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Em visita ao Amazonas, Lula defende diálogo para obras na BR-319

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Em visita ao Amazonas nesta terça-feira (10), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu o diálogo com autoridades para a execução de obras na BR-319. A rodovia é a única estrada que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO) e ao restante do país.

Lula está no Amazonas desde a noite de segunda-feira (9). No estado, o presidente cumpre agenda em Manaus e outros dois municípios para tratar sobre a seca severa que assola a região.

Durante a primeira parada do roteiro, no município de Manaquiri, Lula defendeu a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Em 2023, durante a Cúpula da Amazônia, ela afirmou que Amazonas é o terceiro estado que mais desmata no país, e atribuiu isso à rodovia.

“É preciso parar com essa história de achar que a companheira Marina não quer construir a BR-319. Essa BR-319 foi construída nos anos 70. Ela foi abandonada por desleixo não sei de quem, ela ficou sem funcionar e hoje a rodovia tem uma parte para cá que funciona, uma parte para lá que funciona, e no meio são 400 quilômetros, que foram inutilizados”, disse Lula durante discurso aos moradores de Manaquiri.

O ponto citado pelo presidente corresponde ao trecho central da BR-319, também conhecido como “trecho do meio”, que há décadas é alvo de debates quanto aos impactos ambientais que podem ser causados caso as obras de pavimentação e o tráfego de veículos ocorram no local.

Ao lado dos senadores Eduardo Braga (MDB) e Omar Aziz (PSD), e do governador do Amazonas Wilson Lima (União), Lula propôs um diálogo entre políticos e ministros para encontrar soluções às questões.

Licenças geram embates

Em 2021, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), concedeu uma licença para a reconstrução do trecho do meio, entre os quilômetros 250 e 656, mas em julho deste ano, uma decisão provisória da 7ª Vara Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Amazonas (SJAM), derrubou a autorização.

A Advocacia-Geral da União (AGU), em nome da União e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), solicitou a suspensão da liminar, afirmando que a decisão da 7ª Vara Ambiental da SJAM interfere indevidamente na competência do Poder Executivo. Os argumentos, no entanto, foram rejeitados pelo desembargador do TRF1.

A realização de obras no trecho central da BR-319 não é consenso dentro do próprio governo federal. Na contramão do posicionamento de Marina, um Grupo de Trabalho (GT) do Ministério dos Transportes concluiu que a pavimentação da área é ambientalmente viável.

A constatação foi feita por especialistas e representantes de órgãos dos governos federal, estaduais e prefeituras da região após mais de seis meses de estudos e audiências com a comunidade no entorno da rodovia.

*Por Juan Gabriel, da Rede Amazônica AM

Luz, câmera, ação! Alunos iniciam aulas de audiovisual do ‘Pipoca em Cena’ em Manaus

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O projeto ‘Pipoca em Cena’, promovido pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), deu início às suas aulas teóricas na Escola Estadual Áurea Pinheiro Braga, localizada na Zona Leste de Manaus (AM). Com o objetivo de estimular a criatividade e o senso ambiental dos jovens, o ‘Pipoca em Cena’ busca conectar os estudantes ao universo do cinema e às questões ambientais que impactam a Amazônia.

Durante a execução do projeto, os alunos têm a oportunidade de conhecer todas as fases da produção audiovisual, desde a criação do roteiro até a edição. Este ano, o projeto ocorre em duas escolas estaduais e é dedicado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, reforçando a importância do compromisso com questões ambientais e sociais.

O gerente de Conteúdos Especiais da FRAM, Anderson Mendes, acompanha o ‘Pipoca em Cena’ desde 2018 e conta que a edição de 2024 é uma das maiores já realizadas: “Nessa nova formatação do projeto a equipe está em campo e, dessa vez, com um número maior de alunos. A melhor parte é que conseguimos acompanhar a jornada desses jovens, que vai desde a criação do roteiro até a exibição do curta-metragem”.

