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Geoglifos escondidos na Amazônia são detectados por laser

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Pesquisa brasileira com tecnologia de ponta indica presença humana de mais de 1500 anos na floresta amazônica.

A tecnologia de sensoriamento Lidar permite remover virtualmente a floresta e enxergar detalhes do relevo no solo, inclusive os geoglifos. Imagem: Vinicius Peripato/Inpe

Pesquisas realizadas nas últimas três décadas indicam que o Brasil foi habitado em uma vasta extensão, inclusive na região amazônica, antes da chegada do colonizador português ao país, em 1500. Agora, um artigo publicado na revista Science (6/10), assinado por 230 pesquisadores, especialistas estimam que existam entre 10 mil e 23 mil estruturas que indicam presença humana pré-colombiana no território da floresta.

As conclusões partiram de um mapeamento feito com sensores dotados da tecnologia óptica Lidar (detecção de luz e medida de distância). Acoplado a um drone ou a bordo de um veículo aéreo, o equipamento emite milhares de pulsos laser por segundo e, a cada pulso, calcula uma medida de distância. 

“É quase como uma radiografia”,

explica o geógrafo Vinicius Peripato, estudante de doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e primeiro autor do estudo.

Graças à alta precisão do equipamento, ele e seus colegas conseguiram enxergar o relevo da floresta amazônica por baixo da copa das árvores utilizando processamento de dados.

De cima, em áreas já desmatadas na parte oeste da Amazônia, é possível observar enormes formas geométricas no solo, chamadas de geoglifos. A partir dos anos 2000, os geoglifos passaram a ser vistos por meio de imagens de satélite, tanto por cientistas quanto por amadores, usando a ferramenta Google Earth. “Foi possível identificar centenas dessas estruturas, principalmente no oeste da Amazônia”, conta o biólogo Luiz Aragão, chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe, orientador de Peripato e coordenador do artigo da Science.

Muitas estruturas geométricas ficam ocultas debaixo das copas e aparecem com o desmatamento da floresta. Foto: Diego Lourenço Gurgel

Nos últimos 20 anos, escavações feitas por arqueólogos mostraram que as formas geométricas foram locais de importância religiosa. Sabendo da existência das estruturas, Peripato e seus colegas criaram a hipótese de que outros vestígios de ocupação humana poderiam existir por baixo do dossel da floresta. Começar a procurá-los foi um desafio.

Originalmente, os dados de sensoriamento Lidar visavam estimativas de biomassa, não tinham resolução adequada para observações arqueológicas: “Testes anteriores indicavam a possibilidade de ocorrência dessas estruturas, mas nada preciso”, explica Peripato. Apostando nessa hipótese, o grupo desenvolveu um método para retirar virtualmente a floresta e melhorar aspectos do relevo. “Deu certo, felizmente encontramos 24 estruturas até então desconhecidas”. O equipamento cobriu 5.315 quilômetros quadrados (km²) da Amazônia, o equivalente a 0,08% da floresta.

Animado com a descoberta, o pesquisador desenvolveu um modelo matemático para estimar quantos seriam e onde estariam outros geoglifos similares no território, levando em conta uma série de variáveis ainda desconhecidas. Ele cruzou os dados fornecidos pelo sensor Lidar com informações de outras 937 estruturas arqueológicas já conhecidas e, com esse modelo, calculou que existam pelo menos 10.272 estruturas pré-colombianas ainda não descobertas, podendo chegar até a 23.648 na floresta inteira – um território de 6.700 km². A distribuição de 53 espécies de plantas domesticadas, utilizadas na alimentação, foi mapeada em inventários florestais prévios e poderá servir como indicação da existência das estruturas arqueológicas na imensidão da Amazônia.

Com Lidar e modelo matemático, os pesquisadores calculam que existam entre 10 mil e 24 mil dessas estruturas na Amazônia. Foto: Diego Lourenço Gurgel

“Foi um trabalho que, para ser realizado, exigiu uma equipe multidisciplinar e o uso de uma tecnologia de ponta”, avalia Aragão. A datação dos geoglifos ainda não descobertos foi estimada com base na literatura arqueológica já existente sobre essas estruturas, mas só poderá ser confirmada quando houver um trabalho de escavação e coleta de material para análise.

“É um artigo importante que confirma algo que os arqueólogos dizem há anos: tinha muita gente vivendo na Amazônia no passado”, 

comenta o arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

“Esses povos viviam ali e também modificavam a floresta”, afirma. Os indícios de presença humana na região datam de cerca de 12 mil anos atrás. Para uma parte dos especialistas, a Amazônia é um patrimônio biocultural que sofre influências tanto da própria natureza quanto da população que viveu e ainda vive por ali.

“As modificações feitas na floresta são informações muito valiosas para que possamos entender melhor como é a estrutura de um bioma que foi ocupado por milênios, como é a resiliência naquela área e como ela busca voltar a seu formato original”, comenta Peripato. “Com os processos de mudanças climáticas, compreender como a floresta opera é de extrema relevância.”

Neves diz que boa parte dos geoglifos ainda preservados está em terras de proteção ambiental, de ocupação indígena. “São os indígenas que preservam as estruturas em meio ao avanço do agronegócio e da destruição que está acontecendo na Amazônia”, opina o pesquisador. Para ele, a presença indígena sempre esteve por todo o Brasil, é muito antiga e contribuiu para criar os biomas do país. “Não dá pra separar a história deles da história do Brasil.”

Artigos científicos

PERIPATO, V. et al. More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia. Science. On-line. 06 out. 2023.
LEVIS, C. et al. How People Domesticated Amazonian Forests. Frontiers in Ecology and Evolution. On-line. 17 jan. 2018.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Letícia Naísa

Círio de Nazaré: o material e o imaterial compõe a maior celebração católica do mundo

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A celebração anual ocorre na interação dos fiéis com símbolos imateriais, que simbolizam a sua fé.

