Livro ‘Saudades do Meu Gato Dom’. Foto: Divulgação
A Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) teve sua produção acadêmica e literária reconhecida em uma importante ação de valorização cultural promovida pelo Governo do Estado do Tocantins e pela Secretaria da Cultura.
No fim do mês de maio, as instituições divulgaram, por meio dos canais oficiais no Instagram, uma lista com sete obras consideradas essenciais para conhecer e se apaixonar pela literatura tocantinense. Entre os títulos selecionados está Saudades do Meu Gato Dom, de autoria do professor Francisco Neto Pereira Pinto, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da UFNT.
O livro do professor Francisco Neto, que já havia alcançado notoriedade nacional ao figurar, em março de 2025, entre os 10 e-books mais vendidos da Amazon na categoria Fantasia para Jovens e Adolescentes, representa o alcance e a relevância da literatura produzida a partir da universidade pública tocantinense.
Livro ‘Saudades do Meu Gato Dom’. Foto: Divulgação
Saudades do Meu Gato Dom é um conto testemunho baseado em uma história real. Na obra, o autor narra com sensibilidade e profundidade a trajetória de Dom, um gato de rua adotado por sua família. A transformação do animal — de agressivo e desconfiado a afetuoso e companheiro — comove leitores ao retratar temas universais como o amor, a perda e o luto. A narrativa, construída a partir da convivência e da despedida precoce do animal, destaca-se pelo tom emotivo e pela capacidade de tocar leitores de todas as idades.
A seleção da obra pelo Governo do Tocantins como leitura indispensável, além de dar maior visibilidade a obra do professor Francisco Neto, também valoriza o papel da UFNT como protagonista na formação de escritores, pesquisadores, leitores críticos e com a promoção da cultura, da memória e da identidade tocantinense por meio da literatura.
Uma reunião realizada na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), no dia 21 de maio, marcou a abertura local do projeto ‘Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas’. A iniciativa reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno.
Coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann, o projeto é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia e conta com a participação de 15 instituições nacionais e internacionais.
A iniciativa nasce diante de um cenário alarmante: secas históricas, como a de 2023, com temperaturas no Lago Tefé superiores a 40°C, e a morte de mais de 300 botos nos lagos Tefé e Coari, além de inúmeros impactos às populações ribeirinhas cujo modo de vida depende de lagos saudáveis. Tais eventos expõem a vulnerabilidade dos ecossistemas aquáticos amazônicos frente às mudanças climáticas.
“O projeto propõe um novo modelo de pesquisa baseado na cooperação entre cientistas e comunidades ribeirinhas, respeitando o conhecimento tradicional e unindo esforços para gerar dados confiáveis sobre os desafios que enfrentamos”, afirma Ayan Fleischmann, líder do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais do Instituto Mamirauá e coordenador geral do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia. “Queremos que os lagos se tornem verdadeiros sentinelas da Amazônia, capazes de indicar mudanças ambientais e sociais em tempo real. Para isso, precisamos da ciência aliada ao saber local”, reforça.
A reunião contou ainda com a participação ativa de diversas instituições locais, reforçando o caráter intersetorial e colaborativo da iniciativa. Estiveram presentes representantes da Defesa Civil de Tefé, das secretarias municipais de Meio Ambiente e Conservação (Semmac), Saúde (Semsa), Produção, Abastecimento e Pesca de Alvarães, e da Secretaria de Inovação, Tecnologia, Ciência e Desenvolvimento Econômico (Sedecti), além de integrantes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), da Fametro Unidade Tefé, da Colônia de Pescadores Z4 e da Associação de Produtores Agroextrativistas da Flona de Tefé e Entorno (APAFE). A diversidade de atores presentes evidencia o compromisso coletivo com a preservação dos recursos hídricos e com o fortalecimento das ações locais frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
O envolvimento direto das comunidades é um dos pilares da iniciativa. Adrimar dos Santos Vidal, presidente da Associação de Produtores Agroextrativistas da Floresta Nacional de Tefé e Entorno (APAFE), destacou a relevância prática do projeto para os moradores da região.
“Esse projeto eu acredito que vem buscar melhorias pras comunidades nas questões das mudanças climáticas que vêm acontecendo nesses dois anos aqui na Floresta Nacional de Tefé, na região do lago, que as pessoas utilizam pra vir pra cidade, pra vender sua produção e também comprar seus alimentos pra levar pra comunidade. (…) Às vezes, nem a associação, nem as comunidades têm esse conhecimento de como está a água que elas usam, se está bem tratada ou não”, afirmou. Adrimar também ressaltou a expectativa de que a associação possa contribuir acompanhando os pesquisadores em campo, promovendo melhorias reais para as comunidades e para as futuras gerações.
Monitoramento em cinco lagos estratégicos da Amazônia
Será realizado o diagnóstico socioambiental e o monitoramento das águas de cinco lagos de alta relevância socioeconômica ao longo do Rio Solimões-Amazonas. O monitoramento de cada lago conta com a supervisão de uma instituição local:
Lago Tefé (coordenado pela equipe do Instituto Mamirauá)
Lago Coari (coordenado pela equipe da UFAM – Coari)
Lago Janauacá (coordenado pela equipe do Inpa)
Lago de Serpa (coordenado pela equipe da UFAM – Itacoatiara)
Lago Grande de Monte Alegre (coordenado pela equipe da UFOPA)
Esses sistemas aquáticos foram escolhidos por representarem diferentes contextos ambientais e de pressões antrópicas ao longo de mais de 1.400 km da Bacia Amazônica. O projeto combina monitoramento remoto via satélite com coletas mensais in loco e oficinas participativas com as comunidades. As ações incluem avaliação da qualidade e da dinâmica das águas, diagnóstico do saneamento básico, identificação de impactos sociais e culturais das mudanças ambientais e cocriação de soluções para os desafios identificados.
