As ações de integração de cultura e meio ambiente serão realizadas na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, no contexto do projeto ‘Esperançar Chico Mendes’, coordenado pelo MMA. Foto: Divulgação UFAC
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) firmou acordo de cooperação técnica Esperançar Chico Mendes, com objetivo de fortalecer a gestão socioambiental e promover a valorização do patrimônio cultural em territórios de povos e comunidades tradicionais no Brasil. As ações serão implementadas prioritariamente na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, no âmbito do projeto de mesmo nome.
A parceria com o Ministério da Cultura (MinC), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estabelece uma atuação integrada para identificar, reconhecer e valorizar os modos de vida, os saberes e a diversidade cultural dessas populações.
Na Resex Chico Mendes, o Turismo de Base Comunitária (TBC) tem sido fortalecido como instrumento de valorização e proteção do território, além de oportunidade de diversificação da economia da sociobiodiversidade.
A iniciativa também prevê a ampliação das ações para outras unidades de conservação de uso sustentável e territórios tradicionais em diferentes regiões do país.
Foto: Gilvani Scatolin/ISA
Integração entre cultura e meio ambiente
Entre os instrumentos previstos está a utilização do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), ferramenta que possibilita o registro participativo das referências culturais associadas à gestão socioambiental, à identidade e à memória dos territórios.
As atividades incluem, ainda, ações de educação ambiental e patrimonial, fortalecimento de organizações comunitárias, promoção do turismo de base comunitária e incentivo à economia da sociobiodiversidade, com protagonismo de mulheres e jovens.
Na avaliação da secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), Edel Moraes, a parceria reforça o compromisso do governo federal com a justiça socioambiental e a valorização das culturas tradicionais.
“A integração entre cultura e meio ambiente é o caminho para a proteção dos direitos das populações cujas formas de viver historicamente protegem os recursos da natureza”, destacou.
O acordo terá vigência de quatro anos e será executado por meio de cooperação técnica, disponibilização de equipes e compartilhamento de conhecimentos, experiências e metodologias entre as organizações envolvidas.
Coordenada pelo MMA, com alicerce na participação social, a iniciativa busca o reconhecimento, a valorização e a salvaguarda do patrimônio cultural e socioambiental dos territórios tradicionais.
O projeto se orienta pelos princípios do pertencimento, da identidade, do empoderamento e do respeito aos modos de vida tradicionais para fomentar a geração de renda, de forma integrada e interdependente à economia da sociobiodiversidade.
*Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Rasga-mortalha, coruja-da-igreja, coruja-das-torres, suindara… esta icônica coruja com “carinha de maçã” (Tyto furcata) tem muitos nomes e possui uma característica horripilante: um grito alto e bastante agudo, que alguns acreditam ser anúncio de morte.
Reza a lenda que a presença da suindara perto de uma casa é mau presságio. O nome popular rasga-mortalha, inclusive, faz referência ao material usado para envolver cadáveres. A explicação é que o canto da suindara lembra um pano sendo rasgado.
A antiga crença popular revela que, embora pareça assustador no meio da noite, o grito não é um prenúncio de morte. Serve apenas para a ave se comunicar com seu parceiro e demarcar território, e não para avisar que alguém “vai de arrasta pra cima” ou está prestes a “bater as botas”.
Estas aves são cercadas de mitos desde a época do Império Romano. No ano 77, o historiador romano Plínio, o Velho, em seu livro História Natural, chamou a ave de “monstro da noite” que carrega más notícias. As corujas também foram mencionadas em diversas obras do escritor inglês William Shakespeare, como em Macbeth (1623). “Foi a coruja que gritou, o mensageiro fatal”, disse a personagem Lady Macbeth após a morte do rei Duncan.
“Associar sons de aves noturnas com espíritos e presságios é uma prática antiga presente em diversas culturas indígenas. É uma herança de tradições medievais, nas quais o canto da coruja era visto como sinal de tragédia ou morte”, conta o biólogo e educador do Museu Biológico do Instituto Butantan, Matheus de Moraes dos Santos.
No Brasil, o mito da rasga-mortalha nasceu de uma mistura de crenças trazidas pelos europeus durante a colonização, e ganhou força principalmente no Nordeste e no Norte.
Na região amazônica, a suindara costuma ser associada à personagem do folclore Matinta Pereira, uma mulher que se transforma em coruja e assusta as pessoas durante a noite com seu canto estridente. Segundo a história, ao ouvi-la, os moradores devem oferecer prendas, como café ou tabaco, para não sofrerem consequências negativas. A mulher retorna na manhã seguinte em busca de sua recompensa.
Características como o formato da face e os olhos pequenos a diferem de outras corujas (Foto: Vinícius Radica Correa – Instituto Butantan)
Afinal, o que é a coruja suindara de verdade?
As suindaras ou corujas-das-torres existem há quase 30 milhões de anos. Elas fazem parte da família Tytonidae, que compreende 20 espécies espalhadas pelo mundo. No Brasil, vive a espécie Tyto furcata, também encontrada em toda a região das Américas, dos Estados Unidos ao Chile.
A maioria das corujas que vemos nos filmes – como a famosa Edwiges do Harry Potter – é da família Strigidae, que é muito mais populosa, com mais de 200 espécies já descritas.
Diferente de suas primas, que em geral possuem cabeças redondas e olhos grandes, as suindaras têm uma carinha que lembra o formato de um coração ou uma maçã, com olhos pequenos.
Elas têm hábitos noturnos e gostam de ficar em áreas abertas e semiabertas, como campos, bordas de floresta e até nas cidades. Para se abrigar e proteger os ovos, as suindaras se aproveitam de cavidades como ocos de árvores, cavernas, forros de casas, galpões e torres de igrejas (daí o nome coruja-das-torres).
O canto “rasgado” é bem característico das corujas da família Tytonidae, enquanto as da família Strigidae costumam emitir o clássico “hoo hoo”. Uma mesma coruja, na verdade, pode ter de três a quatro tipos de vocalização.
O amor está no ar
Romântica, a suindara costuma viver em casal e escolhe um parceiro para toda a vida. Para conquistar a fêmea, o macho performa “voos de exibição”, sempre acompanhados de vocalização. Quando o par está formado, ele a presenteia com banquetes, levando presas para o ninho.
O sucesso da reprodução depende da disponibilidade de alimento e pode ocorrer em qualquer época do ano. Em geral, a coruja-das-torres pode colocar de quatro a sete ovos.
O par vive em cooperação e divide as tarefas em casa: o macho leva alimento para a parceira e os filhotes, enquanto a fêmea cuida da ninhada. Após cerca de um mês, o casal volta a caçar juntos para alimentar a prole. Com cerca de 80 dias de idade, quando já sabem voar e caçar sozinhos, os filhotes deixam o ninho.
Super predadoras
As suindaras, assim como outras corujas, são caçadoras profissionais e conseguem localizar as presas com muita precisão. Além dos ouvidos assimétricos, que ampliam o alcance de sua audição, elas possuem um disco facial (estrutura de penas ao redor da face) que funciona como uma antena parabólica, direcionando o som para seus ouvidos.
Outra vantagem é a capacidade de virar a cabeça em até 270°, no estilo O Exorcista. Isso ajuda a coruja a observar os arredores, procurar presas e identificar predadores, já que a mobilidade de seus olhos é limitada.
A ave também é mestre na arte de espreitar: as pequenas “franjas” (serrilhas) na borda das asas garantem um voo silencioso, o que a ajuda a passar despercebida.
O principal alimento da suindara são os ratos, por isso ela é muito importante para controlar a população desses animais – que são capazes de transmitir doenças. Em média, a coruja pode predar quatro roedores por noite, totalizando mais de 1.400 no ano. Ela também gosta de insetos e pequenos vertebrados como morcegos, anfíbios, répteis e outras aves.
Além do papel no controle de roedores, a suindara é um bioindicador da saúde do ambiente, por ser sensível a poluentes e metais pesados. Assim, diferente do que muitos acreditam, a presença dela é um ótimo sinal: significa que o ecossistema está em equilíbrio.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Butantan, escrito por Aline Tavares
Entre os anos de 2020 e 2025, o Governo Federal não realizou nenhuma operação de fiscalização ambiental voltada especificamente ao combate ao descarte irregular de plásticos nos rios do Amazonas. A informação foi admitida pelo próprio Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em documento obtido pelo Grupo Rede Amazônica.
No ofício, assinado pelo ministro substituto do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, em dezembro de 2025, além do MMA, órgãos como Instituto Chico Mendes (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) admitem a falta de ações de fiscalização e “apagão” nos dados sobre poluição plástica na Amazônia, mesmo com a contaminação de peixes em níveis preocupantes, segundo especialistas.
De acordo com o Ibama, nos últimos cinco anos não houve operações de fiscalização com foco específico no descarte irregular de resíduos plásticos em ecossistemas amazônicos, incluindo os rios do Amazonas. O órgão afirma que suas ações de fiscalização relacionadas a resíduos sólidos se concentraram principalmente em portos e aeroportos, onde há entrada de materiais controlados ou proibidos por lei.
O Ibama informou ainda que, ao consultar sua base de dados, encontrou apenas três autos de infração isolados em 2023 que podem ter relação com descarte de resíduos no bioma amazônico. Nos demais anos, não foram identificadas autuações diretamente ligadas ao tema.
No mesmo documento, o próprio ICMBio admite que não possui registro oficial de estudos próprios capazes de identificar quais espécies da fauna amazônica estão sendo impactadas pela poluição plástica.
Poluição de rios com plásticos traz riscos à fauna, flora e seres humanos na Amazônia. Foto: Divulgação/ MCTI
Estudos apontam crescimento da poluição por plástico no bioma amazônico
Estudos científicos indicam a presença crescente de resíduos plásticos e microplásticos nos rios amazônicos, com impactos sobre peixes, tartarugas, aves e outras espécies.
Em setembro de 2025, um estudo coordenado pelo Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi), do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), em parceria com o Instituto Mamirauá, constatou que os riscos não são somente aquáticos e terrestres, mas também envolvem danos à saúde humana.Populações ribeirinhas e indígenas, por exemplo, estariam diariamente expostas a toneladas de lixo flutuante.
“A contaminação de fontes importantes de alimentos e de água representa um grande risco para a Saúde Única de populações tradicionais”, destacou Jéssica Melo, bióloga e pesquisadora da Fiocruz que participou da pesquisa.
O alerta para o problema já vinha sendo sinalizado por pesquisadores. Em 2023, outro estudo do Instituto Mamirauá encontrou plástico no intestino de seis espécies de peixes no Amazonas. Entre os pescados analisados estão tambaqui, jaraqui e pacu.
A análise foi realizada em peixes comercializados no mercado municipal de Tefé, interior do Amazonas. Nos 336 peixes examinados, foram encontradas 34 partículas com forma de fragmentos e filamentos. Sacola, linha de pesca e isopor foram os materiais mais encontrados.
“As descobertas do estudo são voltadas para as populações naturais de peixes encontradas na região do Médio Solimões, nas proximidades da cidade de Tefé. Essa é uma região que possui grande parte do seu comércio de peixes baseado em pesca artesanal”, afirmou a pesquisadora Carolina Sarmento.
Estudo encontra plástico no intestino de 6 espécies de peixes no Amazonas. Foto: Carolina Sarmento/Arquivo Pessoal
Por que não há fiscalização?
Os órgãos federais apresentam justificativas semelhantes sobre a falta de fiscalização. O Ministério do Meio Ambiente afirma que a gestão de resíduos sólidos e a limpeza urbana são responsabilidades dos municípios, conforme a legislação brasileira. A atuação do governo federal, segundo o ministério, se concentra na formulação de políticas públicas, apoio técnico e financeiro e coordenação nacional.
O MMA cita como avanços recentes a publicação de dois decretos, em outubro de 2025, incluindo a criação de um sistema de logística reversa de embalagens plásticas e a Estratégia Nacional de Combate à Poluição Plástica.
Já o Ibama reforça que suas ações de fiscalização são definidas a partir de planejamento estratégico, do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental ou de operações emergenciais. O órgão também destaca que denúncias formais feitas pelos canais oficiais são fundamentais para viabilizar investigações e autuações.
Iniciativas tentam mudar cenário
Enquanto o governo federal admite não ter dados, fiscalização nem plano estruturado para enfrentar o avanço do lixo plástico na Amazônia, iniciativas da sociedade civil já mostram, na prática, a dimensão do problema.
O projeto Galho Forte, criado em 2020 pelo deputado Amom Mandel (Cidadania-AM), atua em todas as zonas da capital e, mais recentemente, no interior do estado, com ações em municípios como Parintins e Tefé.
Durante o período de estiagem, quando os igarapés expõem o que normalmente fica submerso, o Galho Forte concentra esforços na retirada manual de resíduos sólidos das margens e leitos dos cursos d’água — exatamente onde o plástico entra no sistema alimentar e segue para os grandes rios da Amazônia.
Somente em 2025, mais de 1.500 voluntários participaram de 50 ações ambientais realizadas em Manaus, resultando na retirada de mais de 10 toneladas de lixo das margens de rios e igarapés.
Voluntários do projeto Galho Forte durante ação em Manaus. Foto: Divulgação
A Prefeitura de Porto Velho realiza mais uma edição do Bike Tour, passeio ciclístico que integra esporte, lazer e valorização do patrimônio histórico da capital. A atividade acontece neste sábado (24), em alusão ao aniversário de instalação do município, e convida a população a conhecer a cidade por meio de um roteiro que passa por locais marcantes da história e da cultura local.
O Bike Tour tem como proposta estimular hábitos saudáveis, incentivar o uso da bicicleta como meio de lazer e promover a integração da comunidade. O passeio é gratuito, aberto a todas as idades e não exige inscrição prévia, sendo necessário apenas comparecer ao ponto de concentração com bicicleta e equipamentos básicos de segurança.
Passeio é gratuito, aberto a todas as idades e não exige inscrição prévia. Foto: José Carlos/ Prefeitura de Porto Velho
O roteiro inclui a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), a Praça Jonatas Pedrosa, o Mercado Cultural, a Praça das Caixas d’Água, além de trechos pelos bairros Arigolândia e região da Castanheira. Em cada parada, guias turísticos e professores acompanham os participantes, compartilhando informações históricas e curiosidades sobre os espaços visitados.
A programação tem início com concentração às 7h30, para largada às 8h, e segue até o Complexo da Madeira-Mamoré, onde o passeio é encerrado com atividades simbólicas. Ao final, os participantes recebem café da manhã como forma de acolhimento e integração.
Além de celebrar a história de Porto Velho, o Bike Tour também fortalece o turismo local e contribui para a consolidação de iniciativas voltadas ao turismo de duas rodas, ampliando as opções de lazer para moradores e visitantes.
O secretário executivo de Turismo da Semtel, Aleks Palitot, destaca que o Bike Tour foi pensado para integrar esporte, lazer e valorização da história de Porto Velho, com uma programação aberta a toda a população e conta com a participação de guias turísticos e professores de História, Geografia e Biologia.
“É um evento gratuito, não precisa de inscrição, basta que a pessoa tenha uma bicicleta, utilize capacete e venha com disposição para fazer um passeio turístico pelos pontos históricos da cidade”, afirmou.
Aleks Palitot destaca que o Bike Tour foi pensado para integrar esporte, lazer e valorização da história de Porto Velho. Foto: José Carlos/ Prefeitura de Porto Velho
Percurso celebra história de Porto Velho
Sobre o percurso, Palitot explica que o roteiro contempla locais simbólicos da capital. “Nós vamos passar pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, pela Praça Jonatas Pedrosa, pelo Mercado Cultural, pela Praça das Caixas d’Água, além de regiões como Arigolândia e Castanheira. Em cada ponto, os professores e guias contam um pouco da história daquele lugar, permitindo que as pessoas associem o esporte ao conhecimento e passem a observar detalhes da cidade que muitas vezes não são percebidos no dia a dia”, ressaltou.
O secretário também detalha o encerramento e a finalidade do evento. “O passeio termina por volta das nove e meia da manhã, no Complexo da Madeira-Mamoré, com a recepção da locomotiva 18, o hasteamento da bandeira no Marco Zero e um café da manhã para os ciclistas. A ideia é comemorar a instalação da nossa cidade, incentivar uma atividade saudável no período de férias e fortalecer o sentimento de pertencimento e orgulho da população, além de impulsionar o turismo de duas rodas em Porto Velho”, concluiu.
O Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) participaram da fase tática da operação internacional Guiana Shield, que busca combater a mineração ilegal de ouro na região amazônica conhecida por Escudo das Guianas. A área abrange as fronteiras entre Brasil, Guiana Francesa, Suriname e Guiana, países da Amazônia Internacional.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e a Polícia Militar do Amapá reforçaram a participação brasileira. Segundo dados da Interpol, como resultado da operação, foram realizadas 24,5 mil inspeções pessoais e em veículos, a maior parte no lado estrangeiro da fronteira. No Brasil, as autoridades abordaram 669 pessoas e inspecionaram 375 veículos, além de 36 embarcações.
Realizada no último mês, a primeira operação conjunta entre os quatro países buscou fortalecer a cooperação jurídica e policial para combater o garimpo ilegal de ouro na Amazônia e interromper o fluxo de mercúrio, além de outros insumos que abastecem a atividade ilícita.
O trabalho em campo foi coordenado e monitorado por magistrados, membros do Ministério Público e policiais dos países envolvidos, reunidos no Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), em Manaus (AM).
Ao menos três homens suspeitos de integrar uma organização criminosa de contrabando de ouro e lavagem foram presos, após serem flagrados na Guiana com ouro bruto e 590 mil dólares em dinheiro – aproximadamente R$3,2 milhões. No Brasil, houve o cumprimento de um mandado de prisão em aberto por crime sexual e outro por tráfico de drogas, além da apreensão de barco e artefatos empregados na pesca ilegal.
A operação também levou à apreensão, na Guiana e no Suriname, de mercúrio com valor estimado superior a 60 mil dólares – o que equivale a cerca de R$ 320 mil. O mercúrio é comumente usado na mineração ilegal para separar o ouro de outros metais e é extremamente prejudicial ao meio ambiente e à saúde humana. O mercúrio apreendido estava sendo transportado por ônibus, escondido em painéis solares.
Fiscalização
Foto: Divulgação / Interpol
A fase tática da operação foi realizada entre 8 e 11 de dezembro, após um ano de planejamento, visitas técnicas e reuniões entre autoridades dos países envolvidos. A fiscalização ocorreu nas margens opostas dos rios Courantyne e Maroni – que servem como fronteiras naturais entre o Suriname, a Guiana e a Guiana Francesa – e do rio Oiapoque, que delimita o Amapá e a Guiana Francesa.
Diversas lojas que vendem suprimentos para mineração nas margens do Rio Maroni foram alvos da fiscalização, bem como embarcações que transitavam no Oiapoque.
A Operação Guiana Shield também resultou na apreensão de equipamentos de mineração, como bombas hidráulicas e mantas usadas para extrair ouro, armas de fogo e equipamentos de comunicação. Durante a ação, ainda foram apreendidos medicamentos falsificados, álcool e cigarros avaliados em mais de 40 mil dólares – aproximadamente R$ 214 mil.
Extração ilegal de ouro nos países que compõem a Amazônia
Estima-se que a extração ilegal de ouro na área do Escudo das Guianas (Guiana Shield) seja de 10 a 12 toneladas anuais, em comparação com uma a duas toneladas extraídas legalmente. A perda econômica com a atividade ilegal na região ultrapassa os R$ 3 bilhões por ano.
A atividade ilícita também gera desmatamento, com perdas estimadas em 28 mil hectares de floresta na Guiana Francesa e cerca de 110 mil hectares na parte brasileira da Amazônia (o equivalente a 127 mil campos de futebol, somando os dois países). Há ainda prejuízos causados pela poluição dos rios com o uso de mercúrio ou cianureto.
A Operação Guiana Shield foi realizada com o apoio do programa El Paccto 2.0 da União Europeia, da Interpol e da força policial dos Países Baixos.
Buracos deixados pelo garimpo ilegal. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR
A Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus (AM), participa de um estudo clínico internacional que avalia uma nova forma de prevenção ao HIV: a PrEP oral de uso mensal. Diferente da versão já disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), que exige a ingestão diária de comprimidos, a proposta é que o medicamento seja tomado apenas uma vez a cada 30 dias.
A pesquisa é conduzida pela Unidade de Pesquisa Clínica Carlos Borborema, da FMT-HVD, e coloca a instituição como o único centro da região Norte a integrar o ensaio. Ao todo, 16 países participam do estudo, que deve incluir cerca de 4,3 mil voluntários.
A PrEP é um método de prevenção contra o HIV que consiste no uso de medicamentos antes da exposição ao vírus. Ela reduz significativamente o risco de infecção em pessoas que têm maior vulnerabilidade. O tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS em unidades de saúde habilitadas.
Unidade de Pesquisa Clínica Carlos Borborema, da FMT-HVD. Foto: Reprodução/FMT-HVD
O ensaio clínico é considerado padrão-ouro em pesquisa médica. Isso significa que os participantes são acompanhados com rigor científico e recebem proteção completa contra o HIV, seja pela PrEP diária já ofertada pelo SUS ou pela nova versão mensal em avaliação.
As consultas serão realizadas ao longo de dois anos e meio, com acompanhamento multiprofissional, exames laboratoriais e fornecimento gratuito das medicações.
Segundo o infectologista Marcelo Cordeiro, responsável pelo estudo em Manaus, a estratégia pode ampliar as opções de prevenção.
“A pesquisa pode representar mais um avanço importante na prevenção combinada do HIV, oferecendo uma alternativa para pessoas que têm dificuldade em manter o uso diário da PrEP”, disse Marcelo.
O coordenador de Educação Comunitária, Gabriel Mota, destacou o papel da população na construção de novas estratégias. “Todos os avanços só foram possíveis graças à participação comunitária. A PrEP mensal pode ser uma alternativa relevante para quem não se adapta às estratégias atuais”, afirmou.
Quem pode participar do estudo
O estudo está aberto para pessoas maiores de 18 anos, sexualmente ativas, que não vivem com HIV e que fazem parte de grupos com maior risco de infecção, como:
mulheres trans e travestis;
homens cisgêneros que fazem sexo com homens cis e/ou mulheres trans;
homens trans e pessoas não binárias que praticam sexo anal.
A participação é voluntária, gratuita e sigilosa, seguindo normas éticas nacionais e internacionais.
Foto: Divulgação/Documentário ‘Bocaina – Terra de Fé e Raízes’
Pela primeira vez, o documentário “Bocaina – Terra de Fé e Raízes” foi exibido na própria Comunidade de Bocaina, distrito de Santo Antônio de Leverger (MT), no dia 20. O evento aconteceu no salão comunitário. O curta registra a tradicional Festa de São Sebastião, realizada há aproximadamente 100 anos, a partir das memórias, contos e músicas preservadas pelos moradores mais antigos. A obra também terá uma exibição em 3 de fevereiro, no Cine Teatro Cuiabá.
As gravações começaram em 25 de janeiro do ano passado, data que marcou também o início da programação de três dias da Festa de São Sebastião. O filme acompanha o festejo por meio da sabedoria oral dos idosos, com destaque para a fé, a coletividade e a religiosidade como elementos centrais na construção da identidade local e dos devotos de São Sebastião.
O projeto é realizado com apoio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), do Governo do Estado, do Ministério da Cultura e do Governo Federal, por meio da Lei Paulo Gustavo. As sessões contarão com recursos de acessibilidade.
Cartaz de divulgação do documentário ‘Bocaina – Terra de Fé e Raízes’. Imagem: Divulgação
Estreia na comunidade
Para a realizadora, a escolha de estrear o documentário em Bocaina carrega um significado profundo. “Nunca passou pela minha cabeça não mostrar o filme ali primeiro. Seria um desrespeito com os mais velhos. Se cheguei pedindo licença e tive o apoio deles, a entrega precisava ser compatível com essa abertura. Ali é o exame mais importante”, destaca. Ela complementa: “Emocionalmente estou ansiosa e feliz. Espiritualmente, me sinto amparada pelos antepassados”.
A direção geral do documentário é dividida com Juliana Segóvia, que também assina a direção de fotografia. Para ela, o principal desafio foi construir uma narrativa visual sensível e ética, respeitando a profundidade do território e das pessoas retratadas.
“Trabalhar essa história exigiu um cuidado extremo com a sensibilidade visual e discursiva. Além disso, existe o desafio de ocupar esses lugares de liderança no cinema brasileiro sendo mulher negra, em um cenário que ainda questiona nossas capacidades”, enfatiza.
Juliana ressalta que o convite ao Aquilombamento Audiovisual Quariterê — coletivo de produtores negres e indígenas de Cuiabá — foi determinante para o modo como o filme foi realizado.
“Pensar a representação na tela passa por imaginar como gostaríamos que pessoas negras e indígenas fossem retratadas, sem reforço de estereótipos. O Quariterê parte dessa ética: cinema é coletividade e todos que fazem um filme acontecer são cineastas”, explica.
Idealizado pela proponente Thamara Luiza, que assina o roteiro, a direção de produção e faz sua estreia como co-diretora geral, o documentário também faz parte de sua trajetória acadêmica. A direção geral foi dividida com Juliana Segóvia, que também assina a direção de fotografia.
“É a primeira vez que assino um projeto como proponente, responsável, pesquisadora e diretora. Dividi a direção com a Juliana, que é uma diretora que eu admiro, com um olhar super técnico, sensível e assertivo, que é exatamente o que eu queria para contar essa história”, afirma Thamara. “É a história da minha vida, da minha família e da minha comunidade”.
Foto: Divulgação/Documentário ‘Bocaina – Terra de Fé e Raízes’
O filme reúne personagens que fazem parte da organização e da vivência da festa, como Dona Diva, uma das chefes da cozinha; Oreste Castelo, capelão que explica a simbologia do mastro, das rezas e do cururu; Maria do Carmo, presidente da Associação dos Devotos de São Sebastião (Adesscob); Ana Rosa, responsável pela equipe de liturgia; e Creonice, conhecida como a “primeira-dama”, dona do bar da comunidade e voz do Hino de São Sebastião.
Para Thamara, o processo de produção foi marcado por envolvimento coletivo. “Foi um processo que materializa um desejo e um sonho coletivo. Estar em set, conversar com os entrevistados, fazer a decupagem e ver a equipe alinhada foi uma experiência muito forte. Todo mundo estava inteiro, comprometido e entregue”.
Ela também ressalta a etapa de pós-produção e a atuação da equipe técnica, com destaque para Pedro Brites, responsável pelo acompanhamento do processo brilhante de montagem e finalização; os músicos Augusto Krebs e Igor Carvalho, que assinam a trilha sonora original; e Andressa Mendes, que conclui a produção executiva e assina o jurídico do projeto.
Memória como tecnologia de resistência
A Festa de São Sebastião, segundo a co-diretora, carrega saberes que atravessam gerações e funcionam como uma verdadeira “tecnologia de resistência”.
“A procissão, o cururu, o lambadão, o bolo de arroz, os rituais e os modos de organização são heranças de conhecimento que mantêm a comunidade unida. A festa é uma cola social que educa sobre coletividade, pertencimento e continuidade”, explica.
O protagonismo das mulheres negras aparece como eixo central da narrativa. Para Thamara, essa escolha é inseparável da realidade da comunidade. “A Bocaina é majoritariamente negra, e as mulheres são pilares da festa e da comunidade. Elegemos esse protagonismo como eixo narrativo por entender que ele faz parte da raiz identitária do território. O fato de eu e Juliana sermos mulheres negras também orientou nosso olhar e nossa intenção estética”, pontua.
Divulgação/ Documentário Bocaina – Terra de Fé e Raízes
Política pública e circulação
Possibilitado por meio da LPG, o documentário mobilizou cerca de 30 profissionais do audiovisual. Para Thamara, o fomento público é indispensável: “Além da geração de emprego, a lei permite que narrativas historicamente marginalizadas sejam registradas, entrem em acervos e circulem. Isso fortalece a autonomia das comunidades e amplia o acesso às políticas culturais”.
Juliana reforça que políticas como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc ampliam o acesso de realizadores fora dos grandes centros aos recursos e aos espaços de decisão no audiovisual, permitindo “a existência de cinemas contra-coloniais, que rompem com a ideia de um universal eurocêntrico e valorizam a localidade, o território e quem o constitui”.
Para Rafaela Pedroso da Silva, moradora de Bocaina e fundadora da página oficial em celebração da cultura e tradição da comunidade, a Festa de São Sebastião representa união, fé e pertencimento. “É o que une nossas famílias, nossos parentes que vêm de longe, os amigos que se tornam família. É a família São Sebastião. A gente carrega isso com muito orgulho e amor”, comemora.
Rafaela destaca a emoção de ver a própria história retratada em um documentário: “Foi uma sensação única. Nossa comunidade nunca tinha vivido isso. Ver pessoas que trabalharam pela festa ao longo dos anos, muitas que nem cheguei a conhecer, foi emocionante. É algo que vai ficar marcado para sempre”.
A primeira exibição em Bocaina, segundo ela, reforça o sentimento de pertencimento. “É ver nossa história contada por nós mesmos, no lugar onde tudo acontece. Isso fortalece a comunidade e mantém viva a tradição”, define.
*Com informações da Secel-MT e do Ministério da Cultura
O trabalho feito pela Secretaria Municipal de Conservação Pública torna Boa Vista mais bonita, organizada e agradável. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Presentes em todos os bairros da capital, os agentes de limpeza urbana — conhecidos carinhosamente pela população como “verdinhos” e “amarelinhos” — são os grandes protagonistas por trás do cuidado diário com Boa Vista. São eles que desempenham múltiplas funções e contribuíram diretamente para que em 2026 a cidade conquistasse a 1ª posição entre as capitais brasileiras com o melhor serviço público do país.
Esse trabalho que torna Boa Vista mais bonita, organizada e agradável, é feito pela Secretaria Municipal de Conservação Pública, que segue um cronograma diário de serviços, atendendo todas as regiões da cidade ao longo do ano. Com dedicação e compromisso, os profissionais garantem ruas limpas, praças bem cuidadas e espaços públicos organizados.
O esforço contínuo das equipes foi decisivo para que áreas como limpeza urbana e zeladoria alcançassem nota média 8 na avaliação do Instituto Veritá, refletindo diretamente na qualidade de vida percebida pela população.
Com cuidados permanentes, praças e avenidas ganham cercas vivas e mais cor, reforçando a beleza urbana e o orgulho de quem vive em Boa Vista. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Paisagismo: um diferencial que encanta
Entre os serviços que fizeram Boa Vista se destacar no cenário nacional, o paisagismo é um dos grandes diferenciais da capital. Praças públicas e canteiros centrais das principais avenidas recebem cuidados permanentes, ornamentados com arbustos coloridos que formam verdadeiras cercas vivas e reforçam a harmonia visual da cidade, além de despertar o orgulho de quem vive aqui.
Espécies como Ixora, Alamanda, Teresinha e Pingo-de-Ouro são amplamente utilizadas na composição dos espaços verdes. Durante o verão, a irrigação dessas áreas é intensificada com o apoio de carretas-pipa, preservando a vegetação e a beleza contínua dos ambientes urbanos.
Irrigação das áreas verdes é intensificada durante o verão. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Os agentes atuam diariamente na manutenção das áreas verdes, fazendo serviços como poda, roçagem e plantio, com mais de 80 espécies de plantas, entre perenes, sazonais e grama. O secretário municipal de Conservação Pública, Daniel Lima, destaca que as equipes também são responsáveis pela manutenção de praças e Selvinhas Amazônicas, estando presentes em mais de 68 espaços distribuídos pelos bairros da capital.
“O trabalho inclui ações constantes de revitalização e manutenção desses espaços públicos, como pintura, recuperação de brinquedos e muretas, reparos em calçadas, alambrados, pavimentação com paver, meios-fios e paisagismo. Todos os profissionais são capacitados e preparados para cada função. Temos equipes de excelência”, destacou o secretário.
Calil Areb, de 56 anos, atua há oito anos na revitalização dos espaços públicos. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Histórias que fortalecem o cuidado com a cidade
Por trás de cada espaço bem cuidado em Boa Vista, há histórias de dedicação e vocação. É o caso do pintor Calil Areb, de 56 anos, que atua há oito anos na revitalização dos espaços públicos.
“Comecei como ajudante e, com o tempo, me tornei pintor. Vejo o quanto já contribuí com o cuidado da cidade e sigo deixando esse legado. Fico muito feliz em ver as praças ganhando vida com a pintura que faço e a população utilizando esses espaços de lazer”, afirmou.
As equipes de limpeza também trabalham nos canais de escoamento, com serviço de capinagem, roçagem, raspagem de areia e coleta de resíduos, deixando o ambiente sempre limpo, seguro e bem preservado.
O agente de limpeza Uirasmar Marques, de 40 anos, atua há 11 anos na zeladoria da cidade e também se orgulha de sua dedicação e de fazer parte desse trabalho.
“Me sinto feliz em contribuir para que nossa cidade esteja sempre limpa. Também peço a colaboração da população, jogando o lixo no local adequado, para que juntos possamos cuidar de Boa Vista”, destacou.
Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá. Foto: Francisco Pinheiro/Rede Amazônica AP
A Universidade Federal do Amapá (Unifap) desenvolveu um medicamento à base de jucá (Libidibia ferrea), para tratar o pé diabético. A expectativa é que o produto seja aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passe a ser oferecido no Sistema Único de Saúde (SUS) como alternativa mais barata e eficaz.
O jucá é uma planta amazônica comum nos quintais da região e já era usado há gerações por moradores como cicatrizante natural. Essa tradição inspirou os pesquisadores da Unifap a transformar o conhecimento popular em ciência.
O professor José Carlos Tavares, coordenador do laboratório de fármacos da universidade, lembra que desde criança via familiares utilizando a planta.
“Nós temos aqui muitos ativos da biodiversidade amazônica que estamos explorando […] Tudo começa pelo conhecimento tradicional. Eu cresci vendo na minha família, a minha mãe utilizar o Jucá para tratamento de feridas”, relembrou.
Entre as propriedades do jucá estão ação anti-inflamatória, antimicrobiana e regenerativa, características que ajudam na cicatrização de feridas.
A pesquisa mostrou que o Jucá aumenta o fluxo de sangue na área ferida, o que ajuda irrigar a região e acelerar o processo de cura.
Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá — Foto: Francisco Pinheiro/ Grupo Rede Amazônica
As pesquisas com jucá para o medicamento
O pé diabético é uma complicação do diabetes que provoca feridas e infecções nos pés, causadas por problemas de circulação e perda de sensibilidade. Sem tratamento, pode evoluir para gangrena e levar à amputação.
As pesquisas começaram em 2024 e passaram por diferentes etapas da fase pré-clínica. A pomada feita com jucá já concluiu todos os testes necessários e agora será submetida à avaliação da Anvisa.
Universidade Federal do Amapá. Foto: Divulgação / Unifap
Segundo os cientistas, a ideia é oferecer um medicamento acessível e com melhor custo-benefício para o SUS. Pacientes com pé diabético precisam de acompanhamento constante em unidades de saúde, com curativos e reposição de remédios.
“A nossa visão é introduzir todos os nossos produtos no SUS. Esse é o resultado de um investimento público em pesquisa que possa gerar benefícios para a saúde humana”, afirmou Tavares. Em um dos casos acompanhados pela equipe, um paciente que usou spray à base da planta apresentou melhora significativa. O quadro era considerado irreversível e havia indicação de amputação, mas o tratamento evitou a perda do membro.
“Conseguimos recuperar justamente com o spray que desenvolvemos, feito com nanopartículas a partir de uma resina de jucá, que atua sobre o biofilme. O grande problema no tratamento das feridas complexas são os biofilmes, devido à complexidade das bactérias existentes e de difícil tratamento”, explicou o professor.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizaram, dos dias 9 e 19 de janeiro, a primeira etapa de monitoramento ambiental e humano do mercúrio na Aldeia Gorotire, na Terra Indígena Kayapó, em Redenção (PA), área próxima ao garimpo Maria Bonita, o maior em terras indígenas no sul do Pará. A ação incluiu a coleta de amostras de água e sedimentos e a análise da presença de mercúrio em peixes da comunidade.
A atividade integra o projeto Impacto do Mercúrio em Áreas Protegidas e Povos da Floresta na Amazônia, desenvolvido em parceria com a Fiocruz e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), com financiamento do Governo da Alemanha, e tem como objetivo avaliar os efeitos da exposição ao mercúrio na saúde de populações indígenas e nos ecossistemas aquáticos.
As ações incluíram entrevistas, avaliações clínicas e a coleta de amostras biológicas e ambientais para análise dos níveis de mercúrio. No total, 209 pessoas participaram do estudo. As análises biológicas serão realizadas pelo Laboratório de Pesquisa de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Além da Aldeia Gorotire, o estudo envolveu indígenas de outras oito comunidades: Bananal, Kriny , Ladeira, Las Casas, Marabá, Ngokongotire, Ponte e Redenção.
Foram coletadas, ainda, 18 amostras de sedimentos, 21 de água em rios da bacia do Rio Fresco e oito de fontes de abastecimento para consumo humano, com avaliação em campo de parâmetros físico-químicos e bacteriológicos, bem como obtidas 51 amostras de peixes consumidos pelas comunidades. As análises ambientais serão feitas no Laboratório de Biogeoquímica Ambiental W.C. Pfeiffer, da Universidade Federal de Rondônia (Unir), em Porto Velho (RO).
De acordo com a secretária substituta nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do MMA, Thaianne Resende, o monitoramento realizado na aldeia é um “desafio humano, técnico e institucional”.
“Essa ação reafirma a presença do Estado em territórios de alta vulnerabilidade socioambiental e só é possível graças à parceria estratégica com a Fiocruz, que integra ciência, saúde e meio ambiente para proteger as populações indígenas, os ecossistemas amazônicos e fortalecer a implementação da Convenção de Minamata no Brasil”, complementou a secretária substituta.
Imagem ilustrativa de pesquisa com mercúrio na Amazônia. Foto: Divulgação/Acervo Ibama
Thaianne esclarece, ainda, que os resultados obtidos por meio da ação de monitoramento “permitirão identificar os níveis de contaminação, os padrões de exposição e os potenciais riscos à saúde humana e ao meio ambiente”. “Irão subsidiar ações de proteção ambiental, de salvaguarda das populações indígenas e de enfrentamento dos impactos da mineração ilegal na Amazônia”, concluiu a diretora.
Também foram realizadas reuniões de planejamento com representantes do MMA, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) de Redenção, do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Kayapó do Pará, da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e da Fiocruz, com o objetivo de apresentar o protocolo de pesquisa e definir as estratégias de atuação no território.
Monitoramento de mercúrio
Em 2025, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) assinou o Termo de Execução Descentralizada (TED) com o Instituto Amazônico de Mercúrio para a implementação do projeto de monitoramento da exposição ao mercúrio em território Munduruku. Nesse mesmo período, o MMA realizou ações de monitoramento nas terras indígenas Yanomami.
O monitoramento integra uma das frentes de atuação do Governo do Brasil no enfrentamento ao garimpo ilegal, envolvendo pesquisadores, órgãos ambientais e a participação de lideranças indígenas.