Plantação de soja em fazenda de Roraima. Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR
As áreas de plantio de soja estão se aproximando do ponto de colheita na maior parte das fazendas de Roraima. Para alcançar a produtividade esperada, agricultores como Thales Lucietti têm apostado em uma prática cada vez mais comum no estado: o controle biológico.
Nesse modelo de produção, o combate as pragas e doenças é feito utilizando fungos, bactérias e até vírus. É a partir desses microorganismos que são feitos os produtos biológicos, ou bioinsumos.
Lucietti, que também é agrônomo, plantou 400 hectares de soja em Mucajaí, no Sul de Roraima. Toda a área recebeu o manejo biológico para combater pragas na lavoura.
“O uso dos biológicos aqui em Roraima tem se mostrado uma ferramenta importante para o avanço da produção agrícola. Eu tinha muito problema com mosca branca [praga que ataca a soja] e hoje não tenho a presença dessa praga lavoura”, afirma o produtor.
De acordo com agricultor, os produtos biológicos, além de combater pragas nas lavouras ajudam a melhorar a qualidade e recuperação de nutrientes do solo, como é o caso das bacterias Rhizobium e Bradyrhizobium, responsáveis pela fixação biológica de nitrogênio, elemento essencial para o desenvolvimento da soja.
Thales Lucietti é produtor rural de soja em Mucajaí, interior de Roraima. Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR
“Na safra passado esse talhão alcançou 78 sacas por hectares. É um resultado muito expressivo e eu atribuo ao manejo que fizemos com os biológicos”, conta.
O uso de fungos e bactérias na agricultura cresceu no Brasil impulsionado pela busca de práticas mais sustentáveis. É o que afirma o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Marcos Faria. Com essa tecnologia é possível reduzir o uso de defensivos químicos e isso resulta numa produção agrícola mais sustentável, afirmou o pesquisador.
Apesar dos benefícios, um dos principais desafios do controle biológico é a compatibilidade com produtos químicos. O uso combinado, ou seja, a mistura dos produtos, exige orientação técnica para que as substâncias não percam eficácia.
“O químico, muitas vezes, pode prejudicar a ação do biológico se não houver uma estratégia bem definida para a aplicação conjunta”, alerta o pesquisador.
Segundo o pesquisador da Embrapa, a tendência nacional é aumentar o uso do manejo biológico e para o futuro novos estudos serão realizados para ampliar a eficiência dos produtos oferecendo tecnologias mais sustentáveis para o campo.
Durante cerimônia em Minas Gerais, foram políticas para povos indígenas e populações do campo, das águas e das florestas. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Ao lado do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e outros ministros, a ministra Sonia Guajajara participou da solenidade de lançamento de um conjunto de políticas públicas e ações do governo federal, no dia 24, para a melhoria da educação indígena e quilombola. A cerimônia foi realizada em durante o I Encontro Regional de Educação Escolar Quilombola do Sudeste, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Um dos destaques foi o anúncio do investimento de R$1,17 bilhão pelo governo federal para a construção de 249 novas escolas voltadas a comunidades indígenas e quilombolas, no âmbito do Novo PAC, além de 22 obras emergenciais em escolas dos territórios Yanomami e Ye’Kwana.
A ministra dos Povos Indígenas ressaltou a relevância histórica dos anúncios, que representam o compromisso do governo federal em criar ferramentas para superar as desigualdades educacionais e sociais do país. “Hoje está sendo feita a maior entrega de todos os tempos para a educação escolar indígena. Todas as entregas anunciadas não são apenas simbólicas, são políticas públicas estruturantes, que estão previstas na Constituição Federal ou em leis específicas”, destacou a ministra.
O presidente Lula valorizou os conhecimentos tradicionais e a contribuição dos movimentos sociais para o avanço nas políticas públicas. “Hoje venho aqui fazer uma coisa sagrada, reconhecer os valores do povo dessa região. Reconhecer o valor dos indígenas, dos quilombolas, das mulheres, daquelas pessoas que trabalham de sol a sol para construir sua própria vida e da sua região”, disse.
Na ocasião, foram assinadas as portarias que instituem a Política Nacional de Educação Escolar Indígena e a Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Novo Pronacampo). Por meio da implementação dos Territórios Etnoeducacionais, a primeira vai promover a organização e a oferta de qualidade da educação escolar indígena, com respeito às especificidades e organizações etnoterritoriais dos povos indígenas.
A Política Nacional dos Territórios Etnoeducacionais é orientada pelo Decreto nº 6.861/2009, que dispõe sobre a Educação Escolar Indígena e define a organização e a oferta de qualidade da educação específica, diferenciada e intercultural aos povos indígenas.
“A pessoa indígena tem o direito ser alfabetizada e ser competitiva no mercado de trabalho. Mas, acima de tudo, tem o direito de se tornar um cidadão dentro de sua Terra Indígena com os aprendizados próprios que fazem sentido para seu povo, em sua cosmovisão e em harmonia com a Terra”, defendeu a ministra Sonia Guajajara.
O ministro da Educação, Camilo Santana, lembrou que são 289.477 estudantes matriculados em Terras Indígenas no Brasil, de acordo com o Censo de 2022. Em seu discurso, o ministro se comprometeu com o fortalecimento dos Programas de Saberes Indígenas na Escola e de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind).
“Queremos melhorar a formação de professores e a produção de material didático nas línguas indígenas das escolas brasileiras. Também vamos universalizar o programa de bolsa permanência para alunos quilombolas e indígenas nas universidades”, reforçou o ministro. De acordo com o ministro, atualmente são 8.670 bolsas para esse público, que serão ampliadas para 17.300 bolsas.
Em seu discurso, a ministra ressaltou a desigualdade nas oportunidades ainda vivenciada pelos povos indígenas na educação. Os dados do Censo de 2022 apontaram que a taxa de analfabetismo entre indígenas é o dobro da média nacional. Enquanto a população geral brasileira tem o percentual de 7% de analfabetos maiores de 15 anos, entre a população indígena esse percentual é de 15,05%.
A realidade também é desafiadora para a estrutura educacional, a ministra lembrou que 26% das escolas indígenas não possuem esgotamento sanitário, 27% não possuem água potável, 55% não possuem conexão com a internet, 90% não contam com biblioteca e 94% não contam com quadra de esportes.
Outro dado importante apontado pela ministra foi sobre a carreira dos professores indígenas: 78% dos profissionais têm modelos de contratação temporários, sem estabilidade na carreira. “O caminho ainda é um tanto longo para chegarmos a um modelo equitativo, que ofereça igualdade de oportunidade para as pessoas indígenas e mais ainda para chegarmos a um modelo culturalmente adequado. Portanto, a implementação do Plano de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais, que estamos lançando, é um passo essencial para a superação dessa defasagem na educação escolar indígena”, defendeu Sonia Guajajara.
