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Relatório destaca estratégias para transformar o setor madeireiro da Amazônia em modelo sustentável

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Foto: Divulgação/Imaflora

O relatório inédito “O manejo de florestas naturais e o setor madeireiro da Amazônia brasileira: situação atual e perspectivas” apresenta uma análise abrangente e estratégica sobre o setor madeireiro da região, aponta desafios históricos, oportunidades e recomendações para alinhar a exploração madeireira às necessidades de conservação e desenvolvimento sustentável. Elaborado pela iniciativa Amazônia 2030, em parceria com Imaflora e Instituto Floresta Tropical (IFT), o estudo é um alerta e um chamado à ação para governos, empresas e sociedade civil.

O setor madeireiro amazônico, que já foi um dos pilares da economia da região, enfrenta uma crise prolongada. A produção de madeira em tora despencou de 28 milhões de m³ no final da década de 1990 para apenas 10-12 milhões de m³ nos últimos anos. Cerca de 92% da madeira é destinada ao mercado interno, sobretudo à construção civil, enquanto apenas 8% é exportada.

Ele ressalta que práticas predatórias e a exploração ilegal continuam predominando, com 30% a 40% da exploração ocorrendo sem autorização.

Manejo florestal

Desde a década de 1990, o manejo florestal tem sido uma tentativa de equilibrar a conservação da floresta com a geração de renda. Atualmente, apenas 8% a 9% da produção madeireira da Amazônia provém de áreas manejadas de forma responsável, como concessões florestais ou empreendimentos certificados. O manejo florestal reduz custos em até 20% em comparação com práticas convencionais, além de oferecer benefícios ambientais significativos, como a manutenção de biodiversidade e estoques de carbono.

No entanto, as concessões florestais, reguladas pela Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006, progrediram de forma lenta. Em 18 anos, apenas 1,3 milhão de hectares foram concedidos, muito abaixo dos 25 milhões de hectares necessários para atender à demanda e estabilizar a fronteira madeireira.

Principais desafios

O setor madeireiro da Amazônia enfrenta entraves estruturais e sistêmicos que limitam seu potencial econômico e comprometem sua sustentabilidade. Entre os maiores desafios está o predomínio da exploração ilegal. Dados do relatório apontam que entre 30% e 40% da madeira amazônica é explorada sem as devidas autorizações, muitas vezes por meio de fraudes no sistema de créditos florestais. “Os créditos fictícios permitem inflar a legalidade de madeira retirada de forma predatória, criando uma cadeia que dificulta a rastreabilidade e mina a credibilidade do setor”, explica Marco W. Lentini, coautor do estudo.

Além disso, a exploração concentra-se em poucas espécies, com apenas 20 das mais de 1.000 disponíveis sendo amplamente comercializadas. Essa dependência gera pressão excessiva sobre espécies como o ipê e o cumaru, enquanto outras permanecem subutilizadas. “O setor ainda não investe na diversificação de espécies, perdendo oportunidades de explorar de forma equilibrada a biodiversidade amazônica”, destaca Lentini.

Foto: Divulgação/Imaflora

A falta de modernização tecnológica é outro ponto crítico. Parques industriais obsoletos e a ausência de inovação mantêm o setor dependente de processos ineficientes e com baixo valor agregado. Além disso, a baixa rastreabilidade compromete a confiança de consumidores e investidores, mesmo com avanços como a plataforma Timberflow, que ainda precisa de maior adesão e integração para garantir transparência total na cadeia produtiva.

Propostas para o futuro

O relatório apresenta um caminho claro para transformar o setor madeireiro amazônico em um modelo de sustentabilidade econômica e ambiental. A expansão das concessões florestais é uma das principais recomendações. “As concessões florestais não apenas garantem a origem legal da madeira, mas também contribuem para a conservação, gerando benefícios sociais e econômicos para as comunidades locais”, afirma Maryane B. T. Andrade, coautora do estudo.

Outra proposta é fortalecer o manejo florestal comunitário e familiar, que pode se tornar uma alternativa viável para pequenas comunidades. No entanto, isso exige políticas públicas mais robustas, financiamento adequado e suporte técnico.

A diversificação da produção é outro eixo estratégico. Incentivar o uso de espécies pouco exploradas, por meio de estudos de viabilidade e incentivos econômicos, pode aliviar a pressão sobre espécies ameaçadas e aumentar a competitividade do setor. Paralelamente, o investimento em tecnologia, como drones e inteligência artificial, é essencial para modernizar processos e aumentar a eficiência produtiva.

O relatório também propõe integrar o setor madeireiro a sistemas de pagamento por serviços ambientais, como o REDD+, criando uma fonte de renda adicional para produtores que mantêm a floresta em pé. Além disso, sugere medidas para fomentar o uso sustentável da madeira em mercados externos e internos, como políticas de compras públicas que priorizem produtos de origem certificada.

Oportunidades para transformação

Apesar dos desafios, o setor madeireiro da Amazônia tem um potencial significativo de se tornar um exemplo global de bioeconomia. A transição para práticas sustentáveis pode gerar ganhos econômicos expressivos, atraindo investidores e consumidores preocupados com a origem dos produtos que consomem. “A madeira amazônica pode ser um insumo estratégico para a construção sustentável, substituindo materiais de alto impacto, como cimento e aço, em projetos inovadores”, ressalta Lentini.

A Amazônia também pode liderar o mercado de carbono, integrando o setor madeireiro a iniciativas de compensação ambiental. “A floresta em pé tem valor, e precisamos criar mecanismos que reflitam isso na economia global. As oportunidades estão aí, mas demandam planejamento e coordenação”, conclui Maryane.

Com a implementação das propostas apresentadas no relatório, o setor madeireiro não apenas pode superar sua crise, mas também se consolidar como um pilar da bioeconomia amazônica, promovendo desenvolvimento social e conservação ambiental.

A publicação está disponível para download no site do Amazônia 2030 e serve como base para discussões futuras sobre o papel da Amazônia na bioeconomia global.

Cafeicultura familiar em Apuí poderá produzir mais de 300 mil unidades de mudas em novo viveiro

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Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

A cafeicultura no município de Apuí, sul do Amazonas, vivencia uma nova etapa com a abertura do Viveiro de Mudas da Iniciativa Café Apuí Agroflorestal, uma estrutura moderna que promete alavancar a qualidade da produção de café e fortalecer os sistemas agroflorestais na região.

O viveiro traz benefícios diretos para os cafeicultores familiares ao garantir mudas de alta qualidade, com maior resistência e adaptabilidade, além de ampliar as perspectivas de mercado para o café de alto padrão produzido na Amazônia. 

Com capacidade de produção de 330 mil mudas por ano, incluindo café clonal e espécies nativas, o viveiro atende às demandas da iniciativa, reduzindo custos e perdas associados à logística.

Inauguração aconteceu no início de novembro, contando com produtores, estudantes, apoiadores e autoridades locais. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

Vinda direto de Rondônia para compartilhar sua expertise com os produtores apuienses, a engenheira agrônoma Poliana Perrut, especialista em cafés canephora, destacou a importância da nova estrutura para o sucesso da cafeicultura local.

Além das mudas de café, o viveiro investe na produção de espécies nativas, como açaí, andiroba e jatobá, fundamentais para sistemas agroflorestais que combinam rentabilidade com conservação ambiental. A iniciativa ainda estuda a viabilidade da utilização de novas tecnologias na sua operação, como recipientes biodegradáveis que garantem mais sustentabilidade no cultivo. 

Poliana Perrut fala das boas práticas no manuseio e plantio das mudas. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

Um marco para o futuro 

A iniciativa, liderada pela Amazônia Agroflorestal em parceria com o Idesam, também contempla um galpão de beneficiamento e armazenamento de insumos, além de espaços de apoio aos trabalhadores, como escritórios e dormitórios. Para o diretor técnico do Idesam, André Vianna, o viveiro é um verdadeiro divisor de águas.  

Produtores e associações de regiões vizinhas, como a ASAGA, acompanharam de perto a abertura do Viveiro. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

“Essa estrutura representa um marco para a produção de café em Apuí. Além de melhorar a qualidade e a quantidade de produção, também é um passo importante para a adequação ambiental e o fortalecimento de outros sistemas produtivos na região”, destacou o diretor na inauguração da estrutura, em novembro deste ano. A iniciativa é resultado do esforço coletivo de vários parceiros, incluindo o Grupo Carrefour Brasil, a ERM e a Lush, que apoiaram a construção do viveiro.  

O secretário municipal de Meio Ambiente, Domingos Bonfim, ressaltou a importância do projeto para o município.

Equipe do Idesam e da Amazônia Agroflorestal com a consultora Poloana Perrut. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

A estruturação do viveiro reflete diretamente na rotina dos produtores, que agora têm acesso a mudas mais vigorosas e suporte técnico especializado. Para Jonatas Machado, diretor comercial da Amazônia Agroflorestal, a iniciativa representa a realização de um sonho coletivo. “Essa estrutura nos permite atender mais famílias em menos tempo e reduzir a mortalidade das mudas. É o cartão de visitas do projeto, um símbolo do nosso compromisso com a cafeicultura e os sistemas agroflorestais”, comemorou Machado. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Idesam, escrito por Henrique Saunier

Você sabe quais tipos de café a Amazônia mais produz?

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Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Na Amazônia, existem duas espécies que se destacam quando se fala no cultivo de café: arábica (Coffea arabica) e robusta (Coffea canephora), cada uma com variedade diversa e ampla gama de condições ecológicas. O destaque vai para o arábica, que representa cerca de 70% da produção global, enquanto o robusta somente 30%. 

O arábica tem sido cultivado como “café de sombra”, em altitudes mais elevadas, enquanto o robusta é o “café de sol”, cultivado em altitudes mais baixas. Ambas são cultivadas na Amazônia.

Leia também: “Matas de Rondônia” recebe selo de indicação geográfica que garante qualidade do café

Robusta (Coffea canephora)

Popular pela variedade Conilon, tende a ser mais amargo e marcante. É uma espécie mais resistente a pragas e doenças e, diferente do arábica, não precisa necessariamente ser cultivado em regiões de alta altitude.

Arábica (Coffea arabica)

É apreciado por suas características únicas e marcantes, que o diferenciam de outras variedades de café, com sabor suave e complexo, muitas vezes descrito como “doce e frutado”, com notas que variam de caramelo a chocolate, e até mesmo toques florais e cítricos, dependendo da região de cultivo e do processo de torrefação.

Além do sabor, este café também é valorizado por sua menor quantidade de cafeína em comparação com o robusta, tornando-o uma escolha popular entre aqueles que buscam uma experiência mais suave.

Os cafés mais premiados da Amazônia são de Rondônia 

Rondônia é o estado reconhecido por ser um dos que possui os melhores cafés do país. E foi homenageado pelo Prêmio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA Brasil Artesanal 2024), em Brasília, na categoria canéfora, em café especial torrado.

Leia também: Rondônia é o estado mais cafeicultor da Amazônia

O café diferenciado dos rondonienses ganhou destaque, pois levou para a Amazônia os cinco primeiros prêmios da categoria em nível nacional. 

Calor extremo na Amazônia tem alta de até 5,1ºC nas temperaturas máximas em 2024

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Orla do município de Tefé, no Amazonas, com seca no rio Solimões e forte exposição solar. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

Os moradores da Amazônia sentiram mais calor neste ano? A resposta, segundo uma análise exclusiva da InfoAmazonia, é sim. Na comparação com os 30 anos anteriores, as médias das temperaturas máximas registradas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na região ficaram, entre janeiro e outubro de 2024, até 5,1ºC acima do que era considerado normal para cada mês do ano.

A análise considerou 41 estações com monitoramento do Inmet presentes na Amazônia Legal, sendo que a maioria está no Pará (10), Amazonas (7) e Maranhão (7).

No mês de fevereiro, entre 1991 e 2020, Boa Vista tinha uma temperatura média máxima de 34,1ºC. No entanto, neste ano, a capital de Roraima alcançou 39,2ºC, registrando 5,1ºC acima do normal para o mês. No mesmo estado, a cidade de Caracaraí, caso tivesse mantido os padrões das décadas anteriores, teria registrado uma temperatura média máxima de 33,8ºC em setembro, mas, em 2024, a média do mês chegou a 39,1ºC — uma alta de 4,3ºC.

O clima predominante na Amazônia Legal é o equatorial, caracterizado pelo forte calor e pela alta umidade, com apenas duas estações, a chuvosa e a seca. Esse tipo de clima é encontrado ao redor da Linha do Equador. No entanto, os climatologistas apontam que essa alta temperatura observada em 2024 é uma “anomalia”, quando os dados registrados não seguem a média do que era previsto historicamente, uma consequência das mudanças climáticas globais e também de fatores regionais.

O que é a normal climatológica? Para identificar uma anomalia climática, os pesquisadores utilizam como base a chamada “normal climatológica”, que corresponde à média das temperaturas calculada ao longo de um período de 30 anos. Na análise da InfoAmazonia, o período de 1991 a 2020 foi usado como referência para avaliar se o ano de 2024 foi mais quente ou não.

