Entre as diversas histórias que desfilam diante do público, destacam-se Yurupari, pelo Caprichoso, e Tapiraiauara, pelo Garantido, símbolos de força ancestral e poder protetor.
De 27 a 29 de junho, a arena de Parintins será tomada por emoção e encantamento. O Caprichoso apresenta o tema ‘É Tempo de Retomada’, evocando a sabedoria ancestral dos povos da floresta. Já o Garantido traz ‘Boi do Povo, Boi do Povão’, resgatando a memória do boi vermelho e branco, ícone da Baixa do São José.
Entre os 21 itens avaliados pelos jurados, um dos mais aguardados é o Item 17 – Lenda Amazônica, apresentado em cada noite da disputa. Nesse momento, os bois encenam, por meio de alegorias, coreografias, toadas e personagens, uma lenda tradicional da Amazônia.
Mais do que um espetáculo visual, essa apresentação é um mergulho na ancestralidade, revelando os mistérios da floresta e a força simbólica dos mitos que habitam o imaginário dos povos da região.
Yurupari, o legislador azul
“Ao som de flauta é festa, ô-ô-ô-ô, ao som de tambor, guerra, ô-ô-ô-ô. Ao som de flauta é festa, ô-ô-ô-ô, ao som de tambor, guerra, ô-ô-ô-ô…” 🎵
Imagem: Reprodução
O Caprichoso traz ao festival a lenda de Yurupari, o Legislador, figura mítica dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Segundo a história, a jovem Ceuci, desobedecendo aos costumes de sua tribo, comeu a fruta sagrada do Pücã durante seu período fértil.
O sumo escorreu por seu corpo, e ela foi fecundada por Guaraci, o Sol. Expulsa da aldeia, Ceuci deu à luz um menino misterioso que desaparecia durante o dia e só aparecia à noite para mamar — um filho invisível, mas presente.
Quinze anos depois, o jovem retornou à aldeia, alto, forte e belo, e foi aclamado tuixaua — líder supremo. Numa época em que as mulheres detinham o poder, Yurupari restabeleceu o domínio masculino e instituiu uma nova ordem.
Reuniu os homens, criou rituais de iniciação, festas sagradas e preceitos rigorosos: jejum para purificação, fidelidade e resistência à dor.
Segundo seus ensinamentos, somente os fortes e obedientes alcançariam a imortalidade. As mulheres eram proibidas de ouvir suas palavras ou participar dos ritos, sob pena de morte. Até Ceuci, por desobedecer, foi transformada em pedra.
Neste festival, o Caprichoso apresenta Yurupari como símbolo da sabedoria implacável e da força que molda a tradição dos povos da floresta.
Ele não é apenas um personagem, mas a lei viva, o espírito que guia e disciplina. A evocação dessa lenda reafirma o compromisso do boi azul e branco com a memória indígena, transformando o ritual em espetáculo.
A Tapiraiauara perreché
“Drenando a seiva encantada, segredos que Tupã deixou. Quimera gigante encantada, estrondam gritos de pavor…” 🎵
Imagem: Reprodução
No Festival de Parintins deste ano, o Boi Garantido invoca o mistério da Tapiraiauara, criatura lendária das águas amazônicas, que vigia os rios com olhar feroz e alma ancestral. Nascida da fusão dos medos e encantamentos dos povos da floresta, ela carrega traços de anta e onça, misturando força bruta com astúcia selvagem.
É vista como um ser gigantesco e quimérico, com patas que nadam e orelhas que tremem à menor ameaça. Sua presença se anuncia antes mesmo que emerja, quando a água turva se agita e os olhos vermelhos brilham entre os galhos.
Segundo os antigos, essa guardiã vive nas sombras dos aningais e nas profundezas dos igarapés, afastada dos humanos — a não ser quando precisa defender os segredos da mata. Ataca sem piedade os caçadores cruéis, especialmente os que ferem fêmeas prenhas ou violam os ciclos da vida.
Dizem que ela vira canoas com o peso de um trovão, assombra os pescadores com um cheiro pútrido e cava a terra sob as árvores onde as presas tentam se esconder. Nem mesmo o topo das árvores é refúgio para quem desafia sua ira.
Mas há quem veja na Tapiraiauara mais do que terror — veem nela a força de Tupã encarnada, uma protetora dos rios e das espécies, símbolo de equilíbrio sagrado. Ao evocar essa fera ancestral, o Garantido canta não apenas a lenda, mas a luta pela preservação da Amazônia, onde o real e o mítico se confundem.
E quando o vermelho da arena se enche de fumaça e tambores, é a Tapiraiauara quem retorna — não como monstro, mas como espírito guerreiro da floresta viva.
Ao trazer Yurupari e Tapiraiauara para o centro do bumbódromo, Caprichoso e Garantido fazem mais que apresentar espetáculos: resgatam e preservam a alma da cultura amazônica. Em cada flauta, tambor, dança e alegoria, o Festival reafirma seu papel como guardião da memória indígena e da força mítica da floresta e dos rios. Neste final de junho, Parintins não será apenas palco — será altar de respeito, resistência e ancestralidade.
O veneno de uma espécie comum de escorpião amazonense pode dar origem a um potencial medicamento para o tratamento de um câncer que é uma das principais causas de morte em mulheres.
Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) identificaram na toxina do Brotheas amazonicus uma molécula com ação contra células do câncer de mama comparável à de um quimioterápico comumente usado no tratamento da doença.
Resultados preliminares do estudo, feito em colaboração com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), foram apresentados durante a FAPESP Week França, que aconteceu entre os dias 10 e 12 de junho na capital da região da Occitânia, no sul do país europeu.
“Conseguimos identificar por meio de um trabalho de bioprospecção uma molécula na espécie desse escorpião amazônico que é semelhante à encontrada em peçonhas de outros escorpiões e com ação contra as células do câncer de mama”, disse à Agência FAPESP Eliane Candiani Arantes, professora da FCFRP-USP e coordenadora do projeto.
