Meta principal é impulsionar produção, armazenamento, processamento, escoamento e a comercialização de alimentos produzidos na região amazônica. Foto: Vitor Vasconcelos/Secom-PR
O Governo do Brasil, por meio de uma ação interministerial coordenada, lançou o projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva”. A iniciativa, que visa fortalecer atividades produtivas baseadas na bioeconomia e ampliar o mercado de alimentos da agricultura familiar sustentável na Amazônia, será financiada com R$ 96,5 milhões provenientes do Fundo Amazônia.
O objetivo é melhorar e garantir o acesso de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares aos mercados de alimentos e de produtos da sociobiodiversidade.
Os recursos serão investidos ao longo de dois anos e fortalecerão o fornecimento de alimentos ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Também vão permitir que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) enriqueça o cardápio regional com produtos como pirarucu, pescada-amarela, tambaqui, matrinxã, jaraqui, castanha-do-Pará, borracha extrativa, babaçu, mel, cacau, cupuaçu e outros.
Os beneficiários serão os agricultores familiares dos nove estados que compõem a Amazônia Legal – Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão.
Produtos
O projeto busca otimizar e assegurar a eficiência, qualidade e sustentabilidade de todas as etapas da produção, desde a matéria-prima até o consumidor final. Serão contemplados produtos como açaí, castanha-do-Brasil, frutas diversas, farinha de mandioca e pescados artesanais, que unem o uso sustentável da natureza com a identidade cultural de cada território.
A iniciativa tem como meta principal impulsionar a produção, o armazenamento, o processamento, o escoamento e a comercialização desses alimentos produzidos por ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas e outros grupos tradicionais da região amazônica.
A execução da iniciativa será conjunta, envolvendo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), gestor do Fundo Amazônia. O programa tem o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA); Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
Com a participação do MMA, contrato foi assinado entre BNDES e a Conab. Foto: Rogério Cassimiro/MMA
Seleção
Os projetos desenvolvidos pelas organizações de povos indígenas, tradicionais e agricultores familiares (PIPCTAFs) serão selecionados por meio de uma chamada pública. O “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva” prevê pelo menos 32 projetos, cada um com valor de até R$ 2,5 milhões. Os recursos poderão ser aplicados em logística, infraestrutura para armazenamento dos produtos e acesso à energia renovável, entre outros investimentos necessários para acessar o mercado formal de alimentos.
CONAB
As nove superintendências regionais da Conab na Amazônia Legal serão apoiadas com infraestrutura de tecnologia da informação e veículos para melhorar a execução de políticas de fomento à produção sustentável. A sede da Conab, em Brasília, também receberá reforço na infraestrutura de rede, garantindo a operacionalização dos sistemas e informações necessários para implementar as políticas públicas na região.
Desenvolvimento do ‘Amazônia Viva’
Para o diretor-presidente da Conab, Edegar Pretto, o projeto consolida um legado para quem vive na floresta.
“É um legado que nós, do governo brasileiro, precisamos deixar para esse público da floresta. Os produtos da sociobiodiversidade merecem a visibilidade que têm outros produtos, como as commodities, também produzidas no nosso Brasil. Nós queremos que o desenvolvimento seja para todos e ninguém fique para trás”, afirmou.
Sinergia
Segundo a diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, o Fundo Amazônia é um instrumento de política pública que hoje integra combate ao desmatamento, inclusão produtiva e geração de renda. “Estamos somando aqui nesse novo projeto, criando toda uma sinergia para que a agenda ambiental e a agenda da sociobiodiversidade possam ser estruturadas e tenham mais um salto estratégico de qualidade”, afirmou.
Preservação
O ministro do MDA, Paulo Teixeira, destacou o compromisso do Governo do Brasil com a preservação ambiental. “O nosso presidente Lula sempre teve dois grandes compromissos, o primeiro deles com o meio ambiente. O governo conseguiu diminuir o desmatamento em patamares que nós nunca tivemos no país, e o outro, o de pensar na sociobiodiversidade, preservar a floresta e no desenvolvimento das pessoas que moram na Amazônia”, disse o ministro.
A secretária Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Lilian Rahal, ressaltou que a atuação integrada entre ministérios é importante para garantir direitos e renda aos povos tradicionais da Amazônia.
“Temos feito esse esforço dos diferentes ministérios aqui presentes para que nós tenhamos ações efetivas de garantia de condições de vida para essas populações e não só boas condições de vida, mas também geração de renda e uma economia que permita uma situação razoável de convivência com aquele ambiente”, ponderou.
O escritor amazonense Milton Hatoum, eleito para a Cadeira nº 6 do Quadro dos Membros Efetivos da Academia Brasileira de Letras (ABL), lançou no dia 14 de dezembro em Manaus (AM), os livros ‘Dança de enganos’ (Companhia das Letras) e ‘A natureza como ficção’ (Valer).
Em ‘A natureza como ficção’ (2024), Hatoum analisa como a floresta amazônica é retratada em ‘A selva’, de Ferreira de Castro, e ‘Mad Maria’, de Márcio Souza.
O autor destaca o contraste entre barbárie e cultura e chama atenção para a vida dos nativos e dos trabalhadores vindos de fora, envolvidos na construção da ferrovia Madeira-Mamoré e na exploração da borracha.
A obra incentiva a leitura dos dois escritores, que, em épocas diferentes, narraram de forma sensível as peculiaridades da Amazônia.
Capa do livro ‘A natureza como ficção’, de Milton Hatoum. Foto: Reprodução/ facebook-@editoravaler
Capa do livro ‘Dança de enganos’, escrito por Milton Hatoum. Foto: Reprodução/ Amazon
Já ‘Dança de enganos’ (2025) é um drama familiar marcado por contexto histórico e político. O livro aborda amor, perdas e desencontros, narrados pela voz de uma personagem resiliente.
Ambientado no fim dos anos 1960, o romance é conduzido por Lina, mãe de Martim. No cenário da ditadura, ela enfrenta o afastamento do filho e decide escrever sua história.
Ao longo da narrativa, Lina revisita sua vida e a de pessoas próximas, como o irmão Dácio, a mãe Ondina, a empregada Delinha e o artista Leonardo.
O livro apresenta personagens marcados por perdas e desencontros.
Martim, protagonista de ‘A noite da espera’ e ‘Pontos de fuga’, aparece na obra pela ausência sentida pela mãe. Lina escreve sobre ele e levanta a questão central: a memória escolhe o que esquecer?
Milton Hatoum nasceu em Manaus (AM) em 1952. Formado em arquitetura pela Universidade de São Paulo, estreou na literatura com Relato de um certo Oriente (1989), vencedor do prêmio Jabuti. Entre suas obras estão ‘Dois irmãos’ (2000), adaptado para TV, teatro e quadrinhos, e ‘Cinzas do Norte’ (2005), premiado em diversas categorias.
Também publicou ‘A cidade ilhada’ (2006), ‘Órfãos do Eldorado’ (2008), ‘Um solitário à espreita’ (2013) e ‘A noite da espera’ (2017). Sua obra já foi traduzida em 14 países e, em 2018, recebeu o prêmio Roger Caillois, na França.
Criança bebe água filtrada na escola da comunidade indígena de Yomibato, no Parque Nacional de Manu, Peru. Foto: Glenn Shepard/Rainforest Flow
As mudanças climáticas precisam estar na agenda das políticas públicas de saúde. Isso ficou evidente durante o encontro “Mitigação do impacto das mudanças climáticas na saúde pública por meio da abordagem de saúde única”, ocorrido no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), durante a Conferência das Partes (COP30).
Especialistas de diferentes partes do mundo relataram como o equilíbrio sistêmico mantém a saúde global e trouxeram exemplos de como doenças infecciosas, especialmente as transmitidas por vetores, e as zoonoses representam uma preocupação internacional, pela alta prevalência, pelos graves impactos à saúde e à economia e pelas ligações com os efeitos do clima.
O relator do evento, Glenn Shepard, doutor em antropologia médica e pesquisador do MPEG, destacou que o grupo construiu uma minuta de “declaração de consenso dos especialistas”, que, basicamente, fala da necessidade de reconhecer a conexão entre a saúde planetária e a ambiental. A pesquisa do antropólogo também contempla essa questão.
Participaram da discussão – que se deu de forma híbrida no dia 12 de novembro, com reunião presencial no Campus de Pesquisa do MPEG, em Belém-PA – especialistas de diferentes países (como China, Filipinas, Indonésia, Marrocos e Brasil), entre os quais:
Minghui Ren, vice-presidente da Associação Chinesa de Medicina Preventiva (CPMA) e diretor do Instituto de Saúde Global;
Hannah Marcus, coordenadora do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente e Saúde da Federação Mundial de Associações de Saúde Pública;
Luis Eugenio de Souza, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia;
Mayumi Duarte Wakimoto, chefe de Vigilância em Saúde do Instituto Nacional de Infecções Evandro Chagas;
e Christovam Barcellos, pesquisador sênior do Observatório de Clima e Saúde do ICICT, Fundação Oswaldo Cruz.
De acordo com o relator do encontro, já é um consenso entre os estudiosos da saúde única (one health) o fato de que, quando a biodiversidade se perde, aumentam os riscos. Sabe-se que as mudanças climáticas influenciam significativamente a disseminação e a dinâmica de transmissão das doenças. Isso ocorre em decorrência da alteração dos padrões de temperatura, da precipitação, da umidade, da ocorrência de inundações e de secas, porque esses eventos afetam a ecologia dos vetores, as interações com os hospedeiros e os habitats.
Foto: Andréa Batista/MPEG
Impactos à nutrição e à saúde
Por exemplo, é fato que as abelhas têm um papel importante na polinização de uma diversidade de plantas e, consequentemente, na nutrição humana, e sabe-se que o desmatamento e a monocultura é uma ameaça às espécies. “Sem as abelhas, a gente não come”, frisou Glenn Shepard.
Um outro cenário amplamente citado no encontro foi o das mudanças climáticas, especialmente o efeito do aumento da temperatura, mudando o comportamento de doenças, como malária e dengue, e a fragmentação do habitat dos animais alterando as relações entre predadores e presas e impactando a saúde humana.
“A expansão da dengue é um exemplo dos efeitos das alterações climáticas à saúde. Os pesquisadores apontaram o avanço dos assentamentos humanos nas florestas, o armazenamento de água por causa da seca e das cheias e o aumento de temperatura fazendo o ciclo de vida do mosquito ficar mais curto e, consequentemente, aumentando a transmissão da doença. Em relação à malária, os dados apontam que as mortes globais diminuíram entre 2000 e 2023 devido a ações de prevenção, mas, a partir de 2023, começaram a subir de novo. O aumento de eventos climáticos extremos, da seca extrema aumenta a transmissão de malária, devido aos impactos em algumas espécies de carapanã, por exemplo”.
O que os estudiosos defendem é uma abordagem multidisciplinar envolvendo ciência climática, biologia de vetores, saúde pública e conservação. Isso tudo com políticas coordenadas em níveis nacional e internacional.
“A fala de Carlos Nobre (cientista e meteorologista renomado), no encerramento da programação do Museu Goeldi na COP30, também reacende a preocupação sobre a possibilidade de que alguma doença que, hoje, é endêmica na Amazônia e restrita a lugares remotos possa escalar e se tornar a próxima pandemia global, devido à violência contra o bioma, ao desmatamento, ao tráfico ilegal de madeira de animais, à expansão da agropecuária e à extração desordenada de ouro, aliado ao aumento do fluxo de gente nesses lugares remotos”, alertou.
Custos da destruição
O pesquisador Glenn Shepard lembrou, ainda, que, durante o encontro, os especialistas em saúde única comentaram sobre os custos econômicos com a perda da biodiversidade e que como eles impactam a saúde humana e ecossistêmica. Segundo ele, estima-se que essa perda chegue a até 25% do produto bruto global. Paradoxalmente, os pesquisadores apontaram que há 1,7 trilhões de dólares em subsídios para atividades que contribuem para a destruição, como petróleo, agricultura não sustentável etc.
“Então, é como se os governos estivessem pagando pela destruição da saúde. Essa é a contradição. Nesse sentido, houve alguns encaminhamentos no sentido de expandir o conhecimento sobre saúde única. No Brasil, essa abordagem está crescendo, ganhando tração entre os pesquisadores em saúde pública, mas não entre os médicos e não entre os políticos”, disse.
Por outro lado, o grupo discutiu a preocupação com o alto uso de antibióticos na pecuária, que teria o efeito de aumentar a resistência de micróbios. Estima-se que esse uso vai aumentar em 30% até 2040. Para os especialistas, as mudanças climáticas geram condições ao espalhamento de organismos resistentes (humanos e de rebanhos). Cerca de 100 países, incluindo a China, já teriam iniciativas vinculadas à pecuária sustentável, com redução do uso de drogas, promoção de conexões entre produção de alimentos, incentivos econômicos e sistemas. O grupo discutiu como essas práticas poderiam inspirar a agropecuária mais sustentável no Brasil.
Glenn Shepard, pesquisador do Museu Goeldi, relatou encontro de especialistas que ocorreu durante a COP30. Foto: Andréa Batista/MPEG
Encaminhamentos
Para o doutor em antropologia médica o encontro ocorrido durante a COP não encerrou a discussão em torno da necessidade de se pensar a saúde de forma integrada. Pelo contrário, acendeu a preocupação e levantou alguns possíveis encaminhamentos, como a necessidade de que cientistas e sociedade civil possam atuar na sensibilização de governos para dar andamento a políticas de estabilização climática como uma forma de contribuir para a saúde dos seres humanos e animais e dos ecossistemas; a construção do documento com recomendações e princípios pactuados pelos especialistas em saúde única; e de criação de museus de saúde única em cada bioma, com o Museu Goeldi como possível espaço para essa iniciativa na Amazônia.
Em relação à minuta da “declaração de consenso dos especialistas”, Glenn Shepard explicou que foi uma construção durante o evento a fim de reforçar a abordagem em relação à saúde única nas respostas às mudanças climáticas.
“Houve uma sugestão, pelos especialistas brasileiros, de entregar esse documento ao Ministério da Saúde, que, diferente do que ocorre em outros países, está aberto a abordagens de saúde complementar mais holísticas, tanto no sentido de incorporar a medicina ayurvédica, a medicina indígena, a medicina chinesa, a medicina tradicional brasileira, quanto a essas abordagens de saúde única. Há uma expectativa de que essa visão seja fortalecida”, avaliou o pesquisador do Museu Goeldi, Glenn Shepard.
Entre os pontos consensuados:
está o fortalecimento de estruturas de governança que facilitem a coordenação entre os setores de saúde humana, saúde animal, meio ambiente e social, para desenvolver estratégias abrangentes de mitigação, e não apenas respostas de adaptação;
como também o estabelecimento de plataformas e mecanismos que promovam a troca contínua de conhecimento e o compartilhamento de boas práticas na implementação do One Health;
a construção de parcerias entre governos, organizações internacionais, instituições acadêmicas, sociedade civil e entidades do setor privado para aproveitar a expertise e os recursos coletivos para uma implementação eficaz da saúde única;
o investimento em pesquisa e inovação que avancem nossa compreensão das interconexões clima-saúde;
e o estabelecimento de mecanismos abrangentes de monitoramento e avaliação para avaliar a relação custo-efetividade das intervenções One Health na mitigação climática e orientar a melhoria contínua.
O pesquisador Glenn Shepard vem observando as implicações da saúde animal na saúde humana, o que tem relação com essa abordagem de saúde única. No Museu Goeldi desde 2009, o antropólogo tem trabalhado nas áreas de etnologia indígena, etnoecologia e etnobiologia, e antropologia médica com povos tradicionais da Amazônia. Integrante do projeto Rainforest Flow, que atua no Peru, ele observou as mudanças na saúde de comunidades após a implantação de tanques de filtragem de água que funcionam basicamente com pedras e areia.
Em dado momento da pesquisa, ficou evidente para Glenn Shepard que não adiantava apenas cuidar das pessoas com medicação e água potável, sem cuidar dos animais e do meio ambiente. Segundo ele, enquanto os dados epidemiológicos apontavam para a diminuição de doenças de veiculação hídrica, como diarreias, por exemplo, eles mostravam um aumento das zoonoses (doenças transmitidas por animais).
“Os estudos precisam se aprofundar, mas os dados apontavam para a necessidade de que, junto ao tratamento dos humanos, era necessário fazer uma intervenção veterinária e de higiene, pois o ambiente favorecia a contaminação e a recontaminação de algumas doenças, principalmente, das zoonoses”, disse.
O nstituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu, na RPI nº 2865 do dia 2 de dezembro, o registro de Indicação Geográfica (IG), na espécie Indicação de Procedência (IP), para o mel de Boa Vista do Ramos, no Amazonas.
Com o novo reconhecimento, o Brasil passa a contar com 159 IGs registradas: 41 Denominações de Origem (DO), sendo 31 nacionais e 10 estrangeiras, e 118 IPs (117 nacionais e 1 estrangeira).
Localizado na região amazônica, o município de Boa Vista do Ramos se beneficia da maior biodiversidade do mundo, marcada pelo clima quente, floresta densa e flora abundante. Esse ambiente favorece a criação de abelhas nativas, que têm papel fundamental no equilíbrio ambiental, atuando na polinização e na dispersão de sementes.
Entre elas estão os Meliponíneos, abelhas indígenas sem ferrão que constroem seus ninhos em troncos ocos ou no solo e são típicas de regiões tropicais e subtropicais.
Terra do Mel
A meliponicultura tem grande relevância econômica e ambiental no Amazonas. Há registros de quase 200 espécies na região, e mais de 40 municípios produzem o derivado, mas Boa Vista do Ramos se destaca nacionalmente, sendo reconhecida como a Terra do Mel.
O município reúne vegetação favorável, grande diversidade de espécies e alta produtividade, tornando-se o maior produtor do Brasil. A atividade beneficia diversas famílias, gera renda e contribui diretamente para a conservação da vegetação e o aumento da produção de pomares.
O reconhecido pelo INPI é produzido em meliponários de terra firme e áreas de várzea, exclusivamente por abelhas indígenas sem ferrão, como a Melipona seminigra (jandaíra) e a Melipona interrupta manauense (jupará). O produto apresenta características sensoriais próprias, como leve acidez, aroma marcante e coloração única, resultantes das floradas da região.
A tradição local também impulsionou o desenvolvimento de eventos ligados ao setor, como a Festa do Trabalhador e a Feira que celebra a produção, que reforçam a notoriedade do município. O reconhecimento da atividade levou ainda à instalação da primeira Casa do Mel do Amazonas dentro dos padrões exigidos por lei, equipada de acordo com as normas sanitárias e habilitada pelo Serviço de Inspeção Estadual (SIE) para a comercialização do produto.
Manguezais da costa do Amapá recebem nova campanha de monitoramento. Foto: Alessandra Lameira/ICMBio
A costa do Amapá recebeu no início deste mês uma nova campanha de monitoramento dos manguezais da Ilha de Maracá. Técnicos coletaram informações sobre a vegetação e sobre a população de caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie típica da região.
A ação foi realizada na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, unidade gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O trabalho contou com apoio da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) e integra o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora).
O objetivo é avaliar a saúde dos ecossistemas e acompanhar possíveis mudanças ambientais ao longo do tempo, verificando se as áreas estão preservadas ou apresentam sinais de impacto. Esta foi a 8ª edição da campanha.
Na vegetação, os técnicos coletam dados sobre biomassa, altura e diâmetro das árvores. As informações ajudam a entender como os mangues reagem às mudanças naturais e às pressões externas.
No caso do caranguejo-uçá, o estudo mede a densidade e a estrutura populacional da espécie por meio da contagem e análise das tocas. Assim, é possível estimar o tamanho médio e a população.
Na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, a captura de caranguejos é proibida. A unidade funciona como berçário natural e ajuda a manter populações que se espalham para outros manguezais fora das áreas protegidas.
Os resultados seguem protocolo do Subprograma Marinho-Costeiro do ICMBio e vão orientar estratégias de conservação e manejo.
“Esse monitoramento nos permite entender como o ecossistema está se comportando frente a fatores climáticos, antrópicos e ambientais locais. São oito anos de coletas de dados contribuindo para a conservação desse ambiente essencial”, afirma o analista ambiental Tiago de Miranda Marques, do ICMBio.
Os manguezais ficam na faixa entre marés de regiões tropicais e subtropicais. Eles abrigam grande diversidade de espécies e oferecem serviços essenciais, como proteção da costa contra erosão e tempestades, regulação climática, fornecimento de alimentos e potencial para o ecoturismo.
Caju é fonte de renda para produtoras do Bom Intento. Foto: Ramilton Barros/Rede Amazônica RR
O caju deixou de ser apenas parte da paisagem para virar fonte de renda na região do Bom Intento, zona rural de Boa Vista (RR). Agricultoras locais investiram no aproveitamento integral do fruto típico dos quintais roraimenses e criaram uma rede de produção que inclui doces, geleias, licores, compotas e mel.
A iniciativa reúne mulheres que, por anos, viram a safra se perder por falta de escoamento. Com organização e troca de conhecimento, o cenário mudou. Agora, elas aproveitam o período de safra que ocorre no fim do ano para lucrar.
Uma das referências do grupo é a doceira Adélia Fonteles, de 67 anos. Moradora do Sítio Nova Esperança desde o início dos anos 2000, ela encontrou cajueiros antigos na propriedade e começou a testar receitas até descobrir o potencial econômico do caju.
Hoje, dona Adélia cuida de mais de 100 cajueiros e aproveita praticamente tudo o que colhe.
“Não se perde mais nada, fazemos vinho, licor, agora também gelatina. Da castanha fazemos paçoquinha, então a gente aproveita tudo”, afirma.
Adélia Fonteles, de 67 anos, é produtora e passou a ensinar outras agricultoras a produzir a partir do fruto. Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica RR
Além de produzir, ela compartilha o conhecimento com quem deseja começar, seja para consumo próprio ou venda. Segundo a doceira, alguns produtos têm validade de até um ano, o que facilita o comércio e evita o desperdício.
O trabalho no Sítio Nova Esperança virou ponto de encontro para outras agricultoras do Bom Intento. As mulheres decidiram se organizar para transformar o fruto em diferentes produtos e garantir renda extra.
Antes da organização, a fruta era tão abundante que acabava estragando no chão. A solução encontrada foi diversificar o uso do fruto e planejar ações conjuntas para ampliar as vendas.
O grupo criou o primeiro Festival Gastronômico do Caju da região. O evento apresentou a versatilidade do fruto, reunindo receitas tradicionais e inovações feitas a partir da polpa, da casca e da castanha.
Produtos derivados da fruta são expostos em Festival Gastronômico do fruto na região do Bom Intento. Foto: Ramilton Barros/Rede Amazônica RR
A agricultora Rita Hartmann, proprietária do Sítio Rancho Feliz, apresentou receitas de família no festival. Para ela, a iniciativa mostra o potencial produtivo do Bom Intento e valoriza o trabalho das agricultoras locais.
“Cada uma tem um tipo de doce, uma forma de trabalhar o fruto. Isso mostra o quanto a fruta é versátil e o quanto a gente consegue produzir a partir dela…Além disso é uma oportunidade de mostrar que o bom intento não é só lazer, mas que tem pessoas que trabalham com agricultura familiar”, destacou.
Caju: do uso doméstico ao mercado
Entre as participantes está também a agricultora Marivalda Nicolau. Antes, o fruto em sua propriedade era usado apenas para fazer suco e assar a castanha para a família. Após participar de um curso sobre aproveitamento integral do fruto, ela passou a enxergar o caju como fonte de renda.
Hoje, Marivalda produz doces e garante um dinheiro a mais no orçamento. Na propriedade dela, um cajueiro chama a atenção: produz cajus amarelos de quase 10 centímetros.
Agricultora Marivalda Nicolau exibe um caju de 10 centímetros da produção dela — Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica
“Meu carro-chefe é o pastel de carne de caju e a variedade permite trabalhar com ele de diferentes formas… Tem os pequenos que são melhores pra vender, outros maiores que se tira a carne e eu recebo mudas até de outros estados, por exemplo, a muda do caju grandão veio do Maranhão”, conta.
As experiências das agricultoras do Bom Intento mostram como a organização comunitária e o acesso ao conhecimento podem valorizar os frutos típicos dos lavrados de Roraima.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou no dia 12 de dezembro, em Brasília, a publicação “O Brasil Indígena”, que reúne os principais resultados do Censo Demográfico 2022 sobre a população indígena no país.
Para a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a publicação representa uma importante base técnica que permite ao Estado brasileiro planejar, executar e avaliar as políticas públicas voltadas a essa população de forma mais precisa. Foi o que destacou a presidenta substituta da Funai, Mislene Metchacuna, durante a cerimônia de lançamento, realizada na sede da autarquia indigenista.
“Com a ajuda dos nossos técnicos e tradutores, o IBGE conseguiu adentrar nas comunidades, qualificando a coleta. Esses dados possibilitaram um retrato ainda mais próximo da nossa realidade, inclusive com informações que nem sabíamos e que ajudarão na reestruturação e elaboração de políticas públicas”, ressaltou a presidenta substituta, que também é diretora de Administração e Gestão da Funai.
A publicação foi elaborada em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a Funai e o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA). De acordo com o diretor de Pesquisas do IBGE, Gustavo Junger, essa parceria interinstitucional viabilizou a ampliação da coleta de dados do último Censo Demográfico.
“Tínhamos o desafio de ampliar a coleta para povos e comunidades tradicionais, iniciada no Censo de 2010, e isso só ocorreu graças às parcerias que estão aqui. Nosso objetivo é continuar esse trabalho e, por isso, foi criada uma nova gerência para esse tipo de atividade”, destacou, em referência à Gerência para Bases Territoriais, criada na Diretoria de Geociências (DGC).
Segundo o coordenador de Geografia do IBGE, a gerência permitiu “ir mais longe com nossos parceiros, ampliando as idas às comunidades e retratando essa realidade do país.”
Júnia Quiroga, representante auxiliar do UNFPA, também ressaltou a união dos órgãos envolvidos para o lançamento da publicação. “São parceiros que lutam pela visibilidade e reconhecimento dos povos indígenas no Brasil. Aqui ampliamos as vozes que historicamente foram silenciadas. O material apresentado hoje traz, de forma didática, informações para se transformar em políticas públicas”, pontuou.
A publicação sistematiza informações inéditas sobre os povos indígenas, incluindo características sociodemográficas e domiciliares, lista de etnias e grupos, línguas faladas ou utilizadas nos domicílios, além da distribuição espacial dos principais indicadores. Esses dados oferecem um panorama detalhado da diversidade e da presença indígena no território brasileiro.
Por isso, a secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do MPI, Giovana Mandulão, classificou o lançamento como histórico.
“Os dados não são apenas números, mas a materialização de uma luta histórica, a retomada da nossa existência em um país que por séculos tentou nos apagar”, enfatizou. Para ela, o IBGE aperfeiçoou sua capacidade na coleta dos dados, revelando uma complexidade que antes era ignorada. “Os dados são o início da construção de políticas públicas”, afirmou.
Filme ‘Amazônia Xamã’ mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
O curta-metragem amapaense ‘Amazônia Xamã’, dirigido pelo cineasta e desenvolvedor de tecnologias Rodrigo Pedroza, é uma obra que mistura ficção científica e crítica social como um alerta sobre o futuro da Amazônia.
O filme acompanha Raoni, último sobrevivente de sua etnia, em uma jornada para preservar a cultura ancestral de seu povo. Ele enfrenta os Garimaldis, robôs garimpeiros e madeireiros ilegais que simbolizam a destruição da floresta em um futuro distópico.
“Máquinas e a elite explorando sub-humanos? O filme busca gerar reflexão sobre a importância da pluralidade, e sobre novos modos de vida para a sustentabilidade do mundo e de todos os seres vivos”, afirma o diretor.
Filme Amazônia Xamã mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
Rodrigo Pedroza explica que o filme provoca reflexões sobre consumismo, degradação ambiental e estruturas coloniais.
“Questionamos a história e a violência estrutural e colonial contra povos e seres vivos. Será que vamos jogar cimento e concreto em tudo para acreditarmos que temos paisagens mais modernas?”, diz.
‘Amazônia Xamã’ seguirá para festivais
A obra foi contemplada em edital da Lei Paulo Gustavo (LPG), com patrocínio do Governo Federal e do Ministério da Cultura, e gestão da Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult).
A produção envolveu mais de 30 profissionais, entre atores, produtores e equipe técnica. As filmagens ocorreram ao longo de 10 dias em pontos conhecidos de Macapá, como a Fortaleza de São José, o Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima e outros.
Filme Amazônia Xamã mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
A estreia é nesta terça-feira (16), em Macapá (AP), no cinema Movieland com entrada gratuita a partir das 15h. A classificação indicativa é para maiores de 18 anos. Após a estreia local, ‘Amazônia Xamã’ seguirá para festivais nacionais e internacionais.
Levantamento mostra que viajar de Rondônia para estados vizinhos custa mais caro que ir para outros países. Foto: Ana Clara Marinho/TV Globo
Você sabia que viajar de Rondônia para estados vizinhos pode custar muito mais caro que embarcar para outros países? É o que mostra um levantamento feito pelo Grupo Rede Amazônica por meio da Google Flights, plataforma que monitora tarifas em tempo real.
De acordo com a pesquisa, entre março e abril de 2026, período considerado fora do “pico”, mostra que para sair de Rondônia e chegar em Boa Vista, em Roraima, por exemplo, o passageiro precisará desembolsar mais que o dobro do valor que pagaria se quisesse ir para os Estados Unidos.
Os valores de Rondônia para outros estados:
Porto Velho → Boa Vista (RR) Distância aproximada: 1,5 mil km Preço: R$ 7 mil ou mais
Preço do voo saindo de Rondônia para Roraima. Foto: Reprodução/Google Flights
Porto Velho → Nova Iorque (EUA) Distância aproximada: 5 mil km (mais de três vezes maior) Preço: cerca de R$ 3 mil
Preço do voo saindo de Rondônia para Nova Iorque (EUA). Foto: Reprodução/Google Flights
Outro exemplo é um voo entre Porto Velho e Macapá (AP), que chega a custar quase ou até mais do que o valor de uma viagem internacional para países como Chile ou Argentina
Porto Velho → Macapá (AP) Distância: 1,8 mil km Preço: mais de R$ 3 mil
Porto Velho → Buenos Aires (Argentina) Distância: 3 mil km Preço: R$ 2,6 mil
Porto Velho → Santiago (Chile) Distância: 3,5 mil km Preço: R$ 2,6 mil
Além disso, sair para outras regiões do Brasil, como o Sul, mesmo em áreas turísticas, é mais barato do que visitar os conterrâneos do Norte.
Porto Alegre (RS): em média, por R$ 1,7 mil
Florianópolis (SC): cerca de R$ 2,1 mil.
Os preços citados na reportagem foram levantados no mês de novembro. As tarifas aéreas são dinâmicas e podem variar conforme a data da viagem, antecedência da compra, disponibilidade de assentos, sazonalidade e demanda.
Por que isso acontece?
O professor de Engenharia de Transportes, Evandro José da Silva, explica que os preços não seguem apenas a lógica da distância percorrida. O que pesa é o yield, indicador que mede a receita por passageiro por quilômetro voado.
Na Região Norte, poucas cidades têm grande volume de passageiros. Isso significa que rotas com baixa demanda acabam ficando muito mais caras.
“Nesta região, devido a fatores sociais e econômicos, temos poucas cidades com alta densidade de tráfego”, diz Evandro.
Rotas movimentadas, como Manaus–Guarulhos ou Belém–Guarulhos, têm preços semelhantes aos de outras regiões. Já trechos menos procurados, como Porto Velho–Boa Vista, sofrem com tarifas elevadas.
Por outro lado, passagens internacionais seguem outra lógica: companhias aéreas aplicam estratégias de Revenue Management, oferecendo promoções em voos longos para atrair passageiros. Além disso, os custos e impostos são diferentes entre voos domésticos e internacionais.
“São serviços distintos. É bem possível que a tarifa mais cara em um voo doméstico seja alta em relação a uma tarifa promocional de voo internacional”, afirma.
Resultado: um voo de 5 mil km pode ser mais barato do que um de 1,5 mil km.
Preço do combustível
O especialista aponta que os custos da aviação são amplamente globalizados, mas reconhece um item que influencia a operação na Região Norte: o combustível.
Segundo ele, o preço do combustível é maior em estados como Roraima, Rondônia e Amazonas. Isso encarece a operação, mas, segundo o especialista, não explica sozinho tarifas tão elevadas.
“Não consigo identificar fatores tão importantes que justifiquem custos maiores para as companhias aéreas”, afirma.
Falta de concorrência
O Brasil, segundo ele, enfrenta dificuldades como alta judicialização e intervenções políticas frequentes, fatores que afastam novas empresas. O professor também ressalta que, para ampliar a conectividade no Norte, é necessário fortalecer a base econômica da região.
“Temos apenas três grandes companhias aéreas e isso é um indicador de que falta atrair mais interessados. A aviação caminha junto com o desenvolvimento econômico e social. Todos colhemos os frutos de uma sociedade mais igualitária, inclusive pagando menos pelo bilhete aéreo”, afirma.
Cabotagem aérea
Uma alternativa em debate para reduzir o preço das passagens é a cabotagem aérea. A proposta, que permite a operação de trechos domésticos por companhias estrangeiras, ainda depende de alterações na legislação e segue em tramitação no Congresso Nacional.
De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), o projeto de lei que trata do tema continua aguardando análise, assim como o requerimento de urgência apresentado em setembro, que ainda não foi apreciado pelos parlamentares.
“A abertura à cabotagem pode ampliar a concorrência, estimular a oferta de voos e reduzir tarifas, especialmente na Amazônia Legal, onde a conectividade aérea é limitada”, cita o MPor.
Enquanto isso, o governo já avançou em outra frente: a criação de uma linha de crédito para companhias aéreas via Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), com apoio do BNDES. As normas foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 30 de outubro, e a assinatura do contrato está prevista para a primeira quinzena de dezembro.
Caso o texto da cabotagem seja aprovado, o MPor estima um prazo de até seis meses para concluir a regulamentação complementar, que deve envolver adaptações nas normas da Anac.
O que dizem as companhias aéreas?
Em nota, a Azul afirmou que as tarifas aéreas são dinâmicas e variam conforme fatores como trecho, sazonalidade, compra antecipada, disponibilidade de assentos, oferta e demanda. A companhia também destacou que elementos externos, como variação do dólar e preço do combustível de aviação, influenciam diretamente no valor final das passagens.
Em nota, a Azul afirmou que as tarifas aéreas são dinâmicas e variam conforme diversos fatores. Foto: Divulgação/Azul
A empresa orienta passageiros a comprar os bilhetes com antecedência e a manter flexibilidade de datas e horários. A Azul também recomenda considerar mais de um aeroporto quando possível, pois em períodos de maior demanda, como férias e datas comemorativas, costumam ter tarifas mais altas.
Sobre a malha aérea em Rondônia, a companhia informou que monitora constantemente o mercado e avalia possibilidades de expansão. No entanto, não há previsão de abertura de novas rotas ou aumento da frequência de voos saindo de Porto Velho.
OGrupo Rede Amazônica também entrou em contato com a Anac e as companhias aéreas Latam e a Gol, mas até a última atualização desta reportagem não obteve retorno.
Estudiosos alertam para dificuldades de convivência entre fazendeiros e felinos, que frequentemente descambam para violência. Foto: Adriano Gambarini
Os felinos carnívoros de grande porte do Brasil, como onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas, dependem, para sobreviver, do acesso a áreas naturais preservadas e extensas, nas quais possam dar vazão aos seus instintos de caça. Porém, a expansão da atividade agropecuária em nosso país vem resultando em paisagens naturais cada vez mais fragmentadas, transformando a realidade de biomas como o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal.
O resultado é que as condições necessárias para a existência desses animais estão se deteriorando. No caso das onças-pintadas, por exemplo, a ONG Global Witness estima que, nos estados do Pará e do Mato Grosso, já foram desmatados 27 milhões de hectares de seu habitat original, uma área maior que o Reino Unido.
Preocupados com as perspectivas de sobrevivência dos grandes felinos no país, um grupo de pesquisadores da Unesp e de outras universidades brasileiras analisou o comportamento de nove espécies, procurando diferenciar aquelas que limitam suas andanças às áreas de habitat selvagem das que costumam ser flagradas circulando perto de estradas, propriedades rurais e outros locais potencialmente perigosos.
No total, foram analisados os dados de cerca de 14,3 mil episódios de avistamento de felinos selvagens, incluindo as coordenadas geográficas onde foram relatados. O objetivo do levantamento é permitir a elaboração de estratégias de conservação mais adequadas a cada espécie, de acordo com seu estilo de vida. Os resultados foram apresentados em um artigo publicado no periódico especializado Biological Conservation.
Em circunstâncias normais, os carnívoros preferem manter sua dieta típica, alimentando-se de presas como capivaras e jacarés na mata nativa. Mas, quando as presas comuns se tornam escassas — devido a secas, caça ilegal, destruição dos habitats por mineração e hidrelétricas ou outras razões —, alguns felinos avançam sobre fazendas atrás de bezerros e galinheiros, e acabam feridos em confrontos com cães de guarda e humanos armados. Por isso, a escassez de trechos contínuos de mata nativa é um dos principais obstáculos à conservação de felinos no Brasil.
Vanesa Bejarano Alegre, que acaba de terminar seu doutorado pelo programa de Ecologia, Evolução e Biodiversidade no Instituto de Biociências (IB) da Unesp, câmpus de Rio Claro, é autora principal do trabalho, fruto de sua colaboração com o Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC). Ela explica que análises estatísticas abrangentes como essas são importantes para sistematizar e complementar as observações feitas pelos biólogos de campo. Esses conhecem bem os animais que vivem nas regiões em que conduzem seus estudos, mas não necessariamente conseguem ter a visão do todo e identificar lacunas na literatura disponível.
A lista de avistamentos utilizada no estudo, obtida a partir de várias bases de dados públicas, foi construída a partir de recursos como câmeras fotográficas automáticas (camera traps) camufladas na mata para estudar e recensear os bichos. O mapa de usos do solo do Brasil, que mostra quais trechos do país são cobertos por agropecuária, mata nativa, cidades etc., foi fornecido pela rede MapBiomas.
Cada felino tem seu estilo
Como hipótese para nortear o estudo, Bejarano e seus colegas propuseram a divisão das nove espécies de felinos brasileiros em três categorias ecológicas. São elas: os generalistas, que teriam grande tendência a frequentar locais modificados pelo ser humano; os especialistas flexíveis, que toleram ambientes antrópicos, mas preferem habitats naturais; e os especialistas estritos, que são os mais seletivos, permanecem na mata fechada e evitam se aventurar entre nós.
“Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a propor e avaliar uma classificação das espécies de felinos brasileiros baseada em traços ecológicos e na plasticidade dos habitats”, escreveram os autores.
As análises das 14,3 mil observações de felinos reais buscaram então elementos para corroborar, refutar ou corrigir essa classificação teórica em três categorias. Em linhas gerais, os resultados coincidiram, mas alguns casos particulares desafiaram as expectativas.
Um deles foi a categoria dos generalistas, composta pela onça-parda (Puma concolor), o jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi) e o gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi, que, apesar do nome, pesa apenas 4 kg).
As observações sobre a onça-parda confirmaram as hipóteses dos autores, aparecendo com frequência nas cercanias de pastos e plantações. O jaguarundi, por sua vez, parece tão aberto a novas paisagens que apresentou uma peculiar aversão à mata fechada: foi mais comum encontrá-lo próximo de regiões agrícolas. Porém, o gato-do-mato-grande é tão tímido que sequer parece um generalista. Raramente foi avistado próximo a fazendas, o que pôs uma pulga atrás da orelha dos pesquisadores sobre a precisão da literatura preexistente sobre esse animal. “Se você me perguntasse se eu consideraria o gato-do-mato-grande um generalista, diria que não”, diz Bejarano.
Outras espécies se mostraram mais de acordo com o esperado. Especialistas flexíveis, como Panthera onca e Leopardus pardalis, evitam estradas, mas utilizam paisagens naturais heterogêneas. Já aqueles classificados como especialistas estritamente florestais (L. wiedii, L. guttulus e L. tigrinus) mostraram uma elevada dependência da cobertura florestal, e geralmente evitam habitats abertos. Chamou a atenção o fato de que os efeitos da proximidade de estradas variavam de acordo com cada espécie, e nem sempre se alinharam com a classificação ecológica proposta pelos autores.
“Comprovamos a hipótese, mas com exceções. Sempre há exceções”, diz Bejarano. A pesquisadora pondera, porém, que as conclusões do estudo podem refletir a escassez ou os vieses presentes em dados públicos sobre determinadas espécies, e não o comportamento real dos animais analisados.
A convivência é difícil, mas está melhorando
Raíssa Sepulvida Alves, mestre pelo Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, bióloga de campo da ONG Panthera Brasil e coautora do artigo com Bejarano, conta que os conflitos entre humanos e onças já foram piores. “Há uns quinze anos, era bem mais complicado. Mesmo nos casos em que o gado morria por outra causa, a onça era sempre considerada culpada, e as pessoas retaliavam”, diz. “Por isso, a Panthera criou manuais com técnicas de manejo que evitam a predação.”
Além de medidas de segurança básicas e relativamente fáceis de implantar em curto prazo, como recolher o gado para currais distantes da mata durante a noite, instalar cercas elétricas e deixar os bezerros em instalações protegidas, a iniciativa de promover novas frentes de atividade econômica, para além da pecuária, ajuda a estreitar os laços entre a população e a fauna.
“O turismo de observação de onça vem se desenvolvendo paralelamente na região de Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá”, diz Sepulvida.
“As pessoas perceberam que podiam ganhar dinheiro com os animais, e as onças passaram a valer mais vivas do que mortas. Elas deixaram de ser vilãs para muita gente. E a Panthera sempre atuou ali em colaboração, divulgando e incentivando boas práticas de observação.”
Bejarano explica que cada grupamento humano lida de uma forma com a presença de grandes felinos. “As comunidades têm perspectivas diferentes sobre a natureza. Algumas matam por matar, outras não. Não há uma fórmula secreta para tudo. O Brasil é tão enorme, é um continente. Imagine quantas pessoas, mentalidades, pensamentos existem. Esse, eu acho, é o maior desafio na preservação de grandes carnívoros.”
Além da convivência complicada com o Homo sapiens, Bejarano conta que as próprias táticas usadas pelas presas para escapar de seus predadores podem pôr os gatos selvagens em apuros: “Muitos estudos avaliam o movimento de animais como cervos em lugares mais iluminados, tentando evitar a predação por grandes felinos. Mas isso começa a mudar o comportamento desses animais. Ao não encontrarem suas presas habituais dentro da floresta, eles começam a se aproximar das áreas antrópicas.”
Ainda que não ocorra um incidente mais grave, como um atropelamento, a necessidade de forragear em áreas de agropecuária e beiras de estrada tem consequências de longo prazo. Experimentos com caixas de som mostram que ruídos de origem humana deixam esses animais muito mais estressados do que, por exemplo, o barulho de uma rã ou de um grilo. As refeições, nessas circunstâncias, acabam sendo mais rápidas do que seria saudável, e os níveis de cortisol no sangue ficam mais altos, o que pode reduzir a expectativa de vida dos felinos em longo prazo.
Onça-pintada é um dos grandes felinos da Amazônia. Foto: Octavio Campos Salles/Onças do Amapá
“Menos de 5% do Pantanal está dentro de uma unidade de conservação formalmente protegida”, diz Raíssa Sepulvida. “A grande maioria são propriedades privadas, e é por isso que a Panthera investiu bastante em esforços de coexistência entre os produtores e as onças.” Atualmente, além da atuação junto à Panthera — organização beneficente de proteção de felinos que foi fundada nos EUA em 2006 e tem um braço brasileiro desde 2014 —, Sepulvida faz doutorado em Ecologia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Ao longo de sua carreira, algumas de suas aventuras foram monitorar jaguatiricas por quatro anos usando camera traps e pôr colares de GPS em 15 indivíduos.
Conhecendo na pele as dificuldades do trabalho de campo — pesquisas como as citadas acima exigem longas incursões em áreas alagadas e abafadas do Pantanal, com roupas longas e grossas para evitar picadas de mosquito —, Sepulvida explica que um dos trunfos do novo artigo científico é justamente usar um método que reaproveita material já coletado em novas análises.
“Algo bem importante nesse artigo é empregar dados já disponíveis em plataformas abertas. São anos de informações que foram coletadas por diversas razões. Às vezes, camera traps foram instaladas por um grupo de pesquisa por um motivo específico — como, por exemplo, a visualização de antas —, mas acabam registrando outras espécies. Então, elas podem e devem ser usadas para outros trabalhos. É importante que os pesquisadores compartilhem seus dados.”
“É uma análise bastante simples, que pode ser feita para outras espécies do Brasil, utilizando também dados abertos”, explica Bejarano. “E esse trabalho revela quais informações temos ou não temos. Há biomas enormes, como a Amazônia, sofrendo com a falta de dados. Não há tantos como se imagina, ou eles não são abertos.” Atualmente, Bejarano continua seu trabalho conservacionista como pós-doutoranda no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Bruno Vaiano