Keylla Gomes e Anderson Mendes ministraram uma oficina de produção audiovisual para os alunos. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Para guiar os estudantes pelos processos do audiovisual, Anderson contou com a ajuda da produtora cultural Keylla Gomes, que já participou do ‘Pipoca em Cena’ no ano de 2022. Segundo Keylla, a turma atual vem surpreendendo pela curiosidade e criatividade. “Eles iniciaram tímidos, mas as ideias de roteiros foram surgindo e conseguimos mais de 10 ideias para curtas-metragens. Com certeza, essa vai ser a melhor edição de todas”, destacou.

Novos ares

Animados, os alunos foram desafiados a criarem roteiros baseados nos ODS. Alguns decidiram se inspirar em lendas da Amazônia, enquanto outros apostaram no humor para levar conscientização. No fim da aula, foram selecionados alguns roteiros para serem produzidos em curta-metragem.

As alunas do primeiro ano do ensino médio, Yasmin Santos e Ligia Barbosa, tiveram o roteiro selecionado. A ideia delas é mostrar a importância de perseverar nos seus sonhos. “O roteiro mostra uma personagem que vai vencer na vida através dos estudos, mesmo vindo de uma origem humilde”, explicou Yasmin.

Para as alunas, a melhor parte é estar por trás das câmeras e conhecer todas as nuances do audiovisual. “Nós assistimos no cinema e na televisão. E vamos ter a oportunidade de saber como funcionam os bastidores”, disse Lígia. 

Mesmo os roteiros não selecionados foram aprovados pela equipe do ‘Pipoca em Cena’. Como por exemplo, a ideia do aluno Luís Fernando, do 2º ano do ensino médio. Ele criou um roteiro sobre um amor impossível que aconteceria na Segunda Guerra Mundial. Devido a limitação de tempo e o local de gravação, a produção não foi escolhida, mas a história agradou.

“Eu gosto muito do universo cinematográfico e achei a oficina de extrema qualidade. Infelizmente, o meu roteiro foi maior do que o previsto pela oficina, mas vou gostar de trabalhar nos curtas-metragens dos meus colegas”, contou o jovem.

Exibição

As oficinas continuarão ao longo da semana, culminando com a exibição dos curtas-metragens produzidos pelos alunos em uma sessão de cinema especial no próximo sábado (14).

Sobre o Pipoca em Cena

A décima edição do Projeto Pipoca em Cena, da Fundação Rede Amazônica (FRAM), tem o apoio institucional da Globo Filmes; Policia Militar do Amazonas; Secretaria de Estado de Educação e Deporto Escolar (SEDUC); e o apoio da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC); Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC) e Governo do Amazonas.

Lula em Manaus: hora de cobrar a conclusão da BR-319

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Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

O auditório da Suframa será sede, nesta terça-feira (10), às 15h30 (horário de Manaus, sujeito a alteração), de uma reunião entre o presidente Lula e prefeitos do Amazonas. Na ocasião, o chefe do Executivo brasileiro irá anunciar medidas de combate à seca na Amazônia.

O evento é uma iniciativa da Presidência da República, por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

O presidente Lula da Silva desembarcou na Base aérea de Manaus na noite desta segunda-feira (09/09). Acompanhado de oito ministros, ele participará de uma reunião para traçar um plano de ação contra os efeitos da seca no Amazonas.

Na comitiva de Lula estão confirmados: Rui Costa, Ministro da Casa Civil; José Múcio, Ministro da Defesa; Silvio Costa Filho, Ministro de Portos e Aeroportos; Wellington Dias, Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; Nísia Trindade, Ministra da Saúde; Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e da Mudança do Clima; Waldez Góes, Ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas.

Os senadores do Amazonas, aliados do presidente Lula, Eduardo Braga (MDB) e Omar Aziz (PSD), acompanham o presidente na agenda, que inclui visitas pela manhã às comunidades de Manaquiri e de Campo Novo, em Uarini. Há previsão que ele visite a região de Tefé, mais prejudicada pela estiagem. Nada mais oportuno do que se oferecerem de intermediários para passar às mãos do chefe do Executivo brasileiro a Carta Aberta divulgada nas redes sociais e mídia pelo engenheiro Marcos Maurício, do CREA-AM.