Boa Vista é a única capital do país acima da Linha do Equador, o que também explica a quentura. Apesar do aumento de 5,1ºC em fevereiro, a cidade também passou por altas temperaturas em outros meses do ano. Em março, o aumento foi de 4,8ºC em relação à média dos anos anteriores e, em maio, foi de 3,9ºC. Isso tem prejudicado pessoas como o motoqueiro Helibraldo Pimentel, que faz entregas e deslocamentos a serviço da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Roraima (OAB-RR).

Os sintomas de Helibraldo são causados pelo calor extremo, de acordo com o Ministério da Saúde, e incluem exaustão, insolação, desidratação e queimaduras. Eles geram quadros de irritabilidade, fraqueza, sonolência, pele vermelha, tonturas, náuseas, dificuldade de atenção, cãibras e perda de consciência.

Para se proteger, o motoboy passou a usar, desde o ano passado, roupas que cobrem seu corpo durante as viagens, como luvas e blusas de manga longa, além dos óculos e do protetor solar. “Eu tento me cuidar, tomar as precauções, porque eu sei que isso pode dar até câncer de pele, mas o sol tá muito difícil”, diz.

O pesquisador Bruno Sarkis, do Laboratório de Hidrografia e Climatologia da Amazônia (Hidrogeo), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), explica que Roraima passa por mudanças territoriais, como desmatamento, que aumentam o calor.

Já no Amazonas, onde Sarkis mora, há 6,6% de vegetação em áreas urbanas. Na capital Manaus, a média das temperaturas máximas do mês de setembro neste ano foi de 37,3ºC, 3,2ºC acima da normal climatológica, que é de 34,1ºC. O pesquisador afirma que as cidades amazônicas estão sendo afetadas pelas mudanças climáticas globais, mas também há um fator de influência local criado pela falta de arborização e desmatamento. 

Cidades que passam pelo calor extremo

Cuiabá é outra capital que registrou recordes de temperaturas mensais. Em setembro, a cidade deveria apresentar uma máxima média de 36,6ºC, conforme os padrões de 1991 a 2020, mas alcançou 40,2ºC, uma elevação de 4,6ºC.

Além disso, a cidade registrou o dia mais quente entre as 41 estações monitoradas da Amazônia Legal neste ano: 44,1ºC em 6 de outubro de 2024, contra uma média prevista para o mês de 35,1ºC, uma diferença de 9ºC. A cerca de 40 km dali, no município de Santo Antônio de Leverger, os moradores também enfrentaram um calor de 42,8ºC no mesmo dia — a segunda temperatura mais alta registrada pelas estações do Inmet em 2024, com uma diferença de 7,7ºC em relação ao esperado.

Trabalhadores expostos ao sol na feira do Ver-O-Peso, em Belém. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

Além de Boa Vista, Cuiabá e Caracaraí, completam o ranking das dez cidades com as maiores elevações de temperatura média máxima mensal em 2024: Zé Doca (MA), Carolina (MA), Balsas (MA), Diamantino (MT), Santo Antô­nio de Leverger  (MT), Manaus (AM) e Araguaína (TO). Todas elas tiveram elevações acima de 3,1ºC do que era previsto para o mês.

Setembro foi um dos meses mais quentes na Amazônia: das 20 maiores médias máximas de temperatura registradas nas 41 estações neste ano, sete ocorreram nesse mês. Em Cuiabá, a diferença de temperatura chegou a 4,6ºC em relação à média.

Belém, no Pará, que deve receber mais de 60 mil pessoas para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, em 2025, teve a média máxima de 36,1ºC em setembro, uma alta de 2,9ºC em relação à normal climatológica, que era de 33,2ºC para o mês. O dia mais quente da cidade ocorreu em 4 de setembro, quando a temperatura máxima foi de 37ºC – 3,8ºC acima da normal. 

Maria do Socorro trabalha no Samu, de Belém, atendendo comunidades ribeirinhas Foto: Arquivo Pessoal

A partir de junho, a capital paraense esquentou consideravelmente, com subidas de 1,6º até chegar nos 2,9ºC, considerando a média esperada para o mês. O local é rodeado por ilhas pequenas, onde vivem populações ribeirinhas que trabalham com turismo, extrativismo, pesca e produção cultural. A técnica de enfermagem Maria do Socorro de Oliveira faz atendimentos na ambulancha

Lancha adaptada para estrutura de ambulância, com profissionais que  navegam os rios para fazer atendimento nas comunidades. do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), na ilha de Cotijuba, que fica a 30 minutos da cidade. Ela conta que, neste ano, começou a ter sintomas de doenças respiratórias, que atribuiu às mudanças repentinas do tempo. 

“Eu fico com o meu corpo muito mole, eu fico tossindo, eu fico com coriza, dá uma alergia em mim. Eu não tinha isso antigamente, agora eu tenho. É por essas mudanças de clima, esse sol muito forte, porque a gente fica fazendo ocorrência no sol. Às vezes, você tá na quentura fazendo um procedimento, aí cai um chuvisco do nada, você pega sol e chuva. Meus colegas sentem o mesmo”, conta. 

Nas ilhas, uma das ocorrências mais comuns que Socorro atende é de pessoas que caem das árvores. Isso porque os trabalhadores que colhem frutos, como o açaí, acabam por enfrentar desafios na escalada dos troncos. Quando ela está de plantão, na zona urbana, isso muda. Socorro conta que são muitos os casos de desmaios. “É mal súbito que a gente chama. Quase todo dia a gente atende esses casos. São idosos que precisam andar no calor e, quando vê, desmaiam. A gente mede a pressão, às vezes a pessoa é hipertensa, acontece muito”, diz. 

Sai El Niño e entra La Niña?

Neste ano, a Amazônia vivenciou os efeitos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, que reduz a formação de nuvens e intensifica a seca. A meteorologista Andrea Mendes, do Inmet, explica que, além disso, a região enfrentou duas ondas de calor em setembro de 2024: a primeira, entre os dias 2 e 9, e a segunda, entre os dias 22 e 28. Nesse período, 30 estações de monitoramento na Amazônia registraram médias de temperatura máxima acima da normal, a maioria no Pará (7), no Maranhão (6) e no Amazonas (5).

“Na média, é esperado até 1ºC de elevação, mas a partir de dois graus realmente caracteriza essa situação de ambiente muito seco e quente. No Mato Grosso, as chuvas pararam e houve queda na umidade, o que favoreceu também o que vimos dos incêndios ao longo do ano”, explica Mendes.

No final deste ano, há a possibilidade de mais um fenômeno atuando na região e que pode ter um impacto de alívio na temperatura: o La Niña. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 60% de probabilidade de ele ocorrer, o que pode provocar o resfriamento do Oceano Pacífico e um aumento na incidência de chuvas no território amazônico. O pesquisador Fábio Nunes, do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LabClim), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explica que é esperada uma neutralização do calor na região, mas que o La Ninã deve ser de “intensidade fraca”. 

“Se ela [La Niña] entrar, pode ser que intensifique um pouco mais as chuvas. Após entrar nessa normalidade, as temperaturas tendem a ser normalizadas e acontecer dentro do esperado”, explica. 

O climatologista José Marengo também afirmou, durante reunião de Avaliação e Previsão de Impactos, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden),  em 22 de outubro, que “nos diferentes valores de temperatura do mar, observa-se um resfriamento muito pequeno” e que “a conclusão de alguns centros é que o La Niña pode se configurar no final do ano, com o pico possivelmente ocorrendo no próximo ano, mas os indicadores mostram uma La Niña bastante fraca”.

*Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira, publicada originalmente pelo InfoAmazonia, escrita por Jullie Pereira

Pesquisadores investigam potencial tecnológico da fibra natural da aninga

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Foto: Reprodução/Arquiflora.org

Quem costuma observar a paisagem de Belém e visitar lugares como o Mangal das Garças, Portal da Amazônia e o Parque do Utinga já deve ter notado a presença de uma planta aquática que ocorre em abundância nas margens de rios, furos, igapós e igarapés da Amazônia. Trata-se da Montrichardia linifera, uma macrófita da família Araceae, popularmente conhecida como “aninga”.

O que muitos não sabem é que as fibras naturais desta planta possuem alto desempenho e potencial tecnológico. É o que revela o artigoCharacterization of the natural fibers extracted from the aninga’s stem and development of a unidirectional polymeric sheet‘, o estudo mais recente publicado por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) na revista científica internacional ‘Scientific Reports‘, da Nature.

O artigo é de autoria de Jucelio Lima Lopes Junior, David Rodrigues Brabo, Everton Leandro Santos Amaral, André Wilson da Cruz Reis, Cristine Bastos do Amarante (COCTE/MPEG) & Carmen Gilda Barroso Tavares Dias (PPGEM/UFPA).

A aninga é foco de estudo da pesquisadora Cristine Bastos do Amarante (MPEG) há mais de 15 anos. Sob a orientação de Cristine, os autores Jucélio Lima Lopes Junior, David Rodrigues Brabo e Everton Leandro Santos Amaral começaram seus estudos como bolsistas de Iniciação Científica (PIBIC). Ao longo das suas trajetórias acadêmicas, os pesquisadores exploraram as propriedades e as potenciais aplicações tecnológicas dessa fibra. E percebendo a necessidade de avançar nas pesquisas em diversas frentes, Cristine Bastos buscou parcerias com outras instituições científicas.

Uma delas foi com a Universidade Federal do Pará e a professora e pesquisadora Carmen Gilda Barroso Tavares Dias, do Laboratório de EcoCompósitos do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da UFPA. Durante o mestrado em Engenharia Mecânica, foi Jucélio Lopes que aprofundou os estudos sobre as características da fibra da aninga, sob a orientação da Profa. Carmen Gilda e a co-orientação de Cristine, evidenciando a cooperação técnico-científica entre Museu Goeldi e UFPA por meio deste estudo.

A dissertação de Jucélio resultou na elaboração de uma folha polimérica unidirecional com fibras da aninga e culminou na publicação do artigo e no depósito da patente intitulada “Compósito Termorrígido em Folha Reforçado com Fibra de Aninga e Método de Fabricação”.

Atualmente Jucelio Lima é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais na UFRA; David Brabo é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Everton é Mestre do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Materiais (PPGEM) da Escola de Engenharia de Lorena (EEL), da Universidade de São Paulo (USP); e André Wilson é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia, da UFPA.

A aninga e suas características

Com características particulares, a aninga pode chegar até seis metros de altura e suas folhas podem medir de 45 a 66 centímetros de comprimento e até 63 centímetros de largura. As aningas formam florestas densas, chamadas de “aningais” e servem de alimento para alguns animais, como peixes, tartarugas e peixes-boi. Apesar de fazer parte da dieta alimentar desses animais, para os humanos a aninga é considerada uma planta com alto grau de toxidade e sua seiva é urticante, causando irritação e queimaduras ao entrar em contato com a pele.

Já o seu material fibroso possui propriedades mecânicas favoráveis para a utilização em indústrias, como reforço adequado na fabricação de materiais compósitos – que são os materiais formados pela combinação de dois ou mais componentes de propriedades físicas ou químicas diferentes e que resultam em um novo material de qualidade superior.

No estudo recém publicado, a fibra da aninga apresentou um índice de cristalinidade de 62,21%, indicando o alto teor de celulose na sua composição química. Isso indica que as fibras da aninga possuem uma alta resistência à tração, sendo duas vezes maior que a resistência das fibras de coco. É devido a essa resistência que podemos considerar as fibras da aninga como sendo de alto desempenho. A pesquisa também constatou que além da celulose, o carbono também é um dos principais componentes da fibra.

Outra característica é que na superfície de Montrichardia linifera é possível observar a presença de poros e estruturas em formato de favo de mel, o que aumenta a rugosidade da superfície da fibra e permite maior ligação e aderência aos materiais do compósito. A resistência térmica das fibras também foram analisadas. Os resultados revelaram uma estabilidade térmica de até 450 ºC, considerada de alta resistência.

O uso crescente de fibras naturais de origem vegetal, como as da aninga, em materiais compósitos destaca um avanço rumo ao desenvolvimento de materiais sustentáveis e biodegradáveis. Essas fibras estão substituindo cada vez mais alternativas sintéticas, particularmente em indústrias como a automotiva e aeroespacial, devido a suas excelentes propriedades físico-químicas.

O futuro das pesquisas

“Ainda temos um longo percurso. Queremos chegar a produtos com indicadores de tecnologia social partindo da preocupação com o manejo. No momento, além da publicação, o primeiro produto apresentado para a comunidade foi num concurso de ponte estudantil, em eventos simultâneos de Engenharia”, destaca a pesquisadora Carmem Gilda.

A pesquisadora Cristine Bastos também já desenvolveu diversos estudos com outros componentes da aninga e enfatiza o protagonismo do Museu Goeldi na continuidade das pesquisas. Atualmente, ela orienta um bolsista PIBIT de Engenharia Florestal que está desenvolvendo o papel da fibra da aninga de forma industrial, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e um bolsista de Engenharia Mecânica que está trabalhando no aperfeiçoamento de uma viga confeccionada com a fibra da aninga. A viga já foi testada e suportou uma carga máxima de 1 tonelada sem apresentar flexão.

*Com informações do Museu Goeldi

Amazonas perde um dos fundadores da faculdade de medicina da Ufam

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Foto: Reprodução/Acervo da família

Faleceu na noite de quinta-feira (5), em Manaus (AM), o médico Wallace Ramos de Oliveira. Registrado pela Academia de Medicina do Amazonas com o número 10, Wallace atuou como médico por mais de 60 anos, tendo iniciado em 1958 e se aposentado em 2020.

O médico foi um dos fundadores da faculdade de medicina da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de médico ginecologista obstetra, Wallace também atuou como professor.

Natural do Maranhão, ele recebeu em 2016 o ‘Título de Cidadão do Amazonas’, por sua contribuição e feitos para benefício do estado e sua população.

Ação integrada visa controlar parasitoses intestinais e hanseníase no Território Yanomami

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Foto: Divulgação/DSEI Yanomami

O Polo Base Auaris, no território Yanomami, em Roraima, foi definido como ponto central para a implementação de um Plano Estratégico de Vigilância e Controle das Parasitoses Intestinais e Hanseníase. A ação, liderada pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) e o Médicos Sem Fronteiras (MSF), tem como objetivo combater problemas de saúde pública que impactam diretamente as comunidades locais, especialmente crianças menores de cinco anos e gestantes.

Além da Sesai, do Departamento de Doenças Transmissíveis da SVSA e do MSF, também participaram da ação o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI/YY), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Roraima (UFRR).

O projeto surgiu diante da alta prevalência de geo-helmintíases (grupo de doenças parasitárias intestinais), um problema crítico na região, que pode causar desnutrição, anemia e outros impactos na saúde infantil. A hanseníase, considerada uma doença negligenciada, também foi incorporada ao plano, com ações de triagem e testes rápidos para mapear o perfil epidemiológico do território.

De acordo com Pedro Falcão, sanitarista da Coordenação-Geral de Vigilância da Hanseníase e Doenças em Eliminação da SVSA (CGHDE) e coordenador técnico do projeto, os resultados iniciais da ação são promissores. Segundo Falcão, além da redução das parasitoses intestinais, houve uma melhoria no estado nutricional das crianças atendidas e no bem-estar geral das comunidades.

Falcão ressalta ainda que, com a continuidade do projeto de intervenção da vigilância e sua expansão para outras áreas, a expectativa é que mais comunidades sejam beneficiadas, promovendo não apenas melhorias na saúde, mas também no desenvolvimento sustentável da região.Foto: divulgação/Dsei Yanomami

“Através da expansão do Plano Estratégico de Vigilância e Controle das Parasitoses Intestinais e Hanseníase, poderemos garantir mais qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável da região, bem como a melhoria na gestão e no fluxo da informação para a tomada de decisão pelos gestores de saúde indígena”, esclareceu o sanitarista.

O projeto foi iniciado em julho deste ano, com reuniões técnicas para planejamento e definição de abrangência, capacidade técnica e logística. A equipe multidisciplinar contou com seis profissionais de diferentes especialidades, incluindo duas biólogas, um médico dermatologista, uma pediatra, um farmacêutico e um sanitarista.

Em novembro, a equipe visitou 14 comunidades de Auaris, promovendo acolhimento e executando intervenções essenciais, como cadastro, medidas antropométricas, coleta de amostras de fezes, tratamento antiparasitário com albendazol, triagem de doenças de pele e aplicação de testes rápidos de hanseníase.

A próxima fase do plano está prevista para fevereiro e março de 2025, com expansão para novas áreas do Polo Base Auaris e qualificação dos profissionais locais com base nos resultados.

Além da execução das ações em campo, o projeto prevê atividades complementares, como análise laboratorial das amostras fecais na UFRR e a capacitação de técnicos locais para fortalecer a vigilância em saúde e promover a sustentabilidade das intervenções. Um curso de formação sobre o enfrentamento da malária também deverá ser realizado, complementando os esforços para melhorar a saúde pública nas comunidades Yanomami.

*Com informações do Ministério da Saúde

‘Máquina de nuvens’: emissões da floresta amazônica e descargas elétricas produzem partículas de chuva

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Nuvens sobre a bacia amazônica: foto tirada durante um voo de pesquisa. Foto: Philip Holzbeck/Instituto de Química Max Planck

Um grupo internacional de pesquisadores, com destaque para a participação de brasileiros, conseguiu pela primeira vez desvendar o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas na Amazônia, com influência no clima global. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens.

A pesquisa, publicada no dia 4 de dezembro na capa da revista Nature, descreve os mecanismos de como o isopreno – um gás liberado pela vegetação por meio de seu metabolismo – é transportado até a camada da atmosfera acima da superfície terrestre próxima da tropopausa durante tempestades noturnas. Uma série de reações químicas desencadeadas com a radiação solar dá origem a uma grande quantidade de aerossóis que formam as nuvens. Esta produção de partícula é acelerada por reações com óxidos de nitrogênio produzidos por descargas elétricas na alta atmosfera, em nuvens dominadas por cristais de gelo.

Até então, os cientistas já haviam identificado as partículas em outra expedição, mas não o mecanismo físico-químico completo. Acreditava-se que o isopreno não chegaria às camadas superiores da atmosfera porque reagiria ao longo do caminho, pois é bastante reativo, e se degradaria rapidamente com a luz solar. Com a descoberta desses novos mecanismos, será possível aprimorar modelos do sistema terrestre, ferramentas fundamentais para simular o clima e compreender o funcionamento presente e futuro do planeta.

Para chegar ao resultado, o grupo usou o material obtido durante o experimento científico CAFE-Brazil, sigla em inglês para Chemistry of the Atmosphere: Field Experiment in Brazil. Único desse tipo, o experimento realizou diversos voos sobre a bacia amazônica entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, a 14 quilômetros (km) de altitude, o que corresponde a duas vezes a altura do Aconcágua, ponto mais alto da América do Sul. Totalizou 136 horas de voo, cobrindo 89 mil km – mais do que duas voltas completas na Terra pelo Equador.

Aeronave de pesquisa do projeto CAFE-Brazil logo após a decolagem. Foto: Dirk Dienhart/Instituto de Química Max Planck

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz que o resultado abre um horizonte amplo para analisar o impacto do aquecimento global no clima, no meio ambiente e no ecossistema.

Para Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável (CEAS) da USP, professor do IF-USP e coautor do artigo, os resultados permitem realizar modelagens com mais confiabilidade, podendo incluir mecanismos do ponto de vista físico-químico e biológico.

Levantamento divulgado pelo MapBiomas em outubro, com base em imagens de satélites, mostrou que pastagem foi a principal finalidade do desmatamento da Amazônia entre 1985 e 2023. No período, o crescimento dessa área foi de mais de 363%, passando de cerca de 12,7 milhões para 59 milhões de hectares. Com isso, 14% da Amazônia tinha virado área de pastagem em 2023.

O mecanismo

A floresta exala aromas muito característicos. São gases conhecidos como compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês), entre eles o terpeno – grupo de substâncias encontradas em resinas de árvores e óleos essenciais – e o isopreno. Estima-se que as florestas em todo o mundo liberem mais de 500 milhões de toneladas de isopreno na atmosfera anualmente, sendo que um quarto dessa emissão vem da Amazônia.

Na floresta amazônica, o isopreno é emitido durante o dia, pois depende da luz do sol. Acreditava-se que o gás não alcançava as camadas mais altas da atmosfera porque seria destruído em poucas horas por radicais hidroxila, altamente reativos. “Agora, estabelecemos que isso é parcialmente verdade. Ainda há quantidade considerável de isopreno à noite. Uma parte significativa dessas moléculas pode ser transportada para camadas mais altas da atmosfera”, afirma em nota o autor correspondente do artigo, Joachim Curtius, professor da Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha).

Durante a noite, tempestades tropicais sobre a floresta ajudam a transportar gases, como o isopreno, para camadas mais altas por meio de convecção intensa. Semelhante a um aspirador, esse processo é impulsionado por correntes de ar ascendentes, especialmente em regiões com alta umidade e calor acumulado. Os gases se combinam com compostos de nitrogênio provenientes dos relâmpagos na alta atmosfera.

Nas áreas mais altas, entre 8 e 15 km de altitude, as temperaturas chegam a 60°C negativos. Cerca de duas horas após o sol nascer, os radicais hidroxila que se formam também nessas altitudes reagem com o isopreno, dando origem a nitratos orgânicos, compostos diferentes dos encontrados próximos ao solo. Produzem, assim, altas concentrações de nanopartículas de aerossóis, com mais de 50 mil delas por centímetro cúbico.

Essas partículas crescem ao longo do tempo e são transportadas por longas distâncias, podendo atuar como núcleos de condensação de nuvens. Influenciam o ciclo hidrológico global, o balanço de radiação e o clima. Os mecanismos de formação desses compostos nitrogenados orgânicos agora serão incorporados nos modelos climáticos, melhorando a previsão de chuvas, especialmente em regiões tropicais.

A FAPESP apoia o estudo por meio de um Projeto Temático vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e liderado por Machado e outro por Artaxo, além de outros quatro projetos.

Além dessa pesquisa, a Nature traz na mesma edição outro estudo desenvolvido por parte da equipe de pesquisadores que trata da nova formação de partículas a partir do isopreno na troposfera superior. Eles reproduzem em câmaras experimentais as condições presentes nessas altitudes, analisando em detalhe as reações desencadeadas pela luz solar.

A expedição

Vários voos de pesquisa realizados no experimento CAFE-Brazil contribuíram para a geração de perfis de altitude para diferentes gases. Foi possível medir massas de ar transportadas para a troposfera superior e as diferenças entre as situações diurnas e noturnas.

O professor Machado, que participou da coleta de informações na Amazônia, conta que os voos chegavam a ter duração de até 12 horas.

Machado, à esquerda, durante um dos voos. Foto: Luiz Machado/Acervo pessoal

A base de trabalho foi montada em Manaus (AM). Os voos eram realizados com o avião HALO (sigla em inglês para High Altitude and LOng range research aircraft), uma aeronave de pesquisa para longas distâncias (mais de 8 mil km), altas altitudes (até 15,5 km) e grandes cargas (até 3 toneladas).

O experimento contou com a parceria entre a Universidade Goethe de Frankfurt, o Instituto Max Planck de Química (Alemanha), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – que foi responsável pela licença da expedição científica coordenada pelo pesquisador Dirceu Herdies, também autor do artigo –, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a USP.

Equipe do CAFE-Brazil, sediada em Manaus. Foto: Divulgação

Recentemente, outro estudo liderado por Machado foi publicado na revista Nature Geoscience mostrando que a floresta é capaz de produzir sozinha aerossóis que, induzidos pela própria chuva, desencadeiam um processo de novas formações de nuvens e precipitação.

Os artigos ‘Isoprene nitrates drive new particle formation in Amazon’s upper troposphere‘ e ‘New particle formation from isoprene in the upper troposphere‘ podem ser lidos, respectivamente, em: www.nature.com/articles/s41586-024-08192-4 e www.nature.com/articles/s41586-024-08196-0.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Luciana Constantino

Iniciativa Amazônia+10 divulga resultado final da chamada Expedições Científicas; veja a lista

Foto: luis deltreehd/Pixabay

Iniciativa Amazônia+10 divulgou no dia 2 de dezembro o resultado final da chamada Expedições Científicas, lançada em novembro de 2023 pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foram selecionados 22 projetos ao todo, 14 deles com participação de pesquisadores apoiados pela FAPESP.

O conjunto de propostas aprovadas está orçado em aproximadamente R$ 76 milhões, financiados por 19 Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), pelo CNPq e por agências estrangeiras, como UK Research and Innovation (UKRI), do Reino Unido, e Swiss National Science Foundation (SNSF), da Suíça.

O edital apoiará expedições científicas voltadas à ampliação do conhecimento sobre a sociobiodiversidade e a biodiversidade amazônica. As propostas selecionadas estão alinhadas ao objetivo da chamada: preencher duas lacunas importantes do conhecimento científico sobre a região, uma geográfica e outra taxonômica, além de expandir as pesquisas sobre a diversidade sociocultural dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

Considerando os 22 projetos, mais de 60 localidades pouco abordadas pela comunidade científica serão estudadas, entre elas terras indígenas, reservas de desenvolvimento sustentável e extrativistas e outras regiões de difícil acesso.

Cada uma das propostas é liderada por cientistas de, pelo menos, duas FAPs ou agências estrangeiras, sendo um deles obrigatoriamente vinculado a instituições de ensino superior e/ou pesquisa com sede nos Estados da Amazônia Legal (Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso). O edital também previa a inclusão na equipe de pesquisa de pelo menos um integrante do grupo conhecido como PIQCT (Povos indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais).

“Estamos na reta final de um processo exitoso, resultado de esforços de articulação das fundações estaduais de amparo à pesquisa, das instituições de ensino e pesquisa, dos pesquisadores e de agências de fomento nacionais e internacionais. Os projetos aprovados vão ampliar o conhecimento sobre a sociobiodiversidade amazônica, com a participação de cientistas locais, em parceria com outros Estados e países”, comenta Márcia Perales, diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Os 22 projetos aprovados contarão com financiamento das agências de fomento (FAPs, CNPq, UKRI e SNSF) por um período de até 36 meses. Cada proposta foi avaliada por equipes de todos os Estados participantes da chamada – os nove da Amazônia Legal, além do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Goiás, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Paraná, São Paulo e Distrito Federal.

Posteriormente, as propostas foram avaliadas por um painel científico formado por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, que classificaram os projetos de acordo com o seu mérito científico. E, por último, as agências financiadoras reuniram-se no âmbito do Comitê Coordenador da Iniciativa Amazônia+10 para definir o financiamento de cada um dos projetos, na tentativa de maximizar o número de propostas aprovadas.

