Numa roda de conversa promovida pela Secretaria Municipal de Educação (Semec) de Belém na tarde desta terça-feira (3), o líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak citou Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer e Greta Thunberg para falar dos desafios nos tempos futuros, tanto para a educação como para o planeta Terra.
O encontro no Cine Dira Paes, no Palacete Pinho, reuniu dezenas de professores e técnicos e teve caráter formativo, aproveitando a presença do imortal da Academia Brasileira de Letras, que nesta quarta-feira (4) participa dos ‘Diálogos dos Saberes’, no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Krenak afirmou que os ancestrais sabiam viver o tempo presente e nem imaginavam que iríamos viver “a agonia do futuro, que é o sofrimento mental”.
Na sua avaliação, a preocupação com o clima no mundo provoca doenças. “Hoje nós estamos imersos numa realidade planetária, onde o diagnóstico mais recorrente no mundo inteiro é sofrimento mental. Então, habitar o mundo hoje é viver essa crise do clima, uma crise de paradigmas, onde a educação foi a primeira vítima”.
O escritor citou o poema ‘O homem; as viagens’, de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1973, que trata do insaciável desejo do ser humano de conhecer outros planetas, mas a tudo ele descarta. E que a verdadeira viagem que deveria fazer seria para dentro de si mesmo. “Uma parte de nós acredita que, se essa terra se tornar inabitável, podemos ir para outro planeta”, diz Krenak.
E logo em seguida lembrou de Oscar Niemeyer que afirmava que “todos nós tivemos origem junto com os outros animais”. E arremata: “o homem, bicho pequeno na Terra, enjoa da Terra. Quer dizer, enjoa desse planeta magnífico, maravilhoso”.
Krenak prestou homenagem ao líder quilombola Nego Bispo, que viveu no Piauí. “Eu acho maravilhoso alguém que vive uma situação de privação, que sofre racismo, preconceito, segregação e tudo, mas levanta a cabeça e fala, você não pode ter medo de pensar. É maravilhoso, porque pensar é a libertação. Para além de qualquer outra estratégia, primeiro a gente tem que pensar, ter coragem de pensar”.
O líder indígena afirmou que o impacto ambiental que o planeta experimenta aponta para um futuro muito sombrio.
“É mais ou menos como você criar uma dívida enorme e passar o calote para os seus filhos, para os seus netos. Então, é muita cara de pau da sociedade ampla, complexa, que nós nos constituímos no mundo hoje, passar essa conta do clima para as gerações que virão”.
Citou a líder ambientalista sueca, Greta Thunberg, que afirma: “os adultos roubaram o futuro da minha geração”. Ela convocou os seus colegas a não ir para a escola na sexta-feira. Então a semana escolar agora é de segunda a quinta, porque sexta-feira é o dia de fazer protesto. “Quer dizer, ela introduziu uma nova disciplina no currículo, que é protesto”.
Krenak aproveitou para explicar que: “se a gente pensar que vamos criar uma educação de excelência e preparar a próxima geração, isso é uma outra ideologia protelatória. Tipo assim, o planeta quando ficar ruim mesmo, quem vai sofrer com isso não sou eu, são os nossos descendentes. E a outra hipocrisia é dizer que esse período de agravamento do clima no planeta vai ser resolvido”.
Ele prosseguiu dizendo: “se a educação é uma atribuição do mundo adulto, ao transmitir conhecimento para as novas gerações, a fim de darem conta do mundo, a gente falhou. Isso põe em xeque a nossa própria ideia de educação.Tem muita gente convencida ainda de que pode pegar as novas gerações, enquadrar as novas gerações e reproduzir no pensamento das novas gerações as ideologias extravagantes que nos deram sobrevivência até ontem”.
Krenak finalizou lembrando que “a secura dos nossos rios, a mudança dos climas regionais, o desaparecimento de alguns desses ecossistemas que a gente achava que era eterno, agora a gente está vendo que não é. Nós estamos vendo que não é porque temos a possibilidade de fazer o teste vivo, visual. Vocês sentem aqui a mudança da temperatura no corpo”.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) apresenta uma pesquisa sobre o potencial agromineral de Tocantins, destacando alternativas para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Informe de Recursos Minerais ‘Avaliação do Potencial Agromineral no Brasil – Área: Estado do Tocantins‘, que é parte do programa Mineração Segura e Sustentável, visa avaliar descartes da mineração ou de depósitos ainda não explorados, que possam ser usadas como fontes de nutrientes para a agricultura.
O estado foi escolhido devido à sua diversidade geológica e por integrar a fronteira agrícola Matopiba (que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), uma das regiões mais promissoras para o agronegócio. Tocantins é destaque na produção de grãos e frutas tropicais, além de abrigar empreendimentos minerários com potencial para o uso de rochas agrícolas.
Foram analisadas 326 amostras de rochas coletadas em diversas áreas do estado. Entre os destaques estão:
Garimpos de esmeraldas em Monte Santo: os biotita-xistos, associados às esmeraldas, contêm nutrientes como potássio (K), magnésio (Mg), cálcio (Ca), ferro (Fe), silício (Si) e manganês (Mn).
Mineração Rodolita, em São Valério da Natividade: rochas como biotititos e flogopititos são fontes de potássio, manganês, ferro e silício.
Basaltos do nordeste do estado (Filadélfia e Palmeiras do Tocantins): essas rochas fornecem nutrientes essenciais, como cálcio, magnésio, potássio, ferro, silício, níquel e manganês.
Paragnaisses da Formação Xambioá próximo a Araguaína: os finos do produto da lavagem do pó de brita dos biotita-xistos fornecem potássio, magnésio, cálcio, silício e ferro.
Além disso, há depósitos de rochas fosfatadas e de gipsita, utilizados como fertilizantes, além de pedreiras de calcário, que fornecem produtos para correção da acidez do solo. Essa etapa é fundamental para ser aplicada antes ou junto ao pó de rocha.
Redução da dependência de fertilizantes importados
De acordo com dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, atualmente o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que usa. Os números indicam que esse quadro de dependência externa deve se manter por um bom tempo. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022 pelo governo federal, tem como meta reduzir a importação de 85% para 45% até 2050.
O uso de remineralizadores é uma alternativa sustentável e econômica, capaz de fornecer macro e micronutrientes para o sistema solo/planta na agricultura.
Próximos passos
Embora os dados químicos e mineralógicos confirmem o potencial do Tocantins, estudos agronômicos, em parceria com outras instituições, ainda são necessários para confirmar sua eficiência em diferentes tipos de solos e culturas.