O documento deixa claro que “quem defende a conservação do meio ambiente deveria defender a repavimentação da Rodovia BR-319, pois assegurará uma maior presença do Estado, com eficácia na fiscalização (comando e controle), na prevenção e no combate aos ilícitos ambientais, e no combate a incêndio. Ocorre que agora a repavimentação dessa rodovia é uma questão de sobrevivência; o Amazonas está sendo massacrado por mais uma seca severa e não teremos alternativas, senão fazer uso do modal rodoviário”.

A Carta tem o seguinte teor:

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE LULA

Assunto: Rodovia BR-319

Senhor Presidente,

Vossa Excelência sabe que a repavimentação da Rodovia BR-319 é, antes de tudo, uma pauta política. Essa rodovia já foi toda asfaltada, por ocasião da inauguração, em março de 1976.

Não é justo impor e manter a população do Amazonas e de Roraima isolada do restante do País, pelo modal rodoviário.

E mais, quem defende a conservação do meio ambiente deveria defender a repavimentação da Rodovia BR-319, pois assegurará uma maior presença do Estado, com eficácia na fiscalização (comando e controle), na prevenção e no combate aos ilícitos ambientais, e no combate a incêndio.

Ocorre que agora a repavimentação dessa rodovia é uma questão de sobrevivência; o Amazonas está sendo massacrado por mais uma seca severa e não teremos alternativas, senão fazer uso do modal rodoviário. Senhor Presidente, pedimos encarecidamente que não subjugues a nossa população e, de igual modo, que a vossa presença em nosso Estado, esperada para os próximos dias, possa ser muito mais do que uma agenda política em tempo de eleição; que seja um ato verdadeiramente em defesa da nossa gente.

Pedimos também, Senhor Presidente, que a sua visita ao Amazonas não se limite aos correligionários e aos aliados de ocasião, mas que possas reservar um tempo para percorrer parte dessa importante rodovia, pelo menos até a Comunidade do Igapó-Açu, que fica no Km 260, já no Trecho do Meio.

Senhor Presidente, procure conversar com as pessoas que moram às margens da BR-319, e veja in loco tamanha dificuldade imposta a nossa população, seja pela dificuldade de trafegabilidade durante o inverno amazônico, em razão das chuvas, seja pela quantidade de poeira, no verão.

Por fim, Senhor Presidente, ressaltamos que precisamos dessa rodovia totalmente repavimentada, e não de migalhas que se limitam a garantir condições mínimas de trafegabilidade, sem resolver o problema.

Que neste 7 de setembro, o Amazonas também possa dar o seu grito de Independência e livrar-se das amarras do isolamento rodoviário que tanto sofrimento impõe a nossa população.

Muito obrigado pela atenção.

Eng. Marcos Mauricio, grupo GT Rodovias CREA-AM
Consignatários: Marcos Maurício Costa, Osíris Silva, Afonso Lins, André Marsílio, Thiago Neto, Dídia Haydée
Soares, Rubens Bentes, Orlando Holanda, Sidney Coelho, Ademar Santos

Manaus-Am, 7 de setembro de 2024.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Criador do tacacá instantâneo faz sucesso no Japão e apresenta vatapá e buriti em pó

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Foto: Hellen Monteiro/Rede Amazônica AC

Tomar um tacacá, dançar, curtir e ficar de boa? Sim, esta é a intenção do pesquisador acreano Daniel Alves Filho, mas agora trazendo também outras novidades. Ele criou, em 2021, o tacacá em pó e agora apresentou, na edição da Expoacre 2024, o vatapá e o buriti em pó, iguaria e fruta típicas da região, e que também promete ser um sucesso.

Leia também: Pesquisador da Ufac desenvolve tacacá em pó para exportação

O acreano, que é doutor em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia, voltou há três meses do Japão, também produziu o tacacá em pó e vendeu no mercado local. A intenção visa, principalmente, atingir públicos que não moram mais no estado, mas que carregam consigo aquele desejo de comer pratos exclusivos da região amazônica.

O pesquisador esclarece que agora produziu novos produtos utilizando a mesma técnica do tacacá. O vatapá também é para ser consumido colocando água, e transformando na receita. Já o buriti é um suplemento desidratado, feito a partir da polpa da fruta, que pode ser consumido em vitaminas, sucos, sobremesas e até em farofas.