Infraestrutura
Com o investimento de R$1,17 bilhão, serão construídas 249 escolas, sendo 179 indígenas e 70 quilombolas. Por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), em 2024, já foram entregues 13 escolas indígenas e nove quilombolas. A partir deste ano, serão construídas ainda 117 escolas indígenas e 48 quilombolas. Outras 49 escolas indígenas e 13 quilombolas estão previstas, a partir de parceria entre o Ministério da Educação (MEC) — por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) —, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) — por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) — e o Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops).
Além disso, também serão realizadas obras emergenciais para os territórios Yanomami e Ye’Kwana, que preveem a construção de sete escolas, dez espaços de saberes, quatro casas escola e um centro de formação de professores.
“Por meio do novo PAC, o governo vai enfrentar o problema da infraestrutura e vai construir mais de cem escolas indígenas com um projeto bonito e com arquitetura adequada. Essas escolas vão levar dignidade para os professores e para as crianças indígenas”, disse a ministra durante a cerimônia.
Universidade Indígena
No evento, também foi celebrada a publicação, nesta quinta-feira (24), da Portaria nº536 no Diário Oficial da União pelo MEC, que institui o grupo de trabalho para subsidiar a formulação da proposta de criação e implementação da Universidade Indígena.
O GT vai realizar debates e estudos técnicos que servirão de base para a formulação da proposta de criação da Universidade Indígena, seu impacto orçamentário, a definição de diretrizes do projeto pedagógico institucional e do seu modelo de governança, entre outras competências. O coletivo se reunirá mensalmente e a previsão é que os trabalhos sejam finalizados até 30 de junho de 2026, quando será apresentado relatório final ao MEC com a proposta.
O grupo de trabalho será formado por 24 representantes do Ministério da Educação, três representantes do Ministério dos Povos Indígenas, três representantes do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, três representes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), oito representantes da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), 13 membros indicados pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI), sete professores de instituições parceiras da Educação Escolar Indígena, quatro membros indicados da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI), um membro do Fórum Nacional de Educação (FNE).
Foram realizados 21 seminários nos diferentes biomas do país, para promover ampla consulta aos povos indígenas e participação social. As contribuições sistematizadas nestes encontros irão subsidiar a formulação da proposta da instituição de ensino.
Os avanços para a criação da Universidade Indígena são fruto da reivindicação histórica dos povos indígenas para uma educação superior adequada às necessidades e particularidades dos povos indígenas, rompendo com a violência epistemológica e intelectual sofrida por esses povos historicamente, como defendido pelo antropólogo e professor Gersem Baniwa, durante o evento.
“Assumimos o compromisso de continuar trabalhando em conjunto com o MEC por uma educação indígena de qualidade e do nosso jeito, com nossos saberes, nossas línguas, nossos modos de vida, nossos modos de educar, aprender e ensinar, atendendo os sonhos de mais de 4 mil escolas indígenas, mais de 20 mil professores indígenas e 300 mil estudantes indígenas em todo o Brasil”, disse o professor.
Herbário MG é o terceiro mais antigo do Brasil, o pioneiro das regiões Norte e Nordeste. Foto: Reprodução/MPEG
Entrar em um herbário, uma coleção de plantas desidratadas e preservadas para estudos botânicos, pode ser comparável a entrar em uma floresta, em uma caatinga, em campos, em cangas, enfim, trilhar os caminhos de um bioma. É assim que Ricardo Secco, biólogo, Doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e pesquisador emérito do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), gosta de definir este espaço privilegiado de exemplares da flora, coletados por especialistas ao longo de 130 anos, celebrados em 2025. O Herbário João Murça Pires, ou Herbário MG (sigla internacional), representa um importante legado para a Amazônia e para o mundo.
O ponto de partida da coleção do terceiro herbário mais antigo do Brasil, e o primeiro das regiões Norte e Nordeste do país, se deu com a coleta de Cleome aculeata L., feita pelo botânico suíço Jacques Huber (1867-1914). A espécie referida é um tipo de planta que cresce espontaneamente em terrenos baldios, frestas de calçadas e muros de áreas urbanas, ou seja, uma planta ruderal, sendo comum encontrá-la na cidade de Belém.
De 30 de julho de 1895 até os dias atuais, o esforço de coleta e amostragem do Museu Goeldi e parceiros gerou um acervo de, aproximadamente, 255 mil amostras de plantas, sobretudo amazônicas, que documentam a diversidade, riquezas e raridades da flora. A coleção principal de exsicatas se completa com as coleções associadas com amostras de madeira; de frutos; de pólen; de óleos aromáticos; de plântulas e de etnobotânica.
Curador do herbário por 20 anos, até 2015, Ricardo Secco destaca outro aspecto singular do acervo botânico do Museu Goeldi. “O maior acervo de tipos da Amazônia está no Museu Goeldi”, ressalta.
Trata-se de mais de três mil tipos – são as primeiras amostras nomenclaturais, utilizadas para descrever uma espécie nova. Este acervo é um indicador da importância do Herbário MG. A coleção de tipos do MPEG, que incluem imagens digitais em alta resolução, pode ser consultada no site Global Plants e na base de dados do Herbário Virtual do Reflora.
O pesquisador Ricardo Secco já foi curador do Herbário por 20 anos. Foto: Reprodução/MPEG
Apenas nas primeiras décadas do Século XXI, o herbário da instituição catalogou mais de cem espécies novas de flora para a Amazônia. No Herbário MG, anualmente, são feitos quatro mil registros de plantas, volume resultante das coletas feitas no campo.
O incremento do acervo é impulsionado por projetos voltados ao conhecimento da diversidade da flora amazônica e por resultados de dissertações e teses dos programas de pós-graduação vinculados ao Museu Paraense. E Secco enfatiza a importância fundamental das coleções do Herbário em todas as pesquisas botânicas.
Valor científico
Doutor em Ciências Agrárias e técnico especializado do Museu Goeldi, Antônio Elielson Sousa da Rocha fala com orgulho de um diferencial científico do Herbário João Murça Pires: “nós primamos pelas coletas mais completas, ou seja, amostras férteis. Ou elas estão com flor ou com fruto. Outros herbários aceitam registrar amostras estéreis. Mas, com amostra estéril você não tem muita segurança na identificação, porque está faltando o caráter mais importante que é a flor”, assegura. Caso uma amostra esteja incompleta, ela pode figurar em coleções didáticas.
