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Três sítios arqueológicos para conhecer a história de Roraima

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Gravuras rupestres no sítio Arara Vermelha. Foto: Marta Sara Cavallini

O estado de Roraima abriga diversos patrimônios arqueológicos que ajudam a contar a história de milhares de anos da região e revelar formas de ocupação humana, práticas culturais, rituais e modos de vida dos povos originários.

Atualmente, o estado possui 491 sítios arqueológicos registrados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e cadastrados no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG), banco de dados oficial do órgão.

“O sítio arqueológico tem a ver, primeiro, com a ideia de local, de uma coordenada geográfica, latitude e longitude, que apresenta vestígios de ocupação pretérita, anterior ao período colonial, o que também chamamos de pré-colombiano ou paleoameríndio”, explicou o doutor em geografia Deivison Molinari ao Portal Amazônia.

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De acordo com Molinari, os sítios arqueológicos guardam cemitérios, sepulturas, cerâmicas e artefatos que denunciam a moradia e o estilo de vida de povos antigos. A definição legal desses bens está prevista na Lei Federal nº 3.924, de 1961, que dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos no Brasil. Conheça três desses locais encontrados em Roraima:

Sítio Arara Vermelha 

O sítio Arara Vermelha, também conhecido como Pedra do Sol, fica localizado no município de São Luiz do Anauá, ocupando uma área de 23,7 hectares. Descoberto entre 2024 e 2025, o local possui datação aproximada de 9.400 anos atrás, o que o torna um dos mais antigos do estado.

Descoberto através de um estudo da Universidade de São Paulo (USP), o sítio foi identificado como o primeiro do Brasil com evidências de granito lascado manuseado por povos indígenas pré-coloniais. O granito, pedra natural que se forma dentro da terra ao longo de milhões de anos, era utilizado na produção de artefatos e ferramentas. 

O sítio, formado por um morro de granito com aproximadamente 38 metros de altura e por uma área plana no entorno, é coberto por rochas com 132 m² que reúne cerca de 17 hectares de rochas gravadas.

Leia também: Primeiro sítio arqueológico do Brasil com sinais de granito lascado é encontrado em Roraima

Sitio arqueológico Arara Vermelho
Sítio arqueológico Arara Vermelho. Foto: Marta Sara Cavallini

“As pinturas, que são chamadas de gravuras rupestres, eram feitas em uma rocha do tipo sedimentar, conhecido como arenito. Então as pedras possuem vários riscos e desenhos, tanto zoomorfos, formas de animais, quanto antropomorfos, desenhos de pessoas”, explicou Molinari. 

De acordo com o pesquisador, o sítio Arara Vermelha remete um pouco à história da arqueologia da Amazônia, além de ser considerado estratégico para a arqueologia amazônica por estar associado a um depósito sedimentar bem preservado, com alto potencial de novas descobertas.

Apesar da importância histórica, o Arara Vermelha enfrenta ameaças constantes, já que a região é usada para criação de gado e a prática da queima de áreas de mata para formação de pasto danificou blocos de granito com gravuras rupestres e comprometeu parte do entorno do sítio.

Sítio Pedra Pintada 

O sítio arqueológico Pedra Pintada, localizado na Terra Indígena São Marcos, no município de Pacaraima, data de cerca de 4.000 anos atrás e é considerado o mais simbólico de Roraima. Trata-se de um grande bloco de granito com uma caverna na base e três áreas principais de pinturas rupestres.

Sítio arqueológico da Pedra Pintada. Foto: Reprodução/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

As pinturas se dividem em área de caverna, painel principal e mesa de pedra (localizado em um lugar de difícil acesso conhecida pelo eco que produz em outras áreas do sítio). Essas pinturas possuem formas geométricas como círculos, retângulos, linhas e retas, que teriam sido desenhadas com a ajuda de escadas ou andaimes improvisados, já que estão a mais de 10 metros do solo. 

Considerado sagrado pelos povos indígenas da região, o sítio revelou, em escavações realizadas na década de 1980, fragmentos cerâmicos, artefatos líticos, restos de alimentação, objetos de adorno, sementes, vestígios de cestaria, pigmentos minerais e sepultamentos. 

Leia também: Conheça três sítios arqueológicos na Amazônia que são considerados patrimônio cultural do Brasil

Ruínas do Forte São Joaquim do Rio Branco

O conjunto das Ruínas do Forte São Joaquim do Rio Branco, localizado em Bonfim, na confluência dos rios Uraricoera e Tacutu, foi construído em 1775, para evitar invasão dos espanhóis, ingleses e holandeses. O forte foi tombado em nível federal no estado por representar a ocupação portuguesa no norte do Brasil. 

Erguido pelo engenheiro alemão Phelippe Frederico Stürm, com mão de obra indígena, o entorno do forte deu origem aos primeiros aldeamentos que resultariam na atual cidade de Boa Vista.

Com uma área total de 25.738,47 metros quadrados, viviam na região cerca de 1019 indígenas das etnias Paraviana, Wapixana, Sapará, Atruarí, Tapicarí, Uaiumará, Amaripa e Pauxianá. 

Forte São Joaquim do Rio Branco vista de cima. Foto: Divulgação

O forte foi oficialmente tombado pelo Governo de Roraima, conforme a Portaria MINC nº 100, de 4 de dezembro de 2017 e homologado em 2023, utilizando o Decreto-Lei nº 25/1937.

Atualmente o lugar se encontra em ruínas, já que muitas pedras, balas de canhões e diversos vestígios arqueológicos foram roubados ao longo dos anos, fazendo com que a vegetação ocupasse novamente a área. 

Além disso, o local se encontra abandonado e fechado para visitação por motivos de segurança e para evitar maior degradação e saques de seus vestígios arqueológicos que ainda restam no local. 

*Com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

Crise do café em Manaus de 1968: dificuldade de acesso e abastecimento vulnerável

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Embora muito consumido em Manaus, o café não era produzido na cidade. Foto: Jéssica Campo/ Seagri-Rondônia

Em 1968, a cidade de Manaus (AM) enfrentou uma crise incomum e marcante: a escassez de café. O produto, presente diariamente na mesa das famílias, desapareceu das prateleiras por várias semanas, provocando filas, reclamações e dificuldades para comerciantes e consumidores. A falta do grão se tornou um dos episódios mais lembrados da história do abastecimento da capital amazonense.

Leia também: A história do café adaptado à Amazônia

A crise não teve relação com a produção agrícola — já que a Amazônia não era produtora de café —, mas sim com falhas na logística nacional. Manaus dependia quase exclusivamente de remessas enviadas a partir de outras regiões do país. Qualquer atraso, interrupção ou desvio nessas viagens fluviais e marítimas afetava diretamente o consumo dos moradores da capital.

Com a interrupção das remessas regulares, os estoques ficaram reduzidos a ponto de muitos mercados registrarem prateleiras completamente vazias. Famílias relatavam dificuldade em encontrar o café e comerciantes não tinham previsão sobre quando seriam reabastecidos. O episódio expôs, com clareza, a vulnerabilidade logística das cidades amazônicas na década de 1960.

O problema só foi resolvido quando um grande carregamento chegou à cidade. O navio ‘Cidade de Manaus’, partiu de Belém (PA) com cerca de 20 mil sacas de café e normalizou o abastecimento na capital amazonense. Após semanas de escassez, a população pôde finalmente adquirir o produto novamente, encerrando o período de falta total, que durou cerca de 20 dias, segundo registros dos jornais da época.

Publicação do jornal A Crítica em 4 de maio de 1968 fala sobre a chegado do Navio com carga de café. Foto: Reprodução/Acervo Durango Duarte

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Origens da crise de abastecimento de café

A economia cafeeira brasileira sempre esteve concentrada no Sudeste, enquanto regiões como a Amazônia dependiam de remessas organizadas por órgãos federais e transportadas por longas rotas fluviais. Na década de 1960, essa estrutura apresentava deficiências significativas: atrasos, problemas operacionais e denúncias de má distribuição ocorriam com recorrência na região Norte, além de até mesmo suspeitas de que cargas destinadas estavam sendo desviadas em outros portos.

Leia também: Você sabe quais tipos de café a Amazônia mais produz?

Esses fatores combinados criaram o cenário para a crise de 1968. A falta de café em Manaus não era resultado de falta de produção, mas consequência direta de problemas na distribuição.

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Foto: Irene Mendes/Secom RO

A perspectiva histórica

O episódio da falta de Café e, Manaus é frequentemente citado como exemplo das dificuldades enfrentadas pela Amazônia durante grande parte do século XX nos livros de história local. A distância dos centros produtores e a dependência quase total de rotas fluviais tornavam o abastecimento vulnerável a qualquer interrupção.

Em 1968, o episódio foi discutido inclusive no Senado Federal e registrado nos anais da casa. O então senador Pedro Carneiro, em Belém (PA), destacou o problema que a capital amazonense passou naquele ano. No documento (página 68) ele justifica:

“Em Manaus, a falta chegou a ser total, gerando – o que pode parecer surpreendente para quem não mora na Amazônia, mas já é habitual para os que lá se encontram – o espetáculo de faltar café em território do país que mais produz café. E, nesse caso particular, a crise é mais surpreendente porquanto a comercialização do café cru continua a ser exclusividade do Instituto Brasileiro do Café, para evitar o descaminho. Apenas, ao que parece, atrasou-se o navio que iria recompor o estoque do IBC. Acontece, porém, que o atraso de navios, na rota Sul-Norte, está se tornando freqüente, registrando-se, inclusive, longas viagens de até três meses para Belém ser alcançada. A navegação de cabotagem, que foi grandemente aliviada com o tráfego regular, pela rodovia Belém-Brasília, realmente milagrosa para o abastecimento da Amazônia, parece ter voltado às velhas dificuldades”.

Essa fala evidencia o contraste histórico vivido pela cidade: mesmo em um país líder mundial na produção de café, a região amazônica podia enfrentar longos períodos sem o produto devido a fragilidades estruturais.

Quando o carregamento finalmente chegou a Manaus, a normalização do abastecimento foi rápida. Os mercados voltaram a oferecer o produto e o cotidiano dos moradores pôde ser retomado. Embora a crise tenha sido temporária, ela deixou um marco histórico sobre como a dependência logística podia afetar profundamente a vida das pessoas.

Para o pesquisador da Embrapa Ocidental, Alfredo Homma, a crise do café em Manaus no ano de 1968 foi fundamento para que a sociedade local se organizasse para evitar outras crises futuras no âmbito de produtos agrícolas

“Durante o ano de 1968, destacou-se a criação da Associação dos Empresários da Amazônia (AEA), que exerceu enorme influência no processo de ocupação da Amazônia, o início dos cultivos de dendezeiros no município de Benevides por meio de convênio entre Sudam e Institut de Recherche pour les Huiles et Oleagineux (IRHO), dos plantios de gmelina no Projeto Jari e a abertura da Rodovia Cuiabá-Porto Velho. Ocorreu, também, a fundação da Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (Sopren), a terceira organização não governamental (ONG) mais antiga do País, com alguns eventos importantes”, destacou o pesquisador em sua obra ‘Notícias de Ontem – Comentários sobre a Agricultura Amazônica’.

Antropóloga paraense defende mestrado sobre mulheres negras em terreiros de Candomblé

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Tema foi objeto de estudo da pesquisadora Fiama Góes, da UFPA, que se baseou nas atividades do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, que fica em Belém. Foto: Reprodução/Instagram-Profa.fiamagoes

A compreensão das dinâmicas territoriais e de sociabilidade de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé de Angola foi tema de estudo da antropóloga Fiama Góes, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), na dissertação de mestrado ‘DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade‘.

Por meio das vivências, dos saberes e das perspectivas individuais e coletivas de mulheres negras, Fiama Góes descreve os passos e a rotina dentro do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, localizado na periferia de Belém (PA), no bairro Terra Firme. Fora dele, ela observa as redes e os compartilhamentos entre o terreiro e a vida em comunidade dessas mulheres e seus projetos políticos sociais.

No estudo, o terreiro é apresentado como um quilombo urbano, um princípio ideológico de resistência cultural, em que as relações são estruturadas no matriarcado, de acordo com as vivências, pelos filhos e filhas da casa.

Mulheres “cuidam” das pessoas e perpetuam saberes ancestrais

No Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, a autora identifica uma estrutura hierárquica contra-hegemônica, que valoriza o saber e o poder de mulheres negras e se organiza pela mobilidade: ninguém permanece estagnado, evolui-se conforme tempo e conhecimento. O cuidado com os mais jovens e com os mais velhos é um princípio central, conduzido pela sacerdotisa Mam’etu Muagilê (Mãe Beth), mulher negra, quilombola e ativista.

“Ao participar dessa outra forma organizacional, o primeiro sentimento que tive foi o de estranhamento, dado que, na cultura ocidentalizada, não aprendemos a valorizar as pessoas responsáveis pelo cuidado, as quais, normalmente, são mulheres e são tratadas como subalternizadas (…) Por outro lado, dentro do terreiro, quem assume os ‘cargos de cuidado’ são pessoas consideradas autoridades da casa e estão em posições hierárquicas de notoriedade perante a família de santo”, relata a autora.

Leia também: De banho de cheiro à feitiçaria: as estratégias mágico-religiosas de mulheres negras e indígenas na Santa Inquisição

A obra destaca a centralidade da sabedoria ancestral, política e social da matriarca, que orienta a comunidade e guia o crescimento espiritual dos Filhos de Santo, um processo que exige abandonar vaidades e aprender, em pequenas tarefas cotidianas, com obediência e respeito aos mais velhos. Essa lógica revela que o terreiro se organiza não apenas por hierarquia, mas também,  sobretudo, por um sistema comunitário, no qual o reconhecimento no outro e as redes de apoio formadas no dia a dia sustentam a vida dentro e fora do barracão.

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O Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara valoriza o poder e os saberes de mulheres negras. Foto: Acervo de pesquisa/Jornal Beira do Rio

Ibamca como prática social criada no terreiro

Verificou-se, na pesquisa, como as vivências internas do terreiro dialogam com as realidades externas de seus integrantes, fortalecendo a construção da história do povo preto com base nas estruturas ancestralmente organizadas na roça. Esse vínculo se materializa no Instituto Bamburusema de Cultura Afro- Amazônica (Ibamca), criado para atender à comunidade do terreiro e à população afro-amazônica das periferias e ilhas de Belém, especialmente da Terra Firme.

A necessidade de fundar o instituto surge, justamente, porque, devido a estruturas político-sociais persistentes, o terreiro ainda não é reconhecido como um espaço legítimo para ações sociais apoiadas pelo poder público.

