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50 dias na floresta: a história do caçador que ficou perdido após ser encantado pela “mãe da mata”

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Caçador ficou perdido por 50 dias na floresta. Foto: Alexander Lees

O caçador Magnilson da Silva Araújo, de 34 anos, desapareceu no dia 7 de abril, durante uma caçada com outros dois comunitários na região do km 50 da rodovia AM-352, que liga os municípios de Manacapuru a Novo Airão. Segundo os familiares, em determinado momento da caçada, ele decidiu seguir sozinho por um caminho diferente. Desde então, não havia sido mais visto.

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Após mais de 50 dias desaparecido, o caçador, foi encontrado com vida por moradores na manhã do dia 28 de maio, em uma área de mata no Ramal do Tumbira, no km 44 da rodovia AM-352, que liga Manacapuru a Novo Airão, no interior do Amazonas.

Desidratado, visivelmente mais magro, mas consciente, Magnilson recebeu abrigo e alimentação de moradores da região. Eles gravaram um vídeo logo após o resgate e compartilharam nas redes sociais para ajudar a localizar os familiares.

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Local onde o caçador foi encontrado em floresta do AM — Arte: g1 Amazonas

Foi por meio de uma publicação feita pela família que acolheu Magnilson que os parentes do caçador souberam que ele estava vivo. Durante o reencontro, uma familiar emocionada gravou um vídeo relatando o estado dele e agradecendo pelo apoio.

Veja o vídeo completo AQUI

Durante mais de dez dias, equipes do Corpo de Bombeiros atuaram nas buscas com apoio de cães farejadores. Moradores e familiares também ajudaram.

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Abrigo improvisado

Buritizeiro. Foto: Divulgação

Ele contou que, durante o tempo em que esteve perdido, construiu um abrigo improvisado para fugir da chuva.

Ele relatou ainda que, nos primeiros dias, dormia sobre galhos de árvores para tentar se proteger de animais. “Dormia nos galhos por causa de bicho, pra não me pegar durante a noite. Já com quase uns 20 dias, foi onde achei esse buritizeiro”, relatou.

Magnilson contou também que, após encontrar o buritizal, viu ali a chance de montar um abrigo improvisado para se proteger da chuva.

“Vi que tinha buriti embaixo e resolvi ficar ali. Tinha uns galhos. Quebrava palha no dente, na mão mesmo. Fiz uma chopanazinha, cobri. Peguei um bocado de vara — daquelas que eles tinham cortado pra marcar o pique — forrei e entrei debaixo. Era onde eu me abrigava da chuva”, contou.

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Resgate

Por meio de nota, o Corpo de Bombeiros informou que, inicialmente, foi acionado no dia 10 de abril, três dias após o desaparecimento, que ocorreu em uma área de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e no mesmo dia iniciou as buscas. A operação durou 11 dias e fez uma varredura em uma área de 180 km², com o apoio de um cão farejador do Grupamento de Busca, Resgate e Salvamento com Cães (GBRESC).

Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta
Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta no AM recebe alta de hospital. — Foto: Divulgação

No dia 21 de abril, as buscas foram oficialmente encerradas, após decisão conjunta com os familiares, diante da ausência de vestígios.

Na quarta-feira, 28 de maio eles prestaram os primeiros socorros a Magnilson. Ele foi encaminhado para atendimento médico em Manacapuru, onde permaneceu internado.

Já em casa, ao lado da família, o caçador relembrou os dias em que passou perdido na floresta e contou que sobreviveu se alimentando de frutos típicos da região amazônica, como buriti, cacauzinho-do-mato e uxi.

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Mãe da mata

Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta
Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta no AM recebe alta de hospital. — Foto: Divulgação

Aos familiares, Magnilson disse que se perdeu após ter sido encantado por uma “entidade da floresta”, que se apresentava como a “mãe da mata”.

O folclorista e historiador, Nonato Torres, explica quem é a entidade. A entidade é descrita como uma jovem mulher de características indígenas que caminha pela floresta. Há quem relate que a entidade usa trajes feitos de folhas secas e pode ser vista como protetora generosa ou uma guerreira mística, dependendo da narrativa.

Segundo o folclorista e historiador, a entidade protege a mata de invasores e de pessoas que desejam fazer o mal ao meio ambiente. Suas histórias são repassadas de geração para geração por ribeirinhos e nativos da região amazônica.

“A ‘Mãe da Mata’ é uma entidade protetora da mata. Quem acredita nisso? São os indígenas e também o caboclo ribeirinho. ‘Mãe da Mata’ é como se fosse um espírito protetor, como o ‘Curupira’, o ‘Boitatá’ e os chamados os ‘Angaturamas’. Eles protegem a mata do caçador, eles protegem a mata dos que querem fazer mal a ela, dos invasores”, explicou Torres.

Para ele, o relato feito pelo caçador após ter passado os 50 dias perdido na mata evidencia as histórias que costumam ser contadas pelos indígenas e ribeirinhos sobre a chamada “Mãe da Mata”.

“Uma pessoa que entra no meio da mata e se perde, em princípio, é porque de alguma forma ele tem um malefício a fazer e aí eles são direcionados (pela entidade), são levados a se perderem. Temos que acreditar nas histórias dos que contam, dos ribeirinhos, dos indígenas. Se o caçador que levou 50 dias perdido fala nesse espírito, é porque ele também nos traz a realidade, essa história de que existe um espírito protetor”, disse.

Encantado pela “Mãe da Mata”

O irmão de Magnilson, o autônomo Francisco da Silva Araújo, contou que o caçador relatou brevemente o que teria acontecido durante o desaparecimento: ele disse que passou a acreditar estar sendo guiado por uma “entidade da floresta”.

“Ele só falou que estava encantado. Tinha uma mulher que chamava, e ele saiu buscando essa mulher que levava ele e dizia que era a ‘mãe da mata’. Ele estava atordoado, andava, andava e voltava para o mesmo lugar. Tentou se matar, mas não tinha mais cartuchos. Então ele orou e disse que Deus o guiou até a casa de uma pessoa evangélica, onde foi encontrado”, disse.

*Com informações do g1 Amazonas

Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas

Torre de Belém, em Portugal. Foto: Reprodução/Museus e Monumentos de Portugal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

No século XIX, estabeleceu-se que a data de falecimento de Camões teria ocorrido à 10 de junho de 1580. O responsável por isso foi o Visconde de Juromenha que descobriu na Torre do Tombo, um documento onde era mencionada a quantia a que a mãe do poeta, senhora Ana de Sá, tinha direito após a morte do filho, cuja data era indicada.

A celebração nacional do tricentenário da morte do poeta, em 1880, pelo impacto que teve na sociedade da época e pelo rastro de orgulho que deixou para a posteridade, permanece até os dias atuais como memória importante a ser festejada.

A monarquia constitucional não voltaria a comemorar a data. Porém a primeira vereação da Câmara Republicana de Lisboa foi que decidiu transformá-la em Município de Lisboa em dias especiais, celebrado em toda capital do país.

Ao sabor das vicissitudes políticas e da instabilidade da primeira República Portuguesa, o dia 10 de junho foi comemorado durante vários anos, num misto de celebração laica e republicana, dominando o grande ideal da instituição pública e de arraial popular dada a proximidade dos festejos de Santo Antônio.

Somente em 1925, na sequência das comemorações do quarto centenário de nascimento do poeta, também festejado na data da morte por se desconhecer a data do nascimento, é que foi consagrada como festa de Portugal. Mas foi a ditadura que, finalmente, a instituiu como feriado nacional.

O Estado Novo manteve o feriado que, depois de um período de esmorecimento, foi recuperado no quadro da mística imperialista do regime e das comemorações do sacrifício de sangue dos soldados portugueses que estavam a lutar nas guerras na África.

Vista aérea de Lisboa, em Portugal. Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Lisboa

A designação oficial continuou a ser dia de Portugal, mas a retórica vigente recuperou neste momento uma expressão já utilizada na comemoração do centenário em 1925, o dia da raça. A expressão não tinha um único sentido e tende a ser lida e entendida no contexto em que foi utilizada para se perceber os vários significados que lhe foram atribuídos.

Depois do dia 25 de abril de 1974, num quadro democrático e pós-colonial, o dia 10 de junho se manteve como um dos mais importantes feriados nacionais. A designação foi alterada para ‘O Dia de Camões, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas’. A celebração perdia o cunho imperial, mas não deixava de evocar a diáspora dos portugueses pelo mundo.

O dia 10 de junho e o Príncipe dos Poetas mantém-se, assim, como um dos mais perenes símbolos da nação portuguesa.

Nesta oportunidade quero destacar os maiores vultos da história portuguesa que foram emigrantes: Damião de Góes, Francisco Manuel de Melo, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Pedro Vaz de Caminha e consequentemente, em uma era mais moderna, Ferreira de Castro, Fernando Pessoa e tantos outros hoje espalhados pelo mundo.

Não há dúvida! Que os nomes mais gloriosos da história de Portugal, desde os navegadores, escritores, historiadores e missionários, todos tinham sangues emigrantes.

Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, por volta de 1577. Imagem: Reprodução/WikimediaCommons

No Amazonas não foi diferente, muitos foram aqueles que perpetuaram seus nomes em nossa história: JG Araújo, José Teixeira de Souza, José Cruz, Antônio Duarte de Matos Areosa e tantos outros da era moderna.

Segundo Conceição Meireles, investigadora especialista em História Contemporânea de Portugal, Camões representava o gênio da Pátria, representava Portugal na sua dimensão mais esplendorosa e mais genial.

Esta comemoração alia-se a “portugalidade” com o gênio do poeta e com o espírito aventureiro e empreendedor dos portugueses, que tal como nos tempos da expansão marítima, de grandiosidade portuguesa em que Portugal deu ao mundo a tarefa da colonização.

Os portugueses continuam espalhados pelos vários continentes, levando consigo o saber, a língua, a cultura, o trabalho e as raízes nacionais. Esses portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo são deveras importantes para a expansão da importância de Portugal.

Quero encerrar a minha fala proferindo uma estrofe da poesia de Camões:

Transforma-se o amador na causa amada,
Por virtude do muito imaginar,
Não tenho logo que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada,
Que mais desejo o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma transformar”.

Bem aja os portugueses espalhados pelo mundo, em especial no Amazonas!

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Quadrilhas se preparam para emocionar no tablado do Boa Vista Junina

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A Arena Junina está grandiosa, com capacidade para receber mais de 5 mil pessoas. Foto: Diane Sampaio/PMBV

O Boa Vista Junina começa nesta terça-feira, 3, na Praça Fábio Marques Paracat e com ele, o tradicional ‘Concurso de Quadrilhas’, que este ano, promete emocionar o público boa-vistense com a celebração de 25 anos do Maior Arraial da Amazônia. A Arena Junina está ainda mais grandiosa, com estrutura coberta, iluminação cênica e capacidade para receber mais de 5 mil pessoas.

A competição contará com a participação de 24 grupos – 12 do Grupo Especial e 12 do Grupo de Acesso. O concurso segue até sexta-feira, 6, com a grande apuração marcada para o dia 7. No domingo, 8, último dia do evento, se apresentam as campeãs do Grupo de Especial e do Grupo de Acesso, que serão contempladas com troféus. A grande vencedora do Grupo Especial também garantirá um pacote com passagens aéreas para representar Roraima no cenário nacional de quadrilhas.

Leia também: Boa Vista Junina 2025 – Arquibancadas montadas na praça Fábio Paracat terão capacidade para receber mais de 5 mil pessoas

O “Giro de Saia” é um dos grandes destaques das apresentações dos grupos juninos. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Maior Arraial da Amazônia repleto de novidades

A estrutura da Arena Junina foi pensada para proporcionar conforto e visibilidade ao público, com um tablado de mais de 700 metros quadrados, um dos maiores já utilizados no evento. A iluminação cênica dará o toque final às apresentações, valorizando ainda mais os detalhes de cada espetáculo.

Entre as novidades deste ano está a premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica – avaliadas por professores doutores do curso de Artes Visuais da UFRR. A tradicional premiação para os destaques do concurso segue com R$ 6 mil para cada eleito nas categorias Rei Matuto, Rainha Caipira, Rainha da Diversidade e Casal de Noivos.

A premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica está entre as novidades deste ano. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

“25 anos de brilho, tradição e resistência”

Para o diretor executivo do Concurso de Quadrilhas Juninas, Chiquinho Santos, a edição comemorativa de 2025 será um verdadeiro espetáculo da cultura popular.

“O público pode esperar ainda mais brilho e emoção este ano. Ampliamos a capacidade da Arena Junina, atendendo a um pedido antigo da comunidade. Também aumentamos o tablado para mais de 700 metros quadrados, garantindo mais liberdade de criação para os grupos. Tudo isso para celebrar os 25 anos de história do Boa Vista Junina com a grandiosidade que ele merece”, disse.

Chiquinho também destacou o impacto social e econômico do evento. “O Boa Vista Junina não é só um giro de saia ou uma palma de mão. É uma manifestação artística que movimenta a economia criativa da nossa cidade. Isso é identidade cultural gerando desenvolvimento e oportunidade”, garantiu.

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Mais representatividade, mais cultura

Os quesitos a serem avaliados durante as apresentações incluem desde coreografia, repertório, figurino até criatividade e animação. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

O corpo de julgadores contará com nove especialistas – sendo três de fora do Estado – com formações e vivências diversas, incluindo representantes indígenas e quilombolas. Os quesitos a serem avaliados vão desde coreografia, repertório e figurino até criatividade e animação. Com tanta diversidade e dedicação, o Concurso de Quadrilhas promete encantar, emocionar e reforçar o orgulho de ser roraimense reafirmando o Boa Vista junina como o maior da Amazônia.

‘Palmares, uma invasão Caprichoso’ e ‘Perrechéologia’: conheça o vocabulário das toadas do Festival de Parintins 2025

Bois Garantido e Caprichoso. Fotos: Divulgação

Em Parintins, cada toada é um grito da floresta e um canto de identidade. No embalo da rivalidade entre Caprichoso e Garantido, surgem palavras que vão além da melodia. Para o festival deste ano, o Garantido traz a ‘Perrechéologia’, mistura de tradição e orgulho vermelho. Já o Caprichoso chega com ‘Palmares, uma Invasão Caprichoso’, toada marcada por força, resistência e raiz azul.

Entender esses termos é se aprofundar no vocabulário criativo de um festival onde música, história e emoção se misturam na voz do povo da Ilha Tupinambarana e, para isso, o Grupo Rede Amazônica mergulhou no universo do Festival Folclórico de Parintins e ouviu quem dá voz a essa poesia: os próprios compositores.

Leia também: Mentes que compõem Parintins: a identidade por trás das toadas do Festival

‘Palmares, uma Invasão Caprichoso’

‘Palmares, Uma Invasão Caprichoso’, composta por Adriano Aguiar, Vanessa Aguiar e Edval Machado, é mais que uma toada — é um grito de retomada. Com versos que exaltam a origem do boi azul e a força do povo que o viu nascer, a canção costura memórias e resistência em cada palavra.

