Home Blog Page 21

Pesquisa mapeia 14,3 mil observações de felinos para entender suas interações com humanos

0

Estudiosos alertam para dificuldades de convivência entre fazendeiros e felinos, que frequentemente descambam para violência. Foto: Adriano Gambarini

Os felinos carnívoros de grande porte do Brasil, como onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas, dependem, para sobreviver, do acesso a áreas naturais preservadas e extensas, nas quais possam dar vazão aos seus instintos de caça. Porém, a expansão da atividade agropecuária em nosso país vem resultando em paisagens naturais cada vez mais fragmentadas, transformando a realidade de biomas como o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal.

Leia também: Dia Mundial do Gato: conheça os “gatinhos” da Amazônia

O resultado é que as condições necessárias para a existência desses animais estão se deteriorando. No caso das onças-pintadas, por exemplo, a ONG Global Witness estima que, nos estados do Pará e do Mato Grosso, já foram desmatados 27 milhões de hectares de seu habitat original, uma área maior que o Reino Unido.

Preocupados com as perspectivas de sobrevivência dos grandes felinos no país, um grupo de pesquisadores da Unesp e de outras universidades brasileiras analisou o comportamento de nove espécies, procurando diferenciar aquelas que limitam suas andanças às áreas de habitat selvagem das que costumam ser flagradas circulando perto de estradas, propriedades rurais e outros locais potencialmente perigosos.

No total, foram analisados os dados de cerca de 14,3 mil episódios de avistamento de felinos selvagens, incluindo as coordenadas geográficas onde foram relatados. O objetivo do levantamento é permitir a elaboração de estratégias de conservação mais adequadas a cada espécie, de acordo com seu estilo de vida. Os resultados foram apresentados em um artigo publicado no periódico especializado Biological Conservation.

Em circunstâncias normais, os carnívoros preferem manter sua dieta típica, alimentando-se de presas como capivaras e jacarés na mata nativa. Mas, quando as presas comuns se tornam escassas — devido a secas, caça ilegal, destruição dos habitats por mineração e hidrelétricas ou outras razões —, alguns felinos avançam sobre fazendas atrás de bezerros e galinheiros, e acabam feridos em confrontos com cães de guarda e humanos armados. Por isso, a escassez de trechos contínuos de mata nativa é um dos principais obstáculos à conservação de felinos no Brasil.

Vanesa Bejarano Alegre, que acaba de terminar seu doutorado pelo programa de Ecologia, Evolução e Biodiversidade no Instituto de Biociências (IB) da Unesp, câmpus de Rio Claro, é autora principal do trabalho, fruto de sua colaboração com o Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC). Ela explica que análises estatísticas abrangentes como essas são importantes para sistematizar e complementar as observações feitas pelos biólogos de campo. Esses conhecem bem os animais que vivem nas regiões em que conduzem seus estudos, mas não necessariamente conseguem ter a visão do todo e identificar lacunas na literatura disponível.

A lista de avistamentos utilizada no estudo, obtida a partir de várias bases de dados públicas, foi construída a partir de recursos como câmeras fotográficas automáticas (camera traps) camufladas na mata para estudar e recensear os bichos. O mapa de usos do solo do Brasil, que mostra quais trechos do país são cobertos por agropecuária, mata nativa, cidades etc., foi fornecido pela rede MapBiomas.

Cada felino tem seu estilo

Como hipótese para nortear o estudo, Bejarano e seus colegas propuseram a divisão das nove espécies de felinos brasileiros em três categorias ecológicas. São elas: os generalistas, que teriam grande tendência a frequentar locais modificados pelo ser humano; os especialistas flexíveis, que toleram ambientes antrópicos, mas preferem habitats naturais; e os especialistas estritos, que são os mais seletivos, permanecem na mata fechada e evitam se aventurar entre nós.

“Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a propor e avaliar uma classificação das espécies de felinos brasileiros baseada em traços ecológicos e na plasticidade dos habitats”, escreveram os autores.

As análises das 14,3 mil observações de felinos reais buscaram então elementos para corroborar, refutar ou corrigir essa classificação teórica em três categorias. Em linhas gerais, os resultados coincidiram, mas alguns casos particulares desafiaram as expectativas.

Um deles foi a categoria dos generalistas, composta pela onça-parda (Puma concolor), o jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi) e o gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi, que, apesar do nome, pesa apenas 4 kg).

Leia também: Onça ou jaguar? Conheça a origem do nome de alguns “primos da onça-pintada”

As observações sobre a onça-parda confirmaram as hipóteses dos autores, aparecendo com frequência nas cercanias de pastos e plantações. O jaguarundi, por sua vez, parece tão aberto a novas paisagens que apresentou uma peculiar aversão à mata fechada: foi mais comum encontrá-lo próximo de regiões agrícolas. Porém, o gato-do-mato-grande é tão tímido que sequer parece um generalista. Raramente foi avistado próximo a fazendas, o que pôs uma pulga atrás da orelha dos pesquisadores sobre a precisão da literatura preexistente sobre esse animal. “Se você me perguntasse se eu consideraria o gato-do-mato-grande um generalista, diria que não”, diz Bejarano.

Outras espécies se mostraram mais de acordo com o esperado. Especialistas flexíveis, como Panthera onca Leopardus pardalis, evitam estradas, mas utilizam paisagens naturais heterogêneas. Já aqueles classificados como especialistas estritamente florestais (L. wiediiL. guttulus e L. tigrinus) mostraram uma elevada dependência da cobertura florestal, e geralmente evitam habitats abertos. Chamou a atenção o fato de que os efeitos da proximidade de estradas variavam de acordo com cada espécie, e nem sempre se alinharam com a classificação ecológica proposta pelos autores.

“Comprovamos a hipótese, mas com exceções. Sempre há exceções”, diz Bejarano. A pesquisadora pondera, porém, que as conclusões do estudo podem refletir a escassez ou os vieses presentes em dados públicos sobre determinadas espécies, e não o comportamento real dos animais analisados.

A convivência é difícil, mas está melhorando

Raíssa Sepulvida Alves, mestre pelo Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, bióloga de campo da ONG Panthera Brasil e coautora do artigo com Bejarano, conta que os conflitos entre humanos e onças já foram piores. “Há uns quinze anos, era bem mais complicado. Mesmo nos casos em que o gado morria por outra causa, a onça era sempre considerada culpada, e as pessoas retaliavam”, diz. “Por isso, a Panthera criou manuais com técnicas de manejo que evitam a predação.”