A maior celebração católica do mundo ocorre anualmente, em outubro, na capital do Pará. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é uma manifestação religiosa/cultural que reúne dois milhões de pessoas na grande procissão, dando forma a um espetáculo amazônico nas ruas de Belém.

A devoção à Nazinha, em nossa região, data do início do século XVIII, quando Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nazaré às margens do igarapé Murutucu. A história conta que Plácido levou a imagem para casa, mas ela reapareceu no local onde foi encontrada. O fato se repetiu por diversas vezes, até que ali fosse construída uma pequena capela. Atualmente, o local do achado é o endereço da Basílica Santuário de Nazaré, destino de milhares de peregrinos que agradecem a Nossa Senhora pelas graças alcançadas.

Foto: Divulgação/ Círio de Nazaré

O encontro da Santa com o caboclo Plácido é o primeiro relato de interação entre um objeto material e o povo na história do Círio. Desde então, diversas materialidades simbólicas foram incorporadas, expandindo os sentidos que constituem a festa. A imagem da Santa continua sendo o elemento central, mas, além dela, há a corda que os devotos puxam, ligada à berlinda que transporta a imagem – sempre envolta em um manto, trocado a cada ano. 

O cartaz de divulgação é mais um item que faz parte da vivência material do Círio: lançado anualmente em maio e adquirido imediatamente pelos fiéis, que o exibem em suas casas e locais de trabalho, a peça também estampa campanhas publicitárias na mídia e nos espaços públicos da cidade, como na barreira de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) entre os municípios de Ananindeua e Marituba, na Região Metropolitana de Belém.

Quando utilizamos a palavra “sentidos”, torna-se importante reconhecer sua ambiguidade, especialmente em relação ao Círio de Nazaré. O que o Círio significa para cada indivíduo? O que se sente ao participar do Círio e ao se aproximar da imagem de Nossa Senhora? Quem consegue responder a essas perguntas inevitavelmente cita os objetos símbolos da festa como componentes da experiência de devoção vivida coletivamente. Por isso podemos afirmar que o Círio é uma experiência de sentidos e sociabilidades que ocorre por meio da cultura material, ou seja, com as coisas que fazem parte do nosso mundo.

As considerações acima fazem parte da dissertação realizada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCom/UFPA), resultante de pesquisa conduzida entre os anos de 2020 e 2021. O estudo buscou refletir sobre o papel dos objetos materiais na constituição de processos comunicativos do Círio de Nazaré, considerando como esses processos foram adaptados durante a pandemia (período da pesquisa), que levou à suspensão das procissões e dos eventos presenciais nazarenos.

Além de sua natureza material, alguns objetos ganham “vida” durante o Círio. Um exemplo disso é a corda dos promesseiros, que foi utilizada pela primeira vez em 1855 unicamente para tirar a berlinda de um atoleiro em determinado trecho da procissão. Com o passar do tempo, a corda deixou de ser apenas um instrumento técnico para simbolizar sacrifício e aproximação com o sagrado, na metáfora de conexão umbilical entre a Virgem Maria e seus filhos. Durante a pandemia, a corda que não foi às ruas foi uma das ausências profundamente sentidas pelos participantes.

O desejo de ter uma imagem de Nossa Senhora leva à produção de diversos bens de consumo, como o cartaz de divulgação que é comprado, customizado e reproduzido em camisetas, feitas para grupos de amigos e familiares. A circulação econômica é também de ordem afetiva. O ato de colocar o cartaz na porta de casa, por exemplo, mesmo durante a suspensão das procissões, foi uma tradição mantida naquele contexto.

Outro hábito que se manteve durante a pandemia foi o almoço do Círio, reforçando a dimensão social da festa. As famílias que se reuniram para comer junto, fizeram-no em celebração pela vida e em memória de quem não estava mais à mesa. Seja no cenário de saúde desafiador, seja no Círio em que podemos nos abraçar, outubro em Belém é sempre uma oportunidade de encontro com lembranças afetivas e de conexão com as tradições paraenses.

Graças à vacinação em massa contra a covid-19, o Círio de Nazaré voltou ao seu formato completamente presencial desde 2022. Outra vez é tempo de sentir o clima da cidade que se prepara, sem restrições, para festejar a Rainha da Amazônia. E viva Nossa Senhora de Nazaré!

Gabriel da Mota é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-UFPA. Acesse aqui a dissertação que deu origem a este artigo.

*Texto de Gabriel da Mota, originalmente publicado no Jornal Beira do Rio, da UFPA 

Espécies amazônicas invasoras causam prejuízo mundo afora

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Relatório mundial traz exemplos de danos ecológicos, financeiros e à saúde em consequência da disseminação de espécies exóticas de diversos países que invadem outras regiões.

A planta aquática aguapé (Pontederia crassipes) se espraia em lagos e rios com suas folhas flutuantes e belas flores roxas. Nativa das bacias sul-americanas do Amazonas e do rio da Prata, ela acabou com as tilápias ao invadir o lago Victoria, na África, um importante recurso pesqueiro, por impedir a passagem de luz e a oxigenação da água. 

Causadora também de danos à produção de energia e ao suprimento de água, o aguapé é a espécie de planta invasora mais disseminada pelo mundo, encontrada em 74 das regiões examinadas no relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Ipbes), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 4/9. 

“É o resultado de um esforço de quatro anos por mais de três dezenas de autores, inclusive alguns brasileiros”, conta o biólogo Ricardo Pinto Coelho, aposentado como professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e hoje proprietário da empresa RMPC Meio Ambiente Sustentável, único brasileiro no painel de especialistas da Ipbes. “É um documento de auxílio para governos em decisões sobre políticas públicas”.