Ao cantar a história do Caprichoso, os compositores resgatam raízes e homenageia a coragem de quem, mesmo sem estrutura ou apoio, construiu um dos maiores símbolos da cultura amazônica.

A toada traz expressões carregadas de identidade local, como “pra lá da placa”, referência ao bairro do Palmares, onde nasceu o boi, além de “lombrigueira”, árvore típica de Parintins, e “Seo Jove”, figura histórica do Caprichoso, entre outras.

conheça o vocabulário das toadas do Festival de Parintins
Boi Caprichoso. Foto: Divulgação

Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi azul e branco:

🌟 Pra lá da placa: termo utilizado para identificar a comunidade que deu origem ao bairro do Palmares, reduto do Boi Caprichoso;

🌟 Lombrigueira: árvore típica de Parintins que ficava localizada no fim do bairro do Palmares, próximo ao lago do Macurany;

🌟 Canto da porrada: bar popular do Palmares, onde antigamente ocorria a briga de ‘galeras’ (grupo de jovens);

🌟 Seo Jove: morador muito ilustre do bairro do Palmares e fundador do time o ‘Estrela do Norte’. “Ele também chegou a brincar de boi no Caprichoso, inclusive chegou a ser o tripa do boi. É uma grande figura do nosso Palmares”, contou Adriano Aguiar.

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‘Perrechéologia’

A toada ‘Perrechéologia’ é um manifesto em forma de ritmo, que exalta com orgulho a tradição do povo vermelho e a grandiosidade do Boi Garantido, conhecido como a verdadeira realeza da Baixa do São José.

Com melodia marcante e versos cheios de identidade, a composição valoriza as raízes culturais da galera encarnada, celebrando um modo de viver e festejar que atravessa gerações. O termo “perrechélogia” mistura irreverência com sabedoria popular, criando quase uma ciência do boi, da rua, da fé e da resistência.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual o significado do termo ‘perreché’?

Ao longo da letra, os compositores Jaércio Curuatá, Bruno Bulcão, Nazira Marques e Alessanda Reis pintam o retrato de um Garantido que pisa firme no chão da ilha, levando consigo o orgulho do seu povo.

conheça o vocabulário das toadas do Festival de Parintins
Boi Garantido. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi vermelho e branco:

❤️ Um pirão de gente: pirão é farinha molhada que vira uma massa firme, bem do jeito do Norte. Também é jeito de falar de um povo reunido: um amontoado de gente;

❤️ Tece um tapete encarnado: alusão aos tapetes vermelhos que se estendiam para a realeza passar — o povo reunido tece seu próprio tapete encarnado para o Garantido desfilar;

❤️ Perrechéologia: é a “ciência” que explica o sentimento de ser Garantido, que só quem sente de verdade consegue entender;

❤️ Apofiar: “é como uma criança tentando apostar corrida com um carro. Ela sai correndo do lado e dizem que ela está ‘apofiando’. Então, posso dizer que eu vou apofiar com o Garantido. Eu vou junto, na fé e na coragem”, narrou Bruno Bulcão.

Festival de Parintins 2025

O 58º Festival Folclórico de Parintins acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, no tradicional Bumbódromo de Parintins, interior do Amazonas. Ao longo das três noites de apresentação, 21 itens de cada agremiação são julgados em apresentações de no máximo 2h30.

Leia também: 58º Festival Folclórico de Parintins é lançado no Amazonas

Este ano, o Boi Caprichoso apresenta o tema ‘É Tempo de Retomada’ em busca do tetracampeonato. O tema é inspirado no livro de mesmo nome da escritora indígena Trudruá Dorrico. A escolha tem como objetivo valorizar a cultura indígena e reafirmar o compromisso do bumbá azul e branco com a defesa da Amazônia e dos povos tradicionais.

Já o Boi Garantido leva para a arena o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’ para tentar alcançar seu 33º título na história do Festival. Com essa temática, o bumbá vermelho e branco promete levar ao Bumbódromo uma celebração da resistência, ancestralidade e força de seus povos, reafirmando sua posição como o mais querido do povão.

Leia também: Mini roteiro Parintins: conheça a ilha da magia, o Festival Folclórico e outras curiosidades

*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

Quem chora por ti, Amazônia?

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Trecho da BR-319. Foto: Reprodução/Ascom AGU

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Ao comparecer à Comissão de Infraestrutura do Senado Federal, na terça-feira, 27, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (MMA), foi alvo de severas críticas aos seus posicionamentos divergentes em relação a todo e qualquer iniciativa pública alusiva a interesses autóctones relacionados ao desenvolvimento regional.

A ministra age com extremo rigor, e este é um ponto de alta tensão entre ela, as ONGs que representa e a sociedade brasileira e amazônida, ao mandar prender bois em terras sem a devida regularização fundiária; mandar destruir balsas de mineração clandestina, expulsar madeireiros ou pescadores operando em áreas desprovidas de títulos de propriedade rural comprovantes da posse legal de uma área de terra utilizada em atividades agrícolas, pecuárias ou florestais, essencial à garantia da segurança jurídica do ocupante. Além de passo fundamental para a regularização fundiária, à promoção da cidadania e ao fortalecimento da agricultura familiar das comunidades rurais. Enquanto isso, o país permanece desprovido de políticas públicas voltadas à correção dos atos de degradação florestal.

Marina da Silva é omissa ao não participar in-loco de discussões sobre planos, programas e projetos voltados à implantação de infraestrutura sócio-econômica, à necessidade de correção de crônicos pontos de ineficiência do sistema de ensino, pesquisa e extensão, ao desenvolvimento de tecnologias de processo e produto, à um sistema educacional e de saúde pública ajustado às condições geopolíticas da região. O posicionamento da ministra e de sua tropa de choque, os jurássicos Ibama e Icmbio, é sempre marcado por fortes tensões e divergências entre a gestora, o Congresso e a comunidade amazônica quando defende uma Amazônia em estado natural, como Deus a criou. Esquecendo, mesmo nascida no estado do Acre, que a região, 59% do território brasileiro, abriga uma população de cerca de 30 milhões de habitantes, que, historicamente, depara se com graves adversidades, como desmatamento, pobreza e violência.

Marina Silva. Foto: Fernando Donasci/MMA

Na Comissão, a ministra foi cobrada pela demora na liberação de licenças ambientais, na aprovação da exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira e na conclusão da rodovia BR-319, obra que tem na ministra do Meio Ambiente seu maior pesadelo. Daí hoje ser amplamente reconhecida como inimiga número 1 da Amazônia. Sua presença foi marcada por posicionamentos intransigentes como se o Senado fosse um colegiado de neófitos. A despeito dos defeitos e suspeitas que marcam a instituição, assim como a própria ministra, certamente hão de ser respeitados, mesmo que ela não o faça por merecer. Na verdade, o MMA e o próprio governo federal não têm um projeto de Amazônia, um plano de curto, médio e longo prazo estabelecendo prioridades à promoção do desenvolvimento regional. O presidente Lula, aqui tão bem votado, deve uma palavra de apoio à região.

O MMA não está minimamente preocupado com as reivindicações do Amazonas, das classes empresariais e da própria sociedade sobre medidas de proteção florestal, Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), regularização fundiária ou a conclusão da BR-319. Ignora que o Amazonas detém cerca de 95% de seu território absolutamente preservado e que, conforme dados do governo estadual, 54,73% configuram áreas estaduais protegidas, distribuídas entre Unidades de Conservação Federal (14,97%), Estadual (12,06%) e Terra Indígena (27,7%). Para Silva, entretanto, isso não é suficiente. Ela é adversa a todo e qualquer programa voltado ao desenvolvimento regional, mesmo que tenha como premissas o aproveitamento dos recursos da biodiversidade com preservação ambiental.