Elielson foi contratado pelo Museu Goeldi em 2005, mas, já era bolsista da instituição em 1988. Tem nutrido carinho especial pela coleção histórica, aquela formada por exemplares coletados por botânicos notáveis. “Eu estudo a história da instituição, pesquiso esses naturalistas que trabalharam no herbário e contribuíram com a coleção. São coleções mais frágeis, porque são mais antigas. A gente tem um tratamento diferenciado”, revela.
Dentre as 15 coleções históricas, existem as que estão assinadas por Adolpho Ducke, Ernst Ule, Jacques Huber, Richard Spruce, André Goeldi e Emília Snethlage. Não menos significativas, estão as de João Murça Pires, Walter Egler, Paulo Cavalcante, Nelson Rosa e Ricardo Secco.
Com o alerta científico mundial para a crescente perda de ecossistemas naturais, cabe ressaltar que o herbário também é um guardião de amostras de espécies extintas, ameaçadas ou que anda nem chegaram a ser estudadas.
“Em herbários como o nosso, tão longevos, nós podemos ter uma noção de quais espécies estão extintas ou em risco, porque espécies coletadas 13 décadas atrás e que não são mais encontradas são um indicativo”, pondera Elielson. Indicativo importante para novas pesquisas de campo.
Antônio Elielson Sousa da Rocha fala com orgulho do Herbário João Murça Pires. Foto: Reprodução/MPEG
Informatização
Ricardo Secco colaborou com uma série de marcos para a área da Botânica, tanto com a criação do programa de pós-graduação quanto com a adoção de um banco de dados no herbário, na década de 1990. “Um programa de informatização, preparado para herbário pela Universidade de Oxford, ou seja – Botanical Research And Herbarium Management System, o BRAHMS. Era para fazer manejo de coleção de herbário. Foi para informatizar e disponibilizar o material para pessoas que viessem pesquisar”, justifica.
O BRAHMS possibilitou aos pesquisadores a confecção de mapas que, com base nas amostras depositadas no herbário, informavam áreas de ocorrências de plantas de valor econômico, como a mandioca, seringueira, copaíba, andiroba e cedro, entre outras.
Atualmente, a instituição adota o programa Specify, que Elielson define como uma ferramenta mais intuitiva. “Tem um terceiro para o qual estamos pensando em migrar, o Jabot, que é do Jardim Botânico, do Rio de Janeiro. É um banco de dados construído no Brasil e é específico para Botânica”, argumenta o professor.
O professor Ricardo Secco segue como pesquisador voluntário do Museu Goeldi desde sua aposentadoria. E a família das Euphorbiaceae, que engloba a seringueira e inúmeras outras espécies, é predileção dele desde o início da carreira, por “uma sugestão do doutor João Murça Pires”, admite.
Quem é João Murça Pires?
O pesquisador paulista que dá nome ao herbário do Museu Goeldi é um especialista da taxonomia da flora amazônica, tendo sido orientado por Adolpho Ducke, inicialmente. Seus trabalhos se tornaram clássicos e até hoje são os mais completos e consultados.
Os méritos de Murça Pires extrapolam sua enorme contribuição no Museu Goeldi, onde trabalhou de 1975 até sua aposentadoria. Murça Pires também fundou quatro herbários no Brasil: o do IAN – precursora do Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Norte/Ipean, hoje chamado Centro de Pesquisa Agroflorestal da Amazônia Oriental/Cpatu/Embrapa; o da Universidade de Brasília; o da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira/Ceplac, em Itabuna; e, por fim, o da Universidade Federal do Maranhão. Saiba mais sobre esse fascinante personagem da ciência brasileira no artigo “Vida e obra de João Murça Pires (1917-1994)”.
Um mundo a descobrir
Além da visita de pesquisadores, o herbário do Museu Goeldi abre as portas para turmas de alunos de Ensino Médio, no intuito de despertar o interesse dos jovens para o estudo das plantas da Amazônia. Elielson escolhe um caminho para este processo de sedução.
“Muita gente, quando pensa em planta, pensa em um ser estático, que não tem movimento, não tem inteligência. Eu gosto de mostrar, justamente, alguns mecanismos que as plantas desenvolvem e são muito interessantes”, revela.
Acervo também pode ser acessado online. Foto: Reprodução/MPEG
Para ilustrar essa criatividade tão encantadora da flora, ele menciona: “existe polinização das plantas que é feita pelo vento. A maioria das plantas, no entanto, depende de vetores, de animais, como pequenos mamíferos e, sobretudo, insetos. Mas, o mérito não é só do animal. Metade do esforço é da planta, de criar mecanismos, de criar estruturas para atrair esse animal para a planta. Essa é a grande sacada das plantas”.
Elielson conta para as novas gerações, que visitam o Herbário MG em programações como o Museu de Portas Abertas ou em cursos de extensão direcionados a professores do ensino fundamental e médio, existirem “plantas que se camuflam de uma abelha feminina para atrair o polinizador. Existem plantas que atiram grãos de pólen para que colem no corpo do animal. Existem vários mecanismos que as plantas utilizam para realizar o cruzamento entre as plantas, fazer a fecundação e transformar a flor em fruto. Esses mecanismos são os mais diversos possíveis. Quando as pessoas conhecem, se apaixonam pela flora”.
Junto com André Gil, atual curador do acervo botânico da instituição, Elielson assina a edição Herbário, da série Coleções Científicas do Museu Goeldi, voltado aos jovens e acessível online.
Se os superpoderes do Homem-Aranha já parecem incríveis nos filmes, a natureza mostra que a realidade pode ser ainda mais surpreendente. Em regiões tropicais, como a Amazônia, especialmente em Rondônia, vive uma aranha com uma habilidade impressionante, ela tece teias douradas como joias e resistentes como o aço: a aranha-do-fio-de-ouro.
Conhecida cientificamente como Trichonephila clavipes, a espécie chama atenção pela coloração naturalmente dourada de sua teia, que reflete a luz do sol e atrai insetos curiosos com o brilho. O Grupo Rede Amazônica conversou com um especialista em aracnídeos para entender os segredos por trás dessa peculiaridade fascinante do mundo animal.
De acordo com o biólogo Henrique Abrahão, a coloração surge das proteínas que compõe a seda, responsável por deixar ela leve, flexível e resistente, superando de 3 a 5 vezes a resistência de um fio de aço.
“Essas propriedades vêm despertando o interesse de cientistas, com objetivo de produzir um tecido resistente, até mesmo a produção de coletes a prova de balas utilizando a seda da aranha-do-fio-de-ouro”, comenta o especialista.
O que a aranha-do-fio-de-ouro come?
Embora a alimentação principal da Trichonephila clavipes seja composta por insetos voadores, como moscas, mariposas e besouros, sua teia é tão eficiente que já foram registrados casos de captura de pequenos vertebrados, como lagartos, morcegos e até pássaros de pequeno porte.
Não. De acordo com Henrique, as aranhas-do-fio-de-ouro não são aracnídeos agressivos e nem apresentam perigo ao ser humano, Apesar de ser uma aranha peçonhenta, o veneno da Trichonephila clavipes serve somente para paralisar presas.
Acidentes com essa espécie são raros, pois ela costuma evitar contato com os humanos. Em casos de picadas, que são incomuns, podem ocorrer reações leves, como inchaço e coceira, pessoas alérgicas devem procurar atendimento médico.
Uma das características marcantes da espécie é o forte dimorfismo sexual, ou seja, apresenta uma diferença visível entre fêmeas e machos da mesma espécie. As fêmeas são muito maiores que os machos, podendo medir entre 2,5 a 4,5 centímetros, com um corpo alongado e coloração dourada, amarelo-alaranjado ou bronze, frequentemente com marcas pretas ou brancas.
Já os machos são pequenos, geralmente com menos de 1 centímetro de comprimento, e têm aparência mais discreta. Eles vivem nas proximidades da teia da fêmea, esperando o momento certo para a reprodução.
Papel ecológico essencial
Na natureza, a aranha-do-fio-de-ouro exerce o papel de predadora de topo de cadeia alimentar entre os invertebrados. Isso significa que ela ajuda a regular a população de insetos e outros pequenos animais, contribuindo diretamente para o equilíbrio ecológico dos ambientes onde vive. Sua presença é fundamental para controlar surtos de pragas e manter a biodiversidade saudável.
*Por Beatriz Rodrigues e Mateus Santos, da Rede Amazônica RO
Território quilombola de Cachoeira Porteira, em Oriximiná (PA), é um quilombo titulado. Foto: Antônio Silva/Agência Pará
Os territórios quilombolas – quilombos – em quatro países amazônicos podem ser, agora, oficialmente considerados como guardiões da floresta – fenômeno similar ao que já acontece nos territórios indígenas. Estudo inédito da organização Conservação Internacional, publicado dia 22 na revista Communications Earth and Environment, do grupo Nature, revela que o desmatamento em territórios afrodescendentes titulados no Brasil, Colômbia, Equador e Suriname, têm taxas de 29% a 55% menores do que áreas similares.
“Os povos afrodescendentes das Américas serviram por muito tempo como guardiões do meio ambiente sem reconhecimento nem compensação, inclusive, a maioria de seus territórios nem sequer está formalmente reconhecida”, lamenta Martha Cecilia Rosero Peña, Ph.D., diretora de Inclusão Social na Conservação Internacional. “No entanto, a evidência é indiscutível; o mundo tem muito a aprender com suas práticas de gestão territorial”.
O estudo compara quilombos titulados de todos os biomas dos quatro países latinoamericanos com áreas parecidas, exceto territórios indígenas. “São áreas fora dos territórios quilombolas que apresentam características mensuráveis semelhantes, incluindo cobertura florestal inicial, uso e proteção da terra, tempo de viagem até cidades, elevação, entre outros”, explica Sushma Shrestha,diretora de Ciência Indígena, Pesquisa e Conhecimento na Conservação Internacional e principal autora do artigo.
No Brasil, apenas 4,3% da população quilombola reside em territórios titulados segundo dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população total quilombola do país, o que inclui territórios não titulados, é de 1,32 milhão de pessoas, ou 0,65% do total de brasileiros.
De acordo com o levantamento da Conservação Internacional, além do desmatamento menor, esses territórios latinoamericanos têm maiores quantidades tanto de biodiversidade quanto de carbono irrecuperável (o carbono armazenado em ecossistemas naturais que, se perdido, não pode ser recuperado em menos de 30 anos).
Mais da metade dessas terras (57%) estão entre os 5% de áreas mais biodiversas do planeta – no Equador, esse índice chega a 99%. Ao todo, esses territórios quilombolas armazenam mais de 486 milhões de toneladas de carbono irrecuperável, o que torna sua preservação, sob gestão das comunidades, essencial para prevenir os efeitos mais graves das mudanças climáticas.
O artigo é a primeira pesquisa que combina dados estatísticos, espaciais e históricos para quantificar o papel dos povos afrodescendentes na proteção da natureza. A pesquisa é publicada após o reconhecimento formal do ano passado pela Convenção sobre Diversidade Biológica na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP16), sobre o papel vital que pessoas afrodescentes possuem na conservação da biodiversidade e nas metas de conservação global.
A sua divulgação acontece enquanto o Brasil se prepara para sediar a cúpula climática da ONU (COP30), colocando o foco internacional no papel das Américas diante das mudanças climáticas.
As descobertas do estudo ressaltam uma lacuna. Embora quase uma em cada quatro pessoas na América Latina se identifique como afrodescendente, esses povos estão sub-representados em fóruns ambientais globais, incluindo as cúpulas de clima e biodiversidade da ONU, onde são definidas políticas, financiamento e decisões de liderança.
“Durante séculos, as comunidades afrodescendentes têm gerido paisagens que sustentam tanto as pessoas quanto a natureza, no entanto, suas contribuições continuam sendo e grande parte invisíveis”, lamenta Shretha. “Esta pesquisa deixa claro que sua gestão ambiental não é apenas histórica. Está em curso e deve ser reconhecida, apoiada e tomada como exemplo”.
O estudo faz um chamado à adoção de medidas similares às que ainda são necessárias para os povos indígenas e comunidades locais, cujas contribuições para a conservação e direitos sobre a terra seguem sem ser plenamente reconhecidas, apesar da sólida evidência científica existente. A recomendação da organização é que esses territórios quilombolas sejam reconhecidos, que exista mais pesquisa e financiamento para apoiar os afrodescendentes e seu trabalho de conservação e que as práticas sustentáveis desses povos sejam integradas pelas políticas climáticas e de biodiversidade globais.
“As comunidades afrodescendentes protegem ecossistemas críticos. Este estudo pioneiro quantifica seu impacto e demonstra que justiça, segurança da posse da terra e ganhos em biodiversidade estão alinhados. As negociações globais que buscam impacto real deve colocar a liderança afrodescendente no centro, e o Fórum Permanente as apoia para garantir esse espaço”, disse o Embaixador Martin Kimani, Presidente do Fórum Permanente da ONU para Pessoas de Ascendência Africana.
“A titulação coletiva de terras para comunidades afrodescendentes é um mecanismo comprovado e eficaz para a conservação ambiental, contribuindo significativamente para a preservação de ecossistemas estratégicos na América Latina e no Caribe”, disse Angélica Mayolo, ex-ministra da Cultura da Colômbia e bolsista MLK na Iniciativa de Soluções Ambientais do MIT, originária do centro afrodescendente de Buenaventura, Colômbia.
A titulação coletiva de terras para comunidades afrodescendentes é um mecanismo comprovado e eficaz para a conservação ambiental, contribuindo significativamente para a preservação de ecossistemas estratégicos na América Latina e no Caribe.Angélica Mayolo, originária do centro afrodescendente de Buenaventura, ex-ministra da Cultura da Colômbia e bolsista MLK na Iniciativa de Soluções Ambientais do MIT
A pesquisa foi realizada pela Conservação Internacional, em colaboração com a Iniciativa de Soluções Ambientais do MIT, o Smithsonian Environmental Research Center, a Universidade da Flórida e a Universidade de Nova York.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia
Pelo segundo ano consecutivo, o Amazonas foi o estado que mais registrou mortes de crianças indígenas no Brasil. Em 2024, foram 274 casos, segundo o relatório ‘Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil‘, divulgado nesta segunda-feira (28) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
O Grupo Rede Amazônica procurou o Governo do Amazonas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para saber quais medidas estão sendo adotadas diante dos altos índices de violência contra os povos indígenas, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
Em 2024, o Amazonas registrou 274 mortes de crianças indígenas de até 4 anos, segundo o relatório. O número é o mais alto do país, à frente de Roraima (139 casos) e Mato Grosso (127).
As principais causas das mortes foram pneumonia (103 casos), diarreia (64) e desnutrição (43).
O Amazonas também foi o segundo estado com mais registros de assassinatos de indígenas em 2024, com 45 casos. Roraima lidera esse ranking, com 57 mortes.
O estado também teve o maior número de casos de violência por omissão do poder público, com 75 registros. Em seguida, aparecem Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (26).
O deputado estadual Cabo Maciel (PL) promoveu uma série de reuniões voltadas à discussão dos impactos do licenciamento ambiental no sul do Amazonas e dos processos de regularização fundiária, fortalecendo canais de interlocução entre produtores rurais e órgãos do governo estadual.
A primeira etapa do diálogo ocorreu na sede da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), com representantes de Apuí, Humaitá, Lábrea, Manicoré, Canutama, Novo Aripuanã e Boca do Acre.
Os produtores expuseram as dificuldades enfrentadas em campo, especialmente em função de ações fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), muitas vezes realizadas sem a devida regularização dos imóveis. Eles ressaltaram a necessidade de medidas que garantam segurança jurídica e apoio para fortalecer a agricultura sustentável na região.
Em continuidade ao debate, Cabo Maciel acompanhou as lideranças em reunião com o diretor-presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Gustavo Picanço Feitoza, em Manaus. No encontro, realizado no gabinete do instituto, foram tratados temas como a agilidade no licenciamento via Sistema de Licenciamento Ambiental (Sislam), o aprimoramento da fiscalização estadual e o apoio técnico aos pequenos produtores que buscam a formalização de seus imóveis.
Para o deputado, o esforço conjunto reforça o compromisso com um desenvolvimento rural equilibrado e com a justiça social.
“A interlocução com o Ipaam permite acelerar soluções, reduzindo a sobreposição de critérios entre as esferas federal e estadual. Estamos lutando para garantir que o produtor rural não seja penalizado pela falta de estrutura jurídica”, afirmou Cabo Maciel.
Também foi deliberado, durante a reunião, o planejamento de Audiências Públicas na Aleam, com a presença do Ibama, da Força Nacional, de lideranças rurais e de órgãos estaduais, como o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam) e a Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror) para avançar em propostas concretas de apoio técnico, financeiro e jurídico, além da facilitação do licenciamento ambiental.
O parlamentar concluiu a agenda reforçando que seguirá na mobilização institucional pela regularização fundiária e pela defesa do pequeno produtor.
“É dessa forma, ouvindo, debatendo e propondo ações, que viabilizamos um modelo de desenvolvimento sustentável, que respeita as famílias do interior e preserva a nossa floresta”, afirmou Cabo Maciel.
O paleontólogo peruano Rodolfo Salas-Gismondi liderará a equipe. Foto: Cortesia de Daiji Umemoto
Uma equipe científica multidisciplinar, liderada pelo paleontólogo peruano Rodolfo Salas-Gismondi, está se preparando para mais uma “viagem no tempo”. Coletando fósseis de plantas e animais da Formação Pebas (de 20 a 11 milhões de anos) na região de Loreto, no Peru, eles esperam aprender sobre a origem e a evolução da biodiversidade na Amazônia peruana.
E, claro, sobre um parente do “Pebanista yacuruna“, o maior golfinho-de-rio do planeta, ou sobre outros golfinhos que viveram com ele.
“As expectativas são muito altas”, disse o cientista da Universidade Peruana Cayetano Heredia (UPCH), comentando que a área de Pebas já foi explorada por geólogos e pesquisadores de moluscos fósseis, mas por ninguém que trabalhe com fósseis de vertebrados, e muito menos por uma equipe multidisciplinar como será feita nesta ocasião.
Não está descartada a descoberta da família Pebanista yacuruna, cuja descoberta despertou grande interesse na comunidade científica devido ao potencial paleontológico do Peru. Na região sul de Ica, na costa peruana, por exemplo, foi encontrado o fóssil do cetáceo mais pesado da história: o Perecetus colossus.
“O objetivo é buscar não apenas mais restos mortais de Pebanista, mas também outros golfinhos que viveram com ele, cujos nomes ainda não sabemos. Atualmente, existem dois golfinhos no Rio Amazonas; naquela época, suspeitamos que havia mais dois além de Pebanista”, disse o pesquisador.
Para Salas-Gismondi, “esta é uma ótima oportunidade para aprender como era a comunidade de golfinhos. Imagine, três golfinhos tornariam a área incrivelmente interessante [e única], porque quase não há registros fósseis de golfinhos de água doce no mundo”.
“Adoro ter a oportunidade de reconhecer e descobrir novas espécies animais e entender como ocorreu a evolução na Amazônia, como a hiperdiversidade foi gerada”, comentou.
Foto: Cortesia de Daiji Umemoto
Pela primeira vez
A área a ser estudada abrange quase 500 quilômetros ao longo do Rio Amazonas, de Nauta a Pebas, o assentamento mais antigo da Amazônia peruana, que deu nome ao sistema Pebas, que antecedeu o sistema Amazonas, indicou.