O informe representa mais uma fonte de informações indispensável para a atração de novos investimentos no uso de remineralizadores de solo a partir de descartes da mineração, fornecendo insumos não tradicionais para o setor agrícola, contribuindo para impulsionar as economias regional e nacional.
O Bloco Recreativo Carnavalesco Líbero-Musical e Antifóbico “Império Romano”, de Belém, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). O reconhecimento ocorreu no dia 3 de dezembro, por meio do projeto de Lei Nº 600/2023, proposto pela deputada Lívia Duarte (PSOL).
O bloco carnavalesco foi fundado em 1970 e é realizado sempre no dia 25 de dezembro, dia de Natal, nos bairros do Reduto e Umarizal. Aprovado por unanimidade, o PL deve ir para sanção do governo.
Em Manaus (AM), pesquisadores têm utilizado a biotecnologia para garantir mudas de espécies nativas da Amazônia de alta qualidade e uniformes para os setores agroflorestal, medicinal e ornamental. A iniciativa faz parte do projeto ‘Biotecnologia 4.0: Biofábrica de Plantas in vitro’ e visa produzir mudas com uma velocidade maior do que os métodos convencionais, para espécies de valor econômico como pau-rosa, copaíba, sucuuba e jucá. O projeto conta com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Coordenado pelo doutor em Biotecnologia e Biodiversidade, Daniel da Silva, da empresa ‘Magnus Amazônia‘, a ação amparada pelo Programa Centelha Amazonas 2, utiliza uma técnica identificada como micropropagação, que consiste numa clonagem de plantas em escala industrial. A tecnologia de micropropagação pode produzir milhares de mudas geneticamente idênticas e livres de doenças em um tempo menor que os métodos tradicionais.
“A micropropagação é uma técnica de multiplicação de plantas em escala industrial em ambiente controlado. Pequenos fragmentos de uma planta mãe são cultivados em condições assépticas e em meio de cultura enriquecido com nutrientes e hormônios, o que estimula a formação de novas plantas”, disse Daniel, que também é pós-doutor em Ciências de Florestas Tropicais (área de concentração: Silvicultura Tropical) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Foto: Ayrton Lopes/Decon Fapeam
O pesquisador explica que a produção de mudas de alta qualidade, por meio da biotecnologia, contribui para a recuperação de áreas degradadas, a conservação da biodiversidade e a geração de renda para as comunidades locais. Além disso, a utilização de espécies nativas fortalece a economia regional e promove o desenvolvimento de produtos com alto valor agregado.
Benefícios
Entre os benefícios destacam-se a uniformidade, ou seja, todas as mudas produzidas por micropropagação são geneticamente idênticas à planta mãe, o que garante um crescimento uniforme e características homogêneas. As mudas também são livres de doenças e pragas, aumentando significativamente suas chances de sobrevivência após o plantio.
Por ser um processo mais rápido também permite a produção de um grande número de mudas em um curto período de tempo, dessa forma agiliza os processos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. A técnica contribui ainda para a multiplicação de espécies ameaçadas de extinção, favorece a conservação da biodiversidade.
Parceria
A empresa Magnus Amazônia mantém parceria com instituições de ensino, como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Inpa, por meio da integração de alunos de pós-graduação dos cursos de biotecnologia e ciências florestais, respectivamente, em seus projetos de pesquisa, o que fortalece a capacidade de inovação e a aplicação de novas tecnologias no setor de bioeconomia.
Amacro é o acrônimo dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Assim como o Matopiba, acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, se trata de uma região chamada de “zona especial de desenvolvimento sustentável”, criada em 2021 pelo governo federal, para o avanço das fronteiras do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos. No caso da Amacro, o estado do Mato Grosso também faz parte.
Para tratar dos impactos deste avanço das fronteiras agropecuárias nos territórios ocupados por populações tradicionais e áreas de conservação, povos indígenas e pequenos agricultores dos estados que compõem a Amacro se reuniram em Porto Velho (RO), entre os dias 12 e 14 de novembro, para oficinas e discussões de estratégias com o objetivo de enfrentar a roda do desmatamento e destruição associada à Lei 14.701/23, a chamada Lei do Marco Temporal.
A “sustentabilidade” do projeto é questionada pelos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, sem terras e ambientalistas. Segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), só em 2022, por 36% do desmatamento na Amazônia Legal. A abertura de áreas para a agropecuária cresceu em média 5,61% por ano de 2018 a 2022, mais que o dobro da média para o bioma no Brasil.
Uma análise exclusiva da InfoAmazonia, com base nos dados da rede MapBiomas, aponta que em 20 anos, de 2003 a 2022, a área destinada ao agronegócio na Amacro mais que dobrou de tamanho e chegou a 7,2 milhões de hectares, um território maior do que o da Irlanda. Atualmente, em 13 dos 32 municípios que compõem a região, a agropecuária já ocupa uma área maior do que a floresta.
“Nunca fomos consultados ou fizemos parte das discussões sobre Amacro. Sabemos o que é pelas organizações que nos apoiam, como o Cimi, nossos aliados nas universidades, professores e pesquisadores. Enquanto defendemos territórios para a vida, a Amacro quer a morte deles para colocar pasto, plantar soja. As invasões já começaram”, disse Fernandino Quazar Aikanã.
O mercado de carbono também foi abordado durante o encontro em análise sobre os impactos do dispositivo Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). “As terras indígenas passam a não ter mais usufruto exclusivo, são vigiadas, os desmatamentos não cessam e o povo acaba pagando a conta enquanto (indústrias) seguem poluindo. É uma enganação”, enfatizou Fernandino.
Ao término do encontro, os povos presentes redigiram um manifesto contendo suas mais destacadas motivações de resistência.
Leia na íntegra:
Manifesto contra as invasões dos nossos territórios, a mercantilização da natureza e a favor da vida
Nós, lideranças indígenas representantes dos povos: Nawa, Nukini, Huni Kuĩ, do estado do Acre; Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Mura e Munduruku, do estado de Amazonas; Arara, Oro Eu, Cassupá, Aikanã, Oro Waram, Oro Mon, Aruá, Karitiana e Canoé, do estado de Rondônia; Enawene Nawe, Rikbaktsa, do estado Mato Grosso; e comunidades tradicionais em conjunto com nossos parceiros: CIMI, CPT, Fundação Rosa de Luxemburgo, WRM e aliados da causa indígena, reunidos entre os dias 12 e 14 de novembro de 2024 na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia, debatemos sobre as ameaças aos direitos e aos nossos territórios, tais como: a desconfiguração dos direitos dos povos originários, com aprovação da lei 14.701/2023 aprovado pelo Congresso, uma afronta à decisão do STF que julgou o RE 1.017. 365 contra a tese do Marco Temporal.
