Peixes da espécie Copella arnoldi, conhecidos como tetra splash, apresentam maior atividade reprodutiva durante a estação chuvosa, segundo estudo publicado na revista Neotropical Ichthyology. Com comportamento raro entre os peixes, esses animais depositam seus ovos fora d’água, em folhas acima do nível dos rios. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e contribui para o manejo sustentável da espécie, muito usada como peixe ornamental.
O estudo avaliou 171 indivíduos capturados no rio Taiassuí, no nordeste do Pará, entre agosto de 2016 e junho de 2017. Os pesquisadores analisaram o desenvolvimento dos órgãos reprodutivos e observaram que machos e fêmeas atingem a maturidade sexual a partir de 18 mm de comprimento corporal, com 100% deles capazes de se produzir aos 21 mm. Esse parâmetro é essencial para orientar políticas de captura que preservem a reprodução da espécie.
“Esse dado pode ser usado para a elaboração de políticas ou planos de captura que garantam que apenas indivíduos sexualmente maduros sejam capturados para o comércio de peixes ornamentais, o que evitaria a captura de juvenis e a manutenção de um bom tamanho populacional”, explica Rafael Farias, autor do estudo.
A análise dos índices gonadossomáticos (relação entre o peso das gônadas — ovários ou testículos — e o peso corporal) revelou dois picos reprodutivos ao longo do ano: em dezembro, início da estação chuvosa, e em abril, quando as chuvas atingem seu auge. É nesse período que os peixes depositam os ovos em folhagens acima do nível do rio. Copella arnoldi é a única espécie neotropical de água doce conhecida por realizar saltos de desova.
Outras duas espécies semelhantes também botam ovos fora d’água, mas apenas sobre superfícies sólidas próximas à margem — pedras, troncos ou folhas estáticas expostas fora do rio. A sincronia com o período úmido parece reduzir o risco de desidratação dos ovos, que ficam expostos ao ar atmosférico durante seu desenvolvimento
Para evitar a perda de umidade, os machos salpicam água sobre os ovos aproximadamente a cada minuto. Com o aumento da umidade ambiental, esse intervalo pode ser ampliado, tornando o esforço dos machos menor.
A pesquisa também estimou que as fêmeas produzem cerca de 148 oócitos (células germinativas) por ciclo, dos quais 47 são maduros e prontos para fertilização. Esse padrão sugere desova em lotes parciais, o que pode indicar maior capacidade de resposta a mudanças ambientais.
Farias também alerta que a dependência da umidade ambiental torna a espécie vulnerável às mudanças climáticas.
“Caso as mudanças climáticas ocasionem maior estiagem, estações chuvosas mais curtas ou menos intensas, é provável que os ovos fiquem mais suscetíveis à desidratação”, afirma.
Segundo ele, isso exigiria maior esforço dos machos na hidratação dos ovos, aumentando sua exposição a predadores e comprometendo o sucesso reprodutivo. “Não sei dizer se isso significaria a extinção da espécie, mas é certo que aquelas com nicho ecológico muito restrito são as primeiras a sofrer com as mudanças climáticas”, argumenta.
Os próximos passos da pesquisa devem incluir a análise da influência da qualidade ambiental sobre a reprodução da espécie. “Desse modo, poderíamos verificar como essa espécie se comporta em ambientes íntegros ou degradados”, afirma o pesquisador.
Grupo brasileiro antecipou o projeto ‘Amazônia, segundo consultor. Foto: Reprodução/Instagram-agtauditions
A competição de talentos norte-americana America’s Got Talent (AGT) chega a sua 20ª temporada em 2025. Na primeira fase, os jurados conferem audições dos mais diversos tipos, como canto, comédia, mágica, acrobacias, variedades, dança. E foi a dança – com um toque tecnológico – que ganhou destaque nesta fase, em maio, com a apresentação do grupo brasileiro LightWire, que ‘levou’ a Amazônia para o palco estadunidense.
A franquia global foi criada por Simon Cowell, um dos jurados, e que realizou o sonho de muitos artistas que participam do programa. Foi ele que apertou o ‘botão de ouro’ para levar o grupo brasileiro direto para a fase ao vivo da competição. Esse recurso é usado quando um dos jurados acredita que aquele número vale “passar na frente” e ir direto para a final. Eles foram os primeiros a receber o “golden buzzer” nesta temporada.
Em seu site oficial, o grupo explica que as performances artísticas buscam ser imersivas, usando tecnologia de figurinos luminosos, com fibra ótica e LED, sincronizados com vídeo e coreografia. O real e o virtual se fundem, e foi assim que criaram a experiência ‘Amazônia’. Elementos da região integram a apresentação, como a onça-pintada, detalhes da floresta, macacos, cobras e os povos originários.
