“Vocês são a luz em um túnel de escuridão”, afirmou o cientista climático Johan Rockström aos delegados da 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada esta semana em Santa Marta, na Colômbia. Após anos de cúpulas climáticas das Organizações das Nações Unidas (ONU) que raramente sequer mencionavam “combustíveis fósseis”, 57 países — responsáveis por um terço da economia mundial — se reuniram na cidade para discutir não mais se, mas como abandonar o principal motor das mudanças climáticas.
Esse desenvolvimento potencialmente histórico despertou forte interesse da mídia: 146 jornalistas, de 61 veículos e 28 países, participaram presencialmente, enquanto muitos outros acompanharam a transmissão ao vivo. A conferência também gerou ampla cobertura ao redor do mundo, segundo os governos da Colômbia e dos Países Baixos, coorganizadores do evento.
O encontro ganhou impulso inesperado quando o diretor da Agência Internacional de Energia afirmou, em entrevista ao The Guardian, que a guerra no Irã rompeu de forma irreparável os mercados de combustíveis fósseis. As interrupções no fornecimento de petróleo e gás, somadas aos picos de preços, devem levar os países a se afastarem definitivamente dessas fontes e a migrar para energias renováveis mais seguras, disse Fatih Birol. “O dano está feito”, acrescentou o diretor, cuja agência foi descrita pelo The New York Times como “enormemente influente” nos planos de longo prazo de empresas de energia e investidores ao redor do mundo.
Irene Vélez Torres, ministra do Meio Ambiente da Colômbia, elogiou os comentários de Birol. “Parece que muitos de nós estamos percebendo, ao mesmo tempo, que os combustíveis fósseis não podem garantir segurança energética, porque estão sujeitos à escassez — e a escassez pode ser manipulada”, afirmou, em entrevista ao Covering Climate Now.
A conferência ocorreu à margem do processo da ONU e, por isso, não teve como objetivo negociar um acordo legal, mas sim aprender com diferentes atores — incluindo empresas, povos indígenas e outros setores da sociedade civil — sobre as melhores formas de desvincular economias e sociedades dos combustíveis fósseis. Os roteiros de cada país serão voluntários e adaptados às suas circunstâncias.
“Esta conferência não é sobre documentos”, disse Rachel Kyte, representante especial do Reino Unido para o clima. “Trata-se de encontrar parceiros e aprender com eles — o que está funcionando e o que não está”.
Por exemplo, a França apresentou o que chamou de primeiro roteiro nacional de um país desenvolvido para eliminar os combustíveis fósseis. O plano prevê retirar o carvão da matriz elétrica até 2027, encerrar o consumo de petróleo até 2045 e o de gás até 2050. A gigante chinesa de veículos elétricos BYD e a mineradora australiana Fortescue organizaram uma mesa-redonda do setor privado a bordo do que a empresa descreveu como o primeiro navio de carga do mundo movido integralmente sem combustíveis fósseis. A Fortescue instou empresas e governos a perseguirem emissões de “zero real”, em vez da meta de “zero líquido”, que recorre a compensações de carbono e permite a continuidade das emissões.
Questionada sobre os 80% a 89% das pessoas no mundo que desejam ações climáticas mais ambiciosas, Ana Toni, diplomata brasileira que atuou como diretora executiva da COP30, incentivou os cidadãos a agir “em nível nacional” e lembrou que “há eleições chegando, e as escolhas de consumo das pessoas também importam”.
As conclusões da conferência de Santa Marta têm como objetivo acelerar o progresso rumo à COP31, que ocorre em novembro. O impacto mais amplo, porém, pode vir do peso econômico da chamada “coalizão dos dispostos”. Reforçada pela adesão da Califórnia — estado americano que, sozinho, está entre as dez maiores economias do mundo —, essa coalizão passa a responder por cerca de 30% do consumo global de combustíveis fósseis. A retirada desse poder de compra de petróleo, gás e carvão nos próximos anos pode acelerar o abandono dessas fontes, como prevê Birol.
Santa Marta pode marcar um ponto de inflexão na agenda climática — e não faltam pautas para os jornalistas explorarem nos próximos meses. A retórica contundente adotada pelos governos no encontro será acompanhada por políticas concretas em seus países? Outros países e governos subnacionais se somarão a esse movimento? E como reagirão os grandes emissores que ficaram de fora — como Estados Unidos, China e outros países e empresas produtoras de combustíveis fósseis?
Uma conferência de acompanhamento está prevista para fevereiro de 2027, sob a liderança da nação insular de Tuvalu, no Pacífico, com copatrocínio da Irlanda. “Este não é o fim”, afirmou Vélez nos momentos finais do encontro. “É o começo de uma nova democracia climática global.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, em artigo de opinião escrito por Mark Hertsgaard
De quase 80 famílias acrianas entrevistadas, a maioria leva cães para caça e alimenta animais com carne crua das presas. Foto: Reprodução/Agência de Notícias do Acre
A saúde de moradores de comunidades tradicionais da Amazônia está ameaçada pela contaminação decorrente do consumo da carne da paca, animal comumente caçado na região do Acre e Pará. Segundo estudo da Universidade Federal do Acre, e publicado nesta sexta (8), na revista científica Acta Amazônica, hábitos de moradores locais, como oferecer vísceras cruas do animal aos cães de caça, têm potencializado um ciclo de transmissão doméstico de doença zoonótica causada pela equinococose policística ou hidatidose.
Esta infecção causada pela tênia de Echinococcus vogeli pode afetar os cães que comem o fígado contaminado da paca abatida, e passam, então, a eliminar os ovos do parasita no local. Com água e alimentos expostos ao ambiente, aumentam as chances de contaminação humana e da evolução para doença grave, com sintomas que vão de dores abdominais ao aumento do fígado.
A equipe que realizou o estudo já atua na região há 10 anos, mas analisou as amostras biológicas coletadas nos municípios acrianos de Sena Madureira e Rio Branco nos anos de 2022 e 2023, além da aplicação de questionários sobre as práticas de caça a 78 famílias de ribeirinhos, indígenas e coletores de borracha.
Foto: Reprodução/Grupo Agroflorestal da Fundação Universidade Federal de Sergipe
Cães usados na caça são afetados
Os resultados mostram que todos os núcleos familiares possuíam cães utilizados na caça, pesca e atividades extrativistas. Do total de 194 cães registrados, a maioria dos animais (161) acompanhava os donos em caças e 80% destes (155), comiam carne crua de animais caçados, especialmente a paca. Já em relação às análises biológicas, das 30 amostras coletadas, 37% tinham cistos e em todas elas ficou confirmada a contaminação pelo parasita E.vogelli.
