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Capivara ou Ronsoco? A espécie amazônica que é sensação nas redes sociais também no Peru

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Foto: Reprodução/Agência Andina

É uma espécie que sempre esteve presente na Amazônia, que abriga uma rica biodiversidade, mas nos últimos meses a capivara ou ‘ronsoco’ como é conhecida no Peru, virou sensação entre os usuários das redes sociais. Uma tendência que aumentou nesta época natalícia.

Mas o que é a capivara ou ronsoco? Que tipo de espécie é e onde vive? Que características ela possui que a tornam especial? Vamos descobrir o que dizem os especialistas sobre esse personagem popular que cativa os mais jovens.

Leia também: Confira curiosidades sobre as capivaras

As capivaras ou ronsocos são uma espécie sociável que vive em grupos de até 20 indivíduos. ANDINO
Foto: Reprodução/Agência Andina

1. A capivara ou ronsoco é o maior roedor do mundo e pode medir, no caso dos machos, até 1,5 metro de comprimento e pesar cerca de 50 quilos. Sua pelagem é marrom avermelhada.

Reprodução: Redes Sociais – Agência Andina.

2. Seu nome científico é Hydrochoerus hydrochaeris, mas é conhecido por diversos nomes: ronsoco, capivara, chigüire, carpincho, piro-piro, entre outros. O termo capivara vem da palavra guarani capii-bara que significa ‘mamífero roedor’.

3. Seu corpo é em forma de barril e possui uma cabeça pequena. O macho distingue-se por apresentar uma pequena protuberância de 2 cm no focinho.

4. As capivaras vivem em grande parte da América do Sul, especialmente na Amazônia. No Peru existem populações importantes no Parque Nacional Manu, na Reserva Nacional Pacaya Samiria, no Parque Nacional Bahuaja Sonene, na Reserva Nacional Tambopata, bem como na Reserva Comunal El Sira, no Parque Nacional Yanachaga Chemillén e na Floresta de Proteção San Matías-San Carlos.

5. É uma espécie sociável, vive em grupos de até 20 indivíduos e se adapta bem à vida aquática graças ao fato de sua anatomia ser projetada para nadar. Quando um desses animais percebe perigo, solta um latido curto para avisar os demais e costumam se proteger debaixo d’água, podendo mergulhar por até cinco minutos. Sua natureza pacífica e amigável para com outras criaturas, até mesmo humanos, contribuiu para sua popularidade como animais amigáveis ​​e afetuosos.

6. O ronsoco tem uma dieta herbívora, que inclui plantas aquáticas e terrestres, o que o torna um componente essencial do ecossistema. Consome também plantas cultivadas como capim, milho e cana-de-açúcar. Em geral, sua alimentação é bastante variada e adaptada às condições do ambiente em que vivem.

Sensação nas redes sociais

A popularidade da capivara é tão grande que até o WhatsApp desenvolveu designs e existe um “modo capivara” que serve para personalizar o aplicativo. A dança da capivara se popularizou no TikTok onde milhares de jovens dançam ao ritmo da música contagiante

A internet está repleta de imagens e vídeos que popularizaram a capivara, e tal é a tendência que uma grande indústria tem desenvolvido em relação a esse animal: brinquedos, bichos de pelúcia, camisas pólo e produtos diversos são a sensação na atual campanha de Natal.

Mesmo no distante Japão a capivara virou tendência. Os “Cat cafés” são um conceito inovador e nobre que procura juntar os entusiastas dos animais de estimação com os gatos que precisam de um lar. No Japão, especificamente em Tóquio, os amantes dos animais levaram este conceito mais longe e abriram cafés onde, além de conviver com os felinos, agora é possível conviver com um dos seres mais sociais do mundo: as capivaras.

Dois cafés deste país oferecem uma experiência única aos seus clientes, comendo rodeados de capivaras. Estes simpáticos roedores, conhecidos pela sua natureza amigável, tornaram-se os convidados especiais destes estabelecimentos, proporcionando um ambiente relaxante e alegre enquanto os clientes saboreiam as suas bebidas e comidas.

Foto: Divulgação / Agência Andina

No México, a associação CEPAD criou a “Huitzil”, uma capivara que os acompanha através de um microsite com o objetivo de apoiar crianças e adolescentes vítimas indiretas de desaparecimentos. Huitzil é uma capivara que ajuda crianças a lidar com o desaparecimento de um familiar.

Febre no Peru

A febre da capivara no Peru chegou há vários meses. Arequipa foi uma das primeiras cidades onde este popular roedor amazônico foi adotado. Um acessório conhecido como cabo de capivara chamou a atenção de crianças e adultos. Desenhada com pelúcia peluda, a peça recria a imagem da capivara e se tornou um acessório indispensável entre os jovens.

Foto: Divulgação / Agência Andina

Os jovens consideram este acessório um companheiro ideal para levar para todo o lado. Portanto, os jovens têm indicado que se sentem acompanhados, diminuindo o estresse nas aulas ou na realização das tarefas diárias.

Em Lima, o ronsoco tornou-se um dos animais mais visitados do Parque de las Leyendas. As crianças e os jovens esforçam-se por conhecê-lo e, como era de esperar, é um boom na atual campanha de Natal.

*Com informações da Agência Andina

Fórum discute avanços dos mecanismos de mitigação às mudanças climáticas no Pará

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Foto: Fernando Sette

A sexta edição do Fórum Paraense de Mudanças e Adaptação Climática (FPMAC), que reúne órgãos do poder público estadual e federal, instituições privadas e entidades do terceiro setor, será realizada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) nos dias 12 e 13 de dezembro. O objetivo do Fórum é apresentar as conquistas alcançadas em 2024 em ações de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Entre os assuntos que serão abordados durante o evento está a Lei nº 10.750, de 31 de outubro de 2024, que institui o Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA), substituindo o decreto estadual nº 941, de 3 de agosto de 2020, que criou o Plano.

A revisão pública aprimorou os componentes transversais do plano, como Força Estadual de Combate ao Desmatamento, o Programa Regulariza Pará, o Programa Territórios Sustentáveis, o Plano Estadual de Bioeconomia, o Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa, o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais e o Sistema Jurisdicional de REDD+, este último em desenvolvimento.

Outras temáticas que serão debatidas vão envolver as ações do programa Regulariza Pará, a política de Gerenciamento Costeiro, o Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa, Plano de Bioeconomia, o Monitoramento Hidrometeorológico, além da Política Estadual de Recursos Hídricos do Pará, apresentando os princípios, diretrizes, objetivos e instrumentos de gestão dessas iniciativas.

O evento ocorrerá a partir das 9h, na Semas Bosque – Travessa Lomas Valentinas, nº 2100, bairro do Marco, em Belém. Para participar é necessário apenas fazer a inscrição gratuita no local.

*Com informações da Semas PA

Peru sediará 16ª edição do Congresso Florestal Mundial em 2027

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Foto: Reprodução/Agência Andina

O Conselho da Organização das Nações Unidas (ONU) para Agricultura e Alimentação (FAO) anunciou que o Peru será o país sede do XVI Congresso Florestal Mundial a ser realizado em 2027, o que consolida o país como líder na conservação da biodiversidade e na gestão sustentável dos recursos florestais e da vida selvagem a nível global.

A candidatura foi apresentada oficialmente durante a 27ª sessão do Comitê Florestal (COFO 27), em julho de 2024, em Roma, Itália, como resultado de um esforço articulado entre o Serviço Nacional de Florestas e Fauna Bravia (Serfor) do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação (Midagri) e o Ministério das Relações Exteriores do Peru.

Durante o evento internacional, delegações de todo o planeta poderão conhecer a diversidade cultural e os produtos de alto valor que as florestas peruanas oferecem para o mercado internacional.

Estes espaços de diálogo proporcionam uma oportunidade de obter uma visão geral do setor florestal, a fim de discernir tendências, adaptar políticas, sensibilizar os órgãos de decisão e influenciar a opinião pública.

Desta forma, o Peru se posiciona como líder continental na organização de eventos globais e de grande escala, como a Cúpula de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a Jogos Esportivos Pan-Americanos e Assembleia Anual do Banco Mundial e do FMI.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Os congressos florestais mundiais são realizados aproximadamente uma vez a cada seis anos. O primeiro Congresso foi realizado na Itália em 1926.

Estes fóruns permitem a troca de opiniões e experiências sobre questões relacionadas com florestas e silvicultura, resultando em recomendações aplicáveis ​​à escala nacional, regional e global.

Os espaços de diálogo proporcionam uma oportunidade de obter uma visão geral do sector florestal , a fim de discernir tendências, adaptar políticas, sensibilizar os órgãos de decisão e influenciar a opinião pública.

O intercâmbio de conhecimentos dentro do setor florestal e deste com outros setores beneficia todos os países. A divulgação dos avanços científicos e técnicos, bem como os contatos profissionais promovidos por estas conferências, contribuem para uma melhor compreensão global do papel das florestas. E o país anfitrião recebe apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Peru, país florestal

O Peru é um país de florestas. Mais de 73 milhões de hectares de florestas amazônicas, secas, andinas e outros ecossistemas florestais cobrem quase 60% do território nacional.

Não à toa, o Peru ocupa o quarto lugar no mundo em extensão de floresta tropical, o segundo lugar na América do Sul e o nono em todo o planeta.

Além disso, a Amazônia peruana abriga 3,6 milhões de pessoas, incluindo mais de 50 povos indígenas e populações indígenas isoladas em contato inicial.

*Com informações da Agência Andina

Espécies novas de sapos ajudam a entender origem e evolução da biodiversidade da Amazônia

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O sapo Neblinaphryne imeri, descoberto em 2022. Foto: Taran Grant

Ele anunciou a própria morte. Cantava alto na boca da toca de uma aranha-caranguejeira. Então, foi capturado. Por pesquisadores.

Foi por causa do canto diferente que o sapo, batizado Neblinaphryne imeri, chamou a atenção dos cientistas que andavam em solo íngreme e lamacento, no novembro chuvoso de 2022, no alto de um pico na Serra do Imeri, divisa entre o estado do Amazonas e a Venezuela.

Leia também: Nova espécie de sapo é encontrada em cadeia isolada de montanhas no Amazonas

O Pico do Imeri, que nem os indígenas Yanomami visitam por causa da dificuldade de acesso, e também porque naquela altitude não habitam presas de peso, como mamíferos grandes, só foi alcançada pela equipe de pesquisadores com o apoio do Exército Brasileiro e de seu helicóptero.

Essa foi a segunda expedição liderada por Rodrigues em colaboração entre pesquisadores e o Exército nessa região da Amazônia. A primeira expedição ocorreu em 2017 no Pico da Neblina, que fica a 80 km do Pico do Imeri. Ambas as montanhas estão em áreas protegidas: a Terra Indígena Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina.

Na expedição ao Pico da Neblina também foi coletada uma espécie de sapo nova para a ciência, que recebeu o nome de Neblinaphryne mayeriem homenagem a Sinclair Mayer, general que ajudou na organização daquela expedição.

Após longas análises, os cientistas concluíram que os dois sapos, o do Pico da Neblina e o do Pico do Imeri, são espécies-irmãs. E essa descoberta indica que as montanhas daquela região sofreram alterações relevantes há 55 milhões de anos.

Vista panorâmica da Serra do Imeri, habitat das duas novas espécies de sapos. Foto: Taran Grant

Ancestral comum

No alto das montanhas, as condições de clima são bastante diferentes daquelas encontradas nas partes mais baixas e quentes da Amazônia. Isso determina toda uma biodiversidade adaptada àquele clima, incluindo espécies da fauna que dificilmente desceriam para a parte baixa da floresta.

Exames de DNA feitos nas duas espécies novas de sapos apontam que elas têm um ancestral comum, que viveu na Serra do Imeri há 55 milhões de anos.  Naquela época, o Pico da Neblina e o Pico do Imeri estavam provavelmente conectados. Com a erosão que foi ocorrendo durante milhões de anos, águas e ventos removeram material das camadas superiores das montanhas, ajudando assim a formar as regiões baixas da floresta. Com isso, alguns topos de montanha foram ficando isolados.

Em meio às transformações, a mesma espécie de sapos foi dividida. Enquanto alguns indivíduos ficaram ilhados em uma montanha, desenvolvendo-se de determinada forma, outros indivíduos ficaram isolados em outro pico, evoluindo de forma diferente.

O sapo Neblinaphryne imeri, descoberto em 2022. Foto: Taran Grant

O passado ensina sobre o futuro

Biólogos e geólogos têm trabalhado em conjunto para um melhor entendimento da biodiversidade e da paisagem das florestas tropicais. A geogenômica, termo elaborado pelo geólogo Paul Baker, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, mostra como as hipóteses podem evoluir por meio da colaboração entre especialistas.

Lúcia Lohmann, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, coordena projetos na região amazônica em parceria com cientistas de outras áreas.

“Entender o passado e as nossas origens é de suma importância para que possamos fazer melhores previsões para o futuro, estabelecer políticas públicas e estratégias para a conservação da biodiversidade”.

Lohmann participou da expedição à Serra do Imeri e, junto com a equipe de botânica, coletou mais de 1.200 amostras de plantas, representando aproximadamente 220 espécies – em grande parte endêmicas da região.

Documentar a biodiversidade de regiões desconhecidas num momento em que um alto número de espécies está entrando em extinção é tarefa urgente para a ciência.

“Os materiais coletados trazem novas peças para o grande quebra-cabeça sobre a origem e evolução da biodiversidade da Amazônia”, diz Lohmann.

Pesquisadores em expedição no alto da Serra do Imeri, no Amazonas. Foto: Taran Grant

Descrever a novidade

Rodrigues já caminhava aos 8 anos de idade junto com um pescador pelas montanhas do litoral de São Paulo, na região da atual Jureia. Na época, coletava borboletas, besouros e outros insetos. Hoje, na sala 102 do Instituto de Biociências da USP, fileiras de répteis e anfíbios figuram junto ao herpetólogo que já descreveu perto de 200 espécies novas.

O sapo Neblinaphryne imeri foi descoberto em 2022 e descrito como nova espécie em artigo para a revista científica Zootaxa apenas em setembro deste ano. Rodrigues explica que o mesmo grupo de cientistas que coleta os bichos nas expedições também dá aulas, orienta alunos, segue pesquisando e faz uma extensa análise de cada espécie coletada.

Diversos aspectos são observados para descrever uma espécie nova: analisar fotos e o canto do bicho em vida, estudar o corpo com lupa, efetuar medidas de todos os indivíduos coletados, determinar o sexo, extrair partículas do tecido para análise de DNA, enviar o DNA para ser sequenciado – no caso do Neblinaphryne imeri isso se deu na Coreia. Depois, segue-se com o estudo dos ossos e articulações, fazendo escaneamento do esqueleto, e só então chega o momento de descrever a nova espécie.

Ainda há espécies que vieram junto na expedição de 2017 que aguardam por ser descritas.

“Nós estamos descobrindo fauna e flora novas de um Brasil completamente desconhecido. Quer dizer, estamos preenchendo um ramo da árvore da vida desconhecido e que pode ter coisas extremamente importantes”, diz Rodrigues, que já tem planos para uma próxima expedição, agendada para 2025, também com apoio do Exército, para a Serra de Tulu-Tuloi – a cerca de 200 quilômetros do Imeri, também no Amazonas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Sibélia Zanon

Estilista do povo Piratapuya, Sioduhi leva futurismo indígena amazônico para as passarelas

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Foto: Camila Picolo/Instituto C&A

No Alto Rio Negro (Noroeste Amazônico) vivem dezenas de povos, que praticam a tolerância, a diversidade e a diplomacia, características que o estilista Sioduhi considera fundamentais em sua trajetória no mundo da moda. Seu povo, Piratapuya, originário da região, é “gente-peixe”, e aparece homenageado no logotipo de sua marca, assim como em diversas outras referências que surgem em suas criações. 

Depois de um período vivendo em São Paulo, Sioduhi voltou para o Amazonas, por acreditar que seria necessário apoiar a cadeia produtiva de seu estado. Os desafios de ser um jovem empreendedor amazônico, indígena e integrante da comunidade LGBTQIAPN+ são imensos. No entanto, as dificuldades nunca impediram Sioduhi de seguir trabalhando para descentralizar a moda nacional e demarcar novos territórios.

Nos conhecemos pessoalmente aqui em Manaus, onde estou passando uma temporada para realizar pesquisas para o meu doutorado em antropologia social. Já nos seguíamos nas redes sociais há algum tempo, e, assim que cheguei na cidade, fui conhecer o seu ateliê, localizado algumas ruas abaixo de onde estou hospedado. 

Ao longo dos dias, visitei Sioduhi outras vezes, para conversarmos despretensiosamente. Acompanhei-o em entrevistas na televisão, oficinas com jovens indígenas, reuniões de empreendedorismo, aberturas de exposição, cafés da tarde, shows, bares e festas, assim como na produção das fotos e vídeos de sua campanha. Pude vê-lo gargalhar diversas vezes, um traço marcante de sua personalidade. Sioduhi é um jovem doce e extremamente gentil, sobretudo quando se sente confortável. 

No entanto, com o passar das semanas, ele se mostrava apreensivo com os inúmeros impasses que surgiam para finalizar sua nova coleção. Num desses dias, no início da noite, recebi uma mensagem em que dizia: “É cansativo receber tantos nãos”. Pouco tempo depois, lá estava ele fazendo piada e contando de um compromisso que surgira em cima da hora. 

No último final de semana (entre 30 de novembro e 1° de dezembro), na véspera de sua viagem para São Paulo, fomos juntos a uma ball indígena, da qual Sioduhi seria jurado. Perguntei, ao longo do trajeto, se ele não estava esgotado  com a correria dos últimos dias. Sua resposta, breve e assertiva, com um pequeno sorriso estampado no rosto, é um perfeito lampejo da pessoa com quem convivi nos últimos meses: “Estou exausto, mas aceitei o convite. É minha gente!”.

O estilista lança sua nova coleção na 55ª edição da Casa de Criadores, que acontece entre os dias 5 e 10 de dezembro de 2024, em São Paulo. Responsável pela abertura do evento, a Sioduhi Studio apresenta ‘Kahtiridá: Fio da vida’, coleção que busca refletir sobre as possibilidades de cura e resistência em um mundo assolado por catástrofes. 

Nas criações, ele traz materiais como a fibra de tucum, o algodão emborrachado de seringueira e o tingimento natural com Tecnologia ManioColor, extraída da casca da mandioca.

Embora seja um desafio muito grande se apresentar, ainda mais no caso de uma pessoa que transita entre universos tão distintos, o que você gostaria que as pessoas que não conhecem o Sioduhi soubessem sobre você? 

Sioduhi — Sou o Sioduhi, “neto daquele que está sentado cantando”, na tradução literal. Mas pode ser também “aquele que carrega o espírito do Baiá”, músico e compositor das canções milenares das cerimônias dos povos do Alto Rio Negro. Sou Piratapuya (Waikʉhn), da Terra Indígena Alto Rio Negro. Meu povo compartilha este território com outros 23 povos. Fala-se 18 línguas na região, sendo a tukano, minha primeira língua, uma delas. 

Nasci em 1995, na comunidade indígena Mariwá, no Médio Uaupés. Fiz muitas viagens pelo Uaupés e pelo Rio Negro com minha família. Eu acompanhava, constantemente, meus pais no trabalho com a agricultura nas nossas roças de maniva e nas atividades de pesca. Quando eu tinha 5 anos, minha família começou o processo de sair e voltar para a nossa comunidade. A escola mais próxima havia fechado, e tivemos que passar o ano letivo em Iauaretê, um dos distritos de São Gabriel da Cachoeira, município do Amazonas. Iauaretê está localizado na fronteira entre o Brasil e a Colômbia. 

Foi em Iauaretê que eu comecei a gostar de moda, antes mesmo de compreender o que ela era. Eu vivia na casa da minha prima, e como minha tia costurava, passei a observar e a gostar. Mas foi somente depois da faculdade que eu tive coragem de correr atrás do sonho e realizá-lo. A mudança para o distrito de Iauaretê foi, na verdade, apenas o começo das múltiplas mudanças que eu vivenciaria. Não só de local, mas também de ter contato com outras culturas — seja na língua, na alimentação, no comportamento, enfim, no modo de ver o mundo. 

E tudo isso me fez passar por um processo de depressão. Principalmente quando tive que me mudar para a cidade de São Gabriel da Cachoeira, aos 15 anos, porque fui selecionado no Instituto Federal. Foi nessa idade que me compreendi como uma pessoa de dois espíritos. Os atravessamentos da colonização, da eurocristianização e da militarização me fizerem sentir culpa por um tempo, mas, felizmente, encontrei apoio quando mais precisei. 

Confira a entrevista na íntegra AQUI.

Foto: Alex Costa @rivotrist/divulgação

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Leonardo Nascimento

Seca recorde deixa cicatrizes no coração dos amazonenses por dois anos consecutivos

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Foto: Nilmar Lage/Greenpeace

O Amazonas é o maior estado brasileiro em extensão, onde vivem 3,9 milhões de pessoas. E por estar inteiramente inserido na floresta amazônica, é um dos mais dependentes dos rios, já que além de fornecer água e comida, os enormes cursos d’água da região conectam pessoas e permitem o acesso a serviços, como saúde e educação. Mas e se todos os rios secarem?

É uma pergunta difícil de responder e até de imaginar. Mas em 2024 deu para ter uma ideia de como seria, já que este ano os principais rios da Bacia Amazônica atingiram os níveis mais baixos da história, e o que se viu foi caos, abandono e privação. Em muitas regiões, os rios literalmente sumiram, enquanto em outras, transformaram-se em pequenos fios de água, afetando milhares de pessoas.

Leia também: Secas e cheias devem tornar-se mais intensas e frequentes na Amazônia, aponta pesquisador

Todos os 62 municípios do Amazonas decretaram estado de emergência devido a estiagem severa, e segundo estimativas da Defesa Civil do estado, mais de 850 mil pessoas foram diretamente afetadas pela seca. 

Problemas como o desabastecimento de itens de primeira necessidade, o fechamento de escolas e a impossibilidade de exercer o direito ao voto, vulnerabiliza, ainda mais, a vida de populações que já são historicamente invisibilizadas e abandonadas pelo Estado.

Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Estamos falando do mais básico de todos os direitos, como à água, por exemplo. Imagine viver na maior bacia hidrográfica do mundo, e não ter acesso a água potável. Pois segundo o instituto Trata Brasil, 20% da população do Amazonas não tem acesso à água tratada e em diversas localidades, a única água disponível é a do rio. 

Assim, durante a seca, muitas comunidades tiveram poucas opções: beber água com lama e ter problemas intestinais; recorrer a um poço, se sua comunidade tivesse a sorte de ter um; ou contar com a doação de garrafas de água. 

O preço dos alimentos e a escassez de pescados também pressionou a segurança alimentar das pessoas. E a dificuldade de chegar às escolas afastou 4,3 mil alunos dos estudos, em 19 municípios do Amazonas. 

Em agosto, a professora Miscelina Nunes Rodrigues, da Comunidade São Francisco do Arraiá, em Tefé, relatou que já enfrentavam problemas com a entrega da merenda da escola, e até mesmo de acesso dos estudantes. 

Para onde foram os rios?

Em 2024, a Amazônia enfrentou sua segunda seca recorde consecutiva. Graças a um El Niño persistente, aliado ao aquecimento das águas do Atlântico norte, as chuvas não deram conta de recuperar os rios amazônicos no último ano. Mas verdade seja dita, não é como se cientistas nunca tivessem apontado que um dos efeitos das mudanças climáticas seria a ocorrência de eventos climáticos extremos como secas severas na Amazônia. 

No Brasil, esses eventos climáticos têm se agravado em frequência, intensidade e abrangência, e não apenas em forma de seca, mas também de chuvas em excesso e temperaturas elevadas. O El Niño, por exemplo, é um evento climático que ocorre naturalmente, mas que ganhou força em um ambiente que já está mais quente.

As atividades que mais contribuem no mundo para a piora do aquecimento global são a exploração e queima de combustíveis fósseis. Mas no caso do Brasil, o desmatamento e as queimadas ilegais são os principais responsáveis por essas emissões.

A combinação perigosa entre queimadas e fumaça nessas localidades tornam a situação ainda mais alarmante, já que o efeito na saúde da população local é largamente sentido havendo, segundo estudos da FIOCRUZ, um aumento de 100% das internações com problemas respiratórios no período seco.

Em 3 de outubro de 2024, a cota do Rio Negro chegou a 12,69 metros, às 17h, quebrando o recorde anterior, que era de 12,70 metros, durante a seca de 2023 – segundo dados do Serviço Geológico do Brasil, estação Rio Negro em Manaus. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Além disso, a baixa formação de gelo nos Andes tropicais, outro efeito das mudanças climáticas, impacta o ciclo de inundação dos rios, já que seu degelo é fundamental para esse processo na bacia do Rio Solimões, por exemplo.

Os períodos de estiagem têm se tornado cada vez mais severos e prolongados na Amazônia e no Brasil como um todo. A estiagem deste ano  começou meses antes do planejado no Amazonas, e durou mais tempo que de costume. De acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemadem), a partir da década de 90, as secas no Brasil tornaram-se mais frequentes e intensas, e a situação se agravou ainda mais a partir de 2016.

Evolução temporal das secas no Brasil considerando o Índice Padronizado de Precipitação e Evapotranspiração de dezembro de 1951 a abril de 2024.  As barras em azul indicam períodos com chuvas acima da média ao passo que as barras vermelhas indicam períodos com chuvas abaixo da média. Imagem: Cemadem

Por enquanto, os rios seguem por aqui, mas se não acabarmos com o desmatamento e levarmos a sério o combate às mudanças climáticas, o pesadelo de um mundo sem a Amazônia e seus rios pode um dia se tornar real. 

Estiagem esperada, reação lenta

Em um ano de eleições municipais, quase 16 mil pessoas ficaram impedidas de votar no Amazonas devido a seca recorde, segundo dados da Justiça Eleitoral do Amazonas.

Tentando não repetir a tragédia decorrente da seca recorde do ano passado, em 2024 o governo do Amazonas afirma ter colocado um Plano de Contingência das Ações de Vigilância em Saúde para Estiagem no Amazonas em março, com envio de medicamentos aos municípios mais afastados, e ter distribuído 3 mil toneladas de alimentos, além de purificadores de água e caixas d’água. Mas muitos sofreram, e ainda estão sofrendo, com a seca no estado. 

Rômulo alerta que governos de todas as esferas não podem mais esperar a crise bater à porta para agir. 

Ativistas do Greenpeace realizaram um protesto no leito seco do Rio Solimões, na cidade de Manacapuru, Amazonas. Os ativistas abriram uma faixa de 45mx18m em uma paisagem árida, onde antes passava um dos maiores rios da bacia Amazônica, para denunciar os impactos da crise climática na Amazônia. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace

As populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Amazonas têm sido as primeiras a sofrer as consequências da seca e estiagens dos rios no norte do país e as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos, mas são justamente as que menos contribuíram para essa emergência climática e que menos recebem apoio. Por outro lado, são estas mesmas populações que estão na frente quando se trata de soluções por meio de tecnologias sociais para enfrentar a crise climática. 

Vivemos num mundo em mudança, graças à ação humana. E apenas a ação humana pode reverter esse cenário. Precisamos agir para frear a crise climática. Municípios, estados e países precisam avançar, e muito, na adaptação às mudanças climáticas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Greenpeace, escrito por Rosana Villar

Cidade em Mato Grosso é líder entre os municípios mais ricos no agro

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Foto: Divulgação/Gcom-MT

A produção agrícola brasileira alcançou, em 2023, um valor total de R$ 814,5 bilhões. Desse total, os 100 municípios mais ricos no agronegócio contribuíram com 31,9%, ou seja, R$ 260 bilhões. Os dados foram divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O destaque vai para o estado de Mato Grosso à frente, abrigando 36 dos municípios mais produtivos do país. A primeira posição é ocupada por Sorriso (MT), com uma produção de R$ 8,3 bilhões, seguido por São Desidério (BA), com R$ 7,8 bilhões.

Outras cidades mato-grossenses que compõem essa lista são:

  • Sapezal, com valor de produção agrícola estimado em R$ 7.544.333 bilhões;
  • Campo Novo do Parecis, com R$ 7.157.753;
  • Diamantino, com 5.905.259;
  • e Nova Ubiratã, com 5.463.407 bilhões, entre outras.

Confira a lista completa dos municípios mais ricos no AQUI.

Área colhida

Os 100 municípios mais ricos em valor de produção agrícola ocupam uma área colhida de 33,1 milhões de hectares, que corresponde a 34,5% da área total de hectares do Brasil. 

Esse grupo dos 100 municípios está distribuído entre 14 unidades da federação. São elas (em ordem alfabética): 

Bahia 

Distrito Federal

Goiás

Maranhão

Mato Grosso

Mato Grosso do Sul

Minas Gerais

Pará

Paraná 

Pernambuco 

Piauí 

Rio Grande do Sul 

São Paulo 

Tocantins

Produtos

Em relação aos produtos, a soja continua no topo, com R$ 348,6 bilhões. Esse valor corresponde a 42,8% do valor total da produção agrícola. Quanto ao milho, também houve resultados significativos, com R$ 101,8 bilhões, seguido pela cana-de-açúcar, com R$ 101,9 bilhões. Outras culturas como algodão, laranja e café também tiveram participações expressivas.

*Com informações do Brasil 61

Cicloturismo: ‘Caminhos de Bujaru’ conectará territórios quilombolas no nordeste do Pará

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Foto: Reprodução/Ideflor-Bio

A cidade de Bujaru, no nordeste paraense, avança na implantação de um circuito de trilhas ecológicas com apoio do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio). Denominada de ‘Caminhos de Bujaru‘, a iniciativa será uma trilha de longo curso destinada ao cicloturismo e conectará dois territórios quilombolas, promovendo integração cultural, conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico local.

Leia também: Confira a localização de nove trilhas para aproveitar na Amazônia

Na última semana, o gerente da Região Administrativa de Belém do Ideflor-Bio, Júlio Meyer, esteve no município para realizar o mapeamento inicial do trajeto, em parceria com a Prefeitura de Bujaru, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Além de sua atuação no Ideflor-Bio, Meyer também é diretor nacional de trilhas da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso, o que reforça a relevância técnica do projeto.

Ecoturismo

O trajeto da trilha vai incluir passagens por igarapés de águas cristalinas, vegetação nativa, e construções históricas que contam parte da história da região. Para a secretária de Meio Ambiente de Bujaru, Leuda Coelho, o projeto representa uma oportunidade transformadora para o município.

Coelho enfatizou ainda os impactos positivos que o ecoturismo pode gerar na economia local. “Guias, transportes, hospedagens e restaurantes serão beneficiados diretamente. Além disso, pequenos negócios, como artesanatos e produtos locais, ganharão visibilidade. É uma oportunidade para destacar nossa cultura, histórias das comunidades quilombolas e patrimônios históricos”, pontuou.

Foto: Reprodução/Ideflor-Bio

Aprendizagem

O projeto não se limita ao desenvolvimento econômico, mas também visa promover educação ambiental. “Os visitantes poderão aprender sobre a biodiversidade local, os ecossistemas e a importância da preservação. Isso contribui para uma maior conscientização sobre práticas sustentáveis”, acrescentou a secretária.

A iniciativa também busca engajar as comunidades quilombolas na conservação ambiental, mostrando o valor econômico e ecológico das áreas naturais. Segundo o presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto, esse envolvimento é fundamental para o sucesso do projeto. “Quando as comunidades se tornam protagonistas na preservação e na promoção do ecoturismo, os resultados são mais duradouros e significativos”, afirmou.

Com o planejamento em andamento, a Prefeitura de Bujaru e o Ideflor-Bio esperam iniciar as primeiras ações estruturais no próximo ano. A expectativa é que os “Caminhos de Bujaru” não apenas atraiam visitantes, mas também coloquem o município como referência no ecoturismo no Pará, promovendo sustentabilidade e valorização cultural.

*Com informações do Ideflor-Bio

Estudo mostra que chuvas em Terras Indígenas da Amazônia contribuem para 57% da renda agro do Brasil

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Chuva cai na região do Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami (RR). Foto: Lucas Lima/ISA

As Terras Indígenas da Amazônia influenciam as chuvas que abastecem 80% da área das atividades agropecuárias no país, mostra um estudo inédito. Conduzido por 10 cientistas e endossado por alguns dos maiores especialistas no tema no Brasil, ele aponta que a influência dessas chuvas na economia é significativa: em 2021, a renda econômica do setor agrícola nas áreas mais beneficiadas por essa dinâmica chegou a R$ 338 bilhões — 57% do total nacional.

A conclusão é que o impacto da preservação das TIs vai além do meio ambiente, destacando-se como peça-chave para a segurança hídrica, alimentar e econômica do Brasil. O estudo foi feito por um grupo de pesquisa em ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, a partir do cruzamento e análise de diversos dados, como os do MapBiomas, IBGE e Funai.

Os dados indicam que 18 estados e o Distrito Federal encontram-se parcial ou totalmente dentro da área de influência dessas Terras Indígenas (TIs) amazônicas.

Em estados como o Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, há regiões onde a chuva proveniente da reciclagem de água feita pelas florestas das TIs amazônicas chega a um terço do total anual de cada local. Até 30% da chuva média que cai sobre as terras agropecuárias do país está diretamente relacionada à eficiente reciclagem de água nesses territórios.

A agricultura e a pecuária estão entre as atividades que mais consomem água no Brasil. Ou seja: a chuva é condição fundamental para essas atividades.

“O desmatamento e a degradação das florestas nas Terras Indígenas causam a redução das chuvas e, com isso, acarretam riscos graves à economia do país”, afirma o hidrólogo Caio Mattos, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autor do estudo.

Apesar disso, Rondônia e Mato Grosso, que figuram entre os nove estados mais influenciados por essa chuva, estão entre os que mais desmataram florestas desde 1985. Os dados mostraram, ainda, que as chuvas provenientes dessas TIs contribuem diretamente para a segurança alimentar nacional: a participação da agricultura familiar no valor da produção total supera os 50% em vários estados influenciados, e grande parte da produção desses pequenos produtores é destinada, justamente, ao mercado interno.

Como Terras Indígenas da Amazônia “irrigam” grande parte do país

Na prática, a Amazônia “irriga” grande parte do país por meio dos chamados “rios voadores”: a umidade reciclada nas florestas das Terras Indígenas amazônicas é transportada pela atmosfera e se torna chuva em outras regiões do Brasil, como o Centro-Oeste e o Sul. Esse mecanismo natural de geração de chuva depende da manutenção de áreas de florestas nativas conservadas, que são responsáveis pelo bombeamento de umidade para a atmosfera.

Infográfico ilustra como as Terras Indígenas propiciam chuvas para o centro-oeste e sul do Brasil. Imagem: Joana C. Carvalho/Maria Carlos Oliveira

“A influência dos rios voadores já era conhecida, então o que fizemos foi usar dados já disponíveis desde 2020 para quantificar de fato essa influência – não só do ponto de vista da água, mas também da economia, em uma abordagem interdisciplinar”, explica a matemática e meteorologista Marina Hirota, professora na UFSC. “Ou seja, mais do que mapearmos as chuvas que atingem as áreas de agropecuária, convertemos esse dado em valores econômicos.”

As TIs ocupam aproximadamente 23% da Amazônia Legal, incluem mais de 450 territórios e abrigam cerca de 403,6 mil pessoas. Elas atuam como barreira ao desmatamento ao longo da história: dos 4,4 milhões de hectares desmatados no bioma Amazônia entre 2019 e 2023, apenas 3% (130,2 mil hectares) ocorreram dentro de TIs.

Isso acontece porque grande parte das atividades desenvolvidas em TIs são realizadas de maneira integrada ao ecossistema, envolvendo formas de uso e manejo que não necessariamente implicam na remoção da vegetação nativa. Existe, assim, relação intrínseca entre a proteção territorial de povos indígenas e a conservação de ecossistemas.

A demarcação de Terras Indígenas tem pautado o debate público porque o Supremo Tribunal Federal (STF) discute, nesse momento, a constitucionalidade da lei do marco temporal (lei 14.701/2023). A tese do marco temporal prevê que os povos indígenas teriam direito de ocupar apenas as terras que já ocupavam ou disputavam na data da promulgação da Constituição de 1988.

Além de Hirota e Mattos, assinam a nota técnica os cientistas Paulo N. Bernardino, Bruna Stein, Gabriela Prestes Carneiro, Julia Tavares, Adriane Esquivel-Muelbert, Silvio Barreto, André Braga Junqueira e Arie Staal. O estudo foi desenvolvido no escopo de um grupo de pesquisa em ecologia tropical do Serrapilheira – Staal, holandês, é o único dos 10 autores que não é integrante do grupo. 

Constituído no início de 2024, o grupo transdisciplinar inclui pesquisadores brasileiros de hidrologia, biodiversidade, ecologia, ecologia humana, matemática, clima, arqueologia, antropologia, políticas públicas, economia e comunicação. “A junção de cientistas com expertises diferentes permitiu essa análise complexa de dados que não são fáceis de se obter”, explica Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Serrapilheira.

Os autores também são vinculados à UFSC, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Utrecht (Holanda), Universidade de Uppsala (Suécia), Cary Institute of Ecosystem Studies (EUA), Museu Nacional de História Natural (França) e Universidade de Birmingham (Reino Unido). 

A nota técnica é endossada por outros nomes de peso da ciência: o climatólogo Carlos Nobre, o físico Paulo Artaxo, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha (os três da USP), o economista Ronaldo Seroa da Motta (Uerj) e a bióloga Mercedes Bustamante (UnB).

Confira a nota técnica aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental.

Bolívia solicita reconhecimento da folha de coca como patrimônio ancestral durante evento na Áustria

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Foto: Reprodução/Vice-Presidência da Bolívia

O secretário-geral da Vice-Presidência da Bolívia, Juan Carlos Alurralde, reafirmou esta semana a posição do país em relação à desestigmatização da folha de coca, solicitando a sua retirada da Lista 1 de Entorpecentes da ONU.

Durante o seu discurso nas sessões da Comissão de Estupefacientes (CND) e da Comissão de Prevenção do Crime e Justiça Penal (CCPCJ) das Nações Unidas em Viena, Áustria, destacou a importância de fazer justiça a esta planta milenar, cujo uso foi erroneamente classificado como prejudicial desde meados do século passado.

A autoridade boliviana recordou os esforços da Bolívia desde 2011 para defender a sua soberania e proteger o uso tradicional, medicinal, nutricional e cultural da folha de coca.

Em 2013, a Bolívia reafirmou a sua posição através de uma reserva que protege o uso ancestral da coca, ao mesmo tempo que implementou mecanismos de controlo eficazes para equilibrar estas práticas com a luta contra o tráfico de drogas.

Alurralde destacou que a Bolívia demonstrou que é possível compatibilizar a preservação das tradições ancestrais com o cumprimento das regulamentações internacionais.

Apelou ao respeito pelos direitos dos povos indígenas e dos seus medicamentos tradicionais, solicitando o pleno reconhecimento da folha de coca como um bem comum para a humanidade.

Destacou a necessidade de corrigir os preconceitos históricos que levaram à estigmatização da folha de coca, qualificando de injusto o relatório de 1950 que baseou a sua classificação atual.

A este respeito, destacou que o exame crítico liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) representa uma oportunidade única para reivindicar esta planta como patrimônio dos povos indígenas e um recurso de grande valor para a humanidade.

Reiterou o compromisso da Bolívia com a proteção da Mãe Terra e a preservação das tradições ancestrais, garantindo que a folha de coca seja um símbolo de harmonia com a natureza e um recurso com potencial transformador, não só para os povos indígenas, mas para todo o mundo.

*Com informações da Agência Boliviana de Informação