As cachoeiras de Santo Antônio, localizadas no município de Laranjal do Jari, no Amapá, são um dos destinos mais fascinantes e ainda pouco explorados da Região Norte do Brasil. Com quedas d’água que despencam a uma altura de 30 metros, o local é um verdadeiro refúgio de beleza natural e tranquilidade. Situada a aproximadamente 270 km de Macapá, a capital do estado, a cachoeira se revela como uma nova aposta turística.
Existem diversas formas de acessar a Cachoeira de Santo Antônio. Uma das rotas mais populares é por meio de embarcações que partem da orla de Laranjal do Jari, com duração de aproximadamente 45 minutos até o destino.
Para quem busca uma alternativa terrestre, a viagem pode ser feita de carro até a comunidade Padaria, de onde os visitantes podem seguir o restante do percurso de embarcação. Além disso, há a possibilidade de percorrer o trajeto completamente por terra, uma opção que atrai aqueles que preferem explorar a natureza ao longo do caminho.
Em 2025, o turismo local pode ganhar um novo impulso com a implementação de passarelas suspensas para contemplação da cachoeira. Essa iniciativa, que busca oferecer uma experiência única aos visitantes, é inspirada nas passarelas das Cataratas do Iguaçu, no Paraná, e tem como objetivo permitir que os turistas caminhem por cima das quedas d’água.
A proposta está em análise pelo Governo do Estado do Amapá e pela Prefeitura de Laranjal do Jari. Em janeiro deste ano, uma empresa especializada realizou o georreferenciamento, topografia e perfuração do solo para o estudo da viabilidade da obra.
A área escolhida para a construção da passarela está localizada ao lado da comunidade Santo Antônio da Cachoeira, pertencente a Laranjal do Jari. Contudo, o secretário de Turismo do município, Jairo Guerreiro, destaca que ainda não há uma previsão para o início das obras, pois o projeto segue em fase de levantamento.
Além de ser um destino turístico promissor, a região da Cachoeira de Santo Antônio abriga a UHE Santo Antonio do Jari, que aproveita a queda natural do rio Jari. A usina foi a primeira hidrelétrica do País a ser construída a partir do conceito “usina-plataforma”, inspirado nas plataformas petrolíferas, onde não há impacto ambiental significativo no entorno do empreendimento, após a finalização das obras.
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Cleverson é um companheiro de jornada e de ideais. Parece nervoso e inquieto. Ele se contorce na cadeira, sinalizando que quer manifestar alguma discordância ou reclamar de algo, mas sem ser agressivo. Escolhe as palavras e por final exclama: “não dá para falar em felicidade com tudo que está acontecendo”.
Em seguida, Cleverson cita vários fatos que incluem: a questão política do nosso país, o comportamento da mídia, a situação econômica, a questão climática, as ameaças de Trump e as guerras da Ucrânia e da Palestina. “Como a gente pode falar em felicidade e ficar indiferente com tudo que está acontecendo? Chega a ser egoísmo. Tenho dormido com dificuldade e não consigo deixar de pensar em quantas pessoas estão sofrendo”.
Sem entrar no mérito nas questões levantadas, eu me solidarizo com os sentimentos do Cleverson, que revelam uma elevada consideração com a felicidade de outras pessoas e não apenas a dele mesmo ou a de sua família. Talvez outros se sintam assim, o que não deixa de ser bom. Aproveito a positiva indignação do Cleverson para refletir sobre o assunto.
Incialmente, me vem à mente a missão do MCI e o propósito de trabalhar para a construção consciente de felicidade. Este propósito seria incompatível com uma visão realista dos acontecimentos?
Penso que ao contrário. O próprio conceito de consciência se opõe à ideia de alienação. A construção consciente de felicidade abrange a percepção da realidade como primeiro passo e, em segundo, por uma decisão deliberada de lidar com esta realidade da melhor maneira, em termos de pensamentos e ações práticas. No conjunto, é fazer a nossa parte, no que estiver ao nosso alcance.
Utilizo com frequência a metáfora do ovo na frigideira que aprendi com a coach e professora Eliana Dutra. Nela existe a gema do ovo, representando o que está sob a nossa gestão; a clara do ovo, simbolizando o que não está sob o nosso controle, mas que podemos influenciar diretamente e, finalmente, a parte da frigideira, onde se situam as coisas em que a nossa influência é distante, quase que nenhuma, ou indireta. Prefiro pensar que sempre poderá ser indireta.
É o caso de vários acontecimentos que fogem à nossa gestão ou à nossa influência direta, como a violência. Ela não está só nas guerras, mas em todos os níveis e lugares, nas famílias, nas empresas e no nosso cotidiano. Nossa maneira de pensar e de agir podem contribuir para alimentar ainda mais a violência ou, ao contrário, disseminar a paz e a harmonia. É uma influência indireta, na esfera da frigideira, seguindo a metáfora.
É também o que ocorre com a felicidade. Ela possui um poder irradiador, conforme provado em inúmeros trabalhos da psicologia, sendo explicado também pela neurociência. Uma única pessoa feliz faz diferença no mundo. Contribuir para que mais pessoas e empresas evoluam quanto à sua felicidade é a missão e é o propósito do MCI, uma associação sem fins lucrativos que reúne pessoas com este ideal.
Isto não quer dizer que não nos indignemos com diversas situações existentes, seja por princípios, por solidariedade, ou porque nós também somos atingidos por elas. Cada um do seu jeito as combate, às vezes, com outros “chapéus”, como cidadãos ou por meio de outras instituições. Quando nos reunimos no MCI, nosso trabalho maior é difundir a prática de princípios e exercícios que, se praticados, tornarão o mundo melhor.
A metáfora do ovo na frigideira pode ser útil em pequenas e em grandes questões, seja na família, no trabalho, na sociedade ou nos diversos papéis que cumprimos. A situação está no nosso âmbito de gestão? Podemos exercer alguma influência direta? Ou nossa contribuição será apenas indireta, pela maneira de melhorar a nós mesmos e os nossos atos?