Por meio de projetos apoiados pela FAPESP no âmbito do Centro de Ciência Translacional e Desenvolvimento de Biofármacos (CTS), situado no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, os pesquisadores vinculados à instituição têm se dedicado a realizar a clonagem e expressão de moléculas bioativas, como proteínas de peçonha de cobras cascavel e de escorpiões, por exemplo.
O trabalho já resultou no desenvolvimento de um produto patenteado pelo Cevap chamado selante de fibrina – uma “cola biológica” que utiliza uma serinoproteinase extraída de veneno de serpentes, como a Bothrops neuwiedi pauloensis e a Crotalus durissus terrificus, combinada com um crioprecipitado rico em fibrinogênio, extraído do sangue de bubalinos, bovinos ou ovinos.
Esse componentes são combinados no momento da aplicação e formam uma rede de fibrina que imita o processo natural de coagulação e cicatrização. O selante tem sido estudado para colagem de nervos, tratamento de lesões ósseas e até mesmo na recuperação do movimento após lesões medulares e está em avaliação em estudos clínicos de fase 3 – a etapa final de análise de um novo medicamento antes de ser aprovado para comercialização.
Mais recentemente, os pesquisadores conseguiram clonar e expressar outra serinoprotease de cascavel, denominada colineína-1, que apresenta um aminoácido diferente da toxina giroxina, extraída diretamente da peçonha de cascavel e usada na produção do selante de fibrina.
“Nossa ideia, agora, é obter essa serinoprotease por expressão heteróloga [em um fragmento ou gene completo de um organismo hospedeiro que não o possui naturalmente] em Pichia pastoris“, disse Arantes.
Por meio da expressão heteróloga nessa levedura isolada em 1950, na França, os pesquisadores também pretendem obter um fator de crescimento endotelial, chamado CdtVEGF, identificado na espécie de cascavel Crotalus durissus terrificus.
“Esse fator de crescimento favorece a formação de novos vasos. Se juntarmos ele com a colineína-1, podemos criar um selante de fibrina melhorado em relação ao que está sendo desenvolvido no Cevap, com possibilidade de ampliar a escala industrial, uma vez que pode ser obtido por expressão heteróloga”, comparou a pesquisadora.
Ainda por meio da expressão heteróloga, os pesquisadores identificaram em escorpiões duas neurotoxinas com ação imunossupressora. E em parceria com colegas do Inpa e da UEA constataram que o veneno do escorpião Brotheas amazonicus possui uma molécula bioativa, batizada BamazScplp1, com potenciais propriedades antitumorais.
Os resultados de testes do peptídeo em células de câncer de mama revelaram que ele apresenta resposta comparável ao paclitaxel, um quimioterápico comumente utilizado no tratamento da doença, induzindo a morte das células principalmente por necrose – um ação semelhante à de moléculas identificadas em outras espécies de escorpiões. “Também pretendemos obter essas moléculas por expressão heteróloga”, antecipou Arantes.
Novas terapias
Já em Campinas, no interior de São Paulo, um grupo de pesquisadores vinculados a um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), financiado pela FAPESP – o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera) –, pretende viabilizar no Brasil uma nova abordagem no combate da doença, que integra diagnóstico e tratamento direcionado.
A nova abordagem, iniciada na Alemanha, consiste em marcar com diferentes radioisótopos moléculas-alvo de vários tipos de tumores e utilizá-las tanto para o diagnóstico por imagem como para o tratamento.
“Dependendo do tipo de radiação emitida pelo isótopo que acoplamos à molécula – se pósitron ou gama –, conseguimos produzir imagens dela por meio de equipamentos de tomografia disponíveis no CancerThera. Ao documentarmos que um isótopo capta muito uma determinada molécula, podemos substituí-lo por outro que emite uma radiação mais intensa localmente e, dessa forma, tratar tumores”, explicou Celso Darío Ramos, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp) e um dos pesquisadores principais do CancerThera.
Um grupo de pesquisa básica do centro tem se dedicado a identificar novas moléculas e avaliar se elas se acumulam em determinados tipos de cânceres. Já uma equipe clínica tem se voltado a identificar novas aplicações para moléculas já conhecidas.
“Temos estudado moléculas conhecidas de cânceres hematológicos, principalmente mielomas múltiplos, além de outras não conhecidas de câncer de cabeça e pescoço, de fígado, sarcomas, de pulmão, colorretal e gástrico, entre outros. Além disso, também temos estudado câncer de tireoide, que já é tratado com material radioativo há muitos anos, o iodo radioativo, mas alguns pacientes têm resistência. Por isso, estamos tentando identificar outra possibilidade de tratamento, com um material radioativo diferente, para esses pacientes”, disse Ramos à Agência FAPESP.
Vacina contra o câncer
Outra nova abordagem em desenvolvimento por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) é uma imunoterapia contra o câncer baseada em células dendríticas.
Esse tipo de célula desempenha um papel único na fisiologia do sistema imunológico e é afetada em pacientes com câncer, explicou José Alexandre Marzagão Barbuto, professor do ICB-USP e coordenador do projeto.
“Há alguns anos se descobriu que é possível pegar monócitos de células do sangue de pacientes com câncer e transformá-las em células dendríticas, no laboratório. Mas as células dendríticas produzidas dessa forma são muitas vezes desviadas para induzir tolerância.”
A fim de contornar esse viés da função dessas células, os pesquisadores produziram células dendríticas de doadores saudáveis e as fundiram com as células de pacientes com câncer a fim de criar uma vacina para imunizá-los contra seus próprios tumores.
Os resultados obtidos em vários tipos de câncer e, mais recentemente, em pacientes com glioblastoma, sugerem que isso pode ser uma abordagem eficaz, uma vez que seja possível conduzir e controlar a resposta imune induzida pela vacina.
“O sistema imune interpreta essa vacina, baseada em células dendríticas de um doador saudável fundidas com as células do tumor do paciente, como um transplante e reage com violência”, afirmou Barbuto. “Fizemos os primeiros estudos em pacientes com melanoma e câncer de rim, cujos resultados foram muito bons, e outros com glioblastoma. Agora, estamos na expectativa de realizar um estudo clínico de fase 3.”