Com base nas vivências e no diálogo com as oito mulheres negras, entre as quais, a sacerdotisa Mam’etu Muagilê e outras sete Filhas de Santo pertencentes ao terreiro, Fiama Góes observou como se constroem as redes e os compartilhamentos com a realidade exterior transformada pelas subjetividades de algumas mulheres que integram e são mantenedoras dessas redes.

A autora conclui que a separação entre o Ibamca e o terreiro é apenas simbólica, já que os projetos sociais do instituto nascem da própria casa de santo e de seus princípios de comunidade, solidariedade e cuidado. Desde sua criação, em 2004, o Ibamca realizou ações sociais, como distribuição de cestas básicas, exames e apoio para retirada de documentos, além de projetos culturais, como Capoeira Angola, Cine Bamburusema, Pretinta, entre outros. Em 2023, recebeu o reconhecimento de Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Ainda assim, a burocracia segue sendo um obstáculo histórico para a obtenção do CNPJ.

Antropóloga Fiama Góes com seu diploma de mestrado. Foto: Reprodução/Instagram-profa.fiamagoes

Segundo a pesquisa, o conhecimento técnico das Filhas de Santo foi essencial para que o terreiro acessasse políticas públicas de incentivo por meio do Ibamca, colocando a comunidade em espaços dos quais o povo preto costuma ser excluído. Como advogada e integrante da casa, a pesquisadora assumiu o compromisso de apoiar a regularização do instituto, articulando parcerias com organizações especializadas nesse trabalho.

Para Fiama Góes, a perspectiva comunitária vivenciada dentro do espaço de aquilombamento, como é a casa de santo, é que move o terreiro e o Ibamca a trabalhar em prol do povo preto.

“Compreende-se que o terreiro, a associação, a família de santo, os filhos e filhas da casa, de modo individual ou coletivo, podem contribuir para a expansão de redes de apoio que conseguem alcançar toda a comunidade preta que está sofrendo na diáspora, por não se ver pertencente ao corpo social ocidental, posto que é uma parcela sempre colocada à margem de direitos”, relata a autora.

Sobre a pesquisa

DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidadefoi apresentada por Fiama Góes, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), em 2023 , com orientação do professor Rodrigo Correa Diniz Peixoto.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Keila Gibson

Sítio-escola reúne artefatos de povos antigos de Barcarena durante pesquisa de campo

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Durante a pesquisa coordenada pela UFPA e o MPEG, pesquisadores encontraram objetos que remontam à história de antigos habitantes da região. Foto: Divulgação/MPEG

Cacos de cerâmica, conchas, restos de ossos e pequenos objetos esculpidos em pedra podem ser testemunhos da história de povos que viveram sobre determinados territórios milhares de anos atrás. Esses e outros vestígios são o foco das pesquisas de campo do sítio-escola de arqueologia realizado na Comunidade do Jacarequara, na Ilha de Trambioca, em Barcarena.

Fruto de uma parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA), o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e instituições internacionais, a pesquisa de campo identificou artefatos que remontam à importância do lugar para a moradia e a realização de festas e rituais por parte de seus antigos habitantes. 

Desde 2012, o Museu Emílio Goeldi vem realizando pesquisas sobre o Sítio Sambaqui Jacarequara que permitiram estimar uma antiguidade de 2.700 anos para a ocupação, graças ao achado de amontoados de conchas, terra preta com cerâmicas, ossos, sementes, carvões e objetos de pedra.

Leia também: Guardiões da cultura ancestral são destaque em dossiê do Boletim do Museu Goeldi

Pesquisa de campo

Atualmente, a região é investigada pelo Projeto “Florestas Culturais e Territorialidades na Amazônia Oriental Pré-Colonial”, coordenado pelos professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA (PPGA/UFPA) Daiana Travassos Alves e Pedro José Tótora da Glória; e pela professora do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do MPEG (PPGDS/MPEG) Helena Pinto Lima.

Como parte desse trabalho, em 2024, o local foi selecionado para receber o sítio-escola, realizado este ano, o que possibilitou somar conhecimentos aos estudos iniciados anos atrás.

“A arqueologia se constrói a partir de questões e hipóteses. No caso do Jacarequara, estas tiveram início com as pesquisas da arqueóloga aposentada do Museu Goeldi Maura Imázio da Silveira. Agora, podemos refinar e ampliar os questionamentos e as hipóteses sobre a formação do sítio e o modo de vida de seus habitantes”, explica a professora Daiana Travassos Alves.

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Entre os materiais coletados nas escavações, estão artefatos cerâmicos, líticos e em osso. Além deles, a professora aponta que foi possível coletar muitos restos de fauna aquática e terrestre, assim como plantas carbonizadas.

“Fizemos amostragens de solo para múltiplas análises: de geoquímica e de micromorfologia, para entender os tipos de alterações humanas no local, na formação do sítio; e de arqueobotânica, para compreender o componente vegetal nas escolhas alimentares, de medicamentos e construtivas”, comenta.

Foto: Reprodução/Instagram-Museu Goeldi

Com as pesquisas já realizadas, foi possível identificar o tipo de sítio encontrado naquela região. A professora Daiana Travassos explica que a construção de sambaquis é um fenômeno que ocorreu em áreas costeiras em todo o mundo, sendo os fluviais menos frequentes.

Leia também: Sambaquis: antigas moradias indígenas eram formadas por restos de animais e objetos cerâmicos

Na Amazônia, alguns dos sambaquis mais antigos são os fluviais, associados a processos em que importantes inovações tecnológicas se iniciaram, como a própria produção de cerâmica.

“No sambaqui Jacarequara, observamos múltiplos eventos de acúmulo de conchas na estratigrafia, somadas à presença de uma cerâmica que se assemelha tecnologicamente à encontrada nos sambaquis do salgado, mas com elementos decorativos encontrados em sítios arqueológicos do Marajó”, pontua.

A pesquisadora também destacou a alimentação dos povos que habitaram aquele território. Os achados de restos de fauna apontam uma dieta ampla com uma gama de pescados e caça, o que também revela que aquele era um território rico em biodiversidade.

A próxima etapa do projeto inclui a análise laboratorial dos achados. A professora Daiana explica que os primeiros cuidados de curadoria, que incluem a higienização e o inventário das peças, já foram realizados nas atividades de laboratório no sítio-escola. Agora, os trabalhos deverão envolver estudos aprimorados de arqueobotânica, geoquímica, zooarqueologia e análise cerâmica.

“A etapa deste ano respondeu importantes perguntas sobre o sítio Jacarequara, mas instigou novas perguntas, então planejamos retomar a pesquisa na comunidade ano que vem. Além disso, retornaremos para uma devolutiva à comunidade com os resultados preliminares”, explica

Para além da escavação

O sítio-escola também mantém uma preocupação educacional, apresentando aos estudantes os pressupostos básicos da pesquisa arqueológica, no que se refere tanto à pesquisa de campo, quanto à análise em laboratório do acervo coletado. 

“A formação de recursos humanos é um dos pilares do projeto. O sítio-escola proporcionou uma prática que os bolsistas do projeto não teriam se ficassem restritos aos estudos laboratoriais com coleções”, evidencia a professora Daiana Travassos Alves.

encontro sobre mudanças do clima acontece em belem no museu goeldi
Museu Paraense Emílio Goeldi, localizado em Belém, no Pará. Foto: Divulgação/Museu Goeldi

A aluna do PPGA/UFPA Gisele Rosa conta que esta foi a sua primeira experiência de prática arqueológica: “O sítio-escola proporcionou a mim e aos demais alunos a oportunidade de vivenciar a realidade de um trabalho de campo em Arqueologia. Colocamos em prática os conceitos que foram ensinados na sala de aula, além de atuar em atividades não abordadas na teoria, mas necessárias para a escavação do sambaqui”.

Gisele aponta que a dinâmica do sítio-escola permitia que os alunos experienciassem a prática em diferentes atividades, desde o mapeamento do local até a escavação do solo, a limpeza dos artefatos e dos sedimentos, a classificação dos vestígios e manipulação dos equipamentos de sensoriamento remoto, entre várias outras funções.

“A convivência com os colegas estrangeiros e com a comunidade de Jacarequara também foi bastante proveitosa, pois as trocas culturais enriquecem as formas de interpretar o registro material, apontando novos caminhos para as pesquisas”, explica.

Durante as escavações realizadas entre julho e agosto deste ano, foi possível identificar vestígios que podem trazer novas informações sobre o território e suas dinâmicas de ocupação.

“Encontramos algumas bases inteiras de peças, o que é interessante para a análise de amido, que verifica indícios de alimentos que eram armazenados nesses objetos. Também foram encontrados vestígios como conchas, ossos de animais e carvão. Essas populações utilizavam determinadas espécies vegetais para a produção de lenha, que era queimada nas fogueiras em que preparavam sua comida. Por meio de análises em laboratório, pretendemos identificar quais espécies são essas, assim como o exame dos ossos da fauna, encontrados no sítio, nos ajudará a saber mais sobre a alimentação dessas pessoas”, comenta a aluna.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Cintia Magno

Microgeradores para alimentar sistema de sensoriamento remoto na Amazônia é desenvolvido no Amazonas

Criado por Yurimiler Ruiz, protótipo alia tecnologia e sustentabilidade para alimentação de sensores adaptados à realidade da Amazônia. Foto: Ayrton Lopes/Fapeam

O professor de Física da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Yurimiler Leyet Ruiz, é responsável por um invento que atualiza o conceito de microgeração energética ao aliar tecnologia e sustentabilidade em equipamentos mais baratos e mais eficientes para alimentação dos sistemas de sensoriamento remoto adaptados à realidade da região amazônica.

“Microgeradores piezoelétricos são dispositivos capazes de transformar movimentos ou vibrações mecânicas em energia elétrica. Eles funcionam a partir de materiais especiais, chamados piezoelétricos, que geram eletricidade quando são pressionados, dobrados ou vibrados”, explica o professor.

Até hoje, os sensores de monitoramento ambiental em áreas remotas da Amazônia têm sido alimentados por dois meios tradicionais: as baterias convencionais e os painéis solares. A dificuldade de acesso e a baixa incidência de luz nas áreas cobertas pela floresta limitam a eficiência de ambas as fontes.

Esse é o problema que a equipe de pesquisadores busca solucionar ao propor o uso de tecnologias de conversão de energia adaptadas ao ambiente amazônico, capazes de aproveitar fontes locais, como as vibrações mecânicas naturais.

Leia também: Sensoriamento remoto é aliado à testes em campo para estudar efeito do fogo na savana amazônica

Além de sustentável, o protótipo criado sob a liderança do professor Yurimiler Ruiz – microgeradores construídos com materiais livres de chumbo – suporta a umidade da floresta tropical. Segundo o coordenador do projeto, a equipe desenvolveu sínteses químicas específicas para o contexto desta região.

“Combinando cerâmicas de titanato de bário e polímeros flexíveis (PVDF), criamos microgeradores adequados às condições de alta umidade, à difícil manutenção e à operação contínua”, detalha o pesquisador ao citar o emprego da sonoquímica, uma técnica que consiste em aplicar ondas de ultrassom para induzir, acelerar ou modificar reações químicas e processos físicos em materiais líquidos.

Os “microgeradores flexíveis” resultam da combinação entre cerâmica e polímeros e foram idealizados para aproveitar vibrações naturais do ambiente amazônico, como o vento, a chuva e os pequenos movimentos estruturais. A energia produzida por eles é usada para alimentar os sensores ambientais, dispositivos pequenos e de baixo consumo, o que acaba eliminando a necessidade da troca frequente de baterias nos locais de difícil acesso da região.

Microgeradores de baixo custo

“A pesquisa concentrou-se em criar e aprimorar protótipos de microgeradores piezoelétricos, responsáveis pela conversão de energia mecânica do ambiente em energia elétrica. Eles foram pensados para ser acoplados a sensores de monitoramento remoto já existentes, funcionando como uma fonte de alimentação alternativa e sustentável”, esclarece o coordenador do projeto.

Nesse sentido, os microgeradores apresentam um conjunto de vantagens em relação às clássicas tecnologias de alimentação utilizadas para energizar esses sistemas.

Em primeiro lugar está a adaptação ao ambiente amazônico. Isso porque, diferentemente dos produtos comerciais projetados para atuar em locais controlados ou urbanos, o equipamento foi desenvolvido para operar em condições extremas de umidade e acessibilidade, características típicas da Amazônia.

Outro avanço está nos materiais usados para construir o aparelho, que não apresenta chumbo em sua constituição e elimina a toxicidade ainda presente nos geradores comercializados hoje.

“Componentes poliméricos e cerâmicos sem chumbo reduzem os riscos ambientais e tornam essa tecnologia segura para uso em áreas de floresta ou em reservas naturais”, preservando a biodiversidade nesses locais, conforme assegurado pelo pesquisador Yurimiler Ruiz.

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Ainda segundo ele, outros dois diferenciais envolvem a resistência dos microgeradores e o baixo custo de produção. “Ao combinar cerâmicas piezoelétricas com polímeros flexíveis, temos um dispositivo menos quebradiço e mais resistente a vibrações contínuas e deformações, diferente de microgeradores cerâmicos tradicionais – que são rígidos e frágeis”, aponta o coordenador do projeto, ao sustentar que, de um lado, essa fragilidade reduz a vida útil dos microgeradores, de outro, requer mais manutenção.

Protótipo de microgeradores sustentáveis para alimentação de sensores remotos da Amazônia
Equipe que trabalha na pesquisa liderada pelo professor Yurimiler. Foto: Divulgação/Acervo pessoal Yurimiler

“[…] Os materiais desenvolvidos para os microgeradores devem ser vistos como uma tecnologia habilitadora, com potencial de integração a diferentes sistemas de geração e de uso de energia. Outro ponto importante é o papel da formação de pessoas. O projeto permitiu capacitar estudantes e jovens pesquisadores em técnicas avançadas de síntese, caracterização e desenvolvimento de dispositivos […]”, enfatiza o pesquisador Yurimiler Ruiz.

De fato, a equipe agrega cientistas de diversos níveis formativos, de graduandos a doutores, e alarga a fronteira da pesquisa aplicada nas áreas de engenharia e de ciência dos materiais.

Do ponto de vista financeiro, o novo dispositivo pode ser produzido a um custo menor.  Tanto os materiais quanto os processos empregados ajudam a reduzir os custos fabris e abrem a possibilidade de fabricação local ou nacional. Nesse contexto, é possível produzir em larga escala e, como ganho decorrente, reduzir a dependência de tecnologias importadas – que acabam sendo mais caras, pouco eficientes e não sustentáveis na comparação com o invento.

“Em relação ao custo do equipamento, a expectativa é que os microgeradores apresentem baixo custo unitário, pois utilizam materiais relativamente acessíveis, processos de fabricação simples e não dependem de componentes críticos importados. Esperamos que o preço seja significativamente inferior ao daquelas tecnologias comerciais atualmente utilizadas no sensoriamento remoto”, sintetiza o coordenador quanto ao aspecto econômico.

Leia também: Nova ferramenta criada no Amazonas analisa água e detecta metais pesados

Para esta fase de execução experimental, o projeto recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), além do auxílio indireto de outras entidades. “De forma indireta, o apoio de outras agências de fomento nacionais, especialmente a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] permitiu o pagamento de bolsas para alguns dos pesquisadores e estudantes envolvidos”, menciona o coordenador.

Pesquisador da Ufam desenvolve microgeradores para alimentar sistema de sensoriamento remoto na Amazônia
Foto: Ayrton Lopes/Fapeam

Aplicações ambientais e sociais

A alternativa tem o objetivo mais amplo de melhorar as condições de vida de comunidades isoladas, especialmente em regiões da Amazônia, onde o acesso à energia elétrica é limitado ou inexistente. De modo específico, a equipe já prevê quatro áreas de aplicação para o sistema autônomo criado na Ufam: em estruturas de monitoramento ambiental e territorial; para energizar dispositivos pequenos e de baixa potência (iluminação de emergência, sistemas de alerta, equipamentos de comunicação básica e aparelhos de monitoramento comunitário); para apoiar soluções descentralizadas e complementares a fontes renováveis, como a solar ou a eólica, aumentando a autonomia energética local; e, ainda, em aplicações comunitárias, onde pequenas quantidades de energia podem gerar impacto social significativo, a exemplo das escolas rurais e dos postos de saúde isolados.

O protótipo já foi submetido a testes em ambiente controlado de laboratório, etapas nas quais o grupo

conseguiu validar a capacidade de conversão de energia mecânica em energia elétrica. Testes em campo, diretamente em comunidades ou áreas remotas, estão no planejamento.

O aprimoramento do microgerador inclui ensaios em condições reais de uso, momento em que serão avaliados outros aspectos, como o desempenho técnico, o impacto social e a contribuição efetiva para a melhoria da qualidade de vida de populações amazônicas isoladas. As próximas fases envolvem o aprimoramento dos protótipos, a realização de testes em campo, a transferência de tecnologia e uma eventual produção escalada.

“De forma simplificada, o avanço está em transformar a ideia de microgeradores já conhecida em uma tecnologia mais sustentável, flexível, ambientalmente segura e adequada à realidade amazônica, com potencial para tornar sistemas de sensoriamento remoto mais autossuficientes e confiáveis em regiões onde as soluções tradicionais falham”, resume o professor Yurimiler Ruiz.

“Este projeto vai além do desenvolvimento de um protótipo específico. Ele representa a construção de uma base científica e tecnológica local, pensada a partir da realidade amazônica e voltada para soluções sustentáveis, seguras e socialmente responsáveis”, arremata ele.

*Com informações da Ufam

Estudo analisa viabilidade econômica e impactos da irrigação e da agricultura de do cacau amazônico

Fomentado pela Fapespa, estudo busca fortalecer a cadeia produtiva do fruto amazônico por meio do monitoramento em SAFs. Foto: Divulgação/Fapespa

A Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) aprovou o projeto “Viabilidade econômica de tecnologias agrometeorológicas como mitigação de cenários futuros de mudanças climáticas para o fortalecimento da cadeia produtiva do cacau da região Transamazônica“. A iniciativa, visa fortalecer a cadeia produtiva do fruto amazônico por meio do monitoramento em áreas de Sistema Agroflorestal (SAFs).

A proposta, aprovada na chamada nº 009/2022, do Plano de Bioeconomia (Planbio), é desenvolvida desde 2023 na região de Vitória do Xingu, próximo a Altamira, no estado paraense.

O projeto propõe avaliar a viabilidade econômica do cacaueiro, seminal (T. cacao) em condições irrigadas e em sequeiro, cultivado a pleno sol nas condições climáticas da região da Transamazônica.

E, ainda, avaliar a resposta agronômica que o cacaueiro apresenta em uma área de sistema agroflorestal (SAF) ao ser irrigado, em comparação a um SAF não irrigado, na região de Tomé-Açú.

O monitoramento das áreas é feito pela realização de experimentos de campo em locais de produção de cacau em áreas submetidas a irrigação e sem irrigação. E, segundo o pesquisador responsável, Dr. Paulo Jorge Souza, “a falta de informações técnicas prejudica o avanço da cadeia produtiva no Pará, o que é inaceitável para o Estado considerado o maior produtor nacional”. 

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Dr. Paulo Jorge Souza, professor responsável pela área de monitoramento do cacau
Área de monitoramento do plantio do cacau amazônico. Foto: Divulgação/Fapespa

Ainda de acordo com o pesquisador, apesar de o cacau possuir alta rentabilidade e importância social para a Amazônia, algumas lacunas técnicas, principalmente para o fortalecimento da cadeia produtiva, ainda não foram elucidadas, em especial, a necessidade de informações consolidadas quanto à viabilidade econômica do uso da irrigação nos diferentes arranjos que os agricultores locais utilizam, visto que essa informação é base para fomentos dos bancos para agricultura na região. 

Deste modo, os estudos buscam por dados reais, baseados em experimentação de campo, que podem melhor orientar os pequenos produtores quanto aos ganhos e vantagens, caso existam, em adotar o manejo da irrigação, principalmente, se considerarmos que eventos climáticos extremos, como secas mais severas e mais frequentes, que poderão ocorrer, futuramente, uma vez que o desequilíbrio climático é uma realidade mundial.

Estudos baseados em modelos climáticos indicam mudanças significativas no regime de chuvas na América do Sul nas próximas décadas. Projeções com o modelo RCP 8.5 Eta-HadGEM2-ES apontam para uma redução expressiva das chuvas do Norte ao Centro-Sul do Brasil, enquanto o extremo Sul do continente e o Noroeste da Amazônia devem registrar aumento das chuvas durante a estação chuvosa.

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Projeto de pesquisa do cacau também prevê estudos dos impactos climáticos na irrigação do cacau. Foto: Divulgação/Fapespa

Simulações em escala regional com o modelo RegCM4 reforçam esse cenário ao indicar diminuição da precipitação nos meses mais secos e aumento nos períodos mais chuvosos em áreas da Amazônia oriental.

Esse padrão de maior irregularidade das chuvas sugere que o uso da irrigação tende a se tornar cada vez mais necessário, especialmente em cultivos perenes, como o cacau, apontam dados referentes as pesquisas do projeto. 

“A Fapespa, enquanto órgão financiador e apoiador de pesquisas em nosso Estado, está sendo fundamental para a viabilidade da pesquisa e descoberta de informações técnicas só existentes em outros estados do País. Pesquisas básicas e aplicadas estão em consonância com o Plano de Bioeconomia do Estado, conforme estabelecido no seu plano de ação, eixo 1, que precisa gerar conhecimento técnico e científico para orientar e auxiliar no fortalecimento das principais cadeias produtivas do Estado, destacando-se a do cacau da região transamazônica”, destacou Paulo Souza. 

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Resultados

Em 2025, o grupo de pesquisa Interações Solo-Planta-Atmosfera na Amazônia (ISPAAM), coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Jorge (UFRA), participou de importantes congressos nacionais e internacionais como o XXIII Congresso Brasileiro de Agrometeorologia (CBAgro), que ocorreu em Porto Alegre, e o XI Simpósio Internacional de Climatologia (SIC) ocorrido em Belém. 

Nestes eventos, os estudantes vinculados à pesquisa, defenderam seus trabalhos gerados no âmbito projeto. Houve, também, a participação em importantes eventos, como na Feira do Cacau e Chocolate Amazônia, nos quais o professor Paulo Jorge apresentou quatro palestras.

Além disso, no primeiro semestre de 2025, tivemos a defesa de três dissertações de mestrado pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), cujos resultados foram apoiados pelo projeto em questão.

Grupo de pesquisa Interações Solo-Planta-Atmosfera na Amazônica (ISPAAM). Foto: Ascom/Fapespa

Em dezembro de 2025, o grupo de pesquisa realizou um encontro, no município de Altamira (PA), onde foram apresentados aos produtores locais, os principais resultados como parte dos objetivos e metas previstas no projeto.

Nesse encontro, cerca de 100 produtores e o público presente receberão uma cartilha técnica com informações essenciais sobre demanda hídrica do cacaueiro, coeficientes culturais, impactos do uso da irrigação na produtividade e viabilidade econômica da irrigação na região de estudo.

Importância do cacau

“O cacau é uma das principais cadeias produtivas do Pará e é uma cultura que dialoga fortemente com a agricultura sustentável, uma vez que a sua produção pode ser feita em sistemas agroflorestais que imitam uma floresta e, com isso, diminui o impacto sobre a biodiversidade daquela região. O Pará tem uma vocação natural para a produção de cacau, assim, a pesquisa, a ciência, a tecnologia agregadas à essa condição natural, fortalecem ainda mais o Estado e a sua capacidade produtiva, com agregação de renda e qualidade de vida para a nossa população, ainda mais porque o cacau é uma cultura que depende muito de mão de obra para sua colheita. Portanto, tem tudo a ver com aquilo que o Estado do Pará vem pregando, continuar produzindo com sustentabilidade”, destaca o presidente da Fapespa, Marcel Botelho.

*Com informações da Fapespa

Startup licencia tecnologia desenvolvida por universidade de Tocantins para combate à dengue

Tecnologia da UFT consiste no uso de planta com efeito antiviral contra o vírus da dengue. Foto: Divulgação/Acervo Inovato

A Universidade Federal do Tocantins (UFT) celebrou um licenciamento com exclusividade de tecnologia com patente concedida junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), marcando um novo capítulo na consolidação do ecossistema de inovação do estado.

A tecnologia licenciada refere-se ao uso de extrato da planta Chiococca alba (L.) com efeito antiviral contra o vírus da dengue, resultado de pesquisa científica desenvolvida no Campus de Gurupi da UFT e protegida pela patente BR 10 2018 071298-5, concedida em outubro de 2023.

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O licenciamento foi formalizado com a empresa Inovafhytos Cerrado Ltda, startup de base biotecnológica sediada em Gurupi (TO), selecionada por meio de oferta tecnológica pública nº 01/2025/INOVATO/UFT, conforme previsto no Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação e na política de Inovação da UFT.

O contrato garante à empresa o direito exclusivo de uso e exploração comercial da tecnologia em território nacional, respeitando critérios técnicos, jurídicos e econômicos estabelecidos em edital, assegurando transparência e interesse público no processo.

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Inovação

A Inovafhytos Cerrado pode ser caracterizada como uma spin-off acadêmica da Universidade Federal do Tocantins, uma vez que conta em seu quadro societário com Jaqueline Cibene Moreira Borges, egressa da UFT e autora da pesquisa que originou a tecnologia licenciada, bem como com o Prof. Dr. Raimundo Wagner de Souza Aguiar, docente da Universidade, que atua como cofundador da empresa e diretor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

A tecnologia licenciada é resultado de pesquisa desenvolvida no âmbito do doutorado da Rede Bionorte, conduzida por Jaqueline Cibene Moreira Borges sob a orientação do Prof. Dr. Raimundo Wagner de Souza Aguiar, no Laboratório de Biologia Molecular da UFT, no Câmpus de Gurupi, evidenciando a integração virtuosa entre a pós-graduação stricto sensu, a pesquisa científica e a inovação tecnológica.

Tecnologia é resultado de pesquisa desenvolvida no campus de Gurupi da Universidade Federal de Tocantins. Foto: Poliana Macedo/UFT

Esse modelo de transferência reforça o papel estratégico da universidade não apenas como geradora de conhecimento, mas como indutora do empreendedorismo científico, promovendo a transformação de resultados acadêmicos em soluções tecnológicas com potencial de impacto real na sociedade.

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Impacto regional, biotecnologia e saúde pública

Segundo Camila Oliveira Borges, representante legal da Inovafhytos Cerrado, o licenciamento representa um avanço significativo para a empresa e para o estado.

“Este licenciamento representa um marco para a Inovafhytos Cerrado e para o Tocantins, ao consolidar uma empresa de base biotecnológica local no desenvolvimento de fitoterápicos inovadores a partir de tecnologia gerada na universidade.”

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A tecnologia licenciada possui aplicação voltada ao desenvolvimento de formulações farmacêuticas antivirais, como cápsulas e comprimidos, com potencial contribuição para o enfrentamento da dengue, um dos principais desafios de saúde pública no país. Ao mesmo tempo, a iniciativa valoriza o uso sustentável da biodiversidade, promovendo soluções alinhadas à bioeconomia e à inovação responsável.

Startup licenciou tecnologia voltada para o enfrentamento da dengue. Foto: Divulgação

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Conhecimento com impacto social e econômico

O licenciamento exclusivo reafirma a atuação da Agência de Inovação da UFT (Inovato), por meio da Diretoria de Inovação e Transferência de Tecnologia (Ditt), na estruturação de processos maduros de valorização e transferência de ativos de propriedade intelectual. A operação segue integralmente as diretrizes institucionais e legais, garantindo segurança jurídica tanto para a universidade quanto para a empresa licenciada.

Segundo Claudia Cristina Auler do Amaral Santos, diretora de Inovação e Transferência de Tecnologia da UFT, o licenciamento representa um marco institucional relevante:

“Este licenciamento com exclusividade de uma patente concedida consolida a UFT como uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação madura e estratégica no fornecimento de tecnologias ao setor produtivo. A Universidade possui um portfólio diversificado e qualificado de ativos de propriedade intelectual, resultado de pesquisas desenvolvidas em diferentes áreas do conhecimento, e tem avançado de forma consistente na sua missão de transformar ciência em inovação com impacto social e econômico. Trata-se de um passo fundamental para o fortalecimento da transferência de tecnologia como política institucional e para a ampliação da inserção da UFT no ecossistema nacional de inovação.”

Além de fortalecer a bioeconomia regional, a iniciativa estimula o surgimento de empresas intensivas em conhecimento, amplia as oportunidades de inovação no interior do estado e posiciona o Tocantins como um território promissor para o desenvolvimento de biotecnologia aplicada a fitoterápicos.

Este é o segundo processo de transferência de tecnologia formalizado pela UFT. A primeira experiência ocorreu por meio de um licenciamento oneroso sem exclusividade, envolvendo uma tecnologia não patenteada e não patenteável, estruturada a partir da transferência de know-how.

O atual licenciamento, por sua vez, diferencia-se por envolver uma patente concedida, com licença exclusiva, evidenciando o amadurecimento institucional da UFT na gestão de ativos de propriedade intelectual e na condução de negociações tecnológicas mais complexas e estratégicas.

Mais informações sobre a tecnologia licenciada e outros ativos de propriedade intelectual da UFT estão disponíveis na Vitrine Tecnológica da Inovato.

*Com informações da UFT

Fofó de Belém? Bloco de carnaval é marcado por irreverência e animação na capital do Pará

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Foto: Divulgação

Foi em 1996, entre uma conversa de bar e o desejo de brincar o carnaval à moda antiga, que o multiartista e ícone cultural de Belém (PA), Elói Iglesias, criou o bloco Fofó de Belém. A primeira experiência foi intimista: uma festa para poucas pessoas embalada por charangas — aquelas bandas de sopro que ecoam os carnavais de outros tempos no Brasil. E o que começou tímido e pequeno ganhou corpo, voz e rua.

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Desde então, o bloco Fofó de Belém nunca deixou de acontecer. Cresceu, ocupou o espaço público, aumentou o número de brincantes e se consolidou como um dos blocos mais irreverentes da capital paraense, mantendo viva a essência do carnaval de rua raiz, democrático e popular.

O artista conta sobre a evolução do bloco e curiosidades dessa história:

Por que o bloco se chama Fofó de Belém?

Elói Iglesias: Fofó é um estado de espírito, um universo paralelo em que tu te reinventas através do carnaval. Significa irreverência, exagero, deboche, liberdade de expressão e brincadeira carnavalesca. Muitas vezes, está ligado a fantasias extravagantes, humor e sátira, quebra de normas de gênero e expressão artística e popular.

Quais dias o bloco geralmente sai às ruas da cidade?

Elói Iglesias: Nós saímos todos os domingos do pré-carnaval. Somos um bloco público, de rua, então nosso itinerário geralmente é a Cidade Velha. Inclusive, vamos começar o nosso pré-carnaval na Domingueira, por isso será o nosso primeiro grito carnavalesco.

Desde que o bloco começou até hoje, aumentou o número de brincantes?

Elói Iglesias: Ah, aumentou bastante. Somos um bloco de rua, e quem vai passando vai brincando com a gente. Acredito que desde janeiro as pessoas já estão ávidas pelo carnaval, para sair no início do ano, encontrar os amigos, dançar, bater papo.

Fofó de Belém em 2017
Fofó de Belém em 2017. Foto: Divulgação

Qual é o símbolo do bloco Fofó de Belém?

Elói Iglesias: O nosso símbolo é um urubu, que é um pássaro que mexe com vários imaginários da cidade.

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O que o público pode esperar do 1º grito de carnaval do Fofó de Belém na Domingueira?

Elói Iglesias: Um show bastante eclético, com tecnobrega, marchinhas antigas, marchinhas novas, músicas da Anitta, da Gaby Amarantos. É uma mistura de banda com charanga, bem paraense. Também vou cantar músicas autorais do meu álbum “Iguana Maldita” e sucessos como “Pecado de Adão”.

E qual a expectativa de tocar na Domingueira?

Elói Iglesias: A melhor possível. Nesse início de ano, já participar de uma programação gratuita é muito importante. Toda a programação está muito legal, pensada para as pessoas dançarem e se divertirem. Começar 2026 se divertindo é muito bom.

Com quase três décadas de história, o Fofó de Belém segue reafirmando o carnaval como espaço de encontro, liberdade e invenção — na rua, sem cordas e com muito deboche.

Fofó na Domingueira

A Domingueira é um projeto da Prefeitura de Belém, realizado por meio da Secretaria Executiva de Políticas Públicas e Bem-Estar Social (Sepes), e já se consolidou como uma das maiores políticas públicas da gestão municipal.

O Fofó de Belém é uma das atrações da Domingueira especial em comemoração aos 410 anos de Belém. O bloco promete muito fôlego e alegria no primeiro grito de carnaval 2026 da cidade. A festa gratuita é no domingo (11), a partir das 15h, no Portal da Amazônia.

*Com informações da Agência Belém

Intoxicação por mercúrio gera preocupação: pesquisa revela expressiva subnotificação na Amazônia

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Coleta de dados antropométricos na Vila Perdeneiras, em Tucuruí (PA). Foto: Divulgação/Acervo da pesquisa

Amanda Lopes Araújo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Bioquímica da UFPA (PPGFARMABIO), e a sua professora orientadora, Maria Elena Crespo López, têm dedicado as suas trajetórias na pesquisa ao estudo dos impactos socioambientais do mercúrio. Elas são as primeiras autoras do artigo “Environmental pollution challenges public health surveillance: the case of mercury exposure and intoxication in Brazil”, cujo principal objetivo foi avaliar o cenário das notificações de intoxicação por mercúrio no Brasil.

Para realizá-lo, as pesquisadoras precisaram analisar centenas de fichas fornecidas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), uma rede informatizada vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS) que reúne números de infecções e agravos notificados por enfermeiros, médicos e demais profissionais da saúde em todo o Brasil.

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“Fizemos uma busca ativa de quais eram os casos que estavam relacionados ao mercúrio e analisamos milhões de dados, desde 2007 até 2022. Foram dois pesquisadores trabalhando de forma independente”, conta Amanda Araújo. Os resultados foram preocupantes: segundo elas, há uma expressiva subnotificação de casos, sobretudo na região amazônica.

“Pescando” dados

Mesmo que os profissionais da saúde sejam obrigados, legalmente, a notificar casos de intoxicação por mercúrio, ainda não há uma categoria específica para esse tipo de questão no Sinan. Hoje, todas as notificações dessa natureza são adicionadas às fichas de “intoxicação exógena”, que podem ser quaisquer substâncias químicas, desde fármacos até agrotóxicos.

As pesquisadoras, então, precisaram procurar nas fichas já preenchidas desta categoria algum apontamento do mercúrio como agente tóxico, ou seja, como princípio dos sintomas que o paciente estava sentindo quando a notificação foi realizada. Durante a busca, foram utilizadas várias palavras-chave, como mercúrio, amálgama, azougue, bateria, Hg, lâmpada, pilha e outras.

O problema da subnotificação logo foi identificado. Conforme os dados mais recentes divulgados pelo Sinan, nos últimos dezesseis anos, apenas 668 casos de exposição ou intoxicação por mercúrio foram registrados em todo o país, um número muito baixo para uma população de mais de 200 milhões de habitantes e com o nível de emissões do Brasil, sobretudo quando a realidade apontada por estudos recentes, corroborados pela World Wide Fund For Nature (WWF) e citados na pesquisa, mostra a Amazônia como local onde se originam cerca de 80% de todas as emissões de mercúrio da América do Sul.

Para quem trabalha acompanhando diretamente povos contaminados pelo mercúrio, o “apagão” de dados parece ainda maior.

“Nós trabalhamos com populações ribeirinhas do Tapajós e de Tucuruí. Temos, aproximadamente, 1.000 participantes, e todos estão expostos ao mercúrio, alguns já intoxicados. Esses casos não estão no sistema. Além de ter a subnotificação, esses dados também são extremamente desatualizados. Existem dados de cinco anos atrás que ainda estão entrando no sistema”, aponta Amanda.

estudo detecta mercurio em peixes
Estudo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por exemplo, estudou a relação de peixes com o mercúrio. Foto: Gustavo Rodrigues/UEA

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As populações mais afetadas

No garimpo ilegal, o mercúrio é lançado na natureza quando transformado em vapor, quando os garimpeiros aquecem o metal líquido para separá-lo do ouro. A partir daí, o mercúrio gasoso passa a interagir com o ambiente e é capaz de adquirir formas ainda mais tóxicas, como o metilmercúrio, que se acumula em animais. Nesse ciclo tóxico, seres aquáticos como peixes, algas, tracajás, caranguejos e camarões, todos alimentos basilares para a dieta das populações tradicionais amazônicas, são os primeiros contaminados.

“Já que ele está exposto a altas concentrações daquele metal, a exposição do garimpeiro é aguda. Por isso começamos a ver os sintomas dele de forma mais imediata. Os primeiros são os neurológicos e os respiratórios. Já a população tradicional que come o peixe contaminado sofre uma exposição crônica, o que significa que os sintomas vão aparecendo de uma forma um pouco mais discreta e a longo prazo”, explica Amanda Araújo.

Em 2022, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto Evandro Chagas e da Universidade Federal de Roraima (UFRR) analisaram pescados coletados em três pontos da Bacia do Rio Branco, localizados na Terra Indígena Yanomami, e, segundo as análises, a contaminação por mercúrio era tão alta que não havia mais um nível seguro para consumo das espécies. 

Já em 2019, um estudo da Fiocruz com o povo Munduruku do rio Tapajós, no Pará, revelou que, de 200 indivíduos, seis, em cada dez participantes, apresentavam níveis de mercúrio acima dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No total, foram 196 indígenas contaminados pelo metal apenas nesse episódio, cujas intoxicações só foram notificadas, oficialmente, quatro anos depois.

Caminhos possíveis

Para Amanda Araújo, a subnotificação de casos acontece “de ponta a ponta”. Isto é, a lista de responsáveis engloba não só o órgão que elabora e recolhe as fichas como também os profissionais da saúde responsáveis por preenchê-las, principalmente em um contexto no qual a maioria deles não tem uma formação sobre o ciclo do mercúrio na biosfera e os seus efeitos no corpo-humano.

“Geralmente, a notificação oficial ocorre em cima de sintomas neurológicos, porque são os mais investigados. Mas o mercúrio não tem efeitos tóxicos associados somente ao sistema nervoso. Ele também afeta o sistema cardiovascular, o sistema renal, o sistema respiratório, e esses outros sintomas vão sendo associados a outros fatores que não o metal. Se o profissional de saúde que atendeu àquele paciente não relaciona o caso com o mercúrio, não tem como ir para a ficha do Sinan. Então o problema começa ali, na triagem dos pacientes”, expõe a bióloga. 

 Por isso, além da criação de uma ficha específica para os casos de intoxicação por mercúrio e a elaboração de um sistema informatizado melhor, Amanda enfatiza a importância de implementar políticas que aproximem os profissionais da saúde da realidade vivenciada pelas populações:

“Sempre falamos sobre a capacitação continuada dos profissionais. É preciso criar mecanismos para o biomonitoramento desse metal na Amazônia, proporcionar para as unidades notificadoras melhor infraestrutura e fazer ações integradas que envolvam a sociedade na tomada de decisões também, como criar materiais educativos e adaptá-los para diferentes comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas”.

A bióloga acrescenta, ainda, que mudar o quadro de subnotificação é urgente, na medida em que ele influencia diretamente a distribuição de verbas públicas para combater agravos na Região Norte. “Se eu não estou notificando os casos de intoxicação por mercúrio na Amazônia, é como se eu não tivesse esse problema aqui. Tudo isso acaba impactando a tomada de decisões e a distribuição de verbas para o enfrentamento do problema”, conclui.

Sobre a pesquisa – O artigo “Environmental pollution challenges public health surveillance: the case of mercury exposure and intoxication in Brazil” foi publicado no Periódico The Lancet Regional Health – Americas. Amanda Lopes Araújo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Bioquímica da UFPA (PPG Farmabio) e a professora Maria Elena Crespo López assinam a publicação como primeiras autoras.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Gabriela Cardoso

Contagem Anual de Morcegos é realizada por universidade em parque florestal em Mato Grosso

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Foto: Vitória Matheus e Rafael Arruda

O Câmpus de Sinop da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) realizou a Contagem Anual de Morcegos no Parque Municipal Florestal. A ação foi conduzida pelo Laboratório de Quiropterologia Neotropical, sob supervisão do professor Rafael Arruda, e integra a mobilização coordenada pela Rede Latino-americana e do Caribe para a Conservação de Morcegos (Relcom).

A iniciativa reúne pesquisadores, universidades e instituições de vários países para ampliar o conhecimento científico sobre morcegos e fortalecer ações de conservação.

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A Contagem Anual ocorre simultaneamente em diferentes locais do Brasil e de outros países da América Latina. Segundo o professor, a edição brasileira envolveu laboratórios e instituições em pelo menos 11 estados, cinco biomas e 24 pontos de amostragem.

Ele explica que a proposta surgiu como forma de unir produção científica e divulgação sobre a importância ecológica dos morcegos, com realização de atividades de educação ambiental durante o processo. A cada ano, novos grupos aderem ao esforço, ampliando a interação entre equipes de pesquisa do continente.

A inclusão de Sinop na rede internacional ocorreu após uma chamada pública organizada por um grupo de pesquisadoras do Rio de Janeiro, responsável por estruturar a participação brasileira no evento deste ano.

O Laboratório de Quiropterologia Neotropical do Campus respondeu ao edital e passou a integrar oficialmente a coleta coordenada de dados da Relcom, contribuindo para aumentar a representatividade das espécies brasileiras, antes ausentes nas bases internacionais da rede.

Em Sinop, o laboratório desenvolve pesquisas voltadas ao conhecimento da fauna de morcegos de Mato Grosso, tanto em áreas naturais quanto em ambientes urbanos. O grupo utiliza abordagens de ecologia, fisiologia, anatomia, morfologia e parasitologia para responder a questões sobre distribuição, abundância e interações ecológicas.

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pesquisa com morcegos fapeam arquivo Foto: Tamily Santos/Acervo pessoal
Foto: Tamily Santos/Acervo pessoal

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Conservação de morcegos

Os estudos também incluem a investigação de microorganismos associados aos morcegos, com interesse em agentes potencialmente zoonóticos, o que permite apoiar políticas locais de manejo e conservação.

Os dados coletados no Parque Florestal serão somados aos registros de outros países participantes da Contagem Anual. O conjunto resultará em uma lista continental de espécies, a ser publicada no boletim oficial da Relcom. No Brasil, será elaborado um “data paper” com a listagem de morcegos registrados em território nacional, ferramenta que deve apoiar pesquisas futuras e reduzir lacunas sobre distribuição espacial das espécies.

O Câmpus de Sinop integra o projeto por meio do compartilhamento dos dados coletados de forma padronizada com os demais grupos do continente e deve, em breve, formalizar filiação direta à rede. A atividade envolveu estudantes de graduação e pós-graduação. Todo o trabalho foi supervisionado pelo professor.

*Com informações da UFMT