Aguapé, a espécie mais disseminada pelo planeta, pode causar enormes danos em lagos onde não é nativa. Foto: Nico Vromant

Além de exportar espécies, as Américas também sofrem invasões. “No ambiente aquático, que conheço bem, um exemplo no Brasil é Limnoperna fortunei, o mexilhão-dourado”, afirma Coelho. “Nas águas brasileiras tem causado problemas não só para a aquacultura, mas também no sistema de operação das usinas, onde ficam incrustados nos sistemas de refrigeração”. 

Ele ressalta o caso do microcrustáceo africano Mesocyclops ogunnus, que invadiu os principais reservatórios em toda a bacia do Tietê e do rio Grande. “Ele é o hospedeiro intermediário de uma filariose muito importante, então se uma pessoa com esse parasita se banhar nesses reservatórios, poderá introduzir a doença no Brasil”. 

Outro exemplo destacado no relatório: o mosquito Aedes aegypti, terror da saúde pública, transmite os agentes causadores da dengue, zika e outras doenças. Originário da África, deve ter sido introduzido na América do Sul durante o período colonial, provavelmente de carona com o tráfico de escravizados.

Invasões também podem acontecer, e causar danos, dentro do próprio continente. Coelho conta que uma espécie de piranha da bacia amazônica se disseminou em lagos do rio Doce, na região Sudeste, e causou um fenômeno ecológico chamado de cascata trófica invertida. Como a piranha elimina praticamente toda a fauna de peixes nativa, não resta quem consuma a matéria orgânica produzida pelas algas e o lago se torna verde, um processo de poluição natural que prejudica todo o ecossistema.

Invasores no Brasil: o mosquito africano Aedes aegypti causa doenças e o mexilhão-dourado traz problemas à agricultura e a reservatórios de geração de energia. Fotos: CDC | Santiago Mailhos

O relatório afirma que as atividades humanas causaram a disseminação pelo mundo de mais de 37 mil espécies de plantas, animais e microrganismos, com papel central em 60% das extinções globais. Em 2019, o impacto econômico das espécies invasoras ultrapassou US$ 423 bilhões anuais, cerca de R$ 2 trilhões. 

O levantamento da Ipbes foi realizado por 86 especialistas de 49 países, que trabalharam por quase cinco anos analisando publicações científicas e contribuições de povos indígenas e comunidades locais. Por volta de um terço dos impactos listados foi detectado nas Américas, a maior parte (75%) em ambientes terrestres como florestas e lavouras. 

Um problema é que quase metade dos países não investe em iniciativas para o manejo das invasões biológicas. O estudo preconiza três linhas de defesa: prevenção, erradicação e, em último caso, contenção.

“Espécies exóticas causam prejuízos econômicos, de saúde pública e ecológicos incalculáveis”,

resume Coelho.

Ele alerta para a necessidade de as universidades formarem profissionais capazes de realizar o manejo da flora e da fauna, de modo a evitar ou minimizar esses danos. Na própria Ipbes há oportunidades de trabalho para professores e estudantes, ele avisa.

*Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui, escrito por Maria Guimarães.


Jaraqui e açaí, saúde e riqueza da nossa terra

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Foto: Reprodução/Tv Amazonas

Por Walace SO*

Nossa maior riqueza é nossa cultura e nossa relação com a natureza, o beiradeiro, os quilombolas, os povos tradicionais e ribeirinhos trazem consigo essa comunhão. Resgatar e preservar são de suma importância para nossa região e para o mundo.

Todos os dias assistimos propagandas de maravilhas que precisamos como exemplo o ômega 3, e os principais anúncios sempre propagam que são de peixes das águas geladas do norte da Europa, o mais rico rsrsrsrs. O engraçado que encontramos tanto ou mais ômega 3 no nosso querido jaraqui. E quando ele é combinado com o açaí temos uma potencialização nutricional maravilhosa e deliciosa desses ácidos graxos e outros nutrientes.  

 E poucas pessoas conhecem as pesquisas desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), que são centros de excelência de pesquisas de reconhecimento internacional sobre o ômega3 do nosso jaraqui. Aliás, são os chamados ácidos graxos com ômegas 3, 6 e 9. E só estou falando de dos ácidos graxos que são explorados comercialmente de forma exaustiva e não sabemos que estão aqui em nossos rios e na nossa cultura. Outro exemplo é o açaí, que além do valor nutricional rende por ano mais que soja ou boi no pasto, sem degradar nossa natureza ou nossas florestas.

A nossa tradição cultural nos presenteou com uma riqueza enorme, que se expressa em nossa relação com o meio ambiente, e poderíamos não só desenvolver pesquisas, mas transformar em produtos que nos beneficiariam e com uma proposta de desenvolvimento regional sustentável, mais adequado ao século XXI.

E as perguntas são muitas, por que não organizamos propostas de desenvolvimentos que sejam sustentáveis e com nossas características? Por que não temos laboratórios pesquisando e produzindo essas riquezas aqui e gerando empregos e desenvolvimento? Bora Refletir e mudar.

Para deixar a coluna mais saborosa segue abaixo uma receita de jaraqui com açaí, essa receita é da Feira do Ver o Peso, uma das minhas preferidas: 

Receita do prato de Peixe frito com Açaí  

Ingredientes

 4 postas de peixe (200 gramas cada)

Vinha d’alhos

150 gramas de farinha de trigo

4 colheres de sopa de óleo

1 litro de açaí

Farinha d’água

Preparo

Colocar as postas de peixe de molho no vinha d’alho para pegar sabor.

Retirá-las e secar com papel tolha.

Passar as postas na farinha de trigo, batendo para retirar o excesso.

Fritar as postas em uma frigideira com óleo bem quente.

Saiba como servir peixe frito com açaí corretamente

Colocar o peixe em um prato decorado com folhas de alface, rodelas de tomate e cebola.

O açaí e a farinha d’água serão colocados em recipientes separados.

Molhe o peixe no açaí e na farinha d’água. 

Sobre o autor 

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

E o discurso da COP27 senhor presidente, ficou só no discurso?