Além de medidas de segurança básicas e relativamente fáceis de implantar em curto prazo, como recolher o gado para currais distantes da mata durante a noite, instalar cercas elétricas e deixar os bezerros em instalações protegidas, a iniciativa de promover novas frentes de atividade econômica, para além da pecuária, ajuda a estreitar os laços entre a população e a fauna.

“O turismo de observação de onça vem se desenvolvendo paralelamente na região de Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá”, diz Sepulvida.

“As pessoas perceberam que podiam ganhar dinheiro com os animais, e as onças passaram a valer mais vivas do que mortas. Elas deixaram de ser vilãs para muita gente. E a Panthera sempre atuou ali em colaboração, divulgando e incentivando boas práticas de observação.”

Bejarano explica que cada grupamento humano lida de uma forma com a presença de grandes felinos. “As comunidades têm perspectivas diferentes sobre a natureza. Algumas matam por matar, outras não. Não há uma fórmula secreta para tudo. O Brasil é tão enorme, é um continente. Imagine quantas pessoas, mentalidades, pensamentos existem. Esse, eu acho, é o maior desafio na preservação de grandes carnívoros.”

Além da convivência complicada com o Homo sapiens, Bejarano conta que as próprias táticas usadas pelas presas para escapar de seus predadores podem pôr os gatos selvagens em apuros: “Muitos estudos avaliam o movimento de animais como cervos em lugares mais iluminados, tentando evitar a predação por grandes felinos. Mas isso começa a mudar o comportamento desses animais. Ao não encontrarem suas presas habituais dentro da floresta, eles começam a se aproximar das áreas antrópicas.”

Ainda que não ocorra um incidente mais grave, como um atropelamento, a necessidade de forragear em áreas de agropecuária e beiras de estrada tem consequências de longo prazo. Experimentos com caixas de som mostram que ruídos de origem humana deixam esses animais muito mais estressados do que, por exemplo, o barulho de uma rã ou de um grilo. As refeições, nessas circunstâncias, acabam sendo mais rápidas do que seria saudável, e os níveis de cortisol no sangue ficam mais altos, o que pode reduzir a expectativa de vida dos felinos em longo prazo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Imagem colorida mostra uma das onças-pintadas descansando em tronco de árvore
Onça-pintada é um dos grandes felinos da Amazônia. Foto: Octavio Campos Salles/Onças do Amapá

“Menos de 5% do Pantanal está dentro de uma unidade de conservação formalmente protegida”, diz Raíssa Sepulvida. “A grande maioria são propriedades privadas, e é por isso que a Panthera investiu bastante em esforços de coexistência entre os produtores e as onças.” Atualmente, além da atuação junto à Panthera — organização beneficente de proteção de felinos que foi fundada nos EUA em 2006 e tem um braço brasileiro desde 2014 —, Sepulvida faz doutorado em Ecologia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Ao longo de sua carreira, algumas de suas aventuras foram monitorar jaguatiricas por quatro anos usando camera traps e pôr colares de GPS em 15 indivíduos.

Conhecendo na pele as dificuldades do trabalho de campo — pesquisas como as citadas acima exigem longas incursões em áreas alagadas e abafadas do Pantanal, com roupas longas e grossas para evitar picadas de mosquito —, Sepulvida explica que um dos trunfos do novo artigo científico é justamente usar um método que reaproveita material já coletado em novas análises.

“Algo bem importante nesse artigo é empregar dados já disponíveis em plataformas abertas. São anos de informações que foram coletadas por diversas razões. Às vezes, camera traps foram instaladas por um grupo de pesquisa por um motivo específico — como, por exemplo, a visualização de antas —, mas acabam registrando outras espécies. Então, elas podem e devem ser usadas para outros trabalhos. É importante que os pesquisadores compartilhem seus dados.”

“É uma análise bastante simples, que pode ser feita para outras espécies do Brasil, utilizando também dados abertos”, explica Bejarano. “E esse trabalho revela quais informações temos ou não temos. Há biomas enormes, como a Amazônia, sofrendo com a falta de dados. Não há tantos como se imagina, ou eles não são abertos.” Atualmente, Bejarano continua seu trabalho conservacionista como pós-doutoranda no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Bruno Vaiano

Exploração de madeira cresce 30% em Roraima e quase metade da extração é ilegal

0

Extração legal de madeira cresce, mas atividade ilegal ainda é responsável por quase metade do total da atividade. Foto: Divulgação/Imazon

A extração de madeira em Roraima cresceu 30% em quase um ano e chegou a 14.867 hectares em julho de 2024, conforme levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O número supera o registrado no período anterior, iniciado em agosto de 2023.

Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex). Em agosto de 2023, foram 11.422 hectares de madeira extraída.

Do total de madeira extraída em 2024:

  • 7.994 hectares foram explorados com autorização (53,8%), quase quatro vezes mais que os 2.103 hectares registrados no período anterior;
  • 6.873 hectares foram explorados sem autorização (46,2%), o que mostra que quase metade da madeira que circula em Roraima ainda tem origem clandestina.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Extração ilegal de madeira

A exploração ilegal é mais forte no Sul do estado. Caroebe e Rorainópolis lideram o ranking, empatados com 28%. Logo atrás vem São João da Baliza, com 24%.

Sozinhos, esses três municípios concentram 80% de toda a madeira extraída ilegalmente das florestas de Roraima. Essas regiões, próximas às divisas com o Amazonas e o Pará, são consideradas pontos críticos de pressão florestal pelos pesquisadores do Imazon.

O monitoramento identificou que a extração não autorizada se concentra majoritariamente em áreas que deveriam ser protegidas ou destinadas a assentamentos rurais. Esses foram os locais mais afetados, que somaram 43% de toda a exploração ilegal. Na sequência, aparecem:

  • Imóveis rurais privados: 33%
  • Vazios fundiários: 21%
  • Terras não destinadas: 3%

Segundo o Imazon, a pressão sobre essas áreas acende um alerta para problemas históricos de governança fundiária em Roraima e aumentam o risco de conflitos e prejuízos ambientais.

madeira ilegal amazônia
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Leia também: Projeto vai usar ‘assinatura química’ e DNA de árvores para rastrear madeira no Amapá

Extração legal

Pela primeira vez desde 2022, a área de extração legal superou a ilegal, com 54% do total. Segundo o estudo, 90% da exploração legal ocorreu em imóveis rurais privados no último ano.

