Gamelas, colheres, copos, pratos, artigos de decoração e outros objetos fazem parte do tesouro produzido pelo acreano Antônio Geraldo Sobrinho, que há mais de 20 anos utiliza madeira de manejo para criar suas peças. A narrativa de sua história marca o Dia Mundial do Artesão, celebrado em 19 de março.
Aos 60 anos, Antônio possui um ateliê no quintal de sua casa, em Rio Branco, no Acre, de onde sai toda sua produção.
“O artesanato é uma das melhores terapias. Eu gosto muito. O artesanato representa tudo para mim. Às vezes até esqueço de comer, porque estou entretido no trabalho. Ele é um controle psicológico, deixa a gente tranquilo”, destaca.
Sua arte é também sua fonte de ganho: “É a minha única renda. Há momentos em que conseguimos algo melhor, em outros é mais difícil. Já tive encomendas para outros estados, e também há peças minhas em outros países, que não foram encomendadas diretamente comigo, mas são minhas. No Brasil, já enviei peças para São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina”.
“Para mim, tudo é arte”
Antônio conta que, antes de se dedicar profissionalmente ao artesanato, já tinha noção de como era a produção. “A partir de 2000, comecei a produzir as primeiras peças, que não eram tão boas, mas, conforme fui aperfeiçoando, criei outras. Nós produzimos as peças, mas sempre pensando em criar novas”, relata.
Ressalta ainda que toda a madeira usada vem de manejo, de forma legalizada.
“Eu não vou desbravar e derrubar a floresta. Entro em contato com as pessoas que fazem manejo e pego. Tudo é legalizado, e a gente ajuda o meio ambiente a se alegrar com a gente, por manter e cultivar as árvores. Por isso, aproveito qualquer pedaço de madeira, seja tora ou pedaço pequeno. Para mim, tudo é arte”, avalia.
E o artesão gosta de desafios. “Quando me mostram algo que não faço, digo ‘não pergunte se eu faço, pergunte quanto custa’. As pessoas acham engraçado, mas eu digo que a arte já está dentro de mim. Eu nasci para o artesanato, é o meu trabalho”, explica, com risadas.
Produzindo diversas categorias de peças, Antônio cita algumas das madeiras com as quais trabalha: “Uso cumaru-ferro, cerejeira, cedro, aroeira e teca. Na minha casa, plantei cerejeira, mas é para ajudar a manter a floresta e o meio ambiente. Esse trabalho, para mim, é tudo. Mesmo que eu tivesse outro emprego, ainda assim dedicaria algumas horas ao artesanato”.
Antônio também cuida da renovação do seu portfólio: “Graças a Deus, a cada ano, tenho uma peça diferente. A peça que eu produzia antes, faço menos, e invisto na próxima. Não trabalho por esporte, trabalho com artesanato porque gosto”.
Em Rio Branco, o artesão tem peças expostas para comercialização na Casa do Artesanato Acreano (atualmente com funcionamento suspenso devido à cheia do Rio Acre), na Rua Eduardo Assmar, em frente ao Calçadão da Gameleira, mas também recebe encomendas por WhatsApp pelos números (68) 984165232 e (68) 992056468 ou Instagram @antoniogeraldoac.
Fotos: Bruno Moraes/Sete
Arte, economia, turismo e patrimônio
O titular da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete), Marcelo Messias, destaca a atuação dos artesãos locais, que contam a história e preservam a identidade da população do Acre.
“Neste dia, ressaltamos a importância de cada mão talentosa que transforma matérias-primas em verdadeiras obras de arte, que leva o nome do nosso estado para o Brasil e o mundo. O artesanato não é só arte, é economia, turismo e patrimônio. Na Sete, valorizamos esse trabalho com incentivo, capacitação e oportunidade de negócios. A cada peça produzida, temos um pouco da nossa história sendo contada e nossa essência preservada”, ressalta.
Para promover cada vez mais o artesanato, o governo do Acre, por meio da Sete, realiza capacitações, caravanas de cadastramento nos municípios e oportunidade de negócios com participações nas feiras nacionais e internacionais, que levam o nome e a riqueza deste trabalho manual que representa o Acre para diversos lugares do mundo.
Além disso, a Casa do Artesanato Acreano, reúne peças de artesãos dos mais variados segmentos como biojoias, cerâmicas, palha e produtos feitos por indígenas.
A coordenadora do Artesanato Acreano na Sete, Risoleta Queiroz, afirma que o objetivo da data é valorizar os profissionais do setor, destacar o trabalho na sociedade e promover a autonomia e a economia local.
“O artesanato brasileiro é diverso, com características diferenciadas de norte a sul. A produção artesanal é influenciada pelas comunidades locais e pela matéria-prima disponível na região. O trabalho artesanal é uma fonte de renda para muitas famílias e os conhecimentos para a produção artesanal são passados de geração em geração”, diz.
Risoleta lembra ainda que o artesanato acompanha a história da espécie humana ao longo dos anos: “Sofreu mudanças, novos olhares e hoje é uma ferramenta artística que conserva culturas e muito significado, para além da produção de um objeto decorativo ou de um adereço para o corpo. O papel do artesão na sociedade não é somente de mão de obra, mas de produção artística importante para o mundo”.
As cheias dos rios amazônicos têm impactado diversas regiões do Acre, exigindo uma atuação intensa do Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC) e da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec).