Reafirmamos a posição da APIB de se retirar da Câmara de Conciliação criada pelo Ministro Gilmar Mendes. Expressamos nossa indignação com o fato do ministro, após a retirada da APIB, ter intimado, por meio do Ministério dos Povos Indígenas, “representantes” para comporem a mencionada Câmara. Nós não consideramos a Câmara de conciliação o mecanismo apropriado para resolver um tema sensível como os direitos originários e fundamentais garantidos pela Constituição Federal nos Art. 231 e 232 como Cláusula Pétrea, os direitos humanos não são negociáveis.
Sabemos que a COP 30 vai acontecer no Brasil. O governo não representa as comunidades indígenas e tradicionais de base na COP 30 e as lideranças indígenas que estão vinculadas ao governo não representam as comunidades indígenas e tradicionais de base. Queremos ressaltar que as lideranças indígenas e povos tradicionais das aldeias e comunidades querem ter informações sobre a COP e nos posicionar nesse debate. Entendemos os REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) e REM (programa do governo alemão para premiar “pioneiros do REDD”) como projetos de falsas soluções para a crise climática.
Denunciamos o avanço da nova fronteira agrícola chamada AMACRO (Amazonas, Acre e Rondônia) sobre os territórios indígenas e sobre a floresta trazendo grandes impactos aos povos indígenas e às comunidades tradicionais com o avanço da plantação de soja, milho, sorgo e uso abusivo de veneno nesses plantios causando doenças em nossas comunidades, poluindo os rios, lagos, igarapés e lençol freático, matando nossos peixes e contaminando todo o ecossistema.
Os grandes projetos de infraestrutura como hidrelétricas, BR 317, BR 319 Rodovia Binacional Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, Ferrovia, ramais, portos impactando os povos indígenas, sobretudo as terras não demarcadas, violando direitos quando não são consultados conforme a Convenção 169 da OTI, que garante a consulta livre, prévia e informada.
Denunciamos o descaso do governo brasileiro e da Funai em relação aos povos indígenas isolados. O governo tem falhado em reconhecer, demarcar e proteger adequadamente os territórios desses povos, enquanto planeja ou apoia projetos que impactam áreas habitadas por estes povos. A mencionada Rodovia Binacional atravessaria o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma das áreas de maior biodiversidade do Planeta e habitat de povos indígenas isolados. Da mesma forma, a proposta da “Ferrovia para o Pacífico”, discutida pelo governo há anos, representa uma ameaça direta à existência desses povos. Além disso, denunciamos as reiteradas iniciativas de prospecção de petróleo nesta região. Esses projetos, caso implementados, terão consequências catastróficas para a floresta e para os povos que nela habitam. Tememos que, com o novo porto de Chancay, no Peru, recentemente inaugurado com a presença do presidente da China, esses empreendimentos ganham novo impulso.
Com ausência do Estado, não demarcando e protegendo as terras indígenas, as comunidades estão à mercê da sua própria sorte com empresas aliciando os povos originários e tradicionais para aceitar contratos de REDD, sem que estes povos entendam como funcionam e o que são estes contratos de REDD. Após ter analisado e discutido esse tipo de projeto, chegamos à conclusão de que ele não pode trazer benefícios de longo prazo para nossas comunidades e nem para as catástrofes ambientais.
Ao contrário, traz divisão e conflitos internos e, ao restringir nosso uso tradicional da terra, ameaça nossa soberania territorial e segurança alimentar. Além disso, contribui com a contínua queima de combustíveis fósseis, uma vez que objetiva a emissão e venda de créditos de carbono, que na verdade devem ser chamados de permissões para poluir. Entendemos que as secas, incêndios e inundações, que cada vez mais frequentemente atingem nossas terras, se dão em consequência da poluição por parte das indústrias e não queremos ser cúmplices desta destruição da nossa Mãe Terra. Ao contrário, exigimos que as sociedades industrializadas, por serem os principais responsáveis pela crise climática, com a máxima urgência, ao invés de “compensarem” suas emissões, com estes enganosos créditos, as reduzam radicalmente.
Exigimos o cumprimento integral dos Art. 231 e 232 da CF que foram referendados pelo STF no julgamento do marco temporal, avançando com as demarcações das terras indígenas e a proteção destes territórios garantindo a integridade física das lideranças indígenas ameaçadas na luta pelo território.
Nos comprometemos em manter as comunidades em alerta para qualquer ameaça aos nossos direitos e aos nossos territórios.
Clamamos a todos os seguimentos da sociedade que se levantem contra os desmontes dos direitos indígenas, nossas terras não estão disponíveis para comércio, mineração e a substituição das nossas florestas para dar lugar ao agronegócio. Resistiremos!
Os rios Amazonas, Purus, Madeira, Solimões, Negro, que estão entre os principais da bacia do Amazonas, e também o afluente Paraná do Careiro, enfrentaram uma seca sem precedentes em 2024.
Onze das 16 estações de monitoramento da altura dos rios da bacia (68% do total) registraram, até 29 de outubro, os níveis mais baixos dos últimos 122 anos, desde o início do monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), segundo análise exclusiva da InfoAmazonia.
O monitoramento do SGB na bacia do Amazonas abrange, além desses seis rios, outros dois: o Acre e o Branco (a reportagem usou o boletim da Bacia do Rio Amazonas, do SGB, que traz os oito rios mencionados. Além destes, os rios Japurá, Xingu e Tapajós também se destacam dentro da bacia, por suas extensões). Juntos, eles são responsáveis por abastecer populações urbanas, ribeirinhas e indígenas nos estados de Roraima, Acre e Amazonas.
“Estamos falando de uma região que depende unicamente dos rios para abastecimento e locomoção. Não temos estradas, temos os rios”, explica Jussara Cury, pesquisadora responsável pelos boletins do SGB da bacia do Amazonas.
A bacia se estende além dos limites do Brasil, abrangendo também a Colômbia, o Peru, o Equador e a Bolívia, sendo a maior bacia hidrográfica de água doce do planeta, com 1.700 rios e os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo: Mariuá e Anavilhanas. Além disso, o rio Amazonas, que integra a bacia, é o maior rio do mundo.