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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Walace SO*

Um dos momentos mais marcantes e simbólicos do terceiro mandato do presidente Lula foi seu discurso na COP27 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre mudanças Climáticas) no Egito no final de 2022. Diferente do antecessor, que ignorou completamente essa pauta, antes mesmo dele assumir a presidência foi convidado para o evento onde discursou sobre a Carta da Amazônia – uma agenda comum para a transição climática.

O discurso foi o primeiro do evento, levando assim a esperança de zerar o desmatamento na Amazônia, recuperar a credibilidade e protagonismo do Brasil em relação ao tema que fora perdido (e outros), reivindicar a COP30 em 2025 no Brasil e liderar os nove países que compõe a Amazônia Internacional: Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Guiana Venezuelana, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Lembrando que aproximadamente 60% da Amazônia pertence ao território Brasileiro.

Após o discurso a retomada do protagonismo do Brasil em relação ao tema ficou marcada, novas perspectivas e cobranças foram feitas no discurso para a comunidade internacional, principalmente a Europeia. E alguns efeitos foram imediatos, como o aceno da Alemanha e Dinamarca para a liberação do Fundo Amazônia que estava congelado por causa do governo anterior, que é de suma importância para projetos na região. Nesse momento, acredito mais em Marina Silva, uma seringueira, guerreira e atual ministra do Meio Ambiente e em toda sua história de luta pela nossa região.

Contudo, um imbróglio logo se fez com a perspectiva de exploração de petróleo pelo Brasil na Bacia da Foz do Amazonas. E não é por acaso que o debate está acirrado, quando falamos em Amazonas. Ainda não temos a consciência da importância da região para o planeta e para o próprio país, e tudo que está relacionado a nós é gigantesco. Para o nosso leitor ter uma pequena noção da nossa importância, o Rio Amazonas despeja 200 milhões de litros de água doce no oceano por segundo. O que equivale a 17% do total mundial de água continental e sedimentos em suspensão para todos os oceanos. Já imaginaram o impacto disso?

Em relação ao Brasil, a Costa Amazônica abriga 80% dos manguezais do nosso país, que são responsáveis para a preservação da biodiversidade e sustentabilidade da indústria pesqueira. Os recifes da região são o habitat de mais 90 espécies de peixes que sustentam as economias locais pela costa brasileira. E primordialmente esses ecossistemas ainda são responsáveis em sua contribuição do balanço de gás carbônico, que é de suma importância e responsável por frear o aquecimento global.

A desculpa de progresso e desenvolvimento, é só uma desculpa, esquecendo o debate e a necessidade de um novo projeto real de desenvolvimento sustentável para a região, que leve em consideração nossas características, potencialidades, nosso povo ribeirinho, quilombola, povos originários, nossa cultura e toda nossa riqueza. E temos trágicos exemplos de exploração que não trouxeram riquezas apesar de suas promessas, o que sobrou para nossa região? Vamos lembrar de Serra Pelada e as mais de 40 mil toneladas de ouro retiradas de lá, quem enriqueceu? A Companhia Vale do Rio Doce que recebeu uma indenização de 59 milhões de reais, por deter os direitos de exploração. Qual foi a sua herança? Para a região, nenhuma que boa herança. Quais os efeitos ambientais e sociais para a região? Catástrofe ambiental, pobreza na região com total esquecimento e desigualdade social.

A nossa riqueza está em alternativas de arranjos produtivos sustentáveis devidamente ligados ao século XXI, e não exploratórios antiquados. Alinhados ao respeito da a nossa cultura ribeirinha, quilombola, dos povos originários, da floresta e de todos nós da região e do planeta. Se o discurso do presidente foi verdadeiro, se o papel brasileiro de liderança dos países da Pan Amazônia será nosso, devemos seguir os exemplos do povo e dos governos da Colômbia e Equador, que já se recusaram a exploração de petróleo na Amazônia.

Devemos lembrar que temos capital humano e podemos nos associar com o capital humano internacional, além de reivindicar que a comunidade internacional participe na manutenção. Pois, os países desenvolvidos têm suas responsabilidades históricas da exploração das Américas e da África, muito foi retirado daqui e nada nos foi dado em troca nem monetariamente, nem em respeito ou solidariedade. E estamos chegando ao ponto do não retorno, depois não haverá volta e todos seremos responsáveis. Talvez a ambição dos políticos junto a determinados grupos e nosso silêncio como cidadãos seja julgado como os maiores cúmplices do que está por vir.

Nós somos a Amazônia, ela é nossa e somos responsáveis por ela, temos que assumir essa posição de protagonistas, debater, reivindicar e lutar por ela. E não esqueçamos nosso poeta Thiago de Mello, “quem sabe onde quer chegar escolhe o caminho certo e o jeito de caminhar”. BORA REFLETIR meu povo

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Mineirinho, venha tomar um açaí e tacacá na Amazônia

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Foto: Cristino Martins/Agência Pará

Por Walace SO*

Buenas, na coluna passada sugeri uma reflexão sobre a nossa riqueza amazônica e o desconhecimento que o Brasil tem sobre a nossa Região Norte. E não demorou a termos uma triste demonstração de preconceito, intolerância e xenofobia escancarada nos jornais contra nós e o Nordeste. Velhos políticos e politicagens, já tradicionais da história brasileira deram essa demonstração mais uma vez com as falas do governador Romeu Zema de Minas Gerais.

E basta uma leitura da coluna passada para percebermos a importância que temos para o Brasil e para o planeta. O governador, que se diz representante de uma nova política, age como os antigos coronéis da época da República do café com leite, dos tempos que as oligarquias paulistas e mineiras se revezavam e dominavam o país, marcada pela corrupção (aliás, corriqueira em nossa história) aliada ao voto de cabresto e fraudes eleitorais que caiu com a Revolução de 1930.