Foto: Hellen Monteiro/Rede Amazônica AC

Após a sua chegada, o pesquisador abriu uma empresa brasileira chamada Alimentos Instantâneos da Amazônia (AIA) e pretende ficar no Acre por pelo menos dois anos para conseguir investimentos e elevar seus produtos ao nível de exportação internacional.

Filho contou que voltou ao Acre para produzir seu tacacá em pó e levá-lo já pronto para a exportação, pois percebeu que fazer o produto com os ingredientes locais não estava saindo igual o original.

Doutor Daniel Alves Filho pretende ficar 2 anos no Acre trabalhando com seus produtos para exportação. Foto: Hellen Monteiro/Rede Amazônica AC

“A formulação que foi feita, que eu estava fazendo no Japão, ela é um pouco diferente, porque os ingredientes são da China. Aqui os ingredientes são originais. Então, eu decidi usar só o ingrediente original mesmo, porque o que é feito lá no Japão, ele fica tipo um tacacá genérico, fica uma sopinha bem legal, dá o tremor na boca e tudo, mas não é igual ao original”, explica.

“Não quero mais trabalhar com a fórmula genérica, com os ingredientes chineses. Eu quero trabalhar com o original, porque é bem melhor, é bem mais saboroso. Então é melhor exportar o produto já pronto. Aí tô querendo a ajuda do Sebrae, tô querendo a ajuda da Apex [Agência Nacional Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos], mas só faz três meses que eu cheguei do Japão, então ainda estou começando. Eu montei o laboratório pequeno, mas é necessário dinheiro para investir”, comenta.

O pacote com tacacá custa R$ 20, equivale a uma cuia grande de tacacá e já tem a folha de jambu, tucupi, goma e camarão. O vatapá custa R$ 10 e é uma porção que serve duas pessoas.

Filho tem a ideia de apresentar cada vez mais os produtos amazônicos não só dentro do Brasil, mas para todo o mundo.

*Por Hellen Monteiro, da Rede Amazônica AC

O obituário que eu não queria escrever 

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Foto: Divulgação/SEC AM

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Em 2014, eu ainda buscava me achar no curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas.

Já era um escritor de Fantasia na época, e me decepcionava bastante com o fato de não encontrar nada parecido com Tolkien ou Gaiman ao longo das disciplinas, até que, na matéria de Literatura Amazonense, conheci um conceito diferente, o insólito, que basicamente se trata da estranheza, elemento nativo do reino da Fantasia, mas ocorrendo em situações do cotidiano.

Foi quando li “A Caligrafia de Deus” (1994), um dos contos de um tal de Márcio Souza, que falava sobre o fuzilamento de um golpista vindo de uma comunidade do interior e de uma mulher indígena que decidiu trocar todos os dentes da boca por porcelana e que, de alguma forma, se relacionava com os primórdios do bairro Japiim, em Manaus, e com uma crítica severa ao modelo adotado pela Zona Franca de Manaus. Esse texto absurdo foi o meu primeiro contato com um dos maiores nomes da literatura no Amazonas, graças ao qual escrevi meu primeiro artigo científico e pude participar do meu primeiro evento acadêmico fora do estado.

Mas não seria, claro, meu último contato com Márcio Souza, que alcançou fama nacional com a adaptação de suas obras pela Rede Global, e mesmo internacional, com sua obra traduzida ao redor do mundo.

Então diretor da Biblioteca Pública do Estado, cargo que exerceu até seu falecimento, Márcio aceitou o convite que nós, autores do Coletivo Visagem, fizemos a ele para abrir a programação da II Feira Literária do Amazonas (FLAMA) em 2023, na qual compartilhou parte de sua extensa trajetória literária com a propriedade de quem viu um segmento artístico se formar e participou ativamente de sua progressão.

Foto: Jan Santos/Acervo pessoal

Ouvir Souza falando sobre sua experiência enquanto escritor foi uma verdadeira aula de história compartilhada por todos que estiveram na abertura da FLAMA, como ouvir um gigante falando sobre o início dos tempos, quando a própria estrada para os escritores da região estava ainda a ser pavimentada.