Para o autor do artigo, Leandro de Souza, este levantamento reforça a evidência de circulação ativa do parasita na Amazônia Ocidental, especialmente na cidade de Sena Madureira e serve de alerta para a saúde pública e veterinária em relação à hidatidose.
Souza alerta ainda para a urgência de atividades educativas junto à comunidade e de políticas públicas em saúde. “Os dados indicam que esse risco é ampliado principalmente pela falta de conhecimento da população, já que muitos moradores alimentam seus cães com vísceras contaminadas de paca, permitindo que o parasito circule no ambiente doméstico e aumente a exposição das famílias”, diz Souza.
Perguntado sobre protocolos em saúde para as famílias contaminadas, o autor explicou que até o momento ainda não existem protocolos para diagnóstico da infecção.
“Na Região Norte, até o momento, ainda não existem protocolos implantados para diagnóstico, o que é preocupante por se tratar de uma área endêmica. No entanto, os protocolos utilizados em nosso estudo — incluindo métodos parasitológicos e moleculares para detecção do parasito a partir de cistos hidáticos — podem ser aplicados em amostras humanas por instituições como LACENs, universidades e centros de pesquisa”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Sistemas atmosféricos controlam chuvas e transporte de nutrientes. Foto: NASA
O que o avanço de massas de ar frio nos Estados Unidos tem a ver com adubos que seguem nos “rios voadores” vindos da África e ajudam a nutrir os solos da Amazônia brasileira? Artigo publicado na Geophysical Research Letters revela uma interconexão atmosférica entre essas regiões distantes.
Os cientistas descobriram que sistemas sinóticos – fenômenos meteorológicos de grande escala abrangendo áreas de milhares de quilômetros –, como ondas de frio nos EUA e anomalias de alta pressão no Atlântico Sul, modificam as chuvas intensas ao longo da faixa tropical do oceano Atlântico.
Sistemas atmosféricos controlam chuvas e transporte de nutrientes da África até a Amazônia. Foto: Paulo Brando
Essas alterações regulam, durante as estações úmidas, se a Amazônia receberá ar carregado de partículas vindas da África ou sem esses aerossóis. Os dias “limpos” (com menos partículas) foram precedidos de máximas de precipitação no oceano. Até então, não havia um claro entendimento da razão das flutuações e supunha-se que a influência vinha da mudança da direção dos ventos.
O “transporte” de poeira e aerossóis de fumaça com minerais entre a África e a América do Sul é um processo contínuo que afeta a atmosfera e os ciclos de nutrientes na Amazônia. Apesar da vegetação densa e da biodiversidade da floresta, com grande quantidade de matéria orgânica, a maior parte do solo da região é pobre em nutrientes por causa, principalmente, da intensa lixiviação – processo de “lavagem” e remoção desses elementos das camadas superficiais pela ação da água da chuva ou irrigação.
Fósforo é o elemento mais limitado, seguido por cálcio, potássio e magnésio. No entanto, a escassez desses minerais é, em parte, compensada pelo transporte transatlântico de aerossóis vindos da queima de biomassa no continente africano e até mesmo de poeira mineral do deserto do Saara.
“O resultado demonstra que temos uma interconexão, uma simbiose da vida no planeta. Alterações climáticas afetam esse padrão e causam uma ruptura que ainda não sabemos aonde vai dar nem as consequências para os ecossistemas no futuro”, explica o professor Luiz Augusto Toledo Machado, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck (Alemanha).
Autor correspondente da research letter (um formato de artigo científico mais conciso, focado e revisado por pares, destinado a comunicar descobertas originais de forma mais rápida), Machado destaca a relevância dessa “troca” de nutrientes, especialmente vindos do deserto do Saara.
Sistemas atmosféricos controlam chuvas e transporte de nutrientes da África até a Amazônia. Foto: NASA
“Ao contrário do que se possa imaginar, essa região é muito importante para a saúde do planeta. Sua poeira contém minerais cruciais não só para a fertilização da Amazônia como para a manutenção da vida aquática. Entre eles estão o ferro e o fósforo, fundamentais para a produtividade da floresta e para a vida nos oceanos”, explicou à Agência FAPESP.
Machado lembra uma pesquisa, publicada em 2022 na revista Nature e liderada por brasileiros, demonstrando que o crescimento da floresta amazônica pode ser limitado por baixos níveis de fósforo nos solos mesmo que a atmosfera seja rica em gás carbônico. Concentrações mais elevadas de CO2 fazem com que as plantas acelerem seu crescimento, sequestrando o carbono e mitigando impactos das mudanças climáticas.
Dois anos depois, mapas desenvolvidos com a ajuda de inteligência artificial confirmaram os baixos níveis de fósforo na região
Medições diárias dos sistemas
Para investigar os fatores que influenciam a variabilidade da “limpeza” atmosférica na Amazônia, os pesquisadores usaram medições diárias de carbono negro registradas pelo Observatório de Torre Alta da Amazônia (Atto, na sigla em inglês) combinadas com dados meteorológicos globais.
O Atto está instalado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã (AM) e sua torre tem 325 metros. Gerido em conjunto por cientistas do Brasil e da Alemanha, tem o objetivo de registrar continuamente dados meteorológicos, químicos e biológicos, como a concentração de gases de efeito estufa.
O carbono negro, usado como indicador do transporte de partículas a longa distância na estação chuvosa, é a fuligem formada na queima de combustíveis e de biomassa. São partículas microscópicas que absorvem luz solar, aquecem a atmosfera e podem ser transportadas por longas distâncias. Segundo Machado, cerca de 60% do carbono negro que chega à Amazônia na estação chuvosa é de origem africana.
Sistemas atmosféricos controlam chuvas e transporte de nutrientes da África até a Amazônia. Foto: Jeferson Vilhena
No estudo, os pesquisadores avaliaram concentrações médias diárias de carbono negro nos meses de janeiro e fevereiro – que correspondem ao início da estação chuvosa na região – entre 2015 e 2022. Detectaram que as concentrações apresentaram variação significativa, tendo alguns dias com níveis elevados por causa da influência africana e outros com condições excepcionalmente limpas.
