Foto: Reprodução/Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
O Acampamento Terra Livre (ATL) é a maior assembleia dos povos e organizações indígenas do Brasil. Realizado desde 2004, acontece tradicionalmente em abril, em Brasília (DF), embora, excepcionalmente, possa ocorrer em outras datas e locais, conforme a conjuntura nacional, a situação dos direitos indígenas e as deliberações das lideranças e organizações de base do movimento indígena. Exemplos disso são as edições realizadas em maio de 2009, em Campo Grande (MS) em 2010 e no Rio de Janeiro em 2012, durante a Cúpula dos Povos na Rio+20.
O primeiro Acampamento Terra Livre surgiu a partir de uma ocupação realizada por povos indígenas do sul do país, em frente ao Ministério da Justiça, na Esplanada dos Ministérios. A mobilização rapidamente ganhou a adesão de lideranças e organizações de outras regiões, especialmente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME).
Indígenas do Brasil. Foto: Reprodução/Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
A ocupação foi uma resposta à ausência de avanços na chamada ‘Nova Política Indigenista’, prometida pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha eleitoral e registrada no documento Povos Indígenas do Programa Lula Presidente. Entre as principais reivindicações estavam:
A demarcação do passivo de terras indígenas;
A criação do Conselho Superior de Política Indigenista;
O combate às invasões territoriais e à violência contra os povos indígenas;
A garantia da participação indígena na formulação de políticas públicas.
Durante essa primeira mobilização, os acampados chegaram a ocupar o Salão Verde do Congresso Nacional, exigindo a retomada do diálogo com o governo Lula. Esse momento representou um marco histórico para o movimento indígena, consolidando as bases para a mobilização nacional dos povos originários.
Como fruto direto dessa articulação, foi criada, em novembro de 2005, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) — uma deliberação política do Acampamento Terra Livre daquele ano.
Essas vitórias, contudo, foram duramente atacadas, restringidas ou suprimidas durante o governo Jair Bolsonaro, conforme denunciam os documentos finais de cada Acampamento Terra Livre realizados nesse período.
Os documentos que registram cada edição do Acampamento Terra Livre são fruto das discussões realizadas nas plenárias e expressam o posicionamento político e as reivindicações do movimento indígena. Eles analisam criticamente a situação da política indigenista, o papel dos órgãos públicos e as ações dos governos Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Ao longo dos anos, reiteram demandas históricas como:
O direito originário às terras tradicionalmente ocupadas;
O direito à diferença — que pressupõe políticas públicas específicas e diferenciadas;
O direito à autodeterminação e à autonomia, assegurados pela Constituição Federal;
O fim do indigenismo tutelar, autoritário e integracionista.
*Com informações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Clonagem e expressão da proteína NS1 – Foto por: Arquivo/Pesquisadora
Pesquisadores de Mato Grosso estão desenvolvendo um ensaio imunoenzimático (ELISA), para a detecção de anticorpos contra o vírus da encefalite de “Saint Louis” (SLEV), uma doença ainda pouco diagnosticada no Brasil, mas que apresenta potencial de impacto significativo na saúde pública. O arbovirus é transmitido por mosquitos do gênero Culex e pode atingir o sistema nervoso central, causando inflamação no cérebro. Os principais sintomas são a febre, dor de cabeça, rigidez no pescoço, estupor, desorientação, coma, tremores, convulsões ocasionais e paralisia espástica.
Estudos estimam que aproximadamente 500 espécies de arbovírus identificados no mundo, cerca de 200 já tenham sido encontrados no bioma Amazônia e desses, pelo menos 40 podem causar doenças em humanos.
Nesse cenário, uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Imunologia e Biologia Molecular (LIBM) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop/MT, está desenvolvendo um método inovador para melhorar a detecção de SLEV no Sistema Ùnico de Saúde (SUS).
A metodologia envolve a clonagem e expressão da proteína NS1 recombinante do vírus, utilizado como antígeno em testes de ELISA para detecção de anticorpos IgG e IgM. O processo segue rigorosos protocolos. O RNA viral é extraído, amplificado por RT-PCR, e a proteína NS1 é clonada e expressa em células de Escherichia coli. Após a purificação, a proteína recombinante é empregada em testes laboratoriais para determinar sua eficácia na detecção de infecções por SLEV.
“Esses processos serão posteriormente validados com amostras humanas previamente processadas, garantindo alta sensibilidade e especifidade. Os resultados esperados desse estudo vão além do laboratório. Um teste diagnóstico eficaz e acessível, como o proposto, pode transformar a forma como as arboviroses são monitoradas e tratadas no Brasil”, afirmou a pesquisadora.
Clonagem e expressão da proteína NS1 – Foto por: Arquivo/Pesquisadora
A equipe de pesquisadores do Laboratório de Imunologia realizam há mais de dez anos a vigilância humana e ambiental no município de Sinop e região. “Realizamos testes com amostras coletadas da população nos laboratórios municipais e parceiros, onde conseguimos monitorar o tipo de arbovirose em circulação, aumentando o controle e um melhor atendimento clínico a população, porque os sintomas das arboviroses são semelhantes”, afirmou Ana Scarpim
O teste de ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), é uma técnica de imunoensaio que detecta e quantifica antígenos ou anticorpos usando uma enzima ligada a um anticorpo. Quando essa enzima entra em contato com um substrato específico, ocorre uma reação colorida que pode ser medida, geralmente usa-se um leitor de microplacas.