Em sua obra, vemos a construção do estado do Amazonas e da história moderna do Norte do país, seja no épico histórico “Galvez – Imperador do Acre” (1976) – talvez sua obra mais famosa – quanto na ficcionalização da construção da estrada Madeira-Mamoré em “Mad Maria” (1980). Jornalista que era, procurou relatar em seus romances a interseção entre fato e ficção, incorporando a história do estado a uma produção literária potente, imortal.

Nesse sentido, qualquer escritor amazonense deve uma moeda de prata ao túmulo de Márcio Souza por ter mantido abertas as portas destrancadas pelo Clube da Madrugada, pela qual hoje também procuramos passar à História. E não apenas os profissionais da Literatura, mas também os do teatro, que até hoje reencenam peças dramatúrgicas como “O sapo Tarô-Bequê” e a ousada “A Paixão de Ajuricaba”, obra escrita por Souza que celebra um dos maiores exemplos da resistência indígena contra a colonização portuguesa.

Era engraçado conversar com o autor, pois os assuntos mais banais se tornavam um passeio em suas memórias, e inevitável observar como muitas delas se confundiam com o próprio percurso da literatura no Amazonas, relato de quem não estava apenas presente enquanto essa história era escrita, mas escreveu uns parágrafos também, deixando uma contribuição inestimável a quem um dia pretende pegar caneta e papel e se aventurar a narrar o que quer que seja.

Foto: Jan Santos/Acervo pessoal

Seu legado é um desafio para os próximos escritores, afinal, não nos enxergamos parte da história até que o passado se consolide como tal e vejamos nosso papel em sua construção. Será que Márcio se via dessa forma? Será que percebia seu papel enquanto um dos agentes da literatura em um dos estados onde tal arte ainda luta para ser reconhecida? Será que sabia o quanto lamentaríamos sua partida no dia 12 de agosto de 2024, data que entrou para a história local tanto quanto os textos que deixou para a posteridade?

Como todo artista, imagino que ele via a morte não como o ponto final, mas como a culminância de seu trabalho, o momento pelo qual atravessou as portas da História e entrou à companhia de tantos outros, pois é no momento da morte que podemos, verdadeiramente, testar o potencial que o trabalho tem de derrotá-la.

É de fato um desafio trilhar as pegadas gigantes de um nome como Márcio Souza, mas também é a melhor forma de manter esse legado vivo, desafio assumido por qualquer romancista, contista, poeta ou dramaturgista que ouse escrever no Amazonas, pois nossos textos são velas no memorial de tamanho artista.

Que as Musas do rio Negro o inspirem em seu descanso eterno.

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Produção de pimenta em pó é fortalecida por mulheres indígenas no Pará

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Pimenta moqueada em fogão à lenha de cozinha na aldeia Mapuera. Foto: Pilar Saldanha/Iepé

A produção de pimenta em pó – e todas as histórias e práticas que envolvem essa iniciativa – estão sendo mobilizadas e valorizadas pelas mulheres indígenas do Rio Mapuera, que integram a Associação de Mulheres Indígenas do Município de Oriximiná (AMIRMO), no Pará

Voltada para a organização de mutirões e atividades nas aldeias, a AMIRMO foi fundada para engajar as mulheres na produção e venda da pimenta em pó, e também nas suas demais produções de alimentos e artes indígenas.  

A produção da pimenta como uma atividade antiga, desperta o desejo de dedicar a produção para vendas fora da Terra Indígena para geração de renda. Há também o interesse na transmissão de saberes das mulheres mais velhas para as mais novas relacionados à produção voltada ao consumo próprio nas aldeias.

Leia também: Ardosa, picante ou suave: saiba a diferença entre sete pimentas populares na região

Etapa da produção de pimenta. Foto: Pilar Saldanha/Iepé

A forma como se prepara a pimenta, seja moqueada ou desidratada no sol, é uma herança dos antigos e transmitida de geração em geração. Para o preparo e beneficiamento, as mulheres do Mapuera utilizam ainda objetos como a cabaça, colheres de pau e cestarias de arumã, como o tipiti e peneiras tradicionais. Há, por outro lado, atualizações com os processos de contato e introdução de objetos industrializados.

