Em meio a mais de 300 obras de artistas de todo o Brasil, o artista acreano Ivan Campos expõe seu trabalho em duas importantes exposições no circuito Rio de Janeiro/São Paulo: ‘Fullgás’, no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro, e no Panorama de Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.
Para a exposição ‘Fullgás – Artes Visuais e anos 80 no Brasil’, as obras foram escolhidas pela curadoria de Raphael Fonseca e, de acordo com o artista, foram produzidas desde o fim do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), na ditadura militar, até após o período do impeachment do presidente Fernando Collor.
“Os anos 80 pra mim foram a base de tudo que eu sou agora. Essa época foi quando eu estava saindo da adolescência porque com 20 anos a gente ainda está na formação da mente, eu nem sabia que que eu queria ainda. Eu trabalhava com a pintura, mas só em preto e branco e só fazia uma pintura por ano, quase não pintava nada, mas desde aquela época até hoje eu tenho levado a bandeira de viver da pintura e vou levar até o túmulo”, comentou ele.
Nessa exibição, a intenção é proporcionar ao público o contato com uma geração que depositou muita energia não apenas em fazer arte, mas também em novos projetos de país e cidadania. ‘Fullgás’ permanece no CCBB do Rio de Janeiro fica até o final de janeiro de 2025 na cidade e, em seguida, irá percorrer os CCBBs dos demais estados brasileiros.
Ivan Campos expõe sua obra na exposição Fullgás – Artes Visuais e anos 80 no Brasil. Foto: Ivan Campos/Arquivo pessoal
Já na 38ª edição do Panorama da Arte Brasileira, intitulada Mil Graus, o curador Germano Dushá, escolheu a obra: “Rebanhos do Céu”, que é uma obra de sete metros de comprimento que faz parte do acervo da Assembleia Legislativa do Estado do Acre, explorando minuciosamente a exuberância da floresta amazônica a partir da visão do artista.
A mostra bienal do MAM apresenta 34 artistas de 16 estados brasileiros e está ocorrendo no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) onde permanecerá até o dia 26 de janeiro de 2025.
Ivan diz que sempre gostou da pintura ambiental, pois sempre amou pintar animais e sua técnica foi aprimorada através de observações.
“Aliás, eu estou até hoje nesse processo. Eu tenho a pintura como uma coisa infinita. Sempre que eu termino um trabalho, eu tenho que esconder ele, porque senão fico mexendo, cutucando e achando coisa pra colocar a mais, porque acho que tá faltando alguma coisa”, explicou.
A obra “Rebanhos do Céu” de 7 metros está exposta no 38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus. Foto: Ivan Campos/Arquivo pessoal
Ivan Campos
Acreano nascido em Rio Branco, o artista conta que seu interesse pela arte começou quando criança, após passar um longo período internado para tratamento de tétano. Durante essa época, ganhava diariamente da mãe desenhos feitos em sobras de papel de pequenas dimensões.
Campos guardou todos eles e, logo ao receber alta, começou a desenhar figuras vegetais e humanas que serviam de modelo para os bordados feitos pela mãe, Gercina. Durante a infância, ele também se ocupava de colecionar histórias em quadrinhos cujas imagens eram usadas de referência para seus decalques.
Foi com esses materiais feitos à mão – sobras de papel e histórias em quadrinhos de baixo custo – que Ivan Campos aprendeu a desenhar de maneira autodidata. Seu trabalho em pintura veio depois, quando jovem, após anos de aprendizagem com o desenho.
Artista acreano, Ivan Campos, expõe sua obra em exposição no Rio de Janeiro e São Paulo. Foto: Ivan Campos/Arquivo pessoal
Segundo o artista, desde o começo de sua produção até sua fase mais recente, o motivo da pintura é encontrado no ambiente em que está inserido: a floresta amazônica, com seus rios e igarapés, aspectos místicos de sua vivência com a ayahuasca e cenas de interiores sendo alguns dos mais frequentes.
Sua primeira exposição individual aconteceu em 2000, na Galeria de Artes do Sesc, em Rio Branco. Em 2005, foi laureado com medalha de ouro no 1º Salão Hélio Melo de Artes Plásticas, evento realizado pela Associação de Artistas Plásticos do Acre (AAPA), com a obra Alicerces da Terra.
Em 2005, duas de suas obras foram selecionadas para o Projéteis de Arte Contemporânea, da Rede Nacional de Artes Visuais – Redemergências: uma das abordagens possíveis de um novo olhar sobre a produção artística atual, organizado pela Funarte/RJ.
Artista acreano, Ivan Campos, expõe suas obras em exposições no Rio de Janeiro e São Paulo. Foto: Ivan Campos/Arquivo pessoal
Em 2012, participou do projeto Trajetórias – Artes Visuais, com exposição de suas obras na Galeria Chico Silva, na Usina de Arte João Donato. Em 2018, recebeu a insígnia no Grau Cavaleiro do Quadro Ordinário da Ordem da Estrela do Acre, honraria concedida a personalidades que contribuíram para o desenvolvimento do Estado ou protagonizaram atuações decisivas em prol da população.
Em setembro de 2024, Ivan Campos passou a ser representado pela Galeria Almeida & Dale, que promove o trabalho e legado de artistas brasileiros entre instituições e coleções privadas em todo o mundo. A galeria desempenha o papel de revisitar a produção de artistas fundamentais na história da arte, incluindo nomes consagrados e outros ainda pouco conhecidos.
Intervenção urbana
Em 2014, as ruas da capital acreana receberam obras de 12 artistas que vivem em Rio Branco, sendo que um dos escolhidos foi o Ivan. A fotógrafa Talita Oliveira decidiu levar as galerias de artes para as ruas com o projeto ‘Artista de Plástico’, ampliando em grandes formatos (1,30m x 90 cm) fixou através de lambe-lambe [colagens em áreas urbanas normalmente feitas com cola de polvilho ou farinha], em diferentes bairros da cidade.
Em 2015, Ivan também fez parte de outra intervenção urbana também produzida pela fotógrafa Talita Oliveira, dessa vez, na cidade de Porto Velho (RO). Ela expôs obras reproduzidas fotograficamente de quatro artistas acreanos.
Frutas e vegetais são importantes para a saúde e uma das melhores formas de apreciá-los é preparando receitas de sucos naturais. Os sucos colombianos são uma opção diferente quando se trata de desintoxicar o corpo e podem combater até mesmo a retenção de líquidos. Além disso, ajudam o corpo a se recuperar do impacto de certos alimentos, bebidas, álcool e até cigarros.
É importante procurar orientação médica antes de começar uma desintoxicação, especialmente se você estiver grávida ou amamentando. No entanto, se quiser experimentar os sucos feitos com frutas colombianas, os seguintes são opções nutritivas para aproveitar a qualquer hora do dia:
1. Suco de beterraba, banana e laranja
Mais de 4.000 hectares no departamento colombiano de Boyacá são dedicados ao cultivo de beterraba. Este vegetal tem um sabor doce e é rico em ferro, cálcio e vitamina A e C, o que o torna o vegetal ideal para preparar um suco para começar o dia.
Corte meia beterraba em cubos e bata com uma laranja e uma banana para criar um shake cremoso, rico em nutrientes. Pode ser adoçado com mel ou açúcar.
Foto: Divulgação / Procolombia
2. Suco de Physalis, cenoura e laranja
A Colômbia é um dos maiores produtores mundiais de uchuvas, também conhecidas como groselhas do cabo, bagas douradas, golden berries ou ainda Physalis. Esta fruta pequena e ligeiramente ácida é um alimento básico nos departamentos de Cundinamarca, Boyacá, Santander, Antioquia e Nariño.
Esta fruta exótica é fonte de vitamina A, B e C , e também fósforo. Seu sabor dará um impulso ao seu suco de laranja matinal diário.
Extraia o suco de um punhado das golden berries e bata com uma cenoura e uma laranja para criar um dos melhores sucos naturais de frutas.
Foto: Divulgação / Procolombia
3. Suco verde: uvas, maçã verde, abacate e espinafre
O departamento de Valle del Cauca tem alguns dos maiores vinhedos do país, mas suas uvas brancas não são apenas um ingrediente na produção de vinho colombiana. Elas são muito procuradas também por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e podem ajudar a retardar os sinais de envelhecimento.
Misture uvas brancas com maçãs verdes, um maço de espinafre e meio abacate colombiano Hass para criar um suco verde cheio de nutrientes. É melhor consumi-lo com o estômago vazio logo pela manhã, pois ele vai impulsionar seu corpo com vitaminas para prepará-lo para o dia que está por vir.
Foto: Divulgação / Procolombia
4. Smoothie de manga e maracujá
O maracujá é uma das frutas exóticas mais amadas da Colômbia no mundo. Mais de 70% do maracujá colombiano é cultivado para exportação e é ideal para misturas de sucos saudáveis, graças ao seu alto teor de vitamina C e ferro e ao fato de ser cheio de antioxidantes.
Misture polpa de maracujá com manga colombiana (as variedades incluem manga rainha, manga açúcar e manga maçã) para criar um smoothie. Você também pode misturar este smoothie com água com gás para criar um coquetel refrescante e sem álcool para aproveitar com os amigos.
Foto: Divulgação / Procolombia
5. Suco verde: maçã e feijoa
Feijoa é um alimento básico nos departamentos colombianos de Boyacá, Caldas, Cundinamarca e Antioquia. Nos últimos 15 anos, suas exportações aumentaram, alcançando principalmente o mercado europeu e, especialmente, a Alemanha.
A feijoa estimula os sistemas digestivo e cardiovascular do corpo, também é usada para uso dermatológico, é rica em tiamina e vitaminas C e E. Desintoxique seu corpo e melhore seu sistema imunológico com um suco verde que mistura polpa de feijoa com pedaços de maçã verde logo pela manhã.
Ainda criança, Mário Soares explorou pela primeira vez um manguezal em Guaratiba, Rio de Janeiro, lugar que permaneceu importante ao longo de sua vida. Após graduar-se em Oceanografia e realizar uma pesquisa sobre uma espécie de caranguejo de manguezal na Baía de Sepetiba, Soares decidiu mudar seu foco para a ecologia de ecossistemas. Durante seu doutorado na Universidade de São Paulo, ele retornou a Guaratiba para estudar os manguezais da região e, mais tarde, serviu como chefe da Reserva Biológica de Guaratiba.
Hoje, com mais de 30 anos de pesquisa em manguezais, Soares é professor no departamento de Oceanografia Biológica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordena o Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema), onde conduziu pesquisas pioneiras no Brasil sobre o impacto das mudanças climáticas sobre os manguezais e seu papel no sequestro de carbono.
No Nema, ele adota uma abordagem transdisciplinar na pesquisa dos manguezais, colaborando com áreas como oceanografia química, geografia, ciência política e antropologia. Seu trabalho busca produzir ciência aplicada, colaborando com gestores ambientais. Nos últimos 15 anos, também investiga conflitos socioambientais em diversos contextos no Brasil.
Soares conversou recentemente com a Mongabay em uma chamada de vídeo. A seguinte entrevista foi editada para maior concisão e clareza.
Com mais de 30 anos de pesquisa em manguezais, Mário Soares é professor no departamento de Oceanografia Biológica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordena o Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema). Foto cedida pelo Núcleo de Estudos em Manguezais – Nema/UERJ.
Qual a importância dos manguezais na mitigação das mudanças climáticas?
Mário Soares: A importância [dos manguezais] não é apenas na mitigação. Quando a gente fala de mitigação pelos manguezais, a gente acaba falando muito em termos de sequestro de carbono — que eles aprisionam muito carbono —, mas essa é uma das formas de eles mitigarem. A outra forma é reduzir a vulnerabilidade das zonas costeiras. Essa é uma das críticas que eu faço à questão do carbono. A gente acaba generalizando o manguezal como um aprisionador de carbono, quando, na verdade, ele tem diversas funções.
Por exemplo, eles funcionam como protetores contra tempestades. A gente sabe que as áreas da zona costeira que estão associadas aos manguezais são muito mais protegidas, mais resilientes e menos vulneráveis a tempestades e a eventos extremos, que são algumas das consequências das mudanças climáticas. Eles também são como uma mata ciliar, funcionando como uma esponja e reduzindo a probabilidade ou os efeitos de inundações na zona costeira.
Ainda há outras funções relacionadas à redução da vulnerabilidade. Por exemplo, pelo fato de propiciarem diversos serviços às comunidades que os exploram para pesca, os manguezais fornecem bens e serviços fundamentais para manter essas pessoas menos vulneráveis em cenários de escassez.
E como as mudanças climáticas podem impactar os manguezais?
Mário Soares: Como ele é um sistema natural, também é vulnerável às mudanças climáticas. Então, o que eu sempre falo é que tem um ciclo que se retroalimenta: para que os manguezais possam exercer o papel deles na redução da vulnerabilidade e na mitigação, a gente precisa ajudá-los a ter a sua própria vulnerabilidade reduzida. Ou seja, se a gente não trabalhar para que eles se perpetuem, o papel deles na redução de vulnerabilidade vai ser perdido.
Então, a gente tem que reduzir a vulnerabilidade deles para que eles reduzam a vulnerabilidade da zona costeira. A gente está falando de um sistema de florestas na região que a gente chama de entremarés — entre a maré baixa e a maré alta. Então, a primeira coisa que a gente vê é que ele vai sofrer principalmente com a elevação do nível do mar; se o nível do mar subir rapidamente, ou eles se afogam ou eles se adaptam. Uma das formas de eles se adaptarem é se reposicionar na zona costeira, como se o sistema todo migrasse conforme o nível do mar vai subindo.
Isso tem ocorrido, e a gente monitora a floresta de mangue com esse objetivo há 25 anos. Tem uma área no Rio de Janeiro, na Reserva Biológica de Guaratiba, que não era um manguezal há 25 anos e hoje é uma floresta de mangue; era uma área atrás do manguezal. Só que, para isso acontecer, você precisa ter um planejamento de ocupação da zona costeira em longo prazo. Não adianta construir uma estrada, uma cidade ou uma indústria atrás, porque o manguezal não vai conseguir se adaptar. Então, a gente tem que deixar essas áreas “reservadas” para que eles possam se acomodar e aí a gente poder se beneficiar da existência deles.
E, da mesma forma que ele protege a zona costeira de eventos extremos, ele é vulnerável a esses eventos. Em áreas com furacões e tempestades, os manguezais muitas vezes são destruídos, mas isso não quer dizer que eles não possam se recuperar. E, ao ser destruído, na verdade, ele está dando a vida pela zona costeira, porque ele amortece o efeito da tempestade, que encontra uma barreira e não bate de frente com o que está atrás dos manguezais.
Pode haver um impacto por alteração nas características climáticas em termos de distribuição e intensidade de chuvas. Como uma floresta, ele precisa de água doce e uma dessas fontes é a chuva. O clima pode ficar mais úmido, o que pode ser bom, mas ele pode ficar mais seco, árido e mais quente. Então, ele também vai sofrer o impacto dessas mudanças em termos de precipitação, de temperatura, de disponibilidade de água doce nesta região.
Um dos principais argumentos usados em favor da conservação dos manguezais é ressaltar sua alta capacidade de retenção de carbono. Quais poderiam ser as limitações e problemas dessa abordagem?
Mário Soares: A primeira coisa que a gente tem que ter clareza é que a gente está submetendo o sistema à lógica do mercado. Eu me lembro que, quando comecei a estudar manguezais, o carbono era carbono. Hoje, você abre o computador e encontra na internet várias cotações do carbono. Ou seja, a gente está querendo resolver um problema aplicando a lógica que criou o problema — a lógica do mercado — e ninguém resolve um problema aplicando a mesma lógica que o criou.
A segunda questão é que o mercado de carbono não ataca o problema; ele ataca o sintoma. Ou seja, você não reduz as emissões. Na verdade, o que a gente tem visto é o aumento das emissões, e o que acontece é que, de certa forma, você está dando uma autorização para a manutenção de emissões a serem compensadas pelo sequestro em outro sistema.
E com essa moda, houve uma correria nos últimos editais de pessoas procurando áreas para plantar mangue. Inclusive, eu tenho visto projetos de plantio de mangue em áreas que não eram manguezais. Porque virou uma febre, virou um negócio e uma possibilidade de projeção para o governo, para ONGs, pesquisadores e empresas. Ou seja, é visibilidade, prestígio e acesso a recursos.
Além disso, eu tenho observado um crescente assédio sobre as comunidades tradicionais. Ou seja, comunidades sendo assediadas por empresas, ONGs, empresas de plantio de florestas, empresas de crédito de carbono, de certificação. E alguns desses projetos não respeitam o modo de vida dessas comunidades.
Por outro lado, plantar sempre é bom, mas essa não é a solução do problema. Por isso, no policy briefing [da COP 28, publicado em 2023] a gente fala que, antes de plantar, a gente tem que reduzir as emissões. Mas a recuperação de áreas que devem ser recuperadas sempre é bem-vinda.
Os manguezais do Brasil, por mais que tenham tido redução histórica em algumas áreas, 80% estão em unidades de conservação, então a gente precisa protegê-los.
No meu ponto de vista, o fato do manguezal ter uma alta quantidade de carbono quando comparado a outros sistemas, mostra a importância da conservação dos manguezais. A gente tem um sistema com uma grande quantidade de carbono; se a gente destroi esse sistema, essa quantidade de carbono é colocada para a atmosfera. Então, o foco é nas emissões evitadas. A gente tem que mostrar que é importante ter recurso e financiamento para conservação dos sistemas ou para recuperar os que têm que ser recuperados.
Atualmente, quais são as principais ameaças aos manguezais e às comunidades que dependem desses ecossistemas?
Mário Soares: Quando a gente fala de comunidades associadas aos manguezais, normalmente, a gente fala de comunidades tradicionais e de uma enorme diversidade de grupos, porque os manguezais ocorrem no Brasil desde Laguna, em Santa Catarina, até Oiapoque, no Amapá. Uma comunidade tradicional que vive no Pará é totalmente diferente de uma comunidade tradicional que vive em Laguna. Você tem desde os caiçaras no Sul e no Sudeste até quilombolas, povos originários das regiões costeiras, ribeirinhos e um monte de gente que vive associada aos manguezais.
Mas os manguezais não estão beneficiando só essas comunidades; eles estão beneficiando a gente também. Quando eles sequestram carbono, estão sequestrando para todo mundo; quando eles protegem a linha de costa, estão protegendo não só a comunidade tradicional, mas também a cidade próxima. E quando alguém pesca, pesca não só para subsistência, mas para você também, que come o peixe.
Muita gente diz: “isso não é meu problema”. É um problema nosso, tanto é que, quando você destrói um sistema natural como a Caatinga ou o manguezal, e a comunidade que depende dele passa a ficar vulnerável, essa comunidade pode migrar e se tornar uma subsociedade dentro de um centro urbano próximo, afetando você indiretamente, ou ela pode ser atendida por programas sociais que saem dos nossos impostos. Então, diz respeito a todos nós.
Então, quando a gente fala de ameaça a essas comunidades, estou falando das grandes ameaças aos manguezais do Brasil: expansão urbana — e aí todo o litoral brasileiro sofre disso — esgoto, lixo, exploração de petróleo. E, quando eu falo de exploração de petróleo, estou falando de toda a cadeia do petróleo, desde a exploração e o transporte (seja por navio, seja por dutos) até a manipulação e o refino. A gente já teve acidentes com navio, com plataforma e com duto. Então, esse é um problema generalizado.
Quando eu falo de expansão urbana, a gente pode incluir também o setor de turismo nesta conta. E no Nordeste a gente tem um problema extremamente sério, que é a exploração e destruição de manguezais para a implantação de fazendas para a criação de camarão marinho, o que chamamos de carcinicultura. É o mesmo problema que a gente observa no interior do Brasil, porque é um estilo de agronegócio que não só destrói o ambiente, mas também cria fortes conflitos socioambientais. A gente tem trabalhado muito com essas pessoas desde a década de 90. É um setor problemático, porque tem um forte lobby; é um setor de concentração de terra e que gera conflitos socioambientais.
Ou seja, são diversos problemas que afetam os manguezais, porque a gente está falando de um ambiente que ocorre na zona costeira, que é uma área valorizada para a ocupação de empreendimentos turísticos e, muitas vezes, também é a mesma área onde você vai ter cidades, grandes centros urbanos, portos e polos industriais, porque o manguezal ocorre em áreas abrigadas — em lagoas, baías e desembocaduras.
Como o Nema envolve as comunidades locais na resolução de problemas ambientais?
Mário Soares: A gente tem trabalhado muito com as comunidades, não só na produção de conhecimento, mas no apoio a algumas lutas. Um exemplo bastante emblemático para entender é o derramamento de óleo na costa do Nordeste em 2019. O governo não se mostrou nem um pouco sensibilizado para enfrentar o problema. Então, o enfrentamento estava sendo feito pelas populações tradicionais, pelos moradores, pelas ONGs e alguns cientistas. Enquanto via alguns colegas querendo pegar dados e já pensando em publicar artigos, eu fui a um fórum geral e articulei um projeto com as comunidades de uma reserva extrativista na Bahia.
A gente colocou à disposição das comunidades um laboratório de geoquímica orgânica que é nosso parceiro dentro da faculdade de Oceanografia, porque eu falei para eles: a gente tem que tentar conter o óleo, mas em pouco tempo vocês vão enfrentar um problema de segurança alimentar. Então, a gente já tem que pensar nisso lá na frente: vão proibir vocês de consumirem peixe e vão proibir vocês de comercializarem pescado porque não sabem se está contaminado.
Então eu falei: a gente vai colocar à disposição de vocês um laboratório que faz essa análise. Cederemos o laboratório, os pesquisadores e os técnicos. E aí eu falei: só que quem vai fazer o desenho de amostragem são vocês. Então eles definiram: a gente tem esses peixes, esses moluscos, esses crustáceos. Uma equipe fez a coleta com eles e trouxe o material. A gente fez a análise com a participação dos pescadores e, graças a Deus, não estava nada contaminado; eles podiam consumir e comercializar.
Passaram-se dois anos, a gente escreveu o artigo e um dos pescadores é coautor do artigo. Óbvio, ele não vai ficar discutindo química analítica. Mas ele teve um papel no desenvolvimento do estudo. Então, é um exemplo de como a gente encara. O que eu prego muito para os meus alunos é que não existe um conhecimento mais importante que o outro — eles se complementam.
Manguezal visto do mar. Foto cedida pelo Núcleo de Estudos em Manguezais – Nema/UERJ.
Porque os manguezais são particularmente vulneráveis a derramamentos de óleo?
Mário Soares: Existe uma tabela que foi desenvolvida na década de 70 e foi utilizada pela NOAA [Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, com sede nos Estados Unidos] com uma escala de sensibilidade de 1 a 10. O manguezal é o 10, sendo o sistema considerado mais sensível ao óleo. São vários motivos. Em primeiro lugar, é um sistema extremamente relevante em termos de importância ecológica, produtividade e manutenção da diversidade biológica. Além disso, uma vez atingido, não há nenhuma estratégia eficaz de remoção do óleo. É uma floresta com lama. Você não consegue entrar com maquinário e, se entrarem ali, vão pisotear e fazer com que o óleo penetre ainda mais na lama. Diferente do que acontece na praia, onde a areia é removida e jogada fora, ou no costão rochoso, onde se faz um jateamento.
Quando o óleo entra no manguezal, ele pode permanecer lá por décadas. Existem duas formas de remoção do óleo: pela lavagem das marés e pela degradação pela microbiota. O óleo nada mais é do que matéria orgânica. E como qualquer matéria orgânica, ele é passível de ser degradado por bactérias. Isso faz com que haja a possibilidade de uma remoção biológica pela degradação. O que acontece no manguezal é que a lama tem muito pouca concentração de oxigênio, então a degradação da matéria orgânica é mais lenta. Além disso, aquela lama já possui muita matéria orgânica. Quando a gente entra no manguezal e sente um cheiro de ovo podre, é a matéria orgânica sendo degradada de forma anaeróbica.
Esse óleo vai competir com a matéria orgânica natural pela degradação pela comunidade microbiana. Então, além de ser um ambiente sensível pela sua importância, e de não existirem métodos eficazes de limpeza do óleo que cai no manguezal, o óleo tende a ser degradado de forma muito lenta. Uma aluna de doutorado fez a tese dela com hidrocarbonetos de petróleo; coletou colunas de sedimento na Baía de Guanabara, fez análise dos hidrocarbonetos do óleo e datação. Assim, conseguimos reconstituir os últimos 100 anos. Ela encontrou no meio desse testemunho óleo de um derramamento que ocorreu na Baía de Guanabara em 1975. Está lá; a gente vê o derramamento de 1975, o de 1997 e o de 2000 ainda no sedimento. Então, pode levar décadas para o manguezal se recuperar e o óleo continua lá.
Recentemente, você participou de um projeto de pesquisa nos manguezais da costa norte do Brasil. O que caracteriza e torna tão especial essa faixa de manguezais?
Mário Soares: Na verdade, ela não é mais especial que os outros manguezais — todos são especiais e importantes. Em uma escala nacional, 80% dos manguezais brasileiros estão na costa norte. Então, é a maior área de manguezais do Brasil, uma área extensa; do Maranhão até a foz do Amazonas, a gente tem a maior área contínua de manguezais do planeta.
Além disso, a gente tem várias reservas extrativistas ali, ou seja, várias comunidades tradicionais que utilizam aqueles manguezais, mas não só elas, existe toda uma cadeia produtiva da pesca que depende deles. Então, eles têm um papel econômico muito forte, existe turismo associado a esses manguezais. Se você for em algumas áreas do Pará, tem uma cadeia de pesca esportiva enorme, tem passeios, turismo, educação, ou seja, existe uma diversidade muito grande de usos nesses manguezais.
Você poderia explicar, de forma geral, a proposta do projeto no qual você participou na costa norte do Brasil?
Mário Soares: Foi um projeto que envolveu muitos laboratórios e foi coordenado por uma empresa de oceanografia. A gente foi estudar manguezais do Maranhão ao Amapá, e tem áreas no Amapá que, saindo do Rio de Janeiro, leva uns quatro dias para chegar na área onde você vai trabalhar.
A gente realizou estudos de campo que consistiram em medir vegetação, colocar sensores de coleta de dados de maré e de circulação, sensoriamento remoto por satélites com imagens de alta definição e LiDAR [sensor remoto de detecção e alcance de luz]. E a gente fez uma modelagem nova no país.
O objetivo do projeto era propor uma nova metodologia de vulnerabilidade dos manguezais a derramamento de óleo. Toda a análise dos manguezais com petróleo é em cima dessa tabela de sensibilidade [da NOAA], onde os manguezais têm a sensibilidade 10. E o que a gente prega é que os manguezais não são homogêneos, eles são únicos. Então se você sobrevoa os manguezais, você vai ver uma floresta homogênea, mas se você for lá dentro, ele é totalmente diferente. A sensibilidade dele é diferente se o manguezal está próximo do mar, se o manguezal está mais próximo da terra, se ele é mais lavado pelas marés.
Então, o primeiro desafio do projeto era fazer uma abordagem que a gente chamou de infrassistêmica. É dizer que os manguezais, naquela escala, têm sensibilidade 10, que é alta, mas o que a gente defendia é que existem manguezais que têm sensibilidade maior ainda. Então a gente já partiu nessa escala de alta sensibilidade: muito alta e extremamente alta, foi o que a gente chegou. A gente queria mostrar que ele não era homogêneo. Esse era o primeiro ponto.
O segundo ponto: a gente quis mostrar que a vulnerabilidade, muitas vezes, é usada conceitualmente de formas diferentes e equivocadas. Às vezes você está falando de vulnerabilidade, mas na verdade está falando de sensibilidade ou suscetibilidade. Então, a gente defendia que a vulnerabilidade é dividida em três componentes. Mas é importante primeiro entender que a vulnerabilidade diz respeito a algum agente. As pessoas muitas vezes falam “é vulnerável à mudança climática”, isso é um vazio porque a mudança climática pode ser elevação no nível do mar, pode ser mudança de chuva, pode ser ao mesmo tempo vulnerável à elevação do nível do mar e não ser vulnerável a tempestades.
Então, você definindo o agente, no nosso caso o derramamento de óleo, você tem a sensibilidade, que é o quanto o sistema vai sentir o efeito desse agente se ele for atingido, ou seja, o quanto eu sou sensível a esse agente. Esse é o primeiro componente.
O segundo componente é a suscetibilidade, que é a probabilidade de ser atingido pelo agente, no caso pelo óleo. A probabilidade a gente calculou através de modelagens. É um modelo de probabilidade. Então, é a probabilidade de um óleo que sai de um ponto chegar ao outro ponto. E o terceiro componente da vulnerabilidade é a resiliência, que é a capacidade de você se recuperar. Ou seja, a sua resposta ao agente. Qual é a capacidade de você se recuperar se você for atingido pelo óleo.
Durante a sua palestra na Conferência Nacional dos Manguezais, você menciona que na costa norte “você precisa se curvar às forças da natureza que regulam todo seu processo de trabalho”. Quais são os grandes desafios de se trabalhar em uma região como essa?
Mário Soares: Quando você vai lá e fica em um barquinho à deriva ao largo da Ilha de Marajó, na desembocadura do Rio Amazonas, você vê que não é fácil. Além da gente estar falando de uma área enorme, com milhares de quilômetros e um cinturão de manguezal que vai do Maranhão até o Oiapoque, tem um sistema com uma corrente super forte que vem de leste para oeste. A gente tem uma amplitude de marés extremamente alta, aquela que a gente cresce ouvindo na escola, a pororoca.
A amplitude de marés, que é a diferença entre a maré baixa e a maré alta, aqui no sul do Brasil é menor que 2 metros, ou seja, a maré oscila menos de dois metros. Lá, a gente está falando de 8 a 10 metros. Isso é muita energia. Além disso, tem aqueles rios enormes desembocando e, dependendo da época, uma grande quantidade de chuva. A época chuvosa no norte do Brasil é uma doideira, porque você tem um sistema de corrente enorme, de repente sobe a maré, de repente a maré desce. No fim da tarde, cai aquela chuva, você olha para o chão e vê aquela água evaporar — é muita energia.
Quem defende a exploração de petróleo naquela região fala: “Mas a tecnologia está melhor”. Não é questão de tecnologia. São forçantes naturais, uma área enorme com grande energia, e se a gente não consegue conter de forma decente um derramamento de óleo dentro da Baía de Guanabara, um lugar confinado, sem nenhuma dessas energias que eu mencionei, a gente nunca vai conseguir conter. A gente nem tem equipamento suficiente para conter uma coisa dessa em uma extensão tão grande.
Ainda tem um agravante: o sistema de correntes leste-oeste extremamente forte. Ele tem um agravante forte de política internacional. Dependendo da área onde está sendo explorado o petróleo, qualquer derramamento de óleo pode atingir os países vizinhos, como Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela e até alguns estados da região do Caribe, por causa desse sistema de circulação oceânica. Então, não é uma questão só do Brasil. É uma questão que envolve relações internacionais, um problema sério em termos diplomáticos.
Não é uma questão de se tiver um derramamento de óleo, é uma questão de quando tiver. É fato, sempre tem. E tem muita coisa em risco. A gente está colocando vários outros setores da economia e da sociedade em risco. A gente acha que a venda vai gerar riqueza. Pode até gerar riqueza para alguns setores e de forma pontual, mas é só olhar as áreas onde o setor de petróleo se colocou que a gente vê a quantidade de problemas sociais e ambientais que vão junto.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Vitor Prado dos Anjos
O município de Santa Rosa do Purus, cidade isolada do interior do Acre, distante 299 km de Rio Branco, enfrenta dificuldades devido à seca severa do Rio Purus. Suprimentos como combustíveis, alimentos e gás de cozinha estão em falta na cidade, pois os barcos que levam esses insumos não conseguem chegar à cidade. A situação também é grave nos municípios de Jordão e Marechal Thaumaturgo.
O prefeito de Santa Rosa do Purus, Tamir Sá, disse que a prefeitura está disponibilizando barcos pequenos para ir até os barcos grandes para buscar aos poucos as mercadorias e combustível. “Nós estamos mandando uma canoinha pequena pra socorrer o barco pra trazer combustível porque a cidade não tem mais gasolina nem nada. Os barcos que estão andando aqui só barco pequeno”, disse.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito contou ainda que há dificuldades em chegar todo tipo de mercadoria no município. Ele contou que há balsas que estão há seis meses sem poder sair da cidade, por motivo do rio estar com nível muito baixo.
Sá acrescentou que há barcos ancorados há 10 dias na beira do Rio Purus, sem conseguir sair. “O rio já tá há mais de cinco meses nessa situação e agora se agravou muito mais. O que que nós pedimos as pessoas, as autoridades, os deputados, o nosso governador que dê apoio ao nosso município, faça a estrada que a gente tanto precisa. Nunca a gente tinha visto uma seca tão grave dessa”, afirma ele.
O prefeito acrescentou ainda que o principal interesse em construir a estrada é para que as pessoas que vivem no local não precisem sofrer com a falta de insumos. “Uma cidade dessa tão boa, o pessoal é muito feliz aqui, mas está na situação que tá, situação de emergência mesmo. Está faltando praticamente tudo”.
O gestor indicou que não sabe como será futuramente a situação do rio, que cada dia seca mais. “Nós não temos outra coisa a fazer a não ser pedir socorro as autoridades, por isso que nós queríamos tanto essa estrada porque sabemos que cada vez mais pode ficar pior a situação”, pediu.
Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC
A prefeitura da cidade menciona que o único posto de combustíveis da cidade ficou sem gasolina mais de dez dias e no dia 1º de novembro, um pouco do produto chegou, mas em poucas horas acabou, pois a quantidade é pequena.
Também foi informado que o básico na alimentação, como por exemplo o arroz está em falta nos comércios do município. “Não estamos tendo itens da cesta básica. Semana passada chegou um fardo em um comércio e logo acabou. Os comerciantes estão trazendo o que podem por voadeira até o ramal (estrada de barro), e daí segue por caminhonetes” disse.
A prefeitura explicou ainda que para comprar o gás de cozinha é necessário entrar em uma lista de espera pra quando for chegar, a população tentar comprar. “Um comerciante que fornece para a população avisa que tal dia pode chegar, então, os clientes se submetem a colocar seu nome na lista para poder reservar uma botija”, esclarece.
Defesa Civil
O coordenador da Defesa Civil Estadual, cel. Carlos Batista, explica que o fenômeno La Niña está atuando, porém o volume de chuvas ainda não é suficiente para que os rios do interior aumentem o nível.
“O fenômeno La Niña traz um maior volume de chuva para nossa região, só que essas chuvas não estão acontecendo em volumes significativos. Os nossos rios, principalmente, o Rio Tarauacá, Rio Juruá, e Rio Purus, ainda continuam com cotas mínimas muito abaixo da média prevista para esse período”, disse.
O coordenador pontuou que o baixo nível dos rios prejudica o abastecimento dos municípios isolados, resultando na falta de combustível e mercadorias, como o que vem acontecendo em Santa Rosa do Purus, o que dificulta também a assistência prestada pela Defesa Civil Estadual.
“Todos estão com cota muito baixa para esse período, o que dificulta todas as ações, principalmente para os municípios isolados. Os mais impactados são Santa Rosa do Purus e Jordão, esses mananciais são rios de calha menor, o que dificulta o transporte de produtos para essas localidades. Então, a solução é aguardar a subida dos rios, por estrada é muito complicada a situação da abertura de estrada para essas localidades”, comentou ele.
Seca no interior
Em agosto desse ano, a seca do Rio Juruá fez com que os moradores de Marechal Thaumaturgo, distante 558 km de Rio Branco, sofressem com a falta de produtos alimentícios e racionamento de gasolina. Com isso, o combustível chegou a custar R$ 10,50.
A prefeitura da cidade afirmou que a seca no manancial estava dificultando a chegada de barcos que transportam os produtos. De acordo com a prefeitura, produtos de gênero alimentício, principalmente verduras, estavam em falta no local.
No Jordão, no início de outubro, a seca extrema deixou as distribuidoras de gás do município sem o produto, o que fez com que os moradores da comunidade chegassem a pagar até R$ 250 por cada botijão de 13kg.
O Rio Tarauacá, principal rota de acesso até a cidade, estava com o nível muito baixo, dificultando a navegação e prejudicando o transporte de mercadorias.
Desde o dia 24 de outubro, comunidades indígenas dos municípios de Marechal Thaumaturgo e Jordão isoladas por causa da seca dos rios da região estão recebendo doações levadas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), junto ao Ministério da Saúde e a Força Aérea Brasileira (FAB)
Em uma aeronave de grande porte, a Dsei junto com uma equipe médica, de enfermagem e dentistas está indo até as comunidades para atender os indígenas dos municípios do interior do Acre.
*Por Hellen Monteiro e Lucas Thadeu, da Rede Amazônica AC
O projeto ‘Juntos pelo Extrativismo da Borracha na Amazônia‘ lançou, nesta segunda-feira (04/11), um material informativo, que fortalece boas práticas para o manejo da seringueira e produção da borracha nativa da Amazônia. Além do manejo do seringal, a iniciativa visa o cuidado com as pessoas extrativistas, a melhoria da qualidade do produto e a sustentabilidade da atividade.
Com coordenação do WWF-Brasil, em parceria com o Memorial Chico Mendes, Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), WWF-França, Michelin, Fundação Michelin e Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e Conexsus, o projeto vem fortalecendo a prática tradicional de comunidades situadas dentro e fora de Unidades de Conservação (UCs) do Amazonas.
O material será distribuído, inicialmente, nas 13 associações do Amazonas que fazem parte do projeto e que atuam na cadeia da borracha nativa da Amazônia. De forma bem didática, com ilustrações e textos curtos e diretos, o informativo indica o passo-a-passo para o/a seringueiro/a realizar de forma segura a coleta de látex na floresta, desde a abertura de estradas nos seringais, o corte mais indicado que deve ser feito na árvore, até instruções sobre como prensar a borracha.
A cartilha foi desenvolvida de forma colaborativa, com o apoio dos parceiros do projeto e a participação ativa de representantes das associações extrativistas que trocaram experiências diversas sobre o manejo da seringueira até chegar em um conjunto de instruções que orientem de forma ampla seus pares. Assim, a expertise dos seringueiros foi incorporada diretamente no processo, garantindo que suas experiências e conhecimentos direcionassem o conteúdo sem interferir na prática tradicional que é fundamental para o manejo da borracha na Amazônia.
“Estamos criando um esforço coletivo para valorizar o seringueiro, que antes era esquecido. Hoje, ele busca reconhecimento, dizendo: Eu existo, estou aqui. O manual de boas práticas inclui projetos sobre a borracha, qualidade e apoio. O seringueiro moderno, diferente do passado, vive conectado à internet e se atualiza sobre o Brasil e o mundo. Ele trabalha com consciência, sabendo como pode contribuir e ser exemplo para seus filhos, mostrando como sustentar a família com dignidade”, afirmou João Evangelista, extrativista da Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (COOMARU), localizado no município de Barcelos (a 401 km de Manaus).
Foto: Divulgação
Disseminar informações, fortalecendo os conhecimentos do seringueiro ou seringueira no momento de fazer a retirada do látex representa também um resgate histórico dessa cadeia. O Amazonas viveu o tempo áureo da borracha que, mesmo com poucos equipamentos na época, fez o Estado ser um grande exportador mundial de látex. O projeto “Juntos pelo Extrativismo da Borracha na Amazônia” está incentivando a retomada da produção da borracha no Estado e garantindo a venda do material produzido, além de auxiliar no acesso a políticas públicas para área da borracha.
“As boas práticas fortalecem os procedimentos adequados que garantem a qualidade deste relevante produto da sociobiodiversidade amazônica, combatendo um dos gargalos da cadeia, que era a baixa qualidade do produto”, explicou Jhassem Siqueira, um dos coordenadores do projeto no Memorial Chico Mendes.
Ele pontua ainda que o fortalecimento da cadeia é essencial para gerar uma ampla rede que conecta pessoas, biodiversidade, clima, território, negócios e oportunidades.
Já Natasha Mendes, Analista de Conservação do WWF-Brasil explica que as instruções do cartaz são importantes porque todo o processo de produção da borracha é, extremamente, monitorada para garantir a qualidade do produto.
“Após a coleta, a borracha é analisada em relação à qualidade e pesada pela transportadora responsável, com o objetivo de manter a eficiência logística. As boas práticas são já estabelecidas pelos seringueiros e o material vem para fortalecer o trabalho na base”, explica.
A fábrica da Michelin, localizada no Polo Industrial de Manaus (PIM), é a principal compradora da produção de borracha, gerada com o apoio da iniciativa. A empresa vem fortalecendo a retomada da cadeia e garantindo o escoamento do produto. Além dos benefícios econômicos, o projeto combina sustentabilidade com desenvolvimento comunitário, o que desempenha um papel crucial na manutenção da biodiversidade da Amazônia.
Os acreanos gastaram, em média, R$ 116,79 somente com a compra de comida japonesa nos nove primeiros meses deste ano. Isto é o que aponta uma pesquisa realizada pela plataforma Ticket, em alusão ao dia internacional do sushi, comemorado em 1º de novembro.
Com base nos dados do Acre, janeiro foi o mês em que os acreanos mais gastaram com comida japonesa, um total de R$144,68, seguido de julho (R$111,83) e junho (R$108,66).
Segundo o levantamento, entre janeiro e setembro deste ano, em todo o Brasil, o gasto médio dos trabalhadores com a culinária japonesa foi de R$ 101,66. No ano passado, o gasto era de R$ 97,38. Ou seja, o aumento foi de 4,3%.
“Alinhada a esses números, uma enquete realizada pela empresa via Linkedin mostrou que 35% das pessoas consomem comida japonesa pelo menos umas vez por mês, enquanto 25% não consome, 24% opta pelo tipo de refeição raramente e 15% consomem duas ou mais vezes ao mês”, complementa a pesquisa.
Foto: Divulgação
Em comparação com os outros nove estados pesquisados pela Ticket, o Acre foi o estado que mais gastou com sushi em janeiro e julho (R$ 111,83), além de ter ficado em 2º lugar em fevereiro (atrás de São Paulo, com R$ 107,82).
Além do Acre, os outros estados pesquisados foram: Amapá, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Amazonas, Rio de Janeiro, Roraima e São Paulo.
Sushi
O sushi é uma das comidas japonesas mais famosas. Apesar de ser um símbolo do Japão, a origem dele foi no Sudeste Asiático e ainda é um pouco incerta.
O fato é que a receita foi sendo aprimorada e virou uma das mais conhecidas no mundo todo. Afinal, o arroz cozido e temperado com vinagre, junto com o peixe cru, traz um aroma e um sabor incomfundíveis.
A escola de samba do Rio de Janeiro, Porto da Pedra, vai ter um pouco do talento tucujú no samba-enredo de 2025. É que entre os compositores do samba campeão, está o amapaense de 27 anos, Wendel Uchôa.
Wendel foi um dos compositores do samba ‘Vermelho Urukum! O Tigre de Guerra! Não se esconda quando eu voltar, eu sou orgulho e paixão, bem mais que um pavilhão, a força que faz esse povo lutar’.
A equipe é composta também pelos artistas, Guga Martins, Passos Júnior, Gustavo Clarão, Cristiano Teles, Cadu Cardoso, Abílio Júnior, Marcelo Moraes, Tangerina, Marquinho Paloma, Leandro Gaúcho e Ailson Picanço.
Quem é Wendel Uchôa
Wendel é quilombola da região de Igarapé do Lago, área rural no estado. O primeiro contato dele com a música foi através do marabaixo e batuque, danças típicas do Amapá.
“Meu primeiro festival foi em 2017, organizado pela Nação Marabaixeira onde fui campeão junto com meu primo Marcus Paes, com o ladrão de Marabaixo denominado “No Marabaixo é assim”, na oportunidade participaram do festival várias personalidades do nosso Marabaixo e músicos consagrados na MPA”, disse Wendel.
Após entrar no mundo da música, o amapaense começou a estudar outros segmentos musicais e foi então que o samba entrou na vida dele.
“Eu comecei a disputar festivais nas escolas de sambas amapaenses: como Estilizados, Piratas da Batucada, Boêmios do laguinho, Maracatu da Favela, Império do Povo e sempre batia na trave, chegava na final recebia vários elogios mas ainda não tinha sido consagrado campeão”, disse o músico.
Após as experiências no Amapá, o artista decidiu participar dos sambas no Rio de Janeiro em 2023. No entanto, não conseguiu recursos para viajar.
Em 2024, o amapaense recebeu o convite do compositor paraense Ailson Picanço, para disputar o festival com a equipe dele na Porto da Pedra escola da série Ouro do Rio de Janeiro.
“Eu aceitei na hora e começamos então a trabalhar nesse projeto, ainda no mês de Junho de 2024 fui até o Rio, participei das gravações em estúdio em julho, não consegui participar das eliminatórias por não conseguir arcar com mais passagens aéreas e hospedagem”, disse Wendel.
O amapaense Wendel e a esposa em visita à escola no Rio de Janeiro. Foto: Wendel Uchôa/Arquivo pessoal
E na época das gravações, Wendel, levou um pouco da cultura amapaense para o estúdio. Ele e a esposa, Juliana de Souza da Silva, foram trajados com roupas tradicionais do Marabaixo.
“No dia que fui para gravação do samba, fui vestido com trajes tradicionais da nossa mais autêntica manifestação cultural, nosso Marabaixo, então todos os presentes no estúdio começaram a fazer perguntas sobre o que era a vestimenta, então junto com minha Noiva, Juliana de Souza da Silva que também estava com vestimenta tradicional de marabaixeira, saia rodada florida, flor no cabelo, começamos a explicar sobre nossa manifestação, foi uma troca muito rica, e estar sendo, visto que o grupo da parceria do samba segue ativo!”, disse Wendel.
Na fase eliminatória o amapaense precisou acompanhar a disputa pelas redes sociais. O artista chegou a ficar acordado até as 6h aguardando o resultado.
A escola de samba Porto de Pedra foi rebaixada para o Série Ouro do Rio de Janeiro em 2024. Em 2025 a escola de samba vem com o enredo “A história que a borracha do tempo não apagou”, relacionando com a cidade operária no Pará, Fordlândia, que na metade do século XX foi construída para produzir látex para utilizar nos pneus e peças dos carros da Ford.No entanto, doenças como Malária, e pragas agrícolas acabaram com os planos de Henry Ford.
Os desfiles da Série Ouro do Rio de Janeiro de 2025 acontecem no dia 28 de fevereiro (sexta-feira) e 1º de março (sábado).
Castanha-do-pará (à dir.), cacau (à esq.) e salsaparrilha (no centro): substitutos dos temperos da Ásia. Imagens: Brasiliana Iconográfica/Joaquim José Codina – Charles Landseer – José Joaquim Freire
Oséculo XVIII, no Estado do Grão-Pará e Maranhão, que na época do Brasil Colônia representava a atual Amazônia, foi o auge da comercialização das drogas do sertão, como eram então chamados os produtos coletados no interior da floresta amazônica e exportados para a Europa. Documentos da época, guardados no Arquivo Público do Estado do Pará e transcritos no Livro das canoas (USP/FAPESP, 1993), registravam as expedições que saíam de Belém e se embrenhavam no sertão amazônico. O objetivo era colher uma das espécies vegetais mais cobiçadas da Amazônia, o cacau, que o naturalista sueco Carl von Linné, ou Lineu (1707-1778), batizaria de Theobroma (“alimento dos deuses”), em 1753.
Para uma viagem que poderia durar oito meses, as canoas levavam, além de alimentos, panos de algodão, ferramentas, aguardente e miudezas que poderiam servir como moeda para pagar os indígenas que compunham a tripulação e para trocar mercadorias com os que moravam na floresta. Na Amazônia colonial, o próprio cacau era moeda muito valorizada. “Juntamente com outras especiarias, o cacau era chamado de ‘moeda natural’ ou ‘dinheiro da terra’”, destaca o historiador Rafael Chambouleyron, da Universidade Federal do Pará (UFPA), organizador do livro As drogas do sertão e a Amazônia colonial portuguesa (Centro de História da Universidade de Lisboa, 2023).
“O consumo de chocolate estava em plena expansão na Europa nesse período”, lembra a historiadora Camila Loureiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que desenvolve uma pesquisa apoiada pela FAPESP sobre a ação humana e o impacto ambiental do colonialismo na Amazônia nos séculos XVI a XVIII.
Os indígenas brasileiros consumiam a polpa da fruta, de sabor adocicado, mas os espanhóis já haviam levado para a Europa o chocolatl, uma bebida amarga feita a partir de sementes de cacau tostadas, criada pelos povos da Mesoamérica. Para melhorar o aroma e o sabor, os europeus adicionavam outras especiarias da floresta, como as muito apreciadas vagens de baunilha (Vanilla sp.). Segundo a pesquisadora, o cacau respondia por 90% das exportações do Pará entre 1730 e 1755, período em que foram enviadas para a Europa por volta de 15 mil toneladas de sementes.
O mercado aquecido convertia-se em prosperidade. O naturalista francês Charles-Marie de La Condamine (1701-1774), que percorreu o rio Amazonas com o objetivo de medir o comprimento de um arco de um grau ao longo de um meridiano nas proximidades da linha do Equador, ficou admirado com o desenvolvimento do Pará, onde chegou em 1743. “Afigurava-se-nos, chegando ao Pará, e saídos das matas do Amazonas, ver-nos transportados à Europa”, relatou no livro Viagem na América Meridional descendo o rio das Amazonas, de 1745.
“Encontramos uma grande cidade, ruas bem alinhadas, casas risonhas, a maior parte construídas desde 30 anos em pedra e cascalho, igrejas magníficas. O comércio direto do Pará com Lisboa, donde chega todos os anos um grande comboio, dá às gentes de recursos a facilidade de se proverem de todas as comodidades.”
Canoa e indígena à margem de um afluente do rio Negro. Imagem: Brasiliana Iconográfica/Joaquim José Codina
Pressão geopolítica
No início do século XVII, Portugal não dominava mais o comércio das valiosas especiarias do Oriente, enfrentava a acirrada concorrência principalmente dos holandeses e buscava substitutos para produtos como o cravo-da-índia, noz-moscada, canela e pimenta. Havia também uma pressão geopolítica para ocupar o interior do Brasil, aponta o historiador Christian Fausto Moraes dos Santos, da Universidade Estadual de Maringá (UEM): “Portugal precisava estabelecer as fronteiras com a Espanha no continente americano e controlar o território, dentro da máxima ‘é seu se você está ocupando’”. Segundo ele, decorre desse contexto a fundação, em 1616, de Belém, de onde partiriam as expedições para o interior da floresta e os navios carregados de especiarias amazônicas para Lisboa.
Na floresta quente e úmida do Brasil, os portugueses tinham certeza de que descobririam espécies vegetais análogas às do sul e Sudeste Asiático. E acabaram encontrando novos sabores e aromas: folhas, frutos, sementes, raízes e cascas de árvores aromáticas que, triturados ou transformados em óleos, resinas e tinturas, viriam a ter grande valor comercial como condimentos ou remédios. “Já identificamos 36 espécies exploradas pelos colonizadores no território”, adianta a estudante de história Sofia Montaner Preto. Sob orientação de Loureiro e com apoio da FAPESP, ela faz um levantamento das espécies vegetais exploradas na Amazônia colonial em seu projeto de iniciação científica.
Eram plantas valorizadas pelas qualidades culinárias, virtudes medicinais, ou ambas – caso do puxuri (Licaria sp.), que ficou conhecido como “noz-do-pará” devido às propriedades aromáticas e medicinais semelhantes às da noz-moscada. Com sabor e aroma peculiar (que remetem a uma mistura de noz-moscada e cardamomo), o puxuri é usado ainda hoje em pratos doces e salgados. “Era bastante apreciado na Amazônia setecentista como remédio de doenças gastrointestinais. Baseados no conhecimento indígena, os jesuítas preparavam uma infusão de suas amêndoas moídas em aguardente para tratar males do estômago e disenteria”, explica a etnobotânica Márlia Coelho-Ferreira, do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Mapa de 1680 de Sanson d’Abbeville detalha o curso do rio Amazonas, principal caminho para o interior da Amazônia. Imagem: Biblioteca Nacional
Outra planta com dupla finalidade era a salsaparrilha (Smilax sp.), conhecida pelos indígenas como japecanga. As folhas e os frutos eram utilizados na alimentação e a raiz para fazer um chá com propriedades depurativas e diuréticas. Também eram consideradas medicinais a copaíba e a andiroba: “O óleo-resina extraído do tronco da copaibeira [Copaifera sp.] ficou conhecido como ‘bálsamo dos jesuítas’ por ser empregado como cicatrizante de feridas, anti-inflamatório e antisséptico. O óleo das sementes da andiroba [Carapa guianensis] era aplicado sobre o corpo para prevenir picadas de insetos e tratar reumatismo e quebraduras [fraturas]”, resume Ferreira.
Nessa época, além do cacau, o maior destaque da lista de especiarias amazônicas coube ao pau-cravo (Dicypellium caryophyllaceum), árvore cuja casca era usada principalmente na culinária como tempero e digestivo. Muito aromático, o pau-cravo foi eleito pelos portugueses como substituto do cravo-da-índia (Syzygium aromaticum), sendo chamado também de cravo-do-maranhão ou cravo-do-pará. “Posto que de diferente feição, é no sabor quase o mesmo que o da Índia”, avaliou o Conselho Ultramarino (órgão com atribuições financeiras e administrativas) ao receber exemplares da espécie, em 1646. No levantamento de Preto, o pau-cravo e o cacau são os mais citados, com 36% dos registros de dois volumes do Livro grosso do Maranhão, compilado de fontes legislativas que abarca o período de 1647 a 1745, publicado em 1948 nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Vista de Belém (1825), um dos centros do comércio das especiarias da Amazônia. Imagem: Atlas para viagens no Brasil/Spix e Martius
Impulso indígena
Para Chambouleyron, a exploração do pau-cravo carrega uma peculiaridade: diferentemente de outros produtos encontrados na floresta amazônica, como a copaíba ou a andiroba, o interesse português pela especiaria não surgiu a partir do conhecimento milenar indígena, pois os povos originários do Brasil não tinham o hábito de utilizar essa casca aromática. Os indígenas, no entanto, foram imprescindíveis para sua exploração.
Os portugueses tiveram sucesso na obtenção das especiarias amazônicas porque contaram com o conhecimento das rotas de navegação e da fabricação de embarcações adaptadas à rede fluvial amazônica, canoas que podiam chegar a 20 metros de comprimento. “O domínio dos rios foi fundamental, toda a tecnologia indígena da navegação fluvial foi incorporada pelos portugueses, ressignificada com o uso de ferramentas europeias”, diz Chambouleyron.
Também indígena era a força de trabalho utilizada para a exploração da floresta, a começar pelos remadores, então chamados de remeiros, que conduziam as canoas pela intrincada malha fluvial da região. Cada canoa podia ter de 20 a 50 indígenas recrutados para esse trabalho, pago geralmente com varas de pano, medida equivalente a 1,10 m. Não eram, portanto, escravizados, mas exerciam um trabalho compulsório. Segundo Loureiro, os indígenas aldeados sob a tutela de missionários eram obrigados a trabalhar. E, para que não fugissem pela floresta no meio da expedição, buscava-se motivá-los com presentes – como aguardente, sal, machados e anzóis, por exemplo –, além do salário combinado.
Castanheiros em Marabá (1927): exploração das especiarias continuou no século XX. Foto: Ignácio Baptista de Moura/Centro Cultural e Turístico Tancredo Neves/Wikimedia commons
De acordo com um artigo da historiadora da Unicamp publicado em 2019 na revista Estudos Avançados, juntas, mulheres e crianças (meninos e meninas até 14 anos) compunham 84% do contingente de escravizados. Cabiam às mulheres e crianças as atividades agrícolas vitais para a alimentação e pagamento dos trabalhadores, além da aquisição de mais cativos. Pois, embora tenham sido feitas leis no século XVII que proibiam a escravização de indígenas, ainda assim havia meios legais de obter escravizados nativos. Uma dessas formas era o chamado resgate, a aquisição de indígenas feitos prisioneiros em conflitos interétnicos. Salvos do sacrifício, passavam a dever a vida àqueles que os resgatavam.
Após séculos de exploração, o pau-cravo está entre as espécies mais seriamente ameaçadas de extinção. De acordo com Ferreira, um estudo de 2012 encontrou apenas duas populações da espécie no Pará, nos municípios de Vitória do Xingu e Juruti. Depois, o pau-cravo foi registrado também nos municípios de Moju e Senador José Porfírio.
Outras espécies amazônicas continuam a ser exploradas até hoje. “O volume comercializado das drogas do sertão sempre foi pequeno, comparado a commodities como o açúcar, por exemplo, mas estendeu-se ao longo do tempo”, esclarece Loureiro. As plantas medicinais também continuaram a ter um papel importante na região amazônica, sobretudo na medicina popular, e várias são objeto de pesquisas científicas atualmente.
“Muitas propriedades terapêuticas foram comprovadas e outras estão sendo descobertas à luz de métodos atuais de pesquisa científica”, afirma Ferreira. Os estudos com a casca-preciosa (Aniba canelilla) são um bom exemplo. “Estudos pré-clínicos avaliam que o óleo extraído das cascas possui efeitos relaxantes na musculatura lisa intestinal, justificando o uso da planta para distúrbios gastrointestinais, bem como efeitos cardiovasculares.”
Para Santos, a exploração das especiarias amazônicas no período colonial, embora majoritariamente predatória, teve o mérito de reconhecer o potencial econômico da região, muitas vezes esquecida ao longo da história. Ainda hoje, a seu ver, faltam investimentos direcionados ao desenvolvimento sustentável da região, que promovam e organizem essa atividade: “Com investimento em tecnologia, seria possível transformar a Amazônia mantendo a floresta em pé”.
A reportagem acima foi publicada com o título “Dinheiro da terra” na edição impressa nº 344, de outubro de 2024.
Projetos 1. Entre um passado profundo e um futuro iminente: Ação humana e impacto ambiental do colonialismo moderno na Amazônia (séculos XVI a XVIII) (nº 22/02896-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Inicial; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Investimento R$ 763.123,36. 2. Conhecimentos indígenas das plantas na Amazônia colonial (séculos XVII e XVIII) (nº 24/01523-1); Modalidade Bolsas no Brasil – Doutorado; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Bolsista Talles Manoel da Silva; Investimento R$ 362.995,20. 3. As drogas do sertão: Levantamento de ocorrências das espécies vegetais nos relatos de viagens e crônicas coloniais (nº 24/05635-9); Modalidade Iniciação Científica; Pesquisadora responsável Camila Loureiro Dias (Unicamp); Bolsista Sofia Montaner Preto; Investimento R$ 13.594,68.
Hospital Beneficente Portuguesa em Manaus. Foto: Divulgação/HPAM
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
A verdade é que, para reconhecer-se em toda a sua extensão, em todo o seu significado e em todas as suas minúcias, o que tem sido a ação dos portugueses no Brasil é fundamentalmente indispensável saber como eles aqui chegaram, como se aclimataram e de que forma exerceram sua natural tutela sobre as populações indígenas. Qual foi a sua diretriz sob o ponto de vista civilizador e com que recursos se serviram para ocupar e colonizar tão enorme trato de terreno, muitas e muitas vezes superior a pequena grande nação do extremo da Europa, de onde vieram e como defenderam a terra das investidas de piratas audaciosos e de conquistadores exóticos, preservando o Brasil em sua soberba integridade para que, chegada a hora lógica da Independência, não estivesse desfalcado em um só palmo e pudesse ser uma das maiores e mais ricas nações de todo o mundo.
Cumpre ver como eles aqui trabalharam e continuam trabalhando, como concorrem para a formação étnica da nacionalidade, imprimindo, quer pela comunidade da língua e dos sentimentos, quer pelo caldeamento operado pela formação de famílias, o caráter nitidamente lusíada. De importância capital é o fato de terem, com a unidade religiosa que implantaram, criado as mais remotas e profundas raízes da unidade nacional, visto que, nas grandes lutas contra franceses e holandeses, essa unidade religiosa desempenhou o mais saliente de todos os papéis.
Para tanto, temos que fazer, embora em resumo, mas, com a possível clareza, um dado histórico, abrangendo um dilatado espaço de tempo.
Comendador José Teixeira de Souza, fundador. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
A ação dos portugueses no Brasil começou há mais de quinhentos anos e não se interrompeu até hoje, mantendo-se sempre, de etapa em etapa, de geração em geração, através das diversas modalidades impostas pela evolução natural, social e política: Brasil – Colônia – Nação, na plenitude da sua emancipação política.
A ação dos portugueses no Brasil começou nesse longínquo dia, em que as naus de Pedro Álvares Cabral, de velas enfunadas por fortes ventos, parecendo brancas pombas prestes a fechar as asas depois de prolongado voo, avistaram, na venturosa Semana da Páscoa, o alto monte que lhes surgia como sentinela avançada de um deslumbrante continente. O primeiro contato estabelece-se sem um tiro, sem uma hostilidade, sem uma desconfiança e as primeiras palavras são o brando ciclo das místicas palavras de uma missa em ação de graças. Ergue-se uma Cruz na terra virgem. É a ocupação pacífica, em nome do Rei, mas, sob a invocação de Deus.
É o ponto de partida para uma gloriosa caminhada. No simbolismo do sagrado lenho feito de rígida madeira da primeira árvore derrubada na floresta imensa por mãos europeias, há, digamos assim, um prenúncio, uma promessa, um compromisso e até um pacto! Aí se define o que mais tarde virá a ser o caráter brasileiro, formado pela influência espiritual do Cristianismo e pela influência racial da civilização lusíada. É com tanta firmeza que se solidificam esses dois princípios que, passados quinhentos e vinte e quatro anos, o Brasil forma na vanguarda dos povos cristãos a sua raça já em pleníssima projeção, tem o indiscutível timbre de “Lusíada”.
É essa ação constante, metódica, consciente, heroicas algumas vezes, abnegadas outras e amiga sempre e sempre útil, que destacamos a fundação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas. O Brasil sabe para onde vai, justamente porque sabe de onde veio. A aliança luso-brasileira não depende de tratados, porque está nos glóbulos sanguíneos de todos nós, afinal falamos a mesma língua. Somos dois povos absolutamente independentes, vivendo em continentes diversos, separados unicamente por um grande oceano, mas, somos uma só Raça: “Lusíadas do Brasil”.
O conhecimento destas circunstâncias constitui o mútuo e legítimo orgulho de brasileiros e portugueses, especialmente os nascidos no Amazonas: o daqueles pela ascendência que tiveram, o destes pela obra que iniciaram e prepararam. No conjunto dessa obra formidável, que é o Hospital Português de hoje, encontra-se sempre de porta aberta promovendo a saúde de nosso Estado.
Comendador José Cruz. Presidente de 1962 a 1992. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Registrar para a eternidade os flagrantes memoráveis e históricos da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas, em comemoração aos 151 anos de sua histórica fundação, é motivo de satisfação profunda para a comunidade portuguesa.
A presença da Pátria Mãe, “Portugal”, no Brasil é forte e grandiosa. Na atividade comercial, na construção civil, na indústria, figuram eles, os lusitanos, com uma parcela muito grande no desenvolvimento do Amazonas, em particular no período áureo da borracha quando em, Belém e em Manaus e em núcleos urbanos do interior do Estado com maior expressão demográfica e econômica, criaram dezenas de estabelecimentos comerciais, com que exerceram uma salutar atividade econômica, proporcionando ao Amazonas grande crescimento econômico.
Estas verdades históricas resultam o espírito de luta dos bravos irmãos lusitanos que se deslocaram do seu País para desbravar a nossa terra, isto não significava apenas o seu bem estar social, mas, principalmente o crescimento de uma região.
A figura importante do Presidente da Província, Dr. Domingos Monteiro Peixoto, representa de forma brilhante a personalidade que marca na fase pré hospitalar, como o doador da terra solicitada sob a autorização e proteção de S. M. D. Pedro II, o chefe supremo do Governo Imperial.
O Tenente Coronel José Coelho de Miranda Leão, Presidente da Câmara Municipal da época, teve seu papel de suma importância na vida inicial da Real e Benemérita Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, ele expediu o “auto da concessão” do terreno, que tinha 9.952 m2, no Largo da Uruguaiana.
Atual presidente, Dr. Leopoldo Cyrillo Krichanã da Silva. Foto: Acervo pessoal
Concedido o terreno, o então Presidente José Teixeira de Souza desdobrou-se no sentido de implantar o hospital, chegando a lançar a pedra fundamental a 16 de agosto de 1874, pedra fundamental que representa o grande símbolo do velho sonho que só veio se concretizar 20 anos depois e em outro local bem distante.
O esforço em busca do vil metal era grande, quermesses, arraiais, teatros, festivais, subscrições e arrendamento de pavilhão, construído para este fim, foram algumas atividades que promoveram os heróis fundadores, com isto, somando recursos para a construção do sonhado hospital, cuja, primeira enfermaria chegou a ser construída e não foi usada em fase da alienação da propriedade que ocupavam pelo governo.
No dia 17 de dezembro de 1893, inaugurava-se o hospital na sede atual, na antiga estrada Corrêa de Miranda, hoje Av. Joaquim Nabuco, inaugurada na Presidência em exercício do Sr. Francisco Nicolau dos Santos, cuja, inauguração recebeu a honrosa presença do então Governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
A Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas é uma entidade de assistência à colônia portuguesa local, nascida como as demais do País, do espírito de solidariedade de um grupo de cidadãos lusos que, reunidos em casa do Comendador Francisco de Souza Mesquita, cujo, endereço a ata não registra, planejaram, discutiram a sua organização e fundação no dia 31 de outubro de 1873.
O Brasil era serenamente dirigido pelo Magnânimo Imperador D. Pedro II. Portugal tinha como timoneiro D. Luiz e a Província do Amazonas era conduzida pelo seu 14° Presidente da Província, o Bacharel Domingos Monteiro Peixoto, cidadão que tinha profunda e justa simpatia à Colônia Portuguesa radicada na grande Província. Sob a égide desses timoneiros, nasceu e realizou-se o sonho da criação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas.
O Amazonas – diz o ilustre “amazonólogo” e historiador Arthur César Ferreira Reis – experimentava a época, a euforia dos bons ventos. Seus produtos de exportação já lhe permitiam um caminhar tranquilo, a passo certo e seguro. Os homens, que haviam corporificado na Beneficente o sentimento de solidariedade humana que os congregava, eram partes integrantes daquele movimento de trabalho, de criação de riquezas que estavam começando a atrair o interesse do exterior e a provocar a ascensão mais dinâmica da região. Presidia a Província o Dr. Domingos Monteiro Peixoto, que se solidarizando com o grupo lusitano que se lançava a tamanho empreendimento, assegurou-lhe as facilidades que o poder público podia oferecer, de tal modo se havendo na concessão dessas facilidades que o Governo de Portugal lhe concedeu a graça do título de Barão de São Domingos.
A Rua Barão de São Domingos, de nossa cidade, tem a sua história ligada à Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas, conforme registro do grande historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis. Passou na presidência da instituição vários homens que dignificaram a continuidade deste empreendimento, como: o Comendador José Cruz, que presidiu o hospital por mais de três décadas, foi um marco na administração do hospital e neste momento seu presidente atual é o médico Leopoldo Krichanã.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Maior vitrine da agropecuária, da agricultura familiar, do comércio e da indústria de Roraima, a Expoferr Show 2024 (Exposição-feira Agropecuária de Roraima) começa nesta terça-feira (5), no Parque de Exposições Dandãezinho. A 43ª edição do evento começa com show da dupla paranaense Jads & Jadson, que subirá no palco da Arena do Rodeio a partir de 23h.
Com carreira consolidada desde os anos 1990, os irmãos possuem sucessos como “Com todos, menos comigo”, “Jeito carinhoso” e “Ressentimento”, além da regravação da música “Planos Impossíveis”, de Manu Gavassi. Os artistas, nascidos em Catanduvas (PR), já tiveram colaborações com outros artistas do meio sertanejo, como Michel Teló, João Carreiro & Capataz e Almir Sater.
Para encerrar a noite com muito sertanejo para o público, ainda haverá dois shows de artistas locais: às 1h45 da madrugada de quarta-feira (6), quem sobe ao palco principal é o cantor Martinelli. Já às 2h15, Fábio Hércules & Banda encerram a programação do primeiro dia.
O governador Antonio Denarium reforçou o convite para a população e para os investidores, ressaltando a programação especial preparada para esta edição, com atrações nacionais e locais, além de outras programações e atividades.
“Todos os dias tem atração nacional e local, além de uma grande variedade de empresas e expositores que demonstrarão produtos de mais alta tecnologia para a produção de grãos no Brasil e estão aqui no Estado de Roraima. E na abertura oficial, teremos importantes entregas para a piscicultura e a agricultura familiar, com a presença do ministro da Pesca e da Aquicultura, André de Paula, bem como a escolha da Rainha da Expoferr”, reforçou.
Nova Rainha da Expoferr Show
Ainda no primeiro dia da Expoferr Show 2024, a partir de 20h30, o público presente na Arena do Rodeio descobrirá quem será a nova Rainha da Expoferr, sucedendo a grande vencedora do concurso em 2023, a influenciadora digital Luana Rebeca.
O concurso recebeu a inscrição de 36 pré-candidatas e, desse total, 17 concorrerão ao título. A novidade para este ano é que o desfile e as apresentações das candidatas seguirão o padrão do Festival de Barretos, maior festa de rodeio do Brasil.
O Governo premiará as quatro primeiras colocadas, sendo R$ 5.000,00 para a vencedora, R$ 3.000,00 para a segunda, R$ 1.500,00 para o terceiro lugar, e a Garota Simpatia receberá R$ 1.000,00.
Atrações extras
O público que escolheu participar do primeiro dia também participa da abertura do Torneio de Vaquejada, provas equestres, exposição, negócios e gastronomia.
O evento segue até o dia 9 de novembro. Veja a programação completa AQUI.