Confira o histórico completo da evolução madeireira no estado nos últimos cinco anos:

Evolução da exploração de madeira em Roraima (em hectares)

AnoAutorizadaNão autorizadaTotal
20204.2415.2179.458
20217614971.258
20221.1844871.671
20232.1039.31911.422
20247.9946.87314.867

Fonte: Simex/Imazon

Para a pesquisadora do Imazon, Camila Damasceno, o crescimento dos números gerais deve ser analisado com cautela, mas a inversão da curva, com mais extração de madeira legal do que ilegal, é um indicador positivo.

“Esse aumento, a gente vê com bons olhos. Significa que as pessoas estão seguindo as técnicas do manejo florestal sustentável, gerando empregos e renda para o estado. A exploração legal é bem mais sustentável. A ilegal acaba tendo inúmeras consequências não só para a floresta, mas também para comunidades que vivem ali”, completa.

O relatório destaca uma dificuldade na obtenção dos dados por parte do Órgão Estadual de Meio Ambiente (Oema), responsável pelo licenciamento em Roraima. Por conta disso, segundo a Rede Simex, formada por Imazon, Imaflora e ICV, as informações analisadas foram retiradas exclusivamente do sistema do Ibama (SisCom).

O que diz a Femarh

O relatório do Simex apontou dificuldades na análise por ausência de dados estaduais, mas a Femarh afirma que não foi consultada para validar o estudo e esclareceu que utiliza o sistema federal Sinaflor. Enquanto o Imazon estima 54% de extração legal de madeira, o governo estadual afirma que 71% da área explorada (10.585 hectares) possui licença.

Sobre a atividade ilegal, a Femarh informou que cerca de 739 hectares já foram autuados e embargados em operações fiscalizatórias entre 2023 e 2025. A Fundação reiterou que o estado foi o primeiro a adotar o sistema federal de controle e que mantém um portal de transparência próprio para consulta de licenciamentos e fiscalizações.

*Com informações da Rede Amazônica RR

Projeto ensina estruturas hormonais femininas com bioinformática, modelagem e impressão 3D no Amazonas

Foto: Kamila Rangel Primo Fernandes/Acervo pessoal

Utilizar a bioinformática, modelagem e impressão 3D para explicar de forma didática e dinâmica os hormônios que permeiam o universo feminino, e estimular a pesquisa científica em estudantes do Ensino Médio foram a base de um projeto amparada via Programa Ciência na Escola (PCE), edital n° 002/2024, no Amazonas.

A pesquisa intitulada ‘Estudo químico e biológico de estruturas hormonais femininas através da bioinfomática, modelagem e impressão 3D’ foi coordenada pela doutora em Química, Kamila Rangel Primo Fernandes. O projeto contou com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), desenvolvida pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Realizado por alunas do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Marcantonio Vilaça, localizada na Avenida Max Teixeira (Bairro Mundo Novo, na Zona Norte da capital), o projeto proporcionou a compreensão das moléculas químicas específicas do corpo feminino, como os hormônios, além de doenças e prevenções da saúde feminina.

Além disso, as estudantes aprenderam a modelar estruturas químicas em impressora 3D por meio dos sofwares Tinkercad e Chemdraw.

“O projeto durou seis meses com execuções de modelagem e impressão 3D de moléculas hormonais”, disse a coordenadora do projeto, Kamila Rangel Primo Fernandes.

Para a coordenadora, o apoio da Fapeam foi essencial para difundir a integração da biologia e da saúde com a informática para estudantes do Ensino Médio.

“O apoio foi importante para integrar tópicos relativos à saúde da mulher no ensino de ciências, promovendo não apenas uma educação mais inclusiva e representativa, mas também contribuindo para a formação de indivíduos conscientes sobre questões de gênero e saúde”, comentou Kamila Rangel.

O projeto utiliza metodologias ativas que aperfeiçoem o processo de ensino e aprendizagem sobre o tema, tais como saúde feminina, hormônios e ciclos femininos, menstruação, gravidez na adolescência, estudo químico de moléculas hormonais, entre outros aspectos.

Leia também: Jogo educativo permite explorar a Amazônia por meio de simulação em 3D

projeto que ensina estruturas hormonais femininas com bioinformática, modelagem e impressão 3D
Foto: Kamila Rangel Primo Fernandes/Acervo pessoal

Teoria e prática do projeto

A coordenadora do projeto destacou que os estudantes construíram seus modelos com base em seus conhecimentos prévios e nas informações fornecidas, como dados experimentais, textos e discussões. Essa fase explorou a criatividade e as concepções iniciais, funcionando como um ponto de partida para o processo de modelagem.

Depois ocorreu a fase de expressão, os estudantes representam os modelos elaborados de forma concreta, utilizando linguagens específicas, como desenhos, diagramas, representações matemáticas ou construções físicas. Essa etapa permitiu a visualização e a comunicação das ideias que fundamentam os modelos.

O projeto também utilizou o ensino e aprendizagem de conteúdos de química, por meio da abordagem STEAM, com impressora 3D, que propõe o ensino de ciências, matemática e tecnologias, artes e matemática de forma interdisciplinar.

Sobre o Programa Ciência na Escola

O Programa Ciência na Escola é uma ação criada pela Fapeam direcionada à participação de professores e estudantes de escolas públicas estaduais do Amazonas e municipais de Manaus ou Tefé em projetos de pesquisa científica e de inovação tecnológica a serem desenvolvidos na educação básica e suas modalidades.

*Com informações da Fapeam

Banzeiro da Esperança na COP30: o que é a ‘Amazônia Urbana’?

0

Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O processo de colonização europeia na Amazônia, iniciado por volta do século XIX, trouxe mudanças significativas para o modo de vida dos povos originários e comunidades tradicionais da região. E uma dessas transformações foi o avanço da urbanização, motivada pelas cidades desenvolvidas do “Velho Continente”, que impactou profundamente nas questões estruturantes, sociais e econômicas da região amazônica.

É justamente essa reparação histórica que defende a Amazônia Urbana, conceito que visa resgatar e reconhecer a existência das relações humanas entre pequenos grupos antes da chegada dos europeus. O termo foi um dos assuntos discutidos durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Banzeiro da Esperança na COP30: o que é a 'Amazônia Urbana'?
Comunidades indígenas pré-coloniais já praticavam formas de urbanismo como, por exemplo, as relações humanas. Foto: Costa Rabelo

A professora de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Ana Cláudia Duarte, explica que o entendimento da aglomeração, trazido pela urbanização europeia, acabou criando a dicotomia entre urbano e rural, algo que não existia entre os povos da região amazônica, que já se relacionavam de maneira interligada entres redes comunitárias.