 A Cacica Krewzy Xerew manuseia pimenta recém colhida do quintal na aldeia Bateria. Foto: Pilar Saldanha / Iepé

Encontro para troca de saberes e fortalecimento da organização de mulheres

Em maio deste ano, oficinas da AMIRMO aconteceram nas aldeias Mapuera e Bateria. Além de terem sido espaços importantes para a troca de informações e atualizações sobre as práticas da produção da pimenta, também aconteceram mutirões e reuniões. Tudo foi conduzido pelas mulheres indígenas e marcado por muita participação, mobilização e interesse das mulheres. 

As oficinas e atividades produtivas com a pimenta dão continuidade a iniciativas desenvolvidas pelas mulheres do Mapuera com outros parceiros ao longo dos últimos dez anos e mobilizam dezenas de mulheres, especialmente da própria aldeia. Na região do Rio Mapuera, o plantio e o processamento da pimenta são trabalhos essencialmente femininos, portanto, as atividades trouxeram também a valorização dos conhecimentos das mulheres.

A primeira oficina foi realizada na aldeia Mapuera e contou com mais de 60 mulheres associadas, vindas também de outras comunidades, as aldeias Tamyuru, Kecekerê, Katwaru, Karana e Kwanamari. O principal objetivo foi o compartilhamento de histórias e a feitura de desenhos sobre práticas antigas e atuais no beneficiamento e produção de Pimenta. Houve muita troca de diferentes técnicas, saberes, músicas e danças, entre gerações de mais novas e mais velhas, produtoras de pimenta,  presentes na atividade.

Mulheres visitam o roçado coletivo da AMIRMO, na aldeia Bateria. Foto: Pilar Saldanha/Iepé

Já a segunda oficina se deu na aldeia Bateria com mais de 30 mulheres, moradoras das aldeias Bateria, Pomkuru e Mapuera. Viu-se ali uma outra realidade: havia apenas duas produtoras de pimenta locais, que compartilharam com o grupo seus conhecimentos e técnicas.

O espaço de partilha das demais mulheres foi preenchido com a partilha de outras práticas: a participação das mulheres na coleta de castanha; a produção de mandioca, desde o plantio ao feitio de beiju, goma e farinha; histórias dos antigos sobre transformações de animais, espécies e a criação de objetos; cantos e danças antigas  também foram apresentados durante as oficinas. 

É nesse contexto cultural mais amplo que o tema da pimenta vem sendo  abordado durante as atividades, especialmente voltadas para a valorização das mulheres e seus saberes. 

Caaca (velha, na língua waiwai) em visita à horta na aldeia Mapuera, com variedades de pimentas  em mãos. Foto: Pilar Saldanha/Iepé

Mulheres do Rio Mapuera

As mulheres habitantes do rio Mapuera são mais conhecidas como pertencentes ao povo Wai Wai, porém identificam-se como pertencentes a uma diversidade de povo, ou yana(s) menos conhecidos, como Katwena, Tunayana, Cikiyana, Mawayana, Xerew, Parukwoto, Hixkaryana, Mînpoyana, Katxuyana, e outros.

Desenho feito da dança das mulheres, na Aldeia Mapuera. Foto: Pilar Saldanha/Iepé

Considerado uma Unidade Territorial dentro do grande Território Wayamu, o rio Mapuera é atravessado por três Terras Indígenas: Trombetas-Mapuera, Nhamundá-Mapuera e Kaxuyana-Tunayana. Nessas três terras indígenas, a sociobiodiversidade ali presente contextualiza as práticas, técnicas e saberes indígenas em torno das atividades produtivas.

As oficinas de pimenta aconteceram a partir da parceria da AMIRMO com o Instituto Iepé por meio de apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), e o fomento do “Projeto Kawana: consolidando a rede de áreas protegidas no Norte do Pará”, via Fundo LIRA e Imazon, no qual a AMIRMO atuou como instituição agluitinada.