Foto: Bianca Darski
Protocolo de monitoramento com engajamento comunitário
Um dos principais resultados esperados é a criação de um Protocolo de Monitoramento Ambiental com Engajamento Comunitário para Lagos Amazônicos. Esse protocolo será construído com base em metodologias participativas e visa a fortalecer a capacidade das comunidades locais em lidar com eventos extremos e mudanças no regime hidrológico.
Além da geração de dados inéditos sobre a qualidade e a dinâmica das águas, o projeto visa fortalecer as instituições científicas locais, promover intercâmbios com universidades estrangeiras e capacitar moradores das comunidades ribeirinhas.
Caio Florindo, professor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), campus Tefé, destacou o potencial de integração entre ciência local e o projeto. “Conversamos sobre as possíveis contribuições que a nossa instituição pode trazer a esse projeto. A universidade tem dois projetos envolvendo qualidade de água, em poços artesianos e no Lago de Tefé. Nossos bolsistas podem ajudar na coleta e análise de parâmetros de caracterização de água do lago e dos poços artesianos, e podemos até ver alguma relação entre essas fontes, porque, provavelmente, estamos embaixo do mesmo aquífero”, explicou. “Isso seria interessante, por isso é muito importante essa colaboração entre instituições de pesquisa em nível local.”
Participam da iniciativa instituições como o Inpa, Ufam, Ufopa, UnB, Instituto Tecnológico Vale, Serviço Geológico do Brasil, universidades internacionais como a University of California Santa Barbara, Bangor University e o Cary Institute, entre outros parceiros.
A Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês) prevê que as temperaturas médias globais se mantenham próximas ou atinjam novos recordes nos próximos cinco anos, ultrapassando as marcas alcançadas em 2024, o ano mais quente já registrado em 175 anos. A atualização climática para o período de 2025 a 2029, publicada no dia 28 de maio, aponta que esses novos patamares devem incrementar os riscos climáticos e impactos nas sociedades, economias e no desenvolvimento sustentável.
De acordo com o relatório da WMO, a temperatura média global próxima à superfície, em média anual, para cada ano entre 2025 e 2029, deverá ser entre 1,2°C e 1,9°C superior comparada a média do período entre 1850 e 1900.
O nível de aquecimento de longo prazo, que considera temperaturas globais de 20 anos, que embasa a meta do Acordo de Paris, permanece abaixo de 1,5oC.
Segundo o relatório, com 80% de probabilidade, é provável que pelo menos um ano dos próximos cinco anos seja mais quente do que 2024, quando por 11 meses consecutivos a temperatura média global ultrapassou a média de 1,5oC. A probabilidade é ainda maior (86%) de que em um dos próximos cinco anos a temperatura média global ultrapasse novamente a. Embora com probabilidade de apenas 1%, a WMO afirma que a média de temperatura global de 2oC pode ser ultrapassada até 2029.
A previsão da WMO também indica que há 70% de probabilidade de que o aquecimento médio quinquenal para 2025-2029 seja superior a 1,5°C. Isso representa um aumento de 47% em relação ao relatório do ano passado (para o período de 2024-2028) e de 32% em relação ao relatório de 2023 para o período de 2023-2027.
O aquecimento do Ártico deve continuar a superar a média global. A previsão é de que os próximos cinco invernos prolongados sejam de três a cinco vezes maior do que a média global, podendo atingir 2,4oC, comparado aos últimos 30 anos (1991 a 2020).
Os padrões de precipitação têm grandes variações regionais. Para os períodos de maio a setembro, as previsões sugerem condições mais úmidas no Sahel, na África, por exemplo, e de condições anormais de seca para a Amazônia. Para o sul da Ásia, a previsão aponta que devem continuar as condições anormais de umidade vivenciadas nos últimos anos.
Foto: Michel Mello/Fiocruz Amazônia
A comunidade científica tem reiterado que o aquecimento superior a 1,5oC corre o risco de desencadear impactos muito mais severos e eventos climáticos extremos. Por isso, cada fração de temperatura importa.
De acordo com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e especialista em projeções climáticas, Gilvan Sampaio, a sinalização de condições mais úmidas no Sahel implica em situação oposta para áreas no leste e no norte da Amazônia. Segundo Sampaio, se também houver aquecimento do oceano Atlântico norte, a situação de seca atinge o sudoeste da Amazônia.
O pesquisador explica que quanto maior a temperatura na superfície, maior será a quantidade de energia na atmosfera para produção de nuvens mais profundas, que são densas, extensas, concentram altas quantidades de vapor d´água e provocam chuvas mais intensas.
“O aumento gradativo da temperatura global significa que os eventos meteorológicos extremos, como chuvas intensas, chuvas volumosas, secas e ondas de calor se tornarão cada vez mais frequentes”, afirma.