11 das 16 estações de monitoramento da bacia do Amazonas atingiram menor nível da história em 2024
Seca nos rios Amazonas, Madeira, Solimões, Negro, Purus e Careiro levou às menores cotas mínimas em 122 anos. Cada estação possui uma régua com uma marca zero, que representa o nível do rio no momento em que ela foi instalada. Os índices negativos estão abaixo dessa marca.
O rio Solimões tem quatro pontos de medição do nível da água localizados nos municípios de Tabatinga, Manacapuru, Itapeua e Fonte Boa. Cada um deles possui uma régua com gradações em centímetros com a marca zero, que representa o nível em que o rio estava no momento em que a régua foi instalada. A data da instalação varia e, no caso desses rios, ocorreu há cerca de 30 anos.
Todas as quatro estações do rio Solimões registraram o menor nível da história, conhecido como evento mínimo. Em Fonte Boa, a seca mais grave havia ocorrido em 2010, quando o rio atingiu 802 centímetros (cm) em 22 de outubro. Em 2024, o nível chegou a 717 cm em 12 de outubro.
Seca no rio Solimões no município de Tabatinga
Estação de monitoramento do município atingiu o menor nível da história em 8 de outubro deste ano.
Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia
Na estação de Tabatinga, a cota (termo técnico para o nível do rio em altura) mínima histórica era de -86 cm (oitenta e seis centímetros abaixo da marca zero da régua), registrada em outubro de 2010. Em 2024, o evento mínimo atingiu -234 cm, também em outubro.
O povo Kokama vive agora às margens de um rio Solimões seco. São mais de 100 pessoas que moram à beira de um extenso banco de areia, numa praia formada após a seca, na Terra Indígena (TI) Assunção, próxima ao município de Alvarães, no Amazonas, a cerca de 531 km da capital Manaus.
Terra Indígena Assunção vive a seca do rio Solimões
Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia
A TI ainda não é demarcada pelo governo federal e falta infraestrutura para amenizar os danos de eventos extremos. Por isso, os moradores da comunidade racionam água desde agosto. Parte deles usa a água do poço, enquanto a outra espera pelo dia seguinte para sua vez.
A conselheira de saúde da TI, Maria Auxiliadora Kokama, conta que a situação se agravou na seca do ano passado e, neste ano, se repetiu. Quando conversou com a reportagem, em setembro, ela estava sem água na torneira, aguardando o dia seguinte para ter acesso.
“Eu nunca imaginei que esse rio ficaria assim, mas o meu velho pai dizia que um dia o Amazonas se tornaria o Ceará. Isso aqui, esse mundão de rio, ele disse que um dia ia virar seca. Eu me lembro dessas palavras dele e hoje eu tô vendo”, diz a conselheira de saúde.
Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia
As faixas de areia aumentam a distância até os municípios mais próximos e provocam o surgimento de redemoinhos e tempestades de poeira. Os ventos sopram com tanta força que movimentam a areia, fazendo-a flutuar no ar e formar uma nuvem de poeira.
“A senhora nem imagina como isso aqui fica branco, branco, branco de areia. Dentro da nossa casa fica um monte de areia. É muito triste. Às vezes, dá vontade de a gente abandonar e ir embora”, conta. “Tem criança que tem arritmia, que tem asma, [é] pior quando eles gripam. A areia atrapalha muito”, complementa.
Por causa dessas tempestades de areia, da falta de água e do excesso de calor, o professor Gleison Martins, que ministra aulas de língua kokama e saberes ancestrais na comunidade, precisou reduzir a carga horária escolar.
“O calor é quase insuportável. Por causa da secura, os alunos ficam agoniados. Por mais que você tenha o ventilador, por mais que você esteja com sua água gelada o tempo todo, o calor deixa a gente fadigado”.
Martins tenta explicar às crianças que a seca é um dos eventos climáticos extremos e usa a situação como exemplo para falar sobre a importância da preservação da floresta. “Todo dia, nós vemos que o nosso Solimões está se tornando um deserto. Aqui, na frente, estava a nossa água para tomar nosso banho. Hoje nós estamos vendo uma pintura seca. Nossas crianças estão sentindo tudo isso”, conta.
Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia
A pesquisadora Jussara Cury afirma que a estação de Tabatinga é a referência para a bacia, localizada no oeste, onde o Solimões entra no país.
“Tabatinga está na região mais a montante, é por lá que eu vou saber quando a estiagem vai acabar. Se o rio está subindo, se está mais consistente, se mudou o regime, é por lá que monitoramos”, explica.
De acordo com o último boletim divulgado pelo SGB, em 6 de novembro, a estação de Tabatinga está apresentando elevações diárias consideráveis, subindo 2,84 m naquela semana. Caso ocorra estabilidade nas elevações nos próximos dias, ainda deve levar semanas para que o restante da bacia atinja estabilidade. Em outros rios, como o Negro, na estação de Manaus, o nível continua a descer.
Foto: Paula Silva/ Instituto Mamirauá
Rios secaram mais cedo
No rio Negro, há quatro estações de monitoramento do SGB: Tapuruquara, São Gabriel da Cachoeira, Manaus e Barcelos, sendo que as duas últimas atingiram os menores níveis históricos este ano. Em Manaus, o rio chegou a 12,17 metros (m) em 8 de outubro. Dois dias depois, em 10 de outubro, atingiu outra marca histórica: 12,11 metros. A pior cota anterior era de 12,70 m, registrada em 26 de outubro do ano passado. Em Barcelos, o recorde de 2024 foi de 6 cm em 28 de fevereiro, enquanto a mínima anterior registrada era de 58 cm, atingida em 18 de março de 1980.
Ou seja, em ambas as estações, o recorde ocorreu antes do que geralmente é previsto. A InfoAmazonia também verificou o padrão das datas em que os rios atingiram os níveis mais graves e verificou que isso também se repete nos outros rios: das 11 estações que registraram recordes neste ano, 10 tiveram eventos mínimos entre o final de setembro e o começo de outubro. A análise histórica mostra que o esperado era que isso ocorresse no final de outubro.
Desde que osefeitos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, começaram a ser sentidos em julho de 2023, a chuva diminuiu na Amazônia. Essa seca antecipada também está atrelada ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que provoca a evaporação do ar, que chega à Amazônia e inibe a formação das nuvens carregadas. Com os dois fenômenos ocorrendo ao mesmo tempo, a região viu os rios apresentarem um cenário fora da normalidade.