“Sempre houve um nível de urbanização, no sentido de aglomeração, entre as pessoas que viviam na floresta. É o que entendemos hoje como aldeias e vilas, as pessoas viviam na floresta e trabalhavam no entorno, pescando o peixe no rio, manejando a floresta, e cinco quilômetros depois tinha uma outra localidade. Ou seja, nós já tínhamos uma cidade-floresta, então não faz sentido falar em urbano e rural para esses assentamentos humanos, que sempre estiveram aglomerados”, explicou a professora, que atua em defesa da ‘Amazônia Urbana’.

Leia também: Série de ficção retrata Amazônia urbana contemporânea em comédia dramática

Desvalorização da Amazônia

A docente reforça que a implantação das cidades por parte dos europeus também contribuiu para o apagamento dos saberes tradicionais dos povos originários. Segundo Ana, tal movimentação tinha o intuito de desvalorizar as práticas, costumes e produtos oriundos da Amazônia.

“Durante o decorrer da colonização, tudo que era ligado à Amazônia era visto como ruim. A região era vista como uma página em branco, aqui tinha minérios, potencial hidrelétrico, mas para eles, quem vivia aqui não era humanos, não eram dignos desse status. Então, houve uma grande campanha de desvalorização muito grande no século 20, e aquele saber fazer que era nativo foi deixado de lado”, pontuou Ana.

Cidade de Altamira, no Pará. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira
Cidade de Altamira, no Pará. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira

Leia também: Saiba mais sobre o surgimento de cidades ao redor da Amazônia

Para a professora, o debate da Amazônia urbana é fundamental para eliminar estereótipos e valorizar que os povos indígenas e comunidades tradicionais pré-coloniais já praticavam formas de urbanismo.

“A discussão ambiental sobre a importância da Amazônia para o mundo precisa iluminar esse processo histórico para que a gente possa fazer correções e revalorizar esses grupos que sempre souberam trabalhar com a floresta. Precisamos reverter isso, porque infelizmente esse processo está indo para as cidades. Por exemplo, hoje tem pessoas que não querem um quintal com vegetação, não querem uma árvore na frente de casa e porque preferem cimentar, isso veio da colonização e acabou se espalhando”, explicou.

Especial COP30

A entrevista da professora Ana Cláudia Duarte faz parte de uma sequência especial dedicada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – Conferência das Partes (COP30) do programa ‘Bate-papo na CBN’, da rádio CBN Amazônia Belém (102,3 FM ).

Com o olhar de quem vive na região, o programa reuniu informações e entrevistas sobre toda a movimentação da 30ª edição do encontro mundial realizado em Belém (PA), realizado entre os dias 10 e 22 de novembro.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Professora Ana Cláudia Duarte, no programa especial Bate Papo na CBN, na COP30. Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia

Outra convidada do programa foi Marcela Vecchione Gonçalves, professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Universidade Federal do Amazonas (UFPA), que comentou sobre os impactos dos debates sobre as mudanças climáticas da conferência para os povos originários da Amazônia.

Para a convidada, as discussões acerca dos debates climáticos da COP30 já são um grande avanço para a execução das soluções diante da crise climática.

Marcela Vecchione Gonçalves, professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da UFPA. Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia

“Essas decisões já impactam nas nossas vidas, principalmente para os mais vulneráveis, pois o que vemos aqui é uma conexão muito forte e planejada para o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável da agenda 2030 da ONU”, explicou Marcela.

Com oito episódios, os programas da rádio, apresentados pela jornalista Brenda Freitas, também ganharam versões especiais no canal Amazon Sat e no Portal Amazônia.

Você pode assistir as entrevistas completas das especialistas no oitavo episódio da edição especial do programa:

Veja outras matérias da série:

Banzeiro da Esperança

A iniciativa Banzeiro da Esperança é uma parceria entre Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Rede Amazônica (FRAM) e Virada Sustentável, com patrocínio do Banco da Amazônia (BASA). Esta edição do Banzeiro da Esperança é uma jornada de conexão, troca de saberes e transformação com foco na COP30.

Projeto inovador busca estabelecer o cultivo sustentável do pau-rosa na Amazônia

0

Projeto busca estabelecer o cultivo sustentável do pau-rosa na Amazônia. Foto: Maria José Tupinambá

Embrapa Amazônia Ocidental conduz uma pesquisa inovadora para superar entraves e impulsionar a recuperação e o cultivo comercial do pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore nativa da Amazônia historicamente explorada de forma predatória. Valorizada por seu óleo essencial rico em linalol — composto muito usado nas indústrias de cosméticos e perfumaria fina — a espécie teve sua produção drasticamente reduzida, de 500 toneladas por ano na década de 1970 para apenas 1.480 quilos em 2021.

Saiba mais: Pau-rosa: o fixador de perfume da floresta amazônica

O projeto tem como foco a seleção de matrizes de alta qualidade e o desenvolvimento e validação de protocolos de clonagem por estaquia, definição de práticas agronômicas para redução de perdas no plantio e maior uniformidade nos cultivos. Será estabelecida também uma coleção de trabalho, com materiais genéticos de diversas procedências, de forma a oferecer uma ampla base genética para apoiar as atividades de seleção e melhoramento da espécie.

cultivo sustentável do pau-rosa
O pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental Edson Barcelos, líder da iniciativa de cultivo de pau-rosa. Foto: Edson Barcelos

A pesquisa parte de uma população inicial de 80 árvores-matrizes localizadas na propriedade da empresa parceira Litiara/Agroflora, em Rio Preto da Eva (AM). Entre essas, foram escolhidas, inicialmente, as 10 com maior vigor e teor de óleo na biomassa superior a 1,5%, reproduzidas por sementes. Em novembro de 2025, foi iniciada a retirada dos galhos dessas plantas para a produção dos clones, por enraizamento de miniestacas (processo que usa pequenos pedaços de plantas (miniestacas) para que criem raízes e se desenvolvam em novas mudas idênticas à planta mãe), como informa o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental Edson Barcelos, líder da iniciativa.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A reprodução do pau-rosa já foi estudada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), porém ainda não foi aplicada em escala comercial. A meta da Embrapa é aprimorar o método de enraizamento para viabilizar a produção em larga escala de mudas clonadas, como já ocorre com culturas consolidadas como café, eucalipto e erva-mate.

A proposta é estabelecer um modelo completo de cultivo, que abranja desde a seleção genética até o manejo no campo, fortalecendo a cadeia produtiva regional. Isso inclui a escolha das melhores matrizes (com alto desempenho), clonagem eficiente para geração de mudas em grande quantidade e implantação com técnicas que garantam uniformidade nos plantios.

Ainda serão avaliados diversos parâmetros agronômicos para consolidar um sistema de produção robusto e sustentável, tais como: época ideal e altura da poda, espaçamento entre plantas, tipos e doses de adubação e estratégias para controle de pragas e doenças. “Para plantar cinco hectares, são necessárias cinco mil mudas. Mas não há sementes suficientes e, quando há, o material genético é muito heterogêneo. As plantas crescem de forma desigual e o teor de óleo varia drasticamente”, explica Barcelos.

A essência do pau-rosa — seu óleo essencial — é valorizada principalmente por ser uma fonte natural de linalol, composto químico que representa mais de 80% do óleo e possui diversas aplicações comerciais e potenciais. A pesquisa da Embrapa tem como foco a produção sustentável voltada para esses usos, extraindo o óleo de folhas e galhos, e mantendo a árvore viva.

cultivo sustentável do pau-rosa
O projeto de pau-rosa tem como foco a seleção de matrizes de alta qualidade. Foto: Edson Barcelos

Durante décadas, o pau-rosa foi explorado sem critérios técnicos: as árvores eram cortadas rente ao solo para extração do óleo, sem replantio ou manejo adequado. Após sua inclusão na lista de espécies ameaçadas de extinção, essa prática foi proibida. No entanto, o Brasil ainda não desenvolveu tecnologia suficiente para o cultivo comercial da espécie, cuja área plantada hoje não ultrapassa 50 hectares, e está concentrada nos municípios amazonenses de Maués, Novo Aripuanã e Itacoatiara.

Um dos principais obstáculos é a escassez de mudas de qualidade. Plantios realizados a partir de sementes apresentam alta taxa de mortalidade — entre 70% e 90% — além de grande variabilidade genética, o que compromete a uniformidade das plantas e o teor de óleo, que pode variar de 0,5% a 2,0%. Soma-se a isso a limitada experiência com sistemas de plantio e manejo adequados.

Infraestrutura e próximos passos

Com apoio de uma emenda parlamentar no valor de R$ 250 mil, foram construídas estufas, adquiridos vasos e equipamentos para um laboratório de extração de óleo. A casa de vegetação já está em funcionamento, e nos próximos meses, começarão os testes de enraizamento com diferentes substratos — como terriço, fibra de coco e vermiculita (mineral que se expande com o calor, transformando-se em um material leve e com excelente capacidade de absorver água e reter nutriente)  e hormônios vegetais.

Sistema de produção integrado

O projeto também investiga o uso da banana como cultura de sombreamento nos primeiros anos do pau-rosa, oferecendo sombra ideal e retorno econômico para ajudar a custear o plantio. A pesquisa busca definir o melhor espaçamento, época e altura de poda, adubação e controle de pragas, com o objetivo de validar um sistema de produção eficiente e sustentável. “Vamos criar um sistema de produção validado”, acrescenta o pesquisador.

Agricultura familiar: conservação e renda

Pau-Rosa na sombra da bananeira. Foto: Edson Barcelos

Paralelamente, agricultores familiares da zona rural de Manaus vêm testando o cultivo do pau-rosa como alternativa à extração em florestas nativas. Em 2012, agricultores familiares dos assentamentos no ramal ZF 4 e a Embrapa iniciaram o plantio de 230 mudas em áreas de roçado de mandioca e capoeira. As mudas foram consorciadas com frutíferas perenes e, em 2020, as primeiras florações foram observadas.

Leia também: ‘Queridinho’ dos perfumes: produção do óleo essencial de pau-rosa é foco de estudo na Amazônia

Apesar da taxa de mortalidade de 47%, atribuída a pragas, sombreamento e estresse hídrico, as plantas consorciadas apresentaram sobrevivência 50% superior em comparação às cultivadas em capoeira e 60% menos mortalidade. A poda das plantas sombreadoras foi recomendada para estimular a biomassa e a reprodução, visando a coleta de sementes e a extração de óleo em agroindústrias familiares.

Desafios e perspectivas

Além da escassez de mudas de qualidade e a alta mortalidade de plantios, outro entrave da cultura é a burocracia excessiva na comercialização do óleo essencial de pau-rosa. Durante o Simpósio de Óleos Essenciais realizado em Manaus, em outubro de 2025, especialistas e empresários propuseram a “Carta do Pau-Rosa”, iniciativa que busca sensibilizar autoridades a destravar processos que dificultam o avanço da cadeia produtiva. As muitas exigências estão afastando os compradores que preferem substituir o pau-rosa por outros óleos.

Óleos essenciais extraídos do pau-rosa. Foto: Maria José Tupinambá

Com a consolidação do sistema de produção, a expectativa é fortalecer a cadeia produtiva regional, promover a conservação da espécie e gerar novas oportunidades econômicas para comunidades amazônicas e empreendedors.

“Estamos construindo um modelo que alia ciência, conservação e desenvolvimento regional. O pau-rosa pode voltar a ser símbolo de riqueza — desta vez, com sustentabilidade”, conclui Barcelos.

*Com informação da Agência Embrapa de Notícias

Comunidades ribeirinhas de Rondônia recebem primeiro núcleo comunitário da Defesa Civil

0

Comunidades ribeirinhas recebem núcleo comunitário da Defesa Civil. Foto: José Carlos

Quem vive às margens do rio Madeira aprende cedo que a vida muda com as águas. Elizete Mota, moradora da comunidade Bom Será, em Rondônia, lembra que a seca não é apenas um período do ano, é um tempo de aperto no coração. Ela conta que, quando o rio começa a baixar, a água fica escassa, os peixes desaparecem e a comunidade se vê obrigada a mudar a rotina para conseguir o básico. Já na cheia, o medo vem com a força da correnteza, que pode subir de um dia para o outro e tomar casas, plantações e principalmente histórias.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

“A gente fica sempre com o coração apertado. Eu sou moradora da comunidade há 20 anos e nossa maior dificuldade é no inverno, porque a gente perde as plantações, perde nossos animais e tudo que construímos com suor do nosso trabalho. Mesmo sabendo que não podemos controlar a força da natureza, esse é um local que escolhemos para viver”, disse a moradora.

Comunidades ribeirinhas de Rondônia recebem primeiro núcleo comunitário da Defesa Civil
Comunidades ribeirinhas recebem núcleo comunitário da Defesa Civil. Foto: José Carlos

A realidade dos moradores de comunidades que convivem com a dureza da seca e o temor da cheia do rio Madeira começa a ganhar um novo horizonte com o apoio da Prefeitura de Porto Velho, por meio da Superintendência Municipal de Defesa Civil (SMDC), com a criação do Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (Nupdec). A iniciativa representa não apenas um reforço na segurança, mas a sensação de que, finalmente, não enfrentarão esses desafios sozinhos.

Leia também: Ciclos da água têm impacto direto na segurança alimentar de comunidades ribeirinhas da Amazônia

“Essa é uma iniciativa inédita em Porto Velho. Estamos montando a primeira equipe do Nupdec aqui no médio madeira. Por exemplo se acontecer alguma situação de perigo, esses voluntários serão nossos olhos nessas comunidades. Ou seja, a partir de agora estão mais perto da Defesa Civil e ajudando nosso trabalho”, disse o superintendente da SMDC, Marcos Berti.

Capacitação

Moradores voluntários das comunidades ribeirinhas participaram de uma capacitação na Escola Municipal Professora Maria Angélica Queiroz, na comunidade Nova Aliança, para integrar o núcleo. Durante o treinamento, eles receberam orientações sobre prevenção de desastres, primeiros atendimentos, percepção de risco, papel da comunidade, primeiros socorros, prevenção de queimadas e procedimentos de segurança em situações de emergência.

Marcos Berti disse que se acontecer alguma situação de perigo, esses voluntários serão olhos da Defesa Civil Minicipal nessas comunidades ribeirinhas. Foto: José Carlos

Participaram representantes de diversas localidades, entre elas, Brasileira, Ramal 45, Caldeirita e Aliança. A formação fortaleceu o vínculo entre a Defesa Civil e a população, preparando os voluntários para atuar como pontos de apoio e informação dentro de suas localidades, capacitando voluntários para identificar riscos, atuar em situações de emergência e disseminar informações de segurança.

Leia também: Pesquisa investiga fatores responsáveis pela mudança nos hábitos alimentares em comunidades ribeirinhas

Multiplicadores de informações

Para muitos moradores, o curso oferecido pela Defesa Civil proporcionou algo totalmente novo: pela primeira vez, tiveram a oportunidade de aprender de forma prática como agir em situações de risco e organizar a própria comunidade.

“Eu fiquei surpresa em saber, porque nunca tinha acontecido isso aqui pra gente e isso é muito satisfatório. Eu sei o que minha comunidade realmente precisa e agora posso passar todas as informações para a Defesa Civil”, disse Simone Alves moradora da comunidade de Brasileira.

Comunidades ribeirinhas recebem núcleo comunitário da Defesa Civil. Foto: José Carlos

Após a formação, os voluntários atuarão como multiplicadores de informações, auxiliando tanto na prevenção quanto no atendimento inicial em situações de emergência. Para a voluntária Elkes Monteiro, que vive na comunidade Vila do Jacú, a formação oferecida pela Defesa Civil foi uma experiência inédita e transformadora.

“Acho que vai melhorar muito, porque vamos ter esse apoio e sabemos que podemos contar com a defesa civil. Antigamente era uma comunidade ajudando a outra e a agora a partir da gestão do prefeito Léo Moraes estamos tendo esse apoio”, finaliza a moradora.

Comunidades ribeirinhas recebem núcleo comunitário da Defesa Civil. Foto: José Carlos

Com a criação do Nupdec, o município de Porto Velho dá um passo importante para tornar as comunidades mais preparadas, seguras e organizadas, reforçando o compromisso com a proteção e a defesa civil. A expectativa é que a capacitação também aconteça em outras localidades do alto e baixo madeira. Os voluntários receberão certificados e coletes com identificação da Defesa Civil Municipal.

*Com informação da Secretaria Municipal de Comunicação de Porto Velho

Lista Verde: Reserva do Rio Iratapuru no Amapá conquista certificação inédita de conservação ambiental

0

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru, no Sul do Amapá, foi incluída na Lista Verde da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Foto:

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru, no Sul do Amapá, foi incluída na Lista Verde da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). O selo reconhece a proteção da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais em uma área de mais de 800 mil hectares.

É a primeira reserva estadual do Brasil a receber a certificação. O processo foi coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente (Sema), com apoio de comunidades e organizações sociais. A área abrange os municípios de Laranjal do Jari, Mazagão e Pedra Branca do Amapari.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Marcos Almeida, diretor de Desenvolvimento Ambiental da Sema, destaca a certificação como um ‘Oscar’ da gestão ambiental. A avaliação durou três anos, com auditorias e análise do plano de gestão da unidade

“É uma analogia realmente a um Oscar ambiental de gestão, onde é avaliado desde o seu plano de gestão, seu plano de gestor, o plano de aplicação do fundo da biodiversidade, que também ele direciona e dá recursos anuais para as populações daquela região”, disse Marcos.

O manejo sustentável foi um dos principais critérios avaliados. A região se destaca pela produção da castanha-do-Brasil, que valoriza saberes tradicionais e fortalece a sociobiodiversidade.

A Sema também fez consulta pública com as comunidades para avaliar a relação de gestão com o Estado.

“Temos apoiado as comunidades para que mantenham seu modo de vida e o extrativismo da castanha, conhecida mundialmente. É uma participação social real, em que o Estado faz a gestão, mas as comunidades também atuam na proteção, no monitoramento e na preservação da cultura e dos saberes locais”, relembrou o diretor.

Para os extrativistas, a certificação confirma que estão no caminho certo. Márcio André Furtado, representante da comunidade, disse que o selo deve orientar a gestão da reserva nos próximos anos.

Expedição coleta plantas arbóreas na Reserva do Rio Iratapuru, em Laranjal do Jari, no Amapá. Foto: Israel Cardoso/GEA
Expedição coleta plantas arbóreas na Reserva do Rio Iratapuru, em Laranjal do Jari, no Amapá. Foto: Israel Cardoso/GEA

“Ainda temos muito a aprender sobre como a certificação vai ajudar as comunidades. Mas já temos certeza de que estamos no caminho da preservação ambiental junto com o desenvolvimento socioeconômico. O plano de gestão para os próximos anos deve orientar e melhorar a administração da unidade”, disse Márcio.

A produção de castanha é a base da economia local. A coleta é manual e sustentável, sem derrubar árvores. Além da venda da castanha, há produção de óleo usado em alimentos e cosméticos.