Para caracterizar a variabilidade das chuvas, o grupo identificou os dias correspondentes às máximas e mínimas da precipitação média diária, classificados como “picos” e “vales”, respectivamente. Foram, então, gerados mapas correspondentes a condições úmidas (“limpas”) e secas (“poluídas”).
Os resultados revelaram que dias chuvosos na região tropical, que geralmente coincidem com condições de ar limpo sobre a Amazônia, estão associados a incursões de ar frio nos Estados Unidos. Esses eventos são caracterizados por sistemas de alta pressão que dominam o leste americano, enquanto no hemisfério Sul observou-se um aumento da pressão atmosférica sobre o Atlântico Centro-Sul.
Essa configuração sinótica promove uma convergência de ventos em baixos níveis mais forte sobre o Atlântico equatorial, o que intensifica o transporte de umidade para a Amazônia, levando a um aumento da precipitação e a uma limpeza atmosférica.
Já as partículas e os gases são transportados da África para a América do Sul principalmente acima da camada limite marinha (parte inferior da atmosfera em contato direto com o oceano) e, posteriormente, para a bacia Amazônica, auxiliados pela corrente de jato de baixos níveis da Amazônia.
Machado explica que mudanças nos jatos de baixo nível do Atlântico e da Amazônia podem alterar o transporte de partículas com impacto na resiliência do ecossistema. Por isso, uma nova fase do estudo envolve agora analisar esses jatos e compreender como eles podem se comportar nas próximas décadas.
O Amazônia Innovation Summit foi concebido para reunir os principais atores do ecossistema de inovação da Amazônia. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a Fundação Desembargador Paulo Feitoza (FPFtech), o Programa Prioritário de Formação de Recursos Humanos (PPFRH), a ExpoAmazônia Bio & TIC, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) lançaram nesta sexta-feira (8) o Amazônia Innovation Summit.
O programa nasce com o propósito de integrar iniciativas estratégicas de inovação na região, conectando indústria, tecnologia, educação, bioeconomia e desenvolvimento sustentável. O lançamento ocorreu na sede da Suframa, em Manaus (AM).
De acordo com o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, o evento representa um passo estratégico na consolidação da região como um polo de inovação comprometido com a sustentabilidade.
“Ao integrar indústria, tecnologia e conhecimento, criamos as bases para atrair investimentos, fortalecer o ecossistema regional e posicionar a Amazônia como protagonista global em soluções inovadoras. A participação da Suframa reafirma o compromisso da Autarquia em promover essa integração, articulando diferentes atores e iniciativas para impulsionar o desenvolvimento tecnológico e econômico da região, com geração de oportunidades e ampliação de investimentos”, destaca Montenegro.
Inovação na Amazônia
O Summit foi concebido para reunir os principais atores do ecossistema de inovação da região. A proposta é ampliar a visibilidade da região e criar um ambiente qualificado para troca de conhecimento, conexões estratégicas e desenvolvimento de soluções com impacto local e alcance global.
“Existe uma certa fragmentação e muitos eventos acabam sendo parecidos entre si. A ideia do Amazônia Innovation Summit é reunir, no mesmo período, vários eventos de inovação, inclusive no mesmo local, para ganhar atratividade nacional e internacional”, afirma Alexandre Amorim, Head de Inovação da FPFtech.
“A longo prazo, queremos consolidar essa marca como um guarda-chuva que agrega diferentes iniciativas e atrai visitantes de todo o país e também do exterior para conhecer as tecnologias desenvolvidas na Amazônia”, acrescenta.
Como iniciativa contínua, o evento deverá incorporar, ao longo dos anos, eventos e agendas temáticas alinhadas à inovação, à indústria sustentável, à formação de talentos e à bioeconomia. Em 2026, o programa integrará dois eventos de grande relevância: a ExpoAmazônia Bio & TIC e a Conferência Anprotec, fortalecendo a conexão entre tecnologia, negócios, pesquisa, empreendedorismo e sustentabilidade.
“A ExpoAmazônia Bio & TIC que nasceu com o propósito de fomentar os vetores econômicos da Bioeconomia e Tecnologia da informação e Comunicação, resolveu se juntar ao summit com o objetivo de colaborar com a integração dos ecossistemas, acreditando que a força do conjunto é sempre maior e melhor”, diz Vania Thaumaturgo, coordenadora da ExpoAmazônia Bio & TIC que possui como realizadores SEDECTI, SEMTEPI, IDESAM e FRAM além do Polo Digital de Manaus.
Para o diretor-executivo do PPFRH, Samy Assi, a integração entre instituições, empresas, startups, governo e academia é essencial para acelerar respostas aos desafios regionais e ampliar a capacidade da região de gerar inovação relevante para o mundo.
“O Amazônia Innovation Summit visa criar um ambiente onde empresas, governos, startups e instituições de ensino possam colaborar para o desenvolvimento de soluções que atendam aos desafios regionais, ao mesmo tempo em que contribuam para inovações tecnológicas de alcance global”, afirma Samy Assi, diretor-executivo do PPFRH.
Com essa articulação, o evento se apresenta como um encontro do ecossistema que irá transformar conhecimento em oportunidades, fortalecer o ecossistema regional e projetar a Amazônia como território de inovação, sustentabilidade e futuro.
O ano de 2024 entrou para a história como um dos mais devastadores para a Amazônia em períodos recentes. Dados do Observatório Regional Amazônico (ORA), da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), mostram que cerca de 15,5 milhões de hectares de floresta foram atingidos por queimadas — área superior à dos estados do Amapá ou do Ceará.
Por trás dos números, uma combinação de fatores explica a dimensão do impacto. O fenômeno El Niño intensificou os períodos de estiagem no Norte do país, deixando a vegetação ressecada e altamente suscetível ao fogo. Ao mesmo tempo, o desmatamento acumulado por vários anos fragmentou a cobertura florestal, criando bordas expostas que amplificaram a propagação das chamas.
Com a normalização do regime de chuvas na região, o número caiu de forma expressiva em 2025, quando a área afetada por queimadas foi de pouco mais de 3 milhões de hectares. No entanto, as projeções meteorológicas apontam para um retorno do fenômeno em 2026, tornando a floresta novamente vulnerável a longos períodos de seca, o que favorece os incêndios florestais.