É interessante analisarmos esse movimento, com dois pontos a serem observados. O primeiro partindo de um movimento contra a Reforma Tributária do atual mandato que estava engavetado. Ressaltando que a Zona Franca de Manaus correu sérios riscos nas mãos da política econômica do gerente do “posto Ipiranga”, no superministério de Paulo Guedes, que trabalhou mais para ele e para a elite financeira do que para o país.

A reforma tributária passou claro que com alterações, ela ainda terá que ser avaliada. E dada à complexidade da tributação brasileira em todos os aspectos e sentidos, esperamos que ela seja um avanço pela necessidade que temos sobre o tema. As regras da tributação devem ser simples e claras para seu devido funcionamento do Estado, para o bem de todos. Claro que temos problemas com excesso de arrecadação, contudo creio é gestão adequada é o que mostra a eficiência do imposto e não somente sua cobrança. A burocracia permite a corrupção e o fisiologismo visto no orçamento secreto.

Segundo, a necessidade de se manter um estado de acirramento e de divisão pós-eleição de 2022, com a manutenção da polarização de direita x esquerda. Que é um combustível perigoso socialmente falando. E ela volta a mostrar a pior face do brasileiro, que ficou escancarada desde a eleição de 2018. A face da intolerância com o tempero de preconceitos entre regiões, colocando umas como mais evoluída que outras por sua opção ideológica (ridículo). Somos um país de democracia jovem e de velhas culturas de ditaduras.

E tentando buscar um espaço na linha sucessória da direita radical, o governador Zema, não agiu na tradição mineira de silenciosamente comer pelas tabelas para saborear o mingau quente. Atropelou, buscando um espaço que provavelmente irá dividir com o governador de São Paulo. E ambos assoprando e beijando as mãos do ex-presidente, pois essa é a fatia que lhes interessa. Contudo os estados do Sul e Sudeste esquecem a importância da nossa região para país e o planeta.

Aliás, o descaso com nossa região sempre existiu e nossos próprios políticos é que deveriam ter uma atuação de defesa, investimento em pesquisa, arranjos/processos produtivos e logísticos para o melhorar o nosso desenvolvimento. E sinceramente não vejo o empenho deles de forma satisfatória e adequada ao desenvolvimento produtivo orientado pelas nossas características que o século XXI pede.

Assim, quero deixar claro para os adeptos do velho mascarado de “novo”, como na afirmação do governador de Minas, que não vamos aceitar essa ideia e comparação depreciativa de “vacas gordas e vacas magras”. Pois temos sim produtos e uma cultura maravilhosa, que também representa o Brasil. Não adianta dizer que foi mal compreendido ou que sua fala do foi retirada do “contexto”, ela é bem clara e tem um modus operandis.

Aliás, esse é um movimento comum dessas pessoas e seus discursos. Caro governador, o senhor foi sim preconceituoso e uma pessoa que ocupa um cargo público como o seu deveria ter respeito por todos os estados irmãos de Minas, lembrando que juntos formamos uma só nação. Bora refletir, não importa a região, cada uma dela contribui muito mais que esse movimento arrogante, tosco e mal educado feito contra as regiões Norte e Nordeste. 

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Amazônia, a maior riqueza do planeta

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Foto: Reprodução/Imazon

Por Walace SO*

Nossa saudosa “pimentinha”, a grande cantora Elis Regina costumava cantar uma música chamada “querelas do Brasil”, a música é do século passado e refletia que o Brasil desconhecia o próprio Brasil. E realmente foi um presságio do que vivemos em pleno século XXI. Desconhecemos o Brasil desde a sua invasão portuguesa e o movimento colonialista daquele período e tudo que envolve principalmente a nossa terra, a nossa água, nossa história e enfim a nossa Amazônia.

Espanhóis e portugueses adentraram por essas bandas destruindo e escravizando em busca do Eldorado, a lendária cidade de ouro e pedras preciosas na Amazônia. Era a justificativa que os conquistadores europeus precisavam para continuar seu rastro de destruição, que se estendia do México até a América Latina. O tempo passou, e as Entradas e Bandeiras que trouxeram os bandeirantes com a mesma desculpa do litoral paulista, pelas Gerais, Goiás e outras bandas atrás das lendas de riquezas, com sua ganância e a destruição dos povos originários e suas culturas.

Aliás, em Goiás, Bartolomeu Bueno da Silva aterrorizou as indígenas adornadas de peças de ouro que encontrou lá. E para conseguir que elas indicassem o local do ouro, ele encheu uma cuia de cachaça e ateou fogo nela, ameaçando queimar todas as águas dos rios. Assim nasceu Anhanguera (em tupi, añã’gwea), equivocadamente traduzido como “diabo velho”, ressaltando que a ideia de diabo é uma criação cristã, ela não existe nos povos originários, porém foi adaptada nas narrativas. E dessa forma, os bandeirantes aterrorizavam e escravizaram as etnias que encontravam, e elas cada vez mais se embrenhavam pela floresta, evitando o contato com o homem branco.

Essa introdução apresenta nosso lado europeu ganancioso, egoísta e que naquela época não compreenderia a verdadeira riqueza da nossa Amazônia, que é a nossa floresta, nossa água, a herança da sabedoria dos povos originários e que não podemos separar a Mãe Terra (ou Mãe Água) de seus filhos. Não se justifica, contudo, eram outros tempos. Assim vivemos séculos abandonados em nossa região, muitas vezes protegidos pela distância.

O Reino do Grão-Pará, como era conhecida a região naquele período, tinha sua importância na geopolítica histórica (entre espanhóis e portugueses) e de outros tipos de aventureiros que aqui chagavam com sede de levar tudo que podiam levar da nossa terra. Ainda tivemos outros ciclos como o da borracha que aproveitou os seringais e promoveu riqueza, e um novo tipo de escravidão dos migrantes nos seringais que fugiam do infortúnio da seca no Nordeste e enriqueceram os poderosos.