Os moradores atuam por meio da Cooperativa Comaru, criada em 1992 para dar autonomia aos castanheiros e evitar a exploração por atravessadores.

Leia também: Amapá tem 21 unidades de conservação, que correspondem a cerca de 50% da área do estado; entenda diferença entre elas

RDS do Rio Iratapuru

A reserva foi criada em 1997 e é formada por floresta tropical úmida, com árvores de grande porte e alto valor econômico.

Recentemente, pesquisadores localizaram árvores gigantes com mais de 70 metros de altura na reserva. As espécies são conhecidas como angelim-vermelho e equivalem a um prédio de 24 andares.

Em 2021, a reserva também foi palco da descoberta da maior castanheira já registrada no Brasil, com 66 metros de altura.

Entenda o que é a Lista Verde

A Lista Verde da UICN é uma certificação internacional que reconhece áreas protegidas que funcionam de forma eficaz, garantindo conservação da natureza e benefícios sociais.

A expectativa é que a certificação atraia novos investimentos para o Amapá. O selo não é definitivo e depende da continuidade das ações de conservação. Técnicos da UICN seguirão monitorando a área.

Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Biomas amazônicos: fornecedores de carnes de animais silvestres, ricas em valor nutricional, como fonte de alimentos dos povos da floresta

0

Foto: André Antunes/Rede Fauna

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Informes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) abordam uma questão que jamais imaginaria fazer parte da programação de trabalhos de pesquisas de renomados cientistas vinculados à instituição. Morrendo e aprendendo, ou, como em Hamlet, “a todos ofereçam o ouvido, a poucos a língua”, crucial na dieta e tradições, “a carne de animais silvestres representa uma rica diversidade biológica e cultural dos sistemas alimentares tradicionais de povos indígenas, tradicionais e de pequenos agricultores do interior de nove países da Amazônia”.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Estudos com participação de pesquisadores do Inpa divulgados na revista científica Nature (uma das publicações científicas mais importantes e citadas do mundo) revelam que a preservação da floresta garante acesso à carne de caça ajustada aos modos de vida dos povos amazônicos. Para sua maior legitimação, o trabalho conta com a coparticipação de pesquisadores indígenas de dez povos amazônicos: Surui, Paumari, Katukina, Baniwa, Waurá, Apurinã, Tikuna, Kaxinawá, Kuikuro e Kaixana, além de extrativistas.

Impactante e inédita, a pesquisa procedeu a um levantamento sobre a caça de animais silvestres na Amazônia, a maior e mais diversa região de floresta tropical do planeta, avaliando seu valor nutricional como fonte de alimento. Mostrou surpreendente diversidade de animais consumidos, envolvendo 490 espécies, com dominância de 20 grupos que respondem a 72% dos indivíduos caçados, com destaque para queixada, anta e paca – essa última, a espécie mais caçada na Amazônia.

Na fase de levantamentos de campo foram coletados e analisados dados de quase 60 anos – entre 1965 e 2024 – em 625 localidades. Em conclusão, estimou-se “que a carne de tetrápodes selvagens (mamíferos, aves, répteis e anfíbios) produzida é suficiente para suprir quase metade das necessidades diárias de proteína alimentar e ferro dos 11 milhões de habitantes das áreas rurais da Amazônia, além de uma parcela significativa de vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes fundamentais para a saúde humana”.

pirarucu da Amazônia
Pirarucu. Foto: Siglia Souza/Embrapa

As análises prermitem inferir que uma “riqueza invisível” sustenta a segurança nutricional dos povos da Amazônia, bioma com 8 milhões de quilômetros quadrados (km2). Por ano, ressalta, são extraídas da Amazônia mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal (indivíduo inteiro), o que corresponde a 0,37 milhão de toneladas de carne silvestre efetivamente comestível. Em comparação com os preços atuais da carne bovina, a produção teria um valor econômico aproximado de US$ 2,2 bilhões ao ano”. Valiosas conclusões podem-se extrair destas pesquisas. A primeira e mais contundente: por que não desenvolver localmente sistemas agropecuários produtivos de criação para abate dessas extraordinárias fontes de proteínas animais?

No início do século XIX, convém salientar, quando a pecuária ainda não chegara à região, carnes de animais silvestres, além de pescados, eram fontes primárias de alimentos das populações locais. Resquício daqueles tempos, ainda se consome em zonas rurais peixe boi, jacaré, quelônios (tracajá, tartaruga, iaçá), caças ou pescados. A disseminação de fazendas de criação viriam, além de contribuir para a preservação ambiental, atender consideráveis segmentos de mercado, hoje dependentes exclusivamente da produção agropecuária, avícolas e pescados.

O estado do Tocantins cria com muito sucesso pirarucu em açudes e o Mato Grosso, jacarés, pelo valor de suas carnes e couro. O Amazonas, adotando políticas públicas ajustadas às idiossincrasias do bioma tem tudo para desenvolver este setor, inclusive gerando excedentes exportáveis. A China, saliente-se, já é o maior produtor mundial de tambaqui. Uma questão de governança do sistema de pesquisa, da assistência técnica e do crédito especializado. Com a palavra o próprio Inpa, Embrapa, CBA, a Universidade, os governos estaduais.

Leia também: Embrapa divulga estudo sobre o papel fundamental dos produtores rurais na preservação ambiental

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Zogue-zogue: espécie de macaco que habita o norte do Mato Grosso está ameaçada de extinção

0

Foto: Miguel Rangel Júnior/ Wikimedia Commons

Em uma propriedade rural da Gleba Mercedes, no município de Sinop (MT), um agricultor se surpreendeu ao encontrar um macaco no telhado de sua casa. O episódio, ocorrido durante a seca, expôs o cenário que envolve os zogue-zogues que vivem na região: a busca por sobrevivência diante de um território cada vez mais restrito.

Cinco indivíduos circulam no fragmento florestal da fazenda, isolados entre áreas desmatadas e o lago formado pelo represamento de uma usina hidrelétrica nas proximidades.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A espécie, identificada cientificamente como Plecturocebus grovesi, existe apenas no norte do Mato Grosso e foi inserida entre os 25 primatas mais ameaçados do planeta.

Com peso inferior ao de um gato doméstico e pelagem marcada por tons alaranjados na barba, o zogue-zogue perdeu mais de 40% de seu habitat original. Estudos apontam que, caso o ritmo de degradação permaneça, a redução pode alcançar 80% em poucas décadas.