Segundo dados levantados pelo posto de comando do CBMAC em Rio Branco, já foram registrados 1.040 chamados, resultando em 151 ocorrências atendidas e quase 500 pessoas resgatadas. A operação conta com o apoio de voluntários da sociedade civil, somando um efetivo de 95 pessoas.
Em Rio Branco, o nível do Rio Acre apresentou elevação durante a medição das 9h deste domingo (16), marcando 15,82m. O Riozinho do Rola, um afluente importante, apresentou na leitura das 6h ainda de 16 de março um aumento de 32 cm, já ultrapassou a cota de transbordamento desde a última medição da sexta-feira (14), que marcou 15,33m e subiu para 16,36m.
O comandante-geral do CBMAC, coronel Charles Santos, aponta que a bacia do Rio Acre tem se comportado de forma variável desde Assis Brasil até a capital, onde há uma estabilidade momentânea. “O governo do Acre está atento ao comportamento dos rios para garantir a segurança de todos nesse momento de urgência”, garantiu o coronel Santos.
Nos demais municípios do Acre, a situação varia. Em Cruzeiro do Sul, o nível do rio continua aumentando, especialmente devido ao volume de água vindo do Rio Moa. A cota de transbordo da região é de 13m e na medição das 6h de 16 de março marcava 13,45m. Frente a isso, autoridades locais avaliam decretar situação de emergência.
Foto: Pedro Devani/SecomAC
Em Tarauacá, a marcação do rio é de 9,87m e apesar do transbordamento, todos os bairros estão sendo monitorados e ainda não houve necessidade da retirada de vítimas até o domingo. Feijó e Sena Madureira estão em situação estável, sem a necessidade de ações emergenciais até o momento. Xapuri e Brasiléia permanecem em estado de alerta mas sem riscos iminentes.
Já em Porto Acre, as autoridades estão realizando constantes vistorias, verificando a necessidade de translado de comunidades isoladas pelo aumento do rio. Novas inspeções serão feitas para acompanhar a evolução da situação.
A Defesa Civil estadual segue vigilante, monitorando as condições dos municípios afetados e mantendo contato direto com as autoridades locais para coordenar ações de resposta. O apoio da sociedade e a pronta atuação das equipes de resgate são essenciais para minimizar os impactos das cheias e garantir a segurança da população acreana.
Cerimônia, realizada entre agosto e setembro, reúne várias etnias indígenas do Alto Xingu (MT). Foto: Alaor Filho/Fotos Públicas
A cerimônia do Kuarup, ritual indígena realizado no Parque Indígena do Xingu (MT), foi reconhecida como uma manifestação da cultura nacional. A Lei 15.113, que garante esse reconhecimento, foi publicada no dia 18 de março, no Diário Oficial da União.
“A cerimônia é marcada por uma alternância poética entre momentos de profundo luto e celebração da vida, refletindo a filosofia indígena de que a continuidade da existência e a convivência harmoniosa em comunidade são essenciais após a perda de um ente querido. O rito culmina com o simbólico lançamento dos troncos na água, que representa a despedida, a transformação e a transcendência”, explicou Wellington Fagundes no relatório.
Foto: Reprodução
Kuarup
O Kuarup ocorre entre os meses de agosto e setembro. A cerimônia reúne diversas etnias indígenas do Alto Xingu, no estado de Mato Grosso.
No ritual, são abordados temas como a morte e o luto, ao mesmo tempo em que se homenageia a memória de entes queridos.
O documentário ‘Como matar um rio‘, gravado em comunidades ribeirinhas ao longo do rio Madeira, em Porto Velho (RO), retratará a beleza das paisagens da região em contraste com as queimadas e a extrema seca de 2024.
Segundo a produção, a obra parte de uma visão poética do cotidiano para revelar a dura realidade dos povos ribeirinhos na luta por água e comida durante a crise climática.
A produção faz parte do projeto ‘Vozes do Madeira’ e foi viabilizada com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Edital 001/2024. As gravações destacam a riqueza e a beleza cultural dessas localidades, ao mesmo tempo em que discutem a preservação da floresta e da biodiversidade.
Dirigido por Chicão Santos, o trabalho envolveu uma equipe de cerca de 10 pessoas, incluindo tradutores de Libras. A produção levou quase 12 meses, com duas visitas aos distritos: a primeira, em junho, quando o rio estava mais cheio, e a segunda, em setembro, durante a seca severa.
A narrativa se divide em dois momentos:
O primeiro apresenta um olhar poético sobre a cultura e as festividades dos ribeirinhos, em um período em que o rio ainda estava cheio.
O segundo retrata a seca extrema enfrentada pelas comunidades e os desafios para sobreviver em meio à fumaça e à escassez de água.
“A equipe enfrentou grandes dificuldades, pois a navegabilidade estava comprometida e a captação de imagens foi prejudicada pela fumaça. No rio, já não havia mais jacarés, estava tudo seco”, relata o diretor Chicão.
Ambas as partes exploram a relação do povo com o rio Madeira, buscando sensibilizar a sociedade sobre a importância da preservação ambiental e do apoio ao desenvolvimento sustentável dessas comunidades.
De acordo com o diretor, o principal objetivo, após a conclusão das gravações, era mostrar todas as camadas de ser e viver ribeirinho, além de dar visibilidade e instigar discussões sobre sustentabilidade e conservação ambiental.