A elaboração da síntese de previsões liderada pelo Met Office, que atua como um centro da WMO para o tema, incluiu 220 membros de um conjunto de modelos de 15 institutos, incluindo os centros globais de produção. O relatório também sintetiza as mudanças observadas no clima nos últimos cinco anos.
Em março de 2025, a WMO confirmou 2024 como o ano mais quente em 175 anos de medições. A média da temperatura na superfície foi de 1,55oC, com uma variação de ± 0,13 °C, comparado à média pré-industrial. As temperaturas recordes foram incrementadas, principalmente, pelo aquecimento global. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera foi a mais alta em 800 mil anos.
A íntegra da previsão para 2025-2029 da WMO pode ser acessada AQUI.
Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Mais um recorde superado! Neste sábado, 7, a Maior Paçoca do Mundo atingiu a impressionante marca de 1 tonelada e 547,5 Kg. A iguaria, símbolo afetivo da culinária roraimense, foi servida para mais de 18 mil pessoas em porções de 200 g, o dobro do tamanho oferecido no ano passado.
Desde 2015, a paçoca se tornou uma das atrações mais aguardadas da festa, conquistando não apenas os paladares, mas também o reconhecimento mundial — em 2024, entrou para oGuinness World Records (Livro dos Recordes) como a maior paçoca de carne do planeta, com 1 tonelada e 356 kg. Este ano, a meta era superar esse número, alcançada com sucesso graças a um verdadeiro mutirão de preparação.
Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
“Essa conquista é de todo o povo de Boa Vista. A paçoca é mais do que um prato típico. Ela representa a nossa identidade, nossas raízes e nossa união. Ver milhares de pessoas reunidas, celebrando a tradição com alegria e orgulho, é a maior recompensa. O recorde é importante, mas o que mais emociona é ver a felicidade no rosto de cada um que participa dessa festa”, disse o prefeito Arthur Henrique.
Nilde Oliveira, funcionária pública, garantiu sua paçoca e, para ela, esse momento virou tradição. “Já tem sido algo que, sem dúvida, atravessa gerações, afinal são 10 anos. Faço questão de participar desse momento. A festa está muito linda, segura para curtir com a família e simboliza exatamente isso: união”, afirmou.
Nilde Oliveira, funcionária pública, garantiu sua paçoca. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
A autônoma Rosiane Nobre também compareceu com a família. “É a terceira vez que estamos aqui para pegar a paçoca. A gente adora! Viemos primeiro para garantir a paçoca e agora que vamos dar uma volta e curtir o arraial”, contou.
Dona Raimunda Estela, de 85 anos, experimentou a Maior Paçoca do Mundo pela primeira vez. Ela recebeu o potinho das mãos do prefeito Arthur Henrique. “Sempre quis prová-la. Estou muito feliz em estar aqui. A festa está linda! É um momento muito especial, pois lembra o tempo em que eu dançava e pulava nas festas juninas”, afirmou.
Foram utilizados 2.700 kg de carne fresca, 750 kg de farinha de mandioca, 90 kg de cebola, manteiga e óleo, tudo misturado com dedicação e afeto por dezenas de profissionais. O resultado foi uma explosão única de sabor que une a cultura indígena e nordestina, servido como prato principal da noite.
Maior Paçoca do Mundo é de Roraima. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
A paçoca gigante já é patrimônio cultural e imaterial de Boa Vista desde 2022, reforçando seu papel como símbolo do orgulho e identidade regional. E nesta edição de 25 anos do Boa Vista Junina reafirma seu lugar como estrela internacional do arraial. Esta semana a iguaria foi destaque na mídia nacional, ganhando visibilidade em diversos programas por todo Brasil.
Manteiga de murumuru. Foto: Reprodução/Beleza Verde
O murumuru (Astrocaryum murumuru), também chamado de Murumuru da Várzea, é uma palmeira espinhosa que pode chegar até 10 metros de altura. Através da extração do óleo das amêndoas dos frutos dessa palmeira, é feita a manteiga de murumuru, capaz de produzir cremes hidratantes, sabonetes e até xampus.
A manteiga é considerada um ‘ouro amazônico’ por sua capacidade multifuncional, nutritiva e emoliente. Sua palmeira é encontrada principalmente nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará e Rondônia.
O óleo extraído das amêndoas da palmeira é rico em ácidos graxos importantes para a hidratação dos cabelos e da pele, além de ser rico em vitaminas A e E, cálcio, fósforo e ferro.
A manteiga de murumuru se destaca por suas múltiplas funções e também é rica em ácidos graxos como o láurico, mirístico e oleico, além de vitaminas A e E e minerais como cálcio, fósforo e ferro. Além disso, ela hidrata profundamente, nutre e protege, sem agredir ou obstruir os poros da pele.
A manteiga de murumuru possui os seguintes benefícios:
Trata os fios de cabelo quebradiços, com poder de formar uma barreira de proteção contra a ação de agentes externos;
Tem propriedades anti-inflamatórias naturais;
Trata acne e psoríase;
Cicatriza peles rachadas ou pequenas lesões na pele;
Possui benefícios anti-envelhecimento;
É antiviral e antisséptico;
Hidrata e nutri a pele;
Ameniza eczema;
Dá brilho e maciez aos cabelos.