Quanto à exploração das reservas petrolíferas em águas profundas na margem Equatorial, a região litorânea entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, o IBAMA aprovou o plano da Petrobras de proteção à fauna local. Essa aprovação é uma etapa importante no processo de licenciamento ambiental da operação, permitindo o avanço à próxima fase envolvendo vistorias e simulações de resgate de animais em caso de acidente. Mesmo assim, Marina da Silva não valoriza esses passos. Tanto que, num passe de mágica, determinou a criação de quatro unidades de conservação na Margem Equatorial sob a alegação de que não impedirão a pesquisa e a exploração econômica da região.

Não leva em conta, entretanto, a distância da foz do rio Amazonas ao poço exploratório, que visa investigar o potencial da região, encontrar-se a mais de 500 km do estuário do rio Amazonas. Distância semelhante à que separa as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, portanto, fora de qualquer possibilidade de virem a causar danos à flora e à fauna pela exploração petrolífera na região. “Quem chora por ti, Amazônia?”, choramos nós que lutamos por um polo industrial integrado à bioeconomia sustentado logisticamente pela BR-319 e vias náuticas sinalizadas e seguras dos rios Madeira e Solimões, por uma infraestrutura, enfim, que permita que o Amazonas, definitivamente, faça parte do Brasil.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Acre tem maior taxa de escolarização de pessoas com TEA no país, diz IBGE

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Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O Acre é o estado com a maior taxa de escolarização entre pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) do país, com 55% desta população escolarizada. Foi o que mostrou um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseado em dados do Censo 2022, divulgado na sexta-feira (23).

A pesquisa de escolarização considerou as pessoas diagnosticadas acima dos 6 anos de idade. O estado ficou acima da média nacional, que foi de 37%.

Leia também: ‘O Pequeno Príncipe’ inspira pesquisadora paraense a criar obra imersa no mundo TEA

Esta taxa também é maior entre homens que entre mulheres: 62% entre o público masculino contra 41% da população feminina com TEA. Os maiores índices segundo o IBGE são do Acre (54,64), Amapá (51,75) e Sergipe (44,35).

Outra tendência revelada pela pesquisa é de que a faixa etária mais baixa, entre 6 e 14 anos, é a mais escolarizada, com 96,3%. O público de 15 a 17 anos tem 80% de escolarização, seguido por 28,17% do público entre 18 e 25 anos, e apenas 7,3% da faixa acima de 25 anos.

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Entre os municípios, o que tem a maior taxa de atualização de pessoas acima de 6 anos diagnosticadas com TEA é Assis Brasil, com 87,3%. O menor índice é de Manoel Urbano, com 4,42% de escolarização.

Taxa de escolarização de pessoas com TEA no Acre

Faixa etáriaTaxaHomensMulheres
6 a 14 anos96,395,5695,63
15 a 17 anos79,982,5973,84
18 a 24 anos28,1731,922,54
25 anos ou mais7,35,469,45

Fonte: IBGE/Censo 2022

*Por Victor Lebre, da Rede Amazônica AC

Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia e dos povos tradicionais

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Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Michel Mello

A ausência de políticas públicas eficazes e de financiamento adequado tem limitado a implementação de estratégias de adaptação climática na Amazônia. Para a diretora de Pesquisa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Patricia Pinho, essa barreira compromete a proteção da floresta e a segurança das comunidades que vivem na região.

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Em policy brief publicado em abril deste ano, Pinho, em conjunto com outras pesquisadoras do IPAM, aponta que eventos climáticos extremos na Amazônia — como inundações intensas, secas prolongadas e queimadas — além de agravarem a vulnerabilidade das populações locais, também ameaçam a biodiversidade da região.

Os impactos recaem sobre a infraestrutura, a economia e o cotidiano das pessoas. Conforme o documento, entre 1991 e 2023, os prejuízos econômicos chegaram a R$ 10,6 bilhões. Esses dados reforçam, segundo o estudo, a urgência de medidas de adaptação.

Leia também: Secas e cheias devem tornar-se mais intensas e frequentes na Amazônia, aponta pesquisador

A cheia atinge todos os estados da Amazônia. Foto: Divulgação

“A gente sabe que a situação das pessoas é de vulnerabilidade quanto ao acesso à água potável, energia, transporte e alimentação. A saúde também se torna muito desafiadora, por conta do ir e vir e da ausência de assistência médica em comunidades e municípios mais remotos. Isso é só um panorama para entender que, basicamente, os riscos e impactos climáticos têm aumentado substancialmente, enquanto as estratégias de adaptação continuam a desejar”, explica Pinho.

O IPAM vem ampliando a agenda de atuação nos temas de adaptação às mudanças climáticas, com foco nas populações da Amazônia. Os efeitos sentidos por povos indígenas, por exemplo, são monitorados em iniciativas como o SOMAI-ACI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena e aplicativo Alerta Clima Indígena, respectivamente) para subsidiar a gestão dos territórios e a produção de dados que serve de base para a criação e o fortalecimento de políticas públicas direcionadas.

Leia também: Podemos esperar outras grandes cheias na Amazônia? A ciência diz que sim

Situação da agenda adaptativa na Amazônia

Na avaliação da pesquisadora, o Brasil deixa a desejar na linha de frente da elaboração de estratégias de adaptação que reduzam impactos e riscos climáticos — especialmente as de origem política ou ligadas à iniciativa privada, que poderiam colaborar com o financiamento de soluções.

De acordo com o policy brief “Acelerando Estratégias de Adaptação Equitativa na Amazônia em Meio às Mudanças Climáticas”, apenas nove municípios brasileiros possuem leis voltadas à mitigação ou adaptação climática. No entanto, segundo Pinho, não há hoje políticas públicas que considerem de forma específica as questões da Amazônia diante das mudanças do clima.

Amazônia Legal registra média de 11 mil km² por ano de área desmatada
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace Brazil

O estudo do IPAM aponta como principal fator para a ausência de ações adaptativas a falta de prioridade política. Segundo o documento, as mudanças climáticas costumam ser deixadas em segundo plano no orçamento, atrás de outras pautas como saúde, segurança pública e economia. Além disso, destaca a escassez de recursos financeiros, a limitada capacidade técnica de muitos municípios e a ausência de dados confiáveis sobre vulnerabilidades e impactos locais. Conflitos de interesse e pressões econômicas também estão entre os obstáculos.

Pinho afirma que o foco por parte do poder público nas medidas de mitigação também é um problema. De acordo com a diretora, atualmente, os recursos públicos são gastos principalmente com as estratégias de recuperação dos desastres. Contudo, ela aponta que, em muitas situações, a depender da gravidade do impacto do evento climático, a recuperação não é fácil — nem mesmo ao longo do tempo. Por esse motivo, a pesquisadora defende uma agenda proativa de adaptação climática, que deve ser tratada como um “seguro”, para que, quando houver impactos, não haja perdas econômicas, sociais e de vidas humanas.

“As estratégias de adaptação têm um custo financeiro e para a mobilização das estruturas de governança e de monitoramento. Mas, quando se compara com o custo dos desastres e seus desdobramentos, vemos que o investimento em adaptação é muito baixo frente aos benefícios que pode gerar”, afirma a pesquisadora.

cheia na Amazônia
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marcos Vicentti/Secom.

Nesse cenário, o IPAM tem contribuído ativamente para criar soluções de adaptação local. Uma das iniciativas recentes da organização foi a elaboração do Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima de Rio Branco, desenvolvido em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e com a iniciativa ICLEI (Governos Locais Pela Sustentabilidade para América do Sul).