O documentário estreia no dia 21 de março, às 19h, e será exibido gratuitamente no Cinema da Floresta, localizado na Rua Franklin Tavares, no bairro Pedrinhas, em Porto Velho.
*Por Gabriely Tavares, estagiária sob supervisão de Marcos Miranda, da Rede Amazônica RO
Registro de garimpo dentro da Terra Indígena Sete de Setembro obtido pelo Greenpeace. Foto: Reprodução/Greenpeace
O Greenpeace Brasil publicou uma denúncia sobre a presença de garimpeiros ilegais dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, do povo Paiter Suruí, localizada entre os municípios de Cacoal e Espigão D’Oeste, em Rondônia.
A TI possui área total de 248 mil hectares e sua maior porção (60%) está localizada no município de Rondolândia.
De acordo com a organização, através das imagens de satélite, foi identificada uma área de 78 hectares de atividade garimpeira, equivalente a 109 campos de futebol. O garimpo está concentrado principalmente nas ramificações do rio Fortuninha, na região central da Terra Indígena, e nos braços do rio Fortuna, na parte nordeste do território.
“É urgente e necessário que as autoridades tomem medidas de proteção ao povo Paiter Suruí, realizem ações de fiscalização e monitoramento da atividade garimpeira e promovam ações de desintrusão dos invasores”, pontuam na publicação.
Ainda segundo o Greenpeace, o garimpo é um problema na TI Sete de Setembro há mais de uma década. Em 2024, o Greenpeace realizou um levantamento para denunciar o avanço do garimpo no sul do Amazonas. A área destruída dentro da Terra Indígena era de 55 hectares, em 2022, e foi para 72,16 hectares em 2024. O povo Paiter Suruí enfrenta um crescente aumento de conflitos territoriais entre invasores e as comunidades locais, que resistem a diversas formas de pressão para a apropriação e exploração de seus recursos.
Mapa comparativo da área de garimpo entre junho de 2023 e janeiro de 2025. Fonte: Departamento de Pesquisa do Greenpeace Brasil
A Terra Indígena Sete de Setembro é um território rico em diamantes, ouro e cassiterita e por causa disso, tem atraído atenção de garimpeiros que têm migrado de outros estados para dentro do território indígena.
“O garimpo dentro das Terras Indígenas causa inúmeras consequências. Além da desestruturação social, ameaças à saúde e atos de violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais, o garimpo destrói o meio ambiente com o desmatamento e contamina, com mercúrio, os recursos hídricos, o solo, os animais e a floresta”, afirma Jorge Eduardo Dantas, porta-voz da Frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil.
Dados do PRODES apontam que o desmatamento atingiu seu pico em 2021 com a perda alarmante de 1.420 hectares de vegetação. No total, mais de 5.000 ha já foram desmatados no território.
“As escavadeiras, observadas nos registros obtidos, exercem um papel devastador na abertura de novas áreas de exploração. Uma máquina dessas realiza em um dia o trabalho que cerca de três homens levariam quarenta dias para fazer”, ressalta Jorge Eduardo Dantas.
“É necessário, cada vez mais, que as autoridades possam estruturar políticas públicas robustas capazes de atender as populações amazônidas e oferecer alternativas econômicas contrárias a essa prática predatória e criminosa”, completa.
O mapeamento dos garimpos em Terras Indígenas é realizado por meio de alertas gerados por radar e sensores ópticos, utilizando os sistemas GLAD (Global Analysis and Discovery) e RADD (Radar for Detecting Deforestation) na ferramenta interna do Greenpeace, batizada de ‘Papa Alpha’. A acurácia dos alertas para garimpo é confirmada através das imagens de satélite dos sistemas Planet Lab e Sentinel-2. As informações enviadas por parceiros que estiveram em áreas de garimpo dentro da Terra Indígena entre 10 e 22 de novembro de 2024 e em 22 de janeiro de 2025 reforçam os registros das imagens de satélite.
Pesquisadores não encontraram espécies semelhantes em banco de dados internacional. Foto: Divulgação/Ueap
Uma nova espécie de parasita foi identificada no peixe piaba ou ‘lambari‘, por pesquisadores da Universidade do Estado do Amapá (Ueap).
O organismo batizado como Ceratomyxa tessaloniensisleva o nome do local onde foi encontrado, no Rio Flexal, na área rural da comunidade Tessalônica, próxima ao município de Porto Grande, distante cerca de 111 quilômetros de Macapá.
A espécie foi encontrada durante uma pesquisa de campo. Saturo Cardoso, que é biomédico, disse ao Grupo Rede Amazônica que após análise microscópica e comparação com o banco internacional de dados, os pesquisadores não encontraram registros da espécie.
“Havia uma diferença na morfologia, tanto no comprimento quanto na largura. Além disso a gente fez uma análise molecular para a extração do DNA desse parasito, com esse DNA ele foi amplificado e depois comparado com um banco internacional, onde não encontramos similaridades”, disse.
Nova espécie de parasita foi encontrada no peixe lambari. Foto: Divulgação/Ueap
Após análise filogenética, que funciona como uma árvore genealógica, foi visto que a maioria dos organismos Ceratomyxa semelhantes a esta espécie são registrados em animais de água salgada. Apenas um pequeno e raro grupo faz parte da água doce.
Apesar de se tratar de um parasita, os pesquisadores constataram que não há registro de doenças causadas por ele ou semelhantes a espécie.