O avanço na compreensão e tratamento do glioblastoma também tem sido o foco de pesquisadores do Instituto Universitário do Câncer de Toulouse, que têm avaliado se a inteligência artificial aplicada à ressonância magnética pode determinar com precisão se pacientes em quimioterapia apresentam uma modificação no DNA que é útil para prever quanto tempo poderão viver e como responderão ao tratamento.
A modificação é conhecida como “metilação da região promotora da MGMT” e também pode afetar a maneira como a proteína MGMT é produzida e modificada.
“O estado de metilação da MGMT é um importante fator prognóstico, mas requer biópsias que não são necessariamente representativas de todo o tumor e podem variar na recidiva”, explicou Elizabeth Moyal, pesquisadora do IUCT-Oncopole e coordenadora do projeto.
A pesquisadora, em colaboração com o cientista da computação Ahmda Berjaoui, da IRT Saint-Exupéry, tem empregado técnicas de inteligência artificial já aplicadas no setor aeroespacial para superar essas barreiras.
“Desenvolvemos um modelo capaz de prever a sobrevida com alta precisão, variando de 80% a 90%, e que supera outras técnicas existentes”, afirmou Berjaoui.
“Pensa-se muito sobre a Amazônia, mas não se pensa com a Amazônia, né?”, questiona o antropólogo Rônisson de Oliveira. Natural de São Paulo do Coraci, uma comunidade da região central do Estado do Amazonas, o pesquisador acredita que muitas políticas públicas não atentam para a complexidade do território amazônico.
Levando esse incômodo para o centro da sua tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Oliveira esmiúça os conflitos em torno da pesca do pirarucu em sua localidade de origem.
No território, situado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (RDS Amanã), os planos de conservação, iniciados no início dos anos 2000, alteraram a relação entre o pirarucu e os pescadores. Parte deles se organizou em torno do manejo, aderindo a regras que visam à conservação dessa espécie.
Já outro grupo não fez o mesmo, perdendo o direito de pescar de forma legal. Diante desse panorama, uma das motivações do estudo, orientado pelo professor do IFCH Mauro Almeida, passou por entender como uma política pública atravessa as relações de uma comunidade.
“Focamos muito o resultado, mas não o impacto [dessas medidas] na vida das pessoas. A gente precisa adentrar nisso. Não para acabar [com a política de conservação], mas para fortalecê-la”.
O retorno ao Coraci
Aos 11 anos, Oliveira saiu de São Paulo do Coraci rumo à cidade de Tefé (AM) para dar seguimento a seus estudos. Na época, era possível cursar apenas até a quarta série do ensino fundamental na comunidade. Em Tefé, o então estudante sentia receio de falar que pertencia a uma comunidade tradicional. Depois de 20 anos de uma trajetória focada nos estudos, o antropólogo conta não sentir mais nenhuma necessidade de ocultar suas origens. Sua tese o fez reconectar-se com sua terra natal.
“Quando eu era adolescente, nem falava que era de lá. Hoje, não. Hoje eu me reconheço como do Coraci. Em qualquer lugar que eu vá e em que eu possa falar que eu sou do Coraci, eu vou falar. Essa tese me faz voltar ao Coraci em diversos sentidos: voltar à história da minha mãe, à história do meu pai, e ver o quanto essa luta deles é potente”.
A educação formal, para o antropólogo, propiciou uma mudança de rumos. “O estudo foi muito importante pra mim. Foi o motivo da minha saída e eu agarrei isso com muita intensidade porque vi uma possibilidade de transformação”.
Enquanto na comunidade, Oliveira gostava mais de brincar no rio ou nos campos com os primos e irmãos. Na cidade, voltou-se às dinâmicas escolares.
“Em Tefé, a vida muda. É uma cidade. Você fica muito mais isolado. Então eu me concentrei muito nos estudos. Sempre fui muito tímido, por isso uma das saídas na escola era justamente ser uma pessoa inteligente. Para mim, você precisa entender como é o funcionamento da escola e eu entendi isso muito cedo. Aí você começa a ser percebido como uma pessoa inteligente”.
Depois de cursar o ensino médio, Oliveira ingressou no curso de história na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), período em que se envolveu pela primeira vez com atividades de pesquisa. Na sequência, fez mestrado em sociologia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com uma dissertação sobre questões de gênero. Um ano depois, ingressou no Instituto Mamirauá, uma organização social (OS) fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que atua com pesquisa voltada ao manejo de recursos naturais e ao desenvolvimento social.
Por meio do instituto, o antropólogo retornou ao Coraci como pesquisador, em um trabalho de levantamento sobre as práticas tradicionais dos pescadores da região. Nesse período, percebeu um conflito na comunidade entre os manejadores do pirarucu e os não manejadores, considerados invasores. “Eu tinha um incômodo por haver essa divisão. Pensava: ‘Por que as pessoas estão divididas? Por que estão brigando e dando tanta importância a isso?’”. Começou aí uma mudança de foco na sua trajetória de estudo.
Até 1998, data de criação da RDS Amanã, os invasores eram os pescadores vindos de fora. “Até então, não existiam esses invasores de dentro. Vinham barcos, os ‘peixeiros’, como a gente chama aqui, de outras regiões. Vinham de Manaus e até do Pará. Eram barcos grandes, tinham materiais que nem existiam pra cá, no Coraci. Esses eram os invasores até então. Quando se cria a unidade de conservação, começa-se a barrar a entrada de invasores vindos de fora, no final dos anos 90. Até que, em 2001, eles já não conseguem mais entrar.”
Em 1996, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) proibiu a captura do pirarucu devido à diminuição da população da espécie, um fenômeno associado à pesca indiscriminada. Dois anos depois, começou a ser implementado o plano de manejo, que estabeleceu regras, como uma cota de peixes adultos para a captura, a padronização do armazenamento e do transporte e a delimitação das áreas de pesca.
No Coraci, os manejadores se organizaram na Associação de Produtores do Setor Coraci (APSC). “A partir daí, os invasores de dentro começaram a existir, porque nem todos os homens ingressaram no grupo”, conta Oliveira.