No século passado, o triste projeto de “integrar para não entregar”, na megalomania da ditadura militar, promoveu o genocídio de várias etnias e trouxeram outra legião de brasileiros produzidos pela desigualdade social, em especial do Sul e Sudeste que sofreram a falta de oportunidade em suas regiões fugindo do êxodo rural e da implacável mecanização que chegava por lá.

E a cultura da derrubada da mata para plantar e construir o progresso era o lema. Infelizmente com o gado e a monocultura como as novas bandeiras, que não são exatamente uma riqueza daqui, novamente não compreenderam a verdadeira riqueza da Amazônia. Nossa terra tem sua alma e peculiaridades, aqui tudo é diferente, aliás não deveria nem ser chamada de nossa terra, careceríamos de chamar de nossa água. Pois, paradoxalmente, somos a terra da água.

Aqui também é a terra da Oxum, de Yara, de Nossa Senhora do Nazaré, do povo ribeirinho das beiradas de nossos rios, somos a terra da água doce. E o Brasil tem 12% de toda água doce do mundo, e a maior parte dela está na Amazônia. Tanto em nossos rios quanto embaixo dela. Pois, o Aquífero de Alter do Chão é um reservatório subterrâneo de água que regula tanto nossos rios, quanto o meio ambiente e clima.

Para que vocês tenham uma ideia da sua importância, se toda a água potável do mundo findasse, o aquífero abasteceria o planeta por cem anos. Equivocamente a já foi considerada como o pulmão do mundo. Não, meus senhores, ela jamais foi o pulmão do mundo. A nossa maior riqueza é a combinação da água e floresta, elas se completam e não existiriam sem essa união.

A relação de ambas é tão profunda e intensa que nossas estações são divididas em duas, no verão da seca e inverno das chuvas. E devemos nos atentar, a escassez de água é uma realidade em todo mundo. Logo ela será o produto mais importante que o ouro, o petróleo ou qualquer outra riqueza, estamos mais perto de um mundo apocalíptico que imaginamos.

E a ciência já mostrou que a floresta está ligada em rede, preservar é de extrema importância para o clima e água daqui e de todo o mundo. Temos um processo conhecido do ciclo hidrológico que é a evapotranspiração, que de maneira simples é a transpiração de toda superfície da terra, onde ela se transforma em vapor a umidade dos rios, das plantas e de tudo gerando novas nuvens que regulam o clima e o novo abastecimento de água, daqui e de boa parte do planeta.

Por isso, devemos resistir contra a barbárie dos últimos quatro anos que se intensificaram pelo incentivo ao garimpo ilegal, a grilagem das reservas indígenas e de terras públicas; do desmatamento e do agronegócio predador (não o sério, porque temos o agro sério), que não entendeu o conceito de sustentabilidade avançando implacavelmente sobre a floresta e todas riquezas que temos aqui.

A ciência e tecnologia tem propostas de sustentabilidade e novas perspectivas para nossa terra, além das tradicionais e predatórias que só destroem e trazem riqueza para poucos. A riqueza da floresta tem que ser para todos, sem questões de ideologias, mas de civilidade. Se não compreendermos a riqueza da relação em rede que a floresta e a água têm, é o nosso Avatar. O cupuaçu está ligado ao açaí, a copaíba, e outras plantas que se ligam rainha da floresta a castanheira e todos estão comungam com a água.

Caso queiram se aprofundar nesse tema, segue um hiperlink sobre a Amazônia 4.0 do professor Carlos Nobre, estudioso sobre a sustentabilidade e novas perspectivas produtivas de nossas riquezas, clique e aumentem seus conhecimentos.

Realmente, não conhecemos o Brasil, muito menos a Amazônia, Elis Regina estava certa.

Deixo também o link de duas músicas, a primeira “querelas do Brasil”, o alerta que falei no primeiro parágrafo e “planeta água” um hino a nossa maior riqueza e símbolo de reflexão:

Agradeço a todos a atenção e “bora refletir” para podermos debater e construir uma sociedade de diálogo e tolerância.

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Duelo da Fronteira: conheça a disputa tradicional entre os bumbás de Guajará-Mirim

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O Festival Folclórico da Pérola do Mamoré, conhecido como “Duelo da Fronteira“, é uma tradição realizada em Guajará-Mirim (RO), criada em 1995. Tornou-se um dos maiores eventos culturais do Estado de Rondônia com a disputa entre os bois bumbás Flor do Campo e Malhadinho. O festival busca apresentar as heranças culturais tanto indígenas quanto caboclas, com danças, músicas e lendas.

O embate entre os bois bumbás tem esses nome, ‘Duelo da Fronteira’, porque a cidade de Guajará-Mirim está separada pelo rio Mamoré da cidade de Guayaramerín, na Bolívia, e ocorre à semelhança do Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas.

Leia também: Saiba quais cidades-gêmeas são encontradas na Amazônia Internacional

O Boi Malhadinho foi criado em 1986 pelo casal Leonilso Muniz de Souza e Edilza Mendes de Souza. A ideia era ajudar na educação de crianças e adolescentes de forma lúdica e suas cores são azul e branco. O Boi Flor do Campo foi criado em 1988 com as cores vermelho e branco e o nome veio do Pará, com sua criadora, a professora Georgina Ramos da Costa.

Na edição do evento em 2016 não houve disputa, pois o cantor e musicista Márcio Paz Menacho, de 45 anos, do boi bumbá Flor do Campo, foi morto com um tiro durante um assalto dois dias antes do festival. Nos anos seguintes, o duelo também não aconteceu, pois os representantes dos bois bumbás alegaram falta de recursos para a realização do festival.

Em 2020, já durante a pandemia, surgiu a ideia de realizar o festival pela primeira vez de forma online. Mas em 2023 o Duelo voltou a acontecer de forma presencial.

QUIZ: Você sabe dizer quais frutas são amazônicas?