“A gente sabe que o consumo de pescado na Amazônia é um dos maiores, é muito comum. Então não há o registro até hoje de alguma zoonose ou de alguma doença causada por esse parasita”, destacou o biomédico.
Nova espécie de parasita foi encontrada no peixe lambari. Foto: Divulgação/Ueap
Pesquisa de qualidade do pescado
A Abthyllane Amaral, que é engenheira de pesca, disse que nos últimos anos, 10 novas espécies de parasitas foram registradas durante mapeamento de peixes. Para 2025, a estimativa é encontrar mais 5 ou 6 espécies.
“Depois que a gente descreve essas novas espécies, a gente vai descobrir um pouquinho mais, sobre ciclo de vida, como é que ela vem evoluindo ao longo do tempo, então a nossa pesquisa é uma pesquisa base, de descoberta. Ela vem auxiliar na sanidade em relação ao pescado no Amapá”, contou.
Pesquisa foi realizada em diversos municípios do AP. Foto: Divulgação/Ueap
O projeto de mapeamento já passou por diversos municípios do estado do Amapá, sendo eles Tartarugalzinho, Macapá tanto a área rural quanto urbana, Santana, Mazagão, Ferreira Gomes e Calçoene.
“Em Calçoene […] por ser uma região costeira, a gente tá ali naquele ambiente de transição de água doce e de água salgada, que a gente acha que vai ter alguns achados bem interessantes”, completou a engenheira.
Mapeamento das regiões com o pescado analisado. Foto: Divulgação/Ueap
O trabalho que é realizado desde 2021, teve reconhecimento internacional em uma revista científica. A engenheira conta que a publicação não apenas contribui para o entendimento da biodiversidade, mas para a preservação e monitoramento da saúde ambiental dos rios.
“O nosso trabalho é um trabalho de descrição de novas espécies e descrevendo essas novas espécies […] O que a nossa pesquisa traz pro estado é conhecimento da nossa biodiversidade”, contou.
*Por Isadora Pereira e Mayra Carvalho, da Rede Amazônica AP
Os estudos estão entrando na reta final da primeira etapa da pesquisa onde fica propriamente a construção da casa. Foto: Jhon Martins/GEA
Durante nova escavação nas obras de reforma da antiga Residência do Governo do Amapá, no Centro da capital, arqueólogos encontraram uma moeda do ano de 1773, além de novos artefatos históricos.
Anteriormente, os pesquisadores encontraram uma moeda 20 réis do ano de 1775, nova descoberta remete ao ano de 1773. Além da moeda, louças europeias importadas e cachimbos fazem parte do acervo encontrado.
Segundo os estudos, as louças europeias achadas tem origem de Portugal e Inglaterra dos séculos 18 e 19. Os objetos são de faianças, louças de cerâmica, barro, argila ou pó de pedra. Os pesquisadores também identificaram cachimbos de fabricação inglesa e holandesa do período de 1751 a 1840.
Os itens encontrados serão encaminhados ao Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas do Amapá (Cepap) da Unifap para serem analisados e registrados.
As descobertas são anteriores ao fim das obras da Fortaleza de São José de Macapá e da criação da política cambial brasileira, que só começou em 1808. A pesquisa aponta que mesmo antes da presença dos portugueses, comunidade dos povos indígenas já habitavam a região.
Nova descoberta inclui moeda do ano de 1773 e louças europeias de Portugal e Inglaterra. Foto: Jhon Martins/GEASegundo pesquisadores, os achados são as maiores coleções de cachimbos e louças europeias associadas ao período de escravidão na Amazônia. Foto: Jhon Martins/GEA
Segundo pesquisadores, os achados são as maiores coleções de cachimbos e louças europeias associadas ao período de escravidão na Amazônia, resultado da escavação de um sítio arqueológico histórico no estado.
“Isso revela que existe um centro histórico invisível em Macapá e talvez não se tenha uma coleção dessa na Amazônia, com esses cachimbos de fabricação holandesa e inglesa que ampliam o patrimônio e o acervo histórico e cultural”, explicou Kleber Souza, arqueólogo e coordenador dos estudos.
Os estudos estão entrando na reta final da primeira etapa da pesquisa onde fica a construção da casa, para em seguida iniciarem as escavações em outras áreas. Uma empresa contratada pelo Governo do estado é a responsável por fazer a escavação em diversos pontos ao redor da residência.
No primeiro achado, foram encontrados mais de 30 itens dos séculos 17 e 18, como anéis, ossos de animais e cachimbos de origem holandesa.
A obra continua, seguindo as normas de preservação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), enquanto a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinf) estão concentrados os trabalhos na finalização da estrutura da cobertura de forro e na aplicação da estrutura de madeira.
*Por Francisco Pinheiro, estagiário sob supervisão de Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP
Artistas e influenciadores dançam o ‘noiadance’, ritmo criado em Porto Velho. Foto: Reprodução/TikTok-marifernandezoficial
O ‘noiadance‘, ritmo que nasceu em regiões periféricas das zonas Leste e Sul de Porto Velho (RO), ganhou destaque internacional após viralizar nas redes sociais. Com menos de um mês de lançamento, “Santinha” entrou no ranking das músicas virais do Spotify Brasil e Portugal.
A música é composta por Caroliny Silva Campos e interpretada por Canal Remix, Felipe Morais, Mc Leoa e Mc Sapinha. O hit foi produzido por Felipe Morais, DJ portovelhense de 24 anos que trabalha como produtor musical há cerca de oito anos e acompanhou de perto a ascensão do ‘noiadance’.
O sucesso começou no aplicativo de vídeos TikTok. Artistas e influenciadores como Carlinhos Maia, Álvaro, Mari Fernandez e Rafa Kalimann usaram o ritmo em vídeos e ampliaram ainda mais o engajamento.
Internautas de Porto Velho comentaram na publicação de Mari Fernandez destacando que a produção nasceu na cidade rondoniense. Foto: Reprodução/TikTok-marifernandezoficial
Sucesso em ascenção
Ao Grupo Rede Amazônica, o DJ Felipe Morais informou que não esperava por esse sucesso, pois era apenas uma música feita para tocar nas noites portovelhenses, mas que acabou “saindo da bolha”.
“Não esperava que tivesse essa repercussão toda pelo Brasil, eu nem estava preparado para isso. Fui pego de surpresa com várias notificações nas minhas redes sociais e conhecidos me mandando mensagens, falando que a ‘Santinha’ estava bombando”, disse.
De acordo com o DJ, essa é uma oportunidade de levar o hit portovelhense para o Brasil e até para outros países. Agora, o objetivo é ultrapassar as barreiras e popularizar ainda mais o noiadance.
“A ideia desse álbum era ser algo diferente, algo jamais feito aqui na região. Eu quis deixar bem claro que foi feito em Porto Velho, que é algo da minha terra, da nossa terra, e que, querendo ou não, representa parte de Rondônia atualmente”, ressaltou.
Dutch House
Segundo os DJs e produtores Lucas Ferraz, Kelvin Douglas, Yuri Lorenzo e o administrador do Canal Remix, Carlos Eduardo, a vertente eletrônica chamada ‘Dutch House’ nasceu em 2009 e ganhou força em Rondônia no ano seguinte, em 2010.
“Produzir o Dutch House não é uma tarefa fácil. Exige empenho, criatividade e muita paciência para conseguir criar algo envolvente a cada remix”, explicaram ainda em 2021, quando o ritmo já ganhava destaque.
Um produtor conhecido como ‘Yvan Serano’ adaptou o estilo com elementos mais envolventes como Moombahton, Latin House e Funk. Foi quando surgiu o estilo único da música eletrônica característica de Porto Velho, segundo os DJs e produtores.
O ritmo, que foi apelidado pelos portovelhenses de ‘noiadance’, mas também é conhecido como ‘leskerray’, chegou primeiro no coração dos moradores das zonas Leste e Sul de Porto Velho.
Marginalizado por vários, durante muitos anos, a vertente de música eletrônica era uma das principais características das festas dessas regiões.
Nos últimos anos, o ‘noiadance’ chegou na região central da capital rondoniense e encontrou espaço em todas as datas comemorativas, além de ser um dos estilos mais pedidos nas festas da cidade.
Criar novas batidas para hits que já estão em alta é uma das marcas do ‘noiadance’, além de aproveitar sucessos adormecidos.
De acordo com os produtores do Canal Remix, as músicas de maior sucesso nas plataformas de streaming ganham força em Porto Velho quando viram um remix.
“Geralmente fazemos remix das músicas que são de maior sucesso nas plataformas de streaming. O trabalho vale muito a pena quando conseguimos os resultados esperados e a satisfação do nosso público”.
Direitos autorais
Além das músicas internacionais, sucessos nacionais também fazem parte da lista de remixes produzidos pelo grupo. Yuri Lorenzo, editor do canal, explicou como a equipe faz quanto aos direitos autorais.
“Infelizmente algumas músicas acabam sendo excluídas por conta dos direitos autorais. Mas muitas delas são produzidas de acordo com a política de direitos autorais, que nos permite de postar e produzi-las tranquilamente. Algumas vezes reivindicamos a denúncia feita pelo detentor do copyright da música e em torno de 30 dias eles fazem a liberação novamente pra gente”, explica.
O remix da música ‘Major Lazer – Be Together’, produzido pelo DJ Guilherme Morais, foi um dos maiores sucessos do Canal Remix em 2021.
*Por Amanda Oliveira e Thaís Nauara, da Rede Amazônica RO
Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia visitam produtor no município de Alto Paraíso. Foto: Jucilene Cavali
A aquicultura emite dez vezes menos gases de efeito estufa e utiliza entre 20 e 100 vezes menos terra por tonelada de proteína animal produzida do que a pecuária. Por essa e outras razões, pode ser uma forma de se obter segurança alimentar de forma mais sustentável na Amazônia.
É o que aponta um estudo publicado na revista Nature Sustainability por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, parte deles apoiada pela FAPESP.
“A aquicultura teve uma série de incentivos na Amazônia a partir dos anos 1980 e se expandiu exponencialmente desde esse período. Tem como vantagem ser uma alternativa mais sustentável à criação de gado, responsável por cerca de 80% do desmatamento da Amazônia nos últimos 30 anos. Ao mesmo tempo, precisa ser mais estudada quanto a seus impactos, até mesmo para alcançar mercados internacionais”, conta Felipe Pacheco, pesquisador do programa Eric & Wendy Schmidt AI in Science da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e primeiro autor do artigo.
Os pesquisadores reuniram dados sobre a atividade em cinco países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) dos oito que abrigam a Amazônia. Entre eles, o Brasil é o maior produtor de peixes, sendo o Estado de Rondônia responsável pela maior parte da produção de espécies nativas.
“O tambaqui tem um mercado consolidado na região Norte e sua rusticidade, aliada às altas taxas de crescimento e eficiência na conversão alimentar, reforça seu potencial de expansão para outras regiões do país e até mesmo para mercados internacionais”, aponta Marta Ummus, analista da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), que também assina o paper.
Além da FAPESP, o estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (FAPT) e da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado de Rondônia (Fapero), no âmbito da Iniciativa Amazônia+10.
“Precisamos aprimorar os dados existentes sobre a atividade para que uma eventual expansão seja feita sobre bases científicas sólidas, conhecendo e respeitando os limites que o ambiente pode suportar”, afirma Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos coordenadores do projeto.
Expansão, desde que sustentável
Segundo os autores, a atividade ainda tem potencial para ser expandida na região amazônica, mas precisa levar em conta alguns fatores. Um deles é a dificuldade de entendimento dos processos de licenciamento ambiental da prática, que variam de um Estado para outro, além da necessidade de um monitoramento contínuo para aumentar a assertividade dos processos e garantir a conformidade e sustentabilidade da produção.
O barramento de igarapés para a criação de peixes, por exemplo, por muito tempo foi permitido e ainda é realizado em alguns locais. A prática impacta a conectividade dos corpos d’água e prejudica a biodiversidade aquática, inclusive de espécies economicamente importantes para a pesca.
Outros exemplos incluem o cultivo desrespeitando protocolos de sanidade animal e do ambiente. Administrar a ração em excesso, por exemplo, pode levar ao acúmulo de matéria orgânica no fundo dos viveiros e a um consequente aumento na emissão de gases de efeito estufa, como o metano. O excesso de nutrientes pode ainda ser carreado para os rios e desestabilizar as cadeias alimentares.
Os pesquisadores ressaltam que uma eventual expansão da atividade poderia se aproveitar de pastagens degradadas para a instalação de novos tanques, sem aumentar o desmatamento. Estudos já demonstraram que a ocupação dessas áreas pela aquicultura emite menos gases de efeito estufa do que simplesmente deixá-las abandonadas. Além disso, a atividade é mais produtiva. Produzir uma tonelada de peixe demanda menos terra do que uma tonelada de carne bovina.
“A aquicultura não pode repetir o que fez a pecuária em Estados como Rondônia, em que se abriram muitas áreas para pastagens e, hoje, muitas são pouco produtivas ou mesmo foram abandonadas. No entanto, tem a vantagem de poder utilizar essas mesmas áreas já abertas com uma atividade muito mais sustentável”, diz Carolina Doria, professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e coautora do estudo.
Competição das exóticas
No cenário da aquicultura mundial, a Amazônia brasileira se destaca por produzir espécies nativas, como o tambaqui, a pirapitinga, o pacu e o pirarucu. No mundo todo, a introdução no ambiente natural de espécies exóticas, como a tilápia, trazidas pela aquicultura, causa uma série de problemas, como a competição por recursos e a predação das nativas.
Mas há forte pressão de produtores em todas as regiões do país para a liberação do cultivo de tilápia, uma vez que a espécie possui um grande mercado consumidor e um pacote tecnológico consolidado que potencializa sua produção.
Essas vantagens são fruto de um desenvolvimento tecnológico realizado fora do país, que hoje permite que a espécie seja cultivada em várias partes do globo. O Brasil, por exemplo, é o 4º maior produtor mundial de tilápia, espécie que corresponde a 65% da produção nacional de peixes.
Nesse sentido, os autores do estudo ressaltam o potencial do tambaqui, cujas populações selvagens podem fornecer genes para variedades mais produtivas e resistentes a doenças, por exemplo. Sua fuga para o ambiente natural, embora não seja desejada, também tem menor potencial destrutivo do que a de peixes exóticos (leia mais em: agencia.fapesp.br/37902).
“A aquicultura na Amazônia pode trazer segurança alimentar ao mesmo tempo em que melhora a vida das pessoas, trazendo uma fonte de renda menos incerta do que outras atividades como a própria pesca, por exemplo. Políticas voltadas para o setor, porém, precisam ter em vista tanto pequenos como médios e grandes produtores”, encerra Pacheco.
Parque Nacional da Serra do Divisor está distribuído nos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo, no Acre, e faz fronteira com o Peru. Foto: Marcos Vicentti / Secom-AC
Unidades de conservação (UCs) na Amazônia Legal perderam 87.591 km² de áreas protegidas nos últimos 24 anos, área equivalente a 57 cidades de São Paulo. Um levantamento da InfoAmazoniarevela que, entre 2000 e 2024, as legislações do Brasil destinadas à proteção desses territórios sofreram 60 alterações por meio de projetos de lei e judicialização, enfraquecendo sua efetividade.
A reportagem identificou que essas alterações legislativas reduzem os limites, flexibilizam o uso ou extinguem completamente essas áreas protegidas. Essas ações são conhecidas como PADDD (sigla em inglês para Protected Area Downgrading, Downsizing, and Degazettement), nome dado por acadêmicos de conservação ambiental nos anos 2000 para esse processo que engloba desde a redução até a extinção de áreas legalmente protegidas. O levantamento inclui 106 PADDD no período, sendo que 46 foram cancelados e 60 efetivados – somente nove foram revertidos.
O levantamento daInfoAmazonia tem como base os dados da plataforma colaborativa PADDDtracker.org, criada pela WWF, uma organização de conservação global, em parceria com a Conservation International. A ferramenta é alimentada com informações governamentais dos países mapeados, estudos científicos, decisões políticas e informações obtidas por organizações locais e internacionais, que permitem monitorar padrões e tendências desses eventos.
A reportagem também atualizou os dados de PADDD até 2024, isso foi possível por meio da análise de processos em andamento e consultas a registros oficiais no legislativo relacionados aos eventos na Amazônia Legal. Em 2025, sete propostas ainda tramitam no Congresso Nacional e na Justiça e buscam reduzir territórios ou flexibilizar regras, abrindo espaço para exploração agropecuária, madeireira e mineral. Caso sejam aprovadas, essas mudanças poderão impactar 13.448 km², uma área nove vezes maior que o território da cidade de São Paulo.
Muitas vezes, os projetos de lei para redução de território, diminuição do grau de proteção ou extinção de áreas protegidas não são acompanhados de uma avaliação dos impactos socioambientais. Há casos em que as decisões políticas são baseadas em interesses econômicos, sem uma análise técnica adequada.
No Brasil, as Unidades de Conservação (UCs) são regulamentadas pela Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). A gestão das UCs federais é responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
As UCs dividem-se em duas categorias principais: Proteção Integral e Uso Sustentável. As de Proteção Integral, como os Parques Nacionais, têm como objetivo a preservação da natureza, permitindo apenas o uso indireto de seus recursos naturais, como pesquisas científicas e turismo ecológico. Já as UCs de Uso Sustentável, como as Áreas de Proteção Ambiental (APAs), buscam conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável de parte dos recursos naturais, permitindo atividades econômicas controladas.
A reclassificação de um Parque Nacional para uma APA representa um enfraquecimento na proteção ambiental, uma vez que amplia as possibilidades de uso e ocupação humana, comprometendo potencialmente a integridade dos ecossistemas antes protegidos de forma mais restritiva.
No Acre, o PL 6024/2019 pretende transformar o Parque Nacional Serra do Divisor, uma UC de Proteção Integral, em APA, o enfraqueceria a proteção ambiental, abrindo espaço para desmatamento e exploração econômica, por exemplo. O texto do PL 6024/2019 também prevê a redução da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, que pode perder 7.758 hectares.
No Amapá, o PL 3087/2022 propõe retirar 8 mil hectares do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque para o Distrito Parque de Vila Brasil, enfraquecendo a legislação vigente na região. No Amazonas, a APA dos Campos de Manicoré sofre pressão para liberação da exploração mineral, com investigações do Ministério Público Federal sobre possíveis crimes ambientais.
O Parque Estadual Cristalino II, localizado no Mato Grosso, enfrenta uma disputa judicial que pode levar à redução de seus limites para expandir a agropecuária. No Pará, a Floresta Nacional de Jamanxim, que já perdeu 57% de sua área original por alterações legais anteriores, pode sofrer novos cortes com o PL 8107/2017. No Tocantins, embora ainda não exista um projeto de lei formalizado, há discussões no Senado sobre a redução do Parque Nacional do Araguaia. Especialistas alertam que essas propostas podem acelerar o desmatamento, comprometer a preservação da biodiversidade e ameaçar o modo de vida das comunidades tradicionais.
Em 2021, um caso emblemático marcou as decisões jurídicas sobre o desmonte de unidades de conservação em Rondônia. A Procuradoria Geral do Estado de Rondônia (PGE-RO) ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a Lei Complementar Estadual n. 999/2018, que extinguiu 11 áreas protegidas. A lei, inicialmente proposta para extinguir somente a Estação Ecológica Soldado da Borracha, foi ampliada pela Assembleia Legislativa do estado para incluir outras 10 unidades.
A Procuradoria argumentou que a extinção das unidades comprometia a biodiversidade amazônica e feria o interesse público, configurando um retrocesso ambiental. O processo legislativo que aprovou a medida foi aprovado às pressas, desrespeitando requisitos legais, como análises de impacto. Parte das áreas foi recriada pela Lei Complementar Estadual 1.089 de 2021, mas surgiram dúvidas sobre os limites territoriais e a abrangência das novas delimitações. O caso continua sendo debatido no âmbito jurídico, o que evidencia o conflito entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental na Amazônia.
As áreas protegidas desempenham um papel essencial na proteção ambiental, na mitigação do aquecimento global e na conservação da biodiversidade. A Amazônia Legal, que abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, abriga 359 unidades de conservação, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Juntas, elas somam 1,25 milhão de km² de florestas, uma extensão maior que a soma dos territórios da França e da Espanha.
As mobilizações social e política, além do trabalho do judiciário, resultaram no cancelamento de 46 propostas de eventos PADDD, entre 2008 a 2024, que poderiam ter impactado cerca de 172.052,84 km² – o equivalente a 14% das florestas protegidas na Amazônia brasileira.Um estudo publicado em fevereiro de 2024 na revista Nature, liderado pelo pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bernardo Flores, mapeou as áreas da Amazônia mais vulneráveis a atingir pontos críticos, ou tipping points, nos quais mudanças climáticas e degradação comprometeriam a capacidade de regeneração da floresta.
A pesquisa destaca a importância das UCs e terras indígenas, que apresentam taxas mais baixas de desmatamento e degradação, na preservação da resiliência do bioma. Flores alertou que o processo de PADDD, que reduz a cobertura florestal, prejudica a reciclagem de água pela floresta e diminui a capacidade de transporte de chuvas, afetando a estabilidade do sistema.
Hidrelétricas ampliam desmatamento
Em artigo publicado em 2024, a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Mandai, juntamente com colaboradores, investigou os impactos do desmatamento em unidades de conservação, com foco na região das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira em Rondônia, e Belo Monte no Xingu (PA). Os resultados da pesquisa mostraram um aumento do desmatamento após a construção das usinas, principalmente em terras indígenas próximas a Belo Monte. Foram identificados 27 eventos PADDD, sendo quatro diretamente relacionados às usinas, permitindo a exploração madeireira e expansão agrícola.
Usina Hidrelétrica (UHE) Belo Monte. Localizada no Rio Xingu, no Pará Crédito: Joédson Alves / Agência Brasil
Entre as alterações destacadas, em 2011, há a Estação Ecológica Serra dos Três Irmãos (ESEC) e a Floresta Estadual de Rendimento Sustentável Rio Vermelho C (FERS), que tiveram seus territórios reduzidos para viabilizar a Usina Hidrelétrica Santo Antônio. No mesmo ano, a Resex Jaci-Paraná também sofreu alterações pelo mesmo motivo. Já em 2010, a Floresta Nacional (Flona) Bom Futuro teve parte de sua área suprimida para permitir a construção da Usina Hidrelétrica Jirau.
Em entrevista a InfoAmazonia, a pesquisadora destacou que “as áreas protegidas ao redor das hidrelétricas tiveram taxas de desmatamento maiores na fase de operação, quando o controle ambiental diminuiu e políticas ambientais foram enfraquecidas”. Mandai acrescentou que “eventos PADDD, especialmente no governo estadual de Rondônia, priorizaram projetos agropecuários e de infraestrutura em detrimento da preservação. Apesar de não causarem diretamente o desmatamento, as hidrelétricas atuam como vetores para atividades que pressionam as áreas protegidas, agravadas por fragilidades na gestão, fatores políticos e invasões”.
O estudo também apontou que o enfraquecimento das políticas ambientais e a crise democrática no Brasil agravaram o desmatamento após a operação das hidrelétricas. Segundo Mandai, “as terras indígenas ao redor de Belo Monte tiveram taxas de desmatamento maiores entre 2018 e 2020, provavelmente resultantes do desmonte das políticas ambientais e indígenas”.
Pressões políticas e socioambientais
O vice-presidente da organização não governamental Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), Marcelo Ferronato, alerta que as decisões políticas sobre a reclassificação das unidades de conservação têm ampliado a pressão socioambiental em Rondônia.
“No caso das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, os impactos acumulativos exemplificam como decisões políticas e econômicas, muitas vezes desconectadas das necessidades das comunidades locais, geram deslocamentos populacionais e mudanças nos modos de vida, além do enfraquecimento da proteção ambiental ao redor das obras”, afirma.
Ferronato destaca que a Ecoporé acompanha de perto os efeitos dos eventos PADDD e os conflitos socioambientais decorrentes das mudanças em áreas protegidas. “Um exemplo recorrente são as pressões por exploração de recursos naturais e expansão agropecuária, que frequentemente resultam em perda de biodiversidade, degradação ambiental e tensões sociais entre comunidades tradicionais, indígenas e outros atores locais”.
O monitoramento das propostas de PADDD é essencial para garantir que qualquer alteração seja conduzida de forma criteriosa. Caso haja real necessidade de implementá-las, é fundamental que sejam precedidas por estudos de impacto socioecológico detalhados, com base científica sólida e ampla participação social.
“É indispensável promover uma gestão eficaz das áreas protegidas, com financiamento adequado, fiscalização rigorosa e sua inclusão em planejamentos estratégicos, como a Avaliação Ambiental Integrada, para assegurar que as decisões não comprometam a conservação da biodiversidade e o bem-estar das comunidades locais”, destaca a pesquisadora Mandai.
Em alguns casos, a perda de proteção legal de áreas ambientalmente protegidas é compensada por ajustes territoriais, como um PADDD de 2024, envolvendo a Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto e a Reserva Extrativista do Lago Cuniã, ambas em Rondônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.039/2024, que reduziu o tamanho da Reserva do Rio Ouro Preto em aproximadamente 20 mil hectares, enquanto ampliou a Reserva do Lago Cuniã em cerca de 24 mil hectares.
A ONG Ecoporé tem promovido iniciativas para a recuperação de áreas degradadas, e mantém um dos maiores viveiros florestais de Rondônia, produz mudas que são destinadas à recuperação de áreas degradadas, mas Ferronato reconhece que os desafios políticos, e a falta de interesse de alguns setores locais em respeitar as normas ambientais, dificultam essa luta.
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Esta reportagem foi realizada com o apoio do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), que atua para amplificar ações climáticas locais e busca desempenhar um papel central no debate climático global. A InfoAmazonia faz parte da coalizão “Fortalecimento do ecossistema de dados e inovação cívica na Amazônia Brasileira” com a Associação de Afro Envolvimento Casa Preta, o Coletivo Puraqué, PyLadies Manaus, PyData Manaus e a Open Knowledge Brasil.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Fernanda Pessoa