*Com informações do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé)

Greenpeace Brasil analisa relação entre crédito rural, multas ambientais e o fogo

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A natureza é bem mais precioso e as interações que acontecem dentro dos biomas garantem a continuidade da vida, seja ela humana, animal ou das plantas. Ainda assim, ano após ano os biomas queimam, esses incêndios são em sua maioria iniciados pela ação humana, e um setor que até então tem passado despercebido nessa história é o financeiro.

Bancos têm emprestado recursos financeiros, como o crédito rural, para produtores rurais envolvidos com queimadas criminosas, é o que mostrou o novo levantamento do Greenpeace Brasil. Ao fecharem os olhos diante de irregularidades socioambientais, os bancos se tornam parte do problema e assumem um papel importante no financiamento das atividades que destroem a natureza. 

Em abril, o Greenpeace Brasil lançou o relatório ‘Bancando a Extinção: bancos e investidores como sócios no desmatamento’, onde denunciou que devido a critérios insuficientes e processos falhos para a concessão de crédito, bancos públicos e privados vêm direcionando milhões em recursos, todos os anos, para fazendas envolvidas com desmatamento, queimadas, grilagem e conflitos fundiários. 

De um lado, quem tem dívidas encontra muita dificuldade para acessar um financiamento para comprar uma casa e ainda pode ter seu pedido negado. Do outro, quem destrói os biomas e coloca fogo nas florestas e pastos, além de acumular milhões em dívidas ambientais, tem seu financiamento aprovado. É uma conta injusta que é possível devido às frágeis medidas de controle utilizadas pelas instituições financeiras para concessão de financiamento.

O Greenpeace Brasil fez um levantamento que aponta que 2.261 propriedades rurais foram financiadas com sobreposição de embargo ambiental (incluindo 12 tipos de infração):

Em ambos os casos, a maioria se deu no bioma Amazônia, embora a análise tenha considerado também o Cerrado e o Pantanal.  

Atualmente o Manual de Crédito Rural traz impedimentos ambientais, sociais e climáticos para a concessão de crédito, e no caso de embargos a restrição se aplica apenas se for embargo por desmatamento, deixando de fora uma série de outros tipos de embargos ambientais, como por exemplo o uso do fogo ou por impedir a regeneração. Por isso a restrição deveria ser mais ampla.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil. Confira a reportagem completa AQUI.

Ampliação de punições para mineração ilegal em terras indígenas é aprovada por comissão

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Célia Xakriabá recomendou a aprovação da proposta. Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados

A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que estabelece novos tipos penais para a mineração ilegal, com penas agravadas se a atividade ocorrer em terras ocupadas por povos e comunidades tradicionais e para quem a financia ou custeia.

O texto aprovado é o substitutivo da relatora, deputada Célia Xakriabá (Psol-MG), para o Projeto de Lei 2933/22, da ex-deputada Joenia Wapichana (RR) e outros 18 parlamentares. A relatora aproveitou o conteúdo de duas propostas que tramitam em conjunto com esse projeto e também fez alguns ajustes.

O substitutivo aprovado altera trecho da Lei dos Crimes Ambientais. Atualmente, essa norma determina prisão de seis meses a um ano para a mineração ilegal ou para a eventual falta de reparação dos danos causados.

Com as mudanças feitas pela relatora, incorrerá nas mesmas penas quem:

  • colocar em risco a vida ou a saúde de pessoas;
  • causar significativo impacto ambiental;
  • realizar a atividade com emprego de máquinas e equipamentos pesados de mineração; ou
  • realizar a atividade mediante ameaça com emprego de arma.

Além disso, conforme o texto aprovado, a pena será aumentada até o dobro se a atividade for realizada em terras ocupadas por povos e comunidades tradicionais e até o triplo para quem a financia ou custeia nessas terras.

Prática proibida, mas permanente

Na justificativa que sustentou a versão original da proposta, a ex-deputada Joenia Wapichana e os demais autores argumentaram que, apesar de proibida pela Constituição, a mineração em terras indígenas ainda é uma prática permanente.

Próximos passos

O projeto tramita em caráter conclusivo e ainda será analisado pelas comissões da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, também terá de ser aprovado pelo Senado.