O plano reúne ações prioritárias para enfrentar os desafios climáticos no município e foi construído a partir do diálogo com diversos setores da sociedade. A experiência de Rio Branco exemplifica como a produção científica aliada à articulação institucional pode resultar em estratégias concretas para fortalecer a resiliência local, demonstrando o potencial das parcerias entre governos, centros de pesquisa e a sociedade civil na agenda adaptativa da Amazônia.

Apesar de já contar com esse plano estruturado, até 2023 a capital acreana ainda não havia implementado as medidas propostas. O município foi atingido por enchentes em 41 dos últimos 52 anos, com episódios de grau médio, grande ou extraordinário em quase metade desse período.

Vazante atinge os rios da Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer/Agencia-Brasil

Só em 2023, mais de 20 mil pessoas foram impactadas pelo transbordamento do Rio Acre e de igarapés, levando a prefeitura a decretar situação de emergência. O plano identifica essas enchentes como vulnerabilidades de alto risco e atribui parte do agravamento dos impactos à ocupação desordenada do solo, à negligência com o Plano Diretor e à ausência de infraestrutura urbana adaptada às novas condições climáticas.

Para o IPAM, o caso de Rio Branco mostra que o planejamento, por si só, não é suficiente: é preciso transformar estratégias em ações concretas e contínuas, sob risco de repetição de tragédias anunciadas.

Além do apoio do IPAM no Acre, o Instituto também avança na discussão sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas em Manaus e em Belém.

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Participação das populações na formulação das políticas

Cada impacto climático não tratado por meio da adaptação tende a se multiplicar em severidade e efeitos negativos. Pinho reforça que, ao contrário da mitigação, a agenda de adaptação deve ser implementada em nível local e com envolvimento direto das comunidades afetadas.

Cheia em Parintins, Amazonas. Foto: Divulgação

Graduada em Biologia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Pinho destaca que há amplo consenso científico sobre como o engajamento das populações tradicionais na elaboração de políticas climáticas torna as medidas mais efetivas. O conhecimento tradicional, seja ele ecológico ou culturalmente relevante para o ecossistema, favorece a eficácia, a abrangência e o monitoramento das estratégias de adaptação.

Com a participação local, diz ela, há maiores chances de as políticas serem mais abrangentes, além de terem o monitoramento e o aprendizado adaptativo facilitado, em caso de as ações adotadas não funcionarem, fazendo com que as estratégias precisem ser repensadas.

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Principais soluções

Na visão institucional do IPAM sobre adaptação proteger os territórios naturais — especialmente os indígenas, ribeirinhos, extrativistas e de populações tradicionais — é a estratégia mais urgente. Essa proteção pode ser concretizada , segundo o policy brief, por meio da destinação adequada das Florestas Públicas Não Destinadas e do fortalecimento da autonomia das populações residentes, garantindo acesso a saúde, água potável, energia e infraestrutura básica, reduzindo a dependência da navegabilidade em períodos de seca.

Outro ponto levantado por Pinho é a criação de um sistema que contemple a sazonalidade dos rios amazônicos, considerada um dos principais componentes de risco da região. Ela destaca que a vida das populações amazônidas está profundamente conectada à dinâmica das águas — seja na pesca, na agricultura ou na mobilidade.

O IPAM produziu um documentário, lançado em 2024 durante o Proteja Talks em Manaus, sobre a seca do Rio Negro em 2023 e os impactos sofridos pela população. Além de relatos e entrevistas com moradores e populações tradicionais, o filme convida cientistas a explicar o evento extremo e as saídas para o equilíbrio climático. Assista ao trailer:

Um conjunto de medidas adaptativas consideradas “sem arrependimentos” pode ser adotado de forma imediata e trazer benefícios mesmo diante das incertezas climáticas, indica o estudo do IPAM divulgado em 2025. Entre essas soluções estão: 1) a descentralização da energia com foco em fontes renováveis, como a solar; 2) o fortalecimento da infraestrutura básica e dos serviços de saúde e educação em cidades pequenas; 3) a melhoria da governança dos recursos hídricos; e 4) o incentivo à bioeconomia sustentável, baseada na valorização da biodiversidade e dos saberes tradicionais.

As ações, além de reduzirem a vulnerabilidade das populações amazônicas, também contribuem para conservar os ecossistemas da floresta e evitar perdas socioeconômicas mais graves no futuro.

Além das medidas citadas, o IPAM também propõe estratégias adaptativas voltadas para diferentes setores e territórios da Amazônia. Entre elas estão o apoio à agricultura de baixo impacto, com sistemas integrados e restauração de pastagens degradadas; a gestão sustentável da pesca com tecnologias adaptadas ao clima; e a promoção da piscicultura de baixo impacto ambiental.

O policy brief ainda defende o uso de soluções baseadas na natureza nas cidades, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce para eventos extremos e a ampliação de políticas públicas para proteção dos territórios indígenas e tradicionais, considerados essenciais para manter a floresta em pé e mitigar os impactos das mudanças climáticas.

*Com informações do IPAM

Documentário resgata mitologia Munduruku: mulheres usam câmeras de cinema para proteger a Amazônia

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O documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ conta histórias da mitologia do povo Munduruku. Foto: Divulgação/Coletivo Daje Kapap Eypi

Na mesma semana em que Brasília (DF) recebeu o ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, mobilização de povos indígenas de todo o país por direitos e políticas públicas, o coletivo audiovisual Daje Kapap Eypi lançou o documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ no “É Tudo Verdade”, o principal festival do gênero na América Latina.

Em 2022, o coletivo formado por jovens da Terra Indígena Sawré Muybu, no sudoeste do Pará, lançou um mini documentário em parceria com a Repórter Brasil.

A nova produção gira em torno da mitologia Munduruku e conta a história de mulheres peixes munidas de câmeras de cinema para proteger a Amazônia das forças que destroem a floresta.

Em entrevista à Repórter Brasil, Rilcelia Akai Munduruku, uma das diretoras do documentário, fala sobre o processo de criação e da importância de resgatar as histórias tradicionais do seu povo.

“Em meio de tantos projetos, de tantos ataques que tivemos, veio a ideia de criar um filme que fala da mitologia, que diz onde o rio, a floresta, os peixes, os animais um dia foram nossos antepassados”, afirma Rilcelia.

O filme destaca como a luta pela defesa do território se entrelaça com a mitologia dos povos indígenas.

Leia também: Literatura indígena tem mudado “o entendimento que nós temos de nós mesmos”, diz escritor Munduruku

Indígenas de várias etnias participam da marcha do ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, em Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

“Tudo que hoje a gente defende, tudo que hoje a gente luta para preservar, um dia foram nossos parentes. Então, essa foi a ideia de levar ao público, dizer que um dia nós fomos animais, nós fomos floresta, nós fomos rios, e hoje nós estamos aqui para defender nossos parentes”, complementa a diretora.

Rilcelia Akai é uma das diretoras do documentário lançado nesta semana (Foto: Joana Moncau/Repórter Brasil)
Para Rilcelia, o audiovisual e as redes sociais são ferramentas fundamentais de resistência e defesa dos territórios indígenas. Ela também ressalta o protagonismo das mulheres nessa luta.

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“Nós, como mulheres, que somos mães, estamos sempre na linha de frente junto com nossos guerreiros, com nossos caciques, com nossas lideranças maiores, para trilhar essa luta e batalhar junto com eles”, explica.

A juventude indígena também tem um papel essencial, segundo Rilcelia.“Nós não podemos desistir em nenhum momento da nossa luta, que nós não podemos nos escalar, que nós não podemos nos vender, que nós não podemos nos intimidar contra grandes impactos que vêm para dentro do nosso território”, afirma.

“Devemos ser fortes, seguir firme, e cada dia viver para defender o que tudo já é sagrado para nós, povos originários, que dependemos do nosso meio ambiente, do nosso lugar sagrado”, finaliza.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Repórter Brasil, escrito por Beatriz Vitória, com edição de Carlos Juliano Barros. Leia a publicação completa AQUI.

Livro póstumo de Dom Phillips propõe esforço coletivo para salvar a Amazônia

Uma foto rara do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira juntos na cidade de Tabatinga, no Amazonas, a caminho do Vale do Javari em 2018. Foto: Gary Calton

“Não se pode parar um importante trabalho jornalístico e de qualidade”. Essa foi a principal motivação de Alessandra Sampaio, viúva do jornalista Dom Phillips, para unir forças com os amigos do marido e finalizar o livro que ele começou a escrever antes de ser assassinado em 2022. “Logo que aconteceu a tragédia, ficou bem claro para mim e eu acho que também com os amigos jornalistas [do Dom], de quem eu tive muito suporte, que era importante finalizar o livro”, diz Sampaio em entrevista por vídeo para a Mongabay.

Em 5 de junho de 2022, Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram brutalmente assassinados na região do Vale do Javari, na Amazônia brasileira. Phillips investigava a pesca ilegal na área, numa viagem que, segundo Sampaio, seria a penúltima para concluir seu livro.

Próxima à tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a região do Vale do Javari é uma área dominada pelo crime organizado, tráfico de drogas, extração ilegal de madeira e caça predatória. É a segunda maior terra indígena do Brasil — com 8,5 milhões de hectares, duas vezes o tamanho da Suíça — e abriga cerca de 17 povos indígenas isolados, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior.

Leia também: Conheça o Vale do Javari, terra indígena com maior concentração de povos indígenas isolados do mundo

A capa da edição brasileira do livro de Dom Phillips, que será lançado no Brasil em 18 de junho.

Três anos depois, o livro Como salvar a Amazônia — Uma busca mortal por respostas, de Phillips com colaboradores, será lançado a partir de 31 de maio no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil, com eventos nos três países.

“Emocionalmente, tem vários sentidos para mim. Primeiro porque é como eu realizar a morte do Dom, porque ali ele ainda escrevia, ele ainda estava vivo”, diz Sampaio, em lágrimas. “E ele me contava algumas histórias que estão no livro, então eu volto no tempo e eu reconheço ali toda a paixão do Dom pela pela Amazônia, a curiosidade dele”.

Para ela, o livro resume a essência e o apelo ao trabalho coletivo e colaborativo para salvar a Amazônia, destacado pelo próprio autor na introdução: “As pessoas precisam aprender com os povos indígenas que só o pensamento coletivo, comunitário — e não a ganância individual — pode salvar a Amazônia. Precisamos nos unir, não nos separar”, escreveu Phillips.

Respeitando o tempo do luto, Sampaio reuniu todo o material que Phillips havia deixado: computador, HDs externos e seus “famosos caderninhos” com as anotações dele. Ele era muito organizado, ela diz, com alguns parágrafos bem definidos; outros ainda em forma de ideias.

“Naturalmente, esse grupo foi sendo articulado e foi muito bom porque eu me senti muito amparada pela experiência, pelo contato cuidadoso deles, pelo entendimento de que eles iam contribuir com o livro do Dom, mas o livro era do Dom. Foi muito bacana”, diz Sampaio. Essa iniciativa também acompanhou uma campanha de solidariedade e de financiamento coletivo para concluir o livro, acrescenta.

Phillips tinha uma “capacidade muito rara de escuta” e abertura para conversar com quem defendia a floresta e também com quem atuava em atividades ilegais, “tentando não pré-julgar”, algo que era “uma enorme inspiração”, segundo Sampaio. Ele também era muito sociável e “conseguia se conectar de uma forma tão bonita às pessoas”. Para ela, o formato colaborativo do livro é a “é a essência da própria afirmação e da própria crença do Dom”.

Leia também: Bruno e Dom: dois anos após o crime, MPF atua para punir responsáveis e melhorar a segurança no Vale do Javari

Phillips deixou cerca de um terço do livro escrito. “Os outros capítulos, por mais que tenham seguido as ideias do Dom, cada um tem um estilo, tem uma vivência, então achei assim um apanhado muito bonito de outras formas de escrever, de outras experiências, experiências, outros estilos”.

Mas, ela admite, não foi fácil ler o livro inteiro. “Quando acabam os capítulos dele, eu demorei um tempo para conseguir ler o livro, foi um choque também”.

Continuidade do trabalho de Phillips e coragem de Sampaio

Em junho de 2022, Phillips e Pereira foram mortos a tiros em uma área remota do estado do Amazonas, onde investigavam pesca ilegal e caça predatória. Seus corpos foram encontrados dez dias depois.

Para Beatriz Matos, viúva de Pereira, a ideia de que a morte de Phillips teria sido um “efeito colateral” do trabalho de Bruno não é verdadeira. Para ela, ambas as mortes representam a “interrupção de um trabalho de proteção, de defesa da Amazônia, de defesa dos povos indígenas”. Ela destaca que o trabalho de Phillips era “muito importante, assim como o do Bruno”, por ser um jornalista que mostrava tudo isso ao mundo.

O lançamento do livro, diz Matos, representa “a continuidade do trabalho do Dom, representa a coragem da Alessandra, representa a força da Alessandra, representa a força do trabalho do Dom”. Para ela, “é muito importante que esse trabalho não seja interrompido. É muito importante que as histórias que ele estava contando sejam contadas”.

Matos diz que o livro também está diretamente conectado com o trabalho de Bruno e também com todos que trabalham para defender a Amazônia e os povos indígenas. “Eu sei que vai ter essa dimensão do trabalho do Bruno ali sendo mostrado também. É super importante”, diz ela à Mongabay em uma entrevista em vídeo. “A Alessandra sempre fala que, desde que o Dom conheceu o Bruno, que ele ficou muito impressionado com Bruno, que o Dom sempre falava do Bruno”.

Por outro lado, diz Matos, Pereira também respeitava muito o trabalho de Phillips, que era uma pessoa importante para ele. Ela se lembra das últimas palavras de Pereira por telefone antes da viagem fatal de barco: “Eu terminei minha missão que eu tinha que fazer, mas eu vou acompanhar o Dom, ele vai fazer umas entrevistas e tal, mas vão ser três, quatro dias só e aí eu volto”.

“O que eu sei é que [Phillips] era um cara importante para ele [Pereira], um cara tão importante que ele fez questão de ele mesmo acompanhar o Dom na reportagem”, diz Matos. Pereira cursou jornalismo, acrescentou, mas abandonou a universidade para ir trabalhar no interior do Amazonas, antes de ir para Funai. “Ele tinha também uma percepção muito clara disso, da importância de procurar bons repórteres, de falar com a imprensa. A gente brincava que ele tinha essa coisa de fazer uma certa assessoria de comunicação dos isolados”.

Matos, antropóloga com mais de 20 anos de trabalho de campo no Vale do Javari — onde conheceu Bruno — diz que também “se vê” no livro. “Eu acho que tem muita coisa do Bruno ali, acho que também do ponto de vista do meu trabalho também. Eu também trabalho na região há muitos anos, então eu também me vejo. Vai ser incrível, assim, estou doida para ler”.

Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, lançou o Instituto Dom Phillips no Vale do Javari em 29 de maio de 2024. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.

Continuando o legado de Phillips e Pereira

Tanto Sampaio quanto Matos afirmam que estão comprometidas em continuar o legado de seus maridos.

Desde fevereiro de 2023, Matos coordena o departamento de proteção territorial e de povos indígenas isolados e de recente contato no Ministério dos Povos Indígenas (MPI). “O trabalho, o desafio também mantém a gente viva”, diz ela. Pereira trabalhou por muitos anos na Funai, coordenando o departamento de indígenas isolados e de recente contato.

“A gente se conheceu e se apaixonou lá [ [no Vale do Javari] e por causa de lá também”, diz Matos. “Eu e Bruno, a gente fez uma parceria de vida, de tudo e de trabalho também, sobretudo nessa questão [do Vale do Javari]. Nossos filhos têm nomes de indígenas de lá, a gente tem uma casa lá”.

Ela conta que assumiu o cargo no MPI para continuar defendendo essa causa: “Vai ser uma oportunidade incrível para a gente fazer tudo que a gente estava planejando antes. E quando eu falo a gente, é eu e Bruno”. Tal decisão, acrescenta, também inclui a continuidade do trabalho de parceiros da Funai e de outros órgãos governamentais e do Observatório dos Povos Isolados (OPI). “A gente a gente assumiu esses postos no no governo pensando num trabalho coletivo, num projeto do que a gente vem fermentando há muito tempo. Com certeza, se o governo estivesse vivo, ele estaria na Funai ou no Ministério dos Povos Indígenas”.

Em 29 de maio de 2024, Sampaio lançou o Instituto Dom Phillips, uma ONG dedicada a amplificar as vozes da Amazônia e o saber dos povos originários, por meio da educação. “O caminho que a gente escolheu foi o caminho da educação, nesse movimento de tentar engajar as pessoas pela mudança de pensamento, mudança de consciência”, diz Sampaio. “O compromisso do Instituto Dom Phillips é seguir com o legado dele, tentando ampliar esse legado — porque ele não teve tempo para fazer isso — ecoando as vozes da Amazônia e o conhecimento dos povos, o conhecimento ancestral dos povos e dos defensores da Amazônia”.

Uma foto rara do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira juntos na cidade de Tabatinga, no Amazonas, a caminho do Vale do Javari em 2018. Imagem © Gary Calton.

De acordo com Sampaio, o instituto também está alinhado com a concepção inicial do livro de Phillips de focar em soluções para proteger a Amazônia a partir da própria floresta. Ela conta que Phillips sempre voltava “encantado” de suas viagens de reportagem, dizendo que se as pessoas conhecessem a Amazônia, toda a sua beleza, seu potencial e toda a sabedoria de seus povos, elas se conectariam natural e efetivamente com a Amazônia e se engajariam na causa da proteção. “Esse é o caminho que a gente quer navegar com o instituto: ter mais uma frente para trabalhar esse desconhecimento que ainda se tem sobre a Amazônia, porque a gente só pode cuidar do que a gente conhece”.

O primeiro projeto do instituto, “Amazônia, coisa linda”, leva o nome da última publicação de Phillips nas redes sociais. O projeto está sendo implementado no Vale do Javari com jovens comunicadores da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA).

Sampaio diz estar profundamente impressionada com a cosmovisão dos povos indígenas, que é outra visão de mundo. “Eu acho que, finalmente, que eu estou vivendo tudo isso que eu vi na Amazônia através dos olhos do Dom. Eu não conhecia a Amazônia antes da morte do Dom. E ele sempre voltava muito encantado. Então, esse encantamento eu estou podendo viver agora. Apesar dessa tragédia, eu tenho o privilégio de ter esse contato, essa confiança dos povos, não só amazônicos, mas das comunidades tradicionais e fazer essa troca que a gente tem muito o que aprender com eles”.

‘Tio Dom e tio Bruno’

Em novembro de 2024, autoridades concluíram as investigações, apontando Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, como mandante do duplo homicídio. Ele é acusado de financiar e armar os executores para matar Phillips e Pereira e ocultar seus corpos. Villar nega as acusações.

Desde o início da investigação, outras oito pessoas foram indiciadas. Três réus — Amarildo da Costa de Oliveira (“Pelado”), Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa de Oliveira — foram reunidos em um único processo. Em setembro de 2024, Oseney foi excluído do processo por decisão judicial, e o Ministério Público Federal recorreu.

Seguindo o sonho de Dom Phillips, sua viúva Alessandra Sampaio diz que o principal objetivo tanto do lançamento do livro quanto do Instituto Dom Phillips, lançado no Vale do Javari há um ano, é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.

Segundo o advogado de Sampaio, Rafael Fagundes, Pelado e Lima podem ir a júri popular ainda este ano “se não tiver nenhum fato extraordinário”. Já o caso de Oseney é imprevisível.

“Eu acredito na justiça, realmente. Eu acho que esse caso vai ser julgado exemplarmente, porque tem que ser. O tempo da justiça, infelizmente, não é o tempo das famílias, [e] não sou só eu. Mas eu sigo acreditando na justiça, de que os responsáveis vão ter que responder”, diz Sampaio. E justiça, acrescenta, também está ligada à proteção das pessoas que continuam sendo ameaçadas na região do Javari.

Matos concorda. Para ela, a justiça é mais lenta que o esperado, mas é fundamental que o crime não fique impune não só do ponto de vista da justiça assim, mas também que o crime não seja esquecido porque é “um absurdo que não pode se repetir”.

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O sonho de Sampaio é “continuar firme e forte” através do Instituto, para levar adiante o legado de Phillips. “Acredito muito nesse movimento educacional para mudar a consciência das pessoas”, diz. “O sonho é esse, conseguir através do instituto inspirar as pessoas para que elas tenham mais vínculo, mais afetividade, se entendam como natureza. A gente não está separado dela, a gente é parte dessa rede de vida”.

Mesmo em meio a toda dor e tristeza após a tragédia, ela diz que alguns fatos positivos realmente a tocaram, especialmente o recebimento de mensagens de crianças no Brasil e no exterior mencionando “tio Dom e tio Bruno como protetores da floresta” e como eles se tornaram símbolos de proteção da Amazônia. “Como isso impactou muitas crianças!”.

Phillips e Pereira foram mortos no Dia Mundial do Meio Ambiente. Sampaio diz que há um movimento nas escolas falando sobre “tio Dom e tio Bruno” como “guardiões” que morreram para defender essa causa. “Acho isso super bonito, e que marcou uma geração. A educação vem por esse caminho, que impactou tanto as crianças, e que a gente pode usar o nome do Dom e do Bruno também para trazer esse entendimento da importância da natureza, do que a gente está preservando, cuidando”.

Cruzes em memória de Bruno Pereira e Dom Phillips no local de seus assassinatos no Vale do Javari. Em 5 de junho de 2022, eles foram brutalmente assassinados enquanto investigavam a pesca ilegal e a caça predatória na região. Imagem © Jon Watts.

Matos diz que seu sonho é que seus filhos cresçam “não muito traumatizados e felizes” e possam construir uma vida boa em um lugar agradável, em um ambiente melhor, com diversidade cultural e com a Amazônia em pé.

Ela diz que também sonha que seus filhos aprendam com os povos indígenas tanto quanto ela e Pereira aprenderam. Para ela, esse será o maior legado do pai, pois os filhos tinham apenas 2 e 3 anos de idade quando Pereira morreu. “Tudo que eles vão ter do pai é o que as outras pessoas falam, é o legado do trabalho dele”.

Ao trabalhar pelas terras indígenas e pelos povos indígenas, diz Matos, se está trabalhando pelo futuro do país. “Quando a gente trabalha para as terras indígenas, para os povos indígenas, eu estou trabalhando para o futuro dos meus filhos. Eu quero que eles cresçam em um lugar bom, com diversidade cultura”, diz. “Eu só quero o bem dos meus filhos. Mas o bem dos meus filhos eu entendo que está ligado a tudo isso”.

Segundo Matos, o MPI promoverá um evento em Brasília no dia 5 de junho, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, em homenagem a Phillips e Pereira.

Seguindo o sonho de Phillips, Sampaio diz que o principal objetivo do lançamento do livro e do instituto é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Ela se lembra das palavras de Phillips para ela: “Quando eu converso com algumas pessoas, elas já estão muito desesperançadas, como se não tivesse mais o que fazer. Então, abrem mão de se engajar no movimento de proteção porque acham que não tem mais jeito. E tem jeito. Todo mundo pode fazer alguma coisa. Todo mundo pode se comprometer de alguma forma”.

O livro foi finalizado depois de uma campanha de financiamento coletivo e trabalho colaborativo para escrita, revisão e tradução. Os co-autores abriram mão dos direitos autorais; toda a receita das vendas será destinada a Alessandra Sampaio.

Lançamento:

Reino Unido: 31 de maio a 5 de junho

EUA: 9 a 14 de junho

Brasil: 18 de junho, na Feira do Livro do Pacaembu, em São Paulo

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*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Karla Mendes

Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e é membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. Ela é a primeira brasileira e latinoamericana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no Instagram, LinkedInThreads𝕏Bluesky.

Amapá terá biofábrica do pescado e plano estratégico para fortalecer a pesca e aquicultura

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Ministro Waldez Góes apresentou diagnóstico da pesca e aquicultura durante 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá. Foto: Reprodução/MIDR

O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Waldez Góes, participou no dia 30 de maio do encerramento do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, onde foi apresentado o Diagnóstico e Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura do Amapá, uma iniciativa do programa Rotas de Integração Nacional, do MIDR.

O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, o secretário nacional de Desenvolvimento Regional e Territorial do MIDR, Daniel Fortunato, e o secretário nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do MIDR, Eduardo Tavares, também estiveram presentes no evento.

Segundo o ministro Waldez, o Governo Federal vai construir a biofábrica do pescado e da aquicultura no município de Tartarugalzinho, no Amapá, para servir todo o estado.

“Lá vai ser possível produzir alevinos, desenvolver tecnologias apropriadas para todos aqueles que atuam no mar, no rio, nos igarapés e na piscicultura”, disse o ministro. “Esse evento potencializa e reafirma os compromissos do governo do presidente Lula com o Amapá e, principalmente, com aqueles que produzem”, complementou.

Leia também: Pugmil, Tartarugalzinho, Feliz Natal: saiba a origem dos nomes “diferentões” de 27 cidades da Amazônia Legal

Segundo o secretário Daniel Fortunado, o documento apresentado é importante para ajudar a enxergar mais possibilidades para o setor do pescado no Amapá.

“Esse diagnóstico representa os pescadores e os aquicultores. Sem o trabalho desse importante setor, não teríamos essa análise. Agora, com esse relatório, o Governo Federal e os governos estadual e municipais podem unir esforços em um direcionamento para potencializar as entregas e as políticas para esse setor que trará grandes oportunidades para o desenvolvimento do Amapá”, declarou.

O ministro André de Paula destacou o trabalho transversal do Governo Federal para garantir melhores condições para os pescadores. “Esse é um trabalho conjunto entre o MIDR, o Ministério do Turismo, o Ministério da Pesca e Aquicultura e muitos órgãos públicos que se somaram. Eu tenho certeza absoluta que esse esforço que foi feito aqui vai fazer a diferença. Nós vamos fazer uma pesca e uma aquicultura no Amapá cada vez mais forte e sustentável”, afirmou.

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O diagnóstico produtivo das cadeias da pesca e aquicultura no Amapá buscou proporcionar o melhor entendimento sobre a produção de pescado no estado. Dessa forma, o documento apresenta uma caracterização das atividades desenvolvidas no decorrer dos meses de julho de 2024 a janeiro de 2025, nos 16 municípios do estado, para entender os aspectos sociais e produtivos das atividades de pesca e aquicultura, além de todas as infraestruturas de apoio à produção e à comercialização de pescado.

O documento reúne dados socioeconômicos, produtivos e de infraestrutura, e tem como objetivo subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da pesca e aquicultura no estado, promovendo o desenvolvimento da economia azul e a inclusão produtiva nas comunidades ribeirinhas e costeiras.

Pescado em feira no Amapá. Foto: Maksuel Martins/GEA

Confira abaixo alguns dos principais resultados levantados pelo Diagnóstico da Pesca e Aquicultura do Amapá:

  • A profissão é exercida, em sua maioria, por profissionais do sexo masculino, na faixa de 50 a 74 anos, com pouca ou nenhuma escolaridade. A maioria está inserida no seguro-defeso e com renda média mensal de 1 salário mínimo, para 42% dos pescadores;
  • No âmbito da geração de emprego e renda, a atividade é responsável por empregar aproximadamente 15 mil pescadores no estado;
  • A cadeia da pesca e da aquicultura pode se tornar uma importante fonte de receitas, desde que sejam trabalhados ordenamento, monitoramento e controle da pesca, os mercados paralelos, a informalidade dos profissionais do setor. As expectativas apontam que a cadeia produtiva do pescado no estado poderá representar 9% do PIB do estado do Amapá em 2035 (Abbud et al., 2024);
  • O amapaense consome em média 25 kg de pescado por ano, tendo uma das maiores médias do país;
  • Os principais produtores de pescado da pesca artesanal do Estado são os municípios de Santana e Macapá, e a principal espécie capturada é Piramutaba, com 13% das 18 mil toneladas de produzidas;
  • A aquicultura é o segmento produtivo com maior viabilidade para crescimento no estado. Em 2024, a produção representou 1.200 toneladas, tendo a espécie Pirapitinga como a mais cultivada. O município com maior produção na aquicultura foi Macapá, com o cultivo de Pirapitinga, Tambatinga e Tambaqui;
  • O estado é um grande exportador de pescado, com mais de 11 mil toneladas, o que comprova a pujança da atividade de pesca artesanal.

Leia também: Pesquisa aponta que pesca artesanal na Amazônia é realizada sobretudo por homens de baixa escolaridade

Plano de Desenvolvimento

O diagnóstico realizado permitiu a proposição de um Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura para o Estado, analisando os entraves ao desenvolvimento da atividade no Estado, mapeando as forças existentes na cadeia do pescado, identificando os riscos e ameaças nos diversos elos das cadeias, conjuntamente com os principais atores estaduais.

No planejamento apresentado foi possível propor as iniciativas regionalizadas de curto, médio e longo prazo, com ações, parceiros potenciais, objetivos, metas e recursos, na busca das melhores alternativas para o desenvolvimento da pesca e aquicultura no Estado do Amapá.

Microcrédito

Em paralelo a apresentação do diagnóstico, o MIDR realizou um mutirão de microcrédito para pequenos produtores e pescadores artesanais, em parceria com a Caixa Econômica Federal. A iniciativa oferece linhas de financiamento com condições facilitadas, voltadas ao custeio da produção, aquisição de equipamentos e investimentos em infraestrutura.

“Nosso objetivo é garantir inclusão produtiva e prosperidade para o povo da Amazônia”, disse o secretário Eduardo Tavares.

Pesca esportiva

A pesca esportiva passa a integrar oficialmente a Rota do Pescado, iniciativa do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) voltada ao fortalecimento das cadeias produtivas no país. O novo eixo foi anunciado nesta quarta-feira (28), durante a abertura do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, realizado no Museu Sacaca, em Macapá. A inclusão da pesca esportiva tem como objetivo fomentar o desenvolvimento regional no estado e na região amazônica.

*Com informações do Brasil61