Segundo os dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicados no início de novembro, 59% dos municípios do estado do Amazonas (37 dos 62 existentes) estão passando por níveis de seca severa e extrema. Em oito localidades, o evento ocorre há mais de um ano: Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Codajás, Maraã, Guajará, Fonte Boa, Uarini e Ipixuna.
Foto: Paula Silva/Instituto Mamirauá
As comunidades ficam mais isoladas
A cidade de Uarini, distante 595 km da capital Manaus, enfrenta condições de seca há 15 meses. A região é banhada pelo Solimões e seus afluentes. Lá, a jovem Bianca* Silva (*nome fictício, substituído a pedido da entrevistada), de 20 anos, precisou dar à luz à filha sem uma equipe médica completa, porque não teve tempo de chegar ao hospital.
A cidade de Bianca conta com uma unidade de saúde limitada e, quando necessário, os pacientes são encaminhados para Tefé, município que com a seca fica a 4 horas de distância. Em época de normalidade do rio, esse tempo se reduz para 3 horas.
No final da gravidez, ela já estava sendo orientada a ter um parto cesariano, realizado por meio de uma cirurgia com corte na parte inferior do abdômen. Quando começou a sentir as dores, em 12 de setembro, foi levada ao hospital de Uarini, onde duas enfermeiras e uma parteira estavam presentes. Para ela, o ideal seria fazer a cirurgia, mas não foi possível, já que a equipe médica necessária para a cesárea inclui também um obstetra e um anestesiologista.
A alternativa de viajar até Tefé para realizar o procedimento também estava indisponível. Com rios estreitos, rodeados por praias e com o surgimento de galhos e rochas no caminho, a viagem implicava o risco de naufrágio, tempestades de areia e acidentes com outras embarcações. “Eu não tinha passagem [dilatação] para ter o parto normal, mas acabaram me fazendo ter o parto normal mesmo. Minha filha já estava muito embaixo. Ela nasceu com uma manchinha vermelha no olho porque eu a ‘apertei’ muito durante a passagem”, conta a jovem.
Agora, Bianca e sua filha enfrentam o calor intenso da cidade. Na casa de palafita onde moram, os ventiladores são a única opção. Bianca tenta amenizar o calor colocando a filha nos locais mais frescos, mas o calor já começa a afetar a saúde dela. “Ela fica muito agoniada, com o rostinho vermelho. Deixo ela só de fralda, coloco no colchãozinho lá fora, mas está muito quente”.
Outro que precisou enfrentar a seca do rio Solimões para ter acesso ao hospital foi Mesaque Brandão, 16 anos. Jovem da Comunidade Vila Soares, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Amanã, no município de Uarini, ele quebrou o pé jogando bola em 19 de setembro. Sem uma rabeta em casa, precisava pedir emprestado uma embarcação e navegar cerca de 30 minutos até a cidade.
Vídeo: Reprodução / Infoamazonia
A situação era difícil, porque o acidente ocorreu no final da tarde e navegar à noite é muito perigoso. Além dos impactos da seca, a região é conhecida pela presença dos piratas, homens que roubam dinheiro, objetos e embarcações nos rios. Brandão só conseguiu sair de caso no outro dia, pela manhã.
“Eu estava chorando de dor e lá não tem posto de saúde. O jeito foi a gente vir para cá. A minha mãe veio me trazendo devagarzinho, vim segurando no ombro dela. Chegando no porto eu peguei uma moto, não estava mais aguentando, foi difícil”, conta.
Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia
Como analisamos a seca na Bacia do Rio Amazonas?
Nesta reportagem, analisamos os dados semanais de nível dos rios (cotas) publicados em boletins do Serviço Geológico do Brasil (SGB) de janeiro a outubro de 2024, que também informam os níveis mínimos históricos de cada estação desde 1902.
O escopo da análise compreende 16 estações da bacia do rio Amazonas, monitoradas pelo SGB, distribuídas por 8 rios, são eles: Acre, Amazonas, Branco, Madeira, Negro, Purus, Solimões e Paraná do Careiro.
Para a análise e elaboração do gráfico que mostra a série histórica dos níveis dos rios, utilizamos os dados diários de cotas abertos da Agência Nacional das Águas (ANA) de 1920 a 2023.
Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dados nesta pasta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira
Com mais de 2,5 milhões de hectares de florestas, com capacidade de armazenar 6,8 bilhões de toneladas de carbono, o Projeto Datem Wetlands (PHD) promoveu melhor qualidade de vida para mais de 15 mil pessoas de cerca de 120 comunidades indígenas da província de Datem del Marañón, na região de Loreto, no Peru.
A importância destas zonas úmidas na zona oriental de Loreto reside no fato de, segundo um estudo de medição de carbono – realizado pelo Instituto de Investigação da Amazônia Peruana (IIAP) e Fundo Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Profonanpe) – , o Abanico del Pastaza é a terceira maior reserva de carbono do mundo, depois dos ecossistemas da Região Central Kalimantan, na Indonésia, e Cuvette Central, na República do Congo.
Esta é uma tarefa desenvolvida pelo Profonanpe e outros aliados que foi anunciada durante uma apresentação em Lima que contou com a presença dos principais protagonistas como os representantes de diversas comunidades que foram à capital peruana para divulgar o trabalho realizado e o que produzem.
Foto: Divulgação/Agência Andina
O objetivo é melhorar as capacidades das pessoas que vivem em ecossistemas de zonas úmidas ricos em carbono e reduzir as emissões de gases com efeito estufa causadas pelo desmatamento.
“A tarefa não tem sido fácil e os desafios não têm sido poucos, mas os resultados são bastante encorajadores porque foi conquistada a confiança das comunidades para a realização dos seus projetos”, afirmou Patrícia Balbuena Palacios, diretora do Projeto Zonas Úmidas de Datem, em declarações à Agência Andina.
Balbuena explicou que tem sido de vital importância identificar quais são os recursos e o que querem fazer com eles e que agora, uma vez concretizados os seus negócios que estão a ganhar mercados, é necessário continuar a escalar para aumentar as suas vendas.
Sustentou ainda que tem sido dado total apoio a iniciativas para aumentar as vendas em vários setores ligados a frutas como o cacau.
“Estão a chegar a vários mercados, têm acordos com várias empresas e há várias conferências empresariais envolvidas e, agora, estão a mostrar os seus produtos nesta apresentação e isso é bom porque precisam crescer mais”, afirmou.
Foto: Divulgação/Agência Andina
Entretanto, José Nieto Navarrete, chefe do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Sernanp), as zonas úmidas de Datem del Marañón são um ecossistema muito importante porque conservam as florestas, o que é significativo para a regulação do clima.
Acrescentou que embora estas florestas apresentem perigos e enfrentem atividades ilegais – como a mineração – , culturas ilícitas e desmatamento, projetos como os desenvolvidos pelas comunidades com os recursos das suas próprias áreas “mostram-nos o caminho correto de como devemos trabalhar com as pessoas”.
Por sua vez, o diretor executivo do Profonanpe, Anton Willems, destacou o apoio de diversas organizações nacionais e internacionais e da sociedade civil para a realização do Projeto Datem Wetlands após cerca de dois anos de trabalho com as comunidades e que agora pode-se ver o resultados, mas também a atitude de continuar a apostar e a crescer.
Nesse sentido, garantiu que com os novos aliados o trabalho pode continuar para conservar a zona úmida mais importante do Peru e uma das mais importantes do mundo.
Foto: Divulgação/Agência Andina
Para Willens, a iniciativa contribui para proteger um dos ecossistemas mais importantes do mundo declarado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em 2002.
Ele explicou que trabalham lado a lado com mais de 100 comunidades de sete povos indígenas da Amazônia para que possam melhorar suas condições de vida através do uso sustentável de seus recursos não madeireiros e da pesca artesanal.
A ex-Apu da Comunidade Nativa Progreso e Parceira Tajima, Emilia Wishu Ukunchan, destacou o trabalho realizado pelos membros das comunidades, através de diversas associações e ao mesmo tempo agradeceu a oportunidade que lhes foi dada de produzir em diferentes atividades, o que os “deixa orgulhosos” porque lhes permite avançar ainda mais por serem cidades bastante remotas, para não dizer esquecidas.
Foto: Divulgação/Agência Andina
Projeto financiado pelo Fundo Verde
O PHD é o primeiro projeto financiado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF) na região, aprovado no âmbito da COP20 realizada no Peru e em aliança com organizações indígenas como CORPI SL, organização regional de Aidesep e Município Provincial de Datem del Marañón.
O projeto chegou a U$ 9.138 milhões, dos quais 6,8 milhões foram contribuídos pelo GCF e 1,8 milhões pela agência Koica. As cadeias de valor mais importantes incluem itens como aguaje, cacau nativo e alguns peixes.
Para isso, foram implementadas 12 bioempresas âncoras e 49 unidades de bionegócios nos corredores que atravessam os rios Pastaza Morona e Marañón.
Da mesma forma, foi alcançada a aprovação de 52 Declarações de Gestão (DEMA) e três Programas de Gestão Pesqueira (Promape) para utilização de recursos, numa área de 399 mil hectares.
Os bionegócios contam com 874 sócios, sendo 406 mulheres e 468 homens de comunidades indígenas. Os mesmos que estão formalizados em registros públicos e possuem Registro Fiscal e reportam suas vendas anuais à Sunat.
A iniciativa também garantiu que o desmatamento não aumentasse no seu âmbito de intervenção e, juntamente com organizações indígenas e governos locais , existe um nível de institucionalidade local para vigilância e monitoramento comunitário.
Profonanpe
O Profonanpe é o fundo ambiental do Peru e tem mais de 30 anos de experiência na captação e gestão eficiente de recursos financeiros para a execução de programas e projetos que contribuem para a conservação da biodiversidade e para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Boto-cor-de-rosa é encontrado morto em rio da Amazônia. Foto: Sea Shepherd Brasil
“Moro neste flutuante há 40 anos, e essa é a maior seca que eu já vi na minha vida. Dá para ver que a água baixou muito mais do que em 2023”, conta Carlos Magno, enquanto aponta para o ponto onde a água chegou no ano passado.
“Assusta ver esse cenário. Assusta mais por causa das notícias que mostram que a cada ano vai piorar”.
Carlos é mecânico de barcos e vive em um flutuante – uma casa sobre a água, construída geralmente de madeira ou metal – à margem do Lago Tefé, no município de mesmo nome, no coração do estado do Amazonas. Apaixonado pela vida junto ao lago, cercado pelas águas, floresta e animais, ele e sua família agora consideram se mudar para terra firme diante das secas cada vez mais severas.
“O flutuante já está todo em terra. Dê uma olhada aqui para ver o quanto a água desceu. Esta seca está quase 30 dias atrasada, não costuma chegar nesse ponto”, diz ele, preocupado. A água precisa subir para Carlos poder retomar o trabalho: com o baixo nível dos rios e lagos, as embarcações deixam de trafegar e ele perde clientes. Já está há dois meses sem trabalho.
O Lago Tefé, uma formação lagunar do Rio Tefé próxima ao encontro com o Rio Solimões, vem vivendo uma seca histórica este ano, atingindo o nível de apenas 4,54 metros – 13,5 metros abaixo de junho, no início da estiagem, quando chegou a 18 metros (veja gráfico abaixo). Além da drástica redução, a água restante registrou temperaturas altíssimas, chegando a 40,3 ºC – o mesmo patamar de 2023, conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).
Em toda a Amazônia, 69% dos municípios vêm registrando índices de seca ainda mais intensos que os de 2023 – um aumento de 56% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Índice Integrado de Seca (IIS). No Amazonas, o Boletim Estiagem 2024, divulgado pelo governo do estado, indica que mais 850 mil pessoas foram impactadas pela descida das águas, e todos os 62 municípios estão em estado de emergência. Segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), a estiagem pode se agravar ainda mais até o mês de dezembro.
“Nas últimas décadas, temos observado uma intensificação dos eventos hidrológicos extremos, com cheias e secas recordes ano após ano”, diz Ayan Fleischmann, pesquisador titular do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia, do Instituto Mamirauá.
Outro monitoramento realizado por uma plataforma desenvolvida pela World Wildlife Fund Brasil (WWF-Brasil) e pelo MapBiomas, que acompanha 23 dos mais de 60 lagos da Bacia Amazônica, revelou que, desde agosto, as águas dos lagos conectados aos rios também têm atingido temperaturas mais altas.
Em 2024, doze desses lagos já estavam com temperaturas acima das registradas em 2023. Os dados também mostraram que esses lagos acumulam de cinco a nove meses com temperaturas médias superiores às do ano anterior, o que ressalta o estresse fisiológico dos seres vivos expostos repetidamente às altas temperaturas e baixos níveis de água.
É o caso dos botos.
A seca histórica no Rio Solimões reduziu drasticamente o nível do Lago Tefé, que atingiu apenas 4,54 metros em outubro. Foto: Alessandro Falco/ICMBio
Nas águas, uma tragédia anunciada
No Lago Tefé, em setembro e outubro de 2023, foram recolhidas 209 carcaças de tucuxis (Sotalia fluviatilis) e botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), segundo pesquisadores do Instituto Mamirauá. Apenas no dia 28 de setembro, 70 carcaças foram encontradas na região, um evento de mortalidade sem precedentes para essas espécies. Naquele ano, a maioria das mortes foi relacionada ao superaquecimento das águas, que alcançaram temperaturas superiores a 40 ºC.
De acordo com estimativas do Instituto Mamirauá, o Lago Tefé abriga uma população de aproximadamente 900 botos-cor-de-rosa e 500 tucuxis. Com uma taxa de reposição anual de apenas 5%, a perda de mais de 200 animais em 2023 representou um impacto significativo para essas populações. Cerca de 80% dos animais mortos naquele ano eram botos-cor-de-rosa.
Ambas as espécies de golfinhos de água doce da Amazônia estão na lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). O boto-cor-de-rosa e o tucuxi são classificados como “em perigo” de extinção, o que significa que a espécie provavelmente será extinta em um futuro próximo. Esse é o segundo nível mais grave de ameaça na classificação da IUCN.
Em 2024, o ICMBio e o Instituto Mamirauá decidiram se antecipar à tragédia. “A seca foi tão intensa no ano passado que o rio nunca recuperou seu nível. Já começamos com déficit de água. A expectativa era de que a tragédia iria se repetir”, diz Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá. “Nós estávamos preparados para uma nova emergência, com monitoramento mais intenso, capacitação de equipe e aquisição de equipamentos específicos.”
Diante do alto número de animais mortos, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) instaurou em 2023 a Emergência Botos Tefé, com apoio técnico do Instituto Mamirauá e parceria com diversas instituições, para averiguar a situação. O mesmo instituto também lançou, em setembro, a Emergência Fauna Aquática 2024, a fim de intensificar o monitoramento dos animais na região e evitar novas mortes. Mais de 50 profissionais ficaram responsáveis por monitorar as condições de água e o comportamento dos animais duas vezes ao dia.
Entretanto, a mortandade de botos não foi como o esperado. “Este ano secou mais, está uma quentura e a gente não viu boto morrer. Ficamos sem entender”, comenta Carlos, que em 2023 ajudou a recolher e transportar carcaças que, muitas vezes, encalhavam no seu quintal de casa.
Valdinei Lemos Lopes, que trabalha com botos há mais de 20 anos e já colaborou com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Mamirauá, acredita que os animais, prevendo uma estiagem ainda mais severa, se deslocaram para locais mais seguros. “Os bichos sabem mais que a gente; eles vivem lá. Ano passado, a seca chegou rápido e eles não tiveram tempo de sair do lago. Este ano, eles cuidaram de sair logo”, explica.
Segundo o pesquisador Ayan Fleischmann, o que evitou uma repetição da tragédia de 2023 foi a menor incidência de radiação solar. Este ano, houve menos dias seguidos de sol intenso e maior presença de chuva e nebulosidade, o que impediu que o lago se mantivesse a 40 ºC por longos períodos.
“A variação de temperatura da água no Lago Tefé é muito alta. Em um único dia, ela pode variar de 27 ºC pela manhã a 40 ºC à tarde. Isso afeta todos os seres do ambiente aquático, mas não resulta no superaquecimento extremo das águas”, diz Ayan.
Resumindo: em 2024, não foram registradas mortes de botos relacionadas ao estresse térmico. No entanto, o ICMBio contabilizou 14 mortes de animais, incluindo oito botos-cor-de-rosa, quatro tucuxis e dois peixes-boi, todos com sinais de interação humana, como pesca, caça ou colisões. As carcaças desses animais estão sendo analisadas para determinar as causas exatas das mortes.
Mas o fator por trás das mortes desses animais continua sendo a seca. A questão é que, com o baixo volume das águas, mamíferos aquáticos ficam mais vulneráveis e expostos a interações negativas com humanos, como pesca, caça e atropelamentos por barcos.
Em Coari, cidade próxima a Tefé, a organização Sea Shepherd, que monitora a fauna local, contabilizou 37 carcaças na região, sendo 22 tucuxis, cinco botos-cor-de-rosa, dois golfinhos não identificados, quatro peixes-boi e outros quatro pedaços de peixe-boi. Embora alguns animais já estivessem em estágio avançado de decomposição, todos tinham indícios de ação antrópica. “Encontramos os animais com marcas de rede de pesca e facadas”, diz Nathalie Gil, diretora executiva da Sea Shepherd.
Nathalie relata que, logo na primeira semana de monitoramento, a equipe já observou sinais de caça ilegal à distância. Em uma ação com a Polícia Militar, encontraram uma boia com dois peixes-boi mortos.
“O peixe-boi é alvo de uma caça exacerbada, que é consumida internamente em Coari. Estamos falando de um consumo grande, de 15 a 20 animais caçados por dia”, fala Nathalie. O peixe-boi-amazônico é uma das 1.182 espécies brasileiras ameaçadas de extinção, com o status de “vulnerável” na Lista Oficial de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.
A batalha entre botos e pescadores Embora os botos não sejam alvo direto da caça, eles travam uma batalha contra os pescadores da região. Segundo o pescador Edinei de Lima Ferreira, o boto-cor-de-rosa é “preguiçoso”. O animal espera a malhadeira – uma rede de pesca composta por malhas – encher de peixes para rasgá-la e se alimentar. “O boto rasga a rede e nós perdemos o peixe todinho”, diz ele.
“A gente trabalha com tanto carinho, remenda, bota a rede no rio, mas o bicho vem e rasga tudo. Se pelo menos ele tirasse o peixe com educação, eu não ficaria com raiva”, conta Edinei. “Mas se pudesse mesmo a gente matava todos eles”, fala em tom de brincadeira.
No entanto, andando pela cidade de Tefé ou navegando pelas águas dos rios, é possível perceber que a tensão entre os botos e os pescadores é assunto sério. Valdinei Lemos Lopes, que tem anos de experiência com a espécie, conta que é raro encontrar na região alguém que goste do boto. “Tem gente que acha bonito, mas distante, não próximo. Ainda existe esse receio das lendas de que o boto pode fazer mal”.
