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Inédito: garça-da-mata é vista pela primeira vez no Parque Estadual do Utinga, em Belém

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Foto: Gustavo-Melo/Coapa

O Parque Estadual do Utinga “Camillo Vianna”, em Belém (PA), foi cenário de um registro histórico no último fim de semana: o avistamento da garça-da-mata (Agamia agami), conhecida como a garça brasileira mais colorida e elusiva. Classificada como vulnerável (VU) na lista de espécies ameaçadas, a ave foi observada pela primeira vez na capital paraense, próximo ao espaço de aluguel de bicicletas da Unidade de Conservação (UC), pelo vice-presidente do Clube de Observação de Aves do Pará (Coapa), Gustavo Melo.

Segundo especialistas, a garça-da-mata é uma das aves mais belas e raras do Brasil. Com plumagem vibrante, composta por tons de azul, verde e castanho, a espécie vive em áreas de floresta alagada e rios amazônicos, sendo avistada apenas em ocasiões excepcionais.

Importância

O registro no Parque Estadual do Utinga também destaca o valor desta UC do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio) como um refúgio de conservação em plena área urbana. Essa área protegida é reconhecida por abrigar uma vasta diversidade de fauna e flora e por fomentar atividades como a observação de aves, que tem atraído turistas, pesquisadores e moradores.

Para o presidente em exercício do Ideflor-Bio, Ellivelton Carvalho, o avistamento reforça os esforços de conservação realizados no Parque. “A presença da garça-da-mata em um ambiente urbano protegido como o Parque Estadual do Utinga é um marco que comprova o sucesso das ações para preservar a biodiversidade. É um sinal de que áreas como essa têm um papel fundamental na proteção de espécies ameaçadas”, enfatizou.

De acordo com o gerente da Região Administrativa de Belém e responsável pelo Parque, Júlio Meyer, o impacto positivo do registro para a ciência e o turismo ecológico é fundamental. “Esse avistamento inédito demonstra que o Parque Estadual do Utinga é mais do que um espaço de lazer, é um patrimônio natural que conecta a cidade à sua rica biodiversidade. Ele também reforça a importância de conservarmos esses espaços para promover ciência, turismo sustentável e educação ambiental”, destacou.

Preservação

A garça-da-mata é amplamente considerada um símbolo da riqueza da Amazônia é um indicador da saúde ambiental das áreas onde é avistada. Apesar disso, sua condição de vulnerabilidade alerta para os desafios da conservação, especialmente diante da degradação ambiental e da pressão sobre os habitats naturais.

O Coapa planeja compartilhar os registros do avistamento com pesquisadores e instituições de conservação ambiental. Além disso, o episódio deve impulsionar a conscientização sobre a importância do Parque Estadual do Utinga como um santuário para a biodiversidade, estimulando novos visitantes a explorar o local e se engajar na preservação da natureza.

“O Parque do Utinga é um exemplo vivo de como áreas protegidas podem resguardar espécies únicas, mesmo em um cenário urbano. Avistamentos como esse nos mostram que é possível equilibrar conservação e uso sustentável”, concluiu Júlio Meyer.

*Com informações da Agência Pará

Equipe monitora qualidade da água nas áreas naturais protegidas de Madre de Dios, no Peru

Foto: Reprodução/Agência Andina

Especialistas da Autoridade Nacional de Águas (ANA) e do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Sernanp), no Peru, com o apoio da Associação de Pesquisa e Desenvolvimento Integral (Aider), monitoraram a qualidade das águas superficiais dos rios e corpos de água do Parque Nacional Bahuaja Sonene e da Reserva Nacional Tambopata.

Conforme explica a ANA, a monitorização abrangeu 21 pontos estratégicos de amostragem em rios como Azata, Tábara, Tambopata, Madre de Dios e La Torre , bem como em riachos como Palma Real Grande e Palma Real Chico, e Lago Sandoval.

A ANA detalhou que em cada ponto foram registrados parâmetros de campo, como pH, temperatura, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido , utilizando equipamentos multi-parâmetros de alta precisão. Além disso, foram coletadas amostras de água para avaliação de 19 parâmetros adicionais em laboratório credenciado pelo Instituto Nacional da Qualidade (Inacal), abrangendo análises físico-químicas, inorgânicas, orgânicas, de agrotóxicos e microbiológicas.

Afirmou ainda que o principal objetivo desta iniciativa é gerar informação sobre o estado atual da qualidade da água nessas áreas protegidas de Madre de Dios, servindo de base para promover a sua conservação e gestão sustentável.

O diretor da Autoridade Administrativa de Água Madre de Dios (AAA Madre de Dios), Carlos Augusto Quispicuro, juntamente com o chefe do Parque Nacional Bahuaja Sonene (Sernanp), David Félix Araníbar Huaquisto, destacaram que os resultados deste trabalho serão fundamentais traçar estratégias de preservação dos recursos hídricos dessas unidades hidrográficas.

*Com informações da Agência Andina

Pará recebe estudo para promover geoturismo

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Foto: Divulgação/SGB

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) avança com as ações do programa Fomento ao Geoturismo. Entre os dias 17 e 30 de novembro, são realizados estudos nas regiões de Carajás, no Pará. O objetivo é entender a geodiversidade e identificar o potencial para promover as áreas como destinos turísticos e, dessa forma, incentivar o desenvolvimento sustentável por meio do turismo, valorização e conservação da geodiversidade.

A região de Carajás é onde está localizada a maior mina de ferro do mundo. Os estudos são realizados no município de Parauapebas (PA), em parceria com a prefeitura e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “No município de Parauapebas já há um fluxo turístico importante, devido às paisagens peculiares, e a nossa intenção é agregar e fomentar o conhecimento científico sobre como essa paisagem se formou e por que a geologia fez dessa região uma das mais importantes para a mineração do planeta”, ressalta Costa.

Foto: Divulgação/SGB

Foram definidos 14 pontos para visita, incluindo três lagoas na Serra Sul, Parque das Cachoeiras e Mirante da Flor de Carajás. O pesquisador explica: “Nesses locais, vamos levantar as características da geodiversidade, acessibilidade, infraestrutura e imageamento com drones. Com esse trabalho, vamos mostrar que a riqueza geológica na região de Carajás vai além da exploração mineral, tendo em vista que o geoturismo se destaca como uma fonte de renda sustentável”.

A secretária adjunta de Turismo do município de Parauapebas, Aglaudene Sarmento, ressalta a importância dos estudos: “Esse trabalho vem enobrecer uma atividade que está em fase de desenvolvimento e consolidação como uma nova matriz econômica para o município de Parauapebas. O geoturismo fará toda diferença para o desenvolvimento socioeconômico de nossa cidade”.

*Com informações do SGB

Indígenas Parintintin, no Amazonas, querem vender seus créditos de carbono sem intermediários

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Foto: José Cícero/Agência Pública

“A verdade é que eu vivo de coração apertado porque nossos adolescentes estão todos na cidade”, diz Benedita Parintintin, vice-cacica da aldeia Canavial, onde vivem 46 indígenas nas margens do rio Ipixuna, no sul do Amazonas

Sua fala é acompanhada em coro por outras mães que reclamam da saudade dos filhos que, para seguirem estudando, precisam se mudar para Humaitá, a cidade mais próxima, a mais de dez horas de barco, para terminar o ensino fundamental II e o ensino médio. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

Nas falas de Maria de Lourdes e Benedita, a preocupação com o distanciamento da juventude da aldeia aparece seguida de uma expectativa: há meses elas estão tentando vender créditos de carbono de seu território para, segundo seus planos, investir na construção de uma escola e na melhoria da infraestrutura nas aldeias. Benedita diz que querem fazer com o dinheiro do carbono aquilo que o governo não faz.

A construção, manutenção e gastos para o funcionamento de escolas indígenas – como contratação de professores e material – é de responsabilidade do poder público. Quando a reportagem visitou a Terra Indígena Ipixuna, as crianças estavam sem nenhum professor do ensino fundamental há mais de um mês, enquanto os adolescentes, que não largaram os estudos para trabalhar no garimpo, tentavam encontrar alguma forma de se sustentar na cidade para concluir o ensino médio. 

Lá, então, a promessa dos milhões de reais que podem chegar com os créditos de carbono vira facilmente uma boia de salvação no imaginário local. 

Foto: José Cícero/ Agência Pública

O dinheiro do carbono tem ocupado um espaço grande nos sonhos e planos dos moradores da aldeia desde 2022, quando assinaram um contrato para desenvolver um projeto de créditos de carbono vinculado a Michael Greene, empresário estadunidense que há mais de sete anos tenta desenvolver projetos de carbono em diferentes regiões da amazônia brasileira, mirando territórios de comunidades tradicionais e povo indígenas. 

No território Ipixuna, os créditos gerados no projeto não trouxeram ainda os prometidos repasses financeiros para a comunidade. Por conta de projetos desenvolvidos no Pará, Michael Greene responde à acusação de grilagem de terras públicas, em uma ação promovida pela Defensoria Pública do estado.

Em junho de 2024, a Funai pediu a órgãos federais que investigassem e considerassem pedir a anulação dos contratos assinados entre as empresas de Greene e os povos originários, incluindo o contrato com os Parintintin, a partir de um relatório que apontava condições “extremamente desvantajosas” para os indígenas. Como ocorreu com outras aldeias da etnia Cinta Larga e Kayapó, segundo fontes ouvidas para esta reportagem, os contratos teriam sido assinados às pressas, com a promessa de milhões de reais falando alto. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

No território Parintintin da Terra Indígena (TI) Ipixuna, desde a assinatura do contrato com o empresário investigado, muita coisa aconteceu. 

 Na pequena aldeia, visitada pela Pública em junho de 2024, os moradores conhecem os detalhes do projeto e estão buscando caminhos para negociá-lo à sua própria maneira. 

Vídeo: Reprodução/ Youtube – Agência Pública

“Nós entramos no mercado por conta do projeto do Michael [Greene, o empresário investigado por irregularidades], é verdade. Mas agora a gente pode seguir por conta própria. O território é nosso, o projeto é nosso, não é dele”, diz Thiago Castelano, coordenador da Associação do Povo Parintintin da Terra Indígena Ipixuna (APPTI). Desde que as denúncias contra Greene vieram à tona, a comunidade tenta fazer um distrato com o empresário, para gerir com autonomia os créditos gerados em seu território, dizem. 

Até a publicação desta reportagem, a comunidade seguia buscando uma alternativa jurídica para se desvencilhar do empresário, sem perder acesso ao projeto, que já conta com créditos emitidos e certificados. 

Quando foi criado, os documentos submetidos à certificadora afirmavam que o projeto pertencia aos indígenas e que a empresa de Greene – Agefor – atuaria apenas como consultora. Mas na prática, e pelo contrato assinado inicialmente analisado pela Pública, a empresa teria o poder de fazer toda a gestão do projeto, efetuando as vendas e controlando o uso que os indígenas poderiam fazer dos recursos. 

Agora, o que os Parintintin buscam é transformar a ideia vendida à certificadora em realidade: se o projeto foi submetido como desenvolvido pelos indígenas, eles querem ser os reais negociadores dos créditos. 

Após pressionarem o empresário e fazerem um aditivo contratual, hoje os indígenas da TI Ipixuna têm acesso à plataforma em que os créditos estão computados e conseguiriam, por exemplo, vender os títulos a um eventual comprador, independentemente do empresário. Mas seguem com dificuldades para conseguir vender os créditos e apontam que muitos compradores se desinteressam do projeto após saber que foi desenvolvido com Greene.

Desregulação e questionamentos pesam sobre o projeto 

Os créditos de carbono dos Parintintin foram gerados com base na lógica que sustenta o mercado de créditos de emissões por desmatamento evitado. A ideia é que uma área de floresta conservada equivale a um reservatório de carbono. Se essa área não for desmatada, deixará de emitir na atmosfera uma determinada quantidade do gás.

Cada tonelada de carbono que deixaria de ser emitida equivale a um crédito. Então, essa “não emissão” contabilizada vira um produto: ganha um preço, estabelecido pelo mercado. Dessa maneira, os créditos podem ser vendidos por quem detém a floresta para pessoas ou empresas que queiram comprar as “moedas de não emissão” para compensar o que poluem. 

Artigos científicos e investigações jornalísticas questionam a efetividade da compensação das emissões através desse tipo de créditos. Por um lado, cientistas apontam que estimativas exageradas sobre a conservação das florestas geram a emissão de milhões de créditos vazios, como neste artigo publicado na revista Science

Por outro lado, uma investigação do The Guardian indicou que mais de 90% das compensações de carbono de florestas tropicais aprovadas pela principal certificadora do mercado não têm valor real. Mas, ainda que com a credibilidade questionada, o mercado voluntário de carbono continua aparecendo como uma oferta frequente para os povos e comunidades que vivem nas florestas.  

Nos últimos anos, as terras indígenas brasileiras entraram na mira de empresas que comercializam créditos, principalmente por conta de suas enormes áreas de floresta conservadas e asseguradas em documentos de terra homologados. Para esse mercado, grandes áreas de floresta protegida com documentação fundiária regularizada são atrativas porque permitem gerar uma quantidade monumental de créditos em um único projeto. 

Até junho de 2024, mais de 40 projetos para geração de créditos de carbono em territórios indígenas tinham sido criados. Vários estão parados na etapa de certificação e alguns foram descontinuados após denúncias de irregularidades. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

Até a publicação desta reportagem, dois projetos – o dos Parintintin da TI Ipixuna (AM) e o da TI Inãwébohonana na Ilha do Bananal (TO) – haviam registrado a venda de parte dos créditos de suas florestas. No caso da TI Ipixuna, os lotes de carbono vendidos não chegaram em benefícios financeiros aos indígenas, como a reportagem detalha mais à frente. 

O mercado de créditos de carbono não está regulamentado no Brasil, o que significa que até agora não há regras e condições estabelecidas para essas negociações nos territórios. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) tem orientado as comunidades indígenas a não assinar contratos antes da regulamentação, que tramita no Congresso Nacional. 

O texto do Projeto de Lei (PL) 2.148/15 prevê que as comunidades possam participar da geração e venda de créditos de carbono de seus territórios, seguindo cláusulas contratuais que garantam o direito à consulta apropriada e indenizações em caso de danos coletivos. A expectativa é que a proposta de lei defina também como a repartição das receitas geradas pelas negociações deve ser feita, apontam fontes que acompanham a tramitação. A expectativa do governo é aprovar o texto até 2025.

Mas, enquanto o PL não é aprovado, negociações e projetos para emissão de créditos vão avançando em nível estadual ou territorial na Amazônia brasileira. No estado do Pará, o governador anunciou em setembro a negociação de 12 milhões de créditos que gerariam 1 bilhão de reais; enquanto no sul do Amazonas as lideranças Parintintin contam que em outubro participaram de duas reuniões com empresas possivelmente interessadas em comprar os créditos que a comunidade tenta há meses vender. 

Uma fatia para os indígenas, uma fatia para o americano?

Os Parintintin da TI Ipixuna têm um projeto com cerca de 2 milhões e 869 mil créditos emitidos e certificados, que foram gerados englobando cerca de 215 mil hectares de seu território. Segundo contratos e aditivos contratuais analisados pela Pública, os indígenas detêm o poder de comercializar 70% desses créditos, enquanto o empresário Michael Greene detém os outros 30%. 

O preço de cada crédito no mercado oscila, com casos de vendas registradas entre 2 e 18 dólares. Em uma estimativa simples, se os créditos dos Parintintin fossem vendidos a 5 dólares cada um, renderiam cerca de 10 milhões de dólares aos indígenas e 4 milhões a Greene. É com base em uma projeção similar, apresentada pelo empresário, que a comunidade planeja construir a escola, uma Unidade de Saúde Indígena, reformar as 11 casas da aldeia e construir um alojamento para começar.

Mas vender dos créditos de carbono e navegar no mercado em si não tem sido fácil, dizem os indígenas. Apesar de as projeções de ganhos financeiros fazerem parte dos sonhos dos moradores do território, até janeiro de 2024 a garantia de que 70% das receitas seriam de fato administradas pelos Parintintin não estava nem registrada em contrato.

Foi depois de cerca de um ano e meio do início do projeto que as lideranças Parintintin pressionaram o empresário para assinar um aditivo contratual que determinava, entre outras coisas, que teriam acesso à plataforma em que os créditos estão disponíveis e fariam a gestão independente de sua porcentagem. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

Antes do aditivo assinado proposto pelos indígenas, o contrato dava poderes à empresa do americano de vender os créditos, terceirizar a gestão do projeto e até gerir as verbas que deveriam ser usadas pelos indígenas em “projetos socioambientais e de biodiversidade”.

Em junho de 2024, um relatório técnico da Funai analisou os contratos e indicou que nele existem “fortes indícios de violações aos direitos indígenas”. Segundo a análise, os termos do contrato levantam perguntas sobre a boa-fé da empresa e estabelecem condições excessivamente desvantajosas para os indígenas. 

Mas meses antes de o relatório da Funai apontar as irregularidades, os Parintintin tentavam corrigir os abusos contratuais. Segundo relatam, foram cavando brechas para conseguir gerir os créditos. 

A decisão de que eles próprios começariam a buscar compradores e fariam as negociações foi tomada pouco tempo antes de o empresário americano fazer uma primeira venda de créditos do projeto sem consultá-los. 

Em abril de 2024, Greene repassou 17.605 créditos emitidos na Ipixuna para a empresa GreenLand Investments S.A.S., uma empresa agrícola registrada na Colômbia. Os indígenas não foram avisados sobre a negociação, como previa o contrato. Só descobriram quando viram a transação registrada no site da certificadora. A transação gerou desconforto e acendeu alertas entre os Parintintin.

Quando confrontaram o empresário, Greene teria dito que os créditos teriam saído de sua parte dos 30% e, portanto, que os indígenas não teriam direito a porcentagens do recurso. Depois de conversas, a situação se acertou, relataram as lideranças Parintintin. Em entrevista à Pública, apontam que agora não veem irregularidades na venda. “Foi da parte dele, e nós temos a nossa parte que queremos vender agora.” 

No inverno amazônico, o sol se põe de frente ao rio Ipixuna

Foto: José Cícero/Agência Pública

Como ocorreu em ao menos outras três aldeias contatadas pela reportagem, em junho de 2022 os Parintintin assinaram o contrato com a empresa de Greene após uma reunião de poucas horas. No encontro, um representante da empresa do americano, apresentado às lideranças por um parente indígena, levou os contratos para a assinatura. 

Nessa altura, reuniões entre algumas lideranças e os representantes da empresa já haviam ocorrido. “O que aconteceu foi que um parente nosso foi em várias terras indígenas apresentando o funcionário da empresa [de Greene]. Quando um parente apresenta, é uma situação diferente, entende?”, relatou uma fonte que acompanhou as negociações, mas pediu que não fosse identificada. 

Dois meses antes da assinatura dos contratos com a empresa de Greene, uma carta enviada ao escritório local da Funai em Humaitá pelas lideranças dos dois territórios Parintintin na região declarava que as comunidades estavam interessadas em desenvolver projetos de carbono e que para isso contratariam a consultoria das duas empresas do americano – a Agefor e Indigenous Carbon. 

“Vale salientar que o povo Parintintin teve a iniciativa própria com o consenso de todos sobre o projeto de comercialização de créditos de carbono”, diz a carta. 

Raimundo Parintintin, hoje coordenador regional da Funai em Humaitá, contou à Pública na época, tudo foi feito muito rápido. 

“Não teve um esclarecimento de fato do que seria o projeto, de como esses benefícios chegariam ao território”, disse. Ele, que era coordenador da associação que reunia os Parintintin dos dois territórios do sul do Amazonas à época, afirmou que, mesmo se opondo, foi pressionado a assinar o contrato. “Eu não fiquei de acordo com aquilo, com a forma que estava sendo feito. Mas não tinha como ir contra todo o povo que estava animado com o projeto”, disse.

O contrato assinado na ocasião entre as lideranças e a empresa estabelece que a empresa de Greene seria a gestora do projeto, responsável por vender os créditos, enquanto os indígenas teriam a responsabilidade de garantir a conservação do território. Nos contratos iniciais, analisados pela Pública, chamam atenção imprecisões e erros, como a quantidade de hectares e até o nome da terra indígena indicado errado, em alguns trechos. 

“A questão é que desde o começo o projeto gerou uma divisão entre nós, ou seja, teve um racha de próprio povo dividindo os territórios”, diz Raimundo. “Antes era uma associação para todo o povo, para dois territórios. Mas aí, por causa do projeto, foi criada uma outra associação [para a TI Ipixuna]. Isso já é uma separação que fragiliza o movimento.” Meses depois da assinatura dos contratos, foi criada a Associação do Povo Parintintin da Terra Indígena Ipixuna (APPTI), que é hoje o CNPJ através do qual os indígenas buscam vender os créditos gerados. 

Entre 2022 e meados de 2024, depois do contrato assinado, algumas pessoas de cada comunidade, nomeadas para serem os coordenadores dos projetos, começaram a receber salários da Agefor para fazer os projetos andarem no território. 

Foram criados grupos de WhatsApp que juntavam o empresário americano, seus funcionários e as lideranças nos quais eram trocadas informações dos projetos. Para além do grupo, a pessoa de cada território destacada para desenvolver os projetos, tinha contato mais direto com o empresário. Os coordenadores locais recebiam um salário-mínimo e, em alguns casos, organizavam a distribuição de cestas básicas enviadas pelo empresário.

O mecanismo se repetiu de maneira similar em ao menos outros três territórios com projetos desenvolvidos por Greene, apontam fontes ouvidas pela reportagem. 

Na TI Ipixuna, ao menos um indígena foi contratado formalmente para coordenar o projeto e recebeu salários mensais do empresário. Um mês e meio depois de que os contratos já estavam assinados, Thiago Castelano, o coordenador do projeto no território, aplicou, segundo consta em relatório, os questionários para a “consulta livre prévia e informada” na aldeia. Fotos mostram o indígena visitando os parentes e recolhendo as assinaturas com as autorizações. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

Mas, se o projeto começou com uma assinatura de contrato feita antes da consulta à comunidade, na aldeia Canavial hoje o apoio ao projeto é unânime. Ao longo do tempo os moradores foram incorporando os créditos de carbono em seu horizonte de futuro e se apropriando da ideia. Na pequena aldeia, a ideia pegou. 

O agora: os sonhos e as preocupações criadas pelos créditos de carbono 

Em junho de 2024, a Pública visitou a TI Ipixuna em busca de ouvir dos moradores da pequena aldeia as impressões e reflexões sobre o projeto. Na Canavial, vivem cerca de 46 pessoas, em sua maioria descendentes de um mesmo núcleo familiar. A maior parte das casas da aldeia fica na margem direita do Ipixuna, umas vizinhas às outras, em torno de uma casa de farinha onde a comunidade processa a mandioca, para fazer farinha e tapioca.

Durante um dos dias da visita da reportagem, as mulheres se reuniram para cozinhar a farinha coletivamente, enquanto os homens foram colher o açaí. “A gente queria mostrar pra vocês a nossa tradição que vamos tentando manter. Vou ser sincera de que hoje em dia não é sempre que a gente faz isso junto, eu queria que fizéssemos mais”, disse uma das moradoras. 

Foto: José Cícero/Agência Pública

Ali, ao longo do trabalho com a mandioca, várias opiniões sobre o projeto de crédito de carbono foram aparecendo. Nas conversas aparecia um denominador comum – todos da comunidade apoiam e estão ansiosos pelas verbas geradas pelo projeto – acompanhado de uma diversidade de preocupações. 

Para a cacica Maria de Lourdes e sua irmã Benedita, o dinheiro do carbono representa a esperança de encontrar uma forma de reter os jovens na aldeia. Mas ao mesmo tempo gera preocupações sobre a segurança do futuro. 

Bernadete afirma que se preocupa com a gestão do recurso, para não gerar desentendimentos. “Nós fizemos um protocolo de consulta aqui. E acho que vamos ter que fazer tipo um documento desse também se conseguirmos vender [os créditos]: dizendo o que cada um pode ou não pode fazer com o dinheiro. E aí colocar esse documento na casa de cada um. Porque vai ter que ter regras, muitas regras”.

Até o momento, o que as lideranças da aldeia estabeleceram é que querem construir uma escola e investir na reforma das 11 casas da aldeia, se conseguirem fazer alguma venda. A curto prazo, o que têm planejado é investir em construções. “Quando a gente pegar um recurso bom, automaticamente a gente já vai definir um valor, ou seja, quanto vai ficar pra cada família, para determinar o valor para construção de cada casa”, diz Thiago.

Para ele, além do investimento em infraestrutura, o dinheiro do carbono representaria a possibilidade de cada família criar um empreendimento individual também. “Cada família vai poder ter o seu sistema agroflorestal ou, por exemplo, criação de animais de pequeno porte”, diz. “Aí vai ir do interesse de cada um, eu acho.”

Já Raimundo, parente Parintintin do território vizinho, se preocupa com a sustentabilidade a longo prazo do projeto. “Se for tudo feito certinho, pode fazer sentido, porque nós, indígenas, estamos protegendo nosso território há anos e às vezes não ganhando nada com isso. Mas tem que ser muito participativo para ser sustentável mesmo pra ter um resultado de longo prazo”, diz.

Para ele, este é um momento de aprendizado também para a própria Funai. “Então, a gente está nessa tratativa ainda interna. Porque para a gente é uma coisa nova também. A gente precisa se apropriar, até para não chegar de qualquer jeito nessa discussão, porque ela não é nada simples. Vai ser difícil pra todo mundo.” 

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Publica.org, escrito por Clarissa Levy

Projeto de bioeconomia busca desenvolver produção sustentável de mandioca e peixes

Foto: Vanessa Escher/Ufopa

Dois grupos de pesquisa consolidados da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), ‘Aquicultura no Baixo Amazonas’ e ‘Maniva Tapajós’, uniram-se para elaborar a proposta de um projeto integrado de pesquisa, inovação e extensão com o tema ‘Produção sustentável de mandioca e peixes na Amazônia: inovação e integração de cadeias produtivas para geração de renda às comunidades’.

O projeto foi aprovado na chamada ‘Cadeias Produtivas da Bioeconomia‘, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), cujo apoio financeiro está iniciando as atividades.

O principal objetivo da equipe multidisciplinar é promover o fortalecimento e desenvolver de forma sustentável essas duas cadeias produtivas, que têm importância econômica e social na região Oeste do Pará.

Para a coordenação do projeto, a produção de mandioca e de piscicultura tem a colaboração direta de comunidades locais, por meio do desenvolvimento de produtos e processos inovadores.

Entre as iniciativas estão:

  • mudas de mandioca micropropagadas, tolerantes aos patógenos da região;
  • rações alternativas para peixes produzidas com resíduos do processamento da mandioca;
  • e produção de peixes amazônicos com a tecnologia de bioflocos.

Há ainda serviços como certificação das casas de farinha e elaboração de instrumentos de comercialização e expansão do mercado da mandioca.

Os pesquisadores da Ufopa envolvidos acreditam que a execução do projeto impulsionará as ações, em ambas as cadeias produtivas, que já vinham sendo executadas pelos grupos de pesquisa, permitindo resultados mais significativos e impactantes do ponto de vista social, científico e econômico na região.

Para o avanço da bioeconomia amazônica, torna-se importante a realização de pesquisas relacionadas com a biotecnologia e sua aplicação na economia, buscando o estabelecimento de novas cadeias produtivas de valor, assim como a sustentabilidade e processos ecológicos que otimizem o uso de energia e nutrientes de cadeias produtivas já existentes.

O projeto é coordenado pela Profa. Michelle Fugimura, do Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA), e pela vice-coordenadora, Profa. Eliandra Sia, do Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef). As atividades se iniciaram em outubro de 2024 e terão duração de 36 meses.

*Com informações da Ufopa

Nível do rio Madeira sobe quase 4 metros, mas permanece abaixo da média em Rondônia

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Seca do rio Madeira em 2024. Foto: Edson Gabriel

O nível do rio Madeira subiu após meses de seca extrema, registrando 3,98 metros no dia 25 de novembro em Porto Velho (RO), de acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Apesar do aumento, o nível ainda está quase 3 metros abaixo da média para a época do ano. O menor nível nível registrado foi dia 11 de outubro: 19 centímetros.

Ainda conforme o Censipam, o nível esperado do rio Madeira para o mês de novembro é de 6,16 metros. O levantamento também revela a máxima histórica já atingida pelo rio em anos anteriores: 11,88 metros.

É possível perceber, através do gráfico, que todo dia 25 de cada mês de 2024 o rio esteve abaixo da média e, em alguns deles, chegou a superar a mínima histórica.

Em outubro deste ano, o rio Madeira atingiu o menor nível já registrado desde que começou a ser monitorado em 1967: 19 centímetros. O baixo volume afetou a Hidrelétrica de Santo Antônio, que precisou paralisar parte das unidades geradoras e funcionou com apenas 14% das turbinas.

A seca extrema também alterou a realidade de famílias ribeirinhas que vivem às margens do rio Madeira, algumas sobreviviam com menos de 50 litros de água por dia em razão estiagem extrema em Rondônia.

Neste cenário, os peixes, principal fonte de subsistência das família ribeirinhas, desapareceram. Ao invés de pescar e vender, os pescadores precisaram comprar peixe de outras regiões para se alimentar. Durante o nível mais crítico, eles tiveram que criar “corredores” na lama em meio ao deserto que se formou onde antes era o rio Madeira.

Nas últimas semanas, as chuvas que caíram sobre a região contribuíram para amenizar o cenário de seca extrema, mas elas não tem um impacto significativo no rio. O engenheiro hidrológico Guilherme Jordão, explicou que cerca de 70% da vazão do rio Madeira vêm das regiões de cabeceira na Bolívia e no Peru.

Monitoramento do nível das águas

Atualmente, o rio Madeira é monitorado por três estações da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), operadas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), na Residência de Porto Velho (REPO). Elas são equipadas com sistemas automatizados, réguas linimétricas e pluviômetros.

O monitoramento integra o Sistema de Alerta Hidrológico do Madeira (SAH Madeira), disponível na plataforma Sace, no site do SGB. Os dados sobre o nível e a vazão são coletados a cada 15 minutos e o comportamento do rio é analisado com base em previsões de chuva, gerando boletins com prognósticos da bacia e previsões dos níveis do rio.

*Com informações da Rede Amazônica RO

Botos curiosos são flagrados seguindo e brincando com jacaré-açu em rio de Roraima; veja o vídeo

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Foto: Jhonatha Barros/Arquivo Pessoal

Dois botos-cor-de-rosa foram flagrados em um momento de lazer inesperado e um pouco arriscado: eles estavam se divertindo seguindo e brincando com a cauda de um jacaré-açu de cerca de 5 metros no rio Itapará, em Rorainópolis, Sul de Roraima. O momento foi flagrado pelo drone de um turista que visitava a região e a cena viralizou nas redes sociais.

No vídeo, é possível ver os dois botos da espécie Inia geoffroensis se aproximando de um jacaré-açu, sem demonstrar qualquer sinal de intimidação diante da presença desse imponente predador das águas amazônicas. Um dos botos parece se divertir com o movimento da cauda do jacaré enquanto ele nada, o outro acompanha o amigo “corajoso” de perto — que chega a “beliscar” o rabo do réptil.

O registro foi feito no dia 1º de novembro pelo biomédico Jhonatha Barros, de 40 anos, mas só foi divulgado na última sexta-feira (22). O vídeo então foi publicado em diversas paginas e sites que, somando, já ultrapassou 700 mil visualizações.

Toda a brincadeira dos botos foi filmada por Jhonatha. Ele é de Tocantins e foi até o rio roraimense para passar uma semana pescando — ele só não esperava que iria se deparar com a cena.

De acordo com ele, havia cerca de seis botos no grupo — mas, pelo visto, só dois tiveram coragem de se aproximar da maior espécie de jacaré do Brasil.

“No último dia, fizemos uma pescaria diferente, focada em peixes de couro. Paramos para pegar iscas vivas e aproveitei para usar o drone. Foi então que eu flagrei essa cena”, contou o biomédico.

A equipe de reportagem enviou o vídeo para dois biólogos pesquisadores: Eduardo Bessa, especialista em comportamento animal e professor da Faculdade de Planaltina da UnB, e Reuber Brandão, também biólogo e professor da mesma instituição. Ambos confirmaram que, de fato, trata-se de uma brincadeira dos mamíferos aquáticos, mas destacaram que o comportamento se assemelha mais a uma espécie de “bullying”.

Jhonatha conta que já tinha a intenção de filmar botos nadando, pois foi o pedido que a filha fez quando soube que ele iria viajar para um rio amazônico. Quando viu a presença dos mamíferos nas redondezas, resolveu levantar o drone.

“Estava gravando essas imagens porque minha filha pediu que eu registrasse os botos durante a pescaria. Durante as gravações, observei os botos e presenciei um comportamento curioso: um deles começou a interagir com um jacaré, cercando-o até a margem do rio e beliscando o rabo. Eu nunca tinha visto”.

“Pelo que observei, o boto parecia tranquilo e brincalhão, enquanto o jacaré não demonstrava preocupação”, contou o biomédico.

Foto: Jhonatha Barros/Arquivo Pessoal

Jhonatha relatou que esta foi sua primeira viagem com o drone, comprado justamente para registrar paisagens e momentos únicos. O vídeo viralizou rapidamente após ser publicado no Instagram de uma pousada local.

“Acredito que [o vídeo] se destaca por mostrar uma interação inusitada. Normalmente, vemos vídeos de vida selvagem com relações entre animais da mesma espécie ou, quando são de espécies diferentes, com uma dinâmica de predador e presa. Neste caso, o vídeo é diferente porque mostra uma interação lúdica entre espécies distintas”.

“Sempre gostei de fotografar e gravar, mas esse vídeo foi especial. Foi um presente para minha filha e acabou se tornando um presente para tantas outras pessoas”, contou Jhonatha.

Para o pesquisador Reuber Brandão, comportamentos “brincalhões” são comuns entre botos, especialmente durante o desenvolvimento.

“Botos são mamíferos extremamente inteligentes e brincam bastante, sobretudo enquanto juvenis. Essa brincadeira, como a de perseguir ou atacar, ajuda a desenvolver habilidades que tornam a caça mais eficiente na vida adulta”, afirmou o professor Reuber Brandão.

Para Bessa, as imagens captadas são raras e valiosas. Ele destacou a relevância do registro.

No vídeo, tanto o jacaré quanto os botos parecem tranquilos, sem demonstrar intimidação diante da presença de outra espécie, mesmo sendo ambos predadores. Mas será que um pode fazer parte do cardápio do outro? Segundo o professor Reuber Brandão, um jacaré pode predar um boto. No entanto, ele ressalta que esse tipo de comportamento é raro.

“Tanto o boto quanto o jacaré-açu têm dietas diversificadas, baseadas principalmente em peixes. Embora o jacaré-açu adulto possa ocasionalmente predar botos, o inverso é muito improvável”, explicou o professor.

Eduardo Bessa explica que em situações normais, a agilidade do boto dificulta sua captura por jacarés, que só costumam atacar indivíduos da espécie se estiverem doentes ou encalhados.

“É bem mais provável um jacaré-açu adulto comer um boto do que o contrário, mesmo considerando que [os botos são] predadores que agem em bando podem abater presas muito maiores do que eles próprios”, explicou Bessa.

Jacaré-açu é uma espécie considerada pacifica, mas pode atacar quando ameaçada. Apesar de não ser atualmente considerado preocupante seu estado atual de conservação, já foi uma espécie perseguida por sua pele e por isso ameaçada.

Em novembro de 2023, o boto-cor-de-rosa entrou na lista de ‘perigo de extinção’ em quase todos os estados da região Norte, de acordo com a plataforma SALVE, desenvolvida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio).

Acontece que os botos cor-de rosa, também conhecidos como ‘golfinhos dos rios’, são predadores de topo de cadeia e indicadores da saúde dos ecossistemas e a presença do boto-cor-de-rosa é influenciada pela abundância de peixes e habitats saudáveis.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Com intenso fluxo turístico, Ilha de Caratateua recebe mapeamento geoambiental

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Foto: Roni Moreira/Agência Pará

De refúgio indígena a case sustentável, Caratateua sofreu intensas transformações durante sua ocupação. Assim como a Ilha de Mosqueiro, Distrito de Belém, no Pará, sua ocupação foi iniciada pela fuga de indígenas da tribo Tupinambá dos imigrantes na região, no período colonial. Já sua economia, foi marcada por incentivos agrícolas, voltada para fomentação de agricultura de subsistência, como a agricultura familiar. Atualmente, Caratateua apresenta um intenso fluxo turístico, além do desenvolvimento sustentável com foco em empreendimentos residenciais com áreas verdes.

Para um diagnóstico de Caratateua, a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) realizou um estudo detalhado da Ilha: ‘O Boletim da Ilha de Caratateua’. O estudo faz parte do Boletim da Sustentabilidade das Ilhas de Belém, que busca apresentar para todas as ilhas da capital paraense, um desenho integrado da geoecologia da paisagem, que, em consonância com “Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS)”, pode auxiliar políticas públicas voltadas ao planejamento ambiental das ilhas. O estudo sobre essa e outras ilhas será apresentado durante a Feira Pará Negócios, no Hangar, no sábado, 30.

Segundo a instituição de pesquisas Fapespa, a busca por indicadores de sustentabilidade ambiental torna-se tema de interesse global em virtude do intenso processo de uso e ocupação da terra, atrelados à irracionalidade no manejo dos recursos naturais. Desse modo, a temática vem adquirindo cada vez mais interesse de pesquisadores, gestores e comunidade em geral, com a realização de conferências e reuniões constantes de cunho ambiental, como a COP 30 e afins.

Boletim da Ilha de Caratateua

O estudo apontou uma evolução ocupacional na ilha, favorecida pela acentuada especulação imobiliária das últimas décadas. Das 63 malhas censitárias apresentadas, a malha de maior área territorial está localizada no norte da ilha, com uma população de 363 pessoas e uma área de 7,87 km². A segunda apresenta 3,90 km² e está localizada no residencial Alphaville, com registo de 29 pessoas. Já a área com maior número populacional, cerca de 1.144 pessoas, com uma área inferior a 1 km² (0,19 km²).

Conforme o IBGE, foram catalogados 19.933 endereços em Caratateua, sendo distribuídos em sete espécies de endereços. Enquanto “Domicílio particular” representa 82,20% deste total, “Estabelecimento agropecuário” não teve ocorrências.

Os anos 70 foram marcados pelo inchaço urbano da capital, levando os migrantes das zonas rurais para a ilha, processo acelerado pelo circuito turístico da região e pela construção da ponte Governador Enéas Martins Pinheiro, construída em 1986. Com isso, a ilha ganhou expansão urbana, especialmente devido à construção de estradas, estabelecimentos comerciais e residenciais, porém com uma infraestrutura precária, com a oferta de serviços básicos ineficientes.

Usos e cobertura da terra: Entre os resultados apresentados, está o aumento na “Área urbana” de Caratateua, que passou de 3,93 km² em 2002 para 6,50 km² em 2023, com crescimento de 8,17% em relação a 2002, durante o período analisado. Além disso, houve perda nas demais classes analisadas, destacando-se a variação da “Floresta ombrófila densa”, que passou a representar 15,51 Km² em 2023 e em 2002 era de 15,97 Km² e da classe de “Vegetação secundária” que recuou quase 40%, passando de 2,96 Km² (9,39%) em 2002 para 1,76 Km² (5,59%) em 2023 do total da área da ilha.

Imagem: Reprodução/Agência Pará

Sustentabilidade Ambiental

Em relação ao indicador Sustentabilidade da cobertura vegetal (SCV), o estudo apontou que houve uma variação negativa, onde o indicador apresentava resultado intermediário em 2002 (60,05%) e apresenta atualmente 54,79%, mostrando um alerta sobre redução da área verde na ilha. Já em relação “Sustentabilidade da pressão urbana” (SPU) houve um aumento de 8,16%, causado pelo aumento das edificações da ilha, com destaque a três extensões habitacionais: o conjunto habitacional Viver Outeiro, o assentamento Neuton Miranda e o condomínio Alphaville, que chamam a atenção pelas suas propostas de ocupação.

Unidades Geoambientais da Ilha de Caratateua

O estudo também apresentou sete classes de unidades geoambientais na ilha, onde a “Tabuleiros – floresta ombrófila” representa a maior área da ilha, 15,51 km², sendo este espaço sem registro de espécies de endereços. Em contrapartida, “Terraços com área urbana consolidada” são o segundo em área (7,45 km²) e o primeiro em contingente populacional, apresentando cerca de 14.637 dos estabelecimentos categorizados na pesquisa.

Unidades geoambientais são áreas delimitadas com base em características físicas e ambientais, como relevo, solo e vegetação, para entender a dinâmica do território e orientar o uso sustentável dos recursos naturais. Elas são essenciais para planejamento ambiental e gestão territorial, ajudando a conciliar desenvolvimento e conservação.

“Destacamos que a análise geoambiental realizada pela Fapespa permite identificar as áreas mais pressionadas pela urbanização e os reflexos disso nos indicadores de sustentabilidade, como a redução da cobertura vegetal e o aumento das edificações. A Ilha de Caratateua possui um grande potencial turístico e residencial, mas precisa ser manejada de forma sustentável para garantir que seu papel ecológico e social seja mantido. Esses dados são cruciais para compreender a dinâmica socioambiental da ilha e embasar políticas públicas que conciliem desenvolvimento econômico, preservação ambiental e qualidade de vida”, detalha Luziane Cravo.

Imagem: Reprodução/Agência Pará

Desenvolvimento

O Boletim da Sustentabilidade da Ilha de Caratateua é um produto do projeto Atlas da Sustentabilidade, projeto da Coordenação de Estudos Territoriais (CET) da Diretoria de Pesquisas e Estudos Ambientais (Dipea) da Fapespa, formado por uma equipe multidisciplinar, que analisa e apresenta dados e informações sobre sustentabilidade do estado do Pará, para subsidiar ações de gestores e fornecer informações a cientistas e comunidade em geral. Sua produção compõe relatórios sobre a sustentabilidade, boletins, notas técnicas, sendo fonte de produção e divulgação de conhecimento científico na Região Amazônica, sobretudo na Amazônia Paraense.

Imagem: Reprodução/Agência Pará

“Essa série de boletins sobre a sustentabilidade das ilhas de Belém traz importantes informações para que a gestão pública da nossa capital possa tomar decisões extremamente acertadas sobre o desenvolvimento dessas áreas tão importante não só para o desenvolvimento da cidade como áreas de habitação, mas também como refúgios, hábitats naturais, de vários animais, que são muito importantes para o equilíbrio ecológico dessa Região. Então, as ilhas desempenham um papel fundamental tanto para a população humana como para os demais animais. E esse boletim traz informações muito valiosas para as tomadas de decisão”, avalia o presidente da Fapespa, Marcel Botelho.

*Com informações da Agência Pará

Reserva rica em urânio localizada no Amazonas é vendida à China por R$ 2 bilhões

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Foto: Divulgação

A Mineração Taboca S.A., responsável pela reserva de urânio localizada na Mina de Pitinga, interior do Amazonas, foi vendida para a empresa estatal China Nonferrous Trade Co. Ltd. por US$ 340 milhões – o equivalente a cerca de R$ 2 bilhões. A transação foi intermediada pelo grupo minerador peruano Misur, que detém o controle acionário da empresa brasileira.

A Mineração Taboca é conhecida pela descoberta da reserva em 1979, situada na Vila Balbina, a 300 km de Manaus. Na região, já foi identificado urânio, elemento químico utilizado como combustível para a geração de energia nuclear. A mina é também responsável pela lavra e beneficiamento de cassiterita, columbita e, atualmente, é a maior produtora de estanho refinado do Brasil.

Em comunicado, a Mineração Taboca anunciou a transferência de 100% das ações para a empresa estatal chinesa.

A China Nonferrous Mining Co., uma das maiores empresas estatais produtoras de cobre do mundo, foca em mineração, processamento, hidrometalurgia, fundição pirometalúrgica e vendas, com operações significativas na Zâmbia, na África.

Repercussão

Em pronunciamento na plenária do Senado, na quarta-feira (27), o senador Plínio Valério (PSDB-AM), questionou a venda e levantou suspeitas de favorecimento ao governo chinês.

*Com informações da Rede Amazônica AM

Folha da canela é identificada por pesquisadora maranhense como aliada no combate à leishmaniose

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Foto: Divulgação/Governo do Maranhão

A leishmaniose é uma doença parasitária, transmitida por insetos conhecidos como flebotomíneos, e que representa um sério problema de saúde pública. Estudo que avalia as potencialidades da canela no tratamento lança nova perspectiva nas ações de combate. A pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) e coordenada pela professora Caroline Martins de Jesus, mestre em Saúde e Tecnologia, é focada na análise da base do extrato e frações das folhas da planta.

A pesquisa mostrou que a folha da arvore tem o potencial de ser usada no tratamento da leishmaniose, pois ela é capaz de matar o parasita que causa a doença. Os próximos passos são entender melhor como a canela funciona e desenvolver um medicamento seguro e eficaz para os pacientes.

O presidente da Fapema, Nordman Wall, avaliou de forma positiva o estudo: “A pesquisa representa um avanço significativo no entendimento da leishmaniose, e pode oferecer novas ferramentas para as ações de prevenção e combate à doença, podendo impactar positivamente a saúde da população maranhense”, disse.

Para chegar aos resultados, Caroline de Jesus fez vários testes no laboratório da Universidade Federal do Maranhão, sob a orientação do professor doutor Aramys Silva dos Reis. Como resposta, foi observado o seguinte: parte da canela que eles estudaram foi capaz de matar tanto a forma do parasita que vive fora do corpo quanto a forma que habita dentro das células.

A canela fez com que o parasita morresse por um processo chamado apoptose, que é como se fosse um “suicídio celular”. Ao analisar a parte da canela que estava matando o parasita, o estudo identificou várias substâncias, como o fitol, o benzoato de cinamil e o ácido hexadecanóico. Essas substâncias são as principais responsáveis pela ação da canela contra o parasita.

“Ao demonstrar a seletividade da fração hexânica e identificar seu mecanismo de morte celular, o estudo oferece insights específicos, que podem orientar futuras pesquisas na busca por tratamentos mais direcionados e menos nocivos. Isso contribuiria para a melhoria das condições de vida e saúde da população maranhense”, avalia Caroline Martins.

A ideia da pesquisa surgiu a partir de trabalhos em desenvolvimento com a espécie, que demonstraram o grande potencial farmacológico. A canela é uma planta comum no estado e a investigação do potencial terapêutico de suas folhas acrescenta relevância local ao estudo.

A pesquisa foi desenvolvida na UFMA, nos laboratórios de Fisiopatologia e Investigação Terapêutica (LaFIT), em Imperatriz, e de Patologia e Imunoparasitologia (LPI), localizado no Campus São Luís. 

Leishmanioses

As leishmanioses são um conjunto de doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania e da família Trypanosomatidae. De modo geral, essas enfermidades se dividem em leishmaniose tegumentar americana, que ataca a pele e as mucosas, e leishmaniose visceral, que agride órgãos internos. Os sintomas incluem febre, emagrecimento, anemia, aumento do fígado e do baço, hemorragias e imunodeficiência.

O diagnóstico é feito por exame ou cultivo de material dos tecidos infectados (medula óssea, pele ou mucosas da face). Não há vacina contra as leishmanioses humanas. As medidas mais utilizadas para a prevenção da doença se baseiam no controle de vetores e dos reservatórios, proteção individual, diagnóstico precoce e tratamento dos doentes, manejo ambiental e educação em saúde.

Para todas as formas da doença, o tratamento se faz por meio do medicamento antimoniato de meglumina (Glucantime). Outras drogas, utilizadas como segunda escolha, são a anfotericina B e a pentamidina, todas de toxicidade considerável.

*Com informações do Governo do Maranhão