*Com informações da Agência Câmara de Notícias

Veja quantos atletas paralímpicos da Amazônia Legal garantiram medalhas em Paris 2024

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Fernanda Yara, com a bandeira do Brasil, após conquistar o ouro nos 400m, da classe T47, nos Jogos Paralímpicos Paris 2024. Foto: Marcello Zambrana /CPB

Os Jogos Paralímpicos de Paris encerraram no dia 8 de setembro e o Brasil fechou sua participação com a melhor campanha na história. Foram 89 medalhas, superando as 72 de Tóquio 2020 e do Rio 2016, e ainda conseguiu bater o recorde de medalhas de ouro. Atletas de Estados da Amazônia Legal ajudaram a chegar nesse número e espalhar o amor pelo esporte.

O Brasil chegou à 5ª posição, logo atrás de China, Grã-Bretanha, EUA e Holanda. Das 89 medalhas, 25 são de ouro, 26 de prata e 38 de bronze. Conheça os medalhistas amazônidas que estiveram entre os 280 atletas que participam:

OURO

Atletismo

Acre – Jerusa Geber – 100m T11
Acre – Jerusa Geber – 200m T11
Pará – Fernanda Yara – 400m T47
Maranhão – Rayane Soares – 400m T13

PRATA

Atletismo

Maranhão – Bartolomeu Chaves – 400m T37
Maranhão – Rayane Soares – 100m T13
Amapá – Wanna Brito – arremesso de peso F32

Natação

Brasil – 4x100m livre 49 pontos – Do Pará, Lucilene Sousa faz parte da equipe campeã ao lado de Carol Santiago, Douglas Matera e Matheus Rheine.

Lucilene Sousa. Foto: Reprodução/CPB

BRONZE

Atletismo
Rondônia – Mateus Evangelista – salto em distância T37

Mateus Evangelista. Foto: Reprodução/CPB
Jardiel Soares. Foto: Reprodução/CPB

Futebol de cegos
Brasil – No time de futebol de cegos masculino, o maranhense Jardiel compartilhou a medalha de bronze com Cássio, Jefinho, Jonatan Silva, Luan, Maicon Junior, Matheus Bumussa, Nonato, Ricardinho e Tiago Paraná

Goalball
Brasil – No time de goalball masculino, o paraense Josemárcio Sousa compartilhou a medalha de bronze com André Dantas, Emerson Ernesto, Leomon Moreno, Paulo Saturnino e Romário Marques.

Halterofilismo
Amazonas – Maria de Fátima Castro – até 67 kg

Maria de Fátima. Foto: Reprodução/CPB

Comissão aprova proposta que cria programa para preservar línguas dos povos indígenas

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Juliana Cardoso, relatora do projeto de lei. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3690/19, que obriga a administração pública a criar programa de preservação, recuperação e transmissão das línguas indígenas brasileiras. Já aprovado pelo Senado Federal, o texto altera a Lei Rouanet.

A proposta determina que documentos públicos solicitados pelos indígenas sejam fornecidos em português e no idioma nativo. O projeto também considera dialetos indígenas como bens de natureza imaterial do patrimônio cultural brasileiro.

Definições

Segundo o texto, a preservação se dará por meio da realização de inventários, registros, vigilância e tombamento, além de outras formas de manutenção de acervo. Já a recuperação ocorrerá pelo registro das línguas indígenas em vocabulários ortográficos e dicionários e sua codificação em gramáticas. 

A transmissão, por sua vez, deverá ocorrer pela divulgação das línguas indígenas nas regiões em que são faladas nos canais públicos de comunicação, na sinalização urbana e rural, no serviço público comunitário e nos ensinos fundamental e médio, a título de disciplina curricular facultativa. Também deverá ser garantida a oferta de cursos para o ensino dessas línguas em escolas do ensino médio, sempre que houver o número necessário de alunos interessados

O parecer da relatora, deputada Juliana Cardoso (PT-SP), foi favorável ao projeto, apresentada pelo senador Jorge Kajuru (PSB-GO).

Próximos passos

O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões  de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, a proposta precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.

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*Com informações da Agência Câmara de Notícias