O consultor Gilmar de Almeida, pai de Daniel Almeida e Felipe de Almeida (sócios da LightWire), comentou em uma rede social que “a crescente notoriedade da LightWire resultou no convite para se apresentar no America’s Got Talent em Los Angeles, um prestigiado palco mundial. Este convite nos impulsionou a reavaliar nossa estratégia, adiando o espetáculo da Lei Rouanet e antecipando o projeto ‘Amazônia'”.
Em sua avaliação, Cowell comentou suas impressões antes de apertar o botão: “Você nunca sabe sabe quando está fazendo um novo ano [do programa] se vai ver algo melhor do que já tenha visto antes. E honestamente este foi um dos mais bonitos e espetaculares atos que eu vi em todos os Got Talents. Foi tão emocionante e eu não sei porque vocês estavam tão nervosos, pois vocês sempre vão ter um desses…”. Foi então que o jurado os escolheu para ir direto para as apresentações ao vivo.
Depois disso, os representantes do grupo afirmaram que estavam emocionados porque “a Amazônia é muito importante, a Amazônia é o pulmão do mundo, é importante para todos”.
Assista:
O apresentador atual é Terry Crews (As branquelas) e a formação atual de jurados é composta por Cowell, Howie Mandel, Mel B e Sofía Vergara. O vencedor recebe um grande prêmio em dinheiro (pago principalmente ao longo de um período de tempo) e, desde a terceira temporada, a chance de ser a atração principal de um show na Las Vegas Strip, nos EUA.
Lançamento do projeto Belém Papa Chibé. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará
A tradicional bebida indígena da Amazônia, que carrega no sabor a ancestralidade e as memórias do povo paraense, dá nome ao estudo inédito de mapeamento do cenário gastronômico da capital do Pará: o projeto Belém Papa-Chibé.
O site com os resultados da pesquisa foi lançado no dia 29 de maio na Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), apresentando um roteiro que celebra as cores, os sabores e as tradições da cozinha paraense — elementos que fazem de Belém um destino singular para os apreciadores da boa gastronomia.
O levantamento é fruto do trabalho da Diretoria de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas e Análise Conjuntural (Diepsac) da Fapespa, que ao longo de três meses visitou 2.400 estabelecimentos ligados ao setor de bebidas e alimentação, distribuídos em 71 bairros, oito distritos administrativos e duas ilhas da cidade que será sede da COP30 (Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas).
A plataforma digital apresenta um mapa interativo que permite traçar rotas pelos oito distritos e reúne informações essenciais sobre as praças de alimentação da capital, como pratos típicos, estilos de cozinha, tipos de comida, especialidades e experiências gastronômicas disponíveis.
“Belém é uma das poucas cidades do mundo com o título da ONU de Cidade Criativa da Gastronomia. Por isso, merecia um estudo como esse. O projeto apresenta uma amostragem extensa, com uma pesquisa socioeconômica completa sobre cerca de 2.400 empreendimentos da cidade. Nosso mapeamento confirma a diversidade do setor, mostrando que Belém não oferece apenas pratos típicos, mas também cozinha internacional, italiana, japonesa, francesa, além de lanches e churrascos”, explica Márcio Ponte, diretor da Diepsac.
Lançamento ocorreu dia 29 de maio. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará
Diversidade nos distritos
O projeto Belém Papa Chibé foi concebido para documentar e valorizar a diversidade culinária da capital paraense. O estudo também realiza um diagnóstico detalhado do perfil socioeconômico dos empreendimentos, identificando obstáculos administrativos, burocráticos e financeiros que impactam o desenvolvimento do setor. Os dados traçam o panorama gastronômico dos oito distritos administrativos: Belém, Bengui, Entroncamento, Guamá, Icoaraci, Mosqueiro, Outeiro e Sacramenta.
Em Belém, predomina a culinária regional, com destaque para o tacacá, vatapá e maniçoba.
No Bengui, as churrascarias lideram.
O Entroncamento apresenta forte presença da cozinha japonesa e regional.
No Guamá, predominam churrascarias e pratos típicos.
Icoaraci tem forte concentração de churrascarias.
Mosqueiro é marcado por sabores praianos como açaí com peixe frito e camarão.
Em Outeiro, a cultura pesqueira é expressiva, com destaque para o açaí com peixe frito.
Sacramenta reúne mais estabelecimentos focados em peixe frito e churrasco.
Perfil e impacto do setor
A pesquisa revela que a maioria dos estabelecimentos gastronômicos da cidade funciona em imóveis alugados e tem até cinco anos de existência — sinalizando um setor jovem, dinâmico, mas vulnerável a desafios relacionados à sustentabilidade dos negócios. Em Belém, 77,5% dos empreendimentos estão formalizados, enquanto 22,5% atuam na informalidade.
Cerca de 88,8% dos estabelecimentos têm como atividade principal a comercialização de refeições. Entre eles, o tradicional prato feito — composto por arroz, feijão e proteína — representa 35% do total. Em seguida, destaca-se a culinária regional com o emblemático açaí com peixe frito (14%) e os clássicos tacacá, vatapá e maniçoba, que juntos representam quase 12% do setor.
Do ponto de vista socioeconômico, o impacto do setor gastronômico é expressivo: emprega aproximadamente 51 mil pessoas, majoritariamente em regime formal e com qualificação na manipulação de alimentos. O faturamento médio dos estabelecimentos gira em torno de R$ 40 mil, com uma margem média de lucro estimada em 17,3%.
Durante o lançamento da plataforma, também foi anunciada a expansão da pesquisa. “Nosso objetivo é ampliar ao máximo o escopo do estudo gastronômico no estado, estendendo o mapeamento para outros municípios da região metropolitana de Belém e cidades como Santarém, outro importante polo gastronômico do Pará”, disse Márcio Ponte.
O mapa gastronômico e os dados do projeto podem ser acessados pelo site da Fapespa. Estabelecimentos de Belém interessados em fazer parte da pesquisa ainda podem participar, preenchendo um formulário disponível no site Belém Papa Chibé, onde devem ser fornecidas informações sobre o empreendimento.
O uso e a produção de biocombustíveis, como o etanol, promovem a autonomia energética, o que é especialmente importante em áreas isoladas, onde o acesso a recursos energéticos pode ser limitado. Em pesquisa, apoiada pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), investigou-se a viabilidade da produção de bioetanol, através da hidrólise e fermentação das raízes de mandioca açucarada.
Amparada pelo Programa de Apoio à Ciência, Tecnologia e Inovação em Áreas Prioritárias para o Estado do Amazonas – CT&I Áreas Prioritárias, Edital N° 010/2021, o estudo intitulado ‘Mandioca açucarada, uma alternativa para a produção de bioetanol no estado do Amazonas’, analisou que a quantidade de amido presente no bagaço, após extração do caldo, permite uma maior liberação de açúcares, o que torna o processo fermentativo mais eficiente e vantajoso.
Segundo a coordenadora do estudo e doutora em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia, Leiliane do Socorro Sodré de Souza, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a mandioca foi escolhida devido à motivação do grupo de pesquisa em desenvolver bioprodutos a partir de biomassa vegetal presente no estado.
“A produção de biocombustíveis é uma possibilidade interessante para comunidades isoladas. E, como a mandioca é uma espécie que vários produtores têm experiência com cultivo e, mesmo que a mandioca açucarada tenha algumas características diferentes, a mandioca amilácea e açucarada são similares no cultivo, e assim esta foi escolhida para a pesquisa”, afirmou.
A mandioca açucarada apresenta em sua composição em torno de 85% de água e o restante da composição divide-se em açúcares, proteína, amido e fibras.
Bioetanol
Sobre a investigação da viabilidade da produção de bioetanol através da hidrólise, um fenômeno químico no qual uma molécula é quebrada em moléculas menores na presença de água, e da fermentação das raízes de mandioca açucarada, Leiliane Souza explica mais sobre o processo:
“Foi utilizado o caldo extraído da raiz, que já contém açúcares, e o bagaço restante foi analisado e ao observarmos que o mesmo apresenta mais de 50% de amido, foi aplicado o processo de hidrólise para a quebra desse amido em moléculas menores, os açúcares. Com mais açúcar, favorecemos o processo de fermentação, no qual o etanol é liberado”, afirmou a pesquisadora.
Foto: Reprodução/Arquivo Fapeam
No processo, após prensar as raízes, foram obtidas duas porções, uma fase líquida (caldo) e uma fase sólida (bagaço), essa última foi levada para análise, por apresentar um teor significativo de amido, observou-se que o uso das enzimas permitiria aumentar a contração de açúcares.
Durante a pesquisa, no processo de fermentação com a levedura Saccharomyces cerevisiae a concentração de etanol obtida foi de 14,33 g/L em 72 horas de processo, sendo possível obter 0,29 g de etanol/g de biomassa. Esses resultados podem ser melhorados com ajustes na concentração de açúcares e no tipo de microrganismo.
Outro benefício apontado pela pesquisadora sobre a utilização dessas fontes alternativas de energia foi a respeito da redução das emissões de gases de efeito estufa. Os biocombustíveis, que usam fontes renováveis, têm um ciclo de carbono mais equilibrado em comparação com os combustíveis fósseis, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
Mapear a variabilidade genética, identificando diferentes versões de um gene dentro de uma espécie de planta nativa, é a nova arma da ciência para a conservação e uso sustentável dos manguezais da Amazônia. Na região, que se destaca por abrigar a maior faixa contínua desse ecossistema no mundo, a tecnologia começou a ser aplicada de forma inédita em iniciativas de reflorestamento de áreas degradadas, com participação de comunidades locais que dependem dos recursos naturais como meio de sustento.
“Quanto maior a variabilidade genética das plantas de uma mesma espécie, maior a capacidade de adaptação e de sobrevivência diante de alterações ambientais, como os impactos climáticos”, afirma Marcus Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Bragança (PA).