“Pela primeira vez, vamos a Pebas e não sabemos o que vamos encontrar, mas esperamos encontrar muitas coisas interessantes, porque a Formação Pebas foi nomeada na cidade de Pebas e arredores. Deve haver afloramentos rochosos em grandes quantidades”, enfatizou.
Ali foram descritas pela primeira vez as típicas rochas pretas e argilas azuis que caracterizam a Formação Pebas, que se distribui por grande parte do território do departamento de Loreto. A Formação Pebas é o cerne da compreensão do sistema Pebas. É uma unidade geológica que representa os sedimentos depositados neste sistema lacustre. Ambos os termos estão ligados à história geológica e à biodiversidade da Amazônia peruana.
“Sem essa formação [os fósseis encontrados], não teríamos evidências da existência desse sistema de pântanos, zonas úmidas e lagos periodicamente invadidos pelo mar do Caribe. Nem saberíamos quem eram os habitantes desse sistema”, enfatizou.
Assim, o sistema Pebas é muito importante porque nos permite entender a riqueza da Amazônia ocidental, que é a mais próxima dos Andes, observou ele, lembrando que a primeira viagem está marcada para 10 a 24 de agosto. A área a ser estudada — de 13 a 11 milhões de anos atrás — corresponde ao início do crescimento dos Andes, o que determinou o fim do sistema Pebas, explicou.
“Será incrivelmente emocionante: desembarcar em cada possível sítio arqueológico fóssil e viajar no tempo; ter a chance de ver coisas que nunca vimos antes; ver o que o Rio Amazonas ou a chuva revelaram. Não temos dúvidas de que seremos capazes de desenterrar coisas incríveis”, disse ele.
Em que consiste o projeto?
Foto: Cortesia de Daiji Umemoto
Esta expedição será possível graças ao projeto de pesquisa ‘Registro Fóssil de Loreto: Arquivos sobre a Origem da Biodiversidade Amazônica’, que será financiado com 500.000 soles (moeda peruana) do Programa Nacional de Pesquisa Científica e Estudos Avançados (ProCiencia), órgão executor do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Tecnológica (Concytec), durante 30 meses de trabalho.
“Iremos em agosto porque o nível do rio baixa nessa época. Esperamos um ano seco, ou pelo menos que o nível baixe o suficiente. Este ano choveu muito, o ano passado foi extremamente seco. Estamos à mercê de condições climáticas imprevisíveis. Quanto mais seco, maior a probabilidade de encontrarmos coisas. Faz parte de como trabalhamos na Amazônia”, disse ele.
O financiamento será usado para:
comprar materiais, ferramentas, armários, equipamentos e suprimentos para trabalho de laboratório;
financiar duas teses de mestrado sobre os fósseis da Formação Pebas;
e cobrir três viagens à Amazônia.
“Ele propõe estudar o registro fóssil de plantas, vertebrados, invertebrados e microfósseis da Formação Pebas, na região de Loreto, considerado o sítio paleontológico mais rico da Amazônia e que tem sido a base científica para a reconstrução do sistema Pebas”, explicou o pesquisador.
O argumento é que a origem de vertebrados e plantas com ancestrais marinhos — golfinhos e peixes-boi, por exemplo, que agora vivem na Amazônia — e não marinhos, como jacarés, preguiças, palmeiras e samambaias, foi forjada na dinâmica ambiental das fases marinhas e secas do sistema Pebas antes do estabelecimento do Rio Amazonas.
Para testar essa hipótese, dados geológicos e paleontológicos serão coletados, e a análise isotópica será usada para caracterizar os ambientes marinhos e não marinhos em cada fase. “Estou focado e obcecado em encontrar novas espécies que existiram nesses ecossistemas megadiversos, como crocodilos terrestres ou pássaros-terroristas; agora acho que elas podem ter existido”, disse ele.
Coleção pioneira
O projeto de pesquisa também permitirá a coleta de fósseis coletados para formar a primeira coleção paleobotânica do interior do país, desta vez, na região de Loreto.
“Será complementado pela coleção botânica de árvores encontradas na Amazônia do Instituto Peruano de Pesquisas da Amazônia (IIAP)”, disse ele.
O paleontólogo esclareceu que a Formação Pebas não contém apenas fósseis de animais vertebrados, mas também fósseis de moluscos, âmbar, organismos dentro do âmbar e folhas, troncos e frutos de milhões de anos atrás.
“Os resultados deste projeto e sua disseminação demonstrarão o valor do registro fóssil para a compreensão dos processos que regem a origem e a evolução da Amazônia peruana. Tentar entender como ela funcionava no passado pode ajudar a prever o que pode acontecer no futuro”, alertou.
Esta primeira expedição tem como primeiro objetivo encontrar seções geológicas que apresentem uma sequência de estratos (vários metros) com diferentes fases, a fim de observar um ciclo completo (do ciclo marinho ao mais terrestre) e caracterizar o ambiente em cada etapa.
Ou seja, “desde o momento em que a incursão marinha avançou e penetrou até que gradualmente secou e deu lugar a ambientes mais terrestres. Passou de sedimentos azuis para pretos”. “Há grandes afloramentos em Pebas, e queremos documentar cada nível, o que estava acontecendo no nível fóssil, no nível ambiental, no nível climático”, explicou o pesquisador.
A próxima viagem, prevista para 2026, está prevista para chegar a Letícia, na tríplice fronteira entre Peru e Brasil e Colômbia.
O segundo objetivo da pesquisa é encontrar novos animais que fizeram parte desses ecossistemas e que podem ajudar a responder algumas das perguntas sobre como e quando ocorreu a diversificação em certas espécies de crocodilos, sirênios, golfinhos, etc.
“Estou confiante, ou pelo menos esperançoso, de que conseguiremos, porque cada vez que visitamos novos sítios arqueológicos, encontramos coisas completamente diferentes. Estabelecer idades na Amazônia é muito difícil porque não existem sequências rochosas completas. Agora temos a possibilidade de encontrar sequências mais longas e documentar cada uma delas”, afirmou.
Equipe multidisciplinar
A equipe é formada por quase 20 pesquisadores de três instituições peruanas: a Universidade Peruana Cayetano Heredia (UPCH), o Museu de História Natural (pesquisador Alí Altamirano e o técnico Walter Aguirre do MHN) da Universidade Nacional Mayor de San Marcos (UNMSM) e o Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana, representado pelo botânico Ricardo Zárate.
Além disso, três instituições estrangeiras: o Museu Americano de História Natural, em Nova York, e o Museu Field, em Chicago, ambos nos Estados Unidos; e o laboratório L’Ocean, na Universidade Pierre e Marie Curie, ambos na França.
Foto: Cortesia de Daiji Umemoto
A paleobotânica colombiana Fabiany Herrera, do Museu Field, interessada em estudar o sistema Pebas, “nos ajudará a construir a coleção paleobotânica”, observou o especialista.
Também faz parte da equipe o paleontólogo americano John Flynn, especialista em mamíferos do Museu Americano de História Natural. “Começamos a trabalhar na Formação Pebas em 2004, e ele participou da expedição ao Rio Napo que descobriu o Pebanista yacuruna. Sua instituição contribuirá com recursos”.
Com o paleoclimatologista francês Matthieu Carré, da L’Ocean, estão em andamento planos para conduzir análises de isótopos de vários elementos para explorar, por exemplo, a salinidade e a temperatura da água no passado, umidade, precipitação e outros parâmetros que fazem parte de sua área de especialização.
A geóloga colombiana Diana Ochoa, da UPCH, será responsável por estudar a estratigrafia, para ver que informações os sedimentos podem oferecer sobre paleoambientes (ambientes passados).
Embora não faça parte do projeto ProCiencia, a paleontóloga peruana Julia Tejada, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, integra a equipe de pesquisa como colaboradora. Ela conduzirá estudos de isótopos para entender as teias alimentares — em termos simples, quais espécies se alimentaram de quais.
Da mesma forma, a paleontóloga holandesa Carina Hoorn, que estuda o sistema Pebas, postula que a floresta amazônica deve sua biodiversidade aos Andes e ao sistema Pebas. Ambos participarão com recursos próprios.
Além dos cientistas, duas equipes de documentaristas (Daniel Winitzky, Romina Castagnino e Daiji Umemoto) serão responsáveis por registrar toda a expedição, com o objetivo de divulgar o trabalho na Amazônia e a riqueza paleontológica de Loreto.
Com a contagem regressiva em andamento, a equipe não só está fazendo as malas, como também está cada vez mais ansiosa para documentar as mudanças no meio ambiente e explorar como as comunidades de vertebrados e invertebrados, bem como as plantas, estão mudando. Em suma, eles estão tentando desvendar e entender como esse ecossistema funcionava antes do Rio Amazonas.
“Acredito que temos uma oportunidade única. Agora que estamos indo mais longe [para Pebas], coisas que nunca vimos antes podem aparecer “, afirmou Salas-Gismondi com convicção.
A espécie de planta Piper hispidum se mostrou eficiente na redução da infestação por vermes monogenéticos nas brânquias dos peixes. Foto: Maria José Tupinamba
Óleos essenciais obtidos de plantas cultivadas na Amazônia demonstraram eficácia no combate a parasitas que atacam principalmente as brânquias do tambaqui (Colossoma macropomum), o peixe nativo mais cultivado no Brasil. A descoberta, resultado de pesquisas realizadas pela Embrapa, oferece uma alternativa natural ao uso de produtos químicos tradicionais (quimioterápicos), com potencial para transformar práticas na piscicultura brasileira.
O estudo avaliou a ação de óleos essenciais extraídos de três espécies do gênero Piper: P. callosum, P. hispidum e P. marginatum. As duas primeiras mostraram resultados significativos na redução da infestação por vermes monogenéticos nas brânquias dos peixes, enquanto a terceira espécie não apresentou a mesma eficácia terapêutica.
Coordenado pelo pesquisador Marcos Tavares Dias, da Embrapa Amapá e em parceria com a Universidade Federal do Amapá (Unifap) e a Embrapa Amazônia Ocidental (AM), o estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em Edital Universal.
Plantas presentes no bioma Amazônia
As três espécies de plantas – P. callosum, P hispidum e P. marginatum – cujo óleo essencial foi utilizado nesse trabalho, foram cultivadas na Embrapa Amazônia Ocidental em Manaus (AM), sob responsabilidade do pesquisador Francisco Célio Chaves.
No local, é feito o estudo agronômico com essas espécies para sistemas de cultivo, como produção de mudas, plantio, adubação, irrigação, e na fase reprodutiva as plantas são cortadas e levadas à secagem para que os materiais vegetais sejam preparados para destilação e purificação dos óleos essenciais no Laboratório de Plantas Medicinais e Fitoquímica da Embrapa Amazônia Ocidental.
Os óleos obtidos foram enviados para Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, onde o pesquisador Humberto Bizzo fez as análises da composição química dos componentes majoritários de cada óleo, por cromatografia gasosa, conforme explica Chaves.
O pesquisador explica que a família Piperaceae está presente na flora do bioma Amazônia e apresenta uma diversidade de moléculas químicas de comprovada atividade biológica. “A partir dessas análises da composição, a gente conhece que substâncias químicas majoritárias que compõem esses óleos essenciais, que passam a ser testados na piscicultura para o controle de doenças parasitárias, ou também são testados no uso em controle de pragas e doenças em vegetais e outros animais”.
Alternativa aos produtos químicos
Foto: Marcos Tavares Dias/Acervo pessoal
Marcos Tavares Dias, os parasitas combatidos — vermes monogenéticos — costumam se fixar nas brânquias dos peixes, comprometendo a respiração e prejudicando a produção da piscicultura. O controle tradicional envolve produtos químicos tais como formalina, organofosforados, albendazol, entre outros produtos. Apesar de eficazes, esses produtos químicos apresentam riscos à saúde dos trabalhadores que os manipulam, além de impactos ambientais e possibilidade de seleção de parasitas resistentes.
“Os óleos essenciais vêm ganhando espaço mundialmente como alternativa mais segura e sustentável”, relata o pesquisador. “O uso contínuo de quimioterápicos pode favorecer a resistência dos parasitas. Já os óleos, além de eficazes, não apresentaram toxicidade para os peixes nas doses testadas e não oferecem riscos à saúde dos trabalhadores, compara o cientista.
Foto:Siglia Souza/Embrapa
Banhos terapêuticos
Nos testes laboratoriais, os peixes foram submetidos a banhos terapêuticos com diferentes concentrações dos óleos. O óleo de P. callosum foi aplicado em banhos de 20 minutos cada, com 24 horas de intervalo entre eles . Já o óleo de P. hispidum foi utilizado em três banhos de uma hora cada, com 48 horas de intervalo entre banhos. Em ambos os casos, houve significativa redução na infestação parasitária nas brânquias dos tambaquis.
As análises, realizadas com microscopia eletrônica de varredura, mostraram que os componentes químicos dos óleos alteram a estrutura da membrana dos parasitas, comprometendo sua fixação nas brânquias e facilitando sua eliminação. A segurança dos tratamentos foi confirmada pela ausência de mortalidade nos peixes durante os experimentos.
O gênero Piper é um dos mais diversos da flora amazônica, com cerca de 400 espécies conhecidas no Brasil. Muitas dessas plantas são tradicionalmente usadas por comunidades da região como remédios naturais, o que reforça seu potencial para inovação na agricultura e na saúde animal.
A pesquisa reforça ainda a importância do manejo preventivo de doenças causadas por monogenéticos em peixes na piscicultura. Práticas como quarentena, controle da densidade dos peixes nos tanques e monitoramento da qualidade da água são essenciais para evitar surtos de doenças e reduzir prejuízos na produção. O controle de parasitas pode representar até 22% dos custos totais de cultivo, o que torna o uso de soluções naturais ainda mais estratégico.
A expectativa dos cientistas é que os resultados sirvam de base para orientar técnicos e piscicultores no uso desses óleos como alternativa aos tratamentos quimioterápicos. A proposta está alinhada aos princípios de uma piscicultura mais sustentável, em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 8, que promove o crescimento econômico sustentável e trabalho decente.
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que ainda é necessário enfrentar desafios, como a disponibilidade e o custo da produção dessas plantas medicinais em larga escala. Para que essas alternativas se tornem viáveis na prática, será preciso estabelecer diretrizes de uso sustentável e regulamentação específica para sua aplicação na aquicultura, bem como a validação destes resultados em tanques de piscicultura.
Foto: Jefferson Christofoletti/Acervo pessoal
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Evento acontece no Centro de Convenções Vasco Vasques na terça (30) e quarta-feira (31). Foto: Lucas Silva/Acervo/Amazonastur
Manaus (AM) recebe, na quarta (30) e quinta-feira (31), o DSX 2025 – Digital Summit Experience, maior evento de marketing, vendas, inovação e negócios do Norte do Brasil. O evento acontece no Centro de Convenções Vasco Vasques, a partir das 10h.
A programação oficial reúne mais de 40 palestras, distribuídas em três palcos simultâneos, com temas que abrangem inteligência artificial, marketing digital, liderança, storytelling, comunicação, vendas, varejo, branding, entre outros.
O DSX reúne especialistas reconhecidos nacionalmente e nomes locais que têm transformado o mercado regional.
Além do conteúdo, o evento contará com uma estrutura completa, incluindo praça de alimentação, feira de negócios, espaços para networking e happy hour.
Para Antônio Lima Júnior, CEO do Grupo Digital e idealizador do evento, o DSX representa uma virada de chave para o empreendedorismo na região:
“O DSX nasceu com o propósito muito claro de valorizar o que é nosso, de valorizar os empresários, os profissionais sonhadores e os realizadores que fazem a nossa terra. São dois dias de imersão total, com conteúdo prático de verdade, grandes palestrantes locais e nacionais, em uma atmosfera de conhecimento que inspira evolução”.
Os passaportes para a imersão junto a grandes nomes do marketing nacional estão disponíveis on-line. Grupos de empresas e instituições têm descontos exclusivos que podem chegar a 15%. A compra é exclusiva pelo WhatsApp: (92) 98132-3426.
Programação oficial
30 de julho (quarta-feira)
Plenária
10h – Rafael Liporace | Transformando ideias em ações memoráveis
11h – Carlos Oshiro | Nova Economia
12h – Rodrigo Waughan | Arquitetura do Varejo do Futuro
13h – Nicolas Charão | IA Comercial: Como usar tecnologia para aumentar suas vendas
14h – Marcel Roxo | Neurovendas
15h – Lucas Pimenta | Política é negócio: votos além dos likes
16h – Fernando Miranda | O Futuro do Marketing com IA
17h – Camila Renaux | Tendências que vão definir o marketing até 2030
18h – Alfredo Soares | O Jogo da Máquina de Vendas
19h – Tallis Gomes | Gestão e Cultura
20h – Painel com Alfredo Soares e Tallis Gomes | Gestão e Vendas
Palco 2
10h – Carol Guerra | Branding: a importância para o sucesso do seu negócio
11h – Luis Eduardo Leal | IA aplicada em vendas e marketing
12h – Amanda Maria | Liderança em vendas
13h – Rodrigo Kallas | Smart Cities e Marketing Urbano
14h – Jacqueline Guedes | A Voz que Vende
15h – Suelen Scop | IA e o futuro do trabalho
16h – Rafael Amorim | Estratégias comerciais que funcionam
17h – Fabrício Alva | Saúde com resultado e responsabilidade
Palco 3
10h – Erick Fernandes | A trilha da fortuna das vendas
11h – Flávia Sausmikait | Marketing e Pesquisa
12h – Aimee | Tráfego Pago
13h – Djalma Pinheiro | Case Sushi Ponta Negra
14h – Rodrigo Araújo | Mapa do ROI
15h – Breno Maciel | WhatsApp e Vendas
16h – Afrânio Soares | Pesquisas Eleitorais
17h – Paulo de Lima | IA para Empresários
31 de julho (quinta-feira)
Plenária
10h – Marc Tawil | As 5 Habilidades que a IA não substitui
11h – Cristiano Santos | LinkedIn e Conexões de Valor
12h – Gisele Oshiro | Ansiedade Digital e Produtividade
13h – João Brognoli | A Nova Era dos Negócios Digitais
14h – Ben Ludmer | Storytelling no Processo Criativo
15h – Carolina Lima | Autenticidade e Redes Sociais
16h – André Siqueira | Aquisição de Clientes
17h – Hanah Franklin | Conteúdo Autêntico e Criativo
18h – Rafael Kiso | A Era da Retenção
19h – João Kepler | Smart Money: Estratégias para Escalar Negócios Inovadores
Palco 2
10h – Jessica Nery | Integração de Marketing e Vendas
11h – Magno Rodrigues | Gestão Financeira Eficiente
12h – Diego Cestaro | PDV do Futuro
13h – Bianca Guedes | Conteúdo com Verdade
14h – Ana Eliza Costa | Venda Muito Mais
15h – Jack Serafim | Marketing Político que Funciona
16h – Painel com Alcides Netto, Dois REC, Mariah (Time) | Vídeo no Marketing
17h – Mesa de Debate com Kallas, Vanguarda e Santo Remédio | Dinâmica da Comunicação
Palco 3
10h – Marcus Evangelista | Conteúdo nas Redes Sociais
11h – Mauricio Stellato | Automação para Engajar e Vender
12h – Glauber Gomes | IA na sua Empresa
13h – Alex Mota – Engeco | Marketing de Alto Padrão
14h – Eduardo Lopes | Distribuição de Conteúdo Digital
15h – Gerson Toller | IA no Varejo: Riscos e Oportunidades