Os motivos para não aderir ao manejo ou para o abandono da prática, segundo a pesquisa, são diversos, incluindo a dificuldade de lidar com a burocracia e questões religiosas. Mas isso não significa que os invasores oponham-se às medidas de conservação da área, incluindo aquelas relativas ao pirarucu. “Essas pessoas ainda têm um compromisso com o território porque elas moram ali. Mesmo não cumprindo todos os acordos que têm que ser cumpridos, elas não querem que o território acabe.”
Foto: Jefferson Christofoletti/Embrapa
Invasores e manejadores
Para se aprofundar no conflito entre os invasores e os manejadores, Oliveira viajou até o Coraci dez vezes, permanecendo na região de no mínimo 5 a um máximo de 30 dias. “Tu garante?”, perguntavam-lhe quando participava de atividades nas roças ou nos lagos, querendo saber se ele aguentaria ficar na comunidade. Nesse retorno, houve um processo de adaptação. “Eu sempre afirmava que garantia, mas, para de fato garantir, foi essencial experimentar, reviver e me readaptar. Assim, tive febre após tocar em uma árvore infestada de tachi, uma espécie de formiga que habita certas árvores na região. O mesmo ocorreu quando fui picado por uma caba, uma vespa noturna”, relata na tese.
Durante os períodos de estadia em São Paulo do Coraci, realizou 19 entrevistas, participou de dez reuniões e analisou 53 atas da APSC (lavradas de 2001 a 2010), 18 relatórios do promotor comunitário do Coraci (datados de 2001 a 2002) e 90 documentos do Instituto Mamirauá. Além disso, participou das atividades de manejo com os pescadores.
Apesar das dificuldades enfrentadas no processo de readaptação, o fato de estar em um ambiente familiar contribuiu com a pesquisa, já que Oliveira tinha acesso às rodas de conversa, mesmo as mais informais. A principal dificuldade foi a comunicação com o grupo dos invasores, também porque esse grupo não se reconhece como tal.
“Eles não se veem como invasores. Esse é um dos primeiros pontos que eles faziam questão de colocar: eles sabem que são categorizados como invasores, mas não aceitam porque existe muito estigma”, afirmou.
Apesar da dificuldade para manter contato com esse grupo, Oliveira, em um momento de andanças pelo Coraci, ouviu um relato importante a fim de entender essas pessoas. O antropólogo pegou carona em um barco com um vereador, que precisava fazer uma parada para uma reunião na comunidade Ebenézer – essa comunidade se desligou do Coraci em 2007 para buscar ser reconhecida como território indígena. Lá, durante o almoço, uma pessoa que não o conhecia afirmou: “Eu dou razão para quem é invasor porque ninguém aqui tem uma criação com viveiro, por aqui, tudo é coisa de Deus. Os caras [os invasores] têm direito de tirar”.
Segundo Oliveira, a franqueza revelou-se essencial para que compreendesse um dos motivos a justificar as invasões.
“Ele não teve pudor de falar. Não julgo se é certo ou errado. Ele disse o que estava pensando. E, para mim, foi extremamente importante ele ter essa posição porque talvez seja uma posição também coletiva. Só que as pessoas não vão falar disso para mim, falar que o peixe é da natureza e que, então, todo mundo tem direito de pegar.”
As concepções religiosas também integram o rol das questões investigadas por Oliveira em entrevistas com lideranças evangélicas e católicas. Segundo uma de suas hipóteses, se entre os católicos do Coraci há uma adesão massiva ao ideal de bem comum e de conservação ambiental, entre os protestantes evangélicos há uma adesão menor. Em suas interações, conta o pesquisador, ouviu muitas vezes os católicos acusarem os evangélicos de seguir a filosofia de “o que Deus deixou não acaba”. Portanto, para essas pessoas, não haveria necessidade de preservar a natureza. Além disso, constatou, a maioria dos homens evangélicos não integra o grupo de manejo.
No entanto, nas entrevistas realizadas, não houve registro desse tipo de opinião, talvez pelo fato de o autor da tese ter uma relação de parentesco com lideranças ligadas ao manejo, como Oliveira mesmo cogita. Além disso, “[os evangélicos] carregam vários estigmas negativos, inclusive em relação à conservação e ao manejo dos recursos. Então têm muita dificuldade de abordar o tema, que é muito delicado para eles”.
Laços prevalecem
Os debates em torno da invasão e das regras de manejo por vezes são acalorados. Um dos casos narrados pelo antropólogo diz respeito a um pescador que deixou de participar das atividades da associação por mais de seis meses e, portanto, acabou expulso após envolver-se em discussões em uma reunião.
Há também casos em que o pescador decide sair da associação por conta própria. Um dos entrevistados, por exemplo, contou a Oliveira ter se afastado devido ao excesso de burocracia envolvida no funcionamento do grupo.
Discussões acontecem também entre os próprios manejadores. O antropólogo cita, na tese, uma acusação feita entre colegas. “Tu anda com o arpão armado, na tua canoa. Não tô dizendo que tu arpoa pirarucu, mas eu já vi tu andar com o arpão armado”, disse um pescador a outro, dando a entender que o colega pescava pirarucu fora do manejo.
No entanto, mesmo os embates mais duros, afirma Oliveria, acabam arrefecendo devido às relações de parentesco e de vizinhança. “A coisa às vezes parece que vai explodir e gerar uma grande confusão e que ninguém mais vai conseguir se falar. Realmente ocorrem, às vezes, embates fortíssimos, mas eles vão se dissolvendo a partir de outras conexões, permeadas por essa relação de parentesco e vizinhança e também pela dependência, porque as pessoas dependem umas das outras por estarem naquele território”, resume.
O conceito “grafismo da sustentabilidade” foi desenvolvido na tese para designar os diversos fios que compõem o ideal de conservação no Coraci. Na comunidade, há um grupo de mulheres que faz artesanato com talas (fibras naturais), formando grafismos. As peças inspiraram a formulação. A ideia de Oliveira, ao pensar nas diversas linhas que atravessam o território, baseia-se também nas formulações do antropólogo Tim Ingold.