A resposta pode ajudar a nossa vida a ser mais leve, liberando energia para fazer a nossa parte, sem perder de vista o que está fora de nosso alcance. Desejo que o Cleverson preserve seus sentimentos e indignação, mas que não sofra. O mundo precisa dele. Na construção consciente de felicidade, há muito o que fazer.
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
Para além da Belém metrópole, há a Belém das ilhas. São 42 ao todo, compondo uma capital diversa, com cidade, floresta, praias e biodiversidade amazônica. Mas muito dessa diversidade ainda é desconhecida. Foi buscando aprofundar esse conhecimento que a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) desenvolveu o “Boletim das Ilhas”, um estudo com informações detalhadas sobre as ilhas da capital paraense e suas características únicas.
O objetivo é produzir e divulgar informações científicas voltadas para o benefício da sociedade em geral, fornecendo subsídios para a tomada de decisões, educação e planejamento de ações sustentáveis por parte de gestores, acadêmicos e sociedade civil.
Cada estudo contém mapas sobre a altimetria, relevo, uso e cobertura da terra, além da espacialização de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tais como: a malha censitária e espécies de endereços. A partir dos dados, é realizada a delimitação das ilhas em unidades geoambientais, considerando características especificas em cada unidade.
A delimitação das ilhas em unidades geoambientais, considerando os aspectos físicos e sociais, mostra-se como ferramenta para o planejamento e gestão territorial, auxiliando no desenvolvimento sustentável das ilhas.
Foto: Divulgação
“Conhecer os elementos físicos e sociais que formam a dinâmica ambiental de cada paisagem é fundamental para compreendermos o cenário em que cada ilha se encontra, entendendo suas particularidades já que correspondem a áreas territoriais menores que não apresentam dados advindos de fontes oficiais. E este é o objetivo fundamental do boletim, produzir dados que consigam subsidiar e gerir tomadas de decisões no que se refere à gestão e ordenamento ambiental adequado para cada ilha analisada”, aponta Elias Klelington, bolsista de geografia da Diretoria de Pesquisas e Estudos Ambientais (Dipea/Fapespa).
O boletim iniciou em 2024 e já está na sua terceira edição, que traz informações sobre as ilhas de Cotijuba, Mosqueiro e Caratateua (Outeiro). Em breve, será lançada uma nova edição do Boletim das Ilhas, contemplando as ilhas do Combu e Ilha das Onças, também localizadas em Belém do Pará, ampliando ainda mais o conhecimento sobre esses territórios e suas especificidades ambientais e sociais.
Foto: Divulgação
“O estudo realizado pela Fapespa sobre as ilhas de Belém é essencial para a gestão sustentável desses territórios, fornecendo dados científicos que auxiliam na preservação ambiental, no planejamento urbano e na melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Com o avanço da expansão urbana e as pressões ambientais, compreender as dinâmicas físicas e sociais dessas ilhas se torna fundamental para subsidiar políticas públicas eficazes. Além das edições já publicadas, a próxima fase do Boletim das Ilhas trará informações sobre as ilhas do Combu e Ilha das Onças, ampliando ainda mais o conhecimento e contribuindo para a construção de soluções sustentáveis para Belém e seu entorno”, disse Maiara Cordeiro, coordenadora de Estudos Territoriais (CET) da Diretoria de Estudos e Pesquisas Ambientais da Fapespa.
Cotijuba
O estudo identificou que a ilha de Cotijuba possui área de 16 km². No setor turístico, após a construção do trapiche de Icoaraci no ano 2000, passou a apresentar atividade turística crescente, um cenário diferente de até o início deste século, quando não obtinha fluxo de forma expressiva. Esse fenômeno transformou as principais atividades da ilha, que antes eram agrícolas e extrativistas e passaram a ser, principalmente, o turismo.
Essa nova dinâmica é confirmada com o crescimento da mancha urbana de quase 100% na ilha que em 2001 obtinha 2,24 km² e em 2023 passou a representar 4 km², com a presença significativa de endereços particulares e bares e restaurantes nas proximidades das praias.
O estudo observou ainda outro aspecto particular de Cotijuba: a presença de uma área com vegetação de gramíneas e lagos, ao centro da ilha, com 1,48 km², denominado pela pesquisa como “região dos lagos”. O local apresenta característica física e dinâmica ambiental distinta das demais regiões da ilha.
Foto: Divulgação
Mosqueiro
Dentre as ilhas de Belém, Mosqueiro é a que apresenta maior extensão territorial, com aproximadamente 213 km², equivalente a cerca de 20% da área do município de Belém. O boletim observou que a ilha tem atividades diversificadas como a turística, agrícola, extrativista e pesca, tendo esta última uma importante representatividade na economia de Mosqueiro. Nas últimas décadas, a ilha também obteve crescimento em sua área urbana que dobrou de tamanho, passando de 5,92 km² para 10,16 km².
Consequentemente, houve perda de floresta densa que antes representava 148,25 km² e atualmente possui 136,69 km². Ainda assim, a pesquisa identificou que, apesar desta perda, houve crescimento de vegetação secundária: de 17,50 km² para 38,92 km², fator que facilita a manutenção da biodiversidade da ilha por possibilitar a conexão de suas áreas florestais.
Outeiro
Já a ilha de Caratateua, popularmente conhecida como Outeiro, possui aproximadamente 31 km² e se caracteriza por sua dinâmica populacional estar historicamente conectada a área continental de Belém. Portanto, o seu fluxo de pessoas não está vinculado estritamente ao turismo, mas principalmente a outras atividades, uma vez que os moradores que vivem na ilha trabalham e estudam na cidade de Belém.
Outro ponto importante identificado é a ausência de “Estabelecimento agrícola”. Essa categoria é mapeada pelo IBGE, mas não há mais registro desses espaços em Caratateua, apesar da ocupação da ilha ter sido iniciada por meio da agricultura de subsistência, principal atividade econômica, implementada por seus primeiros habitantes.
Foto: Divulgação
Até o ano de 2002, a ilha obtinha área urbana de 3,93 km² e em 2023 passou a representar 6,50 km², ocasionando a perda de floresta densa. Em 2002 a área florestal representava 15,97 km² e em 2023 passou a possuir 15,51 km². Do mesmo modo, houve diminuição na área de vegetação secundária, que anteriormente representava 2,96 km² e atualmente possui 1,76 km².
Sustentabilidade e COP 30
Os estudos apontam desafios na garantia da sustentabilidade ambiental, alavancados pela “pressão urbana”, em um contexto de realização em Belém da maior e mais importante conferência de debate sobre o clima, a COP 30.
Para a diretora de Estudos e Pesquisas Ambientais da Dipea/Fapespa, Luziane Cravo, a iniciativa está alinhada ao compromisso da instituição com o fornecimento de informações científicas para gestores públicos, sociedade civil e acadêmicos.
“A análise detalhada das ilhas permite a criação de políticas públicas específicas que atendam às suas necessidades únicas. Cada ilha apresenta desafios próprios, como a expansão urbana, que interfere no equilíbrio ambiental e social. Esses estudos fornecem dados para subsidiar as ações governamentais, incluindo a revisão de planos diretores e a proposição de soluções sustentáveis. É por meio desse tipo de diagnóstico que podemos traçar caminhos para um desenvolvimento equilibrado e eficiente. Além disso, apesar dos estudos serem direcionados para as ilhas do entorno de Belém, o método pode ser replicado e utilizado para qualquer localidade, podendo ser aporte para tomadores de decisão em escala municipal”, detalha.
O barco do Programa de Monitoramento de Água, Ar e Solos do Estado do Amazonas (ProQAS/AM), desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), retornou a Manaus nesta quarta-feira (26/3). Após 14 dias de expedição, a equipe, formada por 19 tripulantes, passou por cinco municípios (Urucurituba, Borba, Manicoré, Novo Aripuanã e Humaitá) em um processo de coleta que possibilitará em, aproximadamente, uma semana, resultados que indicam a qualidade das águas dos rios da Bacia Amazônica.
Durante a expedição ‘Iriru 2’, desta vez realizada durante o início das cheias dos rios, contou com 9 cientistas. Entre os pesquisadores, estão estudantes de graduação, mestrado, professores e doutores da UEA. O grupo reunirá as amostras coletadas em laboratórios da Escola Superior de Tecnologia (EST/UEA), onde passarão por mais de 160 parâmetros de qualidade que identificam a presença de elementos como metais pesados e microplásticos. Todo esse processo conta com o apoio do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
O coordenador do ProQAS/AM, Sergio Duvoisin Jr., destaca a coleta de diferentes espécies de peixes: “Conseguimos coletar uma quantidade bem maior. Uma coisa que notamos é que precisávamos coletar peixes conhecidos como forrageiros, que são aqueles menores que servem de alimento para outros peixes. Se os forrageiros estiverem muito contaminados com mercúrio, eles terão um impacto enorme na cadeia alimentar até chegar à comercialização para a população”.
Foto: Divulgação/UEA
Para o reitor da UEA, André Zogahib, o trabalho demonstra o empenho da equipe do ProQAS/AM em manter a preservação ambiental. “O trabalho científico realizado por esses pesquisadores é um desafio muito grande, mas um desafio que traz retornos ainda maiores ao nosso ecossistema. As próximas expedições, assim como as anteriores, com certeza serão fundamentais para a vida dos nossos rios e a saúde da nossa população”.
Análise de microplásticos
Uma das principais preocupações da expedição é a preservação dos recursos naturais da Amazônia. Por isso, os pesquisadores adicionaram mais um parâmetro: a análise de microplásticos. A presença desses resíduos é considerada uma ameaça crescente e, além dos rios, contamina solos e fauna local. Os microplásticos são, também, ameaças a populações ribeirinhas que dependem dos recursos naturais para subsistência.
Foto: Divulgação/UEA
Próximas expedições
O barco do programa, intitulado Roberto dos Santos Vieira, já possui outras duas expedições agendadas para o ano de 2025, uma em abril e a outra em maio. As viagens foram divididas entre períodos de cheia e seca dos rios, o que possibilitará a comparação das coletas feitas em cada uma das condições naturais.
Exemplar macho da espécie Cryptolestes obesus. Foto: Reprodução/EntomoBrasilis
Pela primeira vez, um espécime macho do besouro Cryptolestes obesus foi descrito no Brasil. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus (AM), realizaram a descoberta durante uma visita para a identificação de espécies localizadas no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). O relato foi publicado na revista EntomoBrasilis nesta quinta (27).
Leandro Zeballos, autor da pesquisa, relata a satisfação com a descoberta. “É sempre uma expectativa muito grande visitar esse tipo de museu para analisar suas coleções, porque encontramos materiais de muitos locais — não só da região, mas do Brasil e fora, provenientes da coleta de muitos pesquisadores famosos que dedicaram suas vidas a trabalhar com isso”.
O espécime descrito é parte da coleção de Fritz Plaumann, imigrante alemão que dedicou décadas ao trabalho em Entomologia. Com apenas 1,4 mm de comprimento e 0,56 mm de largura, o besouro vive embaixo de cascas de árvore — o que dificulta muito sua identificação e coleta.
A espécie Cryptolestes obesus foi inicialmente descrita em 2002 na revista Insecta Mundi, pelo pesquisador Michael C. Thomas, com base em um espécime fêmea de Rondônia. Espécies do gênero Cryptolestes costumam ser descritas com base no macho. Thomas, porém, considerou as características do espécime fêmea distintivas o suficiente para classificar a nova espécie, presumindo uma associação relativamente fácil ao macho, quando encontrado.
Mais de 20 anos depois, Leandro Zeballos e Matheus Bento, responsáveis pelo “casamento”, dão razão a “Thomas estava certo ao hipotetizar uma fácil associação ao macho nesta espécie, já que suas características diagnósticas não se baseiam em traços sexuais primários ou secundários [como genitálias ou chifres, respectivamente]”, relataram no novo artigo.