Macacos zogue-zogue vivem isolados em pequenos fragmentos de floresta no norte do Mato Grosso e a espécie enfrenta perda acelerada de habitat. Entre a pressão do desmatamento e o avanço de um grande reservatório hidrelétrico, grupos de primatas permanecem encurralados.

Moradores e organizações ambientais iniciaram um projeto de reflorestamento em áreas degradadas próximas aos fragmentos onde os primatas vivem. A ação busca criar corredores naturais que permitam a migração entre diferentes trechos de mata, ampliando o espaço disponível e reduzindo o isolamento dos grupos.

Dados sobre o zogue-zogue

O primatólogo Gustavo Canale, professor associado da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), é um dos 20 autores do artigo que apresentou o zogue-zogue para o mundo científico. Ele conta que, no momento, parte dos esforços é para confirmar a distribuição da espécie e qual o seu limite ao sul.

“Nós já confirmamos a espécie aqui no município de Sinop e tem algumas populações que a gente sabe que ocorrem ali mais ou menos na região de Lucas do Rio Verde. E aí vamos descer mais na transição, entrando verdadeiramente no Cerrado do estado, para ver se o limite sul dessa espécie, como a gente imagina, é essa transição Amazônia e Cerrado. Então onde ocorre Cerrado propriamente dito, a espécie não ocorreria”, explica no artigo.

A distribuição do zogue-zogue está delimitada por barreiras naturais formadas pelos rios Juruena, Teles Pires e Arinos. Essas fronteiras, aliadas ao avanço da agropecuária, ao fogo e à fragmentação florestal, resultam em manchas isoladas de habitat. Em municípios como Alta Floresta, dados ambientais mostram forte expansão do uso agropecuário e retração equivalente da cobertura florestal ao longo das últimas décadas.

Pesquisadores relatam que a perda de vegetação é acelerada no norte mato-grossense, área inserida no chamado “arco do desmatamento”. Fragmentos pequenos tendem a não sustentar populações viáveis no longo prazo, e incêndios florestais — comuns na região — aumentam a vulnerabilidade dos primatas. Barreiras como hidrelétricas e a abertura de estradas também dificultam a circulação dos grupos, ampliando o isolamento genético e espacial.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a nova fronteira do desmatamento?

A barreira formada pelo reservatório

Na Gleba Mercedes, além do desmatamento, a família de cinco zogue-zogues vive limitada pela elevação do nível da água causada pela barragem de uma usina hidrelétrica. Moradores relatam que a formação do lago transformou um antigo riacho em uma área alagada de cerca de 300 metros, que os primatas não conseguem atravessar. A alteração na paisagem reduziu ainda mais o habitat acessível e separou grupos que antes compartilhavam um mesmo conjunto contínuo de floresta.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Mato Grosso fez, em 2023, imagens desses animais na Gleba Mercedes. As imagens ajudam a organização a adquirir recursos para os moradores da região reflorestarem a região e assim manter a espécie desses macacos protegida.

Pesquisadores e organizações locais seguem mobilizados para reconectar áreas fragmentadas. Projetos de reflorestamento comunitário, plantio de espécies nativas e monitoramento de grupos isolados dos macacos avançam como alternativas para ampliar o habitat do zogue-zogue e reduzir o risco de desaparecimento em longo prazo no Mato Grosso.

Mesmo com duas grandes porções de floresta ainda existentes na região, o isolamento entre fragmentos menores é apontado por especialistas como um desafio crítico para a continuidade da espécie. Por isso, a criação de corredores florestais e esse acompanhamento das populações se tornaram ações essenciais para garantir a sobrevivência do primata.

Justiça Federal do Amapá mantém autorização para testes de perfuração de petróleo na Foz do Amazonas

0

Foz do Amazonas. Imagem: Reprodução/Google Maps

A Justiça Federal do Amapá rejeitou a ação movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Petrobras. A decisão, divulgada na sexta-feira (12), manteve a autorização para a Avaliação Pré-Operacional (APO) no bloco FZA-M-59, localizado na Bacia da Foz do Amazonas.

Leia também: Licença para pesquisa da Petrobras na Bacia da Foz do Amazonas é aprovada pelo Ibama

O juiz Anselmo Gonçalves da Silva, da 1ª Vara Federal Cível, considerou improcedentes os pedidos do MPF e reconheceu a legalidade do despacho do Ibama que permitiu os testes. A sentença também validou os atos seguintes, como a realização da APO e a emissão da licença para perfuração.

Segundo o magistrado, decisões técnicas devem ser avaliadas pelos órgãos ambientais especializados, sem substituição pelo Judiciário. Ele destacou a importância de garantir segurança jurídica nos processos e respeitar a separação dos poderes.

Na análise do mérito, o juiz afirmou que o despacho do Ibama tem validade técnica e jurídica. Explicou que a APO é uma etapa experimental, usada para verificar, em ambiente controlado, a eficácia dos planos ambientais antes da perfuração.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O magistrado considerou que havia justificativas técnicas suficientes para autorizar a APO, incluindo medidas corretivas apresentadas pela Petrobras. Ressaltou ainda que divergências internas no Ibama não configuram irregularidade, desde que a decisão final esteja fundamentada.

Sobre a ausência da Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), o juiz afirmou que o instrumento não é obrigatório para este tipo de licenciamento, conforme precedentes do Supremo Tribunal Federal. Também considerou correta a delimitação da área de influência, feita com base em impactos reais, sem incluir regiões que só seriam atingidas em caso de acidentes de baixa probabilidade.

Sonda de perfuração NS-42, no Amapá. Foto: Divulgação/Foresea
Sonda de perfuração NS-42, no Amapá. Foto: Divulgação/Foresea

Consulta prévia a povos indígenas no Amapá

A sentença reconheceu a importância da consulta prévia aos povos indígenas do Amapá, prevista na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e na Constituição. Porém, o juiz entendeu que, na fase atual do licenciamento, não havia impacto direto sobre comunidades indígenas ou tradicionais e, por isso, a consulta não era obrigatória.

De acordo com a decisão, a consulta só deve ocorrer quando houver medidas capazes de afetar diretamente essas comunidades. Como a APO é apenas uma simulação pré-operacional, anterior à perfuração, não havia essa exigência.

O magistrado também ressaltou que o processo já contou com audiências públicas e reuniões em municípios do Amapá, com participação de representantes indígenas. Para ele, a consulta será obrigatória apenas em fases futuras, quando houver impactos concretos sobre territórios ou modos de vida. Caso isso não ocorra, a questão poderá ser reavaliada judicialmente.

*Por Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP