O cinema ainda engatinhava no mundo quando as imagens da Amazônia começaram a falar de forma poderosa para o mundo. Sob o comando do Major Luiz Thomaz Reis (1878-1940), a imensidão dos sertões brasileiros deixou de ser apenas um relato de viajantes para se tornar um documento vivo. Reis, baiano de nascimento e genro do artista plástico italiano Giuseppe Boscagli — que também imortalizou os Nambiquaras de Vilhena em suas telas —, foi o olhar que transformou a marcha de Rondon em narrativa visual.
Em 1912, foi de Reis a sugestão visionária de criar a Seção de Cinematografia e Fotografia da Comissão Rondon. Enquanto Charles Chaplin estreava nas telas americanas em 1914, o Major já cruzava os rios e matas da nossa região com equipamentos adquiridos na Europa, iniciando registros que se tornariam os primeiros filmes etnográficos do planeta.
A contribuição de Reis não foi apenas técnica, mas cultural e política. Ele foi peça-chave na produção de “The River of Doubt”, documentando a célebre expedição Roosevelt-Rondon. Ao levar para os cinemas da elite urbana do Rio de Janeiro obras como “Ao Redor do Brasil” (1932) — que hoje podemos revisitar no YouTube —, ele apresentou o cotidiano de Porto Velho, o pulsar da Madeira-Mamoré e o majestoso Real Forte Príncipe da Beira, na fronteira do Brasil com a Bolívia.
Essas projeções não eram mero entretenimento. Elas fomentavam um sentimento de nacionalismo, transformando a figura do sertanista e a cultura indígena em símbolos de uma identidade brasileira em construção. As imagens serviam como prova do progresso e, simultaneamente, como uma defesa humanista dos povos originários, alinhada à filosofia de Rondon.
Foto: Benjamin Rondon
O patrimônio e o silêncio
Apesar da importância monumental, o acervo desse período sofreu com o abandono ao longo das décadas. Pouco restou além dos registros salvos pela própria Comissão Rondon e por nomes como o cineasta italiano Mário Civelli e seus descendentes.
A trajetória de Luiz Thomaz Reis nos lembra que Rondônia nasceu sob o signo do cinema. Mais do que registrar a instalação do telégrafo ou a demarcação de fronteiras, ele filmou o encontro do Brasil com suas próprias raízes, deixando um legado antropológico que ainda hoje pulsa em cada fotograma sobrevivente daquela Amazônia.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
A onça que nasceu no BioParque Vale Amazônia, resultado de um programa de reprodução voltado à preservação da espécie. Foto: Divulgação/ BioParque Vale Amazônia
Um novo símbolo da biodiversidade amazônica acaba de chegar ao mundo e já conquistou a atenção do público. Um filhote de onça-pintada nascido em março deste ano, no Pará, tornou-se protagonista de uma mobilização que une conservação ambiental e participação popular: a escolha do seu nome.
O animal nasceu no BioParque Vale Amazônia, resultado de um programa de reprodução voltado à preservação da espécie, considerada ameaçada de extinção. A iniciativa é vista como um avanço importante para a conservação da fauna brasileira, especialmente de um dos maiores predadores das Américas.
Macho e ainda sob cuidados especiais, o filhote é descendente do casal Marília e Zezé, ambos com origem genética do Cerrado, e simboliza mais um avanço nas ações de preservação da espécie, considerada ameaçada de extinção.
O filhote permanece em uma área reservada do parque, onde recebe atenção constante da equipe técnica. A expectativa é que, nos próximos meses, ele possa ser apresentado ao público, após superar as primeiras fases de desenvolvimento.
A escolha do nome está sendo organizada pelo próprio BioParque Vale Amazônia, que abriu uma votação online para envolver a população nesse momento simbólico.
Os interessados podem participar acessando o link oficial da votação AQUI.
Três opções foram disponibilizadas: Xingu, Tapajós e Solimões — todas referências a importantes rios da Amazônia e carregadas de significado ambiental e cultural.
Segundo o veterinário da área, Nereston Camargo, a escolha dos nomes não é aleatória. Além de homenagear a geografia amazônica, eles reforçam a conexão entre a espécie e os ecossistemas que garantem sua sobrevivência. A onça-pintada é considerada um indicador da saúde ambiental: onde ela vive, há equilíbrio ecológico.
“Cada nascimento em ambiente controlado é um marco importante para a preservação da espécie e evidencia a importância de projetos de conservação da biodiversidade”, destaca o veterinário.
Filhote de onça-pintada permanece em área interna sob cuidados especiais e deve ser apresentado ao público no primeiro semestre deste ano, segundo Nereston de Camargo. Foto: DivulgaçãoBioParque Vale Amazônia
O nome escolhido será anunciado durante a programação de aniversário do parque, no domingo (29), que contará com oficinas, atividades culturais e atrações recreativas para todas as idades.
De acordo com o veterinário, o filhote segue em uma área interna, sob cuidados especiais por ser recém-nascido. A previsão é que ele seja apresentado ao público ainda no primeiro semestre de 2026.
Além disso, a participação popular na escolha do nome aproxima a sociedade dessas ações ambientais, criando um vínculo simbólico com o animal e com a causa da conservação.
Piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), peixe de água doce que vive principalmente nas bacias dos rios Amazonas, Orinoco, Tocantins e Araguaia. Foto: Zeb Hogan/CMS
A Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce, lançada nesta terça-feira (24) em evento paralelo da 15ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP da CMS, na sigla em inglês), a COP15, aponta que 97% dos peixes de água doce listados pela CMS estão ameaçados de extinção. Realizado em conjunto pela CMS, WWF e Universidade de Nevada (EUA), o estudo contou com a colaboração do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e é o mais abrangente sobre peixes migratórios de água doce. Veja o relatório global aqui.
“Os peixes migratórios de água doce não são apenas maravilhas ecológicas, mas também essenciais para a segurança alimentar, economias locais e patrimônio cultural de muitas populações ao redor do mundo”, ressaltou a secretária executiva da CMS, Amy Fraenkel.
Trata-se dos vertebrados mais ameaçados por fatores como alteração de fluxos, degradação do habitat, exploração, poluição, entre outros, que já levam a uma perda estimada de aproximadamente 90% da população das espécies listadas pela CMS desde os anos 1970.
“Esses resultados são fruto de um esforço global. Temos todos os motivos para estarmos muito, mas muito preocupados. Nossas espécies de peixes, que são a base de tantas comunidades, essenciais para a segurança alimentar de tantas pessoas e para o funcionamento dos nossos sistemas econômicos, além de espécies que possuem características únicas, estão mais do que nunca nos enviando sinais claros do seu nível de ameaça, vulnerabilidade e da urgência de nossa atenção”, destacou a secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Rita Mesquita.
Atualmente, apenas 24 espécies estão listadas pela CMS, mas o relatório identifica um total de 349 dentro dos critérios da convenção. Isso significa que 325 espécies de peixes migratórios de água doce que ainda não foram formalmente listados nos anexos da CMS podem estar sob algum nível de ameaça de conservação ou extinção. Na Ásia, concentra-se o maior número de peixes migratórios ameaçadps (205), seguida por América do Sul (55), Europa (50), África (42), América do Norte (32) e Oceania (6).
O estudo também destaca as bacias hidrográficas em que a cooperação internacional pode fazer grande diferença: Amazônia, Prata-Paraguai-Paraná, Danúbio, Mekong, Nilo e Ganges-Brahmaputra.
“É encorajador observar o alinhamento entre a agenda da CMS e os desafios relacionados à água doce. Essa convergência mostra como iniciativas globais podem reforçar prioridades nacionais. A liderança ambiental do Brasil se fortalece tanto na conservação dos peixes migratórios, quanto na manutenção da conectividade dos habitats. Ao integrar essa agenda, o país reafirma seu compromisso com a sustentabilidade dos processos ecológicos essenciais”, destacou o presidente da COP15 da CMS e secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.
Peixes migratórios na bacia amazônica
Somente na bacia Amazônica foram confirmadas 21 espécies de peixes migratórios em estado de conservação desfavorável, conforme estudo de caso divulgado na Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce.
O conjunto de espécies candidatas inclui bagres pimelodídeos de longa distância (como os grandes peixes-gato dos gêneros Brachyplatystoma e Pseudoplatystoma), caraciformes migratórios (como os dos gêneros Brycon, Leporinus, Prochilodus e Semaprochilodus) e serrasalmídeos amplamente explorados.
A bacia Amazônica se destaca pelos peixes migratórios de longa distância. O bagre dourado ou dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) é reconhecido por realizar o maior ciclo migratório em água doce. São mais de 11 mil quilômetros, saindo dos Andes até o oceano Atlântico e depois retornando.
Ainda conforme o estudo, esses grandes peixes migratórios representam 93% das capturas pesqueiras e movimentam cerca de 436 milhões de dólares estadounidenses (aproximadamente R$ 2,28 bilhões) por ano.
Está sob análise da COP15 o Plano de Ação Regional para os Bagres Migratórios da Amazônia. O documento foi apresentado pelo Governo do Brasil e elaborado com a participação de autoridades da Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
Grandes bagres migratórios da Amazônia, como a dourada e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii) foram incluídas no Anexo II da CMS durante a COP14, reconhecendo a necessidade de cooperação internacional para sua conservação.
Dourada. Foto: Reprodução
O Plano tem como objetivos estratégicos a conservação de habitats críticos e a conectividade fluvial, o fortalecimento da base de conhecimento científico e local, o impulsionamento das cadeias de valor sustentáveis, a concordância entre políticas e marcos normativos e o apoio à cooperação internacional.
“O Brasil tem feito esforços enormes no sentido de estabelecer planos de ação de recuperação de espécies ameaçadas. Trabalhamos na revisão e atualização de listas de espécies ameaçadas de extinção e de espécies exóticas invasoras. Temos colocado na pauta uma questão clara de que é preciso discutir esses espaços”, explicou Rita.
No âmbito da COP15, o Brasil propôs a inclusão do surubim (Pseudoplatystoma corruscans) no Anexo II da CMS.
Desenvolver um jogo completo em apenas 48 horas pode parecer impossível, mas foi exatamente esse o desafio proposto pela Game Jam do Tecnogame 2026. O evento realizado em Porto Velho (RO) no último final de semana reuniu talentos de Rondônia em uma maratona criativa que colocou à prova habilidades técnicas, trabalho em equipe e inovação.
Com o tema “Norte”, os participantes precisaram criar jogos originais que dialogassem com a identidade regional. O destaque da edição ficou com a equipe Matutinos, formada por alunos do curso de Ciência da Computação da Afya São Lucas, que conquistou o 1º lugar com o jogo “AVOA! Norte”. A equipe garantiu premiação de R$ 2mil, além de bolsas de estudo e reconhecimento no cenário local.
O jogo apresenta a jornada de um aviador que explora a região Norte em busca da lendária cidade perdida de Ratanabá, mas acaba descobrindo, ao longo do percurso, a riqueza cultural e simbólica da região.
Segundo Pedro Lopes, integrante da equipe e responsável pela parte artística, a proposta foi valorizar elementos visuais e narrativos diante do tempo limitado.
“Interpretamos o tema ‘Norte’ a partir da cultura e da realidade da região. Optamos por focar mais na apresentação visual do que nas mecânicas, por conta do tempo reduzido. A ideia é um aviador que explora o Norte e, no fim, conhece mais da região do que o próprio objetivo inicial”, explica.
Apesar de o desafio prever 48 horas, o tempo efetivo de desenvolvimento foi ainda menor, o que exigiu organização e dedicação extrema dos participantes.
A equipe foi formada por Pedro Lopes (artista principal), Gustavo Duque (programador backend) e Judson Gabriel (programador frontend), que trabalharam intensamente para entregar o projeto dentro do prazo.
O coordenador do curso de Ciência da Computação da Afya São Lucas, Liluyoud Cury de Lacerda, destacou o esforço dos estudantes durante a competição. “Eles tiveram que criar um jogo do zero, com código, roteiro, jogabilidade e identidade, tudo em um curto espaço de tempo e sem uso de inteligência artificial. Nas últimas horas, ficaram praticamente 24 horas sem dormir para conseguir finalizar o projeto”, relata.
De acordo com o coordenador, competições como a Game Jam têm papel fundamental na formação de novos profissionais e podem abrir portas no mercado nacional e internacional. “A Game Jam é uma das maiores competições de desenvolvimento de jogos. Muitos participantes acabam se tornando referência e conquistando oportunidades em empresas, inclusive fora do Brasil. É uma experiência que pode mudar trajetórias”, afirma.
A conquista reforça o desempenho do curso de Ciência da Computação da Afya São Lucas, que, mesmo com pouco mais de um ano de existência, já acumula resultados expressivos no estado.
“Apesar de ser um curso novo, já conquistamos dois dos principais títulos na área de tecnologia em Rondônia. No ano passado, fomos campeões do desafio Liga Jovem do Sebrae, e agora vencemos a Game Jam. Isso mostra o potencial dos nossos alunos e a qualidade da formação”, destaca Liluyoud.
O jogo “AVOA! Norte” está disponível gratuitamente para o público e pode ser acessado AQUI.
Desova de tartarugas. Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
Tabuleiro, ou Taboleiro, é o termo local designado às áreas de desova de tartarugas-da-amazônia. É caracterizado por ser uma área localizada num banco de areia (praia), às margens de terra firme ou de ilhas, onde ocorre a desova gregária (seres, animais ou plantas que vivem em bandos, grupos, comunidades ou colônias) da tartaruga-da-amazônia, de acordo com a biológa e doutora em ecologia, Daniely Félix-Silva.
No entanto, no mesmo tipo de ambiente também podem ser encontradas desovas de tracajá e pitiú, embora estas não desovem de forma gregária.
Um dos mais conhecidos na Amazônia é o Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) Tabuleiro do Embaubal, uma unidade de conservação estadual de proteção integral situada no município de Senador José Porfírio, no estado do Pará.
Acácias com 33 meses de vida, em Manaus: as TPAs ou “terras pretas de índio” (TPI), como também são conhecidas, resultam da decomposição de matéria orgânica e do uso de fogo por populações pré-colombianas e continuam sendo criadas por povos atuais. Foto: Tsai Siu Mui/Cena-USP
Um estudo realizado no Amazonascom apoio da FAPESP demonstrou que pequenas quantidades da chamada “terra preta da Amazônia” (TPA), solo antropogênico criado por antigas populações amazônicas, são capazes de aumentar o crescimento em até 55% na altura e 88% em diâmetro do ipê-roxo (Handroanthus avellanedae), árvore que ocorre também na Mata Atlântica.
Pesquisadores coletam amostras de solo e medem tronco de árvores durante experimento com TPA. Foto: Anderson Santos de Freitas/Cena-US
Em uma espécie amazônica, o paricá (Schizolobium amazonicum), o aumento foi de 20% na altura e 15% no diâmetro do tronco. Os resultados são referentes aos primeiros 180 dias de vida das plantas, em comparação com outras das mesmas espécies que não receberam a terra preta.
A pesquisa, publicada na revista BMC Ecology and Evolution, foi conduzida por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em Piracicaba, da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ambos em Manaus.
“O determinante não foi a quantidade de nutrientes em si, que não muda muito, mas os microrganismos, que eram bem diferentes, especialmente os fungos. Nas plantas tratadas com terra preta há uma reorganização da microbiota em torno das raízes, com um recrutamento mais eficiente de microrganismos benéficos e uma redução de patógenos”, explica Anderson Santos de Freitas, primeiro autor do estudo, realizado durante doutorado no Cena-USP com bolsa da FAPESP.
Além de ajudar a reflorestar áreas degradadas e prover serviços ecossistêmicos, as duas árvores analisadas podem ser usadas na exploração sustentável de madeira, principalmente o ipê-roxo.
As terras pretas da Amazônia ou terras pretas de índio (TPI), como também são conhecidas, resultam da decomposição de matéria orgânica e do uso de fogo por populações pré-colombianas e continuam sendo criadas por povos atuais. Leia mais AQUI.
O estudo mostra que as TPAs abrigam um conjunto de bactérias, arqueas e fungos que ajudam as plantas a absorverem os nutrientes e ainda eliminam outros microrganismos oportunistas e patogênicos, tornando o ambiente muito mais favorável para seu crescimento.
“Estudamos as terras pretas há mais de 20 anos e testamos diversas formas de uso. A ideia é entender o que elas têm de melhor para as árvores crescerem mais rápido e mais fortes em áreas degradadas”, conta Tsai.
“Quando se desmata, principalmente para pastagem, a tendência é que o solo seja mal manejado, o que leva a uma perda muito rápida de microrganismos e nutrientes. O objetivo é recuperar a floresta e os serviços ecossistêmicos nessas áreas”, completa.
Protegidas por lei, as terras pretas são reguladas pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGen), órgão colegiado presidido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
“Usamos pequenas quantidades nos experimentos, após obter autorização do CGen. A ideia não é que as pessoas a utilizem diretamente, o que é proibido, mas entender como ela é formada, qual seu conteúdo e quais microrganismos e processos a tornam tão especial. Com isso, poderíamos reproduzi-la ou isolar seus componentes que possam ser úteis”, diz Freitas.
Experimento
Em um estudo anterior, o grupo comparou o crescimento em estufa, com e sem a adição de terra preta, de mudas de outras espécies arbóreas e do capim braquiária (leia mais em: agencia.fapesp.br/41651).
No trabalho atual, foi medido o crescimento das mudas no campo. Para isso, sementes das duas espécies foram cultivadas no viveiro da Embrapa Amazônia Ocidental, em Itacoatiara (AM), em dois tratamentos: terra preta ou fibra de coco.
Após 15 dias, as sementes haviam germinado e se tornado mudas, que foram então transferidas para o campo experimental da mesma instituição, em Manaus. Foram plantadas no solo e não receberam nenhuma adubação ou herbicida, recebendo apenas água da chuva e tendo controle manual de plantas daninhas.
Após seis meses, todas as plantas estavam vivas. Porém, as diferenças das tratadas com TPA foram significativas. No caso dos paricás, embora tenham apresentado um crescimento proporcionalmente menor do que o que ocorreu entre os ipês-roxos, as árvores tinham cerca de 1,5 metro de altura 180 dias depois de as mudas serem transferidas para o campo.
Os pesquisadores observaram no solo das plantas tratadas com terra preta um aumento, principalmente, da diversidade de fungos, mais acentuado no ipê-roxo. A explicação pode ser a grande adaptação do paricá a solos degradados, que faz com que a espécie não demande tantos nutrientes e microrganismos.
“Os fungos respondem mais rápido, por serem microrganismos mais complexos. Com a adição de terra preta, imediatamente há um aumento de matéria orgânica e, portanto, de fungos decompositores, que fazem uma ciclagem mais eficiente dos nutrientes, tornando-os mais disponíveis para as plantas”, detalha Freitas.
Os resultados publicados agora se referem aos primeiros 180 dias de vida das plantas. No total, o experimento durou três anos. Atualmente, os pesquisadores analisam os dados do período completo, que vão resultar em novos trabalhos.
Nos mais de 20 anos estudando as terras pretas, o laboratório liderado por Tsai no Cena-USP tem mais de 200 microrganismos isolados dessas formações, que agora estão sendo analisados quanto às suas funções. A ideia é desenvolver soluções que possam ser aplicadas na recuperação de solos degradados para o reflorestamento.
O trabalho teve apoio da FAPESP ainda por meio de Bolsa de Doutorado no Cena-USP para outro coautor do estudo, Guilherme Lucio Martins.
O artigo ‘Boosting tree growth in the Amazon rainforest using Amazonian Dark Earths‘ pode ser lido AQUI.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por André Julião
Uma nova espécie de besouro foi descoberta no sul da Amazônia peruana por uma equipe internacional de cientistas. Foto: Reprodução/Agência Andina
Uma equipe internacional de cientistas descobriu um total de nove novas espécies de besouros na parte sul da Amazônia peruana, informou a organização ambiental Amazon Conservation (ACCA). Uma das nove espécies descobertas recebeu o nome de Anisopodus forsythi, em homenagem ao naturalista e entomologista Adrian Forsyth, fundador da ACCA.
A descoberta de Anisopodus forsythi faz parte de uma investigação que descreve um novo gênero e nove novas espécies de besouros de chifres longos, “representando um avanço significativo no conhecimento científico sobre esses insetos no sul da Amazônia peruana”, destacou a ACCA.
Adrian Forsyth. Foto: Divulgação/ACCA
A pesquisa foi realizada pelos cientistas latino-americanos Ángelo Ávila-Jiménez, Juan Pablo Botero, Antonio Santos-Silva e Alejandro Lopera-Toro, que combinaram coleta de amostras em campo, revisão de coleções científicas e análises taxonômicas especializadas para identificar e descrever as espécies.
A organização ambiental afirmou que o nome Forsyth reconhece as décadas de trabalho de Adrian Forsyth na promoção da pesquisa científica e da conservação da biodiversidade nos trópicos, bem como sua visão de fomentar espaços onde novas gerações de cientistas possam estudar a natureza em primeira mão.
Papel fundamental dos besouros nas florestas tropicais
Em outra ocasião, a ACCA descreveu que os besouros de antenas longas, pertencentes à família Cerambycidae, desempenham um papel ecológico fundamental nas florestas tropicais.
A organização explicou que suas larvas se desenvolvem na madeira e contribuem para a decomposição de troncos e galhos, um processo essencial para a reciclagem de nutrientes e a manutenção da saúde do ecossistema.
Algumas espécies chegam a carregar outros invertebrados sob suas asas, que precisam delas para percorrer longas distâncias entre diferentes pedaços de madeira, demonstrando a complexidade das interações dentro da floresta.
Foto: Divulgação/ACCA
A ACCA argumentou que, além da descoberta de novas espécies, a pesquisa fornece informações essenciais sobre a diversidade desses insetos no sul do Peru e o posiciona como o quarto país com a maior diversidade de besouros da família Cerambycidae na América do Sul.
Este trabalho também representa a primeira lista abrangente de 137 espécies de besouros dessa família para a região de Cusco. A maioria dos espécimes analisados foi coletada durante pesquisas realizadas na Estação Biológica de Conservação da Amazônia (ACCA) de Manu, localizada no Vale de Kosñipata, em Cusco.
Por fim, mencionou que a pesquisa foi possível graças ao apoio da Biome Conservation, por meio de seu programa de bolsas para jovens cientistas, cujo financiamento permitiu o trabalho que levou à descoberta e documentação dessas espécies.
As aulas despertam o interesse pela tecnologia e inovação desde cedo. Foto: Divulgação/PMBV
Nesta terça-feira, 24, teve início mais uma edição do curso de Robótica Educacional promovido pela Prefeitura de Boa Vista, por meio da Agência Municipal de Empreendedorismo (AME). As aulas ocorrem às terças e quintas-feiras no Centro Municipal de Inovação (CMI), bairro Mecejana, onde as manhãs e tardes se enchem de criatividade e descobertas.
Ao todo, cerca de 120 crianças, entre 9 e 14 anos, mergulham em um universo onde aprender envolve construir, testar, errar e tentar de novo. A proposta é despertar desde cedo o interesse pela tecnologia e inovação. De início, os olhos atentos já revelam o impacto.
“Esse é o meu primeiro contato com a robótica. Está sendo uma experiência legal e diferente”, contou Isabela Souza Costa, de 9 anos.
Em meio à turma, Isabela se destaca. É a única menina. O que torna a experiência ainda mais especial. Foto: Divulgação/PMBV
Para Isaac Alves Barbosa da Silva, de 12 anos, cada peça montada é uma conquista. “Eu estou conhecendo um monte de coisa que antes eu não sabia. Quero aprender a montar robôs e fazer sistemas”, disse.
Ao longo de 40 horas, os alunos aprendem lógica, programação e, principalmente, a trabalhar em equipe. Comunicação, cooperação e criatividade são tão importantes quanto qualquer circuito montado.
O projeto já soma uma década de transformação. “Desde 2016, a robótica educacional vem moldando jovens talentos em Boa Vista, com dois editais por ano e a missão de fazer com que cada criança saia melhor de como entrou”, resume o coordenador Pedro Ribeiro.
Cerca de 120 crianças estão matriculadas na primeira turma de robótica educacional de 2026. Foto: Divulgação/PMBV
Os alunos mais dedicados têm a chance de integrar equipes de competição, como a elite I’Robot e representar a capital em desafios nacionais. Este mês, a equipe participou da etapa nacional da FIRST LEGO League Challenge, o maior torneio de robótica do país.
A competição ocorreu durante o Festival Sesi de Robótica, na Fundação Bienal, localizada no Parque do Ibirapuera (SP). A programação contou com torneio, desafios e diversas atrações interativas voltadas à tecnologia e inovação.
Búfalos são considerados invasores. Foto: Reprodução/Acervo NGI Cautário-Guaporé
A Justiça Federal determinou que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) suspenda imediatamente o abate experimental de búfalos invasores que vivem em reservas ambientais de Rondônia. Em caso de descumprimento, será aplicada multa diária de R$ 100 mil.
O projeto foi iniciado na segunda-feira (16). O objetivo é abater 10% da população de búfalos, atualmente estimada em 5 mil cabeças, para elaborar um plano de erradicação da espécie invasora.
No entanto, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma petição na Justiça Federal, em um processo que já está em andamento, pedindo a suspensão das atividades.
O órgão alega que a área abrangida pela operação se sobrepõe a territórios de ocupação tradicional de povos indígenas e comunidades quilombolas e que esses povos não foram consultados sobre a ação.
Em 2025, o MPF moveu uma Ação Civil Pública para obrigar o ICMBio e o Estado de Rondônia a implementar medidas urgentes de controle do búfalo asiático. O órgão pede também uma indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, a ser destinada a ações de reflorestamento nas unidades de conservação estaduais e federais em Rondônia. O processo tramita na 2ª Vara Federal Cível e Criminal Seção Judiciária de Ji-Paraná (RO).
Na decisão, o juiz Frank Eugênio Zakalhuk aponta que já havia uma decisão anterior que permitia apenas elaborar o plano de controle, não o abate
O ICMBio defende que não há como elaborar um plano de erradicação sem uma pesquisa de campo como a que estava em andamento. Segundo o Instituto, a iniciativa cumpre determinação da Justiça Federal para a adoção de medidas imediatas para controle e erradicação dos búfalos.
Além de determinar a suspensão do abate, a Justiça Federal ordenou que:
seja fixada uma multa diária de R$ 100 mil em desfavor do ICMBio e do Estado de Rondônia, solidariamente, em caso de descumprimento da determinação de suspensão imediata das operações;
o ICMBio apresente, no prazo de cinco dias, cópia integral do projeto piloto de controle e erradicação da espécie invasora Bubalus bubalis que fundamenta as operações em curso;
a Funai se manifeste, em até cinco dias, sobre a situação territorial das comunidades indígenas afetadas, os impactos das operações e a necessidade de realização de consulta prévia.
O Grupo Rede Amazônica entrou em contato com o ICMBio, o Estado de Rondônia e a Funai pedindo posicionamento sobre a decisão recente, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Por que os búfalos estão sendo abatidos?
Como não são nativos do Brasil, os búfalos não possuem predadores naturais. Soltos e se reproduzindo sem controle, eles provocam graves impactos, como a extinção de espécies da fauna e da flora nativas e alteração no curso dos campos naturalmente alagados, que fazem parte da biodiversidade local.
Foto: Vinicius Assis/ Rede Amazônica RO
De acordo com o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido, o abate é, no momento, a única alternativa viável para resolver a questão. Como a região é isolada e de difícil acesso, não existe logística possível para retirar os animais vivos ou mortos. Além disso, como se desenvolveram sem controle sanitário, a carne não pode ser aproveitada.
Atualmente, os animais vivem entre a Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, a Reserva Extrativista (Resex) Pedras Negras e a Reserva de Fauna (Refau) Pau D’Óleo, no oeste de Rondônia, uma região de encontro entre três biomas: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado.
As reservas biológicas são a categoria de proteção ambiental mais restritiva em Rondônia. As únicas atividades permitidas nessas áreas são a educação ambiental e pesquisas científicas. No entanto, algumas famílias ainda vivem nesses locais, pois já residiam ali antes da criação das unidades de conservação.
“É um ambiente único, com várias espécies endêmicas [nativas] e a presença do búfalo vai levar à extinção de várias delas. Algumas espécies que a gente só tem registros aqui, sejam elas residentes ou migratórias”, explica o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido.
*Por Jaíne Quele Cruz e Vinicius Assis, da Rede Amazônica RO
Ação está na 26ª operação pelo estado com uma equipe multiprofissional que tem como objetivo levar saúde as comunidades isoladas, através do chamado ‘Navio Esperança’. Foto: Reprodução/Acervo Marinha do Brasil
Com consultas médicas, odontológicas e até pequenas cirurgias gratuitas, o Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Doutor Montenegro, da Marinha do Brasil, começou os atendimentos nesta terça-feira (24) em Mâncio Lima, interior do Acre.
Ao todo, seis municípios do Vale do Juruá devem receber os atendimentos durante a Operação Ícaro, que iniciou 9 de fevereiro em Cruzeiro do Sul. A expectativa é de que sejam atendidos mais de mil moradores apenas durante a operação.
À Rede Amazônica Acre, o comandante do navio, Marcelo Camerino da Silva de Souza, contou que a ação está na 26ª operação pelo estado com uma equipe multiprofissional que tem como objetivo levar saúde as comunidades isoladas, através do chamado ‘Navio Esperança’.
“O navio de assistência hospitalar lançou a Operação Ícaro levando saúde a quem mais precisa. Com isso, profissionais de saúde do navio estão sendo deslocados por caminhonete, lancha e aeronave, garantindo atendimento mesmo nas áreas mais remotas da região”, disse.
Os atendimentos começam a partir de 8h por ordem de chegada. Conforme o comandante, a expectativa é que, assim como em 2024, sejam feitos cerca 1.080 atendimentos na missão até o mês abril. Ao longo da missão, conforme o comandante, os atendimentos devem ficar entre 15 mil a 20 mil na região.
O comandante disse ainda que essa é a primeira vez da ação em Jordão, uma das cidades isoladas do Acre. Segundo ele, parte da equipe ficará na base montada de Cruzeiro do Sul para continuar atendendo as mulheres que queiram fazer o exame de mamografia ou precisem de pequenas cirurgias que devem ser feitas no Hospital da Mulher do Juruá.
No primeiro mês foram atendidos 1.313 ribeirinhos de comunidades isoladas e mais de 56.132 medicamentos distribuídos. A ação ocorre em parceria com o Ministério da Saúde, tendo na equipe médicos, dentistas, farmacêuticos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.
“Além dos atendimentos médicos, temos o mais importante, o paciente recebe o remédio para continuar fazendo o seu tratamento. Além de poder fazer raio-X, ser vacinado e as mulheres fazerem a mamografia”, concluiu o comandante.
Veja como será a agenda dos serviços do navio:
Terça, 24 de março – Mâncio Lima;
Quarta, 25 de março – Rodrigues Alves;
Quinta a sábado, 26 a 28 de março – Porto Walter;
Segunda e terça, 30 e 31 de março – Miritizal (à margem do Rio Juruá);
1 a 3 de abril – Marechal Thaumaturgo;
4 de abril – Jordão.
*Por Walace Gomes e Carla Carvalho, da Rede Amazônica AC