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Existem dezenas de frutas super populares na região, mas que, na verdade, nem são originárias da Amazônia.

Frutas doces, cítricas, azedas. São muitos os sabores das frutas brasileiras e as amazônicas então? Existem dezenas de frutas super populares na região, mas que, na verdade, nem são originárias da Amazônia.

Uma fácil: o kiwi, obviamente, é um fruto delicioso, com certa popularidade em todo o Brasil, mas originário do sul da China. O Portal Amazônia reuniu algumas das mais populares e te desafia: será que você consegue acertar todas?

Política de não contato: como o modo de vida de povos indígenas isolados impacta a Amazônia

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O Vale do Javari, no Amazonas, abriga o maior número desses povos no mundo. 

Terra Indígena (TI) Yanomami, no estado de Roraima. Foto: Reprodução/Funai

Conhecer e proteger alguém usando apenas os rastros que deixa pelo caminho – arcos, flechas, artefatos, vestígios de alimentos e itens de acampamentos provisórios. É dessa forma que trabalham indigenistas que se ocupam da defesa de povos em isolamento voluntário, como Bruno Pereira, que esteve à frente da Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e foi morto em junho de 2022, em uma emboscada que também custou a vida do jornalista britânico Dom Phillips, correspondente do ‘The Guardian’. Ambos pagaram o preço por denunciar crimes socioambientais praticados no Amazonas.

Um ano depois de os dois serem assassinados, restam, para muitas pessoas, dúvidas sobre as comunidades que buscavam proteger. Os povos isolados estão em maior número no Brasil do que em qualquer outro local no mundo, na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, onde também vivem outros agrupamentos indígenas, inclusive alguns de recente contato.

O isolamento é, em geral, uma escolha dessas comunidades. Elas preferem manter distância de não indígenas, e até mesmo de outras etnias, por diversas razões. Um dos principais motivos é a recusa em manter uma ponte com o Estado e a existir em conformidade com a lógica do lucro, uma vez que, na maioria das vezes, já foram vítimas dessa situação, tendo experimentado matanças de seus pares. Há possibilidade de ter havido um trauma oriundo de outras vivências, como a de choque com outros povos. Como destaca um livro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Editora da Universidade Federal do Amazonas sobre o assunto, “a existência de grupos indígenas isolados, muitos enxotados de suas terras e em busca de refúgio em lugares de acesso muito difícil, alerta para o ‘terrorismo do desenvolvimento’, pensado em função de interesses externos, fora da Amazônia”.

Suruwahas (Zuruahã), no Amazonas. Foto: Reprodução/Funai

A obra do Cimi, de 2011, ressalta que o isolamento é mais comum na região amazônica por causa de suas características geográficas e ambientais. Contudo, outros locais, como o Cerrado brasileiro, o Gran Chaco, localizado entre o Paraguai e o Sul da Bolívia; e ilhas da Nova Guiné e do Sul da Índia também são lar de povos em isolamento voluntário.

Conforme esclarece o antropólogo Tiago Moreira, do Instituto Socioambiental (ISA), muitos povos deixam o isolamento para sinalizar que estão em apuros diante das ameaças à sua existência e ao seu modo de viver. O pedido de ajuda pode ocorrer mesmo que não seja de maneira explícita, e sim sutil. “Muitas vezes, esses povos têm contato intermitente, esporádico, com outros povos indígenas, por meio dos quais conseguem até ter acesso a instrumentos de metal, como facão, machado”, afirma, em complemento à definição do que são os povos em isolamento voluntário.

O fundador do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), o antropólogo Gilberto Azanha, enfatiza que o número reduzido de rastros e indícios que os povos em isolamento voluntário deixam é proposital e calculado. “O que significa viver escondido? Viver escondido significa deixar pouca pista”, diz ele, que atualmente é conselheiro consultivo do CTI. 

“São várias situações. Cada povo tem uma pequena história, profunda, sobre suas experiências de contato com outros, sejam os outros terríveis, como os agentes da nossa sociedade ocidental, sejam missionários, agentes da especulação imobiliária, madeireiros, e com outros povos indígenas da região, seu entorno. Todos construíram a sua, seja lá por que motivo. A gente só vai especular quando eles decidirem se apresentar e expor a sua história, por que se isolaram, por que passaram a viver escondidos. Isso a gente só pode especular”.

Gilberto Azanha

O povo isolado que vive na TI Massaco, em Rondônia, diz Azanha, é um dos que têm demonstrado curiosidade de ver o que se passa em suas fronteiras. “Eles têm umas saídas, os especialistas costumam falar dos jovens, para observar o que se passa e nisso deixam algumas pistas que o pessoal da Funai acompanha e ativa um sistema de proteção mais eficaz nessas áreas onde têm aparecido, meio de repente”, conta.

Como não há, geralmente, uma comunicação verbal com os povos em isolamento, que poderia permitir maior entendimento sobre a cultura de cada, eles podem ser identificados a partir de seu ponto geográfico. Há nomes como “isolados do Alto Xeruã”, “isolados do Rio Copaca/Uarini” e “isolados do Igarapé Lambança”.

Alguns desses povos, explica Azanha, desenvolvem sofisticação em suas andanças e movimentos, tenho habilidades excepcionais, por exemplo, de caminhar na floresta à noite. Como o intuito é perambular despercebido, um deles até parou de fazer roçados, de abrir clareiras na mata e de construir casas mais permanentes.

Tiago Moreira comenta ainda que, nos anos 80, houve, em Rondônia, ocorrências de povos isolados e de recentes contatos, que acabaram se deparando com pessoas que não pertenciam à sua comunidade e o resultado disso foi um elevado número de mortes. 

“A partir dos anos 80, também foi construída uma política de não contato, principalmente baseada no fato de que as experiências de aproximação eram desastrosas, as pessoas morriam, os grupos passavam por um processo de perda populacional muito grande. Então, a Funai, junto com os antropólogos, indigenistas, se reuniram para decidir o que fazer. Aí, foi indicada essa política de não contato e adotada uma série de protocolos, porque, eventualmente, esse contato teria que ser feito em caso de risco desse grupo [isolado]”,

diz.

Suruwahas (Zuruahã), no Amazonas. Foto: Reprodução/Funai

Rede de proteção 

O órgão que oficialmente faz o acompanhamento e registro dos povos em isolamento voluntário é a Funai. Contudo, outras organizações, como o Instituto Socioambiental (ISA), colaboram com essa função. A autarquia, afirma Tiago Moreira, busca vestígios e tenta manter distância segura desses povos.

“É um trabalho muito minucioso e cuidadoso, porque encontrar os vestígios dessas populações na floresta é uma coisa realmente bastante difícil. E, ao mesmo tempo, não se pode ficar ali dando bobeira, porque pode-se encontrar com esses isolados. Já aconteceu, a gente perdeu um colega da Funai, o Rieli [Franciscato, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau]. Ele estava fazendo uma ação de proteção na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, porque os isolados estavam sendo vistos fora da terra indígena. Tinham aparecido em uma fazenda, uma chácara, algo assim, que fica no limite da terra indígena, e foi para lá, a fim de tentar entender a situação e ver esses vestígios, para saber por onde estavam andando. Acabou sendo flechado por esses isolados. É um trabalho que é feito a distância”, diz o antropólogo, completando que quando a área ainda não é demarcada, há um empenho para, pelo menos, interditar o território, com o objetivo de preservá-la contra invasores e ameaças.

Segundo Moreira, no caso do ISA, o monitoramento é feito com a ajuda de satélites. “Nesse caso, tentando mais monitorar as pressões ao território do que propriamente se os isolados estão ali, porque, pelo satélite, é quase impossível acompanhar a presença deles. Então, a gente faz um monitoramento das ameaças, principalmente do desmatamento”, esclarece.

Para o antropólogo do ISA, os maiores inimigos, atualmente, dos povos em isolamento voluntário são o garimpo e o desmatamento. Além disso, enfrentam o narcotráfico, fazendeiros, caçadores, posseiros, madeireiros e a especulação imobiliária.

Moreira lembra que, no interior da TI Yanomami, há povos com esse perfil: “o que a gente viu nos últimos quatro, cinco anos foi que houve um crescimento do desmatamento em terras indígenas sem precedentes e que boa parte dele foi em terras indígenas com a presença de povos isolados”.

PL 490/2007

Outra entidade que forma a rede de proteção é o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), criado, conforme conta uma de suas integrantes, Luisa Suriani, durante o governo Bolsonaro, como reação ao aumento da vulnerabilidade dos indígenas. Muitas pessoas que fazem parte do observatório, relata ela, deixaram outras atividades com que estavam envolvidas para se dedicar exclusivamente a ele, após a morte de Bruno Pereira e Dom Phillips.

A mestranda em antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) diz que o Projeto de Lei (PL) 490/2007, aprovado no dia 30 de maio, na Câmara dos Deputados por 283 votos contra 155, contém trecho relacionado aos povos em isolamento que preocupa especialistas. O Artigo 29 da proposta, que trata do marco temporal na demarcação de terras indígenas, permite que haja contato com esses povos, “para intermediar ação estatal de utilidade pública”. No último dia 26, o OPI e o Cimi já alertaram para esse aspecto, questionando o contato forçado e denunciando que, em nome de “suposto interesse público”, grandes empreendimentos promoveram verdadeiros massacres, genocídios, como a construção de rodovias, hidrelétricas, projetos de mineração, colonização e agropecuária.

“Isso abala completamente a política do não contato, que é a da Funai. Ou seja, a gente respeita a autonomia dos povos isolados e entende que essa forma de viver é uma forma de recusar o contato direto. O Artigo 29 propõe uma coisa que vai contra a política do não contato, consolidada no Brasil, e impõe um problema muito grave”,

 afirma Luisa.

TI Massaco, no sudoeste do Estado de Rondônia. Foto: Reprodução/Funai

Embora acredite que esteja em curso, pelo governo Lula, o que chama de “desintrusão da Funai”, isto é, a troca de figuras com posição anti-indígena por indígenas e indigenistas com anos de carreira na autarquia, Luisa diz que a recuperação do desmonte, que se estende a limitações de orçamento, ainda provoca inquietude. “As frentes de Proteção Etnoambiental, que são bases da Funai por região e cuidam de registros de povos isolados, sofrem com falta de comida. Daqui a pouco, não vai ter comida para abastecer essas bases. É uma coisa muito elementar”, afirma.

A noção de que poucas pessoas dominam conhecimentos sobre os povos em isolamento voluntário é uma percepção errônea, para a antropóloga. “No fim das contas, os verdadeiros especialistas são os próprios indígenas que compartilham os territórios com eles. Só que, durante muito tempo, a questão dos isolados ficou muito marcada como uma política da Funai. São dados muito sigilosos, até por essa questão de invasão. Então, há dificuldade de se acessar as informações justamente por causa da proteção desses dados. Muitas vezes, cria-se essa nebulosidade de que é algo que poucos sabem. Não, na verdade, quem está no campo, na base, que são os próprios indígenas, sabe disso muito bem. E acho que, dentro da antropologia, agora pensando em algo mais acadêmico, também para uma discussão política, é uma pauta que tem crescido, têm sido ampliado esses estudos mais antropológicos, sociológicos. Mas a expertise de fato é de quem está em campo, que são os próprios indígenas”, defende a pesquisadora, para quem a devida remuneração e contratação dos indígenas que têm proximidade com os isolados deve ser uma prioridade da Funai.

A Agência Brasil procurou a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas, mas não teve retorno até o fechamento desta matéria.

*O conteúdo original é da Agência Brasil, escrita por Letycia Bond