No Coraci, explica o antropólogo, existem talas perpassando o ideal da sustentabilidade. As talas referem-se às ações institucionais e aos projetos que conectam instituições e pessoas, formando um teçume (palavra local para designar o trançado de fibras).
“Comecei a pensar teoricamente e refletir que o ideal da sustentabilidade foi construído. E como ele se constrói? Institucionalmente com estas duas grandes instituições: o Estado e a Igreja Católica. Primeiro chega a Igreja Católica com a ideia da ecologia e começa a tecer, pensando no grafismo, as primeiras talas em torno desse ideal de conservação que existe no Coraci.”
Nas ações da Igreja, conta, seu pai esteve diretamente envolvido, atuando na Pastoral da Criança e passando a ser uma referência na defesa da criação de uma reserva. Oliveira lembra de muitas reuniões que participou com a família na época e dos debates para a criação da RDS e ressalta que foram discussões acaloradas, com uma forte participação da comunidade e a liderança proeminente de seu pai.
A criação da reserva, afirma, também mostra a ação do Estado na região. “Aí vai se construindo esse grafismo da sustentabilidade. Na minha cabeça, existe um desenho, um grafismo tecido ali, formado a partir dessas instituições e das pessoas. Elas também foram tecendo esse grafismo da sustentabilidade, e hoje elas são o próprio grafismo.”
Um peixe visto como gente
A tese de Oliveira constitui um estudo multiespécie, em que seres humanos e seres não humanos figuram como protagonistas. Aos poucos, o pesquisador conta ter percebido que o peixe representava um elemento central da tese, ao lado dos pescadores. “Na dinâmica do conflito, estavam em embate os manejadores e os invasores e eu estava olhando só para eles. Mas, de repente, percebo que o pirarucu tem uma dinâmica própria e que ele não vai atender nem aos manejadores e nem aos invasores, mas sim à sua própria sobrevivência.”
Além disso, a forma como a comunidade fala do peixe indica a proximidade entre esse ser não humano e os seres humanos. “As pessoas falam do pirarucu como se ele fosse gente, colocando-o no mesmo nível da linguagem, como diz a [antropóloga] Manuela Carneiro Cunha.”
O pirarucu é considerado um ser inteligente, um “sujeito pensante e atuante”. Devido a isso, os manejadores, por exemplo, percebem, observando o comportamento do peixe, ter havido uma tentativa de pesca ilegal. “Eles [os peixes] ficam mais ariscos e arredios. O pirarucu se mostra muito devido à necessidade de vir respirar fora da água. Se um pescador perseguiu o pirarucu e os outros peixes perceberam, eles vão ficar mais longe”, conta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Liana Coll
Cobra surpreende ao aparecer durante ensaio de casamento na praia da Ponta Negra em Manaus. Foto: Reprodução/Instagram-fotografodecasamentomanaus
Um ensaio de casamento em Manaus (AM) contou com a presença de uma participante inusitada. Durante a sessão de “pré-wedding” na praia da Ponta Negra, Zona Oeste da capital, o fotógrafo César Rocha e um casal de noivos foram surpreendidos por uma cobra ao se aproximarem da água. A cena viralizou nas redes sociais.
César contou ao Grupo Rede Amazônica que o ensaio acontecia por volta das 7h30 de domingo (15). Em determinado momento, o trio decidiu se aproximar do rio para capturar imagens de novos ângulos, quando foi surpreendido pelo animal.
“A cobra saiu da água e todos nós tomamos um susto. Eu e os noivos corremos para longe”, relembra.
A imagem da cobra à margem do Rio Negro foi feita logo em seguida, quando o fotógrafo retornou ao local para registrar o momento incomum. No vídeo, ele narra a cena.
“Olha aí o nosso ensaio, tem direito até a atração natural. Depois do jacaré, apareceu a cobra”, brincou.
O fotógrafo faz referência a outro episódio recente na mesma praia, ocorrido também em junho, quando um jacaré de aproximadamente três metros foi avistado no rio por banhistas próximo ao anfiteatro da Ponta Negra.
No caso da cobra, César contou que o animal permaneceu em terra firme até ser resgatado por bombeiros que estavam no local e solta em uma área de mata próxima.
Segundo a bióloga Ana Lobo, a cobra registrada no vídeo é uma jovem sucuri, espécie conhecida cientificamente como Eunectes murinus. Ela destaca que o animal não representa risco direto à saúde humana, pois não é peçonhento.
“[As sucuris] são semiaquáticas que morfologicamente dentro da evolução já veem com estruturas para viver na água. Então em épocas chuvosas não é incomum esses bichos acabarem sendo puxados pela correnteza”, explicou Ana, que também é coordenadora do serpentário do Museu da Amazônia (Musa).
A especialista destacou que situações como essa devem se tornar mais comuns devido à urbanização acelerada e à perda de habitat natural.
“O crescimento desenfreado das cidades vai removendo o espaço que esses animais têm para viver, que é a natureza. Então, com o avanço dessas caracterizações da urbanização, vai se tornar um hábito cada vez mais comum o contato com animais silvestres”, afirmou.
Produção de aquicultura no Tocantins. Foto: Felipe Pacheco/Acervo pessoal
Em novembro próximo, pela primeira vez, a Amazônia vai sediar uma edição da Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas, a COP30, que ocorrerá em Belém (PA). A presença de autoridades, ativistas, cientistas e líderes da sociedade civil de quase duas centenas de países colocará a floresta amazônica na ribalta mundial por onze dias. Mas, desde já, muitos pesquisadores do Brasil estão apresentando os resultados de seus estudos, propondo novas possibilidades para um aproveitamento realmente sustentável da maior floresta tropical do mundo.
Um desses estudos, recentemente publicado, é uma investigação dos benefícios da expansão da aquicultura – a criação comercial de peixes e crustáceos – na Amazônia. O objetivo é tornar mais sustentável a produção de proteínas para consumo humano e, por tabela, ajudar tanto na recuperação e preservação da floresta quanto na mitigação dos efeitos do aquecimento global.
