O ano era 1911. Belém vivia um período rico de investimentos e expansão por conta da economia aquecida pela exploração da borracha. A cidade se expandia para além da Cidade Velha e um novo polo de comércio era necessário para atender as demandas dos moradores mais distantes do centro.
Preocupado com essa demanda, o intendente Antônio Lemos, concede ao arquiteto italiano Filinto Santoro, mais de 3 mil m² para a construção do segundo Mercado Municipal da capital.
O bairro de São Brás já tinha recebido o projeto da Caixa D’água, e era onde ficava a estação da Estrada de Ferro Belém-Bragança, então consumidores era realmente o que não faltaria para esse novo mercado.
“Depois de apenas 11 meses de construção, com projeto e mão de obra toda italiana, Filinto Santoro começa a explorar o Mercado de São Brás. Um prédio com características neoclássicas bem definidas como a simetria, elementos clássicos nas colunas e enquadramentos, a posição de símbolos relativos à função de mercado como mercúrio e cabeças de boi que sinalizavam o comércio e a venda de carne. Além disso, o arquiteto introduz em Belém a construção de alvenaria e telhas de amianto”, conta Jussara Derenji, arquiteta e pesquisadora das construções históricas de Belém.
Foto: Amarilis Marisal/Agência Belém
Reforma
Toda a área recebe agora total recuperação com a obra de requalificação do espaço transformando o Mercado em Complexo Gastronômico e Cultural, uma das principais realizações da Prefeitura de Belém, em preparação da cidade para receber a Conferência das Nações Unidas Sobre Mudança Climática (a COP 30), em 2025. O investimento é de R$ R$ 150.507.380,98, sendo R$ 85 milhões do Governo Federal, por meio da Itaipu Binacional.
Para a pesquisadora, a requalificação do mercado é importante não só pelo ponto de vista histórico, mas principalmente pela renovação do entorno. “A requalificação do prédio para novas funções é extremamente importante como possibilidade de recuperar uma extensa área que estava em degradação”, aponta.
Opinião compartilhada pelo arquiteto coordenador de projetos especiais da Prefeitura de Belém, José de Andrade Rayol. “O pólo de São Brás à época era chamado de Nova Belém e atraiu investimentos internacionais como a caixa d’água, de investimento francês, construída pela mesma empresa que fez a Torre Eiffel, o Mercado de São Brás, de investimento totalmente italiano e o investimento inglês da estação da Estrada de Ferro. O bairro andava meio meio descuidado e agora voltará a ser fortalecido com os vários serviços e restaurantes disponibilizados pela requalificação”, aponta o arquiteto.
Para ele, a entrega do Complexo Gastronômico e Cultural pela Prefeitura de Belém, marcada para 18 de dezembro, coroa uma política de valorização do patrimônio histórico da cidade. “Como arquiteto, a gente sente uma grande política de recuperação do patrimônio de Belém, desde o Palácio Antônio Lemos, o Palacete Pinho, o Solar Flávio Nassar, que já foram entregues e observar agora as obras do Ver-o-Peso e o Mercado de São Brás vem coroar essa política de uma maneira ousada. A requalificação com a criação do estacionamento subterrâneo para 200 carros foi uma aposta que poderia ter dado errado, mas que o trabalho bem realizado de engenharia permitiu fazer. Talvez sem isso, a funcionalidade do mercado estivesse comprometida no futuro”, explica.
Inspiração europeia
Em 2024, o mercado entrou em processo de restauração. O responsável pelo projeto foi o arquiteto Aurélio Meira. Ele foi até os mercados em Lisboa, Madri e Barcelona para conhecer quais estratégias foram utilizadas nesses locais que poderiam ser reproduzidas aqui. “Visitei Mercados emblemáticos dessas cidades como o Mercado de Ourique em Lisboa, o Mercado de São Miguel de Madri, e o Mercado da Bocanera em Barcelona, e entre os quatro, teve um que eu gostei muito. Então eu captei aquele clima do campo de Ourique onde eles reabilitaram o velho mercado, onde hoje é a maior badalação. Foi esse clima que eu quis reproduzir aqui”, afirma o arquiteto.
“Preservar é insuflar vida aos ecos do passado, permitindo que o edifício respire o presente, alimente a cidade, e se alimente dela. É uma dança entre tempos, onde o concreto se torna árvore de raízes profundas sorvendo da seiva urbana para eternizar-se e cada restauração como uma alquimia funde as marcas do tempo sem apagar as cicatrizes que fazem de cada estrutura um coração pulsante”, declara o arquiteto.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O senador Eduardo Braga (MDB-AM), relator da Reforma Tributária (RT) no Senado Federal, apresentou via internet e em coletivas à imprensa, na segunda-feira, 9, substitutivo ao Projeto de Lei Complementar (PL) 68/2024 da Câmara dos Deputados. Após leitura na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi aprovado na tarde desta quinta-feira (12) o principal projeto de regulamentação da Reforma. O texto trata das regras de incidência do Imposto Sobre Valor Agregado (IVA Dual), que se subdivide em dois tributos básicos sobre o consumo: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), em nível federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), em nível estadual/municipal, além do Imposto Seletivo (IS), o chamado “imposto do pecado”, uma sobretaxa aplicada sobre determinados produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.
A Associação Comercial do Amazonas (ACA) divulgou nota assinada pelo presidente da entidade, Bruno Pinheiro, dando conta de que, por meio do parecer dos advogados tributaristas Pedro Câmara Júnior e Antônio Oliveira, a entidade avalia positivamente as mudanças promovidas pelo senador Braga (MDB) sobre o PL 68/2024 que regulamenta a RT. O parecer considera que a mudança sugerida pela ACA — e incluída no parecer de Braga — de “zerar” as alíquotas da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) nas operações realizadas por pessoas jurídicas estabelecidas na Zona Franca de Manaus com bens materiais de origem nacional ou serviços prestados presencialmente garantirá a competitividade do comércio amazonense.
De acordo com os tributaristas da ACA “mesmo não mencionando diretamente o Comércio, diversamente do que ocorre com o Setor Industrial, o texto legislativo finalmente abarca as pretensões do Comércio em desonerar todos os comerciantes da CBS – Contribuição sobre Bens e Serviços, o Tributo que substituirá as atuais PIS e COFINS (impostos federais)“. Por outro lado, ao que sustentam, “dentro do cenário posto nas discussões da Reforma Tributária a alíquota zero da CBS representa efetiva desoneração ao comércio na região e se torna um grande avanço na luta da Associação Comercial do Amazonas pela manutenção dos incentivos fiscais a este setor tão fundamental à economia amazonense”.
Segundo Bruno Pinheiro, “a Zona Franca de Manaus, cujas vantagens comparativas foram acolhidas pela Constituição de 1988, concede benefícios fiscais tanto para a indústria, quanto para o comércio (serviços incluídos) e agropecuário, estes dois menos perceptíveis, teve parte destas vantagens constitucionais modificadas na Câmara dos Deputados, agora restaurados segundo o parecer do senador Braga, permitindo, em consequência ao comércio voltar a ter as vantagens comparativas previstas na Constituição”.
Manifesto assinado por representantes de 22 entidades da sociedade civil organizada do Amazonas (FIEAM, CIEAM, Fecomércio, ACA, CDL-Manaus, Associação Pan-Amazônia, CORECON-AM, ELTROS e sindicatos setoriais), divulgado na terça-feira, 10, “repudiou a divulgação da informação, considerada falsa pelas entidades, de que o relatório do senador Eduardo Braga (MDB) ao projeto de Lei Complementar 068/2024 trouxe ganhos adicionais indevidos à Zona Franca de Manaus. As entidades que assinam o manifesto defendem que não há ganho em relação ao atual nível de competitividade do modelo ZFM.
O documento deixa claro “que ocorreu justamente o contrário. Os números mostram uma redução para a ZFM em razão da mudança da estrutura tributária. Entendemos, contudo, ser essa discreta perda a contribuição da ZFM para a modernização do sistema tributário nacional, enfatizando que o objetivo da defesa do relatório de Braga é mostrar que o tratamento tributário, adotado no relatório, apenas replica os atuais níveis de benefícios fiscais já concedidos na cobrança do ICMS, sem qualquer acréscimo de vantagens para o modelo econômico amazonense”.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
As comunidades indígenas brasileiras contarão com apoio do Governo Federal para desenvolver roteiros e experiências turísticas por meio do ecoturismo e do turismo de base comunitária. A estratégia faz parte do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) assinado no último dia 13, durante a celebração dos 57 anos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Brasília.
A cooperação foi assinada pela Funai com os Ministérios do Turismo (MTur), dos Povos Indígenas e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além da Embratur.
O objetivo é possibilitar que, de forma sustentável e responsável, a atividade turística potencialize a geração de renda, emprego e inclusão nesses locais, além de permitir o reconhecimento e a valorização das histórias, tradições e saberes indígenas, garantindo o protagonismo e o respeito aos povos originários.
Ao representar o ministro Celso Sabino na cerimônia, a Secretária-Executiva do MTur, Ana Carla Lopes, celebrou a união de forças em torno do acordo.
“Como mulher amazônida, esse momento, para mim, é ainda mais significativo e especial, pois sei do poder da nossa floresta, de nossas águas e de nosso povo. E sei, principalmente, o quanto o turismo, quando realizado de forma sustentável e responsável, pode ser transformador para as nossas comunidades indígenas”, afirmou Ana Carla, complementando que o turismo impacta na geração de renda e também é imprescindível para a conservação ambiental e cultural, principalmente quando existe a participação efetiva das comunidades.
No ato da assinatura a secretária, que representou o ministro Celso Sabino no evento, fez um agradecimento público as todas as equipes dos ministérios, da Embratur e também da Funai que participaram da construção do ACT. “Muitos podem pensar que é só um papel, mas na realidade é o início de um grande trabalho junto às comunidades indígenas do nosso país”, garantiu Ana Carla.
Além da disponibilidade de recursos humanos, tecnológicos e materiais para a execução das ações, o ACT prevê a capacitação e orientação de gestores públicos, da iniciativa privada do setor e de turistas sobre a importância da valorização da sociobiodiversidade, dos povos indígenas e da aplicação de boas práticas para o desenvolvimento responsável do turismo.
Também está entre os objetivos da estratégia o desenvolvimento de materiais de qualificação voltados para as próprias comunidades indígenas, com conteúdos adaptados à realidade do território, fortalecendo, dessa forma, a autonomia e o protagonismo das comunidades, além do investimento na promoção nacional e internacional.
Para o Ministério dos Povos Indígenas o acordo é mais uma conquista importante para garantir o sustento das comunidades indígenas e a preservação dos territórios.
“Temos muito a comemorar com a retomada da valorização dos povos indígenas pelo governo federal, e esse envolvimento de vários ministérios na pauta do turismo sustentável é mais um avanço significativo para nós e nossas comunidades”, afirmou a ministra Sonia Guajajara.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também celebrou o acordo. “Festejamos aqui o aniversário da Funai, mas também celebramos o fato de termos pela primeira vez um Ministério dos Povos Indígenas, e esse novo acordo por ações conjuntas reforça a valorização que o governo federal defende para as comunidades e territórios indígenas”.
Valor
A presidenta da Funai, Joênia Wapichana, ressaltou que o órgão hoje está reestruturado e pronto para acompanhar o fomento também ao segmento do turismo de base comunitária. “Sabemos que em muitas comunidades hoje abertas à visitação esse é um caminho que será gerador de renda, e nós sabemos e estamos pontos para fazer esse papel de acompanhamento às orientações para o turismo sustentável em nosso territórios”, declarou Joênia.
Outro ponto muito importante do acordo envolve o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que será fundamental na promoção da agregação de valor aos produtos e serviços indígenas, por meio da inovação tecnológica, da certificação sustentável, do fortalecimento gerencial de cooperativas e associações produtivas e do desenvolvimento de modelos de negócios sustentáveis, incluindo apoio e orientações para a comercialização e a promoção para mercados nacionais e internacionais.
Mapeamento
Para identificar povos indígenas que desenvolvem atividades de turismo de base comunitária, o Ministério do Turismo realiza um projeto inovador para catalogar e promover boas práticas.
As comunidades deverão responder e encaminhar o formulário eletrônico até o dia 31 de dezembro. O documento pode ser acessado por comunidades indígenas, organizações públicas e privadas que tenham informações sobre atividades turísticas envolvendo povos indígenas (Acesse AQUI o formulário).
Com a medida, o MTur pretende subsidiar políticas públicas de etnoturismo indígena e contribuir para o fortalecimento de uma rede de turismo sustentável, inclusivo e culturalmente rico, respeitando saberes tradicionais e a autonomia dos povos.
A iniciativa faz parte do Projeto “Brasil, Turismo Responsável”, iniciado em julho de 2024, desenvolvido por meio de um Termo de Execução Descentralizada – TED com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, trabalhado por meio também de cooperação técnica junto ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Barcos encalhados na Ponta da Piraíba, em Manaus (AM), novembro de 2023: redução do nível dos aquíferos agrava a estiagem e deixa a floresta mais vulnerável a incêndios. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Na Amazônia, as águas subterrâneas funcionam como um reservatório que sustenta as árvores nos períodos de seca. Quando a estiagem é prolongada, porém, o nível dos aquíferos cai, agravando a seca e deixando a floresta mais vulnerável a incêndios, especialmente nos anos marcados pelo fenômeno climático El Niño.
As conclusões fazem parte de um estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), publicado em dezembro na revista Science of the Total Environment, e lançam um alerta sobre a gestão de águas subterrâneas, acumuladas entre as rochas ou em seus poros.
“Quando a floresta não tem de onde tirar água, qualquer faísca pode começar um incêndio, que se alastra com mais facilidade”, comenta o geógrafo da USP Bruno Conicelli, um dos autores do artigo.
A partir de dados de satélites de sensoriamento remoto, ele calculou o nível dos aquíferos da Amazônia de 2004 a 2016 e comparou com dados de incêndio. As queimadas mais extensas ocuparam as regiões onde os aquíferos estavam mais secos.
“Como os aquíferos guardam quantidades gigantescas de água, cerca de 97% da água doce líquida do planeta, seu nível demora mais a se recompor, enquanto os rios, com 1% das reservas de água doce, enchem quase instantaneamente com a chuva intensa”, esclarece o geólogo da USP Ricardo Hirata, coautor do trabalho.
Esse fenômeno é mais visível nos rios temporários das regiões áridas e semiáridas, que secam durante a estiagem e voltam a correr logo que a chuva recomeça. Nesses locais, os aquíferos geralmente são mais profundos que a superfície e mesmo que os leitos dos rios.
“Na Amazônia, os aquíferos levam meses para se recompor após a volta das chuvas”, observa Conicelli.
Segundo ele, uma sequência de secas, como a dos últimos anos, não permite que os aquíferos se recuperem. As plantas com raízes menos profundas são as primeiras a sofrer com a falta de água.
As variações das áreas tomadas pelos incêndios podem ser explicadas tanto pela seca nos aquíferos quanto pela exploração da floresta. A fronteira agrícola de Mato Grosso, por exemplo, sofreu muitos incêndios, embora a seca nos aquíferos não tenha sido tão severa. Por outro lado, o fogo foi intenso em regiões da Amazônia que secaram mais, como o norte, perto da fronteira com a Venezuela, a região central e a foz do rio Amazonas. Perto dos Andes, onde chove mais, houve menos fogo.
“O nível dos aquíferos, junto com dados climáticos, poderia ser usado para avaliar o risco de fogo em diferentes locais da Amazônia”, sugere Conicelli. Mas para isso seria necessário construir uma rede de monitoramento, uma vez que os poços perfurados para fornecimento de água não são adequados para fazer essa medida. “Sabendo o nível do aquífero e conhecendo a profundidade da raiz das diversas espécies, seria possível determinar o momento em que as plantas não conseguem mais absorver água em uma dada região.”
Rios que perdem ou ganham água
A água subterrânea que aflora nas nascentes mantém os chamados rios perenes ‒ que correm o ano todo ‒ em períodos de seca. Por outro lado, alguns rios podem perder água, que infiltra no leito e volta para os aquíferos.
A maioria (55%) dos rios brasileiros perde água, correndo o risco de sofrer uma redução da vazão caso as mudanças climáticas ou a extração de água subterrânea se intensifique, de acordo com um estudo de novembro publicado na revista Nature Communications. Os rios que perdem água para os aquíferos são mais comuns em regiões áridas e semiáridas e áreas de extensa agricultura irrigada, como na bacia do rio São Francisco, onde a proporção de rios que cedem água para os aquíferos supera os 61%.
“Essa perda não significa que a maioria dos rios esteja secando, mas pode se tornar significativa em termos de vazão se o nível do aquífero diminuir”, esclarece o engenheiro civil Edson Wendland, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, supervisor do trabalho.
O engenheiro civil da EESC José Gescilam Uchôa, principal autor do estudo, comparou o nível dos rios, medido a partir de imagens de satélite, com o nível de poços cadastrados pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB). Os poços selecionados tinham uma profundidade de até 100 metros e distância de até 1 quilômetro dos rios, o suficiente para permitir a passagem de água para os aquíferos. Se o nível nos poços era maior do que o dos rios, a tendência era de os rios ganharem água. Na situação oposta, perderiam.
Um trabalho desse tipo, publicado em 2020 na revista Water e assinado por pesquisadores brasileiros e americanos, indicou que a maior responsável pela redução da vazão dos rios na bacia do rio São Francisco foi a queda no nível d’água dos aquíferos que abasteciam os rios. A extração de água para a irrigação foi apontada como a provável principal causa do problema.
“A gestão de rios e aquíferos deve ser feita de forma integrada”, defende Uchôa. “Hoje, gestores dessas duas áreas trabalham de forma praticamente isolada”. Segundo ele, o monitoramento dos recursos hídricos seria importante principalmente nas áreas de agricultura irrigada.
“O Brasil está em nono lugar na lista dos maiores exploradores de águas subterrâneas e tem quase 3 milhões de poços, que abastecem total ou parcialmente 52% dos municípios do país e representam um valor de quase R$ 100 bilhões para a economia”, observa Hirata. Segundo ele, 90% dos poços são privados e 80% irregulares.
Projetos
1. Sacre: Soluções integradas para cidades resilientes (n° 20/15434-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo César Aoki Hirata (USP); Investimento R$ 6.494.953,26. 2. Impacto do uso e ocupação do solo e das mudanças climáticas nos fluxos hidrológicos entre as águas subterrâneas e as águas superficiais em área de afloramento do sistema Aquífero Guarani (n° 23/13160-8); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Edson Cezar Wendland (USP); Bolsista José Gescilam Sousa Mota Uchôa; Investimento R$ 365.185,44. 3. Eventos extremos de precipitação e temperatura no Brasil em um contexto de mudanças climáticas: Propriedades estatísticas e mudanças futuras (n° 22/06017-1); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Edson Cezar Wendland (USP); Bolsista André Simões Ballarin; Investimento R$ 158.795,17.
Dom Romualdo Antônio de Seixas. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Romualdo Antônio de Seixas nasceu em Cametá, Pará, em 1 de novembro de 1787. Foram seus pais Francisco Justiniano de Seixas e dona Ângela de Souza Bittencourt. Era sobrinho de Dom Romualdo de Souza Coelho, oitavo Bispo do Estado do Pará.
Fez seus primeiros estudos no seminário de Belém sob os auspícios de seu tio, o Padre Romualdo de Souza Coelho, que mais tarde viria a ser Bispo do Pará e que também nascera na mesma cidade, Cametá.
Estudou algum tempo no seminário em Lisboa, onde seu talento foi sobre modo apreciado. Seus estudos em Portugal foram na Congregação do Oratório, onde teve por um de seus mestres o Padre Theodoro de Almeida, célebre autor das “Recreações filosóficas”.
Voltando para o Pará, por ocasião da abertura das aulas públicas, lecionou filosofia com 18 anos de idade, fez um discurso que impressionou o auditório e as autoridades presentes. Aos 19 anos, com a primeira tonsura, foi nomeado mestre de cerimônias do Sólio e começando a lecionar no Seminário Episcopal: Latim, Retórica, Filosofia e Francês.
Aos 20 anos de idade, tomou ordens de Subdiácono e estreou na Tribuna Sagrada por adoecer o orador, improvisando o panegírico de São Thomaz de Aquino. Aos 22 anos, tendo ordem de diácono, foi para a Província do Rio de Janeiro, acompanhado de outro jovem eclesiástico, em comissão do Bispo do Pará, para em seu nome, cumprimentar a família real e tratar de importantes assuntos de sua diocese, regressando com a nomeação de Cônego da Sé Paraense e a de Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Aos 23 anos recebeu ordens de Presbítero, foi nomeado Pároco de sua cidade natal (Cametá), logo a seguir Vigário Geral da Província, sendo mais tarde, por morte do Diocesano Vigário Capitular.
Nomeado Arcebispo da Bahia, a 12 de outubro de 1826, foi sua nomeação confirmada pelo Papa Leão XII, a 20 de maio de 1827, sendo realizada sua sagração na Província do Rio de Janeiro a 28 de outubro do mesmo ano. Tomou posse do cargo por procuração a 31 de janeiro de 1828 e, a 26 de novembro do mesmo ano, deu entrada na Província da Bahia.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Cametá-PA
Foi eleito Presidente da Junta Provisória Governativa da Província do Pará por duas vezes, em 1821 e em 1823. Em 1841 presidiu a solenidade da sagração do Imperador Dom Pedro II, como metropolita e primaz do Brasil. Agraciado por Dom Pedro I com o título de Pregador da Capela Imperial e com a Grande Dignitária da Ordem da Rosa, foi por Dom Pedro II agraciado com a Gram Cruz da Ordem de Cristo, com o título de Conde e mais tarde com o título de Marquês de Santa Cruz.
Foi eleito Deputado pela Província do Pará para a primeira legislatura no período de 6 de maio de 1826 a 3 de setembro de 1829. Foi eleito Deputado pela Província da Bahia para três legislaturas, de 3 de maio de 1834 a 15 de outubro de 1837, tendo sido substituído no período de 3 de maio de 1838, a 21 de novembro de 1841, sendo substituído no período de 3 de maio de 1839 a 15 de setembro de 1840. Foi Presidente da Câmara dos Deputados a 3 de julho de 1828 a 4 de maio de 1829 e de 4 de maio a 3 de agosto de 1841.
Posteriormente, tornou-se Deputado na Assembleia Geral Legislativa. Como deputado, apesar de ter nascido no Pará, foi defensor incansável na campanha em prol da criação da província do Amazonas e seus discursos a esse respeito constam dos Anais do Parlamento Nacional, assunto sobre o qual se refere o historiador Arthur César Ferreira Reis, em sua obra ‘História do Amazonas’, onde afirma que foi a primeira voz a se erguer em favor da criação da Província do Amazonas.
Dom Romualdo Antônio de Seixas foi sagrado na Capela Imperial do Rio de Janeiro por Dom José Caetano da Silva Coutinho, estando presente o imperador e toda sua corte, em 1841, como único arcebispo do Brasil à época. A Província Eclesiástica de São Salvador da Bahia abrangia todo território brasileiro e todas as demais dioceses, inclusive a do Rio de Janeiro, que eram sufragâneas da Arquidiocese Metropolitana de Salvador.
Presidiu a solenidade de sagração Dom Pedro II, Imperador do Brasil, e dele recebeu a Grã-cruz da Imperial Ordem de Cristo. Recebeu o título de Conde de Santa Cruz, por Decreto imperial, de 2 de dezembro de 1858. Em 14 de março de 1860, foi nomeado Marquês de Santa Cruz.
Dom Romualdo Antônio de Seixas pertenceu ao grupo de bispos ultramarinos ou reformadores, como Dom Antônio Ferreira Viçoso, de Mariana; Dom Antônio Joaquim de Melo, de São Paulo; Dom Antônio Macedo Costa do Pará; e Dom Vital de Oliveira, de Pernambuco.
Foi sócio da Academia de Munique, do Instituto da África, em Paris; do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro; da Sociedade Real dos Antiquários do Norte; e outras sociedades de ciências e letras. Correspondeu-se com Carl Frederich Philipp Von Martius e Johann Baptist Von Spix após manter contato pessoal quando da viagem destes à Amazônia. Ao regressarem a Europa, os naturalistas lhe enviaram de lá o diploma de sócio da Real Academia de Ciências de Munique.
Em Cametá, há uma escola com seu nome (Grupo Escolar Dom Romualdo de Seixas) que é a mais antiga da cidade. Em uma das ruas do Bairro de Cambuci, em São Paulo, tem o nome Rua Dom Romualdo de Seixas, assim como em Belém do Pará, no Bairro de Umarizal, e em Manaus existe a rua que perpetua seu nome Marquês de Santa Cruz, bem como a Escola Estadual de Tempo Integral (EETI) Marquês de Santa Cruz, no bairro São Raimundo.
Seus discursos parlamentares, seus sermões, suas cartas pastorais e outros escritos lhe firmaram a reputação de sábio, assim no Brasil como na Europa.
No dia 25 de fevereiro de 1858, escreveu seu belo e comovente testamento, do qual fez executores ou testamenteiros Raimundo Barroso de Souza, seu primo e cunhado; Cônego José Joaquim da Fonseca Lima e Cônego José de Souza Lima.
Dom Romualdo Antônio de Seixas muito sofreu da parte de inimigos gratuitos que lhe invejavam o talento e a fama. Estes não o pouparam, espalhando no Reino as mais repelentes calúnias. O prelado, entretanto, nobre e magnânimo a todos perdoou, incluindo em seu testamento esta declaração impressionante:
“[…] Perdoo de todo meu coração todas as calúnias, de que tenho sido objeto, sem exceção das que com inaudita injustiça se fez correr por todo o Império, de que eu tinha alcançado por meios simoníacos o arcebispado da Bahia. Reconheço-me como o mais miserável dos pecadores, mas, tomo por testemunha a Deus que me há de julgar, que não sou culpado de tão abominável delito. Nunca dei nenhum passo ou apliquei meio algum ainda indireto para conseguir esta alta dignidade, que certamente não merecia, nem jamais me tinha vindo a lembranças, pelo contrário tentei logo pedir escusa e, se o não o fiz foi movido pelos conselhos de um sábio e respeitável prelado, mas, quando chegou a Bula da confirmação, tendo já transpirado a referida atrocíssima calunia, resolvi-me então, ir pedir a Sua Majestade Imperador, que me dispensa-se de semelhante cargo, pois, que ainda era tempo, mas ele não se dignou atender-me”.
Antologia Nacional de Werneck
Chorado pelo seu rebanho, faleceu no dia 29 de dezembro de 1860, em Salvador, aos 73 anos.
Obras escritas por ele:
1. A Oração Fúnebre, recitada nas exéquias da sereníssima senhora infanta D. Maria Ana, celebradas na Catedral do Pará. Rio de Janeiro, 1814, 17 páginas.
2. O Sermão de ação de graças pelo sucesso de nossas armas em Portugal, pregado na igreja dos militares do Grão-Pará na festa que celebrou a oficialidade do 1.º Regimento de Linha do Rio de Janeiro, 1812, 31 páginas.
3. O Sermão de ação de graças que no dia 13 de maio celebrou o Senado da Câmara do Pará pela feliz aclamação do uito altom e poderoso Sr. D. João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Rio de Janeiro, 1818, 22 páginas.
4. A Oração Fúnebre do Exm° Rev. Bispo do Pará, D. Manoel de Carvalho, nas solenes exéquias celebradas pelo cabido, etc. Lisboa, 1819.
5. O Panegirico de São Thomas de Aquino – improviso feito em substituição do próprio bispo do Pará, que adoeceu repentinamente, sendo então, D. Romualdo o subdiácono.
6. A Oração Gratulatória pela restauração dos estudos filosóficos na capital do Grão-Pará, que recitou na aula regia de filosofia, com dezoito anos de idade, quando o respectivo professor, restituído a sua cadeira, abriu o curso filosófico perante o Conde dos Arcos. Páginas 89 a 110.
7. Oratio Habitu VIIidus octobris im Paraensi Seminário. Cum primum filosofiam docendi manus auspicaretur? Anno MDCCCVII. Páginas 111 a 126.
8. A “Oração Fúnebre” da muita alta e augusta senhora D. Maria Leopoldina Josefa Carolina, arquiduquesa d’Áustria, primeira Imperatriz do Brasil, que recitou nas solenes exéquias celebradas no dia 6 de março de 1827, na igreja da Santa Casa da Misericórdia. Rio de Janeiro, 1827, 30 páginas.
9. O Sermão recitado perante SS. MM e AA. II, na missa solene que no dia 2 de janeiro de 1826 fez celebrar em louvor de Nossa Senhora da Glória a respectiva irmandade, depois da cerimonia da apresentação do sereníssimo príncipe imperial a mesma senhora. Rio de Janeiro, 1826. 19 páginas.
10. O discurso que no dia 15 de agosto, aniversário da adesão da Província do Pará a causa da independência do Brasil, recitou por motivo do juramento da Constituição, ratificado nesse dia por todas as autoridades eclesiásticas, civis e militares. Rio de Janeiro, 1825, 20 páginas.
11. O Panegirico de São Gonçalo de Amarante, pregado na igreja do Bonfim. Bahia, 1832.
12. O discurso que em 17 de setembro de 1835 recitou no ato em que se lançou o habito de São Bento a 10 noviços. Bahia, 1835. 19 páginas.
13. O Discurso sobre a questão do Governo do Brasil com a Corte de Roma. Rio de Janeiro, 1837. 16 páginas.
14. Os Discursos Parlamentares que pronunciou na Câmara dos Deputados durante a primeira legislatura (1826-1829) e nas sessões de 1834 e 1836. Coligidas e publicadas pelo presbítero secular Vicente Maria da Silva. Bahia, 1836, 286 páginas.
15. Os Discursos pronunciados na Sociedade Biblioteca Clássica Portuguesa e na Sociedade Instrutiva da Bahia. São três e acham no Mosaico, tomo 2º, páginas 34 a 42, 184 a 190 e 262 a 267.
16. A Pastoral que o governador do bispado do Pará dirigiu aos párocos com os exemplares de duas homilias, transmitidas pelo respectivo diocesano na conformidade de uma portaria régia. Lisboa, 1822. 8 páginas. Achava-se o diocesano nas Cortes Gerais. Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa.
17. A Pastoral por ocasião de ser elevado a cadeira arquiepiscopal da Bahia. Rio de Janeiro. 1830.
18. A Carta Pastoral de 22 de fevereiro de 1830, publicando o jubileu. Bahia. 1830.
19. A Instrução Pastoral sobre os estudos do clero no estabelecimento das conferências eclesiásticas na sua diocese. Bahia. 1830.
20. A Pastoral convidando os seus diocesanos ao solene Te Deum que pretende fazer celebrar na igreja catedral pelo feliz restabelecimento de S. M, o imperador. Bahia.
21. A Pastoral em que ordena que o dia 2 de julho seja considerado dia santificado, dada na cidade da Bahia aos 26 de junho de 1830. Foi reproduzida no período Ástrea, n.º 595, de 26 de junho do mesmo ano.
22. A Pastoral aos habitantes da Província do Pará condenando o movimento armado e persuadindo os revolucionários a largarem as armas. Bahia, 1835. Esta pastoral foi escrita a convite do Governo da Regência por ocasião da revolta. O general Manoel Jorge Rodrigues, depois barão de Taquari, diz que nela encontrou motivação que lhe deu vitórias sem combate e sem vítimas. Duas outras pastorais escritas por ocasião da revolução de 7 de novembro de 1837, muito contribuíram para desenvolver o entusiasmo em prol da integridade do império.
23. A Pastoral em que, recolhendo-se a capital da Província da Bahia, depois de extinta a revolução, saúde e felicita os seus diocesanos. Bahia, 1838, 11 páginas.
24. A Pastoral invocando a caridade pública em favor da desolada Província do Ceará por meio de subscrições abertas pelos reverendos párocos da diocese. Bahia, 1846. 5 páginas.
25. A instrução Pastoral, respondendo as principais objeções que se tem feito contra o poder temporal do Papa. Bahia, 1860.
26. A representação dirigida a Assembleia Geral Legislativa sobre o privilegio do foro eclesiástico, extinto pelo processo do Colégio Criminal. Bahia, 1832.
27. A Representação dirigida a Assembleia Geral Legislativa sobre um projeto de lei relativo aos impedimentos e causas matrimoniais, oferecendo à Câmara dos Deputados em 1831. Bahia, 1832.
28. A resposta a um aviso da secretaria de Estado dos Negócios da Justiça. Bahia, 1831.
29. A Memória Apologética em resposta a um opusculo do Bispo do Rio de Janeiro acerca do prelado que devia fazer o Ato da Coroação e Sagração de S. M. o Imperador. Bahia 1842. Versa a questão se deveria o celebrante ser o arcebispo metropolitano e primaz do Brasil, ou o bispo capelão-mor do Rio de janeiro.
30. A resposta ao Dr. Vilela Tavares sobre as obrigações mistas dos párocos. Bahia, 1853. A resposta refere-se a uma consulta do professor de Direito, se os párocos podiam ser processados e punidos pelo poder temporal, quando violam as obrigações mistas e as leis do estado.
31. Requerimento apresentando a Câmara dos Deputados. Bahia, 1839. 14 páginas.
32. Representação dirigida a S. M. o imperador sobre a proposta do Governo acerca da proposta do governo sobre o casamento civil. Bahia, 1859. 56 páginas.
33. Representação dirigida as Câmaras Legislativas acerca da proposta do governo sobre casamento civil. Bahia, 1859. 47 páginas.
34. Breve memória acerca da naturalidade do padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, de que foi encarregado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Saiu publicado na revista do mesmo instituto. Tomo 9º, páginas 5 a 32.
35. Manual completo de sólida piedade, ou guia espiritual nas praticas de verdadeira devoção, extraído dos melhores autores misticos do mundo católico sob os auspícios e aprovação do Reverendíssimo D. Romualdo Antônio de Seixas. Bahia, 1854.
Registra-se, que D. Romualdo nunca publicou, nem teve tempo preciso para rever o grande número de sermões, homilias, discursos, pastorais, etc., que constam destas Obras Completas, 6 volumes, a saber:
a) 1° volume – Pernambuco, 1839 – contendo 29 pastorais e 10 portarias, etc, sob a regência do arcebispo;
b) 2° volume – Pernambuco, 1839 – contendo 13 sermões e discursos e mais 16 escritos diversos;
c) 3° volume Pernambuco, 1839 – contendo 61 discursos parlamentares e uma representação a Câmara de Senadores;
d) 4° volume – Bahia, 1832 – contendo 32 pastorais e 7 discursos sendo três deles os recitados na sociedade Biblioteca Clássica Portuguesa e Instrutiva e os dois últimos na Câmara dos Deputados em 1841;
e) 5° volume – Bahia, 1858 – contendo 29 escritos diversos e entre eles a Memória Apologética e a Memória sobre a naturalidade do padre Antônio Vieira.
a) as Memorias do Marques de Santa Cruz, arcebispo da Bahia. Rio de Janeiro, 1861. Nessa obra existe uma nota biográfica do autor escrita pelo padre José Joaquim da Fonseca Lima;
b) As Obras completas do marques de Santa Cruz, arcebispo da Bahia, tomo I discursos sacros. Bahia, 1876, 399 páginas de autoria do cônego D. Romualdo Maria de Seixas Barroso, sobrinho do arcebispo. São 36 discursos, começando pela reimpressão dos sete que estão no livro Sermões e Panegíricos. O restante são sermões, panegíricos, homilias e discursos religiosos. Traz, ainda, uma introdução do colecionador e uma biográfica do autor, já publicada. Muitos sermões do Arcebispo da Bahia não foram publicados. Neste caso parece-me estar o seu primeiro sermão que é o Panegirico de S. Tomás de Aquino – improviso feito em substituição do próprio bispo do Pará, que adoeceu repentinamente, sendo D. Romualdo subdiácono.
Dom Romualdo Antônio de Seixas usou também o nome parlamentar Seixas.
Seu nome é destaque em outras obras:
Octaciano Nogueira e Joao Firmo. Parlamentares do Império. Senado Federal, Brasília, 1973. V. 1, p. 379-380.
Blake, Augusto Victorio Alves Sacramento. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Vol III. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1899, p. 154-159.
Rio Branco. Efemérides Brasileiras. P. 175, 323,554 e 620.
Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Arquivo. Organizações e Programas Ministeriais. 2ª ed. 1962.
Lyra, Carlos Tavares de. Presidentes da Câmara dos Deputados durante o império – 1826 a 1889.
Coordenação de Publicações. Mesas da Câmara dos Deputados – 1826 a 1982.
Sisson, S. A. Galeria dos Brasileiros ilustres. Vol. I. P. 203, 216.
Galvão, Ramiz. Catalogo da Exposição de Historia do Brasil. Várias páginas.
Biografia: Catalogo da Exposição de Historia do Brasil. P. 15.841-15842.
Cunha, Raimundo Ciryaco Alves da. Paraenses ilustres. 2º ed. P. 49-53.
Fonte:
BAENA, Antônio Ladislau Monteiro (1782-1850). Compendio das eras da Província do Pará, Belém: Universidade Federal do Pará, 1969.
BLACK, Augusto Victorio Alves Sacramento. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 1883-1902.
COUTINHO, Afrânio; SOUZA, J. Galante de (dir.). Enciclopédia de Literatura Brasileira. 2. Ed. Ver. Ampl, atual. e Il. Sob a coordenação de Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2001.
Guia Histórico e catálogo da Arquidiocese de Belém, 1982.
RAMOS, Alberto Gaudêncio. Cronologia eclesiástica do Pará. Belém: Falângola, 1985.
SILVA, Cândido da Costa e; AZZI, Riolando. Dois estudos sobre D. Romualdo Antônio de Seixas Arcebispo da Bahia. Salvador: CEB, UFBA, 1981. (Centro de Estudos Baianos).
Arquivo Digital – Senado Federal.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
O Pará ganhou, recentemente, um marco no turismo sustentável e na preservação ambiental com a criação da ‘Trilha Aquática Xingu‘, a primeira trilha aquática do estado. Com 42 quilômetros de extensão, o percurso passa por duas importantes Unidades de Conservação (UCs) geridas pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio): a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Vitória de Souzel e o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Tabuleiro do Embaubal. As áreas são conhecidas por sua rica biodiversidade e pela relevância na proteção de quelônios amazônicos.
O trajeto interliga os municípios de Senador José Porfírio e Vitória do Xingu, na região sudoeste paraense, e é resultado de uma parceria entre o Ideflor-Bio, a Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso e a empresa Xingu Adventure. A iniciativa contou, ainda, com o trabalho de voluntários, como de Diego Barros, Helder Campina e Rômulo Santos, e do técnico do Ideflor-Bio, Átilla Mello.
“A criação da Trilha Aquática Xingu abre uma porta imensa para o desenvolvimento da atividade turística, através das remadas, e é uma oportunidade gigantesca de atrair visitantes de dentro e fora do estado”, celebra Wyllyan Farias, um dos idealizadores da trilha.
A trilha não apenas oferece um roteiro diferenciado de ecoturismo, mas também promove a interação sustentável com comunidades locais, como a de Pirarucucuara, que servirá de ponto de apoio para os aventureiros. Serviços como café da manhã, almoço e hospedagem são oferecidos por moradores da região, entre eles Carina Xavier e Benedita Ilene, que já começam a ver o potencial do projeto para o desenvolvimento local. “Nosso objetivo é integrar conservação ambiental e geração de renda para as comunidades, garantindo benefícios para todos os envolvidos”, destacou o presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto.
Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
Biodiversidade
Além da beleza natural, a trilha busca conscientizar sobre a importância de preservação das áreas protegidas e da fauna aquática. O Tabuleiro do Embaubal, por exemplo, é uma das principais áreas de reprodução de quelônios na Amazônia. Já a RDS Vitória de Souzel reforça o manejo sustentável e a valorização cultural dos povos que vivem na região.
“Iniciativas como essa são fundamentais para ampliar a conexão entre as pessoas e a natureza, além de integrar as trilhas aquáticas à Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso, promovendo o Pará como destino internacional”, afirmou Júlio Meyer, gerente da Região Administrativa de Belém e diretor nacional da Rede Brasileira de Trilhas.
Para operacionalizar o percurso, a Xingu Adventure oferece suporte técnico e logístico aos visitantes. Além disso, Nivaldo, morador da região, disponibiliza transporte de lancha para facilitar o deslocamento entre os trechos. O técnico Átilla Mello, do Ideflor-Bio, é o responsável por fornecer informações detalhadas e autorizações para acesso às Unidades de Conservação.
Envolvimento
Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
A comunidade local está diretamente envolvida no projeto, reforçando o modelo de turismo sustentável e participativo. “É uma iniciativa que traz não apenas turistas, mas também novas possibilidades de renda e valorização das tradições locais”, afirmou Nilson Pinto. Segundo ele, o planejamento do percurso priorizou a proteção ambiental e a inclusão social, dois pilares essenciais para o sucesso de iniciativas como essa.
Os visitantes interessados em explorar a Trilha Aquática Xingu podem entrar em contato diretamente com os serviços locais. O apoio comunitário e a estrutura já preparada são diferenciais que prometem transformar o trajeto em uma experiência única. Para mais informações e reservas, o Ideflor-Bio disponibiliza o telefone de Átilla Mello, técnico responsável pela gestão da trilha.
Com o lançamento, a expectativa é que a trilha se torne um modelo de ecoturismo em toda a região amazônica, atraindo turistas nacionais e internacionais. “A criação da Trilha Aquática Xingu é mais um exemplo de como podemos aliar conservação e desenvolvimento, protegendo nossas riquezas naturais e, ao mesmo tempo, fortalecendo as comunidades locais”, finalizou Júlio Meyer.
Serviços como o transporte fluvial e alimentação estão sendo fundamentais para integrar turistas e moradores. A Trilha Aquática Xingu já é um marco no turismo ambiental do Pará, abrindo caminhos não apenas pelo rio, mas também para o futuro do desenvolvimento sustentável.
Uma das principais responsabilidades do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é promover a continuidade, a valorização e a transmissão de manifestações culturais às futuras gerações. Entre os dias 1º e 5 de dezembro, a equipe do Iphan em Mato Grosso realizou uma série de palestras e oficinas voltadas para o povo Enawenê Nawê, em Juína (MT), para apresentar o Plano de Salvaguarda do Ritual Yaokwa, principal cerimônia da etnia.
Durante esses cinco dias, lideranças indígenas e parceiros da salvaguarda participaram de oficinas que abordaram ações destinadas a difundir os conhecimentos associados a esse costume. Em 2011, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluiu o Ritual Yaokwa na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial que Requer Medidas Urgentes de Salvaguarda, destacando sua importância e a necessidade de proteção.
Coordenado pela equipe técnica do Iphan-MT, o Plano de Salvaguarda foi elaborado em 2023 de forma colaborativa, envolvendo tanto técnicos do Instituto quanto membros da comunidade indígena, que contribuíram com suas demandas e perspectivas para o fortalecimento do ritual.
Entre os temas debatidos durante as oficinas, destacou-se a proposta de transferência do ritual da Lista de Salvaguarda Urgente — voltada a grupos que ainda enfrentam desafios na mobilização para preservar o bem cultural — para a Lista Representativa da Unesco.
“Para que essa mudança seja possível, é crucial o engajamento da comunidade indígena nos processos de apropriação do ritual como parte de seu patrimônio, valorizando sua relevância para o povo Enawenê Nawê”, explicou o técnico do Iphan-MT, Francimário Vito dos Santos.
Para o cacique Kolareene Enawene “a mudança de lista é mais uma proteção que vai mostrar para o mundo inteiro o ritual da cultura do povo Enawênê Nawê”. Durante as oficinas, foi apresentado o formulário de candidatura do Ritual Yaokwa referente à mudança da Lista de Salvaguarda Urgente para a Lista Representativa.
O ritual
Com duração de sete meses, o Ritual Yaokwa define o princípio do calendário anual Enawênê, quando os homens saem para a realização da maior de suas pescas – a pesca coletiva de barragem. O ritual estende-se durante o período da seca, época marcada pelas interações com os temidos seres naturais do patamar subterrâneo, os Yakairiti. Na perspectiva nativa, estes seres estão condenados a viver com uma fome insaciável e precisam dos Enawênê Nawê para satisfazer seu desejo voraz por sal vegetal, peixe e outros alimentos derivados do milho e da mandioca.
O Ritual Yaokwa inicia-se em janeiro, com a colheita da mandioca e a coleta das matérias-primas, casca de árvore e cipó, para a construção do Mafa – corpo central das armadilhas de pesca que deve ser acoplado às barragens a serem construídas nos rios. Neste período, realizam-se as primeiras oferendas de alimentos, cantos e danças aos Yakairiti.
O ritual é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2010 e foi revalidado pelo Conselho Consultivo do Iphan em novembro de 2024. A revalidação está relacionada a bens imateriais que já são reconhecidos pelo Iphan e tem o objetivo de avaliar a atual situação desses bens, levantar informações, averiguar a efetividade das ações de salvaguarda, verificar mudanças nos sentidos e significados atribuídos ao bem, entre outras questões.
O Movimento Cultural Frente Unida da Capoeira Tradicional no Amazonas realizou a 24ª edição do Projeto Contemplado pela Lei Paulo Gustavo: ‘A Roda de Capoeira da Eduardo Ribeiro como meio de preservação, resistência e salvaguarda da Capoeira no Amazonas’, neste domingo (12). O evento foi realizado na Calçada da igreja da Matriz, próximo ao Relógio Municipal, e reuniu vários grupos que compartilham com a comunidade as tradições da Capoeira no Amazonas.
Contemplado em um dos editais da Lei Paulo Gustavo, executada pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o projeto celebra 24 anos em 2024 e busca reforçar a importância de preservar e salvaguardar a Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres, bens tombados pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
“É uma alegria imensa ter conseguido cumprir rigorosamente todo o calendário anual, sem nenhuma alteração, mesmo em dias de chuvas fizemos as apresentações como oficinas formativas de Berimbau, Caxixi, pandeiro, Atabaque, palestras contra suicídio, prevenção ao câncer de Mama, Próstata, dificuldades da pessoa com deficiência”, destaca o mestre de capoeira Dermilson Freitas, conhecido como Mestre Canário, coordenador da Frente Unida Capoeira Tradicional do Amazonas, responsável pelos eventos.
Marco cultural e histórico
A roda de capoeira da Avenida Eduardo Ribeiro é um marco cultural na cidade de Manaus. Realizada há 24 anos, tornou-se um ponto de encontro de mestres, contramestres, alunos e admiradores dessa prática. O projeto representa resistência histórica e identitária, sendo um elo vivo entre as gerações. Além disso, a iniciativa busca ampliar o acesso da população a manifestações culturais que reforcem o senso de pertencimento e identidade.
“Foi um ano de muito aprendizado e pretendemos renovar o projeto para o ano que vem, pois, a roda completa 25 anos”, conclui Mestre Canário.
35º Batizado & Trocas de Cordas
A cerimônia de entrega de graduações, ’35º Batizado & Trocas de Cordas’, todas no ritmo da capoeira regional, foi realizada no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, entre os dias 14 e 15, pela Escola de Capoeira Luta de Libertação. O evento contou com os mestres Ricardo Camisa Furada e Mestre Canário, e os contramestres Eli, Prateado e Peteca.
Em meio ao fragmento florestal do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), em Manaus (AM), é possível encontrar quatro espécies de macacos que vivem nesse espaço. O macaco-de-cheiro (Saimiri ustus), o parauacu (Pithecia chrysocephala), o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) e o macaco-da-noite (Aotus trivirgatus). Esses animais encantam os visitantes do Bosque da Ciência e aguçam a curiosidade científica. Uma recente descoberta, feita pela pesquisadora japonesa Makiko Take, revelou que duas dessas espécies — o macaco-de-cheiro e o parauacu — apresentam hábitos alimentares distintos.
Conforme a primatóloga, do Instituto de Pesquisa de Primatas da Universidade de Kyoto, no Japão, a pesquisa iniciou na curiosidade instigada pelo seu orientador, Takakazu Yumoto, que convidou Makiko ao Bosque da Ciência e apresentou a diversidade de macacos presentes na área florestal dentro da área urbana de Manaus, o que motivou a pesquisadora a entender como funcionava a interação desses macacos com o ecossistema local.
Intitulada ‘Ecologia alimentar de parauacu-de-cara-dourada em um fragmento florestal em Manaus, Brasil: Comparação com macacos-de-cheiro simpátricos’, a tese de doutorado de Makiko, utilizou um método bastante simples, mas, ao mesmo tempo, muito minucioso. Sentar, observar os macacos e tomar nota. A pesquisadora realizou o estudo por dois anos, período em que passava 12 horas por dia observando os macacos e anotando seus hábitos alimentares. A cada 10 minutos, Makiko verificava o que os grupos de macacos estavam fazendo e de quais árvores estavam se alimentando e registrava o comportamento dos grupos.
“Eu chegava no Inpa às 6 horas da manhã e observava os macacos até às 18 horas da noite. A cada 10 minutos eu registrava o que esses animais estavam fazendo e do que estavam se alimentando”, lembra.
Foto: Igor Souza/Ascom Inpa
Diferença nos hábitos alimentares
Outro método de pesquisa foi a coleta de amostras dos frutos consumidos pelas espécies para medir características como tamanho, dureza e valores nutricionais, incluindo proteínas e lipídios. Essa análise foi essencial para identificar como cada espécie selecionava seus alimentos e para avaliar as diferenças entre elas.
“Eu coletei os frutos que eles consomem e medi o tamanho, a dureza e também o valor nutricional, como as proteínas e lipídios. Isso ajudou a entender como eles selecionam os frutos. Comparei os frutos que o parauacu come com os frutos que o macaco-de-cheiro come e identifiquei diferenças. O parauacu prefere as sementes de frutos verdes para suprir a proteína, já que ele não consome insetos, ao contrário do macaco-de-cheiro, que inclui pequenos insetos em sua dieta”, frisa.
Durante as observações, foi notado a capacidade do parauacu de consumir frutos, tanto verdes como maduros, o que permite que a espécie utilize a mesma árvore por mais tempo, garantindo acesso a recursos mesmo em períodos de escassez. “Essa dinâmica alimentar mostra como essas espécies se adaptaram às condições do fragmento florestal, onde o acesso aos recursos varia ao longo do ano”, explica Makiko.
Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
O estudo contou com a participação da equipe de veterinária do Instituto. Conforme o veterinário da Prevet, empresa que presta assistência veterinária ao Inpa, Anselmo D’Affonseca, a sua colaboração na pesquisa foi para avaliar a relevância da suplementação alimentar na dieta de primatas dessa área.
“Nosso papel foi processar o alimento fornecido, ou seja, cortá-lo e distribuir nas quantidades determinadas pela pesquisadora, colocando-os em bandejas distribuídas ao longo das trilhas. Além disso, auxiliamos na instalação de balanças nas plataformas onde os alimentos eram disponibilizados, permitindo pesar alguns indivíduos e estimar o impacto da suplementação na dieta geral desses animais que vivem no fragmento”, explica D’Affonseca.
Anselmo ressalta que os resultados são relevantes e podem ser considerados inéditos. “É uma contribuição inédita para o estudo de uma população de primatas relativamente grande que prospera em um fragmento urbano de mata secundária, um ambiente restrito e modificado, os dados podem ser aplicados em estratégias de conservação, como a manutenção de populações em áreas fragmentadas ou até a reintrodução de espécies em locais onde foram extintas”, pondera.
Outra descoberta interessante foi a interação alimentar indireta entre espécies. O parauacu, com sua mandíbula composta de caninos mais fortes que o macaco-de-cheiro, consegue abrir frutos duros. Essa característica beneficia a nutrição de outros animais, como o macaco-de-cheiro e cutias, que aproveitam para se alimentar dos frutos que caem das árvores durante a alimentação do parauacu.
Cooperação Brasil-Japão
Foto: Débora Vale/Ascom Inpa
O estudo de Makiko foi fruto de uma parceria entre o Inpa e a Universidade de Kyoto, com financiamento do Programa de Pós-Graduação em Primatologia e Ciência da Vida Selvagem, Universidade de Kyoto, Japão, e pela Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS).
O pesquisador Wilson Spironello, orientador no Inpa por parte do Brasil, diz que a pesquisa ressalta a importância da cooperação internacional no âmbito de novas descobertas. “As colaborações internacionais são muito importantes porque é uma troca mútua de conhecimento e facilita o intercâmbio de alunos de um país para outro”, pontua
Makiko participou inicialmente como estudante do Projeto Museu na Floresta, onde se encantou pela diversidade de primatas da região. “Eu sempre admirei o parauacu por sua beleza e comportamento fascinante. Ele foi o foco ideal para meu estudo acadêmico”, comenta. “Eu só tenho a agradecer aos meus orientadores por seus apoios contínuos e pacientes, ao Projeto Museu na Floresta, ao Inpa e aos tratadores que sempre me auxiliaram e faziam companhia”, agradece.
Popularização do Conhecimento
Além do trabalho científico, Makiko desenvolveu um aplicativo voltado para a educação ambiental, o Projeto Making Biodiversity the Norm. “Quero que as pessoas de Manaus conheçam as vidas maravilhosas que existem aqui e entendam a importância de preservar esses fragmentos florestais. Esse aplicativo é uma maneira de conectar ciência e sociedade”, conclui.
Projeto Museu na Floresta
Torre ZF-2 – Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
Vera Silva, pesquisadora do Inpa e uma das coordenadoras do Projeto Museu na Floresta diz que o projeto foi uma cooperação entre o Brasil e o Japão, com apoio financeiro da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e universidades japonesas, como a Universidade de Kyoto e o Wildlife Research Center (Centro de Estudos de Vida Selvagem do Japão), coordenado pelo professor Shiro Koshima.
Casa da Ciência – Foto: Victor Mamede/Ascom Inpa
“Essa iniciativa foi muito importante porque permitiu várias colaborações, várias trocas de experiência e, principalmente, a formação de recursos humanos, tanto do lado do Brasil como do lado japonês, em técnicas em estudos de biodiversidade e de estudos visando a proteção da Amazônia”, comenta.
A cooperação permitiu 15 estudantes brasileiros, vinculados aos cursos de pós-graduação do Inpa, terem a experiência de estudar no Japão, uma experiência internacional em áreas de campo de biodiversidade do Japão. Além da oportunidade de conviver com colegas de outras nacionalidades, como da Malásia, da Índia e do próprio Japão.
“Eu acho que esse grupo que veio, japonês para o Brasil, e o grupo que foi do Brasil para o Japão, cria uma ligação que vai permitir futuras colaborações, cooperações e são pessoas que se interagem até hoje e vão se apoiar em diferentes momentos em relação às suas pesquisas e aos estudos da Amazônia”, frisa.
O Museu da Floresta possibilitou a construção de uma base de pesquisa e a renovação de estruturas do Inpa, que não eram reformadas há mais de 40 anos, e viabilizou melhorias na torre da ZF-2, localizada no quilômetro 14. Diversas ações foram realizadas no Bosque, incluindo a reforma da Casa da Ciência, que apresenta o formato atual. “Essas iniciativas foram de grande importância para a instituição, para o Inpa e para a Amazônia, sendo todas elas desenvolvidas e apoiadas por meio do Museu da Floresta”, pontua a pesquisadora.
No último 7 de novembro, a advogada Maíra Pankararu, primeira indígena a participar da Comissão de Anistia, saiu emocionada da estreia de ‘Ainda estou aqui‘.
“Fico muito agradecida, porque ainda são poucos os que discutem o que foi a ditadura para nós, povos indígenas”, disse Pankararu à Agência Pública.
O filme recém-indicado ao Globo de Ouro e que, há poucos dias, se tornou a maior bilheteria do cinema brasileiro no pós-pandemia, conta a busca de Eunice Paiva pelo reconhecimento do assassinato de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, pela ditadura militar. Mas, entre as várias batalhas que marcaram a trajetória de Eunice, o filme do diretor Walter Salles destaca também sua atuação como uma das raras advogadas na época especializadas em direito indígena.
Entre 1964 e 1985, período definido por Pankararu como um “banho de sangue” para os povos indígenas, o governo militar perseguiu, expulsou milhares de suas terras e colocou dezenas em campos de trabalho forçado e prisões.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estimou que pelo menos 8.350 indígenas foram mortos no período – “em decorrência da ação direta de agentes governamentais ou da sua omissão”. O número, aterrador, se refere a apenas dez povos estudados pela CNV – são 305 no Brasil. Desaparecidos e mortos políticos, caso de Rubens Paiva, foram 434, conforme a CNV.
“A gente ainda não tem noção sobre o que aconteceu com os povos indígenas na ditadura”, afirma Pankararu.
Foi nessa época brutal que Eunice se especializou na defesa jurídica dos povos indígenas, assinando pareceres judiciais, buscando indenizações e demarcações de terras, publicando artigos e livros e contribuindo para as discussões que resultariam no capítulo “Dos índios” da Constituição Federal de 1988.
“Eunice é de uma expressão tão grande que é impossível contar a história do movimento indígena nos anos 70 e 80 sem fazer referência à contribuição dela, tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista humanitário”, afirmou o líder, ativista e escritor Ailton Krenak em entrevista à CBN.
O foco de Ainda estou aqui, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, é a batalha de Eunice para que o governo ditatorial reconhecesse o que fez com seu marido, levado por policiais à paisana em janeiro de 1971 para nunca mais retornar.
Mas, ao mencionar a dedicação posterior dela ao direito indígena, o longa abre um caminho para que outra memória coletiva seja também recuperada.
“O direito à memória e à verdade é o direito à nossa identidade, o direito de sanarmos as nossas feridas e esses traumas que se tornaram intergeracionais”, resume Daiara Tukano.
Artista e mestre em direitos humanos, Tukano também viu no filme um convite para que as pessoas se somem à luta dos povos indígenas e conheçam as histórias daqueles que Eunice defendeu – entre eles, os Pataxó, da Bahia; os Zoró, do norte de Mato Grosso; os Kayapó, do Xingu; e os Yanomami, de Roraima.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estimou que pelo menos 8.350 indígenas foram mortos no período da ditadura militar. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Eunice e a causa indígena
Dois anos depois de Rubens Paiva ter desaparecido nos porões do DOI-Codi, no Rio de Janeiro, Eunice voltou para São Paulo com a família e entrou na Faculdade de Direito. Os estudos lhe deram mais ferramentas para buscar justiça para o seu e para outros casos de desaparecidos políticos, lutar pela redemocratização do país e entrar na causa indígena.
“A minha mãe tinha uma vida incrível, porque ela ficou viúva aos 41 [anos], com cinco filhos, se formou em direito e virou uma militante muito intensa com relação à anistia, redemocratização, Diretas-Já, Constituinte. Ela começou com o direito de família, mas depois se especializou em direito indígena. Ela era uma das pouquíssimas especialistas em demarcações de terras indígenas e passou a ser requisitada”, contou Marcelo, filho de Eunice e Rubens, em entrevista a Drauzio Varella, em 2016, meses após ter lançado o livro.
Em 1987, ela foi uma das fundadoras do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iamá) , organização não governamental que colaborou para a criação de vários projetos de saúde, educação e política para povos indígenas, na qual atuou até 2001.
Eunice foi uma das fundadoras das fundadoras do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente. Foto: Reprodução/Acervo pessoal
No final da década de 1980, Eunice trabalhou também no conselho consultivo da Fundação Mata Virgem, que geria, no Brasil, os recursos de uma organização fundada pelo músico Sting – convertido definitivamente à causa indígena após ter feito uma turnê mundial ao lado do líder Raoni Metuktire para angariar fundos para a demarcação da Terra Indígena Menkragnoti, dos Kayapó, no Xingu, homologada em 1993.
Antes disso, ainda na ditadura, Eunice participou da Comissão Pró-Índio de São Paulo, grupo fundado por antropólogos em 1978 como reação à tentativa do governo militar de alterar a lei para separar os indígenas em dois grupos: aqueles que seguiam suas “tradições” e, portanto, ainda precisavam ser “tutelados” pelo Estado; e aqueles que tinham se “emancipado” por terem se “aculturado”.
A divisão arbitrária não passava de uma manobra para retirar do segundo grupo o direito à terra – reconhecido desde o tempo do Brasil Colônia e protegido pelas constituições desde 1934. A estratégia não passou despercebida.
“Essa questão de ‘emancipar’ os índios, que era o termo usado, mobilizou a sociedade civil de um modo incrível, porque foi, digamos, o modo de expressar resistência e repúdio à ditadura no fim da década de 1970, quando a oposição estava muito subjugada”, lembra a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das fundadoras da Comissão Pró-Índio e referência em antropologia no país.
A demarcação de terras indígenas se tornou uma palavra de ordem, estampada até em adesivos colados nos automóveis de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, contou a antropóloga.
Naquela época, o ordenamento jurídico do país considerava os indígenas como “relativamente capazes” (mesmo status das mulheres casadas). Assim, eles não podiam fazer negócios, celebrar contratos e entrar com ações judiciais, prerrogativas reservadas ao “tutor” – representado, primeiro, pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, depois, pela Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967.
Funai militarizada e a disputa pela terra
Só que a própria Funai, militarizada, era “o inimigo dos indígenas”, explica Carneiro da Cunha, retratada no filme ao lado de Eunice em uma cena de uma aula ministrada por elas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. “Isso fazia com que, na realidade, eles não tivessem acesso à Justiça de forma autônoma.”
Em 1983, as duas assinaram um artigo no jornal Folha de S.Paulo denunciando como a Funai havia agravado o conflito fundiário enfrentado pelos Pataxó do sul da Bahia. Pressionado pelo governo estadual, o órgão que deveria defender os indígenas atuou para remover e dividir a população, deixando-a exposta à violência da Polícia Militar e de fazendeiros.
Reprodução do artigo no jornal Folha de São Paulo.
“Nesta situação, a quem recorrer?”, questionam. “Sejamos claros: a Funai, supondo mesmo que quisesse cumprir seu papel, está atrelada a um sistema no qual os direitos indígenas são a última das preocupações.”
A Comissão Pró-Índio de São Paulo era justamente uma entidade a que os indígenas podiam recorrer, uma organização “para-raio” de conflitos, como define Márcio Santilli, fundador do Instituto Socioambiental (ISA) e presidente da Funai entre 1995 e 1996.
“Indígenas que sofriam processos complicados de violência, tomada de terras, recorriam à Comissão [Pró-Índio] para ter algum tipo de apoio, nem que fosse no plano da denúncia desses fatos. Era um período em que havia pouca gente com formação que pudesse ajudar”, conta.
Eunice era uma dessas pessoas, assim como os juristas Dalmo Dallari (1931-2022), referência em teoria do estado, e Carlos Marés, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Na época, eles desempenhavam o papel que mais tarde seria delegado ao Ministério Público Federal (MPF) pela Constituição de 1988.
“Quando você vê alguém falando que o Ministério Público denunciou, entrou com ação, fez não sei o quê, a Eunice Paiva já fazia isso antes do Ministério Público existir”, disse Krenak à CBN.
Em 1986, Eunice escreveu um parecer fundamental para a demarcação da Terra Indígena Zoró, reconhecida no ano seguinte. Contatados oficialmente em 1977, os Zoró viram sua população se reduzir drasticamente após uma série de surtos epidêmicos trazidos pelos invasores que seguiam o asfaltamento da BR-364 (entre Cuiabá e Porto Velho).
“Os direitos dos índios à posse de suas terras são direitos intransponíveis e que não podem ser negociados, inexistindo qualquer impugnação válida capaz de anular, restringir, extinguir ou modificar os direitos da comunidade Zoró sobre a terra que é seu habitat natural”, escreveu Eunice como avaliadora do impacto do Programa Polonoroeste para os indígenas.
A pavimentação da rodovia entre as capitais de Mato Grosso e de Rondônia foi uma das principais ações do Polonoroeste, criado pelo governo João Figueiredo em 1981, financiado por empréstimos de milhões do Banco Mundial e devastador para os povos indígenas dos dois estados.
Ditadura: grandes obras e violência
Com seus programas de “integração” e grandes obras de infraestrutura, como as rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém, a ditadura exacerbou a opressão, em todos os níveis, contra os indígenas, deixando um legado de violações nunca reparado.
Na raiz dessa violência, que também se perpetua até hoje, estava o direito à terra, classificado por Eunice como o “mais valioso” para os indígenas. Em um livro de 1985, escrito com a antropóloga Carmen Junqueira, ela lembra que o Estatuto do Índio, de 1973, havia dado cinco anos para a Funai demarcar todas as terras indígenas. O prazo havia se esgotado sem que as áreas demarcadas atingissem um terço do total.
“Parece-me que o problema da terra, no Brasil, hoje, é um problema crucial. Observamos uma verdadeira corrida para o oeste, no sentido da ocupação do território, estimulada, inclusive, pelo próprio governo, no sentido da defesa desses territórios contra eventuais invasores estrangeiros. Enfim, essas coisas que os militares muito enfatizaram”, disse ela durante uma reunião da Comissão Pró-Índio em 1986.
“Acho que o problema da terra, indígena ou não, deveria ser tratado de forma harmoniosa, estabelecendo quais são os direitos indígenas e os outros organismos se adequarem a isto. E não o contrário. A adequação tem sido feita com prejuízo dos direitos das terras indígenas”, afirmou.
No livro O Estado contra o índio, publicado em 1985, Eunice e Carmen se debruçam sobre décadas de documentos estatais para reconstituir todo o tratamento dado, ao longo da história legislativa brasileira, aos indígenas e ao direito deles à terra. Na obra, elas criticam a política indigenista e denunciam as seguidas violações de direitos humanos.
Para as autoras, um dos sintomas da “discriminação racial” e “violação aos direitos humanos” enfrentadas pelos indígenas estava na falta de apuração e solução dos crimes cometidos contra as comunidades. Elas listam, então, 15 assassinatos entre 1975 e 1983 que ficaram “sem solução”. Entre eles o do líder guarani Marçal de Souza, que chegou a participar de reunião da Comissão Pró-Índio e foi morto por pistoleiros em Campestre, em Antônio João, no Mato Grosso do Sul.
Em um desses prolongamentos da história, até hoje fazendeiros disputam áreas indígenas no estado, em um conflito fundiário violento que, há anos, deixa mortos e feridos. Recentemente, em setembro, também em Antônio João, o jovem Neri Guarani Kaiowá foi morto a tiros durante uma ação da Polícia Militar contra a retomada dos indígenas em uma fazenda, segundo informações do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
O caminho para a Constituição de 1988
Para Manuela Carneiro da Cunha, o trabalho realizado pela Comissão Pró-Índio deixou um “enorme legado” para a pesquisa acadêmica e para a formulação jurídica dos artigos da Constituição de 1988. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
“Essas pessoas que tomaram o front nesse período [da ditadura] tinham que tirar leite de pedra para conseguir fazer a defesa dos povos indígenas com os instrumentos precários que existiam”, afirma Santilli.
Para Manuela Carneiro da Cunha, esse trabalho realizado pela Comissão Pró-Índio deixou um “enorme legado” para a pesquisa acadêmica e para a formulação jurídica dos artigos da Constituição de 1988 – como o revolucionário texto do artigo 231, que sacramentou o conceito de “direito originário”, recuperado pelo trabalho do grupo.
Os advogados que atuavam na Comissão Pró-Índio foram importantes também em uma das grandes batalhas da Constituinte: o debate sobre mineração em terras indígenas. Segundo Ailton Krenak, advogados como Eunice, Dalmo Dallari e Carlos Marés aconselharam as lideranças envolvidas nas discussões a impedir a autorização ao garimpo no texto constitucional.
Eunice já conhecia o problema por sua atuação como advogada da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), área invadida por milhares de garimpeiros no final da década de 1980, estimulados pelas seguidas investidas do governo e de parlamentares para autorizar a exploração de cassiterita na região. O chamado “ouro negro”, usado na fabricação de vidros e de latas e, atualmente, até de telas de celulares, ainda hoje é extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami.
Além de preparar o caldo jurídico para a Constituinte, a Comissão Pró-Índio de São Paulo também teve um papel relevante ao reunir líderes indígenas que se tornaram referências para o movimento indígena, como o próprio Krenak, Raoni, Marcos Terena, Álvaro Tukano, entre outros.
“Eles foram apoiadores importantes ao promover esses encontros das lideranças que construiriam as propostas para os nossos direitos na Constituinte, a presença indígena dentro dos espaços democráticos do país”, diz Daiara Tukano, filha de Álvaro. Na história pessoal da família da artista, Eunice é lembrada também por ter assinado um parecer para que o cartório de Pinheiros, em São Paulo, aceitasse registrar Daiara como Daiara Hori, em uma época em que nomes indígenas não eram aceitos.
A representação indígena era uma das preocupações da advogada, que já em 1985 apontava como “defeito grave” na concepção da Funai a ausência de indígenas nos quadros do órgão.
Quase 40 anos depois, ela provavelmente ficaria satisfeita em ver Joenia Wapichana na presidência do órgão. Além de um movimento indígena fortalecido, representado juridicamente por suas próprias organizações, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
“Tem agora um movimento indígena tanto de mulheres quanto de homens que é nacional, e isso é de extrema importância”, afirma Manuela Carneiro da Cunha.
“Lembrar da Eunice também é agradecer e celebrar o trabalho de todos aqueles que foram nossos parceiros e continuam de pé do nosso lado”, diz Daiara. “Eu fiquei muito tocada que ela resolveu virar advogada para construir justiça em um momento em que a maior parte da nossa população não tinha condições para isso. Hoje nós temos nossos advogados, nossos professores, nossos doutores, mas precisamos que todos conheçam essa parte da história, que é uma história coletiva, a história de um país.”
Maíra Pankararu faz coro: “A memória dessas violências não é uma memória só dos povos que as sofreram. É uma memória da sociedade brasileira, que precisa entender o que foi a ditadura para os povos indígenas, para daí entender o que de fato foi a ditadura como um todo”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Publica, escrito por Isabel Seta