfredo de Mendonça.
Vespasiano morreu aos 32 anos e deixou um único livro. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
“Prece para as criancinhas” foi o último soneto escrito por Vespasiano Ramos, sob febre ardente, quatro dias antes de sua morte. Curiosamente, no poema de cunho religioso, Vespasiano fala, na terceira estrofe, da Primeira Guerra Mundial (1914/1918). Incomum, como seria qualquer outra questão social abordada em sua obra: “Suave Jesus! Além, do outro lado,/ Rugem canhões plantando a guerra:/ Rios de sangue se têm formado/ Sobre a planície triste da Terra”.
No dia 23, embora contra sua vontade, ele foi levado para a casa de João Alfredo. Ainda assim, pôde ler seu poema estampado na capa do jornal. O Natal era a celebração que mais acalentava seu coração, e ele a viveu pela última vez, expurgando todos os pecados.
Anêmico e entregue à luxúria, assim estava Vespasiano à beira da morte. Pediu ao amigo que enviasse uma mensagem telegráfica à sua mãe, em sua terra natal, Caxias (MA), desejando-lhe um feliz 1917. Pereceu logo depois. Atestado de óbito: malária, agravada pela possível desnutrição, cirrose e tuberculose. Morreu na casa do diretor do jornal. Sua vida se esvaiu poeticamente às duas da tarde de uma chuvosa terça-feira pós-natal. Com uma vela na mão, exaltava seu catolicismo, talvez buscando um lenitivo ou uma indulgência para os excessos da carne que o conduziram prematuramente ao além.
A chama trêmula da vela refletia não só sua fé, mas também a fragilidade da vida, que, mesmo em seus momentos finais, é marcada por uma busca incessante por redenção e paz. Ele estava nos braços do velho amigo quando pronunciou suas últimas palavras: “Minha mãe, minha mãe! Muito obrigado! Adeus!”.
Diante da cena, Mendonça lembrou de uma trova singela: “Não há tristeza, no mundo / Que se compare à tristeza / Dos olhos de um moribundo/ Fitando uma vela acesa”. Chamaram o médico, Dr. Joaquim Augusto Tanajura, prefeito eleito prestes a tomar posse. Vespasiano foi levado para o recém-inaugurado Cemitério dos Inocentes.
Desceu à sepultura no alto do terreno. Seu poema mais famoso, “Ao Cristo”, foi colocado na lápide do túmulo e é frequentemente editado [sem autorização] com trechos, palavras e pontuações ausentes. Aqui o publico em sua forma original, tal qual o quis Vespa:
Ó Sombra… Ó essência… Ó espírito… Ó bondade! Soberano senhor dos soberanos. Esperança dos míseros humanos. Jesus – Misericórdia e Caridade!
Cristo-Amor… Cristo-Luz. Cristo-Piedade! Divino apagador dos desenganos. Ó, tu que foste há quase dois mil anos, Sacrificado pela Humanidade.
Prometeste voltar! Não voltes, Cristo! Serás preso, de novo, às horas mudas, Depois de novos e divinos atos.
Porque, na Terra, deu-se apenas isto: – Multiplicou-se o número de Judas. E vai crescendo a prole de Pilatos!…
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
O documento coloca o estado de Roraima em evidência como um dos principais destinos para o “birdwatching” no país, unindo conservação ambiental, conhecimento científico e desenvolvimento econômico local.
Turismo de observação de aves de Roraima é destaque em catálogo nacional. Foto: JPavani
O catálogo mapeia 123 iniciativas em todo o território nacional, organizadas por estado, bioma, espécie e unidade de conservação. A região Norte do Brasil abriga a maior floresta tropical do mundo, com um mosaico de paisagens que acolhe mais de 1.400 espécies de aves, muitas delas endêmicas.
Roraima, o estado mais ao norte do país, revela uma face única da Amazônia. Sua avifauna reflete um sistema de paisagens influenciado por variações climáticas e de relevo, onde florestas densas – com cipós e epífitas – dividem espaço com ambientes abertos como savanas, campinas e os icônicos campos de Roraima, com mais de 760 espécies registradas.
O diretor do Departamento de Turismo da Secretaria de Cultura e Turismo de Roraima (Secult), Bruno Muniz de Brito, disse que a atividade vem se desenvolvendo há muitos anos e atualmente verifica-se um aumento na quantidade de profissionais que fazem o avistamento para receber turistas.
Turismo de observação de aves de Roraima é destaque em catálogo nacional. Foto: JPavani
“Nós somos no país uma grande referência em observação e aves, com mais de 600 espécies avistadas em um único dia”, disse o diretor.
Um dos destaques do catálogo é o Parque Nacional do Viruá, reconhecido como Área Importante para a Conservação das Aves (IBA). O ambiente apresenta uma diversidade de ecossistemas formada por uma depressão geológica que alterna paisagens sazonais ao ritmo dos rios.
O parque possui também ambientes como campinaranas, florestas alagáveis e igarapés de águas pretas, que abrigam espécies raras e endêmicas do extremo norte do país. O local detém o recorde brasileiro de observação de aves em um único dia: impressionantes 225 espécies.
Pássaros da região amazônica estão mudando. Foto: Anselmo D’Affonseca/Divulgação
O Brasil, terceiro país com maior diversidade de aves no mundo, é um destino ideal para o birdwatching. Essa atividade, quando praticada de forma responsável, contribui para o combate ao tráfico de fauna, reduz conflitos socioambientais e fortalece o monitoramento participativo de espécies.
O novo catálogo organiza e dá visibilidade a esse segmento em expansão, tanto no mercado nacional quanto internacional, posicionando o ecoturismo como ferramenta de desenvolvimento sustentável.
Você pode acessar o Catálogo de Experiências de Turismo de Observação de Aves abaixo:
Foi somente agora, com a união de Babawru Akuntsú, de aproximadamente 42 anos, e um indígena do povo Kanoé, também morador da Terra Indígena Rio Omerê, que o nascimento de uma criança se tornou possível. Foto: Divulgação/Funai
Após três décadas sem registrar nenhum nascimento, o povo Akuntsú, considerado um dos menores povos indígenas do Brasil e sobrevivente de massacres e expulsões na região do rio Corumbiara (RO), celebrou no dia 8 de dezembro a chegada de um bebê. O marco ocorre após anos de perdas que reduziram a etnia a apenas três mulheres.
Os Akuntsú sofreram uma drástica redução populacional em razão de massacres e disputas de terra. Vestígios encontrados pela Funai indicam que, nos anos 1980, uma aldeia com cerca de 30 pessoas foi destruída. No primeiro contato oficial, em 1995, restavam apenas sete indígenas.
Com o passar dos anos, mortes e acidentes diminuíram ainda mais o grupo. Em 2009, eram cinco pessoas. Após as mortes de Kunibu e Popak, sobraram apenas três mulheres: Pugapia, Aiga e Babawru. As relações de parentesco entre os sobreviventes impediram a reprodução, e a resistência em buscar relações com outros povos indígenas dificultou ainda mais a possibilidade de novos nascimentos.
Foi somente agora, com a união de Babawru Akuntsú, de aproximadamente 42 anos, e um indígena do povo Kanoé, também morador da Terra Indígena Rio Omerê, que o nascimento de uma criança se tornou possível. Apesar de pertencerem a etnias diferentes, Akuntsú e Kanoé são os únicos povos que mantêm contato diário na região.
Foto: Divulgação/Funai
O parto de foi acompanhado por equipes de saúde indígena, com apoio médico em Vilhena (RO), respeitando os costumes e garantindo a segurança da mãe e da criança.
Para a Funai, a chegada do bebê é um marco simbólico e prático. “A vinda dessa criança Akuntsú soma mais incentivos e estímulos para a continuidade das ações com eles”, afirmou o órgão.
Desde o primeiro contato, há 30 anos, equipes da Funai permanecem junto aos Akuntsú e Kanoé, promovendo a proteção territorial, assegurando direitos e preservando hábitos e costumes tradicionais.
Para as últimas três mulheres Akuntsú, o bebê representa esperança. “O nascimento dessa criança traz novas expectativas de vida e renasce a esperança de continuidade do povo”, destacou a Funai.
O grupo mantém o uso exclusivo de sua própria língua e preserva práticas culturais como cerâmica, adornos corporais, instrumentos musicais e formas próprias de organização social. Nenhuma das mulheres fala português.
Presépios e árvores de natal confeccionados com matéria-prima amazônica, recolhida de forma sustentável dos rios e florestas, são uma alternativa de presente e de decoração das boas festas em Óbidos, no Pará.
Sob a assinatura de mulheres da comunidade Sucuriju, no km 06 da Estrada do Curumu, o artesanato agroecológico é uma atividade, apoiada de forma direta pelo Governo do Pará, por meio do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater).
O objetivo é a diversificação de trabalho e renda às tradições de cultivo e beneficiamento de mandioca e de pesca artesanal de espécies como dourada e sarda no Lago do Suricuju e no Rio Amazonas.
O grupo “Natureza em Mãos Mágicas” reúne 12 famílias que utilizam pau, pedra, semente, galho e folha de variedades de açaí e capim-rosário (planta conhecida como “lágrimas de Nossa Senhora”), entre outros elementos da natureza, para compor peças exclusivas de motivo e estética campesinos.
Árvores de natal, por exemplo, podem ser a palmeira de bacaba esqueletizada e os presépios exibem passarinhos da fauna típica, tais quais bem-te-vi rajado e iraúna-grande.
Foto: Divulgação/ Agência Pará
Os itens são comercializados sem atravessadores em feiras temáticas no município. A última edição do ano foi no dia 23.
Para a chefe do escritório local da Emater em Óbidos, a assistente social Clélia Helena Guerreiro, especialista em Filosofia, o papel da Emater integraliza a cadeia produtiva:
“Participamos de todo o processo: o acompanhamento da Emater é científico, sociocultural, financeiro – o que ampara todos os agentes e todas as etapas, das origens ao consumo. No significado da Emater, a produção não é o fato em si, esporádico, mas o serviço continuado, histórico e consolidado. Nós nos preocupamos, além disso, em apoiar essas famílias na gestão dos negócios, no que diz respeito à aplicação dos recursos, à contabilidade e à visão de futuro”, resume.
Foto: Divulgação/ Agência Pará
A questão do gênero, ainda, exige políticas públicas e abordagem particularizadas, conforme a Gestora: “Até nossa convivência no dia a dia, na rotina, embora informal, não deixa de ser oficial: ali, reforçamos informações importantes, de direitos femininos e feministas, e fortalecemos o propósito de autonomia, empoderamento e independência econômica e intelectual”, sublinha a chefe do escritório local da Emater em Óbidos
Foto: Divulgação/ Agência Pará
Incentivo
De novembro a dezembro, cinco mulheres do grupo de Óbidos, consideradas em situação de pobreza, receberam, via Emater, recurso no valor de R$ 4 mil e 600, em duas parcelas, do Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais (Fomento Rural).
Uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), o Fomento Rural patrocina empreendimentos da agricultura familiar, sem que os beneficiários precisem pagar nada de volta.
Foto: Divulgação/Emater PA
Com o dinheiro, as artesãs de Óbidos adquiriram insumos, e também estão investindo na construção de um ateliê e loja dentro da Comunidade, em substituição ao espaço atual, um barracão de madeira e palha, de 25 m².
O projeto do novo espaço, em um terreno doado em óbidos de cerca de 300 m², mantém um diferencial já existente no barracão: uma área kids, onde, nas férias ou nos turnos fora do período escolar, os filhos crianças descansam, brincam e até fazem o próprio artesanato, supervisionados pelos pais e pelos especialistas da Emater. Os produtos de autoria infantil também se encontram disponíveis para venda.
Chico Mendes foi morto há 37 anos por fazendeiros no interior do Acre. Foto: Reprodução
Símbolo da luta ambientalista e patrono do meio ambiente, Chico Mendes foi assassinado com um tiro de escopeta há exatos 37 anos, mais precisamente em 22 de dezembro de 1988, enquanto tomava banho nos fundos de casa. Nos dias que se seguiram à morte de Chico, houve comoção mundial.
Conhecido internacionalmente, seu legado é mantido pelos filhos por meio do Comitê Chico Mendes, além de instituições, avenidas e parques que levam o nome dele, tais como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Via Chico Mendes e o Parque Ambiental Chico Mendes, estes dois últimos em Rio Branco.
Por toda sua atuação, o ambientalista inspirou diversos filmes que relembram a luta e a mensagem de resistência do líder seringueiro que ultrapassa gerações:
1. “The Burning Season / Amazônia em Chamas” (1994)
Estrelado pelo ator porto-riquenho Raul Julia, o filme ‘The Burning Season’ é a obra mais conhecida sobre o ativista, retratando sua trajetória, a luta contra o desmatamento no Acre e os conflitos que levaram ao seu assassinato.
Dirigido por John Frankenheimer, o filme para TV foi nomeado a quatro categorias do Globo de Ouro e venceu três, sendo melhor minissérie ou telefilme, melhor ator em minissérie ou telefilme e melhor ator coadjuvante em televisão.
Produção brasileira feita pouco tempo após sua morte, o documentário reconstitui sua história e o impacto político e ambiental da sua atuação, com forte tom de denúncia.
Com registros feitos entre 1985 e 1988, o longa dirigido por Adrian Cowell acompanha a criação da Aliança dos Povos da Floresta e a luta dos seringueiros pela demarcação de Reservas Extrativistas na Amazônia.
3. “Chico Mendes – O Preço da Floresta” (2010)
Dirigido por Rodrigo Astiz, o documentário é focado no legado ambiental e social deixado por Mendes e aborda o custo humano da defesa da floresta e a realidade dos seringueiros.
Casa onde viveu e morreu Chico Mendes, em Xapuri (AC). Foto: Melícia Moura/CBN Amazônia Rio Branco
4. “The 11th Hour” / “A 11ª Hora” (2007)
O documentário, criado por Leonardo DiCaprio, discute sobre o estado do meio ambiente e aborda os graves problemas que os sistemas de vida do planeta enfrentam.
Apesar de não ser como os anteriores, o longa cita o ambientalista ao abordar líderes ambientais assassinados por defenderem a natureza.
5. Cowspiracy” (2014)
O documentário dirigido por Kip Andersen e Keegan Kuhn menciona sobre os impactos ambientais da pecuária.
Dentro do contexto, ele é citado como um dos mártires da defesa das florestas, dos povos tradicionais e por se opor à indústria agropecuária e ao desmatamento predatório na Amazônia.
Festa reuniu brincadeiras tradicionais e muita música. Mais de 400 crianças foram beneficiadas. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
Criado há 27 anos, o projeto “Amigos do Papai Noel” levou a magia de Natal para comunidades ribeirinhas de Manaus (AM) e municípios vizinhos. No dia 20 de dezembro várias crianças receberam presentes e celebraram a chegada do Papai Noel, que visitou as comunidades de barco.
O projeto, mantido por doações, tem objetivo de levar alegria a famílias em situação de vulnerabilidade. A festa reuniu brincadeiras tradicionais e muita música. Na primeira comunidade visitada, cerca de 400 crianças ganharam presentes e aproveitaram a presença do bom velhinho.
A viagem dura o dia inteiro e percorre diferentes comunidades ribeirinhas. O resultado é visto nos sorrisos iluminados das crianças, considerados pelos organizadores como o maior presente do Natal amazônico.
“Esse é um presente até pra gente. Estamos aqui pra trazer o sorriso pra criançada”, disse Denise Kasama, coordenadora da iniciativa.