O artigo que apresenta os resultados deste estudo envolveu 29 pesquisadores de 12 universidades e institutos de pesquisa. Do Brasil, colaboraram pesquisadores do Centro de Aquicultura da Unesp, câmpus de Jaboticabal, e das federais de Juiz de Fora (UFJF) e de Rondônia (UFRO), além do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). De fora do Brasil, participaram estudiosos da Cornell University, Indiana University, City University of New York, University of Delaware e University of Texas Rio Grande Valley, além do Earth Innovation Institute, de São Francisco, na Califórnia. O texto foi publicado na revista Nature Sustainability.
“O projeto foi motivado pelo potencial da aquicultura para produzir alimento de origem animal de forma mais sustentável do que a produção de gado, que é um dos principais fatores que impulsionam o desmatamento da Amazônia”, explica Felipe S. Pacheco, pesquisador da Cornell University. Ele faz parte de um grupo de pesquisas sobre a Amazônia, liderado pelo professor Alexander S. Flecker, seu colega em Cornell. Coube a Pacheco coordenar o trabalho dos demais pesquisadores que assinam o artigo.
O cerne do estudo está em apresentar o potencial da aquicultura na Amazônia tendo em vista a crescente demanda global por alimentos. Além disso, assinala oportunidades econômicas em uma região que enfrenta desafios como o desmatamento e a perda de biodiversidade.
Há algum tempo, a aquicultura superou a pesca extrativa como principal fonte mundial de alimentos aquáticos. O crescimento desse setor tem sido especialmente notável em regiões com alta diversidade biológica, mas que sofrem com desnutrição persistente e subdesenvolvimento. Esse, aliás, é o caso da Amazônia, assinalam os autores.
Citando dados de outros estudos sobre a região e avaliações de imagens de satélite, os autores lembram que a pecuária é responsável por desmatamento em larga escala e altas emissões de carbono na Amazônia, bioma que, além do Brasil, se espalha por Peru, Equador, Bolívia, Colômbia e Venezuela. Ao mesmo tempo, a sobrepesca tem resultado em alterações na biodiversidade aquática da região. Nesse contexto desafiador, a aquicultura se destaca como alternativa capaz de aumentar a produção de alimentos com menores impactos ambientais e gerar benefícios socioeconômicos.
A aquicultura, assim como praticamente todas as atividades econômicas, emite carbono na atmosfera em sua cadeia de produção. No entanto, as emissões de gases de efeito estufa da aquicultura amazônica são inferiores às resultantes da produção de carne suína e até de três a dez vezes menores que as da pecuária. Além disso, apresenta alta produtividade em pequenos espaços.
Aquicultura pode abrir caminho para recuperar áreas degradadas
A criação de peixes na Amazônia vem crescendo. Muitos produtores — incluindo grupos profissionais e criações familiares — já atentaram para o alto potencial de comercialização das proteínas dos peixes. Nos estados de Roraima e Tocantins, no Brasil, além de países como Colômbia e Peru, o trabalho identificou aumento da aquicultura e redução ou estabilização da produção de gado.
Wagner C. Valenti, fundador e ex-diretor do Centro de Aquicultura da Unesp de Jaboticabal, atualmente professor da pós-graduação do Centro, atua neste campo há 40 anos, e, há três décadas, desenvolve pesquisas e projetos de cultivo de peixes na Amazônia. Como a região é farta em rios, córregos e igarapés, é relativamente fácil construir açudes e lagoas para a produção de peixes, observa. “Desde então, defendo a destinação de pastagens degradadas para a aquicultura”, diz.
Tanques de produção de Tambaqui (Colossoma brachypomus) em tanques rede no estado do Amazonas. Foto: Felipe Pacheco/Acervo pessoal
Ele conta que a criação de rebanhos bovinos na região amazônica tem baixa produtividade em razão do caráter “super extensivo” da sua produção, com um número pequeno de animais ocupando áreas enormes. Depois do esgotamento de terras que já tinham sido desmatadas para virarem pasto, muitas delas são simplesmente abandonadas. Essas áreas respondem por grande parte dos cerca de 10 milhões de hectares de terras degradadas da floresta, número que corresponde a uma área maior que o estado de Santa Catarina.
“Pela aquicultura, é possível produzir proteína animal em quantidade equivalente à que é gerada pela criação de bois, usando apenas 1% ou 2% da área destinada à pecuária na Amazônia”, relata. “Isso possibilitaria ações de regeneração nos 98% ou 99% restantes.”
Para Pacheco, não se pode perder de vista o fato de que a sustentabilidade também está intimamente ligada aos fatores sociais e econômicos de uma região. “Tendemos a pensar muito no aspecto ambiental e, muitas vezes, nos esquecemos dos outros dois pilares, que são a sociedade e a economia”, diz. Ele avalia que a expansão da aquicultura deve, necessariamente, considerar a cultura e as comunidades locais.
“Porque, se isso não for levado em consideração, o que acontece é que os grandes produtores prevalecem, e começa a existir um distanciamento entre a comunidade que vive lá e o setor produtivo, ampliando a pobreza”, relata.
Riscos e gargalos da aquicultura
Embora a expansão da aquicultura na região amazônica ofereça oportunidades para melhorar o desenvolvimento econômico, a segurança alimentar, recuperar a floresta e reduzir as emissões, ela também implica alguns riscos ambientais, com potenciais impactos sobre a biodiversidade local.
De acordo com o artigo, a fragmentação dos rios está entre as ameaças mais significativas aos ecossistemas de água doce, tanto em escala global quanto na própria Amazônia. Muitas pequenas barragens para fins aquícolas já foram construídas em toda a bacia amazônica, particularmente na região metropolitana de Manaus e nos estados do Acre e Rondônia.
Tais obstáculos podem afetar os padrões migratórios dos peixes, alterar os regimes de fluxo natural dos rios e levar à perda de habitats. Essa ruptura tende a reduzir a biodiversidade aquática e a impactar negativamente determinadas espécies, inclusive aquelas de valor econômico. Os impactos são especialmente preocupantes na Amazônia, onde muitas espécies de peixes dependem de movimentos sazonais ao longo dos rios para completar seus ciclos de vida, avaliam os pesquisadores.
Outro risco identificado pelo artigo está relacionado à introdução indiscriminada de espécies exóticas na região. O trabalho pondera que “o cultivo de peixes não nativos na Amazônia representa uma ameaça crescente à biodiversidade”. Os pesquisadores descobriram que a primeira introdução documentada de peixes exóticos na Amazônia data de 1939; porém, essa prática se intensificou nas últimas duas décadas — cerca de 75% das ocorrências de peixes não nativos na região foram registradas entre 2000 e 2020.
Muitos desses peixes não nativos estão diretamente ligados à aquicultura. Entre eles, destacam-se o pirarucu, a tilápia e a truta arco-íris. O pirarucu, nativo do rio Amazonas, estava restrito às chamadas terras baixas, mas foi introduzido em outras partes por meio da aquicultura e agora é designada como invasora na Bolívia e em Rondônia. Embora os impactos de sua presença sobre as espécies nativas e os ecossistemas ainda sejam incertos, trata-se do maior peixe de água doce da América do Sul e um predador de topo, o que pode levar a mudanças na teia alimentar e a efeitos em cascata nos ecossistemas.
Já as tilápias, apesar de sua alta aceitação no mercado consumidor, são conhecidas por alterar processos ecossistêmicos aquáticos globalmente. “Em vários ecossistemas ao redor do mundo, as tilápias competiram com espécies nativas, alteraram habitats e até hibridizaram com peixes nativos, levando à perda de integridade genética”, explica o artigo.
Maior incentivo e políticas públicas
Os autores ponderam que a utilização de terras desmatadas ou degradadas que foram abandonadas para fins de aquicultura poderá representar uma oportunidade única, com muitos benefícios para a população local e o meio ambiente, mas exigirá marcos regulatórios robustos e a implantação de políticas públicas específicas.
Aquicultores alimentando peixes no estado do Tocantins.
Aquicultores alimentando peixes no estado do Tocantins. Foto: Felipe Pacheco/Acervo pessoal
“Eu não sou muito fã de tilápia — essa espécie pode interferir e modificar a fauna amazônica local”, diz Sebastian A. Heilpern, da Cornell University. “Um exemplo de marco regulatório eficaz seria aquele que incentiva os produtores a criarem espécies nativas.”
Outro fator importante a ser regulamentado envolve os locais onde a aquicultura seria autorizada. “Muitas vezes, vemos que os tanques são construídos em canais de rios, o que traz um conjunto de problemas ambientais. Outro marco regulatório poderia incentivar os produtores a construírem tanques em pastagens degradadas”, diz Heilpern.
Valenti afirma que também seria necessário conduzir um zoneamento para definir as possibilidades de uso de cada área da Amazônia, conforme a sua aptidão.
“A Amazônia tem tanta terra já degradada que não é preciso cortar uma árvore sequer para aumentar a produção de alimentos”, diz Valenti. “Bastam políticas públicas e marcos regulatórios que caminhem nesse sentido.”
O pesquisador defende ainda o estabelecimento de incentivos para empresários que migrem da pecuária extensiva para a aquicultura e a recuperação ambiental. “Vamos supor: se um produtor de bois migrar para a produção de peixes e recuperar 98% da terra, reflorestando-a com biodiversidade e tudo mais, ele teria incentivos fiscais, facilidade de crédito, e assim por diante”, diz.
Para fomentar o debate sobre a aquicultura na Amazônia, Valenti e outros pesquisadores estão finalizando uma carta com suas reflexões sobre o setor, que será apresentada e debatida na COP-30, em Belém.
“No fim das contas, precisamos de comida, certo? E, ao mesmo tempo, a produção de alimentos gera impactos ambientais, sociais e nutricionais”, diz Heilpern. “Espero que o tema da alimentação seja discutido em Belém como algo a ser produzido na Amazônia. Para as pessoas de lá, e também para as que vivem fora de lá. E esse sistema alimentar mais sustentável a ser construído na Amazônia pode incluir a aquicultura”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Diego Braga Norte
Saindo de uma escuridão, enxergo uma luz que cresce em alta velocidade e subitamente ela fica tão intensa que vou lentamente me adaptando a ela. E se desenha diante meus olhos um anjo (minha mãe) com um sorriso doce, belo, um abraço firme, mais suave. Ele me gira lentamente e me coloca de frente a outro anjo (meu pai), que também sorri e me afaga com carinho.
Isto aconteceu no dia dois de junho de 1950, às 12 horas e 42 minutos. Eu nasci em uma maternidade na cidade de Recife, em Pernambuco. Sou o terceiro filho de quatro irmãos e, como minha mãe é pernambucana, ela queria que um dos seus filho fosse pernambucano. Fui escolhido para que este desejo fosse realizado, mas fique por lá apenas 42 dias de minha recém adquirida vida e só fui conhecer Recife aos 22 anos.
E nem posso dizer que conheço a cidade. Eu apenas passei por lá. Sou, na prática, amazonense, pois absolutamente tudo que sei e conheço é neste meu amado Amazonas.
Durante os primeiros anos de nossa vidas tudo que necessitamos é muito amor das pessoas que nos cercam e assim ocorre até quando iniciamos a nossa vida escolar. Lá vamos lentamente aprendendo que necessitamos ter um bom emprego, uma casa, uma família, uma profissão e novos amigos.
No decorrer de nossa existência, com o passar dos anos, vamos conquistando novas aventuras e adquirindo o conhecimento que deverá nos conduzir a novos destinos e vamos nos adequando.
Muitas vezes somos levados a outros lugares, hábitos, costumes bem diferentes do que aprendemos e alguns que incorporamos em nossa vida.
Tive a sorte e oportunidade de, através daquilo que pude ter em meu conhecimento, viajar o mundo mesmo que este mundo fosse o meu. Como a “lei da vida” é aprender sempre! E tenho feito o meu “dever de casa”!
Mas, depois de trinta e nove milhões, quatrocentos e quarenta e sete mil minutos, ou seja, 75 anos de vida, concluí que o que mais necessitamos é exatamente como no começo: o amor de seus entes queridos, pais, filhos, netos, amigos e de todos que te cercam.
Portanto, lute para conquistar os seu bens materiais, mas nunca esqueça de fazer amizade. Viva a vida!
Sobre o autor
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Manaus (AM) se prepara para receber, entre os dias 9 e 13 de julho, a 11ª edição da Virada Sustentável, o maior evento de sustentabilidade da América Latina. Com uma programação totalmente gratuita, o festival promete mobilizar milhares de pessoas por meio de rodas de conversa, apresentações artísticas, oficinas, teatro, música, yoga e debates. O objetivo é fortalecer o engajamento social e refletir sobre o papel da sociedade civil na construção de cidades mais verdes, inclusivas e resilientes.
Neste ano, o evento se alinha aos mutirões preparatórios para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), que será realizada em novembro, em Belém (PA). A edição de 2025 da Virada Sustentável Manaus será um marco estratégico e simbólico na mobilização.
Realizada desde 2015 na capital amazonense, a Virada é co-realizada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Virada Sustentável Nacional e produção da Benevolência.
Para Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS, o festival cumpre um papel essencial de educação ambiental e mobilização coletiva.
“Cada vez mais percebemos os efeitos das mudanças climáticas na região, seja pelas cheias e vazantes extremas dos rios, ou pelo calor recorde. Mas há ações que podemos realizar, juntos, como sociedade, para transformar essa realidade, e participar de eventos como a Virada Sustentável, que traz uma abordagem que envolve todos, é de suma importância para continuarmos na luta por uma Amazônia viva”, destaca.
A abertura oficial acontecerá no dia 9 de julho, com um espetáculo especial da Amazonas Band, no palco do centenário Teatro Amazonas, no Largo São Sebastião. A entrada será gratuita, por ordem de chegada, sujeita à lotação do espaço.
Já no dia 11 de julho será realizado o Fórum da Virada Sustentável Manaus, na sede da FAS, no bairro Parque Dez de Novembro. O encontro reunirá ativistas, especialistas e representantes da sociedade civil em uma construção coletiva e colaborativa de um manifesto pré-COP30. A proposta é refletir sobre o futuro da região.
No fim de semana, sábado e domingo, dias 12 e 13, a programação se espalha por alguns pontos da cidade, com atividades para todas as idades: oficinas, feiras criativas, espetáculos teatrais, shows, brincadeiras, rodas de conversa e intervenções artísticas.
“Há mais de 10 anos a Virada Sustentável Manaus transforma sonhos em ações concretas. Vamos mostrar mais uma vez que é possível construir uma cidade mais justa e sustentável para todos”, ressalta Paula Carramaschi Gabriel, fundadora da Benevolência
A Virada Sustentável é um movimento de articulação entre pessoas, grupos e instituições que têm em comum o objetivo de apresentar uma visão positiva e inspiradora sobre a sustentabilidade e seus diferentes temas para a população, além de fortalecer redes de transformação e impacto social nas diversas cidades onde atua.
A concepção temática do festival é baseada nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além de Manaus, a mobilização ocorre em São Paulo, Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Belém e outras cidades.
Festival de Parintins: disputa acontece atualmente no Bumbódromo. Foto: Yuri Pinheiro/Secom Parintins
O Festival Folclórico de Parintins é um dos grandes marcos da cultura amazonense, nascido das manifestações de boi-bumbá que surgiram no século XX. O que hoje é um dos maiores festivais do mundo acontecia inicialmente como uma brincadeira de rua em que diversas agremiações desfilavam e brincavam boi-bumbá.
A transformação do que era apenas uma manifestação espontânea em um evento estruturado teve início em 1965, quando a Juventude Alegre Católica decidiu reunir os brincantes de boi em um festival organizado. O objetivo era arrecadar recursos para a conclusão da obra da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade.
Missa de Corpus Christi na Catedral de Nossa Senhora do Carmo em Parintins, em 2025. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
A primeira edição contou com apresentações de 22 grupos, exceto os bois Caprichoso e Garantido, que só se integraram ao evento no ano seguinte, em 1966. Foi devido a grande rivalidade crescente entre as duas agremiações que, em 1975, o Festival passou a ser organizado pela Prefeitura de Parintins.
Na mesma época, o festival passou a ser transmitido pela TV, fazendo com que o evento começasse a ganhar maior visibilidade. Graças a isso, o número de turistas e torcedores na ilha da magia aumentou, e houve a necessidade de uma ampliação, visto que a rua agora já não era suficiente para acomodar todos os brincantes.
Foi então que em 1988 o Governo do Estado iniciou o projeto da Construção do Centro Cultural e Desportivo Amazonino Mendes, atualmente conhecido como Bumbódromo. A arena foi projetada especialmente para o festival, construída com arquibancadas divididas nas cores azul e vermelha, e simboliza as torcidas dos bois Caprichoso e Garantido.
Maior espetáculo a céu aberto
Os bois encenam no espetáculo do Festival Folclórico de Parintins a lenda da Mãe Catirina e do Pai Francisco. Catirina era uma mulher que estava grávida e com desejo de comer língua de boi, e para satisfazer suas vontades, seu marido, Pai Francisco, sacrifica o boi favorito do patrão, que ameaça matá-lo. Quem salva o Pai Francisco da morte é o Pajé, que ressuscita o boi antes da tragédia acontecer.
As apresentações do Festival Folclórico de Parintins exploram temáticas regionais, como lendas, rituais e costumes indígenas, por meio de alegorias, danças, canções e encenações. Além disso, os bois também levam para a arena carros alegóricos, indumentárias inspiradas na região norte e o público mais apaixonado pelo boi, conhecido como ‘galera’.
Cada boi tem entre 2h e 2h30 para se apresentar, sendo avaliados por um júri em 21 itens oficiais, divididos entre individuais e coletivos. Entre os principais estão o apresentador, levantador de toadas, amo do boi, sinhazinha da fazenda, cunhã-poranga, pajé, rainha do folclore, porta-estandarte, tribos indígenas, alegorias, figura típica regional, ritual indígena, toada e a evolução do próprio boi-bumbá.
O Festival Folclórico de Parintins foi reconhecido oficialmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018. Realizado sempre no último fim de semana de junho, o Festival de Parintins emociona e encanta gