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Amazonas: carências e vulnerabilidade de ontem e de hoje

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Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

“O Amazonas enfrenta grandes desafios a partir da necessidade de criação de uma estrutura nos municípios que faça com que quem lá habite tenha orgulho de estar lá, quem esteja lá não sinta a necessidade de migrar para a capital do Estado a fim de poder oferecer a seus filhos ensino médio de qualidade moldado na inclusão digital, infraestrutura de conectividade que, acima de tudo, aproxima as pessoas, muda a realidade e proporciona bem estar. Imagine-se se tivéssemos uma estrutura de conectividade de excelência, em que o cidadão pudesse ter acesso expedito a serviços de telessaúde; em que um adolescente, cursando, no interior, o ensino médio que lhe permitisse acesso a módulos de preparação para o sistema de avaliação da Universidade Estadual ou Federal. Certamente, em tais circunstâncias, o êxodo rural em direção a Manaus não teria a expressão demográfica de hoje, resultando na superpopulação da cidade a pressionar serviços de educação, saúde pública, saneamento básico, infraestrutura viária, transporte, etc”.

Estas preocupações foram manifestadas pelo vice-governador do Amazonas, Tadeu de Souza, em entrevista recente à rádio BandNews, quando esboçou realístico quadro conjuntural político, social e econômico do Estado. Para ele, o grande desafio da classe política é fazer com que haja uma estrutura mínima no interior do Estado, observando: “não se vive sem o arranjo econômico industrial criado há mais de cinco décadas (a Zona Franca de Manaus), que ora demanda diversificação por meio de outros veios, de alternativas complementares e integrantes voltadas ao fortalecimento do interior e da própria economia do Estado”. Se o Amazonas tivesse em operação o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), por exemplo, na região do Purus e do Madeira, certamente conseguiríamos diminuir o arco do desmatamento e potencializar as vocações naturais da região por meio de atividades agropecuárias, da piscicultura, da mineração, do turismo ecológico ou do manejo florestal sustentável, ressaltou.

O vice-governador amazonense propõe a definição de regras técnicas a partir da regularização fundiária e da estrutura de fiscalização ambiental que respeite a necessidade de expansão das atividades rurais por meio da legalização das propriedades e de programas de crédito especializado. Enquanto isso, afirma, “devido a essas carências, convivemos com um setor primário bastante limitado dependente de políticas públicas ajustadas à conjuntura que nos ajudaria a sair dessa perplexidade, que é comprar fécula de mandioca do Pará; proteína de peixe de Rondônia e de Roraima ou cheiro verde, numa determinada época vindo do Nordeste”.

Tadeu de Souza observa cotidianamente, por outro lado, “esforço da Secretaria de Meio Ambiente e da Sedecti trabalhando para vencer esses desafios, sem, contudo, contar com espaço fiscal, orçamentário, visto tratar-se de políticas públicas muito dispendiosas”. Enquanto isso, “o Estado consome orçamento com demandas políticas algumas vezes desconectadas da necessidade de melhorar a vida das populações interioranas”. Além do mais, inserida numa realidade latente em todo o país, grave e crescente proliferação de organizações criminosas a contaminar setores estratégicos.

Dos 27 estados da federação, o Amazonas depara-se com uma particularidade importante: faz fronteira com os três únicos países do mundo produtores de drogas, os países andinos, de onde provêm 75% de toda a cocaína e maconha que chega à Europa, à Ásia e aos Estados Unidos por meio das hidrovias amazonenses. Portanto, ressalta, “o arranjo de segurança pública, as forças domésticas, não são suficientes para o efetivo combate do tráfico e assim precisa urgentemente ser socorrido pelo governo Federal por meio de uma estratégia nacional de segurança pública”. Há áreas no Brasil em que o crime nunca antes chegou a dominar, como a área financeira, as fintechs, hoje, porém, seriamente contaminadas por organizações criminosas”, ressalta.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Governo do Peru anuncia criação de área protegida em floresta de Putumayo

Foto: Divulgação/Agência Andina

O Governo peruano emitiu o Decreto Supremo nº 010-2025-MINAM estabelecendo a Área de Conservação Regional (ACR) do Médio Putumayo Algodón, localizada na província de Putumayo, região de Loreto, na Amazônia peruana, no dia 6 de junho. Nesse sentido, o Ministério do Meio Ambiente (MINAM) destacou que a iniciativa foi promovida pelo Governo Regional de Loreto e contou com o apoio técnico do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas (Sernanp), refletindo o trabalho colaborativo entre ambos os níveis de governo.

Com esta designação, Loreto adiciona sua quinta área de conservação regional e, junto com Cusco, consolida sua posição como uma das regiões com maior número de ACRs no país, demonstrando um forte compromisso com a proteção da biodiversidade, do conhecimento ancestral e dos meios de subsistência sustentáveis. O processo foi acompanhado de uma consulta prévia realizada entre junho e outubro de 2023, que envolveu 16 comunidades nativas dos povos Bora, Murui-Muinani, Ocaina, Kichwa, Maijuna, Yagua, Kukama e Secoya.

Leia também: Entenda a diferença entre Amazônia Legal, Internacional e Região Norte

O Ministério do Desenvolvimento Nacional e Meio Ambiente (MINAM) destacou que durante a Etapa de Diálogo, realizada em San Antonio del Estrecho, foram alcançados acordos históricos sobre a delimitação, zoneamento e cogestão da área, estabelecendo a inclusão de representantes indígenas no futuro Comitê Gestor.

ACR Médio Putumayo Algodón

Este ACR protege um extenso mosaico de florestas e também serve como um elo estratégico no Corredor de Conservação do Putumayo, uma paisagem transfronteiriça de mais de 3,5 milhões de hectares que conecta áreas protegidas no Peru, Equador e Colômbia.

Este corredor fortalece a resiliência às mudanças climáticas e garante a mobilidade de espécies emblemáticas como a onça-pintada, a ariranha, o peixe-boi da Amazônia e o gavião-real.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a porcentagem que os países da Amazônia Internacional possuem do bioma?

Foto: Divulgação/Agência Andina

O novo zoneamento respeita as atividades tradicionais das comunidades (pesca, caça de subsistência, coleta e silvicultura), que serão regulamentadas por meio de planos de gestão comunitária e monitoramento participativo, garantindo a sustentabilidade dos recursos. Da mesma forma, abre-se a possibilidade de implementar mecanismos de compensação por serviços ecossistêmicos e projetos de bionegócios, aumentando a renda direta das famílias locais.

Por fim, o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais (MINAM) indicou que, com esta medida, o Peru caminha para atingir a meta 30×30, que busca conservar pelo menos 30% dos ecossistemas terrestres do planeta até 2030. Loreto, mais uma vez, está na vanguarda.

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Números do ACR Medio Putumayo Algodón:

  • Área protegida: 283.594,76 ha (equivalente ao dobro da área da cidade de Lima)
  • Corredor Putumayo: mais de 3,5 milhões de hectares conectados entre Peru, Equador e Colômbia
  • Fauna em destaque: lobo-de-rio, peixe-boi-da-amazônia, onça-pintada, gavião-real
  • Processo participativo: 9 oficinas informativas e 1 encontro de diálogo com 16 comunidades nativas
  • Loreto e Cusco: regiões líderes em áreas de conservação regional no país.

*Com informações da Agência Andina

Amapá, Pará, Tocantins e Mato Grosso tem potencial para pesquisa de espécies em cavernas

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Caverna na Amazônia. Foto: Felipe Borges

Buscando revelar as espécies que compõe a as riquezas subterrâneas do Brasil, pesquisadores desenvolveram um mapa de áreas prioritárias para realização de inventários de morcegos, peixes e invertebrados restritos aos ambientes cavernícolas. A iniciativa faz parte do Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (PAN Cavernas do Brasil) e está relacionada a um outro trabalho, que identificou quais regiões no país possuem potencial para descoberta de novas cavernas.

Entre os estados da Amazônia citados no estudo estão o Pará, o Amapá, o Tocantins e o Mato Grosso.

Leia também: Pará é o segundo estado brasileiro com o maior número de cavernas conhecidas: 3.224

“Neste estudo, foram consideradas as lacunas de inventário biológico, ou seja, as regiões onde a informação sobre a presença de espécies é escassa ou inexistente. Para identificar essas áreas, mapeou-se os locais onde já existem registros e, em seguida, comparou-se esses dados com a área total de estudo e identificamos as regiões que ainda não foram amostradas. Este trabalho partiu de duas fontes de informação principais: as áreas prioritárias para prospecção espeleológica e a lista de espécies ameaçadas contempladas no PAN Cavernas do Brasil”, afirmou o analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas e um dos autores desse projeto, Tiago Silva.

Essa ação também contou com a participação do professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Enrico Bernard, e do professor do Centro de Estudos de Biologia Subterrânea da Universidade Federal de Lavras (UFLA),Rodrigo Lopes Ferreira. Acesse o relatório AQUI.

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Resultados atingidos

Entre as informações, foi identificada uma maior concentração de registros de invertebrados no quadrilátero ferrífero em Minas Gerais, estendendo-se na direção norte, passando pela região do vale do rio Peruaçu, até o sudoeste da Bahia. A região de Carajás, no Pará, o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) e a região de divisa de São Paulo com Paraná são outros núcleos que se sobressaem.

Foto: Diego Bento

Em relação aos peixes, foi identificada maior ocorrência em três núcleos principais: na região central da Bahia, no sudoeste da Bahia e na região do vale do rio Peruaçu.

Já as regiões que mais se destacam em densidade de pontos de ocorrência de morcegos são: vale do rio Peruaçu, no norte de Minas Gerais, na região central de Minas Gerais e na região do PETAR em São Paulo.

Tiago Silva explica que “de maneira geral observa-se que há uma grande concentração de registros de ocorrência no eixo São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Mas, principalmente em Minas Gerais, o que pode ser explicado pelo alto número de cavernas cadastradas (mais de 10mil). O Outro motivo para o resultado é a tendência de concentração de esforço amostral em áreas que têm acesso mais fácil por rodovias e estão mais próximas dos grandes núcleos acadêmicos das regiões sudeste e sul.

Leia também: Um mundo desconhecido: conheça as principais cavernas e grutas na Amazônia

O mapa resultante desta ação deve ser utilizado como balizador para planejamentos de inventários em escala regional. Além disso, é imprescindível que outras camadas com informações geológicas, geomorfológicas e espeleológicas sejam usadas como subsídios a um planejamento de inventários biológicos em ambientes subterrâneo em escala local.

*Com informações do ICMBio

Livro ‘Saudades do Meu Gato Dom’ é reconhecido como referência na literatura do Tocantins

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Livro ‘Saudades do Meu Gato Dom’. Foto: Divulgação

A Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) teve sua produção acadêmica e literária reconhecida em uma importante ação de valorização cultural promovida pelo Governo do Estado do Tocantins e pela Secretaria da Cultura.

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No fim do mês de maio, as instituições divulgaram, por meio dos canais oficiais no Instagram, uma lista com sete obras consideradas essenciais para conhecer e se apaixonar pela literatura tocantinense. Entre os títulos selecionados está Saudades do Meu Gato Dom, de autoria do professor Francisco Neto Pereira Pinto, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da UFNT.

O livro do professor Francisco Neto, que já havia alcançado notoriedade nacional ao figurar, em março de 2025, entre os 10 e-books mais vendidos da Amazon na categoria Fantasia para Jovens e Adolescentes, representa o alcance e a relevância da literatura produzida a partir da universidade pública tocantinense.

Leia também: Livro busca valorizar plantas medicinais em comunidades quilombolas do Tocantins

Saudades do Meu Gato Dom

Saudades do Meu Gato Dom
Livro ‘Saudades do Meu Gato Dom’. Foto: Divulgação

Saudades do Meu Gato Dom é um conto testemunho baseado em uma história real. Na obra, o autor narra com sensibilidade e profundidade a trajetória de Dom, um gato de rua adotado por sua família. A transformação do animal — de agressivo e desconfiado a afetuoso e companheiro — comove leitores ao retratar temas universais como o amor, a perda e o luto. A narrativa, construída a partir da convivência e da despedida precoce do animal, destaca-se pelo tom emotivo e pela capacidade de tocar leitores de todas as idades.

A seleção da obra pelo Governo do Tocantins como leitura indispensável, além de dar maior visibilidade a obra do professor Francisco Neto, também valoriza o papel da UFNT como protagonista na formação de escritores, pesquisadores, leitores críticos e com a promoção da cultura, da memória e da identidade tocantinense por meio da literatura.

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Lagos Sentinelas da Amazônia: projeto investe no monitoramento e diagnóstico socioambiental

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Foto: Bianca Darski

Uma reunião realizada na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), no dia 21 de maio, marcou a abertura local do projeto ‘Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas’. A iniciativa reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno.

Leia também: Rio, lago ou lagoa? Saiba as diferenças e como a Amazônia desafia essas definições

Coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann, o projeto é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia e conta com a participação de 15 instituições nacionais e internacionais.

A iniciativa nasce diante de um cenário alarmante: secas históricas, como a de 2023, com temperaturas no Lago Tefé superiores a 40°C, e a morte de mais de 300 botos nos lagos Tefé e Coari, além de inúmeros impactos às populações ribeirinhas cujo modo de vida depende de lagos saudáveis. Tais eventos expõem a vulnerabilidade dos ecossistemas aquáticos amazônicos frente às mudanças climáticas.

“O projeto propõe um novo modelo de pesquisa baseado na cooperação entre cientistas e comunidades ribeirinhas, respeitando o conhecimento tradicional e unindo esforços para gerar dados confiáveis sobre os desafios que enfrentamos”, afirma Ayan Fleischmann, líder do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais do Instituto Mamirauá e coordenador geral do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia. “Queremos que os lagos se tornem verdadeiros sentinelas da Amazônia, capazes de indicar mudanças ambientais e sociais em tempo real. Para isso, precisamos da ciência aliada ao saber local”, reforça.

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A reunião contou ainda com a participação ativa de diversas instituições locais, reforçando o caráter intersetorial e colaborativo da iniciativa. Estiveram presentes representantes da Defesa Civil de Tefé, das secretarias municipais de Meio Ambiente e Conservação (Semmac), Saúde (Semsa), Produção, Abastecimento e Pesca de Alvarães, e da Secretaria de Inovação, Tecnologia, Ciência e Desenvolvimento Econômico (Sedecti), além de integrantes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), da Fametro Unidade Tefé, da Colônia de Pescadores Z4 e da Associação de Produtores Agroextrativistas da Flona de Tefé e Entorno (APAFE). A diversidade de atores presentes evidencia o compromisso coletivo com a preservação dos recursos hídricos e com o fortalecimento das ações locais frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

O envolvimento direto das comunidades é um dos pilares da iniciativa. Adrimar dos Santos Vidal, presidente da Associação de Produtores Agroextrativistas da Floresta Nacional de Tefé e Entorno (APAFE), destacou a relevância prática do projeto para os moradores da região.

“Esse projeto eu acredito que vem buscar melhorias pras comunidades nas questões das mudanças climáticas que vêm acontecendo nesses dois anos aqui na Floresta Nacional de Tefé, na região do lago, que as pessoas utilizam pra vir pra cidade, pra vender sua produção e também comprar seus alimentos pra levar pra comunidade. (…) Às vezes, nem a associação, nem as comunidades têm esse conhecimento de como está a água que elas usam, se está bem tratada ou não”, afirmou. Adrimar também ressaltou a expectativa de que a associação possa contribuir acompanhando os pesquisadores em campo, promovendo melhorias reais para as comunidades e para as futuras gerações.

Monitoramento em cinco lagos estratégicos da Amazônia

Será realizado o diagnóstico socioambiental e o monitoramento das águas de cinco lagos de alta relevância socioeconômica ao longo do Rio Solimões-Amazonas. O monitoramento de cada lago conta com a supervisão de uma instituição local:

  • Lago Tefé (coordenado pela equipe do Instituto Mamirauá)
  • Lago Coari (coordenado pela equipe da UFAM – Coari)
  • Lago Janauacá (coordenado pela equipe do Inpa)
  • Lago de Serpa (coordenado pela equipe da UFAM – Itacoatiara)
  • Lago Grande de Monte Alegre (coordenado pela equipe da UFOPA)

Esses sistemas aquáticos foram escolhidos por representarem diferentes contextos ambientais e de pressões antrópicas ao longo de mais de 1.400 km da Bacia Amazônica. O projeto combina monitoramento remoto via satélite com coletas mensais in loco e oficinas participativas com as comunidades. As ações incluem avaliação da qualidade e da dinâmica das águas, diagnóstico do saneamento básico, identificação de impactos sociais e culturais das mudanças ambientais e cocriação de soluções para os desafios identificados.

Foto: Bianca Darski

Protocolo de monitoramento com engajamento comunitário

Um dos principais resultados esperados é a criação de um Protocolo de Monitoramento Ambiental com Engajamento Comunitário para Lagos Amazônicos. Esse protocolo será construído com base em metodologias participativas e visa a fortalecer a capacidade das comunidades locais em lidar com eventos extremos e mudanças no regime hidrológico.

Além da geração de dados inéditos sobre a qualidade e a dinâmica das águas, o projeto visa fortalecer as instituições científicas locais, promover intercâmbios com universidades estrangeiras e capacitar moradores das comunidades ribeirinhas.

Caio Florindo, professor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), campus Tefé, destacou o potencial de integração entre ciência local e o projeto. “Conversamos sobre as possíveis contribuições que a nossa instituição pode trazer a esse projeto. A universidade tem dois projetos envolvendo qualidade de água, em poços artesianos e no Lago de Tefé. Nossos bolsistas podem ajudar na coleta e análise de parâmetros de caracterização de água do lago e dos poços artesianos, e podemos até ver alguma relação entre essas fontes, porque, provavelmente, estamos embaixo do mesmo aquífero”, explicou. “Isso seria interessante, por isso é muito importante essa colaboração entre instituições de pesquisa em nível local.”

Participam da iniciativa instituições como o Inpa, Ufam, Ufopa, UnB, Instituto Tecnológico Vale, Serviço Geológico do Brasil, universidades internacionais como a University of California Santa Barbara, Bangor University e o Cary Institute, entre outros parceiros.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Amazônia deve enfrentar mais secas com previsão de aumento da temperatura média global nos próximos 5 anos

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Foto: Cimone Barros/INPA

A Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês) prevê que as temperaturas médias globais se mantenham próximas ou atinjam novos recordes nos próximos cinco anos, ultrapassando as marcas alcançadas em 2024, o ano mais quente já registrado em 175 anos. A atualização climática para o período de 2025 a 2029, publicada no dia 28 de maio, aponta que esses novos patamares devem incrementar os riscos climáticos e impactos nas sociedades, economias e no desenvolvimento sustentável.

De acordo com o relatório da WMO, a temperatura média global próxima à superfície, em média anual, para cada ano entre 2025 e 2029, deverá ser entre 1,2°C e 1,9°C superior comparada a média do período entre 1850 e 1900.

O nível de aquecimento de longo prazo, que considera temperaturas globais de 20 anos, que embasa a meta do Acordo de Paris, permanece abaixo de 1,5oC.

Leia também: Calor extremo na Amazônia tem alta de até 5,1ºC nas temperaturas máximas em 2024

Segundo o relatório, com 80% de probabilidade, é provável que pelo menos um ano dos próximos cinco anos seja mais quente do que 2024, quando por 11 meses consecutivos a temperatura média global ultrapassou a média de 1,5oC. A probabilidade é ainda maior (86%) de que em um dos próximos cinco anos a temperatura média global ultrapasse novamente a.  Embora com probabilidade de apenas 1%, a WMO afirma que a média de temperatura global de 2oC pode ser ultrapassada até 2029.

A previsão da WMO também indica que há 70% de probabilidade de que o aquecimento médio quinquenal para 2025-2029 seja superior a 1,5°C. Isso representa um aumento de 47% em relação ao relatório do ano passado (para o período de 2024-2028) e de 32% em relação ao relatório de 2023 para o período de 2023-2027.

O aquecimento do Ártico deve continuar a superar a média global. A previsão é de que os próximos cinco invernos prolongados sejam de três a cinco vezes maior do que a média global, podendo atingir 2,4oC, comparado aos últimos 30 anos (1991 a 2020).

Os padrões de precipitação têm grandes variações regionais. Para os períodos de maio a setembro, as previsões sugerem condições mais úmidas no Sahel, na África, por exemplo, e de condições anormais de seca para a Amazônia. Para o sul da Ásia, a previsão aponta que devem continuar as condições anormais de umidade vivenciadas nos últimos anos.

Foto: Michel Mello/Fiocruz Amazônia

A comunidade científica tem reiterado que o aquecimento superior a 1,5oC corre o risco de desencadear impactos muito mais severos e eventos climáticos extremos. Por isso, cada fração de temperatura importa.

De acordo com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e especialista em projeções climáticas, Gilvan Sampaio, a sinalização de condições mais úmidas no Sahel implica em situação oposta para áreas no leste e no norte da Amazônia. Segundo Sampaio, se também houver aquecimento do oceano Atlântico norte, a situação de seca atinge o sudoeste da Amazônia.

O pesquisador explica que quanto maior a temperatura na superfície, maior será a quantidade de energia na atmosfera para produção de nuvens mais profundas, que são densas, extensas, concentram altas quantidades de vapor d´água e provocam chuvas mais intensas.

“O aumento gradativo da temperatura global significa que os eventos meteorológicos extremos, como chuvas intensas, chuvas volumosas, secas e ondas de calor se tornarão cada vez mais frequentes”, afirma.

A elaboração da síntese de previsões liderada pelo Met Office, que atua como um centro da WMO para o tema, incluiu 220 membros de um conjunto de modelos de 15 institutos, incluindo os centros globais de produção. O relatório também sintetiza as mudanças observadas no clima nos últimos cinco anos.

De acordo com o Relatório Síntese de 2023 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), entre 2011-2020 a temperatura média global foi cerca de 1,1°C mais quente, comparada ao período de 1850-1900.

Em março de 2025, a WMO confirmou 2024 como o ano mais quente em 175 anos de medições. A média da temperatura na superfície foi de 1,55oC, com uma variação de ± 0,13 °C, comparado à média pré-industrial. As temperaturas recordes foram incrementadas, principalmente, pelo aquecimento global. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera foi a mais alta em 800 mil anos.

A íntegra da previsão para 2025-2029 da WMO pode ser acessada AQUI.

*Com informações do MCTI

Maior Paçoca do Mundo é de Roraima: iguaria bate novo recorde de 1 tonelada e 547,5 Kg

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Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Mais um recorde superado! Neste sábado, 7, a Maior Paçoca do Mundo atingiu a impressionante marca de 1 tonelada e 547,5 Kg. A iguaria, símbolo afetivo da culinária roraimense, foi servida para mais de 18 mil pessoas em porções de 200 g, o dobro do tamanho oferecido no ano passado.

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Desde 2015, a paçoca se tornou uma das atrações mais aguardadas da festa, conquistando não apenas os paladares, mas também o reconhecimento mundial — em 2024, entrou para o Guinness World Records (Livro dos Recordes) como a maior paçoca de carne do planeta, com 1 tonelada e 356 kg. Este ano, a meta era superar esse número, alcançada com sucesso graças a um verdadeiro mutirão de preparação.

Maior Paçoca do Mundo é de Roraima
Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

“Essa conquista é de todo o povo de Boa Vista. A paçoca é mais do que um prato típico. Ela representa a nossa identidade, nossas raízes e nossa união. Ver milhares de pessoas reunidas, celebrando a tradição com alegria e orgulho, é a maior recompensa. O recorde é importante, mas o que mais emociona é ver a felicidade no rosto de cada um que participa dessa festa”, disse o prefeito Arthur Henrique.

Leia também: Através de Projeto de Lei, Boa Vista pode receber título de capital nacional da paçoca de carne

O sabor que todo mundo ama

Nilde Oliveira, funcionária pública, garantiu sua paçoca e, para ela, esse momento virou tradição. “Já tem sido algo que, sem dúvida, atravessa gerações, afinal são 10 anos. Faço questão de participar desse momento. A festa está muito linda, segura para curtir com a família e simboliza exatamente isso: união”, afirmou.

Nilde Oliveira, funcionária pública, garantiu sua paçoca. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

A autônoma Rosiane Nobre também compareceu com a família. “É a terceira vez que estamos aqui para pegar a paçoca. A gente adora! Viemos primeiro para garantir a paçoca e agora que vamos dar uma volta e curtir o arraial”, contou.

Dona Raimunda Estela, de 85 anos, experimentou a Maior Paçoca do Mundo pela primeira vez. Ela recebeu o potinho das mãos do prefeito Arthur Henrique. “Sempre quis prová-la. Estou muito feliz em estar aqui. A festa está linda! É um momento muito especial, pois lembra o tempo em que eu dançava e pulava nas festas juninas”, afirmou.

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Sobre a preparação

Foram utilizados 2.700 kg de carne fresca, 750 kg de farinha de mandioca, 90 kg de cebola, manteiga e óleo, tudo misturado com dedicação e afeto por dezenas de profissionais. O resultado foi uma explosão única de sabor que une a cultura indígena e nordestina, servido como prato principal da noite.

Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

A paçoca gigante já é patrimônio cultural e imaterial de Boa Vista desde 2022, reforçando seu papel como símbolo do orgulho e identidade regional. E nesta edição de 25 anos do Boa Vista Junina reafirma seu lugar como estrela internacional do arraial. Esta semana a iguaria foi destaque na mídia nacional, ganhando visibilidade em diversos programas por todo Brasil.

Saiba mais: Paçoca de Roraima entra para o Livro dos Recordes como a maior do mundo

Histórico de Pesos da Maior Paçoca do Mundo

Prefeito de Boa Vista com a maior Paçoca do Mundo. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

2015 – 500 kg

2016 – 775 kg

2017 – 856 kg

2018 – 1.023 kg

2019 – 1.050 kg

2022 – 1.131 kg

2023 – 1.264 kg

2024: 1.356 kg

2025 – 1.547,5 kg

*Com informações da Prefeitura de Boa Vista

Leia também: Pitbull de Rondônia quebra recorde mundial e tenta entrar no Guinness como maior do mundo

Conheça os benefícios da manteiga de murumuru: de hidratação a sustentabilidade

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Manteiga de murumuru. Foto: Reprodução/Beleza Verde

O murumuru (Astrocaryum murumuru), também chamado de Murumuru da Várzea, é uma palmeira espinhosa que pode chegar até 10 metros de altura. Através da extração do óleo das amêndoas dos frutos dessa palmeira, é feita a manteiga de murumuru, capaz de produzir cremes hidratantes, sabonetes e até xampus.

A manteiga é considerada um ‘ouro amazônico’ por sua capacidade multifuncional, nutritiva e emoliente. Sua palmeira é encontrada principalmente nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará e Rondônia.

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O óleo extraído das amêndoas da palmeira é rico em ácidos graxos importantes para a hidratação dos cabelos e da pele, além de ser rico em vitaminas A e E, cálcio, fósforo e ferro. 

A manteiga de murumuru se destaca por suas múltiplas funções e também é rica em ácidos graxos como o láurico, mirístico e oleico, além de vitaminas A e E e minerais como cálcio, fósforo e ferro. Além disso, ela hidrata profundamente, nutre e protege, sem agredir ou obstruir os poros da pele.

Leia também: Murumuru: semente utilizada como cosmético pode ser utilizada na construção civil

Benefícios da manteiga de murumuru

A manteiga de murumuru possui os seguintes benefícios:

  • Trata os fios de cabelo quebradiços, com poder de formar uma barreira de proteção contra a ação de agentes externos;
  • Tem propriedades anti-inflamatórias naturais;
  • Trata acne e psoríase;
  • Cicatriza peles rachadas ou pequenas lesões na pele;
  • Possui benefícios anti-envelhecimento; 
  • É antiviral e antisséptico;
  • Hidrata e nutri a pele;
  • Ameniza eczema;
  • Dá brilho e maciez aos cabelos.

Por ter baixa acidez e alto poder de penetração, a manteiga de murumuru consegue atingir as camadas mais profundas da pele e do couro cabeludo, garantindo uma hidratação prolongada e eficaz. Ao contrário de muitos produtos industrializados, ela não cria uma barreira artificial ou oleosa sobre a pele. Isso a torna ideal para quem busca produtos com formulações mais naturais e menos agressivas.

Sustentabilidade da manteiga de murumuru

Manteiga de Murumuru
Colheita das sementes de Murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

O extrativismo do murumuru é uma atividade que pode ser feita de forma totalmente sustentável, sem necessidade de desmatamento, e com forte potencial de geração de renda para comunidades tradicionais da Amazônia.

Diversas cooperativas e projetos sociais têm se empenhado em capacitar extrativistas locais para a coleta, processamento e comercialização do murumuru, promovendo o desenvolvimento socioeconômico da região e incentivando a preservação da floresta em pé.

Leia mais: Estudo mostra que óleos de açaí e murumuru são potencialmente eficazes na preservação de madeiras amazônicas

*Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Le Fruit Cosméticos.


Estudo aponta que caça de subsistência tem papel importante para segurança alimentar de comunidades tradicionais

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Foto: Miguel Monteiro

Há milênios, comunidades indígenas e tradicionais ao redor do mundo praticam a caça de subsistência como fonte essencial de alimentação. Contudo, a carne de animais silvestres, conhecida popularmente como ‘carne de caça’, ainda é pouco estudada pela ciência em relação aos seus conteúdos nutricionais, o que dificulta a avaliação de sua importância dentro da dieta das populações tradicionais que a consomem.

Em um estudo recém-publicado na revista Ethnobiology and Conservation, pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) avaliaram a composição nutricional da carne de 26 espécies de animais, revelando diferenças significativas nos perfis nutricionais entre os tipos de carne e suas partes anatômicas.

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Nutrientes essenciais e segurança alimentar

A pesquisa conduziu uma revisão sistemática de 20 artigos científicos e documentos publicados ao redor do mundo, focando em 10 nutrientes essenciais: ferro, zinco, selênio, manganês, potássio, magnésio e sódio, além de proteína, gordura e ômega-6. Os autores compararam esses conteúdos nutricionais entre músculos e vísceras de diferentes espécies de mamíferos, aves e répteis.

O estudo encontrou que a carne dos músculos de répteis contém 60% mais ferro que a de mamíferos e 400% mais selênio que aves. Já a carne muscular de aves apresenta níveis 200% maiores de potássio e ômega-6 em comparação com mamíferos. A carne dos mamíferos destaca-se pelo alto teor de zinco.

Ao comparar as partes anatômicas, as vísceras mostraram-se mais ricas em minerais, como ferro e zinco, em todas as espécies. Ao mesmo tempo, vísceras de répteis têm 300% mais gordura que as de mamíferos, enquanto as vísceras de mamíferos são ricas em proteínas e ômega-6.

Implicações para a saúde e sustentabilidade

Os resultados da pesquisa destacam o valor nutricional da carne de caça, considerando o seu consumo sustentável por comunidades tradicionais que, muitas vezes, têm pouco acesso a outras fontes de proteína e micronutrientes. As carnes provenientes da caça de subsistência são importantes fontes de ferro, zinco e selênio, por exemplo, nutrientes que frequentemente são encontrados em deficiência dentro de grupos vulneráveis em comunidades tradicionais, como mulheres e crianças, afetadas, especialmente, pelo avanço ilegal do garimpo, exploração de madeira, pesca industrial, caça ilegal e grilagem de terra em seus territórios. A deficiência destes nutrientes pode levar a complicações graves de saúde, como anemia, comprometimento do sistema imunológico e atrasos no crescimento.

“A carne de caça oferece uma fonte muito importante de macronutrientes – como lipídios e proteínas – e de micronutrientes – como ferro e zinco – para populações que, muitas vezes, carecem de alternativas viáveis, e frequentemente sofrem com fome ou falta de micronutrientes” comenta Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto Mamirauá e um dos autores do estudo.

“Aqui na Amazônia, onde a população enfrenta os piores índices de insegurança alimentar e desnutrição do Brasil, já sabemos que o consumo da carne de caça é associado com menos anemia em crianças ribeirinhas, e que pode substituir a proteína na época de escassez de peixes”, acrescenta o pesquisador.

Além disso, o consumo de vísceras, muitas vezes negligenciado, pode maximizar a ingestão de nutrientes, complementando a dieta e promovendo uma maior diversidade nutricional. No entanto, os autores alertam para riscos associados ao consumo excessivo das vísceras, uma vez que elas podem conter concentrações elevadas de metais pesados, sendo aconselhável cautela, especialmente para crianças.

Jacaré-açú (Melanosuchus niger), espécie frequentemente usada para alimentação por populações tradicionais. Foto: Miguel Monteiro

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Os pesquisadores enfatizam a necessidade de políticas que equilibrem a conservação da biodiversidade com o direito dessas comunidades tradicionais à segurança alimentar. Restringir o acesso dessas populações à carne de caça de maneira proibitiva pode levar ao aumento dos casos de desnutrição, ao passo que a caça insustentável pode acarretar o declínio populacional de animais silvestres e ao comprometimento da integridade de ecossistemas.

“Nossa revisão mostra como as carnes de caça são ricas nutricionalmente, mas também como os valores nutricionais variam muito entre as espécies. Essas informações são essenciais para desenvolver políticas e práticas para combater a desnutrição nessas comunidades, no contexto de caça sustentável para preservar as populações de animais silvestres tanto para conservação, quanto para saúde humana”, conclui Daniel.

Dessa forma, faz-se necessário a implementação de estruturas de governança que considerem a segurança alimentar e nutricional de comunidades tradicionais e o consumo sustentável de animais silvestres. Abordagens participativas para definir e aplicar regulamentações são essenciais para alcançar cenários ecologicamente sustentáveis e socialmente justos.

O Instituto Mamirauá é referência em projetos participativos que desenvolvem práticas de manejo dos recursos naturais de forma integrada e sustentável. O Instituto foi pioneiro em implementar, em parceria com comunidades tradicionais e órgãos governamentais, o primeiro sistema de manejo sustentável do pirarucu, espécie crucial para a segurança alimentar de populações tradicionais e para o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos.

A implementação do manejo gerou um aumento de mais de 600% na população de pirarucus nas áreas manejadas, espécie que sofreu forte declínio populacional devido à pesca comercial. Além disso, o Instituto Mamirauá vem desenvolvendo outras práticas de manejo sustentável, como o manejo de jacarés, de abelhas nativas sem ferrão e o manejo florestal. O Instituto Mamirauá também promoveu a criação das primeiras Reservas de Desenvolvimento Sustentável do país, as Reservas Mamirauá e Amanã, que juntas somam mais de 3 milhões de hectares e têm desempenhado um papel fundamental para o fortalecimento de projetos de manejo participativo e comunitário.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Miguel Monteiro

Quando o encantado veste couro de boi: fé, cultura e resistência no São João do Maranhão

Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto: arquivo pessoal

São João do Maranhão é mais do que uma festa: é um território simbólico onde o sagrado e o profano se encontram, se misturam e se tornam indissociáveis. No compasso das matracas, dos pandeirões e dos tambores, pulsa uma espiritualidade que atravessa séculos, expressando a resistência, a memória e a identidade de um povo. 

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Essa dimensão do sagrado no São João maranhense, muitas vezes percebida por quem participa, mas pouco explorada academicamente, é o foco da pesquisa desenvolvida pela professora Marilande Martins Abreu, do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que investiga como a religiosidade popular estrutura as manifestações culturais do ciclo junino, com especial atenção para o bumba meu boi.

fé, cultura e resistência no São João do Maranhão
Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto: arquivo pessoal

Coordenadora do Grupo de Pesquisa Religião e Cultura Popular – GP Mina, a professora Marilande dedicou-se a investigar uma das expressões mais simbólicas dessa relação entre religiosidade e cultura popular: o boi de encantado, tendo como objeto o estudo de caso do boi de encantado Barbatão, ligado ao Jardim de Encantaria, um antigo terreiro de tambor de mina, localizado no bairro do Anjo da Guarda, em São Luís.

O resultado dessa pesquisa dará origem ao artigo científico intitulado “Tambor de mina e festas populares: o boi de encantado no Terreiro Jardim de Encantaria’, escrito em coautoria com a professora Sariza Caetano, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (Ufnt). O texto integrará uma coletânea nacional dedicada aos estudos sobre religiões e manifestações religiosas no Brasil.

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O sagrado que vive no bumba meu boi

O bumba meu boi, patrimônio cultural do Brasil e símbolo máximo da cultura maranhense, é uma manifestação que sintetiza, com poucos elementos, a fusão do sagrado e do profano, da arte e da espiritualidade, da festa e da devoção. Por trás dos bordados dourados, das toadas emocionadas e dos autos dramatizados, existe um tecido invisível que sustenta toda essa tradição: a fé.

Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto: arquivo pessoal

No Maranhão, essa manifestação não se resume a folclore nem a celebração estética: ela é, sobretudo, uma prática de devoção. O boi dança, canta, vive e morre em rituais que evocam mitos, crenças e entidades espirituais, tanto do catolicismo popular quanto das religiosidades afro-ameríndias, como o tambor de mina, o terecô e a encantaria.

“Existe uma forte devoção em toda relação dos boieiros com o boi, como existe também uma devoção em relação ao boi que vai passar por alguns ritos. O boi passa por um ciclo ritual: ele é batizado, sai para brincar e despois ‘morre’. Esse ciclo, que se renova anualmente, é marcado por rezas, ladainhas, velas e outros elementos”, detalha.

Não é exagero dizer que ‘o boi é uma oração que dança’. E, dentro desse universo tão amplo, existe um expressão que leva essa conexão com o sagrado a um nível ainda mais profundo: o boi de encantado.

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O boi de encantado

Diferente dos grupos organizados em associações culturais, com estrutura administrativa própria, o boi de encantado nasce dentro dos terreiros. Nessas casas, o boi não é apenas uma personagem ou elemento folclórico. Ele é, na verdade, uma extensão das entidades espirituais que regem o terreiro, um corpo ritual que também dança, canta e se manifesta na matéria.

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Bumba meu boi. Foto: Márcio Vasconcelos

O tema central da pesquisa da professora Marilande é o boi de encantado Barbatão, que pertence ao Terreiro Jardim de Encantaria, liderado por Pai Clemente, e tem como entidade patrona a cabocla Dorinha de Leguá, ligada à linhagem espiritual da família de Leguá, muito conhecida nos cultos de tambor de mina do Maranhão.

“O boi de encantado nasce a partir de uma promessa, pedido ou presente à entidade do terreiro. O boi de Barbatão é ligado à entidade farrista Dorinha de Leguá. Essas entidades, normalmente, descem para brincar, festejar, dançar, beber e confraternizar com os devotos”, explica a pesquisadora.

Esses bois não estão no circuito comercial, nem nos arraias turísticos. Eles existem, primordialmente, dentro da dinâmica espiritual do terreiro. Participam das festas internas, dos rituais, das obrigações, dos pedidos e agradecimentos feitos às entidades. Toda a sua estética — do bordado do boi às roupas dos brincantes — é consagrada, rezada e preparada segundo os fundamentos da religião.

As visitas de campo para fundamentar a pesquisa começaram em 2016 e incluíram a participação em rituais fundamentais, como o batizado e a morte do boi, além de outros momentos de festa e de devoção no terreiro. O trabalho revelou como o bumba meu boi, na condição de expressão estética e cultural, entrelaça-se de forma indissociável com a prática religiosa da encantaria.

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Uma oração coletiva que dança

O São João maranhense, com toda a sua pluralidade de sotaques e cores, tem, na religiosidade, um de seus pilares mais profundos. Isso não se restringe aos bois de encantado. Mesmo os grupos considerados profanos ou comerciais carregam em sua trajetória uma dimensão espiritual evidente. O batizado, as promessas cumpridas em forma de danças e toadas, as rezas antes das apresentações, tudo isso confirma que o boi é, para muitos, uma oração em movimento.

Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto: arquivo pessoal

“O papel da religiosidade nas festas juninas são visíveis e presentes. O catolicismo popular é muito forte, além de ser uma festa em homenagem aos santos católicos, a religiosidade popular prevalece. As entidades das religiões de matriz africana também gostam dessas brincadeiras da manifestação da cultura popular e participam”, afirma Marilande.

Nos bois de encantado, essa dimensão não é apenas presente, ela é o próprio fundamento da existência do grupo. O boi, nesse contexto, não é um adereço cultural. Ele é uma entidade, um corpo que dança e canta em nome dos encantados, dos caboclos, dos mestres e mestras espirituais que sustentam as práticas da casa.

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Pesquisa, memória e resistência

O trabalho da professora Marilande tem por objetivo lançar luz sobre esse aspecto muitas vezes invisibilizado da cultura maranhense. O objetivo é justamente sistematizar, registrar e dar visibilidade a essas práticas, que fazem parte da vida das pessoas, dos territórios, das comunidades, mas que muitas vezes não aparecem nos estudos ou nas políticas culturais.

Mais do que documentar, a pesquisa também cumpre um papel político e social. Ao reconhecer o boi de encantado como uma prática legítima, essencial e viva, ela ajuda a fortalecer a luta contra os processos de apagamento histórico e cultural que há séculos tentam silenciar as vozes das populações afro-indígenas.

O desenvolvimento da pesquisa reflete o compromisso da Universidade Federal do Maranhão com a valorização dos saberes tradicionais, das culturas populares e das religiosidades afro- ameríndias que estruturam a identidade maranhense. É papel da Universidade se debruçar sobre esses conhecimentos que são fundamentais para entender o Maranhão. A pesquisa sobre o boi de encantado Barbatão é, na verdade, uma porta de entrada para compreender como a espiritualidade estrutura as práticas culturais no nosso estado.

No final das contas, quando o couro do boi vibra e a toada ecoa, o que se ouve não é apenas música — é um chamado. É o som dos encantados, dos antepassados, da memória coletiva que insiste em não ser esquecida. No Maranhão, quando o encantado veste couro de boi, ele dança não só por si, mas por todos aqueles que carregam no peito a fé, a resistência e a alegria de existir.

*Com informações da Universidade Federal do Maranhão