“Ficamos muito contentes por mais este passo da iniciativa. Estamos caminhando no sentido de diversificar os instrumentos de apoio à pesquisa em temas relevantes para a região. Queria parabenizar todas as instituições nacionais e internacionais envolvidas. Foi um trabalho complexo, mas muito estimulante. Na sequência teremos outras iniciativas que, sem dúvida, vão contribuir para fazer avançar a pesquisa sobre os temas da Amazônia e também contribuir para fortalecer as instituições locais”, diz Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

A chamada recebeu 191 propostas no total – 25% a mais que o número de projetos submetidos ao primeiro edital da iniciativa, em 2022 –, distribuídas por nove grandes áreas do conhecimento (Ciências Agrárias, Biológicas, da Saúde, Exatas e da Terra, Humanas, Sociais Aplicadas, Engenharias, Linguística, Letras e Artes e outras).

“Este edital reflete o compromisso do Confap em fortalecer a pesquisa científica na região amazônica, incentivando ações colaborativas que contribuam para o desenvolvimento sustentável e a conservação do bioma. Acreditamos que as expedições resultantes desta iniciativa terão um impacto significativo, proporcionando novas descobertas e soluções inovadoras para os desafios que enfrentamos na Amazônia”, finaliza Odir Dellagostin, presidente do Confap.

As FAPs agora entrarão em contato com os respectivos grupos de pesquisadores contemplados para dar encaminhamento à próxima etapa.

Confira a lista oficial:

1. Vozes da Amazônia indígena: Processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno

Fapespa: Helena Pinto Lima – Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)
Fapeam: Filippo Stampanoni Basi – Museu da Amazônia (Musa)
FAPESP: Jennifer Watling – Universidade de São Paulo (USP)
Faperj: Bruna Franchetto – Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ)
FAPDF: Thiago Chacón – Universidade de Brasília (UnB)
UKRI: Manuel Arroyo-Kalin – University College London (UCL)

2. (UKRI-Brazil) Monitoramento participativo dos territórios tradicionais: plataforma digital de coprodução de dados sobre a sociobiodiversidade em áreas amazônicas

Fapespa: Nírvia Ravena – Universidade Federal do Pará (UFPA)
Fapeam: Francimara Souza Costa – Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
Fapema: Marcelo Domingos Sampaio Carneiro – Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Faperj: Leandro Freitas – Jardim Botânico
FAPDF: Rebecca Neaera Abbers – Universidade de Brasília (UnB)
FAPESP: Rodrigo Constante Martins – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
UKRI: Benjamin Coles – Leicester University, Reino Unido

3. Inventário e documentação do patrimônio arqueológico de Roraima

Faperr: Ananda Machado – Universidade Federal de Roraima (UFRR)
Fundação Araucária (FAADCT): Luís Augusto Veiga – Universidade Federal do Paraná (UFPR)

4. Tsiino Hiiwiida: Revelando múltiplas dimensões da biodiversidade de plantas e fungos no Alto Rio Negro

Fapeam: Charles Eugene Zartman – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
Faperj: Domingos Benicio Oliveira Silva Cardoso – Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ)
UKRI: Sandra Diane Knapp – Natural History Museum
Fapespa: Anna Luiza Ilkiu-Borges – Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)
Facepe: Clistenes Williams Araújo do Nascimento – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
Fapema: Dirce Leimi Komura – Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA)
FAPESP: Denilson Fernandes Peralta – Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA)
Fapesq: Felipe Wartchow – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
FAPDF: Micheline Carvalho-Silva – Universidade de Brasília (UnB)

5. Aruwê: Saberes ancestrais e científicos aplicados à restauração ambiental e produção sustentável na terra Teneterah na Amazônia Maranhense

Fapema: Ligia Tchaicka – Universidade Estadual do Maranhão (Uema)
FAPESP: João Osvaldo Rodrigues Nunes – Universidade Estadual Paulista (Unesp)

6. Uso, conservação e intercâmbio de plantas e saberes entre povos indígenas do Sudeste do Pará

Fapespa: Bernardo Tomchinsky – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa)
FAPDF: Ana Suely Arruda Câmara Cabral – Universidade de Brasília (UnB)

7. Brasil-UKRI: A recuperação da capacidade adaptativa das culturas arbóreas pré-colombianas às mudanças ambientais

Fapeam: Santiago Linorio Ferreyra Ramos – Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
Fapero: Carlos Augusto Zimpel Neto – Universidade Federal de Rondônia (Unir)
FAPESP: Maria Imaculada Zucchi – Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, APTA Piracicaba
UKRI: David Moreno Mateos – University of Oxford, Reino Unido

8. Bioprospecção da biodiversidade amazônica na comunidade Tembé e seu potencial biotecnológico no contexto do desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente

Fapespa: Rommel Thiago Jucá Ramos – Universidade Federal do Pará (UFPA)
FAPESP: Renata Cristina Picão – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Faperj: André Luis dos Santos – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

9. AquaInvert-Amazônia: integrando ciência e saberes locais para conhecer a biodiversidade de invertebrados aquáticos em áreas de altitude da Amazônia

Fapeam: Neusa Hamada – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
Fapespa: Bruno Spacek Godoy – Universidade Federal do Pará (UFPA)
Faperr: Vânia Graciele Lezan Kowalczuk – Universidade Federal de Roraima (UFRR)
FAPESP: Lívia Maria Fusari – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Fapeg: Daniel de Paula Silva – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano (IFG)

10. Caminhos ancestrais: patrimônio biocultural, pesquisa colaborativa e etnoconservação no corredor de sociobiodiversidade do interflúvio Xingu e Tapajós

Fapespa: Sonia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos – Universidade Federal do Pará (UFPA)
Fapeam: Willian Massaharu Ohara – Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
Fapemat: Marina Teofilo Pignati – Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)
FAPESP: Mauro William Barbosa de Almeida – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

11. Amazonian BioTechQuilombo – Biodiversidade Amazônica, Avaliação Tecnológica e Troca de Conhecimento com Quilombos

Fapespa: Celso Henrique Leite Silva Junior – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam)
UKRI: Polyanna da Conceição Bispo – University of Manchester
SNSF: Loïc Pellissier – ETH Zurich
Fapeam: Paulo Mauricio Lima de Alencastro Graça – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
Faperr: Nivia Pires Lopes – Universidade Federal de Roraima (UFRR)
FAPESP: Pitágoras da Conceição Bispo – Universidade Estadual Paulista (Unesp)

12. Geodiversidade e Biodiversidade da Serra do Acaraí, fronteira Brasil-Guiana

Faperr: Elizete Celestino Holanda – Universidade Federal de Roraima (UFRR)
Fapero: Ronaldo de Almeida – Universidade Federal de Rondônia (Unir)
FAPT: Etiene Fabbrin Pires Oliveira – Universidade Federal do Tocantins (UFT)
FAPESP: Felipe Antônio de Lima Toledo – Universidade de São Paulo (USP)
Faperj: Alexandre Mello de Paula Silva – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF)

13. Revelando os incógnitos: epífitas, insetos e fungos associados à flora arbórea de várzea na Amazônia Oriental

Fapeap: Marcelino Carneiro Guedes – Embrapa Amapá
Fapespa: Daniel Santiago Pereira – Embrapa Amazônia Oriental
Faperj: Ana Cristina Siewert Garofolo – Embrapa Agrobiologia

14. Inovação em Monitoramento Hídrico na Amazônia: Catalogação e integração de dados de campo a tecnologias emergentes para predição de parâmetros de qualidade de água no estuário da Baía do Marajó-PA

Fapespa: Ailson Renan Santos Picanço – Universidade do Estado do Pará (Uepa)
FAPESP: Luiz Leduíno Salles Neto – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

15. Fomentando o Empoderamento Comunitário para a Sustentabilidade da Sociobiodiversidade Amazônica: Experiências nos Vales do Guaporé (RO) e Jari (AP)

Fapero: João Gilberto de Souza Ribeiro – Universidade Federal de Rondônia (Unir)
Fapeap: Nubia Deborah Araujo Caramello – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amapá (Ifap)
FAPESP: Frederico Yuri Hanai – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Fundação Araucária (FAADCT): Irene Carniatto de Oliveira – Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste)

16. Ecologia dos espíritos: conhecimentos tradicionais e conservação da sociobiodiversidade na Amazônia

Fapeam: Thiago Mota Cardoso – Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
Fapespa: Eduardo Soares Nunes – Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa)

17. Novas fronteiras no registro fossilífero da Amazônia Sul-ocidental

Fapac: Carlos D’Apolito Júnior – Universidade Federal do Acre (Ufac)
FAPESP: Annie Schmaltz Hsiou – Universidade de São Paulo (USP)

18. A onça-pintada como um ativo ambiental: compreendendo as interações com povos tradicionais e promovendo o desenvolvimento sustentável no Amapá

Fapeap: Fernanda Michalski – Universidade Federal do Amapá (Unifap)
Fundect: Gediendson Ribeiro de Araújo – Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)
Fapespa: Sheyla Farhayldes Souza Domingues – Universidade Federal do Pará (UFPA)
Fapeg: Mariana Pires de Campos Telles – Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)
Fapergs: Eduardo Eizirik – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)

19. EcoTaxÔmica: expedições para desbravamento da biodiversidade na Amazônia utilizando genômica e proteômica na caracterização taxonômica molecular e no biomonitoramento da contaminação mercurial

Fapespa: Rafael Rodrigues Lima – Universidade Federal do Pará (UFPA)
FAPESP: Marília Afonso Rabelo Buzalaf – Universidade de São Paulo (USP)
Fundação Araucária (FAADCT): Ângelo Parise Pinto – Universidade Federal do Paraná (UFPR)

20. Diversidade de flebotomíneos e de espécies de Leishmania em áreas da Reserva Biológica do Gurupi para prevenção e controle das leishmanioses na Amazônia maranhense

Fapema: Valéria Cristina Soares Pinheiro – Universidade Estadual do Maranhão (Uema)
Fundação Araucária (FAADCT): Andrey José de Andrade – Universidade Federal do Paraná (UFPR)

21. Aproveitamento integral de frutos e tubérculos da região da Amazônia Legal – estratégia para fomentar a bioeconomia, resgate de costumes e redução da insegurança alimentar dos povos originários do estado de Mato Grosso

Fapemat: Maressa Caldeira Morzelle – Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)
Fapeal: Moacir Haverroth – Embrapa Alimentos e Territórios
Fapeg: Tatianne Ferreira de Oliveira – Universidade Federal de Goiás (UFG)

22. Sociobiodiversidade: Análise de agentes zoonóticos carreados por espécies cinegéticas na Amazônia Ocidental

Fapac: Cíntia Daudt – Universidade Federal do Acre (Ufac)
Fapergs: Cláudio Wageck Canal – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Fapero: Deusilene Souza Vieira Dall’Acqua – Fundação Oswaldo Cruz Noroeste (Fiocruz Rondônia)

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Bruna Bopp 

Número de resgate de trabalhadores em condição análoga à escravidão é liderado pelo Amazonas

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Foto: Reprodução/Ministério Público do Trabalho

O Amazonas lidera o ranking de trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão no 1º semestre deste ano, conforme aponta um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado no dia 2 de dezembro pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc).

Segundo o relatório, só em 2024, dos 441 trabalhadores resgatados, 100 resgates ocorreram no Amazonas. Eles foram encontrados em condições análogas à escravidão em áreas de desmatamento e garimpo. Em segundo lugar aparece Minas Gerais, com 77 casos, e o Espírito Santo, com 71.

Imagem: Reprodução/CPT

O documento também aponta que as atividades com maior concentração de trabalhadores resgatados foram lavouras permanentes (209 pessoas), seguida do desmatamento (75 pessoas), mineração (70 pessoas), produção de carvão vegetal (44 pessoas) e a pecuária (39 pessoas).

O primeiro semestre de 2024 também apontou que houve uma redução do número de trabalhadores resgatados em condição análoga à escravidão. Até o momento foram 441. Só em 2023, o total contabilizado passa dos 1.300; já em 2022, foram 984.

Já Minas Gerais liderou como o estado com o maior número de trabalho escravo só no primeiro semestre deste ano. De acordo com a CPT, foram 20 dos 59 registrados em todo o país, até o momento.

Amazonas também é o estado que mais desmata

O levantamento também aponta que o Amazonas foi o estado que mais desmatou ilegalmente a Amazônia Legal.

“O estado com maior registro de desmatamento é o Amazonas com 19 ocorrências, seguido por Pará, com 17; Maranhão, com 14 e Rondônia, com 12. As principais vítimas, não apenas nessa região, são comunidades indígenas, seguidas por quilombolas e extrativistas. Ao todo, 37% dos casos de desmatamento ilegal registrados foram em territórios indígenas”.

“Neste ano de 2024, estamos sofrendo muito com as mudanças climáticas em nosso território. Além dos incêndios, os rios estão secos, as pessoas estão sem água. Em alguns locais, o rio é uma lama de tanta destruição com o garimpo. O rio Marupá secou, os rios estão secando mais do que todos os limites de antes. Precisamos lutar por água potável para nosso povo e condições de vida, mesmo com as mudanças climáticas”, finalizou o relatório.

*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM