Foto: Nathielly Martins
O ano de 2024 entrou para a história como um dos mais devastadores para a Amazônia em períodos recentes. Dados do Observatório Regional Amazônico (ORA), da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), mostram que cerca de 15,5 milhões de hectares de floresta foram atingidos por queimadas — área superior à dos estados do Amapá ou do Ceará.
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Por trás dos números, uma combinação de fatores explica a dimensão do impacto. O fenômeno El Niño intensificou os períodos de estiagem no Norte do país, deixando a vegetação ressecada e altamente suscetível ao fogo. Ao mesmo tempo, o desmatamento acumulado por vários anos fragmentou a cobertura florestal, criando bordas expostas que amplificaram a propagação das chamas.
Com a normalização do regime de chuvas na região, o número caiu de forma expressiva em 2025, quando a área afetada por queimadas foi de pouco mais de 3 milhões de hectares. No entanto, as projeções meteorológicas apontam para um retorno do fenômeno em 2026, tornando a floresta novamente vulnerável a longos períodos de seca, o que favorece os incêndios florestais.
Um estudo inovador desenvolvido ao longo de 20 anos por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em parceria com a Universidade Yale, nos Estados Unidos, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e outras instituições do Brasil e do exterior, lançou mão de um procedimento pouco usual para analisar os efeitos das queimadas e de outras intempéries, como secas intensas e tempestades de ventos, sobre a floresta amazônica.
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De forma experimental e cumprindo todas as exigências ambientais dos bombeiros e da Defesa Civil, porções de floresta localizadas no leste de Mato Grosso foram submetidas a sucessivas queimadas controladas, com o objetivo de verificar quais seriam os impactos e como se daria a recuperação florestal.
A principal hipótese, bastante conhecida mesmo fora do universo científico, era a de que as mudanças climáticas e os efeitos do fogo sobre a Amazônia fariam com que a floresta se tornasse, progressivamente, uma savana, com características mais próximas de biomas como o Cerrado. Porém, estudos recentes têm encontrado indícios de que a ideia não se sustenta.
Após um ciclo de seis anos de queimadas experimentais e outros 14 anos de observações sobre como as áreas se regeneram, os biólogos chegaram a conclusões que corroboram o que já era observado: o processo de regeneração leva o bioma a apresentar características ainda de floresta tropical, bem diferentes de uma savana, embora com aspectos distintos dos encontrados nas espécies amazônicas.

Apesar de se recuperarem, as áreas passaram a ficar mais vulneráveis a novos episódios de queimadas e outras situações de estresse biológico, principalmente nas bordas florestais, onde há maior contato com o entorno desmatado. Isso é uma evidência dos riscos de fragmentação das áreas de cobertura florestal, fenômeno que decorre do avanço das fronteiras agrícolas, principalmente nas porções sul e sudeste da Amazônia.
Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), dos Estados Unidos. O Jornal da Unicamp conversou com dois dos autores do trabalho, o pesquisador da Universidade Yale Leandro Maracahipes, que desenvolveu a pesquisa durante seu pós-doutorado na Unicamp, e o professor do IB Rafael Oliveira.
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Fogo contra fogo

O estudo foi conduzido em três áreas de 50 hectares cada uma, localizadas na Estação de Pesquisa Tanguro, no município de Querência (MT), cerca de 700 km a nordeste de Cuiabá, em uma zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Uma das áreas sofreu queimadas anuais entre 2004 e 2010, exceto no ano de 2008. Na segunda área, o fogo foi trienal, com queimadas em 2004, 2007 e 2010. Já a terceira área, de controle, não foi submetida a queimadas.
“O planejamento começava com mais de seis meses de antecedência. Como o fogo tinha que ser colocado no auge do período seco, no meio do ano, todo o processo era iniciado em janeiro”, lembra Maracahipes.
Os levantamentos prévios incluíram um inventário florestal das áreas, com a identificação das espécies encontradas e o registro da altura, diâmetro e posição das árvores — se mais próximas das bordas ou do interior — e se eram espécies pioneiras, que apresentavam reprodução e crescimento mais rápido, mas uma vida mais curta, ou tardias, de crescimento mais lento e vida mais longa.
Depois dos episódios de queimadas, os estudos focaram em avaliar a capacidade de resistência das espécies contra o fogo — e também diante dos períodos de seca e tempestades de vento ocasionais —, bem como sua resiliência para recuperação.
Os biólogos verificaram a composição de espécies e sua distribuição entre bordas e interior, seus atributos funcionais, como a densidade da madeira, espessura da casca e altura, e características hidráulicas, para analisar sua vulnerabilidade a períodos de seca. Também repetiram as mesmas análises de inventário feitas antes do fogo.
Segundo os pesquisadores, o trabalho com um grande número de espécies foi um diferencial da pesquisa, que possibilitou estabelecer generalizações de forma mais precisa.
“Geralmente, as pessoas trabalham com poucas espécies, até dez. Nossa amostragem chegou a 53 espécies nas medidas hidráulicas e entre 80 e 90 nas características gerais”, comenta Maracahipes.
Ao final dos períodos de fogo, a equipe fez registros das espécies encontradas, comparando a situação entre 2011 e 2024. De uma forma geral, no interior das áreas, a riqueza de espécies permaneceu constante.
Já na região das bordas, embora a vegetação tenha se recuperado em 2024, a riqueza de espécies ainda permanecia 31,3% menor onde ocorreram queimadas anuais, e 50,8% menor onde foram realizadas queimadas trienais, quando comparada com o período antes do fogo.
“As queimadas com maior intervalo tiveram um impacto muito maior, porque houve tempo de a biomassa dos espécimes que morreram se acumular no local. Em um segundo evento de fogo, há mais biomassa acumulada para ser queimada”, explica o biólogo.

No que diz respeito à composição das áreas, no espaço de queimadas anuais, a proporção de espécies pioneiras em relação às tardias aumentou de 17,1% para 59%; na área de queimadas trienais, de 21,6% para 72,6%. Nas regiões de bordas, a proporção de espécies pioneiras é bem maior, chegando a 80,3% nas áreas de queimada anual e 93,3% nas de fogo trienal.
Isso se explica pelo contexto de recuperação das duas áreas, mas tem como consequência uma capacidade menor de estoque de carbono, por conta das próprias características dessas novas espécies, identificadas após o período de recuperação: árvores mais baixas, com madeira de menor densidade, folhas mais estreitas e casca mais fina.
Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi uma redução de espécies chamadas especialistas, com características próprias do ambiente da floresta tropical, e um aumento de espécies generalistas, aspecto também associado à proximidade da zona de transição com o Cerrado.
“A floresta conseguiu se recuperar, mas em uma nova configuração. Devemos ter essa visão de que a Amazônia é formada por muitas florestas, cada uma com seu conjunto de características de estrutura, funcionamento e composição”, avalia Maracahipes.
A presença de gramíneas nas áreas também foi avaliada. Nos primeiros períodos de recuperação, quando as espécies ainda estavam crescendo, houve domínio de gramíneas, principalmente a Aristida longifolia, nativa do Cerrado, e depois a Andropogon gayanus, utilizada em pastagens. Conforme as árvores foram se recuperando e suas copas se recompuseram, a cobertura de gramíneas diminuiu, o que é positivo.
Segundo os biólogos, uma maior cobertura de gramíneas representa mais vulnerabilidade a novos episódios de queimadas. Ainda assim, a média dessa cobertura nas duas áreas foi calculada em 12% ao final do período, enquanto na área de controle, que não sofreu com as queimadas, permaneceu abaixo de 1%.
Contrariando hipóteses
Os pesquisadores contam que a hipótese inicial do projeto era de que, com os episódios de fogo, a recuperação das áreas se converteria em um processo de savanização, inclusive pela proximidade com o Cerrado. Porém, os resultados indicaram um terceiro caminho, apontando para uma nova configuração florestal, diferente do Cerrado, mas também distinta do que se conhece da Amazônia.
“A floresta mudou ao longo desse tempo e agora ela tem uma nova cara. Nesse estudo, analisamos suas características funcionais, que não são facilmente reveladas por análises convencionais”, pontua Oliveira.
O docente afirma que a hipótese de savanização ganhou força devido ao predomínio de estudos sobre a Amazônia baseados em modelos conduzidos por climatologistas. “Esses modelos partem do princípio de que o clima é o fator dominante e assumem que existem limiares a partir dos quais a floresta colapsa. Só que a biologia não funciona de forma tão simples”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o bioma é mais resiliente do que esses cenários sugerem.
“A dinâmica ecológica envolve uma rede complexa de interações, que os modelos não conseguem capturar plenamente. Quando testamos isso experimentalmente, vemos que a realidade pode ser diferente.” Ainda assim, ele alerta que isso não diminui a gravidade da degradação. “Os impactos são profundos, e o fato de haver alguma capacidade de recuperação não significa que podemos continuar degradando a floresta.”
Maracahipes alerta que é necessário prestar atenção às condições das bordas das áreas submetidas ao estudo, pois os efeitos negativos foram muito mais intensos nelas em comparação com seu interior, o que dificulta sua recomposição.
De acordo com o biólogo, fenômenos como a fragmentação da cobertura florestal por conta de atividades agroextrativistas ampliam essas zonas de borda, tornando a floresta mais vulnerável. “Não é apenas essa floresta que queimamos que está mudando, mas a região como um todo está sendo alterada e queimando cada vez mais.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Felipe Mateus