De acordo com a pesquisadora, “ao final da pesquisa, o novo teste será incorporado à rotina de laboratórios públicos se tornando uma ferramenta valiosa. A detecção precoce, o diagnóstico mais rápido e preciso pode evitar subnotificações e minimizar confusões com outras arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. Com um diagnóstico confiável, os profissionais de saúde poderão tomar decisões mais assertivas no manejo dos pacientes, reduzindo complicações e melhorando os desfechos clínicos, contribuindo para o mapeamento da prevalência e incidência do SLEV, além de fornecer dados valiosos para a formulação de políticas públicas e estratégias de controle”.
O projeto é coordenado pela doutoranda em Biotecnologia e Biodiversidade Ana Lucia Scarpin Ramos, e fomentada pela Governo do Estado, através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), dentro do Edital nº 004/2023-Doutorado com Produto Tecnológico.
O projeto ‘Proteção e utilização sustentável da floresta, através do fortalecimento de cadeias produtivas do povo Kayapó/Metuktire’, tem como objetivo o fortalecimento e a soberania dos povos indígenas sobre seus territórios, promovendo o uso sustentável dos recursos naturais e garantindo a proteção das florestas.
O Programa abrangeu 23 aldeias e beneficiou diretamente 187 indígenas e, indiretamente, cerca de 3.300 pessoas nas Terras Indígenas Capoto/Jarina e Menkragnoti. As ações desenvolvidas no projeto focaram no fortalecimento sociocultural, na sustentabilidade, geração de renda, infraestrutura das aldeias e inclusão de mulheres, promovendo a equidade de gênero.
Foram realizadas melhorias na conectividade e infraestrutura com a instalação de antenas de internet e sistemas de energia solar nas aldeias Poreby e Kadjatnhõrõ e a construção de seis casas tradicionais na aldeia Kadjatnhõrõ e quatro na aldeia Poreby. Para garantir uma gestão dos resíduos e o saneamento, foi feito um sistema de saneamento ecológico nas aldeias Kadjatnhõrõ e Poreby e uma oficina de gestão de lixo na aldeia Piaraçu, que capacitou Agentes de Saneamento Ambiental (AISAN) de diversas aldeias.
Além disso, foi construído um depósito para armazenamento de resíduos recicláveis na aldeia Piaraçu, distribuição de lixeiras de coleta seletiva e EPIs para a gestão de lixo em todas as aldeias associadas ao Instituto Raoni e a organização de mutirões de limpeza em aldeias como Totonhore, Metuktire, Kapoto e Sonkarasan.
O projeto também desenvolveu ações para geração de renda, como a capacitação em apicultura na aldeia Paquiçamba, com 15 participantes do povo Yudja, sendo 10 homens e cinco mulheres, que receberam materiais e ferramentas (caixas de enxame apícola e EPIs) para iniciar a produção de mel.
Foram entregues também materiais e equipamentos para o fortalecimento da produção de polvilho na aldeia Wani Wani, melhorando a qualidade da farinha e dos derivados da mandioca, além do apoio à produção de peças artesanais tradicionais do povo Trumai, incentivando o aproveitamento sustentável de madeira.
Momento de prática durante a oficina de apicultura. Foto: Yakarewa Juruna
Empoderamento das mulheres indígenas
Como forma de reforçar a importância da participação das mulheres nas iniciativas apoiadas pelo Programa REM MT, o projeto realizou a primeira Assembleia de Mulheres Indígenas do Instituto Raoni, em Colíder, um marco significativo na participação feminina nas decisões políticas e comunitárias.
O evento resultou na criação do Ropni: Departamento de Mulheres do Instituto Raoni, fortalecendo a presença das mulheres nos espaços de liderança. A iniciativa também promoveu oficinas sobre participação política e organização das mulheres indígenas.
O Instituto Raoni, com apoio do Programa REM MT, executou o projeto e destinou destinou R$1.131.444,00 para sua realização, beneficiando indiretamente, cerca de 3.300 pessoas nas Terras Indígenas Capoto/Jarina e Menkragnoti.
O Programa REM MT é uma premiação dos governos da Alemanha e do Reino Unido, por meio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), ao Estado de Mato Grosso pelos resultados na redução do desmatamento. O REM MT beneficia aqueles que contribuem para manter a floresta em pé, como os agricultores familiares, pequenos e médios produtores que praticam a agropecuária sustentável, povos e comunidades tradicionais e os povos indígenas. O REM MT realiza o fomento de iniciativas que estimulam a economia de baixo carbono e a redução do desmatamento, a fim de reduzir as emissões de CO2 no planeta.
Acampamento Terra Livre.Foto: Kathleen Limayo/350.org
O Acampamento Terra Livre (ATL) 2025 iniciou com pronunciamento histórico na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A declaração uniu Povos Indígenas da Amazônia, Ilhas do Pacífico e Austrália. Entre estes estão os Pacific Climate Warriors (Guerreiros Climáticos do Pacífico, em inglês), historicamente vozes marcantes em conferências climáticas da ONU, bem como alianças que se formaram no ano passado, como o G9, formado por organizações indígenas dos nove países da Bacia Amazônica, e a Troika Indígena, articulação com lideranças do Brasil, Ilhas do Pacífico e Austrália que busca garantir continuidade e protagonismo indígena nas COPs 29, 30 e 31.
Nesta 21ª edição do ATL, o tema da tenda da Coiab, “Pelo Clima e Pela Amazônia: A Resposta Somos Nós”, traz a forte dimensão internacional do evento este ano em que a maior conferência do clima mundial, a COP30, será sediada em Belém. No texto, os grupos indígenas dos ecossistemas que mais regulam as terras e os mares do planeta, a floresta Amazônia e o Oceano Pacífico, declaram que “a partir de agora, estaremos unidos, declarando ao mundo que, se depender de nós, a COP na Amazônia será o símbolo de uma virada decisiva nas negociações e mobilizações climáticas”:
Declaração da Aliança entre os Povos Indígenas da Amazônia, do Pacífico e Austrália
Nós, os Povos Indígenas da Amazônia, com o apoio da Representação Indígena do Pacífico e dos Povos originários da Austrália, unidos pela força ancestral da Terra, pela sabedoria que sustenta a vida, e pela luta incansável em defesa de um futuro possível, lançamos esta declaração como um chamado ético urgente: a crise climática não espera, e os governos falham em agir diante da maior ameaça à humanidade.
Nós, com nossas culturas e saberes milenares, somos os guardiões das terras e mares que regulam o equilíbrio do planeta. A floresta Amazônica e o Oceano Pacífico se conectam pela urgência de salvar o que há de mais precioso: a vida. No entanto, a ganância e a exploração desenfreada ameaçam destruir o que mantivemos vivo por milênios. A indiferença dos governos, longe de proteger, expõe nossas ilhas e florestas ao risco da extinção, mas não nos silenciarão.
Sempre estivemos aqui.
Enquanto os governos seguem a lógica egoísta de “cada um por si”, nós, em uma união de povos, tecemos uma rede de resistência e esperança entre as terras da Amazônia e os mares do Pacífico. Nossos saberes ancestrais e nossos corações batem juntos, protegendo a terra, o ar e as águas, garantindo que o canto das florestas e oceanos nunca se apague.
Nós, do Pacífico, temos levantado nossas vozes nas COPs, mas a inação e a indiferença dos governantes são incompreensíveis. Nossas ilhas estão à beira do desaparecimento, e nossos anciãos têm levado nossas soluções para a comunidade internacional. E, ainda assim, a gravidade do nosso destino não parece tocar os corações dos que sentam à mesa para decidir a nossa existência. Mas não vamos desistir.
Lutamos, não afundamos.
Nós, da Amazônia, temos feito a nossa parte na defesa da floresta e seguimos de perto a luta de nossos irmãos e irmãs do Pacífico, no clamor por uma vida digna nas conferências climáticas. Este ano, a conferência acontecerá em nossa casa, na Amazônia. Uma coisa é certa: o eco do seu chamado ético ressoa em nós como aliados firmes, comprometidos com a defesa da vida.
A partir de agora, estaremos unidos, declarando ao mundo que, se depender de nós, a COP na Amazônia será o símbolo de uma virada decisiva nas negociações e mobilizações climáticas. Nossa mensagem é simples e direta: não podemos mais tolerar a falta de ambição diante da maior crise de todos os tempos. Sentimos uma responsabilidade ética de levar nossa voz aos centro da decisão política.
A presidência brasileira da COP30 atendeu ao clamor dos Povos Indígenas da Amazônia e do Brasil e propôs a criação do Círculo de Liderança Indígena. Agora, aguardamos que essa instância se torne real e eficaz, e que tenha peso nos mais altos níveis. Não queremos uma instituição meramente simbólica e performática, sem impacto político concreto. Ninguém mais tem o privilégio de esperar que promessas se tornem ação no futuro: nossas vidas estão em risco agora.
Nós, Povos Indígenas da Amazônia, do Pacífico e da Austrália exigimos:
– Que as lideranças indígenas e das comunidades locais tenham voz e poder iguais aos Chefes de Estado na COP30, com a mesma legitimidade, poder de decisão e respeito que as representações dos países.
– A redução urgente das emissões de gases de efeito estufa com a transição para fontes de energia limpa e a eliminação dos combustíveis fósseis, garantindo que as comunidades mais vulneráveis participem ativamente de um futuro mais justo e sustentável.
– Que os povos que vivem em harmonia com a natureza devem receber financiamento direto, pois seus conhecimentos milenares são essenciais para a preservação da biodiversidade e a justiça climática. E a compensação pelos danos que sofrem deve ser justa, transparente e imediata.