No folclore brasileiro, o boto-cor-de-rosa é conhecido por sua mística capacidade de seduzir. A lenda diz que, em noites de lua cheia, o animal emerge dos rios transformado em um homem atraente, capaz de conquistar uma jovem e engravidá-la antes de retornar às águas.
Hoje, sabe-se que a lenda do boto tem forte relação com casos de violência sexual na região. No entanto, por muitos anos, ela alimentou a perseguição a esses animais, que eram mortos por medo de seus supostos poderes de sedução. Também há relatos de que partes do boto eram utilizadas como amuletos e que sua gordura servia para fins medicinais. Embora a lenda já não seja o principal motivo para a caça, a captura retaliatória ainda ocorre em alguns locais.
Na disputa entre pescadores e botos pelos recursos pesqueiros, o ressentimento dos pescadores vem chamando a atenção de pesquisadores. Para evitar conflitos, estão sendo desenvolvidos dispositivos sonoros que mantêm os botos longe das redes de pesca, prevenindo tanto a destruição das malhadeiras quanto retaliações contra os animais.
A WWF-Brasil, em parceria com a Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), começou a testar essa tecnologia em junho de 2023, na comunidade Prainha I, localizada no Pará, na Floresta Nacional do Tapajós, onde os conflitos são comuns. Nos primeiros testes, houve uma redução de 40% dos danos às malhadeiras e um aumento de três vezes na quantidade de pescado. Porém, a eficácia diminuiu na segunda fase de testes, quando os botos passaram a se adaptar ao ruído e encontrar novas formas de aproximação.
Karen Lucchini, pesquisadora do Centro de Mamíferos Aquáticos, destaca que os esses dispositivos, chamados pingers, foram originalmente projetados para o ambiente marinho e que sua adaptação para o uso em rios exige ajustes importantes. Além disso, a adoção da tecnologia pelos pescadores é outro desafio. “Enfrentamos resistência dos pescadores, que temem que a pesca diminua com o uso dos dispositivos. Além disso, o custo dos aparelhos é elevado, e adaptar essas tecnologias de forma acessível ainda é difícil”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Mayala Fernandes
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em Roraima, realizou em escolas da Zona Rural dos municípios de Boa Vista e Cantá, uma ação social que beneficiou centenas de crianças, filhas de produtores rurais, com palestras e práticas sobre higiene bucal.
As crianças que vivem em áreas rurais tem dificuldades em procurar assistência ou tratamentos dentários, devido as condições financeiras ou até mesmo a dificuldade em chegar até a cidade por conta das localizações geográficas.
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
Nas condições de saúde bucal, os grupos de crianças enfrentam diariamente diferentes causas que os levam a vulnerabilidade como doenças bucais, má alimentação ou até mesmo a higienização oral irregular.
O projeto Saúde Bucal no Campo, segundo a equipe técnica do Senar Roraima, deu assistência a 1418 crianças. Contou com seis odontólogos e cerca de seis pessoas da equipe técnica do Senar. O programa faz parte das iniciativas de saúde preventiva e tem como objetivo melhorar a qualidade de vida do homem e da mulher do campo.
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Para a equipe técnica que estava a frente da ação, a falta de acesso a informação para maiores cuidados odontológicos, é uma das motivações para que esse projeto exista e colabore com a melhor qualidade de vida da população rural.
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
“O foco dessa ação é o cuidado com a saúde bucal das crianças e adolescentes, transmitindo orientações sobre técnicas e hábitos atualizados para manter a boca saudável, ajudando a melhorar a qualidade de vida no campo. Esse projeto se faz importante devido ao acesso à informação e ao cuidado odontológico, que muitas vezes no campo é menor”, informam.
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
Entre as principias atividades realizadas com as crianças durante a Saúde Bucal no Campo,estão as palestras educativas sobre saúde bucal, anamnese (entrevista inicial que coleta informações sobre a criança ou adolescente, sendo fundamental para o planejamento de um tratamento ou avaliação psicológica) e aplicação de flúor.
‘Paricá – territórios em ação’ é um novo programa de impacto socioambiental que visa promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia Brasileira, apoiando projetos e iniciativas que contribuam com a conservação da biodiversidade, a redução da pobreza e a promoção da diversidade e equidade.
Fruto de uma parceria entre a Suzano, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), USAID Brasil e Aliança Bioversity & CIAT, a primeira edição do edital será focado em cinco municípios na região sudeste do Pará: Abel Figueiredo, São João do Araguaia, Bom Jesus do Tocantins, Rondon do Pará e Dom Eliseu.
“Essa parceria entre PPA e Suzano é muito importante para nós da USAID (…) representa um investimento de grandes empresas que são atores de impacto e reconhecem o seu papel em apoiar o desenvolvimento sustentável da região e da Amazônia. Isso é essencial”, afirma Catherine Hamlin, diretora de Meio Ambiente USAID Brasil.
Para realizar sua inscrição no edital, as organizações privadas sem fins lucrativos devem ser formalizadas há no mínimo dois anos, com registro legal no Brasil, e estarem alinhadas às políticas da Tese de Desenvolvimento Territorial da PPA e Estratégia de Sustentabilidade da Suzano.
Serão consideradas iniciativas que atendam a um dos eixos temáticos abaixo: Eixo 1: Conservação Ambiental e Regeneração de Ecossistemas; Eixo 2: Desenvolvimento Econômico Sustentável, Inclusão Social e Redução da Pobreza; Eixo 3: Governança Territorial Participativa.
Foto: Divulgação/PPA
Com essa união de esforços, é possível contribuir para a qualidade de vida, geração de renda e fortalecimento da governança territorial das comunidades, por meio de projetos de capacitação, agroecologia e implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs).
“Não tem como lutarmos pela recuperação e manutenção da floresta, sem um cuidado e um olhar voltado para o desenvolvimento das comunidades que aqui habitam. É nossa função como sociedade promover a articulação e união de diversos atores para juntos atuarmos em prol da Amazônia”, comenta Giordano Automare, gerente executivo de Desenvolvimento Social da Suzano.
Ao final do projeto, pretende-se estabelecer um modelo de desenvolvimento sustentável integrado, que possa ser usado como referência para outros parceiros e regiões do Brasil.
O período de inscrições do edital será de 27 de novembro até 16 de dezembro de 2024, às 23h59 (horário de Brasília).