Tanto o macho quanto a fêmea da espécie apresentam um corpo mais largo, robusto, com a linha secundária bilateral completa no protórax, onde se conecta a cabeça — características distintivas de outras espécies do gênero. Discerni-los é importante para evitar erros taxonômicos:
“Esta associação do macho com a fêmea impede que um taxonomista menos experiente com esta família de besouro encontre e descreva o macho como uma espécie nova, o que facilmente acontece nos estudos com besouros”.
O autor afirma que os próximos passos envolvem delimitar as características do gênero que ainda não são totalmente conhecidas: “Queremos desvendar o que diferencia o Cryptolestes de gêneros parecidos, e reconstruir uma árvore filogenética para entender as relações de parentesco entre os mais de 40 gêneros da família Laemophloeidae”.
A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistas Science e Nature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.
“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.
Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”
Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade.
“Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.
Monitoramento contínuo
Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos”.
Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros”.
As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly.
“Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade“.
A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.
“Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática”.
Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos”.
Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador.
“Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes”.
Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento”.
Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos”.
As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima”.
O artigo Tropical forests in the Americas are changing too slowly to track climate change pode ser acessado AQUI. E o estudo Canopy functional trait variation across Earth’s tropical forests está disponível AQUI.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por José Tadeu Arantes
Fazer os criminosos pagarem pelo desmatamento ilegal da Amazônia e recuperarem o dano é um dos principais desafios da Justiça na área ambiental. Um estudo do Imazon que analisou mais de 3,5 mil ações do Ministério Público Federal (MPF) mostrou que as condenações aumentaram, mas que apenas 5% delas resultaram em indenizações pagas. Além disso, não há garantia de que as multas quitadas sejam aplicadas no bioma.
A pesquisa acompanhou o resultado de ações civis públicas (ACPs) movidas pelo MPF entre 2017 e 2020, nas primeiras três fases do Programa Amazônia Protege. Elas pedem a responsabilização por desmatamento ilegal do bioma na esfera cível, onde é possível cobrar indenizações por danos materiais e morais e ainda determinar a recuperação da floresta. Essa é uma das três formas de responsabilização por dano ambiental previstas na legislação brasileira, além das esferas administrativa e criminal.
Foram analisadas 3.551 ações pelo estudo, que envolvem 265 mil hectares desmatados e pedem mais de R$ 4,6 bilhões em indenizações. Até dezembro de 2023, 2.028 ações (57% do total) tinham sentença, sendo 695 com algum tipo de responsabilização. Elas se dividem em 640 ações julgadas procedentes, considerando decisões após o julgamento de recursos, quando juízes ou tribunais aceitaram pelo menos um dos pedidos de responsabilização do MPF, e em 55 Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), quando os responsáveis pelo desmatamento ilegal se comprometeram a adotar medidas de reparação. Somadas, as condenações e os TACs correspondem a 20% do total de processos e 34% das ações com sentenças.
Punições aumentaram em relação a 2020
Apesar das condenações não serem a maioria entre as decisões, o dado representou um aumento nas responsabilizações. Em um estudo anterior do Imazon, dos 3.551 processos analisados, apenas 650 (18%) tinham sentenças até outubro de 2020 e 51 delas foram procedentes. Ou seja: as condenações correspondiam a 1% do total de ações e a 8% das sentenças. A maioria das decisões pela responsabilização dos desmatadores (449 casos) ocorreu após outubro de 2020, especialmente em 2023, quando houve 241 sentenças procedentes.
Situação que melhorou não apenas a partir de novas decisões em primeira instância, mas também pelo julgamento de recursos. Conforme o estudo, tanto o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) quanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) têm sido majoritariamente favoráveis aos pedidos de responsabilização do MPF.
“É positivo ver o aumento de casos procedentes para responsabilização de desmatadores e que os tribunais têm mantido entendimento favorável à condenação nessas ações que utilizam provas obtidas de forma remota, com imagens de satélite e uso de banco de dados. O desafio agora é obter o efetivo pagamento das indenizações e a recuperação das áreas que foram desmatadas”, afirma Brenda Brito, a pesquisadora do Imazon.
Embora as condenações tenham aumentado, a maioria das sentenças (66%) ainda teve outros resultados mesmo após o julgamento dos recursos. Até dezembro de 2023, 860 (42% das sentenças) haviam sido extintas, quando a Justiça entende que não há provas para uma ação; 268 (13%) julgadas improcedentes, quando todos os pedidos do MPF foram negados; 137 (7%) declinadas para Justiça Estadual; e 68 (3%) anuladas, decisões invalidadas que aguardam nova sentenças.
Essa predominância das extinções se deu principalmente até 2020 e por causa das ações com réu incerto, inovação jurídica do Amazônia Protege. Nesses casos, o MPF move processos devido a desmatamentos ilegais mesmo quando não foi possível identificar o réu para que a Justiça embargue a área e impeça qualquer uso econômico dela, o que pode combater a grilagem. Porém, em outubro de 2020, o STJ adotou entendimento favorável à continuidade de ações por réu incerto, o que tem levado ao aumento de casos desse tipo procedentes após julgamentos de recursos.
Indenizações foram pagas em apenas 5% das condenações
Apesar do avanço nas punições, o cumprimento delas ainda é muito baixo. Conforme a pesquisa, das 640 sentenças procedentes após julgamento de recursos e dos 55 TACs firmados, que determinaram indenizações de R$ 251,9 milhões, somente 37 (5%) tiveram as indenizações quitadas. As dívidas pagas somam R$ 652,3 mil (0,5%) e se referem a três sentenças e a 34 termos. Se considerar os casos que estão em fase de pagamento, com bloqueio em contas bancárias dos réus ou pagamento parcelado, esse percentual sobe para 8%.
E isso mesmo após os juízes terem reduzido, em média, o valor solicitado pelo MPF. Segundo o estudo, nos processos onde foi possível encontrar os valores iniciais e finais, houve redução de 34% nas indenizações por danos materiais (de R$ 11.304 para R$ 7.515 por hectare desmatado) e de 59% por danos morais coletivos (de R$ 5.616 para R$ 2.280 por hectare desmatado).
“O Protocolo para Julgamento de Ações Ambientais de 2024 do CNJ pode resolver esse problema, pois traz uma metodologia para quantificação do dano climático decorrente do desmatamento. Por isso, recomendamos no estudo que o órgão dissemine essa orientação e organize treinamentos sobre ela”, sugere Hannah Farias, pesquisadora do Imazon.
Destinação das indenizações não garante aplicação na Amazônia
Outro problema identificado na pesquisa foi a falta de garantia da aplicação das indenizações no bioma. Embora o MPF tenha solicitado a destinação dos valores aos órgãos ambientais na maioria das ações, os fundos públicos foram o destino majoritário das sentenças, como o Fundo de Direitos Difusos e o Fundo Nacional de Meio Ambiente.
“Resoluções e recomendações do CNJ já permitem direcionar esses valores para atividades na Amazônia, o que seria o ideal. Por exemplo, com repasses para instituições públicas ou privadas sem fins lucrativos que realizem projetos de recuperação de vegetação nativa ou para o combate às queimadas. Para isso, os tribunais e o MPF precisam publicar editais de convocação para cadastro e análise de projetos”, informa Brenda.
Medidas podem agilizar e aumentar condenações
Após analisar tanto os argumentos usados pelo MPF na proposição das ações quanto dos juízes e tribunais nos julgamentos, a pesquisa recomenda medidas que podem agilizar e aumentar as condenações. Uma das principais é acabar com as sentenças improcedentes pela não aceitação de imagens de satélite ou de informações de bancos de dados públicos como provas, que continuaram mesmo após jurisprudência favorável do STJ. Para isso, o estudo indica que o CNJ intensifique a disseminação dessa orientação e realize treinamentos nas comarcas que mais recebem esses processos.
As sentenças também precisam melhorar a forma de determinação da restauração das áreas desmatadas e da fiscalização dessa obrigação.
“Um ponto importante é não vincular mais os Projetos de Recuperação de Áreas Degradadas ou Alteradas (PRADs) exigidos nas sentenças à necessidade de validação dos Cadastros Ambientais Rurais (CARs), o que além de atrasar a restauração pode favorecer a grilagem caso CARs ilegais sejam aprovados”, alerta Brenda.
Já para a fiscalização dessa recuperação, a sugestão da pesquisa é que o CNJ organize e disponibilize os dados georreferenciados das áreas, para permitir seu monitoramento por sensoriamento remoto por diferentes organizações.
Outra recomendação do estudo é que os TACs sejam celebrados em documentos separados das atas de audiência, com descrição de todas as obrigações, prazos e previsão de multa em caso de descumprimento.
“Além disso, é importante que o MPF vincule em seu portal de transparência o número do processo judicial ao procedimento interno de acompanhamento do TAC, para que o cumprimento dos acordos possa ser acompanhado pela sociedade civil”, ressalta Hannah.
No caso das ações com réu incerto, a orientação da pesquisa é que o MPF, em vez de ingressar com vários processos, agrupe diversas áreas desmatadas em um só pedido para que os órgãos fundiários e ambientais promovam o embargo delas. Atualmente, o Amazônia Protege está em sua quarta fase. Nesta etapa, o programa passou por aprimoramentos e ajuizou cerca de 193 ações entre novembro e dezembro de 2024.
Leia aqui o resumo executivo da pesquisa. Baixe o estudo completo aqui.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon
“A gente pode voltar a ser importador de petróleo em 2034, 2035”, afirmou a diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos, em 24 de outubro do ano passado, em evento no Rio de Janeiro, afirmando que novas descobertas na bacia da Foz do Amazonas seriam imprescindíveis para o país não precisar importar petróleo em 10 anos.
A declaração ocorreu em meio ao aumento da pressão política do governo federal e da estatal para avançar na perfuração do bloco 59, área oficialmente delimitada que é o principal alvo para exploração da região.
Apenas alguns dias depois da declaração de Anjos, em 29 de outubro, os técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendaram, pela segunda vez, a rejeição do licenciamento ambiental (autorização do governo para empreendimentos e projetos que tenham possível impacto ambiental, garantindo a redução dos danos) do projeto.
A estatal não desistiu e pediu reconsideração da negativa do Ibama. Com o presidente Lula (PT) se manifestando a favor do petróleo na Foz do Amazonas, e a possibilidade de uma nova negativa do Ibama para o licenciamento do bloco 59, o discurso agora é de que a atividade petrolífera na costa amazônica tem que acontecer “para financiar a transição energética”.
A InfoAmazonia analisou a dependência brasileira do petróleo em cinco possíveis cenários futuros de demanda pelo combustível e das reservas encontradas, buscando entender os argumentos de quem defende a exploração nessa área ambientalmente sensível da costa brasileira. Sem a exploração da Foz do Amazonas, as reservas de petróleo do país acabarão em 10 anos?
A resposta que encontramos é: não.
O Brasil só precisaria importar petróleo entre 2034 e 2035 se descumprir suas próprias metas climáticas, segundo nossa análise com base nos relatórios de produção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e nas projeções de consumo no Brasil feitas pela Agência Internacional de Energia (IEA). Caso contrário, se o país neutralizar suas emissões em 2050, as reservas já descobertas no país durariam até, pelo menos, 2042.
O cientista Anton Schwyter, gerente de Energia, Clima e Geociências do Instituto Internacional Arayara, reforça que a abertura da Foz do Amazonas para a exploração de petróleo só seria necessária se “o plano for não cumprir nenhuma meta de redução de emissões”.
Os cenários para o petróleo brasileiro
As reservas são a estimativa da quantidade de petróleo que pode ser extraída em um campo de produção. Elas são divididas em três categorias: reservas provadas (1P), com 90% de chance de extração; reservas prováveis (2P), com 50% de chance; e reservas possíveis (3P), com apenas 10% de chance de que o petróleo seja extraído comercialmente. Uma mesma área pode conter simultaneamente reservas provadas — com maior chance de serem extraídas — além de prováveis e possíveis.
Em 2023, havia um total de 15,9 bilhões de barris de óleo (boe) em reservas provadas no país. Considerando o total de reservas (provadas, prováveis e possíveis) e a incerteza relacionada aos seus tipos, essa quantidade sobe para 18 bilhões de barris — quantidade que, segundo especialistas consultados pela InfoAmazonia, seria suficiente para garantir a transição energética do país.
Com base nesses dados, foram analisados cinco cenários da demanda:
Cenário conservador: consumo e exportação de petróleo permanecem nos níveis máximos dos últimos cinco anos. Nesse caso, as reservas provadas se esgotariam entre 2035 e 2036, e as reservas totais entre 2036 e 2037.
Aumento do consumo e exportação: as projeções da IEA indicam um crescimento contínuo do consumo e exportação. Nesse ritmo, as reservas provadas acabariam em 2032 e as reservas totais em 2033.
Cenário Net Zero: redução de 75% no consumo e exportação global até 2050, seguindo metas de transição energética globais. As reservas provadas durariam entre 2038 e 2039 e as totais entre 2041 e 2042.
Sem exportação: caso o Brasil cesse as exportações e mantenha um consumo interno crescente, as reservas provadas se esgotariam em 2036 e as totais em 2038. Se o consumo fosse constante, os estoques durariam até 2045 (provados) e 2048 (total).
Exportação constante e redução de consumo: se as exportações forem mantidas e o consumo for reduzido em 75% até 2050, as reservas provadas se esgotariam em 2037 e as reservas totais em 2039.
Portanto, o esgotamento do petróleo brasileiro em 2035, como declarou Anjos, deve ocorrer apenas com a manutenção dos altos níveis de consumo e de exportação dos últimos cinco anos. Além disso, esse cenário só é válido se o Brasil contar apenas com as reservas provadas, o que é improvável.
Em um cenário ainda pior, de crescimento contínuo do consumo e da exportação, o esgotamento pode ocorrer até antes: por volta de 2032 e 2033.
Essas duas projeções desconsideram, no entanto, o Acordo de Paris (2015) para a transição energética, que tem como meta zerar as emissões líquidas de CO2 até 2050, o compromisso Net Zero, do qual o Brasil é signatário. Além de não considerar também possível incremento na produção nacional com a expansão das reservas provadas nos blocos de petróleo.
Segundo a análise da reportagem, no caso de o Brasil seguir as próprias metas de transição energética para contribuir com a redução de 75% das emissões do planeta, de acordo com o compromisso Net Zero, o petróleo do país duraria pelo menos até 2039 no caso das reservas provadas e, 2042, considerando as totais.
A previsão da diretora de Exploração e Produção da Petrobras não considera, portanto, nem os próprios planos da estatal, que tem anunciado seu empenho em “assumir um papel no desafio global de mitigar os efeitos da mudança climática e promover uma transição energética justa”, conforme consta no Caderno do Clima da empresa. O documento destaca as ações para minimizar as emissões de carbono em suas operações e o compromisso assumido com a transição energética.
O pesquisador Ricardo Fujii, líder de transição energética do WWF-Brasil, explica que, no contexto de Net Zero, as reservas brasileiras poderiam durar ainda mais, principalmente com possíveis novas descobertas nas bacias onde já há exploração e produção aprovadas, como no pré-sal da bacia de Santos, sem precisar explorar a Foz do Amazonas.
“Ainda há espaço para continuar adquirindo dados [sobre as reservas disponíveis] por meio de campanhas sísmicas (Estudos geológicos que identificam padrões do fundo marinho que possam conter reservas de petróleo) e perfuração de poços (Um poço de petróleo é uma perfuração feita no solo — em terra (onshore) ou no mar (offshore) — com o objetivo de extrair petróleo e gás natural do subsolo), o que aumenta nosso conhecimento sobre as áreas. Assim, reservas que eram consideradas possíveis podem se tornar prováveis, e as prováveis podem virar provadas, mostrando que mesmo em áreas já bem desenvolvidas ainda existem reservas não mapeadas”, explica Fujii.
Além disso, Schwyter, do Instituto Internacional Arayara, explica que o tempo médio para início de produção comercial de petróleo em um campo com reservas descobertas pode levar até 10 anos. No caso da bacia da Foz do Amazonas, sequer existem descobertas confirmadas.
“Ou seja, mesmo que a Petrobras consiga a licença para explorar o bloco 59 na bacia da Foz do Amazonas, apenas em 2034 a empresa começaria a exploração comercial do que for encontrado lá”, diz.
Transição energética x petróleo
O relatório da IEA sobre a transição energética indica que “não serão necessários novos campos de petróleo e gás natural além dos já aprovados” para que os países cumpram as metas do Acordo de Paris e neutralizem as emissões até 2050. Segundo a organização, para que isso ocorra, a demanda por petróleo precisa diminuir drasticamente e o consumo global passar dos atuais 90 milhões de barris por dia (mb/d) para 24 mb/d em 2050, uma redução de 75%.
A Petrobras planeja investir US$ 11,5 bilhões entre 2024 e 2028 em energias renováveis (eólica e solar), captura e armazenamento de carbono e biocombustíveis, como bioquerosene de aviação e diesel renovável. Além disso, a estatal destaca objetivos como apoiar o Acordo de Paris e promover a redução de emissões com soluções de baixo carbono em petróleo, gás e energia alternativa.
Questionada pela reportagem sobre sua conduta no processo de transição energética, a Petrobras encaminhou um link onde a presidente da empresa, Magda Chambriard, afirma que hoje há um investimento na produção de combustíveis mais renováveis, destacando que possui o único diesel com 5% de óleo vegetal no mundo.
De acordo com Chambriard, a companhia também desenvolve projetos de captura de carbono e reafirma seu compromisso com o objetivo de alcançar a neutralidade de emissões (Net Zero) até 2050. A presidente ainda defendeu que a estratégia atual da empresa não conflita com a transição energética, contribuindo para a geração de empregos e renda.
A InfoAmazonia tambémquestionou a Petrobras sobre em qual base de dados e pesquisas Anjos se apoiou para afirmar a necessidade de importação de petróleo em 10 anos, e se os números levam em conta as mudanças do clima e a transição energética, contudo, não obteve resposta.
Atualmente, a produção de petróleo e gás no Brasil ocorre em 302 campos (Área geográfica que contém reserva de petróleo subterrâneo. Um campo de produção pode estar dentro de um ou mais blocos exploratórios), a maior parte nas regiões Sudeste e Nordeste, localizados em 419 blocos de petróleo concedidos a petroleiras. Em 2024, a produção diária ultrapassou 4 milhões de barris, dos quais quase metade (1,9 milhão de barris) foi exportada.
Os dados da Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) mostram que, além desses 419 blocos contratados, existem outros 1.068 em oferta permanente, que podem ser adquiridos pelas petroleiras, além de outros 1.325 blocos em estudo, que poderão ser ofertados após manifestações dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e de Minas e Energia.
A Petrobras tem intensificado os esforços para obter o licenciamento ambiental do bloco 59, na bacia da Foz do Amazonas, justamente quando o governo anunciou um novo leilão de petróleo, marcado para 17 de junho, e que inclui 47 blocos nesta região da costa amazônica.
A bacia da Foz do Amazonas se estende por 350 mil km² entre o Pará e o Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa. Como até o momento nenhum licenciamento ambiental foi aprovado nesta área, não há reservas provadas.
No entanto, estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que realiza pesquisas e estudos do setor energético para o governo, sugerem que a região pode conter até 10 bilhões de barris que poderão ser comercializados. Esse número, contudo, ainda é incerto e só poderia ser confirmado com a perfuração de poços.
O bloco 59 já teve seu pedido de licenciamento negado três vezes pela área técnica do Ibama, devido aos riscos ambientais elevados. Depois da primeira negativa à Petrobras, em maio de 2023, a companhia pediu reconsideração e o processo seguiu aberto para apresentação de novos documentos. Mesmo assim, em outubro do ano passado e novamente em fevereiro deste ano, os analistas do órgão ambiental recomendaram negar a licença e o arquivamento do processo de licenciamento para a perfuração na área.
Os pareceres não têm poder para barrar o licenciamento, e a decisão final é do presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, que tem sido pressionado por todos os lados, mas até o momento ainda não se pronunciou. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse ao jornal Valor Econômico que irá pessoalmente ao Ibama buscar a liberação da licença. Ele afirmou, ainda, que a nova negativa dos técnicos foi feita “por convicção”.
Uma eventual decisão favorável ao licenciamento do bloco 59 antes do leilão de junho pode influenciar diretamente a disputa pelo petróleo. Entre as empresas habilitadas para fazer lances, estão a britânica Shell, que já manifestou interesse na área, e a ExxonMobil, norte-americana que domina a exploração na Guiana. Além delas, a britânica BP e a francesa Total Energies, que anteriormente desistiram da região devido a entraves ambientais, também estão aptas à disputa. Caso o leilão seja bem-sucedido, o Brasil poderá quintuplicar as áreas sob concessão na bacia da Foz do Amazonas.
Investimento em petróleo pode trazer riscos financeiros para o país
Embora o governo e a Petrobras vejam a exploração da Foz do Amazonas como uma oportunidade econômica, a aposta também pode expor o país e a estatal a potenciais perdas financeiras.
Um relatório da UK Sustainable Investment and Finance Association (UKSIF) e da Transition Risk Exeter (TREX) alerta que, com a transição global para uma economia de baixo carbono, ativos financeiros de petróleo, gás e carvão estão se tornando cada vez mais arriscados e podem se tornar inviáveis. A projeção do estudo é de que até 2040 US$ 2,3 trilhões em investimentos em combustíveis fósseis sejam perdidos.
Segundo o relatório, o Brasil está entre os países mais expostos a esse risco, ocupando a sétima posição no ranking global, atrás de potências como Estados Unidos, Rússia, China e Reino Unido. No caso brasileiro, quase metade das perdas deve recair sobre o governo, enquanto o restante impactará corporações e fundos de investimento.
Por outro lado, se nada for feito, segundo a UKSIF, os impactos das mudanças climáticas impulsionadas pela queima dos combustíveis fósseis podem intensificar desastres naturais, resultando em perdas econômicas estimadas em US$ 12,5 trilhões até 2050.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, tem enfatizado que a decisão sobre a exploração na Foz do Amazonas será estritamente técnica e que não haverá interferência política. No mês passado, o Ibama trocou o coordenador de licenciamento após o presidente Lula reclamar da demora no processo. A expectativa do governo é obter o licenciamento do bloco 59 antes do leilão anunciado para junho, que poderá atrair mais investimentos internacionais para a região. Caso contrário, a disputa pela exploração da Foz do Amazonas pode ficar ainda mais distante.
Como analisamos as reservas de petróleo no Brasil?
Nesta reportagem, analisamos os dados de reservas, consumo e exportação de petróleo no Brasil. Os dados de reservas e exportação são divulgados pela ANP e a estimativa de consumo é dada pela Agência Internacional de Energia (IEA).
A projeção dos diferentes cenários foi calculada considerando a incerteza associada à viabilidade de obtenção de petróleo de diferentes tipos de reservas (provadas, prováveis e possíveis).
Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dados nesta pasta.
O Maranhão e o Distrito Federal são as unidades da federação em pior situação quanto a internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, a cada 10 mil habitantes. Enquanto o estado nordestino conta com uma taxa de incidência nesse recorte de 45,8 casos, no DF o número chega a 36,2.
Na sequência aparece Goiás, com uma taxa de incidência de internações de 29,2, por 10 mil habitantes. Em quarto no ranking está o Paraná, com 25,6. Em seguida, destaca-se o Amapá, com 24,6. Os dados constam em estudo divulgado recentemente pelo Instituto Trata Brasil.
Confira o quadro por região
Centro-Oeste – 25,5
Norte – 18,9
Sul – 17,6
Nordeste – 16,4
Sudeste – 13,1
Em todo o país, foram registradas mais de 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado no ano passado. Do total, cerca de 168 mil estão ligadas a alguma infecção provocada por um inseto-vetor, sobretudo a dengue.
Em segundo lugar, aparecem enfermidades de transmissão feco-oral, ou seja, que são transmitidas por fezes de um indivíduo infectado, como as gastroenterites causadas por vírus, bactérias ou parasitas, com um total superior a 163 mil casos.
Segundo a presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, o aumento dessas doenças também provoca um impacto econômico, uma vez que demanda mais despesas públicas e privadas com o tratamento das pessoas infectadas. Além disso, na avaliação dela, esse cenário piora a situação de quem vive em áreas com ausência dos serviços de saneamento.
“Muitas vezes, a população tem uma fossa na sua residência, ou sequer uma fossa, só uma fossa negra e cavam um poço para buscar água, muitas vezes em regiões ao lado, de onde se está lançando esse esgoto bruto e isso traz todas as doenças associadas à falta de saneamento básico”, pontua.
Grupos mais afetados
De acordo com o Trata Brasil, 64,8% das internações registradas em 2024 foram de pessoas pretas ou pardas. Quanto aos indígenas, apesar de responderem por somente 0,8% do total, a incidência entre eles foi de 27,4 casos a cada dez mil habitantes.
Das vítimas hospitalizadas, aproximadamente 70 mil eram crianças com idade de até 4 anos. O resultado representa 20% do total. Nessa faixa etária, a incidência foi de 53,7 casos a cada dez mil pessoas. Entre aqueles com idade superior a 60 anos, a incidência foi 23,6, com mais de 80 mil internações, ou seja, 23,5% do total.
O estudo revela, ainda, que, dos 5.570 municípios do país, somente 1.031 apresentaram diminuição da taxa de mortalidade por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, entre 2008 e 2023. Nesse período, 2.791 ficaram estagnados e 1.748 cidades registraram aumento das taxas de mortalidade.
O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) é uma das aves aquáticas mais ameaçadas do mundo. Essa espécie, que depende de ecossistemas hídricos equilibrados, encontra-se atualmente em situação crítica, com menos de 250 indivíduos registrados na natureza.
As principais ameaças à sua sobrevivência incluem a degradação dos rios, a expansão agropecuária, o uso excessivo de agrotóxicos e o turismo desordenado.
No Brasil, o pato-mergulhão ainda pode ser encontrado na Chapada dos Veadeiros (GO), na Serra da Canastra (MG) e, na Região Norte, somente no Jalapão (TO).
Além de ser uma espécie sensível com relação ao ambiente que precisa para viver, alguns dos maiores problemas na conservação da espécie são a destruição da mata ciliar e o assoreamento dos rios, pois podem dificultar o acesso desses animais à locais adequados para nidificação e alimentação.
Além disso, a prática de esportes aquáticos em regiões de ocorrência da espécie também pode levar ao abandono de ninhos.
Bem como a prática de playback: para quem trabalha com o birdwatching (observação de aves), trata-se da reprodução de sons gravados para atrair aves, o que pode, por exemplo, afastar os casais que resguardar os ninhos, fazendo com o sucesso reprodutivo seja comprometido.
O pato-mergulhão é facilmente identificado por suas características físicas:
bico serrilhado e recurvo, adaptado para capturar peixes com facilidade;
penacho na nuca de cor preta esverdeada nos machos e marrom nas fêmeas
cerca de 55 cm de comprimento (com asas de aproximadamente 21 cm e cauda de 10 cm);
pés vermelhos específicos da espécie.
Como ajudar?
A conservação do pato-mergulhão depende da manutenção da qualidade dos cursos d’água e da redução de impactos ambientais. Programas de monitoramento e educação ambiental são fundamentais para garantir a sobrevivência da espécie.
O Governo do Tocantins, por exemplo, meio do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), instituiu a Portaria Nº 213/2024, que cria o Programa de Monitoramento e Conservação do pato-mergulhão, denominado Pro PaTO. O programa visa à preservação do pato-mergulhão com ações concentradas na região do Jalapão, especialmente no Rio Novo, onde a população do animal é mais frequente. A Portaria foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) do dia 30 de outubro de 2024.
No início de 2025, um encontro foi realizado no estado para estabelecer as metas deste ano. Participaram do encontro o biólogo e Inspetor de Recursos Naturais do Naturatins, Marcelo Barbosa, além de representantes da Funatura e da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), câmpus Caxias.
Foto: Marcelo Barbosa/Governo do Tocantins
Entre as principais ações previstas estão o monitoramento de casais reprodutivos, a manutenção de ninhos artificiais e o manejo de cavidades naturais. Também será realizada a contagem da população ao longo de 145 km do Rio Novo.
Uma das principais estratégias será o monitoramento remoto do pato-mergulhão, com a instalação de um transmissor GPS em um dos indivíduos. Além disso, os pesquisadores pretendem retomar a coleta de ovos na natureza para incubação em ambiente controlado. Após atingirem uma fase segura de desenvolvimento, os filhotes serão devolvidos ao rio.
De acordo com Marcelo Barbosa, a iniciativa busca aumentar a taxa de sobrevivência da espécie. “Os dados coletados em anos anteriores mostram que o sucesso reprodutivo dos casais é baixo. Com essa abordagem, pretendemos garantir que os filhotes alcancem uma fase independente antes de serem reintroduzidos na natureza”, explicou.
Os pesquisadores acreditam que o programa pode contribuir significativamente para a recuperação da população do pato-mergulhão no Jalapão, que é considerada a menor do país, comparada com as de outras duas localidades do Brasil. A espécie, uma das aves mais raras do país, está classificada como criticamente em perigo na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção.
Especialistas também recomendam que o uso de playback seja evitado para não prejudicar a reprodução da espécie, respeitando os períodos reprodutivos.