O município de Santa Rosa do Purus, cidade isolada do interior do Acre, distante 299 km de Rio Branco, enfrenta dificuldades devido à seca severa do Rio Purus. Suprimentos como combustíveis, alimentos e gás de cozinha estão em falta na cidade, pois os barcos que levam esses insumos não conseguem chegar à cidade. A situação também é grave nos municípios de Jordão e Marechal Thaumaturgo.
O prefeito de Santa Rosa do Purus, Tamir Sá, disse que a prefeitura está disponibilizando barcos pequenos para ir até os barcos grandes para buscar aos poucos as mercadorias e combustível. “Nós estamos mandando uma canoinha pequena pra socorrer o barco pra trazer combustível porque a cidade não tem mais gasolina nem nada. Os barcos que estão andando aqui só barco pequeno”, disse.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito contou ainda que há dificuldades em chegar todo tipo de mercadoria no município. Ele contou que há balsas que estão há seis meses sem poder sair da cidade, por motivo do rio estar com nível muito baixo.
Sá acrescentou que há barcos ancorados há 10 dias na beira do Rio Purus, sem conseguir sair. “O rio já tá há mais de cinco meses nessa situação e agora se agravou muito mais. O que que nós pedimos as pessoas, as autoridades, os deputados, o nosso governador que dê apoio ao nosso município, faça a estrada que a gente tanto precisa. Nunca a gente tinha visto uma seca tão grave dessa”, afirma ele.
O prefeito acrescentou ainda que o principal interesse em construir a estrada é para que as pessoas que vivem no local não precisem sofrer com a falta de insumos. “Uma cidade dessa tão boa, o pessoal é muito feliz aqui, mas está na situação que tá, situação de emergência mesmo. Está faltando praticamente tudo”.
O gestor indicou que não sabe como será futuramente a situação do rio, que cada dia seca mais. “Nós não temos outra coisa a fazer a não ser pedir socorro as autoridades, por isso que nós queríamos tanto essa estrada porque sabemos que cada vez mais pode ficar pior a situação”, pediu.
Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC
A prefeitura da cidade menciona que o único posto de combustíveis da cidade ficou sem gasolina mais de dez dias e no dia 1º de novembro, um pouco do produto chegou, mas em poucas horas acabou, pois a quantidade é pequena.
Também foi informado que o básico na alimentação, como por exemplo o arroz está em falta nos comércios do município. “Não estamos tendo itens da cesta básica. Semana passada chegou um fardo em um comércio e logo acabou. Os comerciantes estão trazendo o que podem por voadeira até o ramal (estrada de barro), e daí segue por caminhonetes” disse.
A prefeitura explicou ainda que para comprar o gás de cozinha é necessário entrar em uma lista de espera pra quando for chegar, a população tentar comprar. “Um comerciante que fornece para a população avisa que tal dia pode chegar, então, os clientes se submetem a colocar seu nome na lista para poder reservar uma botija”, esclarece.
Defesa Civil
O coordenador da Defesa Civil Estadual, cel. Carlos Batista, explica que o fenômeno La Niña está atuando, porém o volume de chuvas ainda não é suficiente para que os rios do interior aumentem o nível.
“O fenômeno La Niña traz um maior volume de chuva para nossa região, só que essas chuvas não estão acontecendo em volumes significativos. Os nossos rios, principalmente, o Rio Tarauacá, Rio Juruá, e Rio Purus, ainda continuam com cotas mínimas muito abaixo da média prevista para esse período”, disse.
O coordenador pontuou que o baixo nível dos rios prejudica o abastecimento dos municípios isolados, resultando na falta de combustível e mercadorias, como o que vem acontecendo em Santa Rosa do Purus, o que dificulta também a assistência prestada pela Defesa Civil Estadual.
“Todos estão com cota muito baixa para esse período, o que dificulta todas as ações, principalmente para os municípios isolados. Os mais impactados são Santa Rosa do Purus e Jordão, esses mananciais são rios de calha menor, o que dificulta o transporte de produtos para essas localidades. Então, a solução é aguardar a subida dos rios, por estrada é muito complicada a situação da abertura de estrada para essas localidades”, comentou ele.
Seca no interior
Em agosto desse ano, a seca do Rio Juruá fez com que os moradores de Marechal Thaumaturgo, distante 558 km de Rio Branco, sofressem com a falta de produtos alimentícios e racionamento de gasolina. Com isso, o combustível chegou a custar R$ 10,50.
A prefeitura da cidade afirmou que a seca no manancial estava dificultando a chegada de barcos que transportam os produtos. De acordo com a prefeitura, produtos de gênero alimentício, principalmente verduras, estavam em falta no local.
No Jordão, no início de outubro, a seca extrema deixou as distribuidoras de gás do município sem o produto, o que fez com que os moradores da comunidade chegassem a pagar até R$ 250 por cada botijão de 13kg.
O Rio Tarauacá, principal rota de acesso até a cidade, estava com o nível muito baixo, dificultando a navegação e prejudicando o transporte de mercadorias.
Desde o dia 24 de outubro, comunidades indígenas dos municípios de Marechal Thaumaturgo e Jordão isoladas por causa da seca dos rios da região estão recebendo doações levadas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), junto ao Ministério da Saúde e a Força Aérea Brasileira (FAB)
Em uma aeronave de grande porte, a Dsei junto com uma equipe médica, de enfermagem e dentistas está indo até as comunidades para atender os indígenas dos municípios do interior do Acre.
*Por Hellen Monteiro e Lucas Thadeu, da Rede Amazônica AC
O projeto ‘Juntos pelo Extrativismo da Borracha na Amazônia‘ lançou, nesta segunda-feira (04/11), um material informativo, que fortalece boas práticas para o manejo da seringueira e produção da borracha nativa da Amazônia. Além do manejo do seringal, a iniciativa visa o cuidado com as pessoas extrativistas, a melhoria da qualidade do produto e a sustentabilidade da atividade.
Com coordenação do WWF-Brasil, em parceria com o Memorial Chico Mendes, Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), WWF-França, Michelin, Fundação Michelin e Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e Conexsus, o projeto vem fortalecendo a prática tradicional de comunidades situadas dentro e fora de Unidades de Conservação (UCs) do Amazonas.
O material será distribuído, inicialmente, nas 13 associações do Amazonas que fazem parte do projeto e que atuam na cadeia da borracha nativa da Amazônia. De forma bem didática, com ilustrações e textos curtos e diretos, o informativo indica o passo-a-passo para o/a seringueiro/a realizar de forma segura a coleta de látex na floresta, desde a abertura de estradas nos seringais, o corte mais indicado que deve ser feito na árvore, até instruções sobre como prensar a borracha.
A cartilha foi desenvolvida de forma colaborativa, com o apoio dos parceiros do projeto e a participação ativa de representantes das associações extrativistas que trocaram experiências diversas sobre o manejo da seringueira até chegar em um conjunto de instruções que orientem de forma ampla seus pares. Assim, a expertise dos seringueiros foi incorporada diretamente no processo, garantindo que suas experiências e conhecimentos direcionassem o conteúdo sem interferir na prática tradicional que é fundamental para o manejo da borracha na Amazônia.
“Estamos criando um esforço coletivo para valorizar o seringueiro, que antes era esquecido. Hoje, ele busca reconhecimento, dizendo: Eu existo, estou aqui. O manual de boas práticas inclui projetos sobre a borracha, qualidade e apoio. O seringueiro moderno, diferente do passado, vive conectado à internet e se atualiza sobre o Brasil e o mundo. Ele trabalha com consciência, sabendo como pode contribuir e ser exemplo para seus filhos, mostrando como sustentar a família com dignidade”, afirmou João Evangelista, extrativista da Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (COOMARU), localizado no município de Barcelos (a 401 km de Manaus).
Foto: Divulgação
Disseminar informações, fortalecendo os conhecimentos do seringueiro ou seringueira no momento de fazer a retirada do látex representa também um resgate histórico dessa cadeia. O Amazonas viveu o tempo áureo da borracha que, mesmo com poucos equipamentos na época, fez o Estado ser um grande exportador mundial de látex. O projeto “Juntos pelo Extrativismo da Borracha na Amazônia” está incentivando a retomada da produção da borracha no Estado e garantindo a venda do material produzido, além de auxiliar no acesso a políticas públicas para área da borracha.
“As boas práticas fortalecem os procedimentos adequados que garantem a qualidade deste relevante produto da sociobiodiversidade amazônica, combatendo um dos gargalos da cadeia, que era a baixa qualidade do produto”, explicou Jhassem Siqueira, um dos coordenadores do projeto no Memorial Chico Mendes.
Ele pontua ainda que o fortalecimento da cadeia é essencial para gerar uma ampla rede que conecta pessoas, biodiversidade, clima, território, negócios e oportunidades.
Já Natasha Mendes, Analista de Conservação do WWF-Brasil explica que as instruções do cartaz são importantes porque todo o processo de produção da borracha é, extremamente, monitorada para garantir a qualidade do produto.
“Após a coleta, a borracha é analisada em relação à qualidade e pesada pela transportadora responsável, com o objetivo de manter a eficiência logística. As boas práticas são já estabelecidas pelos seringueiros e o material vem para fortalecer o trabalho na base”, explica.
A fábrica da Michelin, localizada no Polo Industrial de Manaus (PIM), é a principal compradora da produção de borracha, gerada com o apoio da iniciativa. A empresa vem fortalecendo a retomada da cadeia e garantindo o escoamento do produto. Além dos benefícios econômicos, o projeto combina sustentabilidade com desenvolvimento comunitário, o que desempenha um papel crucial na manutenção da biodiversidade da Amazônia.
Os acreanos gastaram, em média, R$ 116,79 somente com a compra de comida japonesa nos nove primeiros meses deste ano. Isto é o que aponta uma pesquisa realizada pela plataforma Ticket, em alusão ao dia internacional do sushi, comemorado em 1º de novembro.
Com base nos dados do Acre, janeiro foi o mês em que os acreanos mais gastaram com comida japonesa, um total de R$144,68, seguido de julho (R$111,83) e junho (R$108,66).
Segundo o levantamento, entre janeiro e setembro deste ano, em todo o Brasil, o gasto médio dos trabalhadores com a culinária japonesa foi de R$ 101,66. No ano passado, o gasto era de R$ 97,38. Ou seja, o aumento foi de 4,3%.
“Alinhada a esses números, uma enquete realizada pela empresa via Linkedin mostrou que 35% das pessoas consomem comida japonesa pelo menos umas vez por mês, enquanto 25% não consome, 24% opta pelo tipo de refeição raramente e 15% consomem duas ou mais vezes ao mês”, complementa a pesquisa.
Foto: Divulgação
Em comparação com os outros nove estados pesquisados pela Ticket, o Acre foi o estado que mais gastou com sushi em janeiro e julho (R$ 111,83), além de ter ficado em 2º lugar em fevereiro (atrás de São Paulo, com R$ 107,82).
Além do Acre, os outros estados pesquisados foram: Amapá, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Amazonas, Rio de Janeiro, Roraima e São Paulo.
Sushi
O sushi é uma das comidas japonesas mais famosas. Apesar de ser um símbolo do Japão, a origem dele foi no Sudeste Asiático e ainda é um pouco incerta.
O fato é que a receita foi sendo aprimorada e virou uma das mais conhecidas no mundo todo. Afinal, o arroz cozido e temperado com vinagre, junto com o peixe cru, traz um aroma e um sabor incomfundíveis.
A escola de samba do Rio de Janeiro, Porto da Pedra, vai ter um pouco do talento tucujú no samba-enredo de 2025. É que entre os compositores do samba campeão, está o amapaense de 27 anos, Wendel Uchôa.
Wendel foi um dos compositores do samba ‘Vermelho Urukum! O Tigre de Guerra! Não se esconda quando eu voltar, eu sou orgulho e paixão, bem mais que um pavilhão, a força que faz esse povo lutar’.
A equipe é composta também pelos artistas, Guga Martins, Passos Júnior, Gustavo Clarão, Cristiano Teles, Cadu Cardoso, Abílio Júnior, Marcelo Moraes, Tangerina, Marquinho Paloma, Leandro Gaúcho e Ailson Picanço.
Quem é Wendel Uchôa
Wendel é quilombola da região de Igarapé do Lago, área rural no estado. O primeiro contato dele com a música foi através do marabaixo e batuque, danças típicas do Amapá.
“Meu primeiro festival foi em 2017, organizado pela Nação Marabaixeira onde fui campeão junto com meu primo Marcus Paes, com o ladrão de Marabaixo denominado “No Marabaixo é assim”, na oportunidade participaram do festival várias personalidades do nosso Marabaixo e músicos consagrados na MPA”, disse Wendel.
Após entrar no mundo da música, o amapaense começou a estudar outros segmentos musicais e foi então que o samba entrou na vida dele.
“Eu comecei a disputar festivais nas escolas de sambas amapaenses: como Estilizados, Piratas da Batucada, Boêmios do laguinho, Maracatu da Favela, Império do Povo e sempre batia na trave, chegava na final recebia vários elogios mas ainda não tinha sido consagrado campeão”, disse o músico.
Após as experiências no Amapá, o artista decidiu participar dos sambas no Rio de Janeiro em 2023. No entanto, não conseguiu recursos para viajar.
Em 2024, o amapaense recebeu o convite do compositor paraense Ailson Picanço, para disputar o festival com a equipe dele na Porto da Pedra escola da série Ouro do Rio de Janeiro.
“Eu aceitei na hora e começamos então a trabalhar nesse projeto, ainda no mês de Junho de 2024 fui até o Rio, participei das gravações em estúdio em julho, não consegui participar das eliminatórias por não conseguir arcar com mais passagens aéreas e hospedagem”, disse Wendel.
O amapaense Wendel e a esposa em visita à escola no Rio de Janeiro. Foto: Wendel Uchôa/Arquivo pessoal
E na época das gravações, Wendel, levou um pouco da cultura amapaense para o estúdio. Ele e a esposa, Juliana de Souza da Silva, foram trajados com roupas tradicionais do Marabaixo.
“No dia que fui para gravação do samba, fui vestido com trajes tradicionais da nossa mais autêntica manifestação cultural, nosso Marabaixo, então todos os presentes no estúdio começaram a fazer perguntas sobre o que era a vestimenta, então junto com minha Noiva, Juliana de Souza da Silva que também estava com vestimenta tradicional de marabaixeira, saia rodada florida, flor no cabelo, começamos a explicar sobre nossa manifestação, foi uma troca muito rica, e estar sendo, visto que o grupo da parceria do samba segue ativo!”, disse Wendel.
Na fase eliminatória o amapaense precisou acompanhar a disputa pelas redes sociais. O artista chegou a ficar acordado até as 6h aguardando o resultado.
A escola de samba Porto de Pedra foi rebaixada para o Série Ouro do Rio de Janeiro em 2024. Em 2025 a escola de samba vem com o enredo “A história que a borracha do tempo não apagou”, relacionando com a cidade operária no Pará, Fordlândia, que na metade do século XX foi construída para produzir látex para utilizar nos pneus e peças dos carros da Ford.No entanto, doenças como Malária, e pragas agrícolas acabaram com os planos de Henry Ford.
Os desfiles da Série Ouro do Rio de Janeiro de 2025 acontecem no dia 28 de fevereiro (sexta-feira) e 1º de março (sábado).
Castanha-do-pará (à dir.), cacau (à esq.) e salsaparrilha (no centro): substitutos dos temperos da Ásia. Imagens: Brasiliana Iconográfica/Joaquim José Codina – Charles Landseer – José Joaquim Freire
Oséculo XVIII, no Estado do Grão-Pará e Maranhão, que na época do Brasil Colônia representava a atual Amazônia, foi o auge da comercialização das drogas do sertão, como eram então chamados os produtos coletados no interior da floresta amazônica e exportados para a Europa. Documentos da época, guardados no Arquivo Público do Estado do Pará e transcritos no Livro das canoas (USP/FAPESP, 1993), registravam as expedições que saíam de Belém e se embrenhavam no sertão amazônico. O objetivo era colher uma das espécies vegetais mais cobiçadas da Amazônia, o cacau, que o naturalista sueco Carl von Linné, ou Lineu (1707-1778), batizaria de Theobroma (“alimento dos deuses”), em 1753.
Para uma viagem que poderia durar oito meses, as canoas levavam, além de alimentos, panos de algodão, ferramentas, aguardente e miudezas que poderiam servir como moeda para pagar os indígenas que compunham a tripulação e para trocar mercadorias com os que moravam na floresta. Na Amazônia colonial, o próprio cacau era moeda muito valorizada. “Juntamente com outras especiarias, o cacau era chamado de ‘moeda natural’ ou ‘dinheiro da terra’”, destaca o historiador Rafael Chambouleyron, da Universidade Federal do Pará (UFPA), organizador do livro As drogas do sertão e a Amazônia colonial portuguesa (Centro de História da Universidade de Lisboa, 2023).
“O consumo de chocolate estava em plena expansão na Europa nesse período”, lembra a historiadora Camila Loureiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que desenvolve uma pesquisa apoiada pela FAPESP sobre a ação humana e o impacto ambiental do colonialismo na Amazônia nos séculos XVI a XVIII.
Os indígenas brasileiros consumiam a polpa da fruta, de sabor adocicado, mas os espanhóis já haviam levado para a Europa o chocolatl, uma bebida amarga feita a partir de sementes de cacau tostadas, criada pelos povos da Mesoamérica. Para melhorar o aroma e o sabor, os europeus adicionavam outras especiarias da floresta, como as muito apreciadas vagens de baunilha (Vanilla sp.). Segundo a pesquisadora, o cacau respondia por 90% das exportações do Pará entre 1730 e 1755, período em que foram enviadas para a Europa por volta de 15 mil toneladas de sementes.
O mercado aquecido convertia-se em prosperidade. O naturalista francês Charles-Marie de La Condamine (1701-1774), que percorreu o rio Amazonas com o objetivo de medir o comprimento de um arco de um grau ao longo de um meridiano nas proximidades da linha do Equador, ficou admirado com o desenvolvimento do Pará, onde chegou em 1743. “Afigurava-se-nos, chegando ao Pará, e saídos das matas do Amazonas, ver-nos transportados à Europa”, relatou no livro Viagem na América Meridional descendo o rio das Amazonas, de 1745.
“Encontramos uma grande cidade, ruas bem alinhadas, casas risonhas, a maior parte construídas desde 30 anos em pedra e cascalho, igrejas magníficas. O comércio direto do Pará com Lisboa, donde chega todos os anos um grande comboio, dá às gentes de recursos a facilidade de se proverem de todas as comodidades.”
Canoa e indígena à margem de um afluente do rio Negro. Imagem: Brasiliana Iconográfica/Joaquim José Codina
Pressão geopolítica
No início do século XVII, Portugal não dominava mais o comércio das valiosas especiarias do Oriente, enfrentava a acirrada concorrência principalmente dos holandeses e buscava substitutos para produtos como o cravo-da-índia, noz-moscada, canela e pimenta. Havia também uma pressão geopolítica para ocupar o interior do Brasil, aponta o historiador Christian Fausto Moraes dos Santos, da Universidade Estadual de Maringá (UEM): “Portugal precisava estabelecer as fronteiras com a Espanha no continente americano e controlar o território, dentro da máxima ‘é seu se você está ocupando’”. Segundo ele, decorre desse contexto a fundação, em 1616, de Belém, de onde partiriam as expedições para o interior da floresta e os navios carregados de especiarias amazônicas para Lisboa.
Na floresta quente e úmida do Brasil, os portugueses tinham certeza de que descobririam espécies vegetais análogas às do sul e Sudeste Asiático. E acabaram encontrando novos sabores e aromas: folhas, frutos, sementes, raízes e cascas de árvores aromáticas que, triturados ou transformados em óleos, resinas e tinturas, viriam a ter grande valor comercial como condimentos ou remédios. “Já identificamos 36 espécies exploradas pelos colonizadores no território”, adianta a estudante de história Sofia Montaner Preto. Sob orientação de Loureiro e com apoio da FAPESP, ela faz um levantamento das espécies vegetais exploradas na Amazônia colonial em seu projeto de iniciação científica.
Eram plantas valorizadas pelas qualidades culinárias, virtudes medicinais, ou ambas – caso do puxuri (Licaria sp.), que ficou conhecido como “noz-do-pará” devido às propriedades aromáticas e medicinais semelhantes às da noz-moscada. Com sabor e aroma peculiar (que remetem a uma mistura de noz-moscada e cardamomo), o puxuri é usado ainda hoje em pratos doces e salgados. “Era bastante apreciado na Amazônia setecentista como remédio de doenças gastrointestinais. Baseados no conhecimento indígena, os jesuítas preparavam uma infusão de suas amêndoas moídas em aguardente para tratar males do estômago e disenteria”, explica a etnobotânica Márlia Coelho-Ferreira, do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Mapa de 1680 de Sanson d’Abbeville detalha o curso do rio Amazonas, principal caminho para o interior da Amazônia. Imagem: Biblioteca Nacional
Outra planta com dupla finalidade era a salsaparrilha (Smilax sp.), conhecida pelos indígenas como japecanga. As folhas e os frutos eram utilizados na alimentação e a raiz para fazer um chá com propriedades depurativas e diuréticas. Também eram consideradas medicinais a copaíba e a andiroba: “O óleo-resina extraído do tronco da copaibeira [Copaifera sp.] ficou conhecido como ‘bálsamo dos jesuítas’ por ser empregado como cicatrizante de feridas, anti-inflamatório e antisséptico. O óleo das sementes da andiroba [Carapa guianensis] era aplicado sobre o corpo para prevenir picadas de insetos e tratar reumatismo e quebraduras [fraturas]”, resume Ferreira.
Nessa época, além do cacau, o maior destaque da lista de especiarias amazônicas coube ao pau-cravo (Dicypellium caryophyllaceum), árvore cuja casca era usada principalmente na culinária como tempero e digestivo. Muito aromático, o pau-cravo foi eleito pelos portugueses como substituto do cravo-da-índia (Syzygium aromaticum), sendo chamado também de cravo-do-maranhão ou cravo-do-pará. “Posto que de diferente feição, é no sabor quase o mesmo que o da Índia”, avaliou o Conselho Ultramarino (órgão com atribuições financeiras e administrativas) ao receber exemplares da espécie, em 1646. No levantamento de Preto, o pau-cravo e o cacau são os mais citados, com 36% dos registros de dois volumes do Livro grosso do Maranhão, compilado de fontes legislativas que abarca o período de 1647 a 1745, publicado em 1948 nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Vista de Belém (1825), um dos centros do comércio das especiarias da Amazônia. Imagem: Atlas para viagens no Brasil/Spix e Martius
Impulso indígena
Para Chambouleyron, a exploração do pau-cravo carrega uma peculiaridade: diferentemente de outros produtos encontrados na floresta amazônica, como a copaíba ou a andiroba, o interesse português pela especiaria não surgiu a partir do conhecimento milenar indígena, pois os povos originários do Brasil não tinham o hábito de utilizar essa casca aromática. Os indígenas, no entanto, foram imprescindíveis para sua exploração.
Os portugueses tiveram sucesso na obtenção das especiarias amazônicas porque contaram com o conhecimento das rotas de navegação e da fabricação de embarcações adaptadas à rede fluvial amazônica, canoas que podiam chegar a 20 metros de comprimento. “O domínio dos rios foi fundamental, toda a tecnologia indígena da navegação fluvial foi incorporada pelos portugueses, ressignificada com o uso de ferramentas europeias”, diz Chambouleyron.
Também indígena era a força de trabalho utilizada para a exploração da floresta, a começar pelos remadores, então chamados de remeiros, que conduziam as canoas pela intrincada malha fluvial da região. Cada canoa podia ter de 20 a 50 indígenas recrutados para esse trabalho, pago geralmente com varas de pano, medida equivalente a 1,10 m. Não eram, portanto, escravizados, mas exerciam um trabalho compulsório. Segundo Loureiro, os indígenas aldeados sob a tutela de missionários eram obrigados a trabalhar. E, para que não fugissem pela floresta no meio da expedição, buscava-se motivá-los com presentes – como aguardente, sal, machados e anzóis, por exemplo –, além do salário combinado.
Castanheiros em Marabá (1927): exploração das especiarias continuou no século XX. Foto: Ignácio Baptista de Moura/Centro Cultural e Turístico Tancredo Neves/Wikimedia commons
De acordo com um artigo da historiadora da Unicamp publicado em 2019 na revista Estudos Avançados, juntas, mulheres e crianças (meninos e meninas até 14 anos) compunham 84% do contingente de escravizados. Cabiam às mulheres e crianças as atividades agrícolas vitais para a alimentação e pagamento dos trabalhadores, além da aquisição de mais cativos. Pois, embora tenham sido feitas leis no século XVII que proibiam a escravização de indígenas, ainda assim havia meios legais de obter escravizados nativos. Uma dessas formas era o chamado resgate, a aquisição de indígenas feitos prisioneiros em conflitos interétnicos. Salvos do sacrifício, passavam a dever a vida àqueles que os resgatavam.
Após séculos de exploração, o pau-cravo está entre as espécies mais seriamente ameaçadas de extinção. De acordo com Ferreira, um estudo de 2012 encontrou apenas duas populações da espécie no Pará, nos municípios de Vitória do Xingu e Juruti. Depois, o pau-cravo foi registrado também nos municípios de Moju e Senador José Porfírio.
Outras espécies amazônicas continuam a ser exploradas até hoje. “O volume comercializado das drogas do sertão sempre foi pequeno, comparado a commodities como o açúcar, por exemplo, mas estendeu-se ao longo do tempo”, esclarece Loureiro. As plantas medicinais também continuaram a ter um papel importante na região amazônica, sobretudo na medicina popular, e várias são objeto de pesquisas científicas atualmente.
“Muitas propriedades terapêuticas foram comprovadas e outras estão sendo descobertas à luz de métodos atuais de pesquisa científica”, afirma Ferreira. Os estudos com a casca-preciosa (Aniba canelilla) são um bom exemplo. “Estudos pré-clínicos avaliam que o óleo extraído das cascas possui efeitos relaxantes na musculatura lisa intestinal, justificando o uso da planta para distúrbios gastrointestinais, bem como efeitos cardiovasculares.”
Para Santos, a exploração das especiarias amazônicas no período colonial, embora majoritariamente predatória, teve o mérito de reconhecer o potencial econômico da região, muitas vezes esquecida ao longo da história. Ainda hoje, a seu ver, faltam investimentos direcionados ao desenvolvimento sustentável da região, que promovam e organizem essa atividade: “Com investimento em tecnologia, seria possível transformar a Amazônia mantendo a floresta em pé”.
A reportagem acima foi publicada com o título “Dinheiro da terra” na edição impressa nº 344, de outubro de 2024.
Projetos 1. Entre um passado profundo e um futuro iminente: Ação humana e impacto ambiental do colonialismo moderno na Amazônia (séculos XVI a XVIII) (nº 22/02896-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Inicial; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Investimento R$ 763.123,36. 2. Conhecimentos indígenas das plantas na Amazônia colonial (séculos XVII e XVIII) (nº 24/01523-1); Modalidade Bolsas no Brasil – Doutorado; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Bolsista Talles Manoel da Silva; Investimento R$ 362.995,20. 3. As drogas do sertão: Levantamento de ocorrências das espécies vegetais nos relatos de viagens e crônicas coloniais (nº 24/05635-9); Modalidade Iniciação Científica; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Bolsista Sofia Montaner Preto; Investimento R$ 13.594,68.
Hospital Beneficente Portuguesa em Manaus. Foto: Divulgação/HPAM
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
A verdade é que, para reconhecer-se em toda a sua extensão, em todo o seu significado e em todas as suas minúcias, o que tem sido a ação dos portugueses no Brasil é fundamentalmente indispensável saber como eles aqui chegaram, como se aclimataram e de que forma exerceram sua natural tutela sobre as populações indígenas. Qual foi a sua diretriz sob o ponto de vista civilizador e com que recursos se serviram para ocupar e colonizar tão enorme trato de terreno, muitas e muitas vezes superior a pequena grande nação do extremo da Europa, de onde vieram e como defenderam a terra das investidas de piratas audaciosos e de conquistadores exóticos, preservando o Brasil em sua soberba integridade para que, chegada a hora lógica da Independência, não estivesse desfalcado em um só palmo e pudesse ser uma das maiores e mais ricas nações de todo o mundo.
Cumpre ver como eles aqui trabalharam e continuam trabalhando, como concorrem para a formação étnica da nacionalidade, imprimindo, quer pela comunidade da língua e dos sentimentos, quer pelo caldeamento operado pela formação de famílias, o caráter nitidamente lusíada. De importância capital é o fato de terem, com a unidade religiosa que implantaram, criado as mais remotas e profundas raízes da unidade nacional, visto que, nas grandes lutas contra franceses e holandeses, essa unidade religiosa desempenhou o mais saliente de todos os papéis.
Para tanto, temos que fazer, embora em resumo, mas, com a possível clareza, um dado histórico, abrangendo um dilatado espaço de tempo.
Comendador José Teixeira de Souza, fundador. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
A ação dos portugueses no Brasil começou há mais de quinhentos anos e não se interrompeu até hoje, mantendo-se sempre, de etapa em etapa, de geração em geração, através das diversas modalidades impostas pela evolução natural, social e política: Brasil – Colônia – Nação, na plenitude da sua emancipação política.
A ação dos portugueses no Brasil começou nesse longínquo dia, em que as naus de Pedro Álvares Cabral, de velas enfunadas por fortes ventos, parecendo brancas pombas prestes a fechar as asas depois de prolongado voo, avistaram, na venturosa Semana da Páscoa, o alto monte que lhes surgia como sentinela avançada de um deslumbrante continente. O primeiro contato estabelece-se sem um tiro, sem uma hostilidade, sem uma desconfiança e as primeiras palavras são o brando ciclo das místicas palavras de uma missa em ação de graças. Ergue-se uma Cruz na terra virgem. É a ocupação pacífica, em nome do Rei, mas, sob a invocação de Deus.
É o ponto de partida para uma gloriosa caminhada. No simbolismo do sagrado lenho feito de rígida madeira da primeira árvore derrubada na floresta imensa por mãos europeias, há, digamos assim, um prenúncio, uma promessa, um compromisso e até um pacto! Aí se define o que mais tarde virá a ser o caráter brasileiro, formado pela influência espiritual do Cristianismo e pela influência racial da civilização lusíada. É com tanta firmeza que se solidificam esses dois princípios que, passados quinhentos e vinte e quatro anos, o Brasil forma na vanguarda dos povos cristãos a sua raça já em pleníssima projeção, tem o indiscutível timbre de “Lusíada”.
É essa ação constante, metódica, consciente, heroicas algumas vezes, abnegadas outras e amiga sempre e sempre útil, que destacamos a fundação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas. O Brasil sabe para onde vai, justamente porque sabe de onde veio. A aliança luso-brasileira não depende de tratados, porque está nos glóbulos sanguíneos de todos nós, afinal falamos a mesma língua. Somos dois povos absolutamente independentes, vivendo em continentes diversos, separados unicamente por um grande oceano, mas, somos uma só Raça: “Lusíadas do Brasil”.
O conhecimento destas circunstâncias constitui o mútuo e legítimo orgulho de brasileiros e portugueses, especialmente os nascidos no Amazonas: o daqueles pela ascendência que tiveram, o destes pela obra que iniciaram e prepararam. No conjunto dessa obra formidável, que é o Hospital Português de hoje, encontra-se sempre de porta aberta promovendo a saúde de nosso Estado.
Comendador José Cruz. Presidente de 1962 a 1992. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Registrar para a eternidade os flagrantes memoráveis e históricos da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas, em comemoração aos 151 anos de sua histórica fundação, é motivo de satisfação profunda para a comunidade portuguesa.
A presença da Pátria Mãe, “Portugal”, no Brasil é forte e grandiosa. Na atividade comercial, na construção civil, na indústria, figuram eles, os lusitanos, com uma parcela muito grande no desenvolvimento do Amazonas, em particular no período áureo da borracha quando em, Belém e em Manaus e em núcleos urbanos do interior do Estado com maior expressão demográfica e econômica, criaram dezenas de estabelecimentos comerciais, com que exerceram uma salutar atividade econômica, proporcionando ao Amazonas grande crescimento econômico.
Estas verdades históricas resultam o espírito de luta dos bravos irmãos lusitanos que se deslocaram do seu País para desbravar a nossa terra, isto não significava apenas o seu bem estar social, mas, principalmente o crescimento de uma região.
A figura importante do Presidente da Província, Dr. Domingos Monteiro Peixoto, representa de forma brilhante a personalidade que marca na fase pré hospitalar, como o doador da terra solicitada sob a autorização e proteção de S. M. D. Pedro II, o chefe supremo do Governo Imperial.
O Tenente Coronel José Coelho de Miranda Leão, Presidente da Câmara Municipal da época, teve seu papel de suma importância na vida inicial da Real e Benemérita Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, ele expediu o “auto da concessão” do terreno, que tinha 9.952 m2, no Largo da Uruguaiana.
Atual presidente, Dr. Leopoldo Cyrillo Krichanã da Silva. Foto: Acervo pessoal
Concedido o terreno, o então Presidente José Teixeira de Souza desdobrou-se no sentido de implantar o hospital, chegando a lançar a pedra fundamental a 16 de agosto de 1874, pedra fundamental que representa o grande símbolo do velho sonho que só veio se concretizar 20 anos depois e em outro local bem distante.
O esforço em busca do vil metal era grande, quermesses, arraiais, teatros, festivais, subscrições e arrendamento de pavilhão, construído para este fim, foram algumas atividades que promoveram os heróis fundadores, com isto, somando recursos para a construção do sonhado hospital, cuja, primeira enfermaria chegou a ser construída e não foi usada em fase da alienação da propriedade que ocupavam pelo governo.
No dia 17 de dezembro de 1893, inaugurava-se o hospital na sede atual, na antiga estrada Corrêa de Miranda, hoje Av. Joaquim Nabuco, inaugurada na Presidência em exercício do Sr. Francisco Nicolau dos Santos, cuja, inauguração recebeu a honrosa presença do então Governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
A Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas é uma entidade de assistência à colônia portuguesa local, nascida como as demais do País, do espírito de solidariedade de um grupo de cidadãos lusos que, reunidos em casa do Comendador Francisco de Souza Mesquita, cujo, endereço a ata não registra, planejaram, discutiram a sua organização e fundação no dia 31 de outubro de 1873.
O Brasil era serenamente dirigido pelo Magnânimo Imperador D. Pedro II. Portugal tinha como timoneiro D. Luiz e a Província do Amazonas era conduzida pelo seu 14° Presidente da Província, o Bacharel Domingos Monteiro Peixoto, cidadão que tinha profunda e justa simpatia à Colônia Portuguesa radicada na grande Província. Sob a égide desses timoneiros, nasceu e realizou-se o sonho da criação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas.
O Amazonas – diz o ilustre “amazonólogo” e historiador Arthur César Ferreira Reis – experimentava a época, a euforia dos bons ventos. Seus produtos de exportação já lhe permitiam um caminhar tranquilo, a passo certo e seguro. Os homens, que haviam corporificado na Beneficente o sentimento de solidariedade humana que os congregava, eram partes integrantes daquele movimento de trabalho, de criação de riquezas que estavam começando a atrair o interesse do exterior e a provocar a ascensão mais dinâmica da região. Presidia a Província o Dr. Domingos Monteiro Peixoto, que se solidarizando com o grupo lusitano que se lançava a tamanho empreendimento, assegurou-lhe as facilidades que o poder público podia oferecer, de tal modo se havendo na concessão dessas facilidades que o Governo de Portugal lhe concedeu a graça do título de Barão de São Domingos.
A Rua Barão de São Domingos, de nossa cidade, tem a sua história ligada à Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas, conforme registro do grande historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis. Passou na presidência da instituição vários homens que dignificaram a continuidade deste empreendimento, como: o Comendador José Cruz, que presidiu o hospital por mais de três décadas, foi um marco na administração do hospital e neste momento seu presidente atual é o médico Leopoldo Krichanã.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Maior vitrine da agropecuária, da agricultura familiar, do comércio e da indústria de Roraima, a Expoferr Show 2024 (Exposição-feira Agropecuária de Roraima) começa nesta terça-feira (5), no Parque de Exposições Dandãezinho. A 43ª edição do evento começa com show da dupla paranaense Jads & Jadson, que subirá no palco da Arena do Rodeio a partir de 23h.
Com carreira consolidada desde os anos 1990, os irmãos possuem sucessos como “Com todos, menos comigo”, “Jeito carinhoso” e “Ressentimento”, além da regravação da música “Planos Impossíveis”, de Manu Gavassi. Os artistas, nascidos em Catanduvas (PR), já tiveram colaborações com outros artistas do meio sertanejo, como Michel Teló, João Carreiro & Capataz e Almir Sater.
Para encerrar a noite com muito sertanejo para o público, ainda haverá dois shows de artistas locais: às 1h45 da madrugada de quarta-feira (6), quem sobe ao palco principal é o cantor Martinelli. Já às 2h15, Fábio Hércules & Banda encerram a programação do primeiro dia.
O governador Antonio Denarium reforçou o convite para a população e para os investidores, ressaltando a programação especial preparada para esta edição, com atrações nacionais e locais, além de outras programações e atividades.
“Todos os dias tem atração nacional e local, além de uma grande variedade de empresas e expositores que demonstrarão produtos de mais alta tecnologia para a produção de grãos no Brasil e estão aqui no Estado de Roraima. E na abertura oficial, teremos importantes entregas para a piscicultura e a agricultura familiar, com a presença do ministro da Pesca e da Aquicultura, André de Paula, bem como a escolha da Rainha da Expoferr”, reforçou.
Nova Rainha da Expoferr Show
Ainda no primeiro dia da Expoferr Show 2024, a partir de 20h30, o público presente na Arena do Rodeio descobrirá quem será a nova Rainha da Expoferr, sucedendo a grande vencedora do concurso em 2023, a influenciadora digital Luana Rebeca.
O concurso recebeu a inscrição de 36 pré-candidatas e, desse total, 17 concorrerão ao título. A novidade para este ano é que o desfile e as apresentações das candidatas seguirão o padrão do Festival de Barretos, maior festa de rodeio do Brasil.
O Governo premiará as quatro primeiras colocadas, sendo R$ 5.000,00 para a vencedora, R$ 3.000,00 para a segunda, R$ 1.500,00 para o terceiro lugar, e a Garota Simpatia receberá R$ 1.000,00.
Atrações extras
O público que escolheu participar do primeiro dia também participa da abertura do Torneio de Vaquejada, provas equestres, exposição, negócios e gastronomia.
O evento segue até o dia 9 de novembro. Veja a programação completa AQUI.
O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio) publicou no Diário Oficial do Estado (DOE) desta terça-feira (29) uma portaria que institui um Grupo de Trabalho (GT) destinado a estruturar um programa estadual de conservação dos quelônios no Pará. Composta por especialistas de diversas áreas, a iniciativa tem como objetivo criar estratégias e diretrizes para a conservação dessas espécies, que desempenham um papel crucial nos ecossistemas aquáticos da região amazônica.
De acordo com a portaria, o GT será presidido por Priscila Fonseca, do Ideflor-Bio, e contará com a participação de outros quatro membros do órgão ambiental: Thiago Valente, Júlio César Meyer e Yan Neto. A equipe será reforçada por representantes da Universidade Federal do Pará (UFPA), como a professora Daniely Félix e o pesquisador Juarez Carlos Pezzuti, ambos especializados em conservação ambiental.
A portaria estabelece que o GT terá 45 dias para desenvolver suas atividades, prazo que poderá ser prorrogado por mais 45 dias, se necessário. Durante esse período, o grupo deverá identificar áreas prioritárias para a conservação dos quelônios, propor ações de monitoramento e buscar parcerias com instituições públicas e privadas.
“Nossa missão com este GT é garantir a proteção dos quelônios de maneira estratégica, respeitando os ecossistemas naturais e promovendo o engajamento das comunidades locais”, destacou o presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto.
Participação – A composição do GT também permite que especialistas e representantes de outras entidades, públicas ou privadas, sejam convidados a participar das reuniões e prestar apoio técnico, visando uma colaboração mais ampla e diversa no desenvolvimento do programa. Para facilitar o trabalho, as reuniões ocorrerão preferencialmente nas dependências do Ideflor-Bio, mas também poderão ser realizadas virtualmente, garantindo a flexibilidade dos participantes.
Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
O presidente Nilson Pinto também destacou a importância de um programa estadual para a conservação de quelônios, ressaltando a biodiversidade e o ecossistema amazônico como elementos fundamentais para a conservação ambiental no Pará. “Os quelônios são parte essencial do equilíbrio ecológico em nossos rios e lagos. Este GT é um passo importante para garantirmos a sobrevivência dessas espécies, que enfrentam pressões como caça e destruição de habitats”, afirmou.
Com a portaria em vigor, o Ideflor-Bio espera estabelecer, em breve, um programa robusto e eficaz para a proteção dos quelônios no estado, promovendo a conservação de espécies ameaçadas e incentivando práticas de conservação que beneficiem tanto a biodiversidade quanto as comunidades locais. Essa medida, segundo o instituto, reflete o compromisso dos profissionais envolvidos com a conservação ambiental e a sustentabilidade.
Reserva Extrativista Marinha de Soure. Foto: Reprodução/Acervo ICMBio
A Reserva Extrativista Marinha de Soure, na Ilha do Marajó – a maior ilha fluviomarinha do mundo, localizada na foz do rio Amazonas – foi adicionada à Lista Verde de Áreas Protegidas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). É a primeira unidade de conservação do país a ser elencada na relação, que reconhece áreas protegidas pela gestão no alcance de resultados de conservação.
A certificação foi recebida pela Técnica Ambiental Lorenna Oliveira, servidora do Instituto Chico Mendes lotada na Reserva Extrativista Marinha de Soure, e pelo senhor Paulo Torres, representante da Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Soure (ASSUREMAS), que possui o direito de uso do território da unidade, no dia 27 de outubro, durante a COP 16 da Biodiversidade, em Cali, Colômbia.
A unidade de conservação faz parte da maior faixa contínua de manguezais do mundo e possui algumas das florestas de mangue mais altas do planeta, dunas de areia costeiras e vida selvagem diversificada, incluindo o caranguejo de mangue e os peixes-boi.
O território abriga comunidades pesqueiras e promove o uso tradicional e sustentável dos recursos naturais. A reserva conta com quatro praias paradisíacas que recebem milhares de visitantes todos os meses do ano. Os turistas podem vivenciar a cultura local por meio de um turismo ecológico feito pela própria comunidade local.
Foto: Reprodução/ICMBio
A inclusão da unidade de conservação foi formalizada pela IUCN em 27 de setembro. Além da Resex Marinha de Soure, outras 11 áreas protegidas na China, Colômbia, França, Arábia Saudita e Zâmbia também foram incluídas na lista.
A iniciativa da Lista Verde de Áreas Protegidas e Conservadas da IUCN reconhece Áreas Protegidas e Conservadas em todo o mundo, governadas de forma justa e gerenciadas de forma eficaz para alcançar resultados de conservação bem-sucedidos.
No centro da iniciativa da Lista Verde está o primeiro padrão global de melhores práticas para a conservação baseada em áreas. Esse esforço apoia a implementação da Meta 3 do Quadro Global de Biodiversidade (GBF), visando aumentar e reconhecer áreas de conservação justas e eficazes, promovendo novas metas do GBF.
A Lista Verde é um sistema de certificação para áreas protegidas e conservadas — parques nacionais, sítios naturais do Patrimônio Mundial, áreas conservadas pela comunidade e reservas naturais — que são reconhecidas por serem geridas de forma eficaz e governadas de forma justa, de acordo com esse padrão global.
Para Paulo Torres, da ASSUREMAS, “o certificado tem grande valor, é um reconhecimento de que a população extrativista existe aqui no município de Soure. Isso abrirá muitas portas para que novos projetos e iniciativas venham para dentro da unidade e da comunidade; esse certificado nos ajudará muito no que for necessário para continuar nosso trabalho com o apoio de outros órgãos.”
A Reserva Extrativista Marinha de Soure possui um excelente grau de implementação. Criada em 2001, a unidade conta com um Conselho Deliberativo atuante desde 2003. Além disso, a Resex Soure possui plano de manejo, sinalização de seu perímetro, perfil de famílias beneficiárias atualizado, Termo de Compromisso de Barraqueiros e outros instrumentos de gestão.
Durante o processo de busca pela certificação da IUCN, a servidora Lisângela Cassiano, Chefe Substituta da Resex Marinha de Soure, juntamente com a chefe da unidade, Monique Nascimento, e a Técnica Ambiental Lorenna Oliveira, revisaram os processos internos da unidade. Foi necessária uma análise detalhada para entender o que seria necessário para alcançar o certificado.
“Assim, foi possível perceber que certos critérios, como a participação efetiva da comunidade nas decisões e atividades da unidade, já haviam sido atendidos, pois fazem parte de uma cultura de gestão participativa que sempre esteve presente na história da unidade,” conta Lorenna Oliveira.
Outros processos, como a fiscalização em pontos críticos da unidade, foram identificados como carentes de melhorias e foram trabalhados para atender aos padrões internacionais da IUCN. Após atender os critérios faltantes, os servidores se direcionaram ao Plano de Melhorias, listando aspectos que, embora já cumprissem os critérios da IUCN, ainda poderiam ser aprimorados.
Entretanto, devido à falta de recursos financeiros, várias melhorias foram alcançadas apenas graças a parceiros institucionais. Por exemplo, o monitoramento de tartarugas marinhas é realizado pela RARE Brasil, em parceria com a Resex Soure. Assim, dados são compartilhados entre os parceiros para o desenvolvimento da proteção do território e de suas comunidades.
Atualmente, graças ao processo de certificação da IUCN, foi possível obter recursos através do projeto Tech4Nature, em parceria com a IUCN, UFPA, RARE e IBD, permitindo que a própria equipe da unidade promova o monitoramento de acordo com critérios institucionais pelo Programa Monitora. Outras atividades menos onerosas, como o monitoramento de visitantes, já vinham sendo executadas com recursos exclusivos da unidade.
Segundo a técnica ambiental, “o grande objetivo de buscar a Certificação da Lista Verde da IUCN para a Resex Marinha de Soure foi dar visibilidade à unidade. Dessa forma, seria possível mostrar a futuros parceiros e ao próprio ICMBio o grande potencial de gestão de sucesso da unidade em parceria com a comunidade local. Outro motivo importante foi dar reconhecimento à comunidade em função de sua relação próxima e ativa na gestão da unidade”.
O possível colapso do sistema de correntes oceânicas do Atlântico é um dos tipping points (pontos de não retorno, em inglês) que mais ameaçam o equilíbrio climático da Terra, com consequências drásticas para o transporte de calor e a distribuição de chuvas em grande parte do planeta. Uma dessas consequências, segundo os cientistas, seria uma mudança nos padrões de precipitação da Amazônia, com redução de chuvas no norte e aumento de chuvas no sul do bioma. Mas qual seria o impacto disso sobre a cobertura vegetal da floresta?
Essa é a pergunta que um estudo liderado por cientistas da USP e publicado sexta-feira (1º/11) na revista Nature Geoscience se propôs a investigar. A resposta, em resumo, é que as mudanças climáticas desencadeadas pelo enfraquecimento da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (mais conhecida como Amoc, na sigla em inglês), somadas às mudanças no uso do solo vinculadas ao desmatamento, podem provocar um colapso irreversível da cobertura florestal da Amazônia, segundo os autores.
Isso porque as áreas que seriam, teoricamente, beneficiadas por um aumento da precipitação são justamente aquelas onde a floresta já foi mais desmatada (no sul e leste do bioma), enquanto que as áreas atualmente preservadas no norte do bioma seriam fortemente impactadas pela redução das chuvas. “Os efeitos negativos de uma desaceleração da Amoc sobre a vulnerabilidade do norte da Amazônia, combinados com o estado atual de pressão antropogênica sobre os setores leste e sudeste da bacia, poderiam impactar o ecossistema amazônico de forma sistemática”, escrevem os pesquisadores.
“Pela primeira vez sabemos qual é a resposta da floresta a um enfraquecimento marcante da Amoc. Isso é muito importante”, diz o professor Cristiano Chiessi, especialista em Paleoclimatologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, que é um dos autores do trabalho.
O estudo foi conduzido pelo geólogo Thomas Akabane, como parte da sua pesquisa de doutorado no Instituto de Geociências (IGc) da USP, sob orientação de Chiessi e do professor Paulo Eduardo de Oliveira, também do IGc.
As pistas sobre o que pode vir a acontecer na superfície da floresta, por incrível que pareça, vieram do fundo do mar. Os pesquisadores analisaram vestígios de pólen e microcarvão preservados em sedimentos marinhos que representam o que estava fluindo pela foz do Rio Amazonas milhares de anos atrás — incluindo um período em que a grande circulação do Atlântico foi temporariamente interrompida por processos climáticos e oceanográficos associados ao fim da era do gelo.
Essa matéria orgânica, que fluía pelas artérias fluviais do bioma e acabava depositada no fundo do mar, serve como evidência do que estava acontecendo com a floresta no interior da Bacia Amazônica como um todo. É como se os cientistas estivessem analisando uma “amostra de sangue” da Amazônia do passado, preservada no fundo do oceano.
Neste caso, a bolsa de sangue é um cilindro vertical de sedimentos compactados (que os cientistas chamam de testemunho) com mais de 7 metros de comprimento, extraído do leito marinho ao norte da Guiana Francesa — por onde passa a pluma de sedimentos da foz do Amazonas —, a mais de 2,5 mil metros de profundidade. A amostra foi coletada em 2012, durante uma expedição realizada com o navio de pesquisa alemão RV Maria S. Merian, que Chiessi liderou em parceria com colegas da Alemanha, que também assinam o estudo na Nature Geoscience. Praticamente todo o sedimento que recobre o leito marinho nessa região é de origem amazônica, segundo Chiessi, e há muitas “assinaturas” químicas e moleculares que os cientistas utilizam para comprovar a identidade e a idade desse material.
Três segmentos do testemunho GeoB16224-1, extraído do subsolo marinho ao norte da Guiana Francesa. Os sedimentos compactados carregam vestígios de como era a Amazônia milhares de anos atrás – Foto: Cristiano Chiessi/Divulgação para o Jornal da USP
Os pesquisadores usaram esse registro histórico para entender o que aconteceu com a floresta amazônica em dois momentos fundamentais: o Último Máximo Glacial, entre 23 mil e 19 mil anos atrás (quando cerca de 8% da superfície do planeta chegou a ficar coberta de gelo), e um período de aquecimento que veio logo na sequência (entre 18 mil e 14.800 anos atrás), conhecido como Heinrich Stadial 1 (HS1), em que o derretimento das geleiras no Hemisfério Norte injetou uma quantidade imensa de água doce no Oceano Atlântico, causando um colapso temporário da Amoc. (Resumidamente, a Amoc é um grande sistema de correntes marítimas que transportam águas quentes superficiais para o Atlântico Norte e águas frias profundas para o Atlântico Sul, com grande influência sobre os padrões climáticos e ambientais do planeta. Veja ilustração abaixo.)
Animação da Nasa, mostrando como funciona o grande sistema de circulação oceânica da Terra. O vermelho representa águas quentes que viajam pela superfície, enquanto que o azul representa águas frias que viajam pelas profundezas do oceano. A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc, em inglês) é a parte desse sistema que percorre o Oceano Atlântico, entre a Antártida e a Groenlândia — Fonte: Nasa/Goddard Space Flight Center Scientific Visualization Studio
As análises do material contido no testemunho indicam que a cobertura florestal da Amazônia passou por transformações importantes nesses dois períodos. No Último Máximo Glacial, segundo os pesquisadores, houve uma expansão de espécies de ecossistemas montanos (mais bem adaptadas às baixas temperaturas do período) dos Andes e das Guianas para as terras baixas da Amazônia, onde antes predominavam espécies de clima quente e úmido. “Houve uma mudança bastante significativa na composição da floresta, mas ela nunca deixou de ser floresta”, destaca Akabane, em entrevista ao Jornal da USP.
Já no HS1 as coisas ficaram mais complicadas. Com o fim da era do gelo, a temperatura voltou a subir, empurrando a vegetação montana de volta para o topo das montanhas e abrindo espaço para a retomada das terras baixas da Amazônia por vegetação tropical. Ao mesmo tempo, porém, o colapso da Amoc causou um deslocamento do “cinturão tropical” de chuvas para o sul da Amazônia, deixando a porção norte do bioma desidratada. Além de florestas sempre verdes, a região foi ocupada por um mosaico de florestas sazonais e trechos de savanas. Não foi uma “savanização” completa, mas a floresta ficou muito mais seca. Foi só por volta de 14,8 mil anos atrás, no fim do HS1, que a cobertura florestal da Amazônia começou a assumir sua configuração atual.
Projeções futuras
Tendo visto o que aconteceu no passado, o próximo passo foi simular o que poderá acontecer no futuro se as condições ambientais presentes no HS1 voltarem a se manifestar — desta vez, em função das mudanças climáticas provocadas pelo homem. Para isso, os pesquisadores fizeram projeções em computador, utilizando programas que simulam o funcionamento do clima no planeta em diferentes configurações. Neste caso, os cientistas simularam o que aconteceria com o clima da Amazônia num cenário de enfraquecimento severo da Amoc da ordem de 50%.
As projeções indicam que deverá ocorrer um deslocamento do “cinturão de chuvas tropicais” para o sul do bioma, exatamente como aconteceu no HS1. Em outras palavras, o norte da Amazônia ficará mais seco e menos propício à sobrevivência das florestas tropicais úmidas que existem lá atualmente, enquanto que as porções sul e leste do bioma ficarão mais úmidas e propícias ao crescimento de florestas. O problema é que essas são, justamente, as regiões mais desmatadas e ocupadas da Amazônia atualmente, “onde é difícil imaginar que a floresta terá áreas livres para se expandir”, pontua Akabane.
O primeiro mapa mostra as ecorregiões da Amazônia, os limites da Bacia Amazônica e o ponto de onde foi extraído o testemunho sedimentar GeoB16224-1, usado no estudo (Fonte: Akabane et al.). O mapa do meio mostra uma simulação de como um enfraquecimento de 50% da Amoc afetaria a precipitação e a probabilidade de presença de florestas tropicais úmidas (FTU) na Amazônia (Fonte: Akabane et al.). O terceiro mapa mostra a distribuição de florestas e desmatamento na Amazônia brasileira atualmente (Fonte: Inpe/Deter) — Elaboração: Herton Escobar/Jornal da USP
“Esse é o grande risco: a combinação de mudanças climáticas com mudanças de uso do solo”, sumariza Chiessi. Ele teme que o enfraquecimento da Amoc seja “a gota d’água” que faça o copo da sustentabilidade da Amazônia transbordar de vez. “De que adianta a queda na precipitação no norte ser balanceada por um aumento no sul, se é nessa região que o desmatamento impera?”, questiona o professor. “Essa soma pode levar a floresta ao seu tipping point.”
Ninguém sabe dizer ao certo quando essa quebra da Amoc poderá ocorrer, mas estudos recentes indicam que o sistema já está perdendo força e que há um risco real de ele colapsar ainda neste século, em função do derretimento da capa de gelo da Groenlândia e de outros fatores associados ao aquecimento global. Isso significa que o transporte de massas de água entre o norte e o sul do Atlântico deixaria de acontecer, ou passaria a ocorrer de forma muito mais lenta do que ocorre hoje. Fazendo uma analogia, é como se você desligasse ou diminuísse a velocidade de um sistema de esteiras que transportam bagagens no aeroporto, por exemplo — sendo que, neste caso, as esteiras são correntes oceânicas e as malas são energia térmica (calor).
Segundo os pesquisadores, é imprescindível que estudos futuros sobre esse tema considerem os “impactos combinados de potenciais cenários futuros de enfraquecimento da Amoc sob condições reais de degradação florestal antropogênica e aquecimento global”.
Além do Brasil e da Alemanha, o estudo na Nature Geoscience é assinado por pesquisadores da Suíça, França, China, Holanda e Marrocos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Herton Escobar