– A proteção integral das florestas, oceanos e solos, os maiores sumidouros naturais de carbono do planeta, assim como o reconhecimento fundamental dos povos indígenas e comunidades locais como preservadores de seus territórios. Isto deve estar refletido na revisão das metas climáticas dos países (NDCs).
Este é o ponto de partida para qualquer discussão sobre o Balanço Ético Global. A floresta Amazônica e o Oceano Pacífico são essenciais para a preservação da biodiversidade global e atuam como barreiras naturais contra as mudanças climáticas.
A COP30, na Amazônia, não pode ser marcada pela falta de soluções. Este é o momento de fazer história, de agir com coragem e justiça. As mobilizações globais de 2019, impulsionadas pela juventude, clamaram por um futuro onde a vida fosse reverenciada. Agora, cinco anos depois, chegou a nossa vez de liderar essa luta e de exigir limites!
Precisamos traçar uma linha clara para um mundo em crise – não podemos mais ignorar as questões urgentes que ameaçam o nosso futuro. Damos este passo juntos e chamamos a todas as pessoas para se aliarem conosco.
A resposta somos nós. Todos nós!
– O G9 da Amazônia indígena, a Troika indígena e os Pacific Climate Warriors (Guerreiros Climáticos do Pacífico, em inglês)
Cerimônia de abertura da Tenda da Coiab no ATL. Foto: Isaka Huni Kuin
Toya Manchineri, coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), membro do G9, disse:
“As maiores autoridades climáticas somos nós, os guardiões da Terra, as lideranças indígenas. Hoje é um dia histórico, em que os povos da maior floresta do mundo se unem com os povos do maior oceano do mundo para enfrentar o maior desafio planetário hoje, as mudanças climáticas. A COP30 é um espaço crucial para fazermos essa virada de chave na discussão climática global, mas nossa aliança com os povos originários das Ilhas do Pacífico e da Austrália vai além disso. Queremos continuar fortalecendo a solidariedade com os parentes indígenas e aliados do mundo inteiro, pois o que nos une é mais forte que qualquer fronteira. Avançaremos juntos, pelo futuro do planeta. A resposta somos nós, todos nós.”
George Nacewa, Pacific Climate Warriors e organizador comunitário da 350.org em Fiji, disse:
“Os Pacific Climate Warriors sabem o que significa lutar por uma parte do planeta que sustenta a vida de milhões de pessoas. Grande parte da sobrevivência global está ligada ao Oceano Pacífico, assim como está ligada à Amazônia, e ainda assim os guardiões de ambas as entidades estão sendo negligenciados. Hoje viemos dar as mãos à nossa família indígena no Brasil enquanto eles se preparam para sediar as negociações climáticas da ONU. Sabemos que a verdadeira liderança climática existe dentro dessas paredes, por que os líderes do mundo não podem se espelhar nisso? Se eles não têm a vontade política de colocar nosso clima de volta nos trilhos para garantir a sobrevivência de todos, então nos levem para a mesa de discussão e nós os ajudaremos a chegar lá.”
Patricia Suarez, da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (OPIAC), membro do G9, disse:
“Nós, os povos indígenas, viemos a este mundo com um mandato sagrado: cuidar da vida e viver em equilíbrio com ela, guiados por nossos princípios e fundamentos culturais. Mas hoje, a vida de todos nós está em risco. A Amazônia está sangrando até a morte. Na Colômbia, nossos territórios estão sendo invadidos pelo garimpo, plantações ilícitas, violência armada e economias criminosas que ameaçam nossos povos e nossas autoridades legítimas. Não podemos nos calar. As decisões globais sobre clima e biodiversidade, tomadas sem a participação plena e obrigatória dos povos indígenas, estão acelerando nosso desaparecimento físico, cultural e territorial. Estamos aqui hoje, como Povos Indígenas de toda a Amazônia, para dizer ao mundo e aos governos: chega de discursos vazios! Está na hora de nossos direitos serem plenamente reconhecidos. Irmãs e irmãos dos Povos Indígenas do Brasil, da Amazônia, de toda a Abya Yala e do Pacífico: contem conosco, os 64 Povos Indígenas da Amazônia Colombiana, organizados na OPIAC. Nossa luta é a mesma: pelas florestas, por nossos direitos, por nossas filhas e filhos, pelo equilíbrio da vida. Porque os sonhos deles também são nossos. E ninguém jamais vai tirar esse sonho coletivo de nós”.
Uma cartilha pioneira no Amazonas acaba de ser lançada com o objetivo de resgatar saberes tradicionais da floresta e ensinar, de forma simples e acessível, como produzir tintas naturais a partir de plantas amazônicas. Intitulada “Biotintas da Amazônia – Introdução ao Universo das Tintas Naturais”, a publicação é gratuita e já está disponível para download.
Criada pela comunicóloga, artista multimídia e produtora cultural Michelle Moraes, a cartilha é voltada para arte-educadores, artesãos, artistas, educadores ambientais, comunidades tradicionais e qualquer pessoa interessada em alternativas ecológicas para a criação artística e pedagógica.
Com passo a passo e linguagem didática, o material apresenta o uso de dez plantas amazônicas, como urucum, jenipapo, crajiru e açafrão-da-terra, na produção de biotintas artesanais. Também oferece informações sobre as propriedades dessas plantas e sugestões de ingredientes alternativos que tornam o processo mais acessível e adaptável a diferentes realidades.
Tintas naturais com plantas da floresta. Foto: divulgação
“Esse é um convite à reconexão com a natureza e ao uso consciente dos recursos da floresta. A cartilha busca inspirar mais pessoas a explorarem a criatividade de forma sustentável e a valorizar os saberes tradicionais que resistem no tempo”, afirma Michelle.
O material pode ser utilizado em oficinas de arte, ações de educação ambiental, projetos socioculturais e atividades escolares. A iniciativa integra o projeto Biotintas da Amazônia, contemplado com bolsa cultural via Lei Paulo Gustavo (LPG), com incentivo do Conselho Municipal de Cultura (Concultura) e Prefeitura de Manaus.
Representantes da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF): Foto: Hellon Luiz
Representantes da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), estiveram em Porto Velho no domingo (6), com o objetivo de realizar estudos de viabilidade técnica visando a restauração e reativação da Locomotiva 18.
Durante o encontro o prefeito destacou que é um sonho de todo porto-velhense ouvir novamente o apito da locomotiva. “A visita da associação aqui em Porto Velho é um marco para a preservação da nossa história. Desde o início da nossa gestão, estamos trabalhando para a recuperação e resgate da nossa identidade através da Estrada De Ferro Madeira-Mamoré. Acredito que em breve esse sonho se tornará realidade”, disse Léo Moraes.
A reunião contou com a participação do diretor da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária/Campinas-SP, Márlon Ilg, e também do membro diretor, James Ilg. Os representantes puderam ver de perto a Locomotiva 18, que atualmente está no Complexo Madeira-Mamoré.
“Nós fomos convidados pela Prefeitura de Porto Velho para realizar essa vistoria técnica na locomotiva com o objetivo de fazê-la andar novamente. Ainda não é o laudo final, mas o que a gente viu aqui é que a máquina tem todas as condições para voltar a funcionar, claro que ainda vamos seguir com os estudos para a análise final”, disse o diretor da associação.
Os representantes da associação voltarão a Porto Velho em maio, com outros representantes da instituição, para um estudo mais aprofundado. Vale destacar que a missão ABPF é promover o resgate e a conservação do patrimônio histórico ferroviário brasileiro, disponibilizando os bens à visitação pública, desde que a conservação do bem não seja colocada em risco.
Inaugurada em 1º de agosto de 1912, a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi fundamental, principalmente pela necessidade de escoar a borracha, principal produto de exportação brasileiro. Em 1º de julho de 1972, por decreto do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici, a EFMM foi definitivamente desativada.
De acordo com o secretário da Secretaria Municipal de Indústria, Comércio, Turismo e Trabalho (Semdestur), Paulo Moraes Júnior, a Prefeitura já iniciou esse trabalho de resgate da história através da reativação da Litorina. “A nossa Litorina está 100% funcionando aqui no complexo e agora o nosso sonho é ouvir de novo o apito do trem. Tenho certeza que o prefeito Léo Moraes vai seguir firme nesse propósito e se Deus quiser, em outubro, no aniversário de criação de Porto Velho, a gente vai ter muitas surpresas em relação à preservação do nosso patrimônio histórico”, finaliza o secretário.
Ainda segundo o prefeito Léo Moraes, a reativação da Locomotiva 18 e também a preservação de todo o patrimônio centenário deve fortalecer o turismo regional e ampliar as possibilidades para quem visita Porto Velho, consolidando a capital como um dos principais polos de turismo ferroviário da região Norte.
Se a humanidade não conseguir reverter os efeitos das mudanças climáticas, a Terra pode sofrer uma extinção em massa, semelhante à do Período Permiano (entre 299 e 251 milhões de anos atrás), quando cerca de 90% das espécies não conseguiram sobreviver às condições drásticas. O alerta é do pesquisador Hugh Montgomery, diretor do Centro de Saúde e Desempenho Humano da University College London, na Inglaterra, e um dos autores do relatório de 2024 sobre saúde e mudanças climáticas da publicação científica The Lancet.
O estudioso abriu a programação do Forecasting Healthy Futures Global Summit, evento internacional sobre saúde e clima, que aconteceu no dia 8 de abril no Rio de Janeiro. Esta conferência está alinhada com Brasil que irá sediar a COP 30, para garantir que as propostas dos participantes possam influenciar diretamente a agenda de ação e os elementos de negociação da COP.
Montgomery ressaltou que essa extinção já vem ocorrendo ─ “a maior e mais rápida que o planeta já viu, e somos nós que estamos causando isso”, frisou. Entretanto, a morte de espécies pode chegar a níveis catastróficos se o aumento da temperatura média global chegar a 3 graus Celsius (ºC) acima dos níveis pré-industriais. Em 2024, alcançamos um aumento recorde de 1,5º C, e cientistas estimam que se as ações atuais foram mantidas, especialmente no que se refere a emissão de gases do efeito estufa, esse aumento deve chegar a 2,7 °C até 2100.
“Se continuarmos golpeando a base dessa coluna instável sobre a qual estamos apoiados, a própria espécie humana estará ameaçada. No ano passado, emitimos 54,6 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera — um aumento de quase 1% em relação ao ano anterior. A concentração atmosférica de CO₂ não só está aumentando, como está aumentando de forma cada vez mais acentuada”, explicou o especialista.
Brasileia atingiu a maior cota história no dia 28 de fevereiro de 2024. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
E, de acordo com Montgomery, outras consequências drásticas poderão afetar a Terra bem antes disso. “Se alcançarmos, mesmo que temporariamente, um aumento entre 1,7 °C e 2,3 °C, teremos um colapso abrupto das camadas de gelo do Ártico. Sabemos que isso também vai causar uma desaceleração significativa da Circulação Meridional do Atlântico, da qual depende o nosso clima, nos próximos 20 ou 30 anos, provocando uma elevação do nível do mar em vários metros, com consequências catastróficas”.
Ele chama atenção para outras causas do aquecimento global, como a emissão de metano, gás com potencial danoso 83 vezes maior do que o dióxido de carbono, liberado principalmente durante a exploração de gás natural. O cientista inglês também argumentou que ações imediatas de despoluição são essenciais para a própria economia mundial, que, prevê ele, deve reduzir em 20% ao ano, ou 38 trilhões de dólares, a partir de 2049, por causa dos efeitos das mudanças climáticas.
Hugh Montegomery avalia que é importante pensar em medidas de adaptação a mudanças no clima, porque elas já estão afetando a saúde da população hoje, “mas isso não pode ser feito em detrimento de uma redução drástica e imediata nas emissões, porque não faz sentido focar apenas no alívio dos sintomas quando deveríamos estar buscando a cura”.
Dois jogadores, um tabuleiro com marcações em linhas, uma onça, 14 cachorros e muita estratégia. De origem indígena e também muito presente nos seringais, o Jogo da Onça faz parte do contexto cultural do Acre e foi recriado por estudantes do Instituto Federal do Acre (Ifac), em conjunto com o Laboratório IF Maker Juruá.
O jogo, que foi fabricado em madeira MDF com revestimento melamínico e desenhado em máquina cortadora a laser, tem sido replicado e a partir passará a fazer parte das atividades propostas para os intervalos entre aulas na unidade Instituto Federal.
“Com a proibição dos celulares no ambiente escolar, tivemos a ideia de produzir novas unidades e disponibiliza-las no ambiente da própria instituição. Nosso objetivo é que também possamos ofertar oficinas de Xadrez, Dama e sobre próprio Jogo da Onça para, futuramente, realizarmos um campeonato entre os nossos estudantes. Dessa maneira, vamos estimulando diversas habilidades entre os alunos, por meio dos jogos de tabuleiro”, destacou o coordenador do IF Maker Juruá, professor Cristiano Ferreira.
Dados do projeto Jogos Indígenas do Brasil apontam que o Jogo da Onça é presente entre as etnias Guarani (litoral sul de São Paulo), Camaiurá, Bororo e Pareci (Mato Grosso), Canela (Maranhão), Ticuna e Maioruna (Amazonas), e Manchaneri (Acre). No contexto acreano, a brincadeira também acontece nos seringais, como explica o discente do campus Cruzeiro do Sul, Eduardo Farias, que ainda é bolsista em um dos projetos de extensão do Laboratório IF Maker Juruá.
Numa dinâmica similar à Dama, no Jogo da Onça os participantes devem movimentar as peças ao longo do tabuleiro, e a brincadeira conta com dois objetivos centrais: o jogador que é a onça deve capturar cinco cachorros para se tornar vencedor, enquanto isso, o jogador responsável pelos cachorros deve tentar encurralar a onça deixando-a sem possibilidade de se mexer no tabuleiro.
De acordo com Cristiano Ferreira, a recriação do Jogo da Onça surgiu de uma ideia inicial dos próprios bolsistas do IF Maker Juruá, Eduardo Farias e Lilian Morais, que são estudantes do curso superior de Licenciatura em Matemática, do campus Cruzeiro do Sul.
“Ao lembrarem desse jogo regional, surgiu a ideia de recriarmos em nosso laboratório, já que não o tínhamos disponível para jogar. Fizemos um protótipo, com foco em trazer um pouco da regionalidade para o nosso campus. É um jogo bem específico da nossa região e que remete à caça. Por ser estratégico, se torna uma brincadeira que traz inúmeros benefícios”, explica o professor.
Cristiano Ferreira ainda destaca a importância do Laboratório IF Maker Juruá como um ambiente de fomento de ideias e novos projetos. “Esse é um dos nossos objetivos, como espaço maker: ser um ambiente aberto para que nossos estudantes e a comunidade o explore e desenvolva ideias. Ao recriar o Jogo da Onça, os estudantes foram além da construção de uma tabuleiro e peças. O material produzido por eles garante aos futuros jogadores um desenvolvimento do raciocínio lógico e habilidade de resolução de problemas, sendo atividades aplicáveis em qualquer área do conhecimento. Não é só o ato de jogar, é um processo de exercitar possibilidades”.
Além do coordenador, professor Cristiano Ferreira, o Laboratório IF Maker Juruá conta ainda com seis estudantes bolsistas: Eduardo Farias, Lilian Morais, Ana Clara Sampaio, Samuel Rufino, Ana Cristina Silva e Alik Rodrigues, que atuam em projetos distintos, porém vinculados ao espaço maker do campus Cruzeiro do Sul.
“Por mais que os bolsistas sejam de projetos distintos, a equipe é bastante integrada e se ajuda constantemente. Dessa forma, os nossos estudantes vinculados ao IF Maker Juruá participam de todas as atividades em que o laboratório está envolvido”
Aldeia de índios Tapuios cristãos, 1820. Imagem: Johann Moritz Rugendas
“Tem pataqueira, tem patchouli, o famoso bogarim, baunilha, cheirosa, a famosa priprioca, banzeiro de pororoca…”.
Assim como na cultura e tradição paraenses, a letra de Banzeiro, de Dona Onete, fala sobre o costume que passa de geração em geração, do famoso “banho de cheiro”. No entanto imagina só se todas as erveiras do Ver-o-Peso fossem presas e condenadas por estarem exercendo seu trabalho, com alegações de se tratar de “bruxaria” e “feitiço”. Em artigo intitulado “Joana Maria: A feiticeira negra denunciada ao Santo Ofício da Inquisição no Grão Pará (1763-1769)”, a pesquisadora Juliane Souza conta a história de Joana Maria, uma escravizada negra que foi denunciada à Santa Inquisição pelo seu “senhor”, que a acusou de práticas de “feitiçaria”.
Joana foi levada a confessar para a Santa Inquisição o uso de “feitiços”, ervas e raízes, com o principal propósito de “amansar” seus senhores, a fim de “suavizar o coração” e amenizar os castigos sofridos. O artigo conta, ainda, a tentativa de um “feitiço” de Joana sobre uma mulher indígena que trabalhava com seu “senhor”: Filipa, para a qual Joana lhe fazia os “feitiços” com o intuito de conseguir uma aproximação com a indígena, fazendo com que, assim, o seu “senhor”, Gonçalo José, fosse mais brando nos castigos utilizados com a escravizada.
“Dentro do meu relatório, eu trabalhei muito em cima da trajetória da Joana Maria. Ela faz uma magia contra uma indígena do mesmo engenho em que ela era escravizada. Ela fez isso porque queria a afetividade dos senhores, para que pudesse fugir dos castigos que ela sofria cotidianamente no tronco”, conta a pesquisadora sobre o recorte de sua pesquisa.
Redes de sociabilidades com um único propósito: sobrevivência
A pesquisa de Juliane consistiu no destrinchamento de documentos sobre o processo que foi movido contra Joana Maria, buscando entender parte de sua vida e da sociedade e a cultura material em que estava envolvida. Para o estudo, foi utilizada a metodologia da micro-história, com enfoque na historiografia da Inquisição no Estado do Grão Pará, para compreender as experiências das mulheres racializadas que habitavam o espaço colonial e eram rotuladas pela sociedade como feiticeiras. A pesquisadora analisou os documentos registrados nas denúncias inquisitoriais do Livro da Visitação do Santo Ofício da Inquisição ao Estado do Grão Pará (1763 – 1769).
O trabalho, que se insere na temática de história inquisitorial, tratou de visibilizar mulheres negras que estavam localizadas em um mundo permeado de perigos, fazendo com que se sucedesse à procura de magias de proteção e cura. No início, Juliane fez um recorte somente das mulheres negras que faziam sua própria rede de apoio com relação aos castigos promovidos por “seus senhores”. “Eu queria entender como era a relação de sociabilidade dentro dos grupos sociais, femininos e negros, como elas construíam essas práticas mágico-religiosas dentro de uma teia de relacionamentos que elas criavam para poder se proteger”.
Como resultado, a pesquisadora constatou que mulheres negras e indígenas faziam feitiços na tentativa de amenizar seus castigos e, assim, acabavam também construindo relações de sociabilidade multiétnicas com um propósito comum. ”Percebi que as mulheres negras estavam intimamente ligadas a mulheres indígenas, ora em relação de conflito, ora em relações de afetividade e solidariedade, e eu queria entender como essas relações eram construídas. O resultado da pesquisa é que essas mulheres construíram essa relação de sociabilidade multiétnica e criaram teias de relacionamento multissociais para poderem sobreviver às condições adversas do dia a dia”.
Pesquisadora Juliane Souza – Foto Alexandre de Moraes
Neta de avó curandeira, benzedeira e puxadeira, Juliane de Miranda Souza tem 20 anos e cursa Licenciatura em História. Participa do Grupo de Estudos e Pesquisa Amazônia Colonial (Gepac) e do Grupo de Pesquisa de História Indígena e do Indigenismo na Amazônia (Hindia), além de participar do Grupo de Pesquisa Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade e cultura, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Juliane pretende seguir na carreira acadêmica, dando continuidade aos seus estudos nos cursos de mestrado e doutorado para, consequentemente, chegar à docência. Em seu tempo livre, gosta de fazer ciclismo, aventurar-se na cozinha e tomar banho de rio. Sua dica para mulheres que desejam ingressar na pesquisa é: “Encontre um assunto de que goste e que acha que tenha algum impacto positivo para sua comunidade. Isso é essencial para não desistir no meio do caminho, mesmo que encontre dificuldades”.
O artigo surgiu de um trabalho anterior de que Juliane participou, em que foram pesquisados trabalhos de amor dentro de um terreiro de mina do bairro Guamá, em Belém. A ideia da pesquisa veio com a prática de uma disciplina na faculdade.
*Conteúdo publicado originalmente pelo jornal Beira do Rio Ed.173 – Dez/Jan/Fev 2024-2025
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram o apoio do Fundo Amazônia, com cerca de R$ 39 milhões, a pequenos produtores rurais e extrativistas das cadeias de óleos vegetais, açaí e pescado, no Amazonas. O projeto será executado pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc) em articulação com outras quatro associações do médio Juruá (AM), beneficiando 2,4 mil famílias (mais de 10 mil pessoas) em cerca de 76 comunidades da região.
Com a iniciativa, o governo federal atua para fortalecer e consolidar cadeias socioprodutivas sustentáveis e o comércio ribeirinho na região do rio Juruá, onde comunidades isoladas levam até 52 horas de viagem para chegar aos centros urbanos. O projeto vai promover o fortalecimento das organizações comunitárias, a diversificação da produção extrativista e a expansão de oportunidades de comercialização e geração de renda.
O apoio do Fundo Amazônia, com recursos não reembolsáveis, contribui para elevar a qualidade dos produtos da região, com investimentos em beneficiamento e armazenagem, em equipamentos de transporte e na capacitação de cerca de 1.190 pessoas para a prática e gestão de atividades econômicas sustentáveis. Está prevista ainda a implantação de sistemas agroflorestais (SAFs), prioritariamente em áreas degradadas, e o manejo florestal de 1,8 milhão de hectares.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destaca o impacto do projeto na economia local, com o fortalecimento de populações e sua manutenção no território, a partir da implantação dos sistemas agroflorestais e do fortalecimento de manejo pesqueiro na região. “Esse projeto vai aprimorar os processos produtivos agroextrativistas e contribuir para preservar uma área da Amazônia geograficamente bastante isolada e que apresenta grande biodiversidade”, afirmou Mercadante.
Um dos beneficiados é Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário. Criada pela Asproc há cerca de 15 anos, o Comércio Ribeirinho é uma tecnologia social que consiste no transporte de produtos ribeirinhos e outros entre comunidades, via balsa, e possibilita o atendimento a mais de 600 famílias em 55 comunidades do município de Carauari, criando oportunidades de produção e renda aos associados. Nesses mesmos polos de comercialização, os produtores podem adquirir mercadorias para consumo familiar, sem a necessidade de longos deslocamentos até as cidades.
Foto: Robson Cunha
Com o novo apoio do Fundo Amazônia, o Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidária será fortalecido com a construção de entreposto fluvial, limpeza e recuperação de estradas vicinais, limpeza e desobstrução de igarapés, ampliação reforma de entrepostos para dar melhores condições para as comunidades e fortalecer as atividades econômicas na região.
Segundo o presidente da Asproc, Ecivaldo Dias, as cadeias de valor coordenadas pela associação geram resultados de impacto direto na renda familiar do extrativista, na conservação dos recursos naturais e na garantia do território.
“O desafio histórico das organizações de base é receber apoio público para investir nos processos produtivos sustentáveis de resultado direto na região de atuação. Essa parceria com o BNDES, por meio do Fundo Amazônia, é uma oportunidade excepcional para fortalecer o protagonismo das populações tradicionais na proteção da biodiversidade por meio da consolidação das cadeias produtivas locais e do desenvolvimento territorial, com foco na inclusão social, política e econômica de quem, de fato, pode mudar o destino da Floresta Amazônica”, pontuou.
Foto: Robson Cunha
Fundo Amazônia
Sob gestão do BNDES e coordenação do MMA, o Fundo tem uma carteira de 125 projetos apoiados, no valor total de cerca de R$ 3 bilhões. Mais de 650 instituições ano país, beneficiando 239 mil pessoas com atividades produtivas sustentáveis e garantindo o manejo sustentável de 75 milhões de hectares de área de floresta.
As informações completas sobre os projetos apoiados estão disponíveis no site do Fundo Amazônia.
Extrativismo sustentável
A Asproc é uma associação sem fins lucrativos com sede em Carauari (AM), criada em 1994. Atualmente, com 943 famílias associadas e 4,1 mil pessoas de 46 comunidades, ela é exemplo de organização extrativista sustentável da região amazônica.
Para os fins da implementação do projeto apoiado com recursos do Fundo Amazônia, a Asproc se articulou com outras quatro organizações de produtores do médio Juruá: a Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), a Cooperativa Mista de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária da Reserva Extrativista do Médio Juruá (Codaemj), a Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá (Astruj) e a Associação do Povo Deni do Rio Xeruã (Aspodex).