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IA e sons subaquáticos revelam habitat crítico do peixe-boi amazônico

Inteligência artificial (IA) é usada para estudar os peixes-bois. Foto: Sônia Vill

Pesquisadores do Instituto Mamirauá, em parceria com a Universidade Politécnica da Catalunha, revelaram um habitat crítico do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) por meio de uma abordagem inovadora que combina monitoramento acústico passivo e inteligência artificial (IA). A pesquisa foi conduzida por Florence Erbs, Mike van der Schaar, Miriam Marmontel, Marina Gaona, Emiliano Ramalho e Michel André, e publicada na revista científica Remote Sensing in Ecology and Conservation, da Zoological Society of London (ZSL)

Devido à natureza discreta e ao comportamento esquivo do peixe-boi, métodos tradicionais de observação visual têm se mostrado ineficazes para monitorar a espécie. Para superar esse desafio, a equipe aplicou um modelo de Rede Neural Convolucional que detectou com alta precisão (até 98%) as vocalizações dos animais a partir de longas gravações subaquáticas, coletadas durante duas estações de cheia consecutivas nas várzeas da Amazônia brasileira, entre 2021 e 2022. 

O estudo analisou 226 dias de gravações, revelando que os peixes-boi estavam presentes de forma consistente, com vocalizações registradas em até 94% dos dias em 2021 e por até 11 horas diárias nos picos de atividade. 

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Chamados revelam presença de filhotes e uso reprodutivo do habitat 

As vocalizações — caracterizadas por alta frequência e repetição rápida — indicam uma forte possibilidade de interações entre mães e filhotes, reforçando a importância do local para a reprodução da espécie. A identificação da presença de filhotes é especialmente relevante considerando a baixa taxa reprodutiva do peixe-boi amazônico, o que torna qualquer informação sobre sua reprodução valiosa para estratégias de conservação.

Segundo Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, “a identificação de filhotes ao longo do tempo auxilia na compreensão acerca do período reprodutivo, e regiões, como as da Reserva Mamirauá, com presença regular de filhotes, apontam para uma área importante à espécie como local de reprodução e cuidado parental”. Ela destaca que “a proteção de tais áreas é fundamental, tanto para os adultos reprodutivos quanto para os filhotes que se incorporam à população atual”. 

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Este é o primeiro estudo a oferecer dados diários contínuos sobre a presença do peixe-boi ao longo das estações, fornecendo uma resolução temporal sem precedentes sobre o uso do habitat por esses mamíferos aquáticos. Embora a área monitorada tenha limitações quanto à replicação espacial — ou seja, não se pode garantir que os dados representem toda a população —, as evidências apontam para a importância ecológica do local estudado. 

Peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Foto: Reprodução/AMPA

A análise também sugere que o método pode ser útil para identificar rotas de migração da espécie, especialmente em função do pulso de inundação amazônico (o ciclo natural de subida e descida anual dos rios na Bacia Amazônica), o que permitiria avaliar os impactos da construção de hidrelétricas sobre a sobrevivência das populações. 

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Tecnologia acessível e promissora para a conservação 

A combinação de monitoramento acústico passivo com modelos de aprendizado profundo representa uma solução econômica, confiável e escalável, que pode ser aplicada a protocolos de longo prazo de pesquisa e conservação de espécies aquáticas. Esse tipo de tecnologia é especialmente valioso para regiões remotas e de difícil acesso, como os sistemas de água doce da Amazônia, onde os desafios logísticos frequentemente limitam os esforços de conservação. 

Para Marmontel, o potencial de expansão da tecnologia é significativo: “trata-se de equipamentos de pequeno volume, que podem ser instalados em áreas remotas e, em certos casos, sem necessidade de manutenção periódica. Tem a possibilidade de captar sons de inúmeras espécies aquáticas em diferentes áreas e ao longo do tempo”.

Ela acrescenta que os próximos passos envolvem “gerar uma grande quantidade de registros para alimentar a inteligência artificial e criar o padrão vocal de cada espécie, além de instalar mais equipamentos ao longo da região, inclusive em locais onde não haja pesquisadores ou centros de pesquisa próximos”.

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Além disso, ao ampliar a capacidade de detecção da espécie em ambientes onde a observação direta é praticamente impossível, o método oferece uma nova janela para compreender o comportamento, a distribuição e as necessidades ecológicas do peixe-boi amazônico. O estudo faz parte do Projeto Providence e contou com financiamento da Fundação Sense of Silence, Fundação Gordon e Betty Moore, do Instituto Rolex e da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Publicação destaca trabalho de pesquisador que é referência nos estudos de abelhas sem ferrão no Pará

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Apis mellifera em Gorotire, no Pará. Foto: J.M.F. Camargo/Abelhas Sem Ferrão do Pará

O pesquisador João Maria Franco de Camargo foi um grande naturalista e exímio artista e observador. As abelhas indígenas sem ferrão (Meliponini) da Amazônia foram cuidadosamente estudadas por ele, durante as suas expedições à Amazônia realizadas entre 1963-2001, quando percorreu 16.000 km de hidrovias.

Esses registros, que têm como foco as abelhas sem ferrão da região de Carajás, no Pará, estão no livro ‘Abelhas Sem Ferrão do Pará a partir das Expedições Científicas de João M. F. Camargo‘, organizado por Vera L. Imperatriz-Fonseca (Instituto de Biociências) e Denise A. Alves (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), disponível para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP.

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Autodidata e especialista, Camargo conhecia profundamente as abelhas sociais do Brasil. Por isso, em 1976, foi aceito para o mestrado na Universidade Federal do Paraná, orientado nos estudos de taxonomia de abelhas pelo padre Jesus S. Moure. Suas habilidades o definiram como um dos grandes naturalistas das abelhas do século 20, cuja obra incluiu dados obtidos em campo e as publicações subsequentes, assim como a coleção por ele concebida e implementada na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), onde foi docente.

Camargo reuniu uma das maiores e melhores coleções de Meliponini neotropicais (abelhas sem ferrão), grupo no qual era especialista, e descreveu três novos gêneros e 86 espécies em colaboração com outros cientistas ou sozinho. Sua contribuição ficou evidenciada também na seção ‘Meliponini’ publicada no ‘Catálogo de Abelhas (Hymenoptera, Apoidea) na Região Neotropical‘ [em inglês, Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region], quando reviu, com sua colaboradora Silvia R. M. Pedro, toda a literatura científica existente sobre as espécies de abelhas sem ferrão neotropicais até o ano 2004, incluindo comentários sobre as identificações taxonômicas das espécies. O acervo total é estimado em 250 mil espécimes de abelhas. Desses, 150 são de Meliponini neotropicais, especialmente da Amazônia. 

O livro apresenta informações sobre os ninhos, os hábitos de vida e os produtos das colônias, como mel, resinas, cerume e pólen. Também aborda o uso tradicional dessas abelhas por povos pré-colombianos e comunidades locais, destacando aspectos bioculturais recorrentes.

A publicação inclui ainda registros fotográficos das espécies e seus ninhos, digitalizados a partir da fototeca do pesquisador, atualmente preservada na USP – o material auxilia na identificação de espécies em áreas de supressão vegetal (remoção da vegetação) autorizada, como ocorre de maneira legal e responsável na Floresta Nacional de Carajás. Além disso, traz dados científicos e contribuições visuais sobre a diversidade de abelhas sem ferrão na Amazônia.

Páginas do livro apresentam informações categorizadas sobre as abelhas sem ferrão do Pará – Foto: Reprodução/Livro Abelhas Sem Ferrão do Pará

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As abelhas sem ferrão

Camargo realizou várias expedições à Amazônia, onde buscava ninhos de abelhas sem ferrão, que coletava para seus estudos. Mais de 900 ninhos foram estudados com detalhes, entre muitos observados, informam as organizadoras no livro.

“Durante essas coletas, fazia anotações nos seus diários de viagem sobre o local onde o ninho foi encontrado, esboços da paisagem e os relacionava a características bioecológicas (agressividade, associações com outros insetos e microrganismos, números de ninhos encontrados), assim como registrava as imagens, o que gerou rico e extenso material fotográfico, recentemente digitalizado”, contam.

E continuam: quando retornava ao seu laboratório na FFCLRP-USP, os dados reunidos eram consolidados nas ilustrações feitas a bico de pena, algumas das quais apresentadas na obra.

A Coleção Entomológica Prof. J. M. F. Camargo vem sendo reorganizada pelo atual curador, o professor Eduardo A. B. Almeida, em colaboração científica com o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS), possibilitando a recuperação do material fotográfico e a reorganização do acervo. Segundo as organizadoras, o interesse recai nas abelhas do Pará, uma vez que as espécies que ocorrem na Serra dos Carajás têm sido intensivamente estudadas pela equipe de biodiversidade do ITV-DS.

Leia também: Pesquisadores do Inpa identificam nova espécie de abelhas-sem-ferrão

“Mas para identificação taxonômica certificada dessas abelhas precisávamos de material de referência, que foi cuidadosamente preparado pelo curador da coleção, de modo que os espécimes aqui (na obra) apresentados estão acompanhados das respectivas etiquetas de identificação: quem e quando coletou, quem identificou e qual a origem geográfica dos exemplares”, explicam.

Ninho em oco de tronco vivo, a 10 m do solo, com favos de abelha do gênero Oxytrigona Cockerell, em Forte da Graça, Rio Juruá, no Amazonas – Foto: Reprodução/Abelhas Sem Ferrão do Pará

As organizadoras afirmam ainda que, embora a diversidade de abelhas sem ferrão na Amazônia seja alta, elas foram pouco estudadas até o momento, e por isso reconhecer a identidade das espécies da floresta e seus ninhos não é “trivial”. “Nas suas atividades como taxonomista e sistemata, Camargo descreveu três gêneros e 89 espécies de abelhas. Além deste trabalho monumental, descreveu hábitos incomuns de muitas dessas espécies, que apresentavam diferenças do padrão geral conhecido até então para as abelhas sociais brasileiras”, destacam.

Segundo José Oswaldo Siqueira, diretor do Instituto Tecnológico Vale – Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS), há muitas espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, e em especial na Amazônia, região com carência de mais conhecimento científico sobre esses insetos sociais.

“As expedições científicas realizadas por João M. F. Camargo à Amazônia, em busca de ninhos de abelhas sem ferrão nativas, permitiram identificar informações inéditas sobre um dos ecossistemas mais biodiversos do mundo e suas peculiaridades”, afirma na apresentação da obra, acrescentando que o registro fotográfico dos ninhos dessas abelhas sociais, como compilado na publicação, permite a reflexão sobre novos horizontes bioculturais.

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Para o diretor, a idealização deste livro possibilitou reunir tanto as informações valorizadas pelas publicações científicas, como o cuidado com que esse registro foi feito e organizado em uma coleção entomológica de referência na FFCLRP da USP. “Numa época em que o mundo todo se preocupa com o declínio das populações de abelhas, ilustramos aqui a biodiversidade amazônica de abelhas sem ferrão, em especial de Carajás, no Estado do Pará. É um trabalho relevante para as comunidades da região, que se interessam cada vez mais pela criação e pelo uso sustentável das abelhas sociais, que agregam renda e assim o desenvolvimento socioambiental”, conclui. 

Para ler o livro Abelhas Sem Ferrão do Pará a partir das Expedições Científicas de João M. F. Camargo na íntegra clique aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP

Artistas amazônicos usam versos, danças e corpos em defesa da floresta

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Artista Tiago Hakiy vê a poesia como um instrumento político. Foto: Tiago Hakiy/Arquivo pessoal

“A aldeia toda se incendeia / Na manhã de sol na floresta / Tem peixe assando na fogueira / E suco de cupu para completar a festa”

Os versos escritos por Tiago Hakiy, poeta e escritor indígena, permitem que o leitor entre no coração da floresta amazônica e se sinta parte dela. Durante alguns instantes, somos parte da festa, dançamos, provamos peixes e sucos típicos da região. O trecho acima faz parte do livro ‘Abecedário Poético da Floresta’, lançado em novembro. A obra tanto apresenta os segredos da cultura para os leigos como acolhe os espíritos locais.

“Na escola, eu sempre encontrei livros que não tinham nada a ver com a minha realidade. Eles falavam sobre tubarão e eu nunca vi tubarão. Falavam de frutas, como maçã e morango, que eu nunca tinha comido. Sobre peixes que não eram parte da nossa fauna amazônica. Eu se me sentia perdido nessa literatura. Quando escrevo hoje, penso nos meninos e nas meninas nascidos no meio dos rios e florestas, que andam de canoa. Para que eles possam se identificar com a própria realidade”, diz o poeta.

O poeta indígena Tiago Hakiy tem 17 obras publicadas. Foto: Tiago Hakiy/Arquivo Pessoal

Nem sempre os escritos de Tiago Hakiy seguiram esse caminho. Pertencente ao povo sateré-mawé, ele nasceu na comunidade Freguesia do Andirá, no município de Barreirinha, no Amazonas, longe de espaços editoriais e grandes centros urbanos. Aos 6 anos de idade, um escritor foi até a comunidade e o ajudou a conhecer o universo dos livros. Aos 19 anos se mudou para Manaus, onde entrou na universidade e teve a possibilidade de lançar o primeiro livro de poesias.

Os versos iniciais não falavam da realidade cultural dele e do povo indígena. Eram poemas mais idílicos. Tudo mudou quando ele encontrou o escritor Daniel Munduruku, um precursor da literatura indígena no Brasil.

“Ele me disse assim: ‘Tiago, por que você não escreve sobre o teu povo e a tua origem? Se nós não continuarmos escrevendo sobre nossos povos, o apagamento cultural vai continuar acontecendo’. Ele me instigou a rememorar toda a minha ancestralidade. E a partir daí a poesia passou a destacar nossa riqueza como indígenas da Floresta Amazônica, nossas trocas e cuidados com ela, que é tudo para nós. Ela nos dá alimento, moradia, caminhos e inspirações”, lembra Tiago Hakiy.

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O poeta indígena tem hoje 44 anos e 17 obras publicadas. E participações em diversas antologias, as quais ele valoriza muito, por entender que o trabalho coletivo é uma característica importante das comunidades indígenas. Foi com a antologia Apytama, organizada por Kaká Werá, que ele venceu, coletivamente, o Prêmio Jabuti na categoria Livro Juvenil.

“Os povos indígenas são frutos da oralidade. Eu nasci ouvindo histórias dos mais velhos. Naturalmente, a gente aprende a contar histórias que a gente ouve desde criança, e essas histórias são um instrumento de aprendizagem, não só de entretenimento. São uma forma de ensinar e de transmitir conhecimento”, destaca o escritor indígena.

Tiago Hakiy também entende hoje a poesia como um instrumento político, capaz de gerar empatia de outras pessoas e engajá-las na luta pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação da floresta.

“A literatura serve como uma bandeira para que as pessoas possam nos conhecer melhor. Nossas cultura e tradição, que não são nem melhores, nem piores. Apenas diferentes. E nós queremos ser ouvidos, compreendidos e respeitados”, diz.

“Queremos que essas pessoas também cuidem dos nossos rios, das nossas árvores, dos nossos pássaros. Por isso que, quando nós clamamos pela preservação da floresta, sabemos da importância dela não só para o Brasil, mas para todo o planeta. Precisamos que todos tenham esse olhar de sensibilidade para as pessoas que moram dentro da floresta”.

Festival de Parintins

Junho é mês de festa na Amazônia. Em Parintins, estado do Amazonas, quase divisa com o Pará, o Bumbódromo recebe os desfiles do bois Caprichoso e Garantido. É o duelo do azul e do vermelho, que dura três noites. O espetáculo se destaca pelas cores, luzes, vestimentas, adereços, danças e músicas. Mas os impactos não são apenas estéticos e sensoriais.

“Os dois bois vêm trazendo mensagens importantes, como a emergência da crise climática, o foco na Amazônia, a preservação dos povos tradicionais. Tudo isso tem que estar inserido no festival”, explicou Marciele Albuquerque, indígena do povo Munduruku e cunhã-poranga do Boi Caprichoso, durante o TEDxAmazônia 2024, evento realizado entre o final de novembro e o início de dezembro, em Manaus.

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Segundo a tradição, a cunhã-poranga é “moça bonita, guerreira e guardiã, que expressa a força através da beleza”. Ela é avaliada pelos jurados em critérios como beleza, simpatia, roupas e movimentos. Mas Marciele garante que os atributos dela no festival vão muito além de ser uma mulher bonita.

“Quando a gente vai para a arena, quer fazer mais que uma apresentação, um movimento de dança difícil, algo espetaculoso. A gente quer realmente protestar através da nossa dança, do nosso olhar, da nossa potência e força. É ir muito além da parte física da mulher. A gente carrega essa ancestralidade. Eu não sou apenas uma representação. Eu sou indígena, cunhã-poranga. O meu corpo é político. É força. É ancestralidade”, diz Marciele.

Nascida em Juriti, no Pará, ela mora em Manaus há mais de 13 anos. É formada em administração e tem participado como ativista contra as mudanças climáticas, a fome e o futuro da Amazônia. Já participou da Semana do Clima, da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, Estados Unidos, em 2023. E, no mesmo ano, esteve na Conferência da Juventude pelo Clima, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, na Itália.

“A arte desperta o senso político. Você começa a questionar e buscar respostas. Começa a querer lutar por algo. Foi assim que eu despertei, não foi porque alguém veio falar comigo da política tradicional. Através da arte consegui ter esse senso bem crítico, despertar para essa luta coletiva. Mesmo que eu não sofra por determinada situação, outros podem estar sofrendo e vou lutar por elas. A arte tem a força de união. Isso, de uma forma mais leve e capaz furar bolhas”, defende a cunhã-poranga.

Trans amazônica

O corpo também possui uma dimensão política para Maria Flor, de 25 anos, nascida e criada nas margens do Rio Tapajós, em Santarém. Travesti periférica, artista e ativista ambiental, ela define o próprio corpo como “território e ferramenta de comunicação”. Por meio da moda, de performances de rua, apresentações e desfiles, ela conecta a prática artística com os direitos das pessoas transgêneras e os povos da Amazônia

 Maria Flor em ensaio político em defesa da Amazônia. Foto: Maria Flor/Arquivo Pessoal

“Comecei por volta de 2016 fazendo intervenções corporais sobre uma perspectiva transcentrada. Foi quando eu me entendi enquanto travesti. As primeiras intervenções foram experimentações corporais através da vestimenta, do me reconhecer enquanto identidade feminina”, conta Maria Flor.

“Eu morava perto de uma praia e ali começaram as minhas inquietações. Eu via muita degradação, balsas e navios vindo do exterior, pegando água nos nossos rios. Pela BR-163, que corta o Brasil, eu via saindo de Santarém muita soja, milho, tora de árvore, madeira, bauxita, ferro. Tudo que era extraído dali de dentro da floresta. Foi quando eu comecei a fazer intervenções visuais, através de fotos e vídeos sobre esse território que estava sendo poluído”, conta Maria Flor.

Nesse contexto, surgiu a Mulambra, um dos nomes e identidades artísticas da ativista, que daria nome também à marca de roupas criadas por ela, a Mulambra Grif.

“Eu misturei as questões ambientais com as perspectivas do que era o corpo enquanto território e identidade. Eu entendi que a Mulambra era uma energia ancestral que vinha para questionar as situações que aconteciam ali. O quanto era naturalizada uma casa de garimpo na orla da cidade e um corpo travesti, não. Esse era demonizado, expulso de casa, sem acesso a serviços de saúde e educação, sem espaço no mercado de trabalho formal”, diz.

Um dos versos da artista é bem representativo desse impulso de luta e ativismo conectada à natureza amazônica:

Arte em roupa feita pela artista trans Maria Flor. Foto: Maria Flor /Arquivo pessoal

“Revoltada/
Engerou-se/
De toda a mata se apropriou/
No espinho do cuandú/
No aperto da sucuriju/
No veneno da surucucu/
No cantar do uirapuru/
Na magnitude de seu Rei urubu/
Na força de sussuarana/
No grito de um guariba/
Na desconfiança da cutia/
Nas garras de um gavião”

Maria Flor mora há três anos em Belém. A estamparia manual tornou-se símbolo de resistência, conscientização e empoderamento. Peças únicas, produzidas à mão e inspiradas na fauna e flora da Amazônia, viraram um manifesto contra o desmatamento e a poluição. Além de materiais reciclados, a artista usa elementos reciclados e até materiais encontrados em cascas de árvores.

“Muitas vezes a América Latina é vista como lugar para descartar roupas que não foram vendidas na Europa. Eu parto de uma perspectiva de periferia, da pedagogia do lixo. Tudo o que eu faço é reconstruir roupas já prontas, indo em brechó, pegando coisa de segunda mão, ou em lugares de descarte. Reconstruo os tecidos através da estamparia e conto outras histórias”, explica a artista.

“Faço com que as pessoas saibam de onde vem tudo isso que a gente está vestindo. Muitas, sem perceber, compram coisas que estão financiando o garimpo, o desmatamento da Amazônia. Tudo isso está amarrado de uma certa forma enquanto comunicação e performance artística.”


A reportagem faz parte da série Trilhas Amazônicas, que abre o ano da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Nas matérias publicadas na Agência Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na defesa da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para lidar com elas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Rafael Cardoso (a equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024)

Mulheres extrativistas enfrentam preconceito e geram renda na Amazônia

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Mulheres extrativistas, Jesuína Batista e Dionete Silva colhem murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

Há cerca de dez anos, quando saíam para colher murumuru (fruto de uma palmeira tropical) na Floresta Amazônica, as mulheres da comunidade São José, no norte da Ilha do Marajó (PA), ouviam de seus maridos e vizinhos a pergunta: “As loucas já vão pro mato?”.

Mesmo com as críticas e o preconceito, elas não desistiram e seguiram em frente, como lembra a extrativista Benedita de Oliveira.

“Quando nós começamos a trabalhar, foi muito difícil. Muito difícil mesmo. A gente saía para o mato, deixava tudo em casa e, quando chegava, ainda tinha que fazer janta, ajeitar tudo. E nós fomos muito criticadas pelos homens. Só que nós não ligamos… nós continuamos!”.

Leia também: Coleta de frutos e sementes oleaginosas movimenta economia na Ilha das Cinzas

“Quando a fruta do murumuru cai do pé, ela acumula uma em cima da outra, aí ela vai fermentando e cria um mau cheiro, né? Por isso que a gente era chamada por eles de ‘mulheres fedorentas’, porque eles diziam que aquele mau cheiro entranhava”, acrescenta Jesuína Batista Rosa.

Benedita de Oliveira mostra estufa com amêndoa do murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

Mas, por baixo da polpa “fedorenta”, até então consumida apenas como alimento por animais selvagens e de criação, há uma semente muito valorizada pela indústria cosmética. À medida que a renda familiar foi aumentando, os homens foram obrigados a reconhecer e respeitar o trabalho de suas companheiras. Antes disso, nenhuma das mulheres que fazem parte do grupo de extrativistas do Maniva – nome do igarapé do Rio Amazonas que banha a comunidade – tinha renda própria.

A grande maioria delas se casou ainda na adolescência e se dedicava exclusivamente aos cuidados da casa e dos filhos, quando a oportunidade de se tornar extrativista apareceu, por demanda da empresa de cosméticos Natura, em parceria com a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), outra comunidade do Marajó. Elas também fornecem ucuuba, fruto de uma grande árvore, que também cai depois de maduro e geralmente é retirado da superfície dos rios.

Lourdes Batista Silva hoje está afastada da colheita por questões de saúde, mas, além de ser uma das primeira extrativistas do Maniva, também foi responsável por integrar muitas das outras participantes.

“Eu falo de boca cheia que tenho orgulho da minha pessoa. Eu me casei com 15 anos, minha primeira filha eu tive com 16, e eu nunca deixei de trabalhar. Mas, quando a gente começou a vender o murumuru, muita coisa mudou, porque aí eu passei a não depender de homem”.

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Benedita também sente o mesmo orgulho: “Nós, mulheres, a gente não era vista, não era reconhecida. Fomos discriminadas, mas agora acabou. Eu até consegui realizar o meu sonho de viajar de avião. Foi a coisa mais incrível do mundo que eu tenho na memória! E agora este ano conseguimos essa casa aqui, né? Cada uma de nós ajudou um pouquinho.”

Centro de Produção das Mulheres do Maniva. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

A casa mencionada por ela se trata do Centro de Produção das Mulheres do Maniva, onde as sementes são quebradas e armazenadas, até somarem uma quantidade suficiente para serem levadas pela Ataic e vendidas para a Natura. Elas explicam o processo: as sementes de murumuru são separadas da polpa ainda na floresta, lavadas no rio e colocadas para secar por alguns dias em uma estufa. Depois, as sementes são quebradas e as amêndoas – tanto do murumuru quanto da ucuuba –, ensacadas para envio.

Recentemente o grupo conseguiu aposentar o martelo que era usado para quebrar as sementes manualmente – e que também acabava machucando alguns dedos durante o processo –, após ganhar uma máquina que agilizou muito o trabalho. Graças às mulheres extrativistas, a comunidade também recebeu painéis de energia solar, que melhoraram muito a qualidade de vida da comunidade.

“Eu sempre tive o desejo de ajudar na renda familiar, e a natureza me ajudou a não ser uma mulher só do lar, a entender que o trabalho não é só para o homem. Não! Nós mulheres somos capazes de nos transformar e transformar o mundo também… juntas, unindo as nossas forças. Porque nós somos fortes e nós damos as nossas mãos”, conta Dionete da Silva Cardoso.

Leia também: Murumuru: semente popular no mundo da beleza pode ser utilizada na construção civil

“Eu sempre digo para minhas filhas, se tiver alguma coisa no nosso caminho, vamos dar um jeitinho de afastar e vamos prosseguir”, completa ela.

O desafio agora é enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, que já estão sendo sentidos pelas populações da floresta, como lembra Dionete: “Este ano, acho que a gente vai conseguir fazer uma entrega boa por causa da chuva. Mas, nos últimos dois anos, foi mais difícil por causa da seca. Quando ela acontece, diminui a produção do murumuru e de todas as espécies de frutos que nós temos aqui”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Tâmara Freire (repórter viajou a convite da Natura)

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia em abril deste ano, aponta Imazon

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Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia. Foto: Censipam

O Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia em abril deste ano, revelou um estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgado no dia 29 de maio. O levantamento, feito pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), aponta que o estado lidera o ranking com 40% de área desmatada.

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O SAD realiza o monitoramento da região por satélites desde 2008, considerando o chamado “calendário do desmatamento”, que vai de agosto a julho do ano seguinte.

Leia também: Registro de desmatamento e focos de calor cai no Amazonas em março, aponta Ipaam

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia
Imagem aérea de sobrevoo de monitoramento de desmatamento na Amazônia no município de Lábrea, Amazonas, realizado em 26 de março de 2022 — Foto: Greenpeace/Divulgação

Leia também: Amazonas tem queda de 82% no desmatamento e 65% nos focos de calor, informa Ipaam

O monitoramento indicou que o Amazonas teve 93 quilômetros quadrados da Amazônia desmatados. O município que mais teve registro de desmatamento foi Lábrea, no sul do estado com 32 quilômetros quadrados de floresta desmatada. Outras três cidades do Amazonas compõe o ranking que indica que os 10 municípios com as maiores áreas desflorestadas.

  • Apuí: 22 km² (3º lugar)
  • Maués: 15 km² (4º lugar)
  • Manicoré: 7 km² (8º lugar)

No mesmo período de 2024 o estado teve 52 quilômetros quadrados de área desmatada. Em comparação a este ano, houve um aumento de 78%. O desmatamento detectado em abril de 2025 também ocorreu em outros estado do Norte e do Centro-Oeste:

  • Mato Grosso (38%),
  • Pará (11%),
  • Tocantins (3%),
  • Roraima (3%),
  • Acre (2%),
  • Rondônia (2%)
  • Maranhão (1%).

Leia também: Povo Juma luta para sobreviver em meio a invasões e desmatamento no sul do Amazonas

O município que mais teve registro de desmatamento foi Lábrea. Foto: Divulgação

Em abril de 2025, o SAD detectou 234 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 24% em relação a abril de 2024, quando o desmatamento somou 188 quilômetros quadrados.

O Imazon aponta que 84% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado em assentamentos (12%), Unidades de Conservação (4%) e Terras Indígenas (menos de 1%).

Leia também: Taxa de desmatamento cai 29% em um ano no Amazonas, aponta Inpe

Desmatamento em crescente

O desmatamento na Amazônia Legal registrou um aumento de 17,8% de agosto de 2024 a março de 2025, de acordo com dados do monitoramento do Imazon divulgados em janeiro deste ano. No mesmo período, a degradação florestal subiu mais de 329% e bateu um recorde histórico.

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia
O Greenpeace Brasil realizou sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento. Foto: Greenpeace Brasil

Leia também: Amazonas ocupa 2º lugar no ranking do desmatamento em 2022, aponta MapBiomas

O desmatamento é a remoção total da vegetação para atividades como agricultura ou pecuária. Já a degradação ocorre quando há danos parciais na floresta. Isto é, a vegetação permanece, mas sofre impactos significativos, justamente como queimadas ou extração de madeira.

As imagens de satélite do Imazon mostraram que a derrubada passou de 1.948 km² entre agosto de 2023 e março de 2024 para 2.296 km² entre agosto de 2024 e março de 2025.

Somente em março deste ano, o desmatamento atingiu 167 km² da Amazômia Legal, um crescimento de 35% em relação ao mesmo mês de 2024, quando foram destruídos 124 km².

Leia também: Acre, Amazonas e Pará concentram quase 80% do desmatamento na Amazônia Legal, aponta Imazon

Calendário de desmatamento de 2024 e 2025. — Foto: SAD Desmatamento/Imazon

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*Por Lucas Macedo, g1 AM

Estudo mensura valores da Amazônia em pé; 42% das espécies de plantas são utilizadas por comunidades tradicionais

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O trabalho propõe atribuir valor da natureza preservada sem se limitar a valores monetários. Foto: Reprodução/TV Brasil/Agência Brasil

Um estudo de pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) mostra que 83% das espécies da Floresta Nacional de Carajás, no Pará, precisam ser preservadas para manter sua resiliência, ou seja, sua capacidade de continuar funcionando mesmo com eventuais perdas. Entre as plantas, 42% das espécies são utilizadas por comunidades tradicionais da região, com registros de até quatro usos diferentes por espécie.

A floresta ainda oferece serviços como polinização agrícola — beneficiando 13 das 20 culturas locais, como cacau, maracujá e açaí — e regulação do clima. A floresta resiliente tem capacidade de reduzir em até 0,4 °C a temperatura local e aumentar em 21% a evapotranspiração — processo essencial ao ciclo da água, que abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas.

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Além disso, o estudo mostra que 60% das espécies são insubstituíveis para a manutenção das funções ecológicas da floresta. A ausência dessas espécies comprometeria de forma irreversível o ambiente, já que nenhuma outra espécie ou tecnologia poderia assumir seus papéis. As conclusões foram publicadas na revista Ecosystem Services na sexta (30), em artigo que apresenta um modelo para avaliar o capital natural com base na importância de cada espécie para a natureza e para as populações humanas.

O artigo é fruto do projeto ‘Capital Natural das Florestas de Carajás’, realizado pelo Instituto Tecnológico Vale entre 2019 e 2023. A iniciativa se baseou em coletas de campo em 14 pontos da floresta. As métricas foram divididas em duas categorias: “natureza para si mesma”, que mensurou as funções ecossistêmicas, ou seja, o papel de cada espécie para a manutenção da floresta; e “natureza para as pessoas”, que analisou os benefícios do ecossistema para as populações humanas. Para as funções, os pesquisadores consideraram elementos como riqueza de espécies, interação entre elas, resiliência, singularidade e presença de espécies ameaçadas. Já os serviços incluíram polinização agrícola, regulação do clima, proteção hídrica, uso por comunidades tradicionais e estoque de carbono.

Flona Carajás. Foto: João Marcos Rosa

Foram registradas no local 467 espécies de animais e 418 de plantas. Destas, 11% das aves e 9% das plantas estão ameaçadas.

O trabalho propõe atribuir valor da natureza preservada sem se limitar a valores monetários, buscando entender quais são os ativos mais importantes do capital natural para manter a floresta viva, saudável e funcionando plenamente.

“Quando você transforma a natureza em dinheiro, você tem uma sustentabilidade fraca, porque você desconsidera que alguns elementos são insubstituíveis”, afirma Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do ITV e coautora do artigo.

A polinização agrícola foi o único fator medido em valores monetários, estimado em US$ 4,5 milhões por ano (cerca de R$ 23,3 milhões, na cotação atual) considerando os valores de mercado das culturas produzidas no entorno.

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Segundo a pesquisadora, o modelo permite que tomadores de decisão, como empresas, governos e comunidades locais, compreendam melhor o que está em jogo ao explorar ou proteger áreas naturais. “O valor da floresta é subjetivo e plural. Para um ribeirinho pode ser algo completamente diferente do que para quem está na cidade. Com essa abordagem, se ganha essa nuance do que é de fato valioso para as pessoas em termos da natureza”, frisa Giannini. Complementando o artigo, os resultados do trabalho também estão disponíveis em um livro e em uma série de dez episódios de podcast desenvolvidos pelos pesquisadores do ITV em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Vale S.A.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Cheia em Manaus deve atingir ápice em duas semanas, mas não supera recorde histórico, aponta Serviço Geológico do Brasil

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Impacto da cheia na cidade de Manaus. Foto: Jochen Schongart/INPA

A cheia do Rio Negro em Manaus deve atingir o ápice dentro de duas semanas, mas não há previsão de que o nível da água ultrapasse o recorde histórico de 30,02 metros, registrado em 2021. A projeção consta no 3º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas de 2025, divulgado no dia 30 de maio pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).

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Além da capital amazonense, o monitoramento hidrológico do SGB abrange os municípios de ManacapuruItacoatiara e Parintins. Segundo o órgão, embora a cheia deste ano seja considerada de grande impacto, o nível do Rio Negro deve permanecer abaixo da cota de inundação severa, fixada em 29 metros. A previsão é de que a cota máxima em Manaus fique em torno de 28,84 metros.

Cheia em Manaus
Registro da cheia no porto de Manaus. Foto: Alberto César Augusto

Em Itacoatiara, o Rio Amazonas já ultrapassou a cota de inundação, mas a probabilidade de atingir os níveis extremos de 2021 é de menos de 1%, conforme destacou a pesquisadora do SGB, Jussara Cury. A expectativa é de que o município atinja o pico da cheia já na próxima semana.

Leia também: Cheia do rio Madeira em 2025 já afeta mais de 8 mil pessoas em Porto Velho

Confira as previsões da SGB para os municípios:

Manaus – Rio Negro

Em 30 de maio, o Rio Negro está com a cota de 28,53 metros. Ele apresenta 35% de chance de alcançar a marca de inundação severa, mas sem passar de 29,16 metros segundo a projeção. A possibilidade atingir a cota máxima registrada na história é de menos de 1%.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 30,02m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 29,00m
  • 🟡 Cota de inundação: 27,50m
  • ⚪ Cota de alerta: 27,00m
Cheia em Manaus
Rio Negro, em Manaus. Foto: Michel Castro/Rede Amazonica

Manacapuru – Rio Solimões

O Rio Solimões atingiu a marca de 19,34 metros, no dia 29 de maio e, no ápice, deve chegar a 19,67 metros. O SGB projeta que há 65% de chances de ocorrer uma inundação severa e, caso ocorra, o nível máximo a ser atingido seria 19,94 metros. As chances de atingir a cota máxima registrada na história é de menos de 1%.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 20,86m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 19,60m
  • 🟡 Cota de inundação: 18,20m
  • ⚪ Cota de alerta: 17,70m
Cheia em Manaus
Cheia no Rio Solimões. Foto: Divulgação

Itacoatiara – Rio Amazonas

No município, o Rio Amazonas está na marca de 14,35 metros nesta sexta e já ultrapassou a cota de inundação severa. O órgão apontou que há menos de 1% de chance de se atingir a cota máxima registrada e que no pico da cheia o rio fique na média de 14,45 metros.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 15,20m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 14,20m
  • 🟡 Cota de inundação: 14,00m
  • ⚪ Cota de alerta: 13,50m
Cheia do Rio Amazonas. Foto: Agência Brasil

No município, o Rio Amazonas está na marca de 14,35 metros nesta sexta e já ultrapassou a cota de inundação severa. O órgão apontou que há menos de 1% de chance de se atingir a cota máxima registrada e que no pico da cheia o rio fique na média de 14,45 metros.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 15,20m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 14,20m
  • 🟡 Cota de inundação: 14,00m
  • ⚪ Cota de alerta: 13,50m

Leia também: Governo do Acre decreta situação de emergência por conta da cheia dos rios

Situação de emergência

A cheia que atinge o Amazonas avança e já atinge 85.940 famílias, aproximadamente 343.748 mil pessoas impactadas diretamente, segundo a Defesa Civil do estado, durante a divulgação do 3º Alerta de Cheias, nesta sexta. As nove calhas de rios do Amazonas seguem em processo de cheia, com picos variados previstos entre março e julho.

Cheia dos rios. Foto: Governo de Rondônia

De acordo com os decretos municipais, dos 62 municípios amazonenses, 29 estão em situação de emergência, 28 em alerta, três em atenção e dois em normalidade. No dia 27 de maio, o município de Tefé saiu da situação de alerta para situação emergência.

Confira a lista dos 29 municípios que estão em situação de emergência:

  1. Humaitá – Rio Madeira
  2. Apuí – Rio Madeira
  3. Manicoré – Rio Madeira
  4. Boca do Acre – Rio Purus
  5. Guajará – Rio Juruá
  6. Ipixuna – Rio Juruá
  7. Novo Aripuanã – Rio Madeira
  8. Benjamin Constant – Rio Solimões
  9. Borba – Rio Madeira
  10. Tonantins – Rio Amazonas
  11. Itamarati – Rio Juruá
  12. Eirunepé – Rio Juruá
  13. Atalaia do Norte – Rio Solimões
  14. Careiro – Rio Solimões
  15. Santo Antônio do Içá – Rio Solimões
  16. Amaturá – Rio Solimões
  17. Juruá – Rio Solimões
  18. Japurá – Rio Amazonas
  19. São Paulo de Olivença – Rio Solimões
  20. Jutaí – Rio Jutaí
  21. Careiro da Várzea – Rio Solimões
  22. Maraã – Rio Japurá
  23. Anamã – Rio Amazonas
  24. Carauari – Rio Juruá
  25. Fonte Boa – Rio Solimões
  26. Itapiranga – Rio Amazonas
  27. Nova Olinda do Norte – Rio Madeira
  28. Urucurituba – Rio Amazonas
  29. Tefé – Rio Solimões

Além dos municípios em emergência:

  • Três estão em estado de atenção;
  • 29 em alerta;
  • e dois em normalidade.

Leia também: Por que o Norte tem chuvas e cheias enquanto outras regiões enfrentam ondas de calor?

Impactos

A cidade de Anamã, no interior do Amazonas, está com 70% do território alagado pela cheia do Rio Solimões e cerca de 1,7 mil famílias estão sendo afetadas, informou a Defesa Civil Municipal nta terça-feira (27). Anamã é um dos 29 municípios em situação de emergência.

De acordo com a prefeitura, 800 famílias na sede do município já estão sofrendo os impactos causados pelo alto nível do Rio Solimões. Já em 22 comunidades da zona rural, 997 famílias estão sendo afetadas.

“As principais dificuldades são as locomoções. Pra gente sair mesmo de casa fica mais difícil. Para quem tem canoa fica bom, para quem não tem não fica complicado”, relatou o agricultor Leandro Ribeiro.

Por Sabrina Rocha, g1 AM

Belém recebe título de ‘Capital Mundial do Brega’ pela ONU

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Brega é um dos ritmos que se tornaram patrimônio. Foto: Bruna Brandão

Belém (PA) recebeu o título de ‘Capital Mundial do Brega‘, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU) Turismo, nessa sexta-feira (30). O anúncio foi feito durante a reunião do Conselho Executivo da entidade, em Segóvia, na Espanha.

A honraria concedida durante a 123ª reunião do Conselho Executivo da ONU Turismo, em Segóvia, Espanha, destaca a riqueza cultural da cidade que já é reconhecida internacionalmente por sua gastronomia.

“Foi uma honra receber este reconhecimento durante um evento tão qualificado como a reunião do Conselho Executivo da ONU Turismo, entidade das Nações Unida para o turismo. Títulos como este reforçam a vocação do estado para a atividade turística e confirmam o sentimento de orgulhos que nós paraenses sentimos em relação a nossa riqueza cultural”, destacou o ministro.

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A honraria foi entregue ao ministro Celso Sabino, atual presidente do Conselho Executivo da ONU Turismo, pelo secretário-geral da entidade, Zurab Pololikashvili. Em vídeo gravado para as redes sociais, Zurab mencionou ainda  o prefeito da cidade de Belém, Igor Normando.

Celso Sabino esteve em Segóvia para presidir a reunião do Conselho Executivo da ONU Turismo, que elegeu a primeira mulher a assumir a secretaria-geral do órgão, Shaikha Nasser Al Nowais, candidata dos Emirados Árabes Unidos.

O mercado Ver-o-Peso é um dos locais que promovem a música paraense. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

História

A relação de Belém com o brega se confunde com a própria expansão do estilo musical. Nas periferias da cidade, o ritmo é mais que música: é resistência, lazer, memória e pertencimento.

Do romantismo tradicional ao tecnobrega moderno, o brega paraense evoluiu ao longo das décadas, incorporando batidas eletrônicas, influências caribenhas e experimentações sonoras, com as quais a cidade já viu brilhar fora de suas fronteiras nomes como Pinduca, Wanderley Andrade, Joelma, Gaby Amarantos, Felipe Cordeiro e muitos outros que demonstram a capacidade do brega em se renovar, mas sem perder suas raízes paraenses.

Leia também: Conheça 14 ritmos musicais que fazem sucesso na Amazônia

Estrela da aparelhagem

Ao longo dos anos o brega também se uniu à cultura das aparelhagens – verdadeiros paredões de som que movimentam multidões em festas ao ar livre pelos bairros de Belém e pelo interior do Pará.

Esses eventos reúnem milhares de pessoas e fazem parte do cotidiano de Belém, onde o brega é trilha sonora para amores, encontros e celebrações da vida.

*Com informações do Ministério do Turismo

Chefs ensinam seis formas de saborear a Ventrecha de Pirarucu

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Ventrecha de Pirarucu. Foto: Ricardo D’Angelo

A Ventrecha de Pirarucu, corte nobre do maior peixe de escamas de água doce do mundo, é um prato pouco comum nos restaurantes que oferecem receitas com peixes típicos da região amazônica.

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Por conta disso, durante a experiência gastronômica “Seis Vezes Pirarucu”, realizada no restaurante Moquém do Banzeiro, na zona Centro-Sul de Manaus. O evento reuniu renomados chefs brasileiros em uma celebração dos sabores amazônicos e do manejo sustentável de pesca promovido pelas comunidades do Médio Juruá e outras áreas de pesca no Amazonas.

A experiência foi conduzida por três chefs de referência: a cozinheira da Amazônia Débora Shornik, à frente do restaurante Caxiri; a chef executiva e consultora Priscila de Deus do Chez de Deus (SP); e o chef Felipe Schaedler, anfitrião do Moquém do Banzeiro. Cada um apresentou duas criações exclusivas utilizando a Ventrecha, parte valorizada do Pirarucu, conhecida por sua textura delicada e sabor marcante. Excelente para receitas com assado. 

Leia também: Aprenda a preparar ventrecha de pirarucu e arroz de tucupi com jambu

Chef Débora Shornik, chef Felipe Schaedler e a chef Priscila de Deus ensinam formas de saborear a Ventrecha de Pirarucu. Foto: Ricardo D’Angelo

Formas de preparo:

Débora Shornik:

  • Barriga na lata: Ventrecha confitada na banha de porco, vinagrete de feijão manteiguinha, mousseline de banana pacovã com puxuri e chaya crispy.
  • Isca no cone: Cubos de Ventrecha frita e belisquete de macaxeira com molho de tucumã acevichado.
Ventrecha de Pirarucu
Ventrecha de Pirarucu. Foto: Ricardo D’Angelo

Priscila de Deus:

  • Ventrecha na brasa: Ventrecha na brasa, molho Thai com especiarias amazônicas e cuscuz de uarini com castanhas-do-Pará.
  • Pirarucu na prancha: Pirarucu com manteiga de beef tallow, arroz caldoso de yanomami defumado ao molho de tucupi, emulsão de jambu e vinagrete de pupunha.
Ventrecha de Pirarucu
Ventrecha de Pirarucu. Foto: Ricardo D’Angelo

Felipe Schaedler:

  • Pirarucu empanado: Pirarucu empanado com tapioca e fonduta de queijo grana.
  • Pirarucu confit: Pirarucu confit, mel de jandaíra, tomate curado e brotos.

Todos os pratos podem ser harmonizados com os vinhos de sua preferência.

Leia também: ‘Bacalhau da Amazônia’: aprenda a preparar o pirarucu seco, técnica tradicional usada por ribeirinhos

Manejo sustentável e protagonismo comunitário

Mais do que uma experiência gastronômica, o Seis Vezes Pirarucu foi um momento de valorização do modelo sustentável de pesca manejada, promovido pelas comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Médio Juruá e da área de Acordo de Pesca de Carauari, no sudoeste do Amazonas.

A comercialização do pirarucu selvagem de manejo sustentável é feita por meio da marca coletiva Gosto da Amazônia, cuja gestão é realizada pela ASPROC, organização que há mais de três décadas atua na defesa dos direitos e na promoção da qualidade de vida dos povos extrativistas da região.

Pirarucu. Foto: Jefferson Christofoletti/Embrapa

A coordenadora comercial da ASPROC, Ana Alice Britto, ressaltou que a trajetória da associação é marcada pela superação e pela busca contínua pela valorização do extrativismo sustentável. “No início, nossa luta era contra a miséria e pela liberdade. Depois de 30 anos, seguimos firmes, agora pela valorização do homem e da mulher extrativista, preservando os recursos naturais e fortalecendo cadeias produtivas como a do pirarucu.

As comunidades ribeirinhas da Amazônia têm mostrado que é possível viver de forma digna da floresta. A marca Gosto da Amazônia é fruto desse esforço coletivo, que alia sustentabilidade, geração de renda e valorização do extrativismo comunitário”, destaca a gestora.

O modelo de pesca manejada do Pirarucu, regulamentado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), garante um produto natural, livre de aditivos químicos, com alto valor nutricional, rico em ômega 3 e sustentável. Entre os benefícios estão a recuperação dos estoques pesqueiros, a geração de renda para as comunidades e a proteção do território amazônico.

Pesca do pirarucu. Foto: acervo Idam

Durante a experiência gastronômica, a chef Débora Shornik, Priscila de Deus e Felipe Schaedler falaram sobre suas impressões, emoções e aprendizados sobre a Amazônia.

“Nem só de lombo é feito o pirarucu, a gente veio muito para falar sobre a importância da ventrecha, que é o prato que a gente mais vende nos nossos restaurantes hoje e começamos essa jornada de fazer esse jantar há uns três meses, é uma alegria muito grande poder estar com essas duas gigantes da gastronomia aqui comigo”, disse o chef Felipe Schaedler, anfitrião do Restaurante Moquém do Banzeiro.

A chef Débora, do Caxiri Manaus deixou um convite para todos os colegas chefs de cozinha, “eu acho que a gente tem que se desafiar como cozinheiros, quero convidar os colegas daqui de Manaus e de fora para que a gente assuma esse lugar de embaixadores e que essa ferramenta que é a gastronomia ela é capaz sim de manter a floresta em pé, e aos consumidores, que se abram e ajudem a gente a preservar a floresta a partir do consumo dos insumos que a gente consome e não consome e vamos cozinhar muito pirarucu, à ventrecha”. 

“Sempre me emociono ao falar sobre o manejo sustentável do pirarucu. Tive a honra de conhecer esse trabalho de perto durante uma expedição em 2022, e foi uma experiência muito impactante. Imagine alguém que vem da capital, onde tudo parece tão distante, fazer uma viagem de aproximadamente 36 horas para conhecer a origem desse produto.

Estávamos ali, chefs de várias regiões, com o mesmo propósito: entender e valorizar a origem do pirarucu. Foi profundamente tocante perceber o quanto nós, chefs, temos a responsabilidade de levar essa mensagem adiante — a de cuidar do que é nosso. Os ribeirinhos cumprem essa missão todos os dias, e nós precisamos defendê-los, falando sobre o produto deles e protegendo quem cuida da nossa floresta”, destacou Débora.

Leia também: Livro virtual e gratuito reúne 30 receitas com pirarucu de manejo sustentável da Amazônia

Valorização do território amazônico

A iniciativa reforça a importância da valorização da sociobiodiversidade amazônica, conectando o trabalho das comunidades tradicionais com chefs de renome e consumidores em diferentes partes do Brasil.

“A proposta é mostrar que o Pirarucu de manejo é muito mais que um ingrediente de excelência, ele representa uma cadeia produtiva justa, que respeita o meio ambiente e transforma vidas na Amazônia”, destacou Quilvilene Cunha, manejadora de pirarucu. 

Pirarucu manejado. Foto: divulgação

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A manejadora Quilvilene Cunha, da comunidade São Raimundo, destacou a importância do manejo do pirarucu para a conservação ambiental e a organização comunitária:

“O manejo do pirarucu é a alternativa que mais preserva o meio ambiente no nosso território e fortalece os arranjos das organizações comunitárias — tanto na vivência quanto na forma como se planejam e se organizam para monitorar os ambientes. A própria comunidade protagoniza todo esse processo de vigilância e preservação até o momento da captura. É um trabalho coletivo que gera resultados coletivos”, afirmou Quilvilene.

Ela também ressaltou os benefícios sociais e econômicos trazidos pelo manejo, especialmente para as mulheres. “Outras cadeias produtivas também fortalecem o território e promovem qualidade de vida, mas o pirarucu faz uma diferença concreta na vida das famílias, começando dentro de casa, com infraestrutura, eletrodomésticos e até o acesso à energia solar, como aconteceu na minha comunidade. Outro aspecto fundamental é a valorização e o reconhecimento das mulheres, que atuam e recebem igualmente os homens nesse processo”, completou.  

Seis Vezes Pirarucu foi uma realização conjunta de instituições que acreditam no potencial da gastronomia como ferramenta de transformação social, ambiental e cultural.

Búfalo albino raro é criado com mamadeira de leite de vaca em Rondônia: conheça o Zangão

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Búfalo albino é atração em feira agropecuária de Rondônia. Foto: Agaminon Sales/Rede Amazônica RO

Com mais de uma tonelada, pelagem parcialmente branca e temperamento dócil, Zangão, búfalo que nasceu em uma propriedade rural de Rondônia, tem uma característica rara: é albino. O Grupo Rede Amazônica conversou com especialistas que explicam a causa genética que dá essa característica ao animal.

Leia também: Tartarugas com albinismo lutam pela sobrevivência na Amazônia

Zangão é exibido na 12ª Rondônia Rural Show, uma das maiores feiras agropecuárias da Região Norte. Um cartaz ao seu lado conta que no ano de 2017, em uma fazenda de Presidente Médici (RO), nasceu um búfalo diferente de todos: preto com manchas brancas. Rejeitado pela mãe, ele foi criado pelo dono da propriedade, André Bispo, com mamadeira de leite de vaca e muito carinho.

“Eu estava andando no pasto, olhando o gado, e aí eu achei ele abandonado. Aí a mãe dele era novilha de primeira cria, criou e foi embora, deixou para trás”, relembra André.

Zangão, búfalo albino. Foto: Agaminon Sales/Rede Amazônica RO

O animal é fruto de uma cruzamento entre duas raças: mediterrâneo e murrah. Além das partes despigmentadas no corpo, ele possui olhos brancos que são sensíveis à luz.

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Possíveis causas e efeitos

De acordo com Maria Cecília Florisbal, pesquisadora doutora em Medicina Veterinária com ênfase em produção de bubalinos e bovinos, é possível (mas raro) encontrar búfalos com albinismo total ou parcial.

“No albinismo total, o animal é todo branco, sem pigmentação, incluído os olhos. No albinismo parcial, o animal pode apresentar apenas os olhos brancos, sem pigmentação, ou ser malhado como o da foto”, explica.

Essa condição é causada por uma mutação no gene da tirosinase, que é uma enzima essencial para produzir melanina, o pigmento que dá cor à pele, aos olhos e aos pelos.

“A ocorrência desse defeito genético, deve-se a um gene recessivo autossômico. Isso significa que os pais têm que possuir esse gene. Os pais podem ser de pelagem preta, mas portadores desse gene ou serem albinos, ou ainda um albino e o outro preto, mas portador desse gene defeituoso”, explica.

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Maria reforça que nesse casos é importante evitar a consanguinidade, um fator importante no aparecimento de doenças congênitas. Animais como o Zangão não devem ser utilizados para reprodução, já que podem transmitir o gene defeituoso para os descendentes.

Luciana Gatto Brito, pesquisadora da Empraba, médica veterinária e zootecnista, a ausência ou redução de melanina em búfalos albinos pode levar a uma série de problemas de saúde, tais como:

  • Sensibilidade à luz
  • Problemas de visão
  • Sistema imunológico comprometido
  • Estresse térmico

Por conta desses problemas, os animais precisam de cuidados especiais.

  • É crucial fornecer sombra adequada, como árvores, galpões ou toldos, especialmente durante as horas de pico de sol.
  • A aplicação de hidratantes veterinários específicos para animais pode ser necessária, especialmente em climas secos.
  • Búfalos albinos podem ser mais suscetíveis a parasitas externos, como carrapatos e moscas, devido à pele mais sensível.
  • É importante realizar exames oftalmológicos regulares para monitorar a saúde dos olhos e detectar precocemente qualquer problema.
  • O manejo deve ser calmo e cuidadoso, evitando situações que possam causar ansiedade.
  • Uma dieta balanceada e rica em nutrientes é fundamental para manter a saúde geral do animal e fortalecer sua pele e sistema imunológico.

Rondônia Rural Show

A 12ª edição da Rondônia Rural Show Internacional (RRSI), um dos maiores eventos de agronegócio da região Norte, começou na segunda-feira (26) e segue até 31 de maio, em Ji-Paraná (RO), na região central do estado.

11ª Rondônia Rural Show Internacional. Foto: Reprodução/Arquivo Rede Amazônica RO

O tema desta edição é “Do campo ao futuro”. Mais de 650 expositores do estado e de diversas partes do Brasil vão apresentar inovações tecnológicas e as principais tendências do agronegócio.

A feira, realizada anualmente desde 2012, promove o desenvolvimento sustentável e tecnológico da agropecuária, aproximando agricultores, empresários e o público em geral. De acordo com o governo de Rondônia, ela é reconhecida nacional e internacionalmente por impulsionar a economia agropecuária do estado, atraindo milhares de visitantes, produtores e investidores.

*Por Agaminon Sales e Jaíne Quele Cruz, da Rede Amazônica RO