Por ter baixa acidez e alto poder de penetração, a manteiga de murumuru consegue atingir as camadas mais profundas da pele e do couro cabeludo, garantindo uma hidratação prolongada e eficaz. Ao contrário de muitos produtos industrializados, ela não cria uma barreira artificial ou oleosa sobre a pele. Isso a torna ideal para quem busca produtos com formulações mais naturais e menos agressivas.
Sustentabilidade da manteiga de murumuru
Colheita das sementes de Murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG
O extrativismo do murumuru é uma atividade que pode ser feita de forma totalmente sustentável, sem necessidade de desmatamento, e com forte potencial de geração de renda para comunidades tradicionais da Amazônia.
Diversas cooperativas e projetos sociais têm se empenhado em capacitar extrativistas locais para a coleta, processamento e comercialização do murumuru, promovendo o desenvolvimento socioeconômico da região e incentivando a preservação da floresta em pé.
Há milênios, comunidades indígenas e tradicionais ao redor do mundo praticam a caça de subsistência como fonte essencial de alimentação. Contudo, a carne de animais silvestres, conhecida popularmente como ‘carne de caça’, ainda é pouco estudada pela ciência em relação aos seus conteúdos nutricionais, o que dificulta a avaliação de sua importância dentro da dieta das populações tradicionais que a consomem.
Em um estudo recém-publicado na revista Ethnobiology and Conservation, pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) avaliaram a composição nutricional da carne de 26 espécies de animais, revelando diferenças significativas nos perfis nutricionais entre os tipos de carne e suas partes anatômicas.
A pesquisa conduziu uma revisão sistemática de 20 artigos científicos e documentos publicados ao redor do mundo, focando em 10 nutrientes essenciais: ferro, zinco, selênio, manganês, potássio, magnésio e sódio, além de proteína, gordura e ômega-6. Os autores compararam esses conteúdos nutricionais entre músculos e vísceras de diferentes espécies de mamíferos, aves e répteis.
O estudo encontrou que a carne dos músculos de répteis contém 60% mais ferro que a de mamíferos e 400% mais selênio que aves. Já a carne muscular de aves apresenta níveis 200% maiores de potássio e ômega-6 em comparação com mamíferos. A carne dos mamíferos destaca-se pelo alto teor de zinco.
Ao comparar as partes anatômicas, as vísceras mostraram-se mais ricas em minerais, como ferro e zinco, em todas as espécies. Ao mesmo tempo, vísceras de répteis têm 300% mais gordura que as de mamíferos, enquanto as vísceras de mamíferos são ricas em proteínas e ômega-6.
Implicações para a saúde e sustentabilidade
Os resultados da pesquisa destacam o valor nutricional da carne de caça, considerando o seu consumo sustentável por comunidades tradicionais que, muitas vezes, têm pouco acesso a outras fontes de proteína e micronutrientes. As carnes provenientes da caça de subsistência são importantes fontes de ferro, zinco e selênio, por exemplo, nutrientes que frequentemente são encontrados em deficiência dentro de grupos vulneráveis em comunidades tradicionais, como mulheres e crianças, afetadas, especialmente, pelo avanço ilegal do garimpo, exploração de madeira, pesca industrial, caça ilegal e grilagem de terra em seus territórios. A deficiência destes nutrientes pode levar a complicações graves de saúde, como anemia, comprometimento do sistema imunológico e atrasos no crescimento.
“A carne de caça oferece uma fonte muito importante de macronutrientes – como lipídios e proteínas – e de micronutrientes – como ferro e zinco – para populações que, muitas vezes, carecem de alternativas viáveis, e frequentemente sofrem com fome ou falta de micronutrientes” comenta Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto Mamirauá e um dos autores do estudo.
“Aqui na Amazônia, onde a população enfrenta os piores índices de insegurança alimentar e desnutrição do Brasil, já sabemos que o consumo da carne de caça é associado com menos anemia em crianças ribeirinhas, e que pode substituir a proteína na época de escassez de peixes”, acrescenta o pesquisador.
Além disso, o consumo de vísceras, muitas vezes negligenciado, pode maximizar a ingestão de nutrientes, complementando a dieta e promovendo uma maior diversidade nutricional. No entanto, os autores alertam para riscos associados ao consumo excessivo das vísceras, uma vez que elas podem conter concentrações elevadas de metais pesados, sendo aconselhável cautela, especialmente para crianças.
Jacaré-açú (Melanosuchus niger), espécie frequentemente usada para alimentação por populações tradicionais. Foto: Miguel Monteiro
Os pesquisadores enfatizam a necessidade de políticas que equilibrem a conservação da biodiversidade com o direito dessas comunidades tradicionais à segurança alimentar. Restringir o acesso dessas populações à carne de caça de maneira proibitiva pode levar ao aumento dos casos de desnutrição, ao passo que a caça insustentável pode acarretar o declínio populacional de animais silvestres e ao comprometimento da integridade de ecossistemas.
“Nossa revisão mostra como as carnes de caça são ricas nutricionalmente, mas também como os valores nutricionais variam muito entre as espécies. Essas informações são essenciais para desenvolver políticas e práticas para combater a desnutrição nessas comunidades, no contexto de caça sustentável para preservar as populações de animais silvestres tanto para conservação, quanto para saúde humana”, conclui Daniel.
Dessa forma, faz-se necessário a implementação de estruturas de governança que considerem a segurança alimentar e nutricional de comunidades tradicionais e o consumo sustentável de animais silvestres. Abordagens participativas para definir e aplicar regulamentações são essenciais para alcançar cenários ecologicamente sustentáveis e socialmente justos.
O Instituto Mamirauá é referência em projetos participativos que desenvolvem práticas de manejo dos recursos naturais de forma integrada e sustentável. O Instituto foi pioneiro em implementar, em parceria com comunidades tradicionais e órgãos governamentais, o primeiro sistema de manejo sustentável do pirarucu, espécie crucial para a segurança alimentar de populações tradicionais e para o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos.
A implementação do manejo gerou um aumento de mais de 600% na população de pirarucus nas áreas manejadas, espécie que sofreu forte declínio populacional devido à pesca comercial. Além disso, o Instituto Mamirauá vem desenvolvendo outras práticas de manejo sustentável, como o manejo de jacarés, de abelhas nativas sem ferrão e o manejo florestal. O Instituto Mamirauá também promoveu a criação das primeiras Reservas de Desenvolvimento Sustentável do país, as Reservas Mamirauá e Amanã, que juntas somam mais de 3 milhões de hectares e têm desempenhado um papel fundamental para o fortalecimento de projetos de manejo participativo e comunitário.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Miguel Monteiro
Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto:arquivo pessoal
São João do Maranhão é mais do que uma festa: é um território simbólico onde o sagrado e o profano se encontram, se misturam e se tornam indissociáveis. No compasso das matracas, dos pandeirões e dos tambores, pulsa uma espiritualidade que atravessa séculos, expressando a resistência, a memória e a identidade de um povo.
Essa dimensão do sagrado no São João maranhense, muitas vezes percebida por quem participa, mas pouco explorada academicamente, é o foco da pesquisa desenvolvida pela professora Marilande Martins Abreu, do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que investiga como a religiosidade popular estrutura as manifestações culturais do ciclo junino, com especial atenção para o bumba meu boi.
Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto:arquivo pessoal
Coordenadora do Grupo de Pesquisa Religião e Cultura Popular – GP Mina, a professora Marilande dedicou-se a investigar uma das expressões mais simbólicas dessa relação entre religiosidade e cultura popular: o boi de encantado, tendo como objeto o estudo de caso do boi de encantado Barbatão, ligado ao Jardim de Encantaria, um antigo terreiro de tambor de mina, localizado no bairro do Anjo da Guarda, em São Luís.
O resultado dessa pesquisa dará origem ao artigo científico intitulado “Tambor de mina e festas populares: o boi de encantado no Terreiro Jardim de Encantaria’, escrito em coautoria com a professora Sariza Caetano, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (Ufnt). O texto integrará uma coletânea nacional dedicada aos estudos sobre religiões e manifestações religiosas no Brasil.
O bumba meu boi,patrimônio cultural do Brasil e símbolo máximo da cultura maranhense, é uma manifestação que sintetiza, com poucos elementos, a fusão do sagrado e do profano, da arte e da espiritualidade, da festa e da devoção. Por trás dos bordados dourados, das toadas emocionadas e dos autos dramatizados, existe um tecido invisível que sustenta toda essa tradição: a fé.
Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto:arquivo pessoal
No Maranhão, essa manifestação não se resume a folclore nem a celebração estética: ela é, sobretudo, uma prática de devoção. O boi dança, canta, vive e morre em rituais que evocam mitos, crenças e entidades espirituais, tanto do catolicismo popular quanto das religiosidades afro-ameríndias, como o tambor de mina, o terecô e a encantaria.
“Existe uma forte devoção em toda relação dos boieiros com o boi, como existe também uma devoção em relação ao boi que vai passar por alguns ritos. O boi passa por um ciclo ritual: ele é batizado, sai para brincar e despois ‘morre’. Esse ciclo, que se renova anualmente, é marcado por rezas, ladainhas, velas e outros elementos”, detalha.
Não é exagero dizer que ‘o boi é uma oração que dança’. E, dentro desse universo tão amplo, existe um expressão que leva essa conexão com o sagrado a um nível ainda mais profundo: o boi de encantado.
Diferente dos grupos organizados em associações culturais, com estrutura administrativa própria, o boi de encantado nasce dentro dos terreiros. Nessas casas, o boi não é apenas uma personagem ou elemento folclórico. Ele é, na verdade, uma extensão das entidades espirituais que regem o terreiro, um corpo ritual que também dança, canta e se manifesta na matéria.
Bumba meu boi. Foto: Márcio Vasconcelos
O tema central da pesquisa da professora Marilande é o boi de encantado Barbatão, que pertence ao Terreiro Jardim de Encantaria, liderado por Pai Clemente, e tem como entidade patrona a cabocla Dorinha de Leguá, ligada à linhagem espiritual da família de Leguá, muito conhecida nos cultos de tambor de mina do Maranhão.
“O boi de encantado nasce a partir de uma promessa, pedido ou presente à entidade do terreiro. O boi de Barbatão é ligado à entidade farrista Dorinha de Leguá. Essas entidades, normalmente, descem para brincar, festejar, dançar, beber e confraternizar com os devotos”, explica a pesquisadora.
Esses bois não estão no circuito comercial, nem nos arraias turísticos. Eles existem, primordialmente, dentro da dinâmica espiritual do terreiro. Participam das festas internas, dos rituais, das obrigações, dos pedidos e agradecimentos feitos às entidades. Toda a sua estética — do bordado do boi às roupas dos brincantes — é consagrada, rezada e preparada segundo os fundamentos da religião.