Um estudo inovador desenvolvido ao longo de 20 anos por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em parceria com a Universidade Yale, nos Estados Unidos, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e outras instituições do Brasil e do exterior, lançou mão de um procedimento pouco usual para analisar os efeitos das queimadas e de outras intempéries, como secas intensas e tempestades de ventos, sobre a floresta amazônica.
De forma experimental e cumprindo todas as exigências ambientais dos bombeiros e da Defesa Civil, porções de floresta localizadas no leste de Mato Grosso foram submetidas a sucessivas queimadas controladas, com o objetivo de verificar quais seriam os impactos e como se daria a recuperação florestal.
A principal hipótese, bastante conhecida mesmo fora do universo científico, era a de que as mudanças climáticas e os efeitos do fogo sobre a Amazônia fariam com que a floresta se tornasse, progressivamente, uma savana, com características mais próximas de biomas como o Cerrado. Porém, estudos recentes têm encontrado indícios de que a ideia não se sustenta.
Após um ciclo de seis anos de queimadas experimentais e outros 14 anos de observações sobre como as áreas se regeneram, os biólogos chegaram a conclusões que corroboram o que já era observado: o processo de regeneração leva o bioma a apresentar características ainda de floresta tropical, bem diferentes de uma savana, embora com aspectos distintos dos encontrados nas espécies amazônicas.
Na sequência de imagens: 1) registro fotográfico feito em 2004 de uma das áreas da Amazônia onde o experimento seria realizado; 2) imagem da mesma área capturada no ano de 2010, quando o ciclo de fogo foi encerrado; e 3) fotografia de 2026 mostra o mesmo local ao final do período de recuperação observado. Foto: Divulgação
Apesar de se recuperarem, as áreas passaram a ficar mais vulneráveis a novos episódios de queimadas e outras situações de estresse biológico, principalmente nas bordas florestais, onde há maior contato com o entorno desmatado. Isso é uma evidência dos riscos de fragmentação das áreas de cobertura florestal, fenômeno que decorre do avanço das fronteiras agrícolas, principalmente nas porções sul e sudeste da Amazônia.
Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), dos Estados Unidos. O Jornal da Unicamp conversou com dois dos autores do trabalho, o pesquisador da Universidade Yale Leandro Maracahipes, que desenvolveu a pesquisa durante seu pós-doutorado na Unicamp, e o professor do IB Rafael Oliveira.
Acima, registro de queimada controlada feita pelos pesquisadores em área da Amazônia. Foto: Divulgação
O estudo foi conduzido em três áreas de 50 hectares cada uma, localizadas na Estação de Pesquisa Tanguro, no município de Querência (MT), cerca de 700 km a nordeste de Cuiabá, em uma zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Uma das áreas sofreu queimadas anuais entre 2004 e 2010, exceto no ano de 2008. Na segunda área, o fogo foi trienal, com queimadas em 2004, 2007 e 2010. Já a terceira área, de controle, não foi submetida a queimadas.
“O planejamento começava com mais de seis meses de antecedência. Como o fogo tinha que ser colocado no auge do período seco, no meio do ano, todo o processo era iniciado em janeiro”, lembra Maracahipes.
Os levantamentos prévios incluíram um inventário florestal das áreas, com a identificação das espécies encontradas e o registro da altura, diâmetro e posição das árvores — se mais próximas das bordas ou do interior — e se eram espécies pioneiras, que apresentavam reprodução e crescimento mais rápido, mas uma vida mais curta, ou tardias, de crescimento mais lento e vida mais longa.
Depois dos episódios de queimadas, os estudos focaram em avaliar a capacidade de resistência das espécies contra o fogo — e também diante dos períodos de seca e tempestades de vento ocasionais —, bem como sua resiliência para recuperação.
Os biólogos verificaram a composição de espécies e sua distribuição entre bordas e interior, seus atributos funcionais, como a densidade da madeira, espessura da casca e altura, e características hidráulicas, para analisar sua vulnerabilidade a períodos de seca. Também repetiram as mesmas análises de inventário feitas antes do fogo.
Segundo os pesquisadores, o trabalho com um grande número de espécies foi um diferencial da pesquisa, que possibilitou estabelecer generalizações de forma mais precisa.
“Geralmente, as pessoas trabalham com poucas espécies, até dez. Nossa amostragem chegou a 53 espécies nas medidas hidráulicas e entre 80 e 90 nas características gerais”, comenta Maracahipes.
Ao final dos períodos de fogo, a equipe fez registros das espécies encontradas, comparando a situação entre 2011 e 2024. De uma forma geral, no interior das áreas, a riqueza de espécies permaneceu constante.
Já na região das bordas, embora a vegetação tenha se recuperado em 2024, a riqueza de espécies ainda permanecia 31,3% menor onde ocorreram queimadas anuais, e 50,8% menor onde foram realizadas queimadas trienais, quando comparada com o período antes do fogo.
“As queimadas com maior intervalo tiveram um impacto muito maior, porque houve tempo de a biomassa dos espécimes que morreram se acumular no local. Em um segundo evento de fogo, há mais biomassa acumulada para ser queimada”, explica o biólogo.
O projeto foi conduzido por Rafael Oliveira (à esq.), professor do IB, o pesquisador Leandro Maracahipes (ao centro), e Paulo Brando (à dir.), professor da universidade norte-americana de Yale. Foto: Divulgação
No que diz respeito à composição das áreas, no espaço de queimadas anuais, a proporção de espécies pioneiras em relação às tardias aumentou de 17,1% para 59%; na área de queimadas trienais, de 21,6% para 72,6%. Nas regiões de bordas, a proporção de espécies pioneiras é bem maior, chegando a 80,3% nas áreas de queimada anual e 93,3% nas de fogo trienal.
Isso se explica pelo contexto de recuperação das duas áreas, mas tem como consequência uma capacidade menor de estoque de carbono, por conta das próprias características dessas novas espécies, identificadas após o período de recuperação: árvores mais baixas, com madeira de menor densidade, folhas mais estreitas e casca mais fina.
Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi uma redução de espécies chamadas especialistas, com características próprias do ambiente da floresta tropical, e um aumento de espécies generalistas, aspecto também associado à proximidade da zona de transição com o Cerrado.
“A floresta conseguiu se recuperar, mas em uma nova configuração. Devemos ter essa visão de que a Amazônia é formada por muitas florestas, cada uma com seu conjunto de características de estrutura, funcionamento e composição”, avalia Maracahipes.
A presença de gramíneas nas áreas também foi avaliada. Nos primeiros períodos de recuperação, quando as espécies ainda estavam crescendo, houve domínio de gramíneas, principalmente a Aristida longifolia, nativa do Cerrado, e depois a Andropogon gayanus, utilizada em pastagens. Conforme as árvores foram se recuperando e suas copas se recompuseram, a cobertura de gramíneas diminuiu, o que é positivo.
Segundo os biólogos, uma maior cobertura de gramíneas representa mais vulnerabilidade a novos episódios de queimadas. Ainda assim, a média dessa cobertura nas duas áreas foi calculada em 12% ao final do período, enquanto na área de controle, que não sofreu com as queimadas, permaneceu abaixo de 1%.
Contrariando hipóteses
Os pesquisadores contam que a hipótese inicial do projeto era de que, com os episódios de fogo, a recuperação das áreas se converteria em um processo de savanização, inclusive pela proximidade com o Cerrado. Porém, os resultados indicaram um terceiro caminho, apontando para uma nova configuração florestal, diferente do Cerrado, mas também distinta do que se conhece da Amazônia.
“A floresta mudou ao longo desse tempo e agora ela tem uma nova cara. Nesse estudo, analisamos suas características funcionais, que não são facilmente reveladas por análises convencionais”, pontua Oliveira.
O docente afirma que a hipótese de savanização ganhou força devido ao predomínio de estudos sobre a Amazônia baseados em modelos conduzidos por climatologistas. “Esses modelos partem do princípio de que o clima é o fator dominante e assumem que existem limiares a partir dos quais a floresta colapsa. Só que a biologia não funciona de forma tão simples”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o bioma é mais resiliente do que esses cenários sugerem.
“A dinâmica ecológica envolve uma rede complexa de interações, que os modelos não conseguem capturar plenamente. Quando testamos isso experimentalmente, vemos que a realidade pode ser diferente.” Ainda assim, ele alerta que isso não diminui a gravidade da degradação. “Os impactos são profundos, e o fato de haver alguma capacidade de recuperação não significa que podemos continuar degradando a floresta.”
Maracahipes alerta que é necessário prestar atenção às condições das bordas das áreas submetidas ao estudo, pois os efeitos negativos foram muito mais intensos nelas em comparação com seu interior, o que dificulta sua recomposição.
De acordo com o biólogo, fenômenos como a fragmentação da cobertura florestal por conta de atividades agroextrativistas ampliam essas zonas de borda, tornando a floresta mais vulnerável. “Não é apenas essa floresta que queimamos que está mudando, mas a região como um todo está sendo alterada e queimando cada vez mais.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Felipe Mateus
O novo programa no canal Amazon Sat, ‘Entrevistas‘, é uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica com foco nas discussões que ocorrem em Brasília, centro da tomada de decisões do país, sobre os rumos da Amazônia. O objetivo é levar um novo olhar sobre muitas das decisões que são tomadas fora da região, mas que impactam diretamente a Amazônia.
“O Entrevistas é feito lá [em Brasília], para a gente poder ouvir os representantes do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Poder Executivo, não só referente ao Amazonas, mas todos os Estados, os nossos seis Estados em que estamos presentes, e também podermos ouvir formadores de opinião que ficam até fora de Brasília”, explica o diretor de jornalismo da Rede Amazônica, Paulo Fernandes.
Há mais de 30 anos presente em Brasília, a sucursal da Rede Amazônica tem se posicionado como um símbolo da força regional. “É por isso que a gente decidiu fazer o programa em Brasília e trazer esses assuntos para reflexão, aproximando os formadores de opinião de quem vive aqui”, completou.
‘Entrevistas’ direto de Brasília
No Grupo Rede Amazônica desde 2012, Welliton Lopes é jornalista com mais de 20 anos de experiência. Iniciou a carreira em Brasília, onde realiza a cobertura de pautas da Amazônia que tramitam nos tribunais superiores, no governo e no Congresso Nacional. Transforma decisões políticas e judiciais em informação que importa para milhões de amazônidas e será o apresentador do novo programa.
“É difícil refletir sobre a Amazônia sem pensar em política, economia, justiça, meio ambiente e tantos outros temas. Também é importante reconhecer o peso de Brasília nas decisões que definem os rumos da região em todos esses aspectos. São decisões que impactam diretamente a vida de 30 milhões amazônidas. Pra ser mais enfático, são decisões que repercutem numa área correspondente a 59% do território nacional”, comenta Lopes.
‘Entrevistas’ será apresentado pelo jornalista Welliton Lopes. Foto: Divulgação
O correspondente do Grupo Rede Amazônica acompanha de perto o que ministros, autoridades do Executivo, integrantes do Judiciário e parlamentares decidem sobre a Amazônia.
“Aqui enfrento o grande desafio de transformar temas complexos, muitas vezes técnicos, em reportagens de apenas três minutos, que precisam ser capazes de informar e dar ao público a dimensão dessas decisões em suas vidas”, destaca.
Para ele, nesse sentido, o programa ‘Entrevistas’ pode ampliar esse espaço de debate e aprofundamento: “A proposta é destrinchar pautas relevantes, revelar os bastidores das decisões e ouvir, diretamente da fonte, quem influencia o presente e o futuro da Amazônia na Capital Federal”.
A estreia de ‘Entrevistas’ está marcada para o dia 19 de maio. “A expectativa é positiva porque acredito que temos no Amazon Sat um público já acostumado com atrações construtivas que o canal oferece em sua grade. Esse público saberá que esse é mais um programa que traz esse DNA de fortalecer a identidade amazônica e contribuir com o crescimento e conhecimento da região e de suas potencialidades”, conclui Lopes.
De 2015 a 2022, consumo de ultraprocessados aumentou, enquanto alimentos como frutas e feijão perderam espaço, indica estudo com dados do SISVAN. Foto: Reprodução/Pixabay
O consumo de alimentos ultraprocessados aumentou de forma consistente entre povos e comunidades tradicionais no Brasil nos últimos anos. Ao mesmo tempo, alimentos historicamente presentes na dieta dessas populações, como frutas e feijão, perderam espaço.
O maior consumo de alimentos associados a padrões não saudáveis, como hambúrgueres, embutidos, bebidas adoçadas, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote e biscoitos recheados, indica tendência de piora na qualidade da dieta. É o que mostra um estudo nacional publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva.
O trabalho foi coordenado pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade de São Paulo (USP), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ – Ceará) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A equipe analisou dados de 2015 a 2022 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) sobre consumo alimentar dos povos e comunidades tradicionais. O conceito engloba grupos como quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, pescadores artesanais e caiçaras, dentre outros, que se estabeleceram no território brasileiro após a colonização. Povos indígenas, originários do Brasil, não são vinculados ao conceito no estudo.
“Esses grupos, em sua maioria, estão inseridos em territórios rurais e cultivam os seus alimentos por meio da agricultura familiar. Quando observamos esse aumento no consumo de ultraprocessados, isso indica que o acesso a esses produtos está cada vez mais facilitado”, explica a professora e nutricionista Greyceanne Dutra Brito, doutoranda em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará (UFC) e principal autora do estudo.
Para a pesquisadora, o baixo custo dos alimentos ultraprocessados, o apelo publicitário e questões estruturais, como a baixa renda das famílias, são fatores que podem explicar a nova tendência.
A queda no consumo de alimentos in natura ou minimamente processados também chama atenção dos especialistas. Embora o estudo não tenha investigado causas específicas, a pesquisadora aponta algumas hipóteses.
“Essa mudança pode estar relacionada à redução do acesso ao território para cultivo, às mudanças climáticas e ao aumento dos preços de alimentos in natura, além da maior acessibilidade econômica dos ultraprocessados”, destaca Brito.
Os resultados variam entre os grupos analisados, mas os pesquisadores consideram o cenário geral desfavorável. O consumo de hambúrgueres e embutidos, por exemplo, cresceu 3,87% entre crianças de 2 a 4 anos e 5,59% entre aquelas de 5 a 9 anos. Já entre adultos e idosos, além do crescimento desses produtos na dieta, foi observado aumento no consumo de verduras e legumes — um dos poucos pontos positivos identificados.
Segundo a nutricionista, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados pode levar a deficiências nutricionais (como falta de ferro, fibras, vitaminas e minerais), além de estar associado a um maior risco para desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.
Apesar das limitações, como a cobertura de dados do SISVAN e a ausência de informações detalhadas sobre essas populações, o estudo é considerado pioneiro ao avaliar a tendência temporal de marcadores de consumo alimentar de povos e comunidades tradicionais em todo o país.
“Os achados contribuem para o avanço da literatura científica e podem subsidiar o fortalecimento de políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável e sustentável”, afirma Brito.
Entre as possíveis medidas, a nutricionista ressalta a regulação da comercialização de alimentos ultraprocessados e o desenvolvimento de estratégias de educação alimentar e nutricional direcionadas a essas populações.
Os pesquisadores contaram com financiamento de instituições públicas, incluindo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Ministério da Saúde e a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), além de apoio acadêmico de universidades envolvidas no estudo.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Em uma sessão marcada por emoção, reconhecimento e celebração da cultura regional, a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) concedeu, nesta quinta-feira (7), o Título de Cidadã Amazonense à artista e ativista indígena Marciele Albuquerque. A homenagem ocorreu durante reunião especial no plenário Ruy Araújo, reunindo autoridades, representantes culturais e torcedores dos bois-bumbás de Parintins.
A honraria, proposta pelo deputado estadual Wilker Barreto (PSD), coassinada pela deputada filiada ao mesmo partido, Mayra Dias, reconhece os relevantes serviços prestados por Marciele ao Amazonas, especialmente na valorização da cultura local, no fortalecimento da identidade regional e na projeção do estado em cenários nacionais e internacionais
Além do título, a cunhã-poranga do Boi Caprichoso também recebeu a Medalha do Mérito Legislativo Ruy Araújo, considerada a maior comenda do Parlamento estadual, em reconhecimento à sua atuação em defesa dos povos originários e na difusão da cultura amazônica.
História de Marciele Albuquerque Munduruku
Natural de Juruti, no Pará, e integrante do povo indígena Munduruku, Marciele construiu sua trajetória entre Manaus e Parintins, onde se consolidou como um dos principais nomes do Festival Folclórico. Em 2026, ganhou projeção nacional ao participar do Big Brother Brasil, levando para todo o país pautas relacionadas à representatividade indígena e à cultura amazônica.
Durante discurso na tribuna, Marciele se emocionou ao relembrar sua trajetória e as dificuldades enfrentadas até alcançar reconhecimento nacional.
“Esse momento, sem dúvida, é o mais especial da minha vida. Eu cheguei aqui no Amazonas com uma rede e um sonho. Eu só sonhava e tinha muita fé, muita força e determinação”, declarou em plenário.
Marciele Albuquerque recebeu a medalha Ruy Araújo da deputada Mayra Dias. Foto: Nathalie Brasil
A artista também destacou o orgulho de representar o povo amazônida e reafirmou seu compromisso com a valorização cultural da região.
“Levo comigo a essência da nossa cultura, da nossa arte, porque é de onde eu vim”, afirmou.
Autor da proposta, o deputado estadual Wilker Barreto ressaltou a importância da homenagem como forma de reconhecer a contribuição da artista para o estado. Segundo ele, o título simboliza o vínculo construído por Marciele com o Amazonas ao longo dos anos.
“Hoje ela é uma celebridade de alcance nacional mas anteriormente era também uma ativista que tinha uma luta muitas das vezes silenciosa. Porque ser uma voz e se fazer uma voz não é fácil. Mas tenho a certeza que .agora, com as maiores honrarias da Assembleia Legislativa, irá aumentar a vossa responsabilidade”, disse o deputado, dirigindo as palavras a Marciele Albuquerque
A deputada estadual Mayra Dias também destacou que as honrarias à Marciele vão muito além de sua participação em um reality show nacional, vão das lutas pelas causa dos povos originários.
“Quando o prejeto de lei chegou a essa casa, apresentado pelo deputado Wilker Barreto, a gente nem imaginava que ela iria para o programa Big Brother Brasil. Então esse projeto foi debatido aqui e aprovado, não pela participação dela lá, mas pela sua trajetória, pelo seu currículo. Então a gente fica muito feliz de entregar a ela não só esse título mas a medalha Ruy Araújo”.
Sendo um dos países com maior biodiversidade do planeta, o Peru possui uma das maiores variedades de anfíbios, especialmente rãs, o que o torna um paraíso para esses animais selvagens.
Vamos relembrar quantas espécies vivem no país sulamericano, quantas são endêmicas e destacar algumas delas:
Peru, um paraíso para rãs
O Peru possui atualmente mais de 600 espécies identificadas de anfíbios, tanto terrestres quanto aquáticos. A maior variedade delas encontra-se na região amazônica, especialmente no Parque Nacional Manu, uma área natural protegida localizada na região de Madre de Dios.
Os anfíbios em território peruano estão distribuídos em 3 ordens (Anura, Caudata e Gymnophiona), 20 famílias e 80 gêneros Muitas espécies de anfíbios são endêmicas (exclusivas do território peruano), especialmente nas cabeceiras dos rios nas encostas orientais dos Andes.
Cerca de 80% das 235 espécies de anfíbios cuja área de distribuição se estende acima de 1.000 metros de altitude são endêmicas do Peru.
Foto Divulgação/Agência Andina
Regiões com as maiores populações de anfíbios
As regiões com o maior número de espécies de anfíbios são Loreto, Cusco e Amazonas, o que coincide com a maior abundância de florestas, e os menores valores de riqueza são encontrados nos departamentos de Ica, Moquegua e Tacna.
Apesar de pertencerem à mesma ordem – Anura, que significa “sem cauda” -, rãs e sapos possuem características morfológicas distintas. Por exemplo, as rãs geralmente têm pele lisa e úmida, com poucos grânulos. Em contraste, os sapos geralmente têm pele mais áspera e grossa.
Foto Divulgação/Agência Andina
O comportamento e o formato do corpo também os distinguem. Os sapos têm pernas mais longas, o que facilita o salto. Os sapos-cururu, por outro lado, têm membros mais curtos e não possuem as pernas longas necessárias para saltar, pois são mais terrestres.
Anfíbios endêmicos do Peru
Abaixo estão alguns dos anfíbios mais interessantes que habitam o território peruano:
Rã aquática dos Andes
Foto Divulgação/Agência Andina
Essas rãs aquáticas andinas do gênero Telmatobius, que habitam o país, destacam-se por seu papel fundamental como “sentinelas” da saúde de nossos rios e lagos.
Já os sapos do gênero Telmatobius, nativos do ecossistema andino de altitude, representam uma biodiversidade única que distingue o Peru no mundo. Um excelente exemplo é o Telmatobius culeus, conhecido como sapo-gigante-do-Titicaca, espécie que vive exclusivamente no Lago Titicaca, cujo valor biológico e simbólico ressalta a importância de sua conservação.
Foto Divulgação/Agência Andina
Esses sapos são considerados engenheiros de ecossistemas, pois são vitais para o equilíbrio ecológico, já que são indicadores naturais da qualidade da água nas áreas mais altas do nosso país.
Sapo-flecha-venenoso
Esta rã, cujo nome científico é Ameerega silverstone, foi observada apenas em dois locais dentro de uma pequena área ao sul do Parque Nacional Cordillera Azul, no departamento de Huánuco, entre 1.200 e 1.600 metros acima do nível do mar, na estrada de Tingo María para Pucallpa.
Foto Divulgação/Agência Andina
Arlequim peruano de pele escura
Esta rã, Atelopus seminiferus, é conhecida apenas de uma localidade: entre Balsa Puerto e Moyobamba, e Rioja, na região de San Martín. Ela vive entre 1.000 e 2.000 metros acima do nível do mar.
Foto Divulgação/Agência Andina
Infelizmente, está ameaçado pela quitridiomicose, uma doença causada pelo fungo patogênico Batrachochytrium dendrobatidis, que se fixa à pele dos anfíbios, infecta-os e pode causar a morte.
Rã venenosa de Marañón
Essa espécie, cujo nome científico é Excidobates captivus, é conhecida apenas nos vales entre a Cordilheira do Cóndor e os morros de Campanquiz, no departamento de Amazonas.
Sua distribuição se restringe à área ao redor da foz do rio Santiago, na margem oeste do rio Marañón e ao redor do morro Campanquiz. Habita altitudes entre 177 e 600 metros.
Sapo de vidro
Este sapo, cujo nome científico é Centrolene azulae, possui uma coloração azulada na barriga que o distingue perfeitamente e explica seu nome popular.
Seu único habitat conhecido é o povoado de Fundo Nuevo Mundo, no Parque Nacional Cordilheira Azul, no departamento de Huánuco, a 1.500 metros de altitude.
Rã vermelha e preta
Essa rã, cujo nome científico é Ranitomeya benedicita, vive nas regiões de Loreto e San Martín, entre 150 e 405 metros acima do nível do mar, nas planícies do Sacramento, entre os rios Huallaga e Ucayali.
Foto Divulgação/Agência Andina
Seu nome deriva tanto de seu local de origem quanto da dificuldade de encontrá-la na natureza. Quem avista uma pode se considerar “abençoado”.
Descobertas recentes
Nos últimos anos, pesquisas científicas descobriram novas espécies de rãs em território peruano, entre as quais se destacam as seguintes:
A nova espécie descoberta no Parque Nacional Cordillera Azul — localizado entre os departamentos de San Martín, Loreto, Ucayali e Huánuco — foi batizada de Oreobates shunkusacha. Este último nome significa “Coração da Floresta” na língua quíchua-lamista.
Foto Divulgação/Agência Andina
Esta é uma espécie que habita as florestas primárias de planície das Yungas, localizadas a uma altitude entre 1.351 e 1.600 metros acima do nível do mar.
Outra nova espécie, chamada Gastrotheca mittaliiti, foi encontrada em Huancabamba, um ecossistema de alta biodiversidade no departamento de Amazonas, em uma investigação desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável de Ceja de Selva (INDES-CES) da Universidade Nacional Toribio Rodríguez de Mendoza (UNTRM).
Foto Divulgação/Agência Andina
Este anfíbio pertence ao gênero Gastrotheca, conhecido por sua estratégia reprodutiva singular: as fêmeas carregam seus filhotes em uma bolsa dorsal, o que o torna um grupo de especial interesse científico. Como contribuição adicional, o estudo relata pela primeira vez a presença de Gastrotheca turnerorum no Peru, ampliando o conhecimento sobre a distribuição dessa espécie no país.
Uma nova espécie de rã-flecha venenosa do gênero Ranitomeya foi descoberta na área do Parque Nacional Alto Purús, que abrange as regiões de Madre de Dios e Ucayali, após anos de pesquisa na bacia do rio Purús.
Foto Divulgação/Agência Andina
A nova espécie de rã, denominada Ranitomeya hwata, mede cerca de 15 milímetros de comprimento e é uma das menores espécies do gênero Ranitomeya, conhecido por suas cores vibrantes e comportamento reprodutivo singular.
Apresenta listras dorsais amarelo-brilhantes, um padrão ventral finamente mosqueado e uma faixa preta que separa a região gular do ventre. Vive exclusivamente em florestas nativas de bambu do gênero Guadua, onde utiliza as câmaras naturais dessas plantas para se reproduzir.
Diferentemente de seus parentes próximos, os machos dessa espécie exibem comportamento poligínico, recrutando múltiplas fêmeas por local de reprodução.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Andina
O projeto Amazônia das Palavras – Quarta Edição transformou a Escola Estadual Prefeito Alexandre Montoril, em Coari (AM), em um espaço de encontro entre literatura, cultura e identidade amazônica. A iniciativa, que segue até o dia 18 de maio e percorrerá outros seis municípios do Amazonas, começou pelo Médio Solimões, levando oficinas literárias e atividades culturais gratuitas a estudantes e educadores da rede pública.
Com cerca de 70 mil habitantes, Coari é considerada uma cidade estratégica do estado, impulsionada pela produção de petróleo e gás na região de Urucu, além do comércio e da agricultura. É nesse cenário que o projeto inicia sua trajetória, propondo uma imersão em diferentes linguagens literárias ao longo do dia.
Ao todo, sete oficinas foram realizadas nos turnos da manhã e da tarde, contemplando temas como produção de textos, slam, música, cinema, moda e animação. Entre elas, a oficina de Nheengatu, língua indígena da família Tupi-Guarani, que provoca reflexões sobre pertencimento e identidade cultural.
Uma língua presente
Conhecida como “língua boa”, a partir dos termosnhee (fala) e gatu (boa ou bela), o Nheengatu foi, durante séculos, a principal forma de comunicação na Amazônia. Ainda hoje, influencia o português falado na região, embora muitas vezes passe despercebida no cotidiano.
Entre linguistas, é considerada uma das línguas mais bonitas em sonoridade, ocupando a quarta posição. Mesmo assim, muitas de suas expressões seguem sendo utilizadas sem que os próprios falantes reconheçam sua origem. A palavra “oi”, por exemplo, comum no português brasileiro, tem raiz no Nheengatu.
Durante a oficina, os estudantes tiveram contato direto com expressões da língua, como: awá taá īdé? (quem é você), mãã taá ne rera? (qual é teu nome), ikatú reté (tudo bem), té kurí (tchau), çerá? (tem certeza?), çairé (festa religiosa) e açaiçú īdé (eu te amo).
Foto: Pedro Carrilho
A oficina foi conduzida por Yaguarê Yamã, escritor, professor, geógrafo, artista plástico e líder indígena amazonense. Filho do povo Maraguá, o autor reúne em sua trajetória a valorização dos saberes ancestrais dos povos originários.
Membro da Academia Parintinense de Letras e da Academia da Língua Nheengatu, é autor de mais de 40 livros, com obras reconhecidas em seleções nacionais e internacionais, como o selo Altamente Recomendável da FNLIJ, além de catálogos como o White Ravens, de Munique, e a Feira do Livro Infantil de Bolonha.
Para o oficineiro, levar essa discussão para dentro da escola é uma forma de enfrentar o distanciamento cultural que atinge principalmente as novas gerações.
“Não é só a capital que está distante dessa identidade. Em tempos modernos, com a influência da internet, os próprios lugares da Amazônia estão se afastando da sua própria cultura. A língua geral da Amazônia, que já foi a mais importante da região, está sendo esquecida. O que precisamos é revitalizar isso, fazer com que as pessoas repensem o seu lugar nesse território”, afirma.
Segundo o professor, a proposta da oficina vai além do ensino da língua, buscando provocar um movimento de reconhecimento entre os estudantes.
“A gente precisa sair dos livros e das redes sociais e abraçar a população de fato. É esse contato direto que permite esse retorno às origens”, completa.
Entre os estudantes, o contato com o Nheengatu trouxe um sentimento de descoberta sobre a própria identidade. Para a aluna Ludmila Melo, de 15 anos, a experiência revelou uma dimensão até então desconhecida. “A gente ter essa oportunidade de estudar uma língua da nossa própria região é muito importante. Nós, como amazônidas, não sabíamos da nossa própria língua. Foi como descobrir de onde a gente veio”, relata.
A curiosidade também marcou a percepção de Glenda da Silva, também de 15 anos, que destacou o interesse despertado durante a atividade. “É muito legal a gente rever sobre o nosso passado. A gente fica se perguntando como não sabia disso antes. Dá vontade de aprender mais, porque é muita coisa que a gente não conhece”, afirma.
Para a diretora da escola, Teresa Cristina Gama dos Santos, a presença do projeto amplia horizontes dentro do ambiente educacional. “O projeto traz novas formas de trabalhar a leitura, valoriza a cultura da nossa região e desperta nos estudantes um interesse que muitas vezes não conseguimos alcançar apenas com o conteúdo tradicional em sala de aula”, destaca.
Além das 14 oficinas realizadas durante o dia, o Amazônia das Palavras – Quarta Edição promove, em cada cidade, uma programação noturna gratuita e aberta ao público. Em Coari, as atividades incluíram a exibição do documentário da terceira edição do projeto, homenagem à escritora Maria Firmina dos Reis, doação de livros à biblioteca escolar com entrega do certificado “Escola Amiga da Leitura” e, encerrando a noite, o espetáculo circense “Silêncio Total – Vem Chegando um Palhaço”, com o ator Luiz Carlos Vasconcelos, interpretando o Palhaço Xuxu.
Percurso segue por outras cidades
Após a passagem por Coari, o projeto segue para os municípios de Codajás, Anori, Anamã, Manacapuru, Iranduba e Manaus, mantendo a proposta de levar atividades educativas durante o dia e programação cultural aberta à comunidade no período da noite.
O Amazônia das Palavras – Quarta Edição, é um projeto patrocinado pela TAG, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura; Apoio: Cigás, Promoção: Fundação Rede Amazônica. Realização: Associação Mapinguari, Ministério da Cultura e Governo do Brasil – do lado do povo brasileiro.