Por meio do mapeamento, as sementes que se destinam à recuperação do ecossistema – antes coletadas de forma aleatória em praias e manguezais, sem distinção de qualidade – passaram a ser selecionadas conforme as áreas que concentram uma maior diversidade genética, com mais chances de resultar em novas gerações de árvores mais produtivas e resilientes. Saber onde se localizam as melhores plantas – diz Fernandes – é um conhecimento estratégico ao manejo mais eficiente das florestas de mangue, com reflexos positivos no estoque de carbono e na fauna – por exemplo, do caranguejo-uçá.
Com a nova ferramenta, muito além de quantidades, é possível trabalhar as qualidades impressas pelas características genéticas das plantas. “O método permite melhores resultados do reflorestamento, reduzindo perdas e proporcionando mais benefícios”, completa Fernandes, também coordenador do projeto Mangues da Amazônia, realizado pelo Instituto Peabiru, Instituto Sarambuí e o Laboratório de Ecologia de Manguezal – LAMA/UFPA. Visando à conservação e uso sustentável desse ecossistema, a iniciativa conta desde 2021 com o patrocínio da Petrobras e do Governo Federal através do Programa Petrobras Socioambiental, em benefício direto e indireto de cerca de 15 mil pessoas nos municípios paraenses de Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu.
Entre as ações socioambientais, o projeto reflorestou até agora 18 hectares de áreas de manguezais degradados nesses municípios, envolvendo a mobilização comunitária, a aplicação de metodologias científicas e a integração de conhecimentos tradicionais. A meta é atingir o total de 40 hectares reflorestados e 100 hectares monitorados na região do entorno, nos próximos anos, alinhados ao Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC), com impacto positivo sobre o sequestro de carbono e a proteção das zonas costeiras e populações locais.
“O plantio de áreas degradadas é um gesto de sensibilização e conexão com a natureza, em que cada hectare recuperado mostra que é possível repor o que foi perdido e desperta a percepção de que a conservação é um dever coletivo”, observa John Gomes, gerente do projeto Mangues da Amazônia.
Em ano especial de COP 30, em Belém, o trabalho de reflorestamento dá visibilidade aos manguezais amazônicos pela importância no enfrentamento às mudanças climáticas do planeta. Cientistas estimam que os manguezais da região produzem duas a três vezes mais carbono do que as florestas de terra firme, e o grau de diversidade genética – junto a outros fatores – é visto como diferencial-chave neste cenário.
“Estamos na fronteira da ciência no uso da genética como uma ferramenta essencial à conservação de manguezais”, reforça o biólogo Adam Bessa, pesquisador do projeto Mangues da Amazônia à frente do mapeamento. Na metodologia adotada, os pesquisadores do projeto utilizam 1 hectare de floresta de mangue dentro de cada um dos 12 quadrantes em que a península de Ajuruteua (Bragança – PA) foi dividida como base para a coleta de folhas das espécies Rhizophora mangle (mangue-vermelho), Avicennia germinans (mangue-preto) e Laguncularia racemosa (mangue-branco). O material é analisado em laboratório, por meio da extração do DNA, para a identificação das amostras que apresentam maior variação de genes e suas áreas de origem.
Atualmente a equipe do projeto realiza a coleta de amostras em campo para que os primeiros dados sobre a variabilidade genética sejam obtidos ao longo de 2025. “O objetivo é oferecer referencial para ajudar as plantas na superação de condições ambientais adversas e outros impactos a que estão expostas, no reflorestamento” diz Bessa. Além de subsidiar a proteção de áreas naturais como bancos de sementes, o trabalho dá suporte ao planejamento de corredores ecológicos que conectam fragmentos de vegetação nativa. “Restaurar não é só plantar árvores, mas trazer a estrutura biológica de volta”, enfatiza o biólogo.
O Mangues da Amazônia é um projeto socioambiental com foco na recuperação e conservação de manguezais, educação ambiental e atividades socioculturais em Reservas Extrativistas Marinhas do estado do Pará. É realizado pelo Instituto Peabiru, Instituto Sarambuí e Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), e conta com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Com início em 2021, o projeto já atua 5 anos nas RESEX Marinhas de Augusto Corrêa, Bragança, Tracuateua e Viseu.
Laboratório de Ecologia de Manguezal – LAMA
Foto: Divulgação/Mangues da Amazônia
O Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA) é um grupo de pesquisa vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), com sede no Campus de Bragança, que atua há mais de 20 anos no estudo e conservação dos ecossistemas de manguezal na Amazônia. Reconhecido por sua excelência científica, o LAMA desenvolve pesquisas sobre ecologia, biodiversidade, dinâmica dos estoques de carbono e recuperação de áreas degradadas.
Seu diferencial está na atuação integrada com as populações locais, promovendo o monitoramento participativo e o intercâmbio entre conhecimentos científicos e tradicionais. O laboratório é referência nacional em Manguezais Amazônicos e na formação de pesquisadores comunitários, sendo uma das instituições realizadoras do projeto Mangues da Amazônia.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Pedro Devani/Secom Acre
O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) repassou R$ 27 milhões advindos de pagamentos originados por concessões federais em Florestas Nacionais (Flona) aos estados de Pará e Rondônia, além de cinco municípios onde se localizam as florestas concessionadas às quais os pagamentos se referem. O valor engloba a arrecadação resultante da produção dessas concessões em 2024 e a um saldo de repasses anteriores que não havia ainda sido mobilizado.
Os governos estaduais receberam a maior fatia (R$ 16.271.292,30), mas será nos municípios que o impacto desse dinheiro produzirá efeitos mais sensíveis – serão R$ 10.753.382,30 aterrissando em algumas das comunidades mais desassistidas da Amazônia, como é o caso do município de Melgaço, ocupante do triste posto de pior IDH do Brasil. Faro, Itaituba, Oriximiná e Terra Santa são os outros beneficiados.
“Esse é o maior valor já transferido para localidades que abrigam concessões florestais federais e merece ser comemorado”, afirma Leonardo Sobral, diretor Florestal do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Ele explica que os repasses dão visibilidade ao retorno econômico das concessões, aumentando a compreensão da população sobre o manejo sustentável feito pelas concessionárias. “Eles também contribuem para pôr de pé investimentos em projetos, atividades e recursos voltados à gestão e ao uso sustentável dos recursos florestais”, completa.
R$ 27 milhões vindos de concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Divulgação
Os repasses são benefícios diretos e que se somam a outros ganhos trazidos pela atividade, como lembra Renato Rosenberg, diretor de Concessões Florestais do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), destacando que as concessões costumam ocupar regiões fronteiriças do desmatamento. “São locais vulneráveis a crimes ambientais e fundiários, que ficam inibidos pela presença de pessoas vinculadas às concessões dentro das Unidades de Conservação. E a colheita florestal acontece de forma controlada e monitorada, desdobrando-se em recursos, empregos, renda, oportunidades sociais e formalização da economia”, afirma Rosenberg.
Ele explica ainda que, no ano passado, intensificaram-se os esforços para aumentar o número de concessões e melhorar o fluxo dos recursos destinados aos estados e municípios. O objetivo era apresentar os valores disponíveis e auxiliar na escolha de projetos aderentes aos requisitos para acessá-los. “O processo, aliado a um ajuste orçamentário, criou um caminho para que os repasses passem a ser acessados com maior regularidade daqui para a frente”, diz Rosenberg.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Fernando Sette/Agência Pará
O contrato de uma concessão florestal dura cerca de 40 anos e é pautado pela execução de um Plano de Manejo Florestal Sustentável, que estabelece as atividades e estima a produção anual de madeira. A produtividade da colheita, no entanto, varia de um ano para outro por múltiplos fatores e cabe ao SFB monitorar a execução das atividades e a produção efetiva. O concessionário, por sua vez, paga um valor mínimo anual estabelecido em contrato, destinado ao SFB. Superada a produção correspondente a essa arrecadação fixa, o excedente arrecadado é dividido nas seguintes proporções: 40% ao Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), 20% aos estados de origem das concessões, 20% aos municípios envolvidos e 20% ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal.
A repartição, destinação e modo de acesso ao recurso são regulamentados por dois dispositivos legais – a Lei de Gestão de Florestas Públicas (11.284/2006) e a Portaria MAPA 506/2022, que estabelecem condições e procedimentos para os repasses. Estados e municípios precisam apresentar um plano com os projetos ou atividades a serem realizados. Esses planos devem ser aprovados por conselhos de Meio Ambiente, nos quais se prevê participação popular. Outra exigência é que estejam ligados ao uso sustentável dos recursos florestais – ou seja, com iniciativas que favoreçam a manutenção da floresta em pé. “Em campo, notamos grande dificuldade dos envolvidos para diferenciar entre projetos ambientais diversos e aqueles com incidência sobre a floresta. Tanto que um dos planos para 2025 é criar um guia permanente para orientar conselheiros e gestores municipais”, conta Sobral.
Alguns dos projetos alavancados pelos repasses feitos em 2025 impactam diretamente a população e sua relação com a floresta. Em Faro, por exemplo, há previsão de construção de uma miniusina para processamento de castanha-da-Amazônia e promoção de oficinas sobre boas práticas de manejo.
Em Terra Santa, os repasses oriundos das concessões já permitiram a construção da sede própria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, equipada com infraestrutura adequada — algo ainda raro entre secretarias do tipo na região. Além disso, a aquisição de um veículo em 2019 tornou possível ampliar o alcance das ações técnicas e de fiscalização nas áreas rurais. Segundo a secretária de Meio Ambiente e Mineração, Samária L.C. Silva, os impactos mais visíveis se darão diretamente nas comunidades.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Greenpeace Brazil
Com mais de R$ 800 mil em caixa para novos projetos, a prefeitura já destinou parte do valor à construção de uma casa de apoio ao projeto Pé-de-Pincha, de conservação de quelônios, e lançou a primeira chamada pública voltada à seleção de propostas de associações comunitárias. Os recursos estão financiando viveiros florestais, hortas comunitárias, sistemas agroflorestais e meliponicultura. “São projetos que aliam conservação da floresta com geração de renda e segurança alimentar, além de fortalecerem a autonomia das associações”, afirma a secretária.
Há até um projeto de construção de uma casa de apoio à ciência para promoção de pesquisa, educação ambiental e inclusão socioambiental das comunidades.
Já o município de Melgaço irá investir em oficinas de capacitação para regularização ambiental de pequenas propriedades rurais, no apoio à obtenção de licença para serrarias de pequeno porte e na reforma de um viveiro florestal para plantio de mudas de açaí e cupuaçu a serem distribuídas a famílias da zona rural, promovendo alternativas econômicas sustentáveis e conectadas à realidade local. O engenheiro sanitarista e ambiental Juesley B.P. Viegas, da Secretaria de Meio Ambiente do município, destaca que o apoio financeiro possibilitou ainda ações como oficinas sobre manejo e educação ambiental e recuperação de um bosque municipal.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Amazonastur
“O próximo passo será ampliar o alcance dessas medidas. Nosso território é extenso e o deslocamento até as comunidades exige estrutura adequada. Com esses recursos, poderemos adquirir equipamentos, embarcações e combustível, o que viabiliza a presença do poder público onde ela é mais necessária”, afirma Viegas.
Essas são apenas algumas das maneiras pelas quais os recursos das concessões retornam para as comunidades do entorno, viabilizando iniciativas que, de outra forma, não teriam investimento para se concretizar. É a floresta fazendo diferença na vida daqueles que com ela convivem e podem, a partir dessas experiências concretas, aumentar a percepção de que a floresta em pé também tem valor.
O livro ‘Protocolo de Manejo de Abelhas Nativas Sem Ferrão (Meliponini): Reservas Amanã e Mamirauá, Floresta Nacional de Tefé e comunidade Missão, Amazonas, Brasil’ foi lançado no dia 27 de maio na sede do Instituto Mamirauá. Fruto de mais de três décadas de pesquisa e atuação junto às comunidades ribeirinhas, a publicação representa um marco na promoção da meliponicultura na região do médio rio Solimões, Amazônia.
O lançamento contou com a presença de pesquisadores, técnicos e representantes de comunidades locais, que participaram ativamente na construção do documento. A obra, realizada pelo Instituto Mamirauá em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e com a colaboração de instituições como Emazon, Rede Mel e IFAM, foi celebrada como um exemplo de integração entre ciência e saberes tradicionais.
“Esse protocolo significa muito para mim. Ele foi muito mais do que fazer ciência. Foi uma forma de honrar tudo aquilo que a floresta amazônica, os rios e as comunidades tradicionais me ensinaram”, destacou, emocionado, Bruce Dickinson dos Santos, biólogo e coautor da obra, natural de uma comunidade da Reserva Mamirauá.
Mel de abelhas sem ferrão da Amazônia. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá
Saberes tradicionais e partilhados no cuidado com as abelhas nativas
O livro reúne informações detalhadas sobre a criação e o manejo sustentável de abelhas nativas sem ferrão — conhecidas como meliponíneos — espécies abundantes na Amazônia que não apenas produzem mel de alto valor, mas também desempenham papel fundamental na polinização de espécies florestais e agrícolas. Elas garantem a fertilidade dos ecossistemas e o equilíbrio da biodiversidade, serviços ecossistêmicos cruciais em uma região onde floresta, comunidade e vida estão profundamente entrelaçadas.
A região do médio Solimões, cenário central do protocolo, é um dos maiores celeiros de biodiversidade do planeta. Ali estão as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, a Floresta Nacional de Tefé e a comunidade Missão — territórios onde a natureza pulsa em ciclos de cheia e vazante, e onde povos ribeirinhos, indígenas e tradicionais vivem em profunda relação com o ambiente. É nesse mosaico de vida e resistência que a meliponicultura ganha força como prática ancestral e contemporânea, que une cuidado, conhecimento e autonomia.
Lançamento do protocolo foi realizado dia 27 de maio. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá
Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá, explicou que a publicação é o resultado de um longo percurso iniciado ainda nos anos 1990:
“A obra traduz o resultado de um trabalho iniciado nos anos 1990 e tem como finalidade documentar, guiar e orientar os passos para criação e manejo de abelhas nativas sem ferrão na região do médio Solimões, por meio da integração do conhecimento científico e tradicional.”
“A publicação deste protocolo é uma importante contribuição não somente para a região do médio Solimões, mas que também poderá ser utilizado como referência para o manejo de abelhas nativas sem ferrão no estado do Amazonas. O protocolo, além de todas as orientações sobre todos os passos que devem ser seguidos desde o início da criação, manejo até a regularização da atividade na região, traz uma discussão sobre o contexto da meliponicultura no Amazonas trazendo visibilidade para as discussões, desafios e lacunas com o objetivo de dar mais clareza as discussões, fluidez e estruturação à cadeia da meliponicultura e apoiar a adequação da legislação de meliponicultura do Amazonas para que seja mais inclusa aos meliponicultores”, acrescenta Fernanda Viana.
Médio Solimões, região estratégica para a meliponicultura
A região do médio Solimões — onde se localizam a Reserva Mamirauá, a Reserva Amanã e a Floresta Nacional de Tefé — é considerada uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade. Com um mosaico de ecossistemas de várzea e terra firme, abriga dezenas de espécies de abelhas sem ferrão. O protocolo se baseia em experiências reais de comunidades locais que há décadas praticam o manejo dessas abelhas.
“O protocolo foi produzido justamente para dar suporte, ser uma fonte de apoio técnico, com informações técnicas a respeito da criação de abelhas e da legalização dos criatórios”, afirmou Rinaldo Sena Fernandes, professor do Instituto Federal do Amazonas (IFAM). Além de fornecer instruções práticas para a criação e manejo das abelhas, o protocolo aborda aspectos legais, sanitários e de comercialização, contribuindo para a geração de renda de forma sustentável.
Lançamento do protocolo para manejo de abelhas nativas sem ferrão na Amazônia. Foto: João Cunha/Instituto Mamirauá
Inovação, qualidade e potencial de mercado
A qualidade do conteúdo técnico do livro foi ressalta por especialistas e coautores da publicação. Segundo Sidney Dantas, técnico agrícola e coordenador da Rede de Meliponicultura do Amazonas, a publicação oferece ferramentas valiosas para os criadores da região. “Esse é um trabalho muito importante porque vem dar tecnologias e tecnificar o meliponicultor para que possa executar as atividades com mais precisão, com maior higienização e colocar um produto futuramente no mercado que é de suma importância e alta qualidade”, aponta.
Diego Ken Osoegawa, da Amazônia Bee, enfatizou o valor científico da publicação. “O protocolo traz muitos avanços para o Médio Solimões. Em parceria com o IFAM e o Instituto Mamirauá, conseguimos inclusive identificar espécies de abelhas que nunca haviam sido registradas no Amazonas.”, afirma.
Conhecimentos tradicionais e biodiversidade em uma colher
Mais do que um manual técnico, o protocolo foi descrito por seus autores como um símbolo de pertencimento e resistência cultural. Ao dar visibilidade à sabedoria de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, o documento também valoriza os produtos da sociobiodiversidade amazônica.
“O mel que as abelhas nativas produzem carrega a essência de uma floresta em uma colher”, disse Bruce Dickinson. “Ele carrega a cultura de uma comunidade.”
Reinaldo Bozelli, pesquisador Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Comissão de Avaliação do MCTI, reforçou o valor social e ambiental da obra. “Se a gente pensa num futuro que não tem apenas o lucro em vista, mas também a proteção da biodiversidade, esse tipo de atividade — o manejo das abelhas — aponta o caminho”, considera.
Inundação do Rio Juruá em 2021. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana.
A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction nesta quinta (29).
O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.
Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.
No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas – , a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.
Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”.
As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.
Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Manaus vista de cima. Foto: Clóvis Miranda/SemcomManaus
Localizada às margens do Rio Negro, em plena floresta amazônica, Manaus carrega em seu DNA a força da resistência, da diversidade e da criatividade. Fundada oficialmente em 1669 com a construção do Forte de São José do Rio Negro, a cidade cresceu entre os ciclos da borracha, o movimento migratório e o avanço da Zona Franca, tornando-se a capital vibrante que conhecemos hoje.
Com influências indígenas, nordestinas e caboclas, a capital do Amazonas é um verdadeiro caldeirão cultural onde surgem histórias únicas, capazes de emocionar e surpreender, e as produções audiovisuais feitas na cidade vêm ganhando espaço e reconhecimento.
De produções independentes a filmes premiados e séries que conquistam o público, Manaus tem sido cenário para revelar o dia a dia de quem vive no coração da floresta e muita criatividade.
Além disso, tem revelado diretores, roteiristas e atores que exploram temas regionais como a juventude periférica, conflitos urbanos, cultura popular, lendas amazônicas, ancestralidade e o dia a dia de quem vive no coração da floresta.
Confira seis produções filmadas em Manaus:
A Febre
O filme acompanha Justino, um indígena que há 20 anos vive em Manaus, trabalhando como segurança no porto da cidade. Sua filha Vanessa trabalha em um posto de saúde e acaba de passar para a faculdade de Medicina, na Universidade de Brasília. Insegura entre seguir seu sonho e deixar seu pai, ela precisa ainda lidar com uma estranha febre que subitamente aparece. Paralelamente, uma série de estranhos ataques a animais ganha destaque na TV local.
O longa é estrelado pelo ator indígena Regis Myrupu, natural de São Gabriel da Cachoeira, vencedor do prêmio Leopard for Best Actor de 2019.
Onde assistir: Netflix
O último azul
O filme acompanha Tereza, uma mulher de 77 anos que mora numa cidade industrializada na Amazônia, e recebe um chamado do governo para abandonar sua casa e residir numa colônia habitacional para idosos. Antes de ser compulsoriamente expulsa de seu lar e enviada para longe, Tereza quer realizar seu último desejo: embarcar numa viagem pelos rios e afluentes da região.
O longa, dirigido por Gabriel Mascaro, se passa no Amazonas, com cenas filmadas em Manaus, Manacapuru e Novo Airão.
Onde assistir: tem previsão de lançamento nos cinemas brasileiros em agosto de 2025.
Dois Irmãos
A série gira em torno da história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, e suas relações familiares em uma casa em crise. Baseada no romance de Milton Hatoum, a narrativa ocorre na cidade de Manaus e fala sobre a história de uma família de imigrantes libaneses.
O curta acompanha dois amigos que se encontram para comer um bodó. A conversa entre eles percorre as cores e os cheiros das casas, no calor da cidade de Manaus.
A novela conta a história de três jovens dispostos a explorar um novo mundo. À procura de pessoas queridas que desapareceram sem explicações, eles se conhecem e descobrem que é preciso ir muito além do horizonte para desvendar os mistérios que envolvem suas famílias.
A produção teve algumas cenas gravadas em Manaus, onde a floresta e suas grutas, rios e cachoeiras serviram de cenário para contar o início da trama.
Onde assistir: Globoplay
Antes o tempo não acabava
O longa acompanha a história de Anderson, um jovem rapaz que possui raízes na etnia indígena saterê. Quando ele se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, ele começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu, os costumes urbanos e o complexo e conturbado cotidiano da metrópole.
Onde assistir: atualmente está indisponível em streamings
Grupo busca viabilizar retomada de atividades do Trem de Santana. Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
Em dezembro de 2014, o trem de carga da estação de Santana circulou pela última vez na Estação Ferroviária do Amapá. Em 2015, os serviços para passageiros também encerrou. Desde então, os mais de 380 vagões de carga e o trem de passageiros estiveram abandonados, espalhados por áreas onde passa o trilho, que passaram a fazer parte dos quintais de moradores da região.
Construída entre 1954 e 1957, pelas empresas Indústria e Comércio de Minério S.A. (ICOMI) e a Bethlehem Steel Company, seus trilhos serviam de caminho para os trens que transportam minério (manganês) extraído entre a Serra do Navio e Santana.
Esta é a única estrada de ferro em bitola standard (largura determinada pela distância medida entre as faces interiores das cabeças de dois trilhos em uma via férrea), com 1,435 m, no Brasil. O percurso é de pelo menos 194 quilômetros, passando por cinco localidades amapaenses.
Região ao entorno dos trilhos é habitada por moradores. Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
Após alguns anos, já em 1980, a Bethlehem vendeu sua participação para a Caemi e a exploração de manganês foi encerrada 17 anos depois. Assim, com o encerramento das minas da ICOMI, iniciou-se o processo de sua desativação gradualmente.
Somente em 2006 uma nova empresa assume a administração da Estrada de Ferro: a MMX Mineração e Metálicos. Mesmo com os diversos planos de investimento para a recuperação, dois anos depois a MMX foi vendida para a Anglo American. Mais um hiato se passou e, em 2013, a Zamin assumiu o controle.
Com a crise financeira na empresa, após o desabamento do porto particular em 2013, o governo estadual decretou, em 2015, a extinção do contrato da mineradora com a ferrovia. A fiscalização e a concessão voltou para o poder público, ficando na responsabilidade da Secretaria de Estado de Transportes (Setrap). A DEV Mineração foi quem assumiu as operações do setor mineral no estado em 2019. Em 2021, foi levantada uma proposta de possível reativação, no entanto, o projeto não teve continuidade.
Recuperação
A reestruturação do trem e a revitalização da estação de Santana será discutida em uma audiência pública nesta sexta-feira (30) na Câmara de Vereadores do município. O evento está marcado para iniciar às 9h e o debate é aberto à população em geral.
A discussão é promovida pelo movimento ‘Eu vou de Trem’, tendo em pauta a valorização da estrada de ferro, do turismo e movimentação na economia local.
Reativação da ferrovia de Santana vai ser discutida em audiência publica. Foto: Reprodução/Arquivo Setrap
Ester de Paula, representante do movimento ‘Eu vou de Trem’, disse que durante a reunião serão debatidas a revitalização dos vagões e o resgate da história. Além disso, o trem deve percorrer em um trecho curto.
Luiz Antônio Gonçalves, também representante do movimento, disse que o intuito é resgatar a história da estrada de ferro, que vem se deteriorando com o tempo. Ele explicou ainda que o movimento deve sair da audiência com um grupo de trabalho já firmado, para que o projeto siga em plano de desenvolvimento.
*Com informações do Acervo da Rede Amazônica AP e Isadora Pereira, do g1 Amapá