Após quase dois anos e meio de investigações, a Polícia Federal (PF) concluiu, na última sexta-feira (1º), o inquérito sobre os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.
Pereira e Phillips foram mortos a tiros em 5 de junho de 2022, em Atalaia do Norte, no Amazonas, quando visitavam comunidades próximas à Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior área do país destinada ao usufruto exclusivo indígena e que abriga a maior concentração de povos isolados em todo o mundo.
No relatório final sobre a apuração, a PF manteve o indiciamento de nove investigados. Ou seja, o órgão ofereceu denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) de nove pessoas contra as quais assegura ter reunido provas suficientes para acusá-las de participar do duplo homicídio. O MPF pode pedir o arquivamento, caso entenda não haver elementos probatórios contra os investigados, ou denunciá-los à Justiça Federal, transformando-os em réus.
Entre os indiciados está Ruben Dario da Silva Villar, apontado como mandante do crime. Sem citar nomes, a PF informou que os outros oito indiciados tiveram papéis na execução dos homicídios e na ocultação dos cadáveres das vítimas.
A reportagem – da Agência Brasil – ainda não conseguiu contato com a defesa de Villar, que já tinha sido indiciado pelo mesmo motivo em janeiro de 2023, quando a PF divulgou que tinha identificado a maioria das pessoas envolvidas no assassinato.
“Temos provas de que ele [Colômbia] fornecia munições para o Jefferson e o Amarildo, as mesmas encontradas no caso”, disse, na época, o então superintendente regional da PF no Amazonas, Alexandre Fontes, afirmando que Villar também pagou as despesas iniciais com a defesa de Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, primeiro suspeito a ser preso, em 7 de junho de 2022.
Interesses contrariados
Colaborador de publicações jornalísticas prestigiadas, como os jornais britânico The Guardian e os estado-unidenses The New York Times e Washington Post, Dom Phillips, 57 anos, viajou à região com o propósito de entrevistar lideranças indígenas e ribeirinhos para um novo livro-reportagem sobre a Amazônia que planejava escrever.
Embora falasse português fluentemente e já tivesse visitado a região outras vezes, Phillips viajava na companhia de Pereira por este ser um experiente indigenista Pereira. Com 41 anos de idade, estava licenciado da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desde fevereiro de 2020, por questões políticas, e atuava como consultor técnico da organização não governamental União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).
Os agentes da PF responsáveis pela apuração do crime concluíram que Pereira e Phillips foram mortos em decorrência do trabalho do indigenista. Mesmo licenciado da Funai, Pereira continuou contrariando interesses de grupos que ameaçam o bem-estar e a integridade de parte da população local. Na Univaja, auxiliava na implementação de projetos para permitir às comunidades tradicionais proteger seus territórios e os recursos naturais neles existentes.
“A vítima atuava em defesa da preservação ambiental e na garantia dos direitos indígenas”, destacou a PF, na nota que divulgou hoje – e na qual reforça que segue monitorando os riscos aos habitantes da região do Vale do Javari e que continua investigando ameaças contra indígenas que vivem na mesma região onde Pereira e Phillips foram mortos.
Linha do Tempo – Bruno Pereira e Dom Philips. Arte: Agência Brasil
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Alex Rodrigues
Kim-Ir-Sen Pires Leal e sua obra: uma contribuição para a história. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O repórter fotográfico goiano Kim-Ir-Sen Pires Leal acaba de lançar o livro “Rondônia em Imagens”, retratando um período que vai do final da década de 1970 ao início da década de 1980. A obra apresenta cerca de 200 imagens em cores e em preto e branco, com cenas inusitadas e impactantes de um tempo bem diferente, em que estado recebia milhares de migrantes que chegavam a todo momento, em sua maioria a bordo de paus-de-arara e ônibus.
As fotografias capturam paisagens de povoados em construção, com seus casarios de madeira e ruas empoeiradas, e trazem intrinsecamente várias críticas sociais e a capacidade de resistência do povo brasileiro. O autor considera que o conteúdo seja “antropológico social”. No entanto, as imagens também são obras de arte, com beleza plástica em cada composição, feitas com muita qualidade técnica e poética nas capturas das máquinas analógicas. O único filtro utilizado foi o olhar acurado de Kim, um verdadeiro mestre da fotografia.
O principal foco da obra são as expressões das pessoas comuns: o engraxate, o homem encantado com o cinema, o barbeiro, a tristeza e alegria convivendo em simbiose. Gente incomum, aventureira e corajosa de um Brasil Profundo, vinda de várias partes do país cheias de esperança na vida nova representada pela ocupação desenfreada das terras de Rondon, que se transformou no estado de Rondônia em 1981.
Kim-Ir-Sen Pires Leal e sua obra: uma contribuição para a história. Foto: DivulgaçãoO jovem engraxate em Cacoal. Foto: Kim-Ir-SenBairro Triângulo em Porto Velho. Foto: Kim-Ir-SenMenino em uma escola precária nos confins da Amazônia. Foto: Kim-Ir-SenCena de cinema: o homem e sua bicicleta. Foto: Kim-Ir-SenIndiozinho suruí protegido pela mãe. Foto: Kim-Ir-Sen
O livro surge como um importante documento histórico. Inclusive, com a fenda sobre os reflexos da onda migratória nas comunidades indígenas seculares, abandonadas à própria sorte diante da “civilização” que se instalou. O jornalista Montezuma Cruz produziu os textos explicativos — publicados em português e inglês — das fotografias; o projeto leva a assinatura da diretora de cinema Raíssa Dourado. Trabalhos de excelência de todos os envolvidos, resultando num belíssimo produto gráfico e editorial.
“A vovó agricultora e o menino debaixo da lona do caminhão em Vilhena, a mãe e as filhas buscando água em Espigão do Oeste retratam pessoas recebidas de braços abertos por Rondônia, que alcançaria em 1985 o seu primeiro milhão de habitantes; são fotos emblemáticas”, analisa Montezuma Cruz, um profundo conhecedor das entranhas rondonienses; ele atua no jornalismo local há meio século.
O livro foi contemplado pela Lei Rouanet, garantindo a publicação por meio do patrocínio do Grupo Energisa. Com isso, os exemplares serão distribuídos em todas as escolas públicas estaduais, além de estar disponível para download gratuito na internet. Confira:
“Eu temia a perda do acervo de cromos pela ação do tempo, e tudo o que aconteceu foi surpreendente; trabalhei esse tempo todo na recuperação e seleção de imagens e neste final de ano muito me alegro, finalmente, pela divulgação do livro”, diz Kim, durante sua visita a Porto Velho.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
O Centro de Desenvolvimento Cultural, Humano e Sustentável do povo indígena Kambeba, no Amazonas, foi inaugurado no dia 1° na Comunidade Três Unidos, há 60 quilômetros de Manaus. Cerca de 220 indígenas do povo vivem no local e o espaço tem o intuiro de manter viva a tradição dos povos originários na região.
Com o intuito de preservar e incentivar essa tradição, a empresa NTICS, que ajuda iniciativas a se conectarem com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), inaugurou o Centro de Desenvolvimento Cultural, Humano e Sustentável Kambeba na Amazônia, dentro da comunidade.
No espaço, o povo Kambeba que mora na comunidade vai poder trabalhar e desenvolver seus costumes e tradições de diferentes maneiras, segundo o tuxaua da comunidade, Waldemir Kambeba.
“A comunidade do povo Kambeba, que era uma comunidade que, aliás, era uma cultura que estava se esquecendo e que hoje está fortalecida com mais um centro cultural. Vai acabar de fortalecer muito mais, garantir o fortalecimento de toda a nossa cultura, manter esse território em forma de culturas tradicionais, como de medicina, dos nossos conhecimentos, das nossas danças, das nossas línguas, da nossas crenças que isso é importante para o nosso povo”, disse.
A ideia de construir o espaço veio em 2022, quando a NTICS esteve na comunidade três unidos para fazer um documentário sobre o povo kambeba, segundo o representante da empresa, Bellmond Viga
“Para nós, chegar aqui mais de dois anos atrás, na época do documentário, e ter vivenciado isso, foi sair desse lugar mental, onde a gente sabe de várias problemáticas, de vários diagnósticos, mas entender na prática o que poderia ser feito. Então, mais do que chegar aqui, a gente começou a entender profundamente que soluções da Amazônia pro mundo precisam existir e não ao contrário, como hoje em dia acontece”, contou viga.
O momento especial para os moradores teve uma roda de conversa sobre diferentes assuntos como as necessidades do povo e fortalecer suas raízes e os saberes da comunidade.
“Nós, povos indígenas, vivemos para cuidar a nossa natureza. E um espaço que nem esse, ele vem trazer todo esse fortalecimento de manter a nossa cultura, o nosso costume e o cuidado com o meio que nós temos aqui. Nós, povos indígenas, vivemos no lugar desse, onde é um lugar que nós não desejamos ir para a cidade. Nós continuamos aqui. É por isso que nós tanto trabalhamos também com a valorização da cultura e com a produção do nosso artesanato. Nós fortalecer a nossa educação, a nossa saúde, a sustitabilidade e manter nós vivendo aqui. É isso que nós fazemos”, afirmou o professor Raimundo Kambeba.
O esporte também teve espaço, com a participação de atletas indígenas da canoagem, que já foram campeões regionais e representaram o Amazonas em competições nacionais.
Outro momento que marcou a abertura do espaço, foi o lançamento do livro chamado “Curas da Terra”, escrito por Baba Kambeba, matriarca da comunidade, que não pôde estar presente por questões de saúde.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Durante a 310ª reunião ordinária do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam), realizada na quinta-feira, 31, no auditório do SESI, Distrito Industrial, o secretário Serafim Corrêa, do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), fez breve balanço das ações do governo e da iniciativa privada no enfrentamento das severas consequências da estiagem que se abate sobre a região, que superou 2023, até então a maior da história. Na oportunidade, ele destacou a brilhante ideia dos dois portos privados de Manaus – Super Terminais e Chibatão- consubstanciada na construção e operação em caráter emergencial de dois píeres flutuantes, que funcionaram como balsas para carregar contêineres dos grandes cargueiros de calados incompatíveis com a profundidade do rio durante este período.
A ideia funcionou perfeitamente e, graças a iniciativa, bem como às medidas do Executivo amazonense de flexibilização de prazos de recolhimento de tributos e coordenação de ações preventivas, segundo Corrêa, as perdas do governo, indústria e comércio foram significativamente menores em relação às de 2023. Na oportunidade receberam placas de homenagem do governo do Estado o diretor Marcello Di Gregório, do Super Terminais, e o diretor-executivo geral do Grupo Chibatão, Jhony Fidelis.
De acordo com sumário apresentado na ocasião pelo secretário executivo de Desenvolvimento Econômico, economista Gustavo Adolfo Igrejas Filgueiras, durante a 310ª reunião ordinária do CODAM, foram aprovados 56 projetos industriais com projeção de investimentos da ordem de R$ 1,3 bilhão e a geração de novos 1,6 mil postos de trabalho que deverão produzir impactos positivos na economia estadual, impulsionando o crescimento do Polo Industrial de Manaus (PIM), cujo faturamento total este ano deverá ultrapassar US$ 40 bilhões, o segundo maior da história, só perdendo para 2011, ano em que ultrapassou US$ 41 bilhões.
Durante a reunião do CODAM, a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) apresentou um balanço do desempenho econômico-financeiro e tecnológico do setor e patrocinou uma exposição especial dos produtos fabricados pelo Polo Industrial de Manaus, na qual estão mostrados resultados expressivos no setor. Para o presidente da Eletros, José Jorge Nascimento Jr., de janeiro a setembro deste ano as vendas do setor cresceram 29% em relação ao mesmo período do ano anterior, ressaltando o impacto positivo do setor na economia local. O setor mantém o forte ritmo de crescimento registrado ao longo do ano, impulsionado pela alta demanda por produtos fabricados na ZFM. A expectativa, segundo José Jorge Jr., é de que o ano de 2024 encerre-se com o melhor resultado verificado nos últimos 5 anos. A Eletros reúne e representa as maiores e mais importantes indústrias nacionais de eletrodomésticos e eletroeletrônicos do país. Criada em 1994, congrega 35 empresas de alto porte tecnológico espalhadas pelo país, salientou.
Os números do setor são impressionantes: Ar-condicionado – com produção 100% concentrada na região amazônica, o Brasil se tornou o segundo maior polo produtor de ar-condicionado do mundo, graças ao modelo aqui desenvolvido, que vem atraindo o interesse das principais fabricantes globais do segmento. O segmento cresceu 52% em janeiro- setembro deste ano. Em 2024 a produção atingiu a marca de 4,3 milhões de unidades, ante 2,8 milhões fabricados no mesmo período do ano anterior. Com produção integralmente em Manaus, a Linha Marrom — que inclui produção de TVs e equipamentos de áudio — cresceu 17% entre janeiro e setembro de 2024, com a comercialização de 9,6 milhões de unidades, contra 8,1 milhões registradas no ano passado. No setor de tecnologia da informação, também conhecidos como TIC, produzidos integralmente na ZFM, cresceram 10% no período, com a venda de 1,5 milhão de produtos, ante 1,4 milhão em 2023.
Para o titular da Sedecti, Serafim Corrêa, o setor eletroeletrônico, um dos pilares da economia da Zona Franca de Manaus, mantém-se em constante crescimento buscando ajustar-se ao padrão tecnológico mundial por meio de investimentos em inovação , que traz inovação e investimentos significativos para a região, impulsionando a criação de empregos e a qualificação da mão de obra local. Além do mais, Corrêa destaca que o Brasil, “um dos poucos países do mundo autossuficientes na produção de eletroeletrônicos, a Zona Franca de Manaus contribui com 70% da produção global do setor.Não por acaso, o setor responde pelo segundo maior faturamento do Polo Industrial de Manaus, alcançando a marca de 32,5 bilhões em 2023”.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Imagens de satélite evidenciam garimpos na bacia do Uraricoera, na Terra Yanomami. Foto: ESRI. Adaptado usando QGIS.
Sete rios na Terra indígena Yanomami e três afluentes delesestão contaminados por mercúrio e têm peixes com alto índice de contaminação. É o que aponta uma projeção da WWF-Brasil, organização não governamental voltada para a preservação do meio ambiente, divulgada nessa quarta-feira (30).
Os rios são Parima, Uraricaá, Amajari, Apiaú, Uraricoera, Mucajaí e o Couto de Magalhães. As afluentes são Auaris, Trairão e Ereu, na bacia do rio Uraricoera.
Eles ficam próximos de áreas de garimpo ilegal, onde os invasores usam o metal durante a extração de minérios. A bacia do Uraricoera é a via fluvial mais usada pelos garimpeiros para entrar na Terra Yanomami, e o rio Mucajaí, um dos mais afetados pela atividade ilegal no território.
O estudo da WWF-Brasil usa um modelo baseado na probabilidade, desenvolvido pela Agência Ambiental Americana (U.S. Environmental Protection Agency – USEPA), para projetar a distribuição e bioacumulação de mercúrio em grandes bacias amazônicas a partir do destino ambiental do mercúrio.
A concentração do metal foi analisada com base nos dados do Observatório do Mercúrio, uma plataforma desenvolvida pelo WWF-Brasil em parceria com outras instituições.
“Um dos grandes desafios de se estudar a Amazônia é a escassez de dados amostrais. O estudo de modelagem ajuda a enfrentar esse desafio, contribuindo com o entendimento da dinâmica do mercúrio em um bioma tão complexo e sensível através de outras fontes de informação”, explica Vitor Domingues, analista ambiental e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo.
Usado por garimpeiros para separar o ouro de outros sedimentos e, assim, deixá-lo “limpo”, o mercúrio é um metal altamente tóxico ao ser humano. Após ser usado, ele é depositado nos rios — processo que passa pela evaporação do material e circulação na atmosfera, causando poluição ambiental. Além disso, entra na cadeia alimentar dos animais e afeta diretamente a saúde da população, principalmente os povos tradicionais.
O estudo apontou que o rio Uraricoera e o Mucajaíapresentam um maior potencial de bioacumulação de mercúrio em peixes, com valores acima de 0,31 microgramas por grama (μg/g) para peixes não-piscívoros (que comem alimentos de origem vegetal) e 1,79 μg/g para piscívoros, que se alimentam exclusivamente de outros peixes — os valores estão acima do limite aceitável de 0,5 µg/g, estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os rios Parima, Uraricaá e Amajari, e afluentes como Auaris, Trairão e Ereu na bacia do Uraricoera também apresentaram alto potencial de bioacumulação. Na bacia do rio Mucajaí, se destacam o rio Apiaú e o Couto de Magalhães.
Localizada em Roraima e no Amazonas, a Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil em extensão territorial e enfrenta uma crise sanitária e humanitária causada pelas ações do garimpo ilegal. O território abriga 31 mil indígenas, que vivem em 370 comunidades.
Em 2022, um laudo da Polícia Federal sobre contaminação dos rios na Terra Indígena Yanomami revelou que quatro rios da região estavam altamente contaminados por mercúrio, com nível 8600% superior ao estipulado como máximo para águas de consumo humano.
À época foram analisadas amostras das águas correntes dos rios Couto de Magalhães, Catrimani, Parima e Uraricoera, todos próximos a garimpos ilegais.
Em abril de 2024, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Socioambiental (ISA) também apontaram que em 9 comunidades Yanomami, 94% dos indígenas têm alto nível de contaminação pelo metal. As comunidades que participaram da pesquisa ficam às margens do rio Mucajaí.
Ciclo de contaminação do mercúrio
Mercúrio é usado em garimpos ilegais. Foto: Divulgação/Arquivo Ipen
O ciclo de contaminação do mercúrio começa com o processo de amalgamação, técnica que faz com o ouro e o mercúrio se fundam em uma liga metálica para que o metal precioso possa ser extraído “limpo”.
Depois, a liga é aquecida, fazendo com que o mercúrio evapore e passe a circular na atmosfera. Segundo o estudo, a maior parte do mercúrio gasoso é “guardada” nas árvores próximas ao garimpo e depois depositada no solo.
Na análise dos pesquisadores, a maior parte do mercúrio que chega aos rios é absorvido nas partículas do solo. O desmatamento de árvores, por exemplo, acelera o processo de erosão e, consequentemente, a deposição de metal tóxico nos rios.
“Esse solo vai ser transportado até os rios em processos erosivos que podem ser naturais ou podem ser inclusive agravados por atividades antrópicas, como desmatamento ou queimadas. Esse solo é carreado até os cursos hídricos e neles essas partículas de solo, esses sedimentos, são transportados por longas distâncias, podendo parar inclusive no oceano”, explica Vitor
Com pouco oxigênio e altas concentrações de matéria orgânica, o mercúrio particulado se transforma em metilmercúrio. É nesta forma que ele é capaz de se acumular na cadeia alimentar, especialmente em peixes “canibais”. Esses peixes são consumidos pelas populações locais, que podem adoecer.
Recomendações
A ideia do estudo é fornecer as bases científicas necessárias para planejar e implementar políticas públicas eficazes e adequadas às realidades locais das regiões afetadas pela contaminação do metal. Ele recomenda como necessária:
A implementação de um programa de monitoramento amplo, adaptado às condições das diferentes sub-regiões. O sistema deve priorizar áreas mais vulneráveis e buscar produzir informações que aprimorem o planejamento de maneira iterativa. A colaboração com comunidades e parceiros locais é chave para alcançar resultados contínuos e abrangentes;
O aprimoramento da legislação brasileira, substituindo os limites fixos atualmente estabelecidos por parâmetros baseados em análise de risco que considerem o alto consumo de peixe na região;
O estabelecimento de um conselho alimentar ativo e dinâmico, capaz de fornecer diretrizes claras para as populações locais acerca do consumo de peixe. As orientações devem considerar as diferentes espécies e sua frequência de ingestão, respeitando sempre as características socioeconômicas de cada comunidade;
A implementação de um sistema padronizado de informações e a complementação das bases de dados existentes, como o Observatório do Mercúrio, para apoiar o planejamento governamental e guiar a tomada de decisões.
Terra Yanomami
Com 9,6 milhões de hectares, a Terra Yanomami é considerada o maior território indígena do Brasil em extensão territorial e enfrenta uma crise sem precedentes, com casos graves de indígenas com malária e desnutrição severa.
O território é alvo do garimpo ilegal há décadas, mas a invasão se intensificou nos últimos anos. A atividade impacta diretamente o modo de vida dos povos originários, isto porque a invasão destrói o meio ambiente, causa violência, conflitos armados e poluição dos rios devido ao uso do mercúrio.
Em janeiro do ano passado, o governo federal começou a criar ações para enfrentar a crise, com o envio de profissionais de saúde, cestas básicas e materiais para auxiliar os Yanomami. Além disso, forças de segurança foram enviadas para a região para frear a atuação de garimpeiros no território.
Mesmo com o enfrentamento, um ano após o governo decretar emergência, o garimpo ilegal e a crise humanitária permanecem na região.
Em março, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) estimou que cerca de sete mil garimpeiros ilegais continuam em atividade no território. O número de invasores diminuiu 65% em um ano, se comparado ao início das operações do governo federal, quando havia 20 mil invasores no território.
*Por Yara Ramalho e Alessandro Leitão, da Rede Amazônica RR
Carlos Afonso Januário de Souza chegou à Funbesa aos 11 anos e hoje é o artesão-mestre do local. Foto: Yuri Marcel/g1Acre
Mãos habilidosas moldam o barro e com movimentos certeiros dão forma e vida a ele. A precisão é resultado de uma vida inteira dedicada a um ofício com aproximadamente dez mil anos de história.
Carlos Afonso Januário de Souza, 53 anos, é atualmente o artesão-mestre da Casa do Ceramista Funbesa, em Rio Branco. Quando ele chegou ao local, porém, era apenas uma criança.
“Eu vim para cá com 11 anos de idade. Antigamente aqui tinha de tudo, colônia de férias, área de lazer, tinha a parte de cursos e quando eu completei 12 anos comecei a fazer o curso de cerâmica e nunca mais parei”, conta.
Fundação de Bem Estar Social
Instalada em 1968, no bairro Estação Experimental, uma região histórica da capital acreana que renderia muitos contos à parte, a Fundação do Bem Estar Social (Funbesa) recebia originalmente menores infratores, internos da Fundação para o Bem Estar do Menor (Febem) em projetos de reabilitação e aprendizagem profissional.
O local era gerido pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) um órgão assistencial ligado ao Ministério do Trabalho e Previdência Social, entre 1969 e 1977, e depois ao Ministério da Previdência Social, de 77 até 1990.
Com o passar dos anos, a Funbesa ampliou sua base de assistência social e passou a atender também famílias em situação de vulnerabilidade social em projetos que incluíam oficinas de artesanato, corte e costura, panificação, cabeleireiro, esportes e outros.
O ícone botafoguense e da Seleção Brasileira, Mané Garrincha, foi um dos atletas que chegaram a vir ao Acre para jogar na Funbesa em um evento promovido pela LBA.
E foi nesse contexto que Souza chegou à Funbesa em 1981. “Esse local acolhia muitas pessoas carentes, como era o caso da minha mãe, que trouxe a gente pra cá. E a gente foi ficando”, lembra.
O jogador Garrincha chegou a participar de evento na Funbesa. Foto: Reprodução
Com o passar dos anos, os antigos instrutores foram se aposentando e o governo acabou contratando os antigos alunos para assumir os cursos.
Apesar de ainda existir oficialmente até hoje. Desde meados da década de 90, a Funbesa passou a ter suas funções incorporadas por outras secretarias, como a de Assistência Social. No começo dos anos 2000, o coletivo de artesãos passou a atuar de forma independente. A procura pelos cursos da instituição, todavia, continuava.
“Tinha uma demanda grande de pessoas carentes, de bairros adjacentes e outros, procurando os cursos. Foi quando os artesãos tiveram a ideia de ajudar a viabilizar novos cursos”, conta Ana Cleide da Silva Paiva que é responsável por administrar o setor de artesanato da Funbesa há mais de 20 anos.
Ana Cleide trabalha com os artesãos da Funbesa há mais de 20 anos. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre
O governo do Estado logo concordou com a ideia e os cursos foram retomados.
“Eu fui até acusada, na época, de separar casamentos. Porque tinham muitas mulheres que apanhavam dos maridos, passavam por mil e uma situações e chegavam aqui contando as histórias e eu dizia pra elas fazerem os cursos e ganharem o próprio dinheiro”, lembra.
Foto: Reprodução/Acervo Funbesa
De estudante a mestre
Embora eles não tenham certeza dos números, acreditam que mais de uma centena de pessoas tenham sido formadas nos cursos da Funbesa. Incluindo aí artesãos, que assim como os vasos de cerâmica, Afonso também ajudou a criar.
“Aqui em Rio Branco e nos municípios todos do Acre quem dava curso de cerâmica era eu”, afirma orgulhoso.
Parcerias foram feitas com prefeituras de Cruzeiro do Sul, Brasiléia, Sena Madureira e Feijó e galpões chegaram a ser construídos nessas cidades para formar novos artesãos.
Parte desses projetos, entretanto, acabaram não indo adiante para tristeza do artesão.
“Eu não quero prender isso pra mim. Eu quero ensinar, quem quiser eu ensino”, disse.
Carlos Gabriel, filho do artesão-mestre, quer seguir os passos do pai. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre
Legado em casa
O legado do mestre, porém, está salvo dentro de casa. O filho dele, Carlos Gabriel, de 23 anos, que assim como o pai começou a frequentar a oficina de cerâmica desde a infância, agora trabalha junto com ele.
“Eu venho pra cá desde os oito anos. No começo era só para brincar, fazer bolas, bolinhas de cerâmica. Aí fui continuando, pegando gosto”, conta.
Ele sabe, no entanto, que tem um longo caminho pela frente para alcançar o nível de precisão do pai.
“Eu ainda tô na fase de desenvolvimento. É meio difícil, porque tem que ter a prática na mão. Tem que ter a mão leve. O cara se sente realizado quando uma peça dá certo, mas tem que ir praticando até uma hora conseguir”, diz ele, que espera um dia virar artesão-mestre como Souza.
Artesãos fabricam cerâmica na Funbesa há mais de 40 anos. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre
Produção
Apesar dos avanços tecnológicos, o processo de produção de objetos de cerâmica não mudou muito desde o período Neolítico. Assim como faziam os artesão da Mesopotâmia, onde estão os registros arqueológicos mais antigos do uso do material, os artesãos da atualidade ainda dependem da argila, do fogo e da própria habilidade e criatividade.
O material que os artesãos usam na Funbesa é coletado na região do Barro Alto, também em Rio Branco. Depois de separado e amassado, a argila precisa descansar por ao menos uma semana e o processo todo até o produto ser finalizado leva ao menos duas semanas.
“Mas tem artesão que faz até 100 peças por dia, dependendo do tamanho delas”, explica.
Mas a produção também tem desafios. Durante a seca histórica de 2024, os artesãos perderam parte da produção, já que o tempo seco prejudicava a secagem da peças. “Eles tinham que jogar água no chão da oficina para manter a umidade. Às vezes, de 50 peças se salvavam 20, porque secavam de forma errada e se quebravam”, explica Ana Cleide.
Na oficina são fabricados vasos, utensílios domésticos, pratos e até mesmo lembranças para festas de aniversário.
Ana Cleide ressalta ainda que toda a produção é sustentável, já que toda a madeira para a fornalha é reciclada. Além disso, o forno, construído de forma especial, libera poucos gases poluentes na atmosfera. “Um fiscal do Instituto de Meio Ambiente já veio aqui checar e emitiu um laudo comprovando que não há poluição”, salientou.
E as peças que podem custar de R$ 8 a até mais de R$ 100, dependendo da complexidade, ganharam o mundo.
Como o espaço é administrado pelo governo do Acre tem espaço cativo nos eventos produzidos por ele. Além disso, o material e os expositores são sempre incentivados a participar de feiras de artesanato Brasil afora.
“Meu serviço já me levou em muitos cantos. Já tive em Vitória, em Brasília e em um bocado de locais através da cerâmica”, enfatiza.
Construídas de forma especial, chaminés da oficina são menos poluentes. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre
As peças produzidas por Carlos Afonso já atravessaram até o mesmo continentes. “Tem material meu que está no Japão. Eu acho legal, mas não me sobe muito a cabeça isso não” conta ele.
Todo o lucro obtido pela venda das peças produzidas é dividido entre os artesãos. Segundo o mestre, em média cada um deles consegue receber até um salário mínimo e meio.
“A gente não pode deixar de dar essa ênfase para o Estado porque estamos aqui nesse espaço. Os artesãos têm total sustentabilidade para sobreviver desse material e 100% das vendas é repassado para eles”, enfatiza.
Atualmente sete artesãos trabalham no local de forma fixa e sustentam as famílias com o ofício. Há ainda outros que atuam no local de forma esporádica.
E o artesão-mestre é enfático quando questionado se gostaria de ter outra carreira. “Eu gosto mesmo. Não tem outra profissão, eu escolhi essa”, finalizou.
Sete famílias vivem da renda do artesanato produzido na Funbesa atualmente. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre
O aumento das temperaturas globais torna nosso planeta cada vez mais inabitável e está perturbando processos vitais nos oceanos, levando a Amazônia ao limite de um colapso em grande escala e colocando em risco uma geração ainda não nascida, aumentando as chances de complicações na gravidez e até mesmo de perdas. Essa é uma das conclusões do relatório anual ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançado no dia 28 de outubro pela The Earth League, um consórcio internacional de cientistas e especialistas em clima.
O trabalho revela o impacto avassalador das mudanças climáticas, que podem reverter décadas de progresso em saúde materna e reprodutiva, contribuir para eventos de El Niño mais extremos e causadores de prejuízo, além de ameaçar a Amazônia, um dos mais importantes sumidouros naturais de carbono, juntamente com outros sete insights climáticos cruciais.
O relatório abrange uma gama de pesquisas climáticas e foi elaborado para subsidiar os formuladores de políticas com o conhecimento mais recente disponível. As informações científicas foram sintetizadas para destacar as implicações políticas que podem orientar as negociações na COP29, que ocorre em novembro, no Azerbaijão, e direcionar as políticas nacionais e internacionais.
“O relatório confirma que o mundo enfrenta desafios em escala planetária, desde o aumento das emissões de metano até a vulnerabilidade de infraestruturas críticas. Ele mostra que o aumento do calor, a instabilidade dos oceanos e a possível virada da Amazônia podem empurrar partes do nosso planeta além dos limites habitáveis. No entanto, também oferece caminhos claros e soluções, demonstrando que, com ação urgente e decisiva, ainda podemos evitar resultados incontroláveis”, diz Johan Rockström, co-presidente da The Earth League e diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, na Alemanha.
“O relatório revela o alcance dos impactos da mudança do clima em diferentes sistemas ecológicos, econômicos e sociais. Com menos ambientes habitáveis, a migração de populações pode se intensificar. Também existe um impacto importante na saúde materna, que pode perdurar por gerações”, afirma Mercedes Bustamante, professora da UnB (Universidade de Brasília) e membro do conselho editorial da publicação.
Segundo ela, no Brasil, há uma articulação entre as ações do país para reduzir o desmatamento e a degradação da Amazônia e as iniciativas internacionais para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, que afetam o bioma de forma sinérgica. Apesar dos desafios globais em intensificação, ela ressaltou que há um conjunto de políticas e soluções que podem ser implementadas para enfrentar as mudanças climáticas de maneira eficaz. Diante das ameaças à saúde materna, essas soluções integram, por exemplo, ações de equidade de gênero e justiça climática.
O relatório também destaca dois grandes desafios para o mundo natural. O aquecimento dos oceanos persiste e os recordes de temperatura da superfície do mar continuam a ser quebrados, levando a eventos de El Niño mais severos do que se compreendia anteriormente. Segundo o relatório, as perdas econômicas globais adicionais projetadas devido ao aumento na frequência e intensidade do El Niño, resultante do aquecimento global, podem chegar a quase 100 trilhões de dólares ao longo do século 21.
A série ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançada com a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) nas COPs desde 2017, é uma iniciativa colaborativa da Future Earth, da The Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, sintetizando os principais desenvolvimentos recentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. O relatório deste ano representa o esforço coletivo de mais de 80 pesquisadores de destaque, provenientes de 45 países.
Veja os 10 insights:
Metano: Desde 2006, os níveis de metano aumentaram drasticamente. Já existem soluções econômicas, mas políticas rigorosas são necessárias para reduzir suas emissões nos setores de combustíveis fósseis, resíduos e agricultura. Poluição do ar: A redução da poluição atmosférica melhora a saúde pública, mas afeta o clima de forma complexa, exigindo que as estratégias de mitigação e adaptação levem isso em consideração. Calor extremo: Temperaturas e níveis de umidade crescentes estão tornando partes do planeta inabitáveis. Planos de ação contra o calor precisam priorizar os grupos mais vulneráveis. Saúde materna e reprodutiva: Extremos climáticos estão prejudicando a saúde materna, ameaçando décadas de progresso. Soluções precisam integrar equidade de gênero e justiça climática. Mudanças nos oceanos: O aquecimento dos oceanos agrava eventos de El Niño e ameaça a estabilidade de sistemas marinhos, podendo causar perdas econômicas globais massivas. Resiliência da Amazônia: A diversidade biocultural ajuda a Amazônia a resistir às mudanças climáticas, mas essas ações locais precisam ser complementadas por reduções globais de emissões. Infraestruturas críticas: Infraestruturas estão cada vez mais vulneráveis a desastres climáticos. Ferramentas de IA podem ajudar a torná-las mais resilientes. Desenvolvimento urbano: Poucas cidades integram mitigação e adaptação em seus planos climáticos. Uma abordagem que combine fatores sociais, ecológicos e tecnológicos pode ajudar no desenvolvimento resiliente. Minerais de transição energética: A demanda por minerais de transição está aumentando, assim como os riscos na cadeia de suprimentos. Melhor governança é essencial para uma transição justa. Justiça climática: A aceitação pública das políticas climáticas depende de sua percepção de justiça. A exclusão dos cidadãos no processo de formulação pode gerar resistência.
Já circula pelos corredores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) o protótipo de carro elétrico desenvolvido pelo projeto de extensão OHMEGA, vinculado ao departamento de Engenharia Elétrica, vinculado a Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologia (FAET), que tem como principal finalidade promover a eletromobilidade na região com o desenvolvimento do protótipo como seu principal foco.
Na parte elétrica o dimensionamento ocorreu por meio de um alternador doado por um professor do curso de engenharia elétrica, mas que passou por modificações internas para funcionar como um motor.
O desenvolvimento do protótipo foi realizado por discentes em sua maioria do curso de Engenharia Elétrica sob a orientação da docente Camila Fantin e de outros professores do curso que ajudaram nas decisões.
O principal obstáculo no início foi financeiro, com a realização através da doação de uma metalúrgica, de um professor e de rifas promovida pelos envolvidos para arcar as despesas.
Fantin destaca a importância de projetos como este na Engenharia Elétrica:
“A preservação ambiental é uma preocupação global, a eletromobilidade está se tornando cada vez mais comum em nosso cotidiano, é fundamental que nossos estudantes tenham contato direto com essa tecnologia”.
Segundo Fantin, o projeto serve como plataforma de aprendizado aos estudantes. A professora explica que“o projeto tem o plano de continuar aprimorando o protótipo com a meta de torná-lo competitivo na Fórmula SAE Brasil (competição voltada para os estudantes de Engenharia).
No norte de Mato Grosso a agricultura familiar e a agroecologia movem o trabalho de professores alunos que atuam no Projeto Gaia que é iniciativa de vários órgãos públicos e privados. O projeto iniciou no ano de 2019 com o propósito de realizar ações para o consumo, produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos voltados para a agricultura familiar em locais urbanos e periféricos da cidade de Sinop no Mato Grosso.
O Gaia é um projeto de extensão no Instituto de Ciências Naturais, Humanas e Sociais (ICHS), que além do desenvolvimento do projeto pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), tem a Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-MT). A Escola Técnica Estadual de Sinop (ETE) apoia o desenvolvimento do projeto, coordenado pela professora, Rafaella Teles Arantes Felipe, do ICNHS.
É premissa do projeto levar comida saudável para as pessoas, deste modo o Gaia busca oferecer a produção de alimentos de forma sustentável e assim criando uma rede de cooperação para a produção dos alimentos e principalmente a melhoria da alimentação no campo e na cidade. “Um dos seus objetivos é colaborar na disseminação das práticas agroecológicas junto à comunidade interna e externa da UFMT, como alternativa para a redução das desigualdades sociais, para produção de alimentos saudáveis e melhoria da saúde e da qualidade de vida no campo e na cidade”, enfatizou a professora.
Dentro do campus da UFMT em Sinop, o projeto está presente na grade acadêmica o Gaia é vinculado ao ensino na disciplina optativa de Agroecologia. No que se refere às outras áreas que o projeto atua, se destaca a Unidade de Aprendizagem em Sistema Agroflorestal e Agroecológico. “Essa área visa atuar com acadêmicos e a comunidade externa, com atividades práticas de manejo, de plantio e produção de bio-insumos”, explica Rafaella Felipe.
Projeto atua no apoio a agroflorestas com planejamento participativo
Existe outra área de atuação do projeto que é Unidade de Referências Tecnológica em Sistema Agroflorestal. “Nessa unidade é desenvolvido o projeto de pesquisa, um projeto multidisciplinar com vários professores que estão envolvidos com atividades de análises de solo, irrigação e também parte de pós-colheita, essa é a parte que trabalhamos com os três critérios com ensino, pesquisa e extensão”, ressalta a professora .Atualmente são atendidas 13 famílias pelo projeto. Os agricultores são atendidos fora da UFMT.
“Todas elas possuem a declaração de produtores orgânicos, então nós implantamos unidades sistema de agrofloresta nessas locais e cadastramos eles no Ministério da Agricultura, como produtores orgânicos”, explicou a professora.
Além das famílias assistidas em Sinop existe um assentamento em Cláudia-MT, na cidade de Cláudia são atendidas 6 famílias.
Para a preparação dos plantios primeiramente é realizado um planejamento participativo. De acordo com a coordenadora do projeto “a partir desse planejamento é feito um levantamento e ver como é a cultura da família, a rotina e o que ela gostaria de produzir, então é feito um modelo de sistema agroflorestal para aquela família e depois realizamos a análise de solo, se necessário fazemos a correção com calagem (atividade para diminuir a acidez do solo e melhorar o desenvolvimento da planta) e os insumos usados nos plantios são apenas os liberados para agricultura orgânica”.
Os agricultores além de produzir para o sustento, também vendem uma parte da produção. A professora explica que “a agroecologia não vive sem a parte financeira e que é necessário desmitificar isso, a produção é comercializada em feiras e para a merenda escolar, através da política pública do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)”.
Ela ainda enfatizou que “o esforço do Gaia foi de sempre fortalecer a comercialização desses produtos para que as famílias tenham uma renda digna”.
O projeto tinha apoio do Programa REM-MT, como ação do governo da Alemanha e do Reino Unido, com intermédio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), para o estado do Mato Grosso devido à redução de desmatamento no estado. Segundo Rafaella Felipe, “o apoio financeiro do REM-MT iniciou em novembro de 2020 e encerrou em novembro de 2023 e o aporte financeiro ao Gaia foi de R$1,5 milhões”. “Atualmente o projeto tem apoio de uma emenda federal da ex-deputada federal, Rosa Neide (PT), explicou a professora”.
Algumas atividades realizadas pelo Projeto Gaia desde 2019
O portfólio do projeto Gaia de 2019, 2020 e 2021 aponta atividades do projeto como o atendimento a agricultores familiares, urbanos e periurbanos; fortalecimento da Rede de Cooperação para a produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis através de novas parcerias de âmbito regional. O projeto também atua no auxílio na implantação e manutenção de hortas escolares; atividades educacionais com foco na sensibilização de crianças, jovens e adultos sobre a importância da alimentação saudável; formação de acadêmicos como multiplicadores das práticas sustentáveis de produção de alimentos.
Também está no rol de atividades do projeto a implantação de um Sistema Agroflorestal na UFMT, Campus de Sinop, para capacitação de acadêmicos, agricultores e da comunidade em geral; Atendimentos na área de agricultura de base agroecológica junto às famílias agricultoras (rurais, periurbanas e urbanas) e a sensibilização dos consumidores sobre a importância da alimentação saudável e de produção local. O Gaia atua ainda no fortalecimento da Rede de Cooperação para a produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis através de novas parcerias de âmbito regional; auxílio na implantação e manutenção de hortas escolares e da primeira Horta Comunitária de Sinop; entre outras atividades.
Sobre a mudança de vida das pessoas com relação ao projeto, a professora indicou o vídeo, Projeto Gaia – Pela perspectiva dos camponeses e das camponesas. Para ela, essa perspectiva mostra o quanto o Gaia pode ter mudado a vida com a agroecologia.
Projeto Gaia – Pela perspectiva dos camponeses e das camponesas:
Durante participação na 16ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP 16), em Cali, Colômbia, a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) apresentou dados que comprovam o papel dos territórios dessas populações tradicionais na conservação da diversidade biológica da Amazônia.
De acordo com eles, de 2003 a 2022 os quilombos perderam apenas 1,4% de florestas, ou 82% a menos que o entorno, segundo análise do Instituto Socioambiental (ISA). A conservação e a regeneração da vegetação nativa nessas áreas também são maiores do que nas áreas privadas.
Atualmente existem 112 territórios quilombolas que estão localizados em áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Clique aqui e baixe o material produzido pelo ISA em parceria com a Conaq
Foto: Reprodução/ISA
Os dados foram apresentados na mesa de debates “Territórios Quilombolas na Defesa da Vida e da Biodiversidade na Amazônia”, no dia 21, que também contou com a participação do ISA e do Processo de Comunidades Negras da Colômbia (PCN). O evento aconteceu na chamada “Zona Verde” da COP, onde ocorreram atividades paralelas da sociedade civil.
“A Amazônia tem floresta, mas a Amazônia é a Amazônia porque lá resistem e sobrevivem populações tradicionais que cuidam, que têm compromisso com a biodiversidade”, afirmou Valéria Carneiro, integrante da diretoria da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu) e da coordenação da Conaq.
Para ela, o espaço da COP 16 é essencial para expor as agressões ao bioma e aos seus povos tradicionais.
“Eu venho de uma região que está sendo engolida pelo agronegócio e chegar até aqui também é um momento oportuno de trazer os desafios que nós, quilombolas da Amazônia, vivenciamos lá”, apontou. Carneiro é do território quilombola de Pau Furado, na Ilha do Marajó (PA).
Titulação garante mais proteção
Ainda de acordo com a análise do ISA, a regularização fundiária é essencial para garantir a preservação dos territórios quilombolas e da biodiversidade na Amazônia. As áreas tituladas, ou seja, com a regularização concluída, apresentaram 12% de carbono florestal a mais do que as não tituladas.
No entanto, dos 506 territórios quilombolas com limites oficialmente reconhecidos em toda a Amazônia brasileira, apenas 116 estão titulados e 390 estão em alguma das fases anteriores à titulação. Os dados são do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar).
(E-D) Kátia Penha, da coordenação da Conaq; Raquel Pasinato, do ISA; e Valéria Carneiro, da coordenação da Conaq. Foto: Ester Cezar/ISA
“Os territórios quilombolas não titulados ainda são a maioria no Brasil e isso representa uma ameaça à conservação da biodiversidade. Quando as áreas dos nossos biomas são protegidas pelo manejo tradicional que as comunidades quilombolas fazem, as florestas, os manguezais, as restingas, matas ciliares, a fauna, toda biodiversidade ganha proteção e cuidado”, comentou Raquel Pasinato, assessora técnica do ISA, durante a COP 16.
“Se as comunidades ainda não têm o domínio fundiário dos territórios, eles ficam ameaçados pelo agronegócio, exploração minerária, pecuária extensiva e tantos outros usos que ameaçam a biodiversidade, exaurindo os recursos naturais e trazendo impactos socioambientais para nossa sociobiodiversidade. Por isso, titular é proteger!”, enfatizou.
Quilombos ainda são invisíveis
Os territórios quilombolas titulados somam 8,9 mil km², o que representa apenas 30% dos 28 mil km² desse tipo de área protegida já oficialmente identificado na Amazônia brasileira ‒ 1 km² é igual a mais ou menos 100 campos de futebol. Para se ter uma ideia, os quilombos oficialmente identificados representam apenas 0,4% dessa região, que soma cerca de 5 milhões km².
É preciso ressalvar ainda que 79% desses territórios não tiveram limites reconhecidos oficialmente na Amazônia brasileira, ou seja, permanecem invisíveis nas bases de dados oficiais e, logo, impedidos de se beneficiar com políticas públicas e ainda mais vulneráveis a pressões e ameaças, como o desmatamento ilegal e o roubo de terras.
“Não existe população quilombola sem território, sem biodiversidade”, afirmou Fran Paula, quilombola do Pantanal de Mato Grosso, integrante do coletivo de Meio Ambiente e Agricultura da Conaq e pesquisadora em agrobiodiversidade.
“É muito importante a gente traçar estratégias desde o nível local, de proteção das nossas florestas, águas, dos nossos sistemas alimentares tradicionais, que são únicos no planeta, até estratégias globais, como a participação nessa COP”, complementou.
Fran destacou que o reconhecimento dos povos quilombolas para a conservação da biodiversidade “não é só como sujeitos de direitos, mas da nossa trajetória de luta, de resistência, de organização social. Há muito processo de articulação e mobilização de todos nós que estamos aqui, mas também de todas as pessoas que vieram antes da gente e que lutaram, inclusive, para que a gente pudesse estar hoje ocupando esse espaço na COP16”, finalizou.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ISA, escrito por Ester Cezar