As visitas de campo para fundamentar a pesquisa começaram em 2016 e incluíram a participação em rituais fundamentais, como o batizado e a morte do boi, além de outros momentos de festa e de devoção no terreiro. O trabalho revelou como o bumba meu boi, na condição de expressão estética e cultural, entrelaça-se de forma indissociável com a prática religiosa da encantaria.
O São João maranhense, com toda a sua pluralidade de sotaques e cores, tem, na religiosidade, um de seus pilares mais profundos. Isso não se restringe aos bois de encantado. Mesmo os grupos considerados profanos ou comerciais carregam em sua trajetória uma dimensão espiritual evidente. O batizado, as promessas cumpridas em forma de danças e toadas, as rezas antes das apresentações, tudo isso confirma que o boi é, para muitos, uma oração em movimento.
Fé, cultura e resistência no São João são tema de pesquisa da UFMA. Foto:arquivo pessoal
“O papel da religiosidade nas festas juninas são visíveis e presentes. O catolicismo popular é muito forte, além de ser uma festa em homenagem aos santos católicos, a religiosidade popular prevalece. As entidades das religiões de matriz africana também gostam dessas brincadeiras da manifestação da cultura popular e participam”, afirma Marilande.
Nos bois de encantado, essa dimensão não é apenas presente, ela é o próprio fundamento da existência do grupo. O boi, nesse contexto, não é um adereço cultural. Ele é uma entidade, um corpo que dança e canta em nome dos encantados, dos caboclos, dos mestres e mestras espirituais que sustentam as práticas da casa.
O trabalho da professora Marilande tem por objetivo lançar luz sobre esse aspecto muitas vezes invisibilizado da cultura maranhense. O objetivo é justamente sistematizar, registrar e dar visibilidade a essas práticas, que fazem parte da vida das pessoas, dos territórios, das comunidades, mas que muitas vezes não aparecem nos estudos ou nas políticas culturais.
Mais do que documentar, a pesquisa também cumpre um papel político e social. Ao reconhecer o boi de encantado como uma prática legítima, essencial e viva, ela ajuda a fortalecer a luta contra os processos de apagamento histórico e cultural que há séculos tentam silenciar as vozes das populações afro-indígenas.
O desenvolvimento da pesquisa reflete o compromisso da Universidade Federal do Maranhão com a valorização dos saberes tradicionais, das culturas populares e das religiosidades afro- ameríndias que estruturam a identidade maranhense. É papel da Universidade se debruçar sobre esses conhecimentos que são fundamentais para entender o Maranhão. A pesquisa sobre o boi de encantado Barbatão é, na verdade, uma porta de entrada para compreender como a espiritualidade estrutura as práticas culturais no nosso estado.
No final das contas, quando o couro do boi vibra e a toada ecoa, o que se ouve não é apenas música — é um chamado. É o som dos encantados, dos antepassados, da memória coletiva que insiste em não ser esquecida. No Maranhão, quando o encantado veste couro de boi, ele dança não só por si, mas por todos aqueles que carregam no peito a fé, a resistência e a alegria de existir.
*Com informações da Universidade Federal do Maranhão
Os alunos poderão conhecer o acervo e também as novidades, como o modelo animado em três dimensões (3D) do peixe Pirarucu e o protótipo do jornal mural Resenha, destinado aos estudantes da Educação Básica da região. Além dos monitores que tradicionalmente recebem os visitantes, alguns dos curadores estarão presentes para apresentar as coleções diretamente aos calouros, respondendo dúvidas e explicando as peças.
MuHNA faz 7 anos e integra circuito de ciência estadual com a Seciteci. Foto: Acervo MuHNA
Por meio de uma parceria do MuHNA com Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECITECI). A partir deste ano, o museu passa a integrar o Circuito Itinerante da Ciência de Mato Grosso (MT Ciências), desenvolvido pelo Governo do Estado, ampliando o acesso ao conhecimento em diferentes municípios da região leste mato-grossense.
Desde a inauguração, o MuHNA desenvolve ações de extensão e divulgação científica, especialmente com a realização da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do Araguaia (SNCT-Araguaia). Com abrangência estadual, o museu leva oficinas, visitas monitoradas e ações itinerantes para estudantes da região.
Museu de História Natural do Araguaia. Foto: Acervo MuHNA
Em 2024, ano em que o museu foi reaberto, após uma reforma estrutural, e inauguração da exposição Biodiversidade: passado, presente e futuro da vida no planeta, as ações do MuHNA atingiram 32 mil pessoas de todo o estado.
A diretora do museu Márcia Pascotto avalia positivamente os avanços no período e aposta em novas conquistas para o futuro.
“Estamos buscando fortalecer cada vez mais o museu em outros espaços de popularização da ciência, como Praça da ComCiência que já está em andamento e a aprovação do Museu de Ciência Itinerante pela Finep”, afirma. A gestora ressalta que projetos como estes fortalecem os grupos de pesquisa, os programas de pós-graduação e levam a popularização da ciência para fora de Barra do Garças.
Em paralelo às atividades propostas pela universidade, grupos de alunos visitaram o museu. A visita ao MuHNA proporcionou aos estudantes um momento de integração, descoberta e encantamento. “Foi um momento incrível. Hoje comecei a ver tudo que tem aqui no nosso Mato Grosso”, comentou Sara Verônica, caloura do curso de Enfermagem. Ela diz que se encantou com as borboletas e plantas do acervo.
Museu de História Natural do Araguaia. Foto: Acervo MuHNA
Natural de Diadema (SP), o calouro de Jornalismo Francisco Lucídio se surpreendeu com o acervo. “A última vez que visitei um museu foi a Pinacoteca, em São Paulo. Aqui no MuHNA vi animais que eu nem sabia que existiam no Brasil. Gostei muito da quantidade de espécies expostas. Me chamou a atenção também a parte das rochas, porque gosto de Geologia”, elogia.
Gabriel Batista, aluno do curso de Engenharia de Alimentos, conta que já visitou outro museu, mas que o MuHNA foi a instituição com mais diversidade. “Tem muitos bichos, muitos insetos. Gosto bastante dos invertebrados, principalmente os aracnídeos”, comenta. O estudante também destacou a experiência com realidade virtual. “Foi a primeira vez que usei e gostei muito, principalmente por mostrar o nosso Cerrado”, diz. As visitações contam com a mediação de bolsistas do museu e devem se repetir ao longo da semana.
Número de evangélicos cresce no Acre e estado tem maior proporção entre os estados do Brasil, diz IBGE — Foto: Felipe Freire/Secom
Os dados do Censo Demográfico 2022 sobre religião, divulgados no dia 6 de junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que o Acre é o estado com a maior proporção de evangélicos do país,representando 44,38% da população com 10 anos ou mais — o equivalente a 303.599 pessoas.
O estudo constatou que o estado acreano passou por uma significativa mudança no perfil religioso da população. Pela primeira vez, inclusive, os evangélicos aparecem como maioria no estado.
Nº de evangélicos cresce no AC e estado tem maior proporção entre os estados do Brasil, diz IBGE — Foto: Marcos Vicentti/Secom
No Censo 2010, o número era de 187.094 praticantes da religião evangélica dentro da faixa etária de 10 anos ou mais. O aumento foi de 62%. Já dentre toda a população, sem exclusão de nenhuma faixa etária, o número era ainda maior: mais de 239 mil.
Já o de católicoscom 10 anos ou mais, no Censo 2010 era de 298.270. No novo estudo do IBGE,caiu 10%, totalizando agora 266.329 pessoas em 2022.
O Acre, portanto, segue atendência nacional de redução da adesão ao catolicismo, embora em patamar ainda mais acentuado, já que a média nacional de católicos é de 56,75%, enquanto na região Norte é de 50,48%.
Dentre os 44,38% da população que é evangélica, a maior presença fica entre mulheres (23,71%) do que entre homens (20,67%), com predominância entre pessoas pardas (30,34%), seguido por brancas (9,02%).
O grupo etário com maior número de fiéis evangélicos está entre 30 e 39 anos (mais de 57 mil pessoas), seguido por quem tem 40 a 49 anos (mais de 49 mil) e 50 a 59 anos (mais de 31 mil). A população idosa (60 anos ou mais) evangélica soma mais de 30 mil pessoas.
Nº de evangélicos cresce no AC e estado tem maior proporção entre os estados do Brasil, diz IBGE — Foto: Felipe Freire/Secom
Entre os católicos, o maior público também está na faixa de 30 a 39 anos, com mais de 45 mil pessoas, seguido de 40 a 49 anos (mais de 42 mil) e 10 a 14 anos (mais de 36 mil).
Entre os idosos com 60 anos ou mais, os católicos ainda são maioria frente a outros grupos religiosos — única faixa etária onde isso ocorre. O quantitativo é de mais de 40 mil.
Do total de católicos, 20,14% são homens e 18,79% mulheres. A maioria é parda (26,02%), com menores percentuais entre brancos (8,08%), pretos (3,56%), indígenas (1,17%) e amarelos (0,11%).
Católicos representam 38,93% da população, diz IBGE — Foto: Renato Menezes/g1
Espíritas representam apenas 0,55% (3.791 pessoas) no estado;
Umbandistas somam 0,24% (1.626 pessoas);
As tradições indígenas, apesar da relevância cultural na região, foram declaradas por apenas 0,47% (3.188 pessoas), sendo quase todas de pessoas que se autodeclaram indígenas (0,44%);
Outras religiões reúnem 4,09% da população (28.004 pessoas).
O número de pessoas que não professam nenhuma religião também cresceu no Acre, atingindo 11,2% da população (76.608 pessoas) — acima da média nacional, que é de 9,28%. Em 2010, o número ultrapassava as 67 mil pessoas, um aumento de 13%.
Além disso, 96 pessoas (0,01%) disseram não saber qual sua religião e 871 (0,13%) preferiram não declarar.
Jovens Yanomami participaram da oficina na Terra Indígena Tabalascada, no Cantá — Foto: Samantha Rufino/g1 RR
Mapear e ajudar na fiscalização da maior terra indígena do Brasil, a Terra Yanomami. Esta é a nova missão de seis jovens indígenas do povo Yanomami e Y’ekwana que participaram do curso de operação de drones, na Terra Indígena Tabalascada, no Cantá, interior de Roraima.
Os jovens indígenas têm apostado na tecnologia como uma das alternativas para atuar no monitoramento e proteção do território, ameaçado, principalmente, pelo garimpo ilegal.
A formação foi uma iniciativa da Hutukara Associação Yanomami (HAY), a mais representativa deste povo, que tem como presidente Davi Kopenawa, líder indígena reconhecido nacionalmente pela luta em defesa dos povos e do meio ambiente.
As etapas do curso incluem aulas práticas e teóricas. Para participar, os seis jovens saíram das suas comunidades, em Roraima e no Amazonas. Uma delas foi a jovem Tais Mainaa, da região do Missão Catrimani, em Roraima. Foi a primeira vez que ela saiu da terra indígena, onde nasceu.
Jovens mulheres Yanomami operam drone durante curso — Foto: Samantha Rufino/g1 RR
“Aprendi a fazer isso, mas quero aprender mais sobre o drone. Estou iniciando agora, mas estou gostando muito de aprender”, disse a jovem, na língua Yanomami.
Esta é a segunda turma a se formar pelo curso. A formação foi realizada pela HAY, com o apoio financeiro da agência oficial de ajuda humanitária da Igreja Católica na Inglaterra e no País de Gales (CAFOD) e a Size of Wales, uma organização de caridade que visa proteger florestas tropicais e conscientizar sobre a importância da proteção do ambiente natural.
Os jovens realizam o monitoramento com fotos georreferenciadas, que incluem dados de localização geográfica, e vídeos. Cidiclei Palimitheli, de 26 anos, da comunidade Palimiú, em Roraima, foi monitor da turma. Ele se formou no primeiro curso e agora auxilia os novos alunos.
Tais Mainaa saiu pela primeira vez da Terra Yanomami para aprender a pilotar drone — Foto: Samantha Rufino
Cidiclei é de uma das comunidades mais afetadas por invasores. Em 2021, a região foiatacada a tirospor garimpeiros. O rio Uraricoera, que banha a comunidade, era usado pelos invasores para acessar as áreas de garimpo ilegal.
O cenário mudou após a instalação de um cabo de aço de uma ponta a outra no rio, em fevereiro de 2023, para impedir a entrada dos invasores. Agora, Cidiclei usa o drone para ajudar a fortalecer a vigilância.
“Eu aprendi para pensar no futuro, poder fazer denúncias e mandar para organizações [indígenas]. Aprendi a monitorar com drone e tirar foto, fazer vídeo para poder denunciar os invasores que estão entrando dentro do nosso território”, disse.
Cidicley Yanomami foi monitor na turma de operadores de drone — Foto: Samantha Rufino/g1 RR
Gestão do território
Além de possíveis ameaças, os drones também podem ser usados para controle das roças das comunidades e mapeamento de áreas de difícil acesso. A Terra Yanomami é formada por vegetação de floresta e por serras.
O engenheiro agrônomo Giofan Erasmo Mandulão é quem ministra as aulas. Além de ensiná-los, o professor cadastra os alunos Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), obrigatório para operar drones no Brasil.
“O uso dessa tecnologia é para eles enxergarem de uma forma diferente, ter um contato diferente com a tecnologia e ver a terra indígena do alto, ter maiores áreas para cobrir de forma que eles consigam enxergar a áreas antes que eles não conseguiam acessar. Eles podem usar essa ferramenta para fazer o monitoramento territorial”, explicou.
Alunos durante oficina de drones — Foto: Ronny Alcântara/Rede Amazônica
As aulas foram ministradas na Terra Indígena Tabalascada, pois a vegetação se assemelha com a encontrada na Terra Yanomami, segundo ele. Mandulão também formou a primeira turma dos operadores.
Para Guilherme Kepropeteri Dias Yanomami, de 36 anos, da Região Ajuricaba no Amazonas, a ferramenta vai auxiliar a comunidade. Ele pretende repassar o que aprendeu para outros indígenas.
“Quando eu subi ele [drone] bem alto, eu consegui ver as margens de tudo que está aqui por perto, a estrada, as serras e o igarapé. A gente consegue localizar a distância das aldeias, podemos registrar, tirar foto. Isso eu vou passar para os parentes, para lideranças e para os jovens que atuam nas escolas”.
Ênio Yanomami, tesoureiro da Hutukara, enxerga as oficinas de drones como uma possibilidade de manter a vigilância do território, independente da presença de forças de segurança no território. A ideia é que futuramente os jovens operadores levem os drones e os mantenham nas comunidades.
Drones usados na oficina — Foto: Samantha Rufino/g1 RR
“Os não-indígenas chegam na comunidade, ajuda um pouquinho, depois vai embora. Então, o nosso objetivo era formar os jovens porque eles são permanentes. Muita gente não confia [nas denúncias] essas imagem são comprovantes para poder denunciar qualquer invasor. Sem essas tecnologias, como que a gente pode mostrar com prova?”.
O curso foi realizado entre os dias 26 a 30 de maio, em Boa Vista e no Cantá.
Terra Yanomami
Com 9,6 milhões de hectares, a Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil em extensão territorial. Localizado no Amazonas e em Roraima, o território abriga 31 mil indígenas, que vivem em 370 comunidades. O povo Yanomami é considerado de recente contato com a população não indígena e se divide em seis subgrupos de línguas da mesma família, designados como: Yanomam, Yanomamɨ, Sanöma, Ninam, Ỹaroamë e Yãnoma.
O território stá em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal, a partir da posse de Lula (PT), começou a criar ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e cestas básicas. Além de enviar forças de segurança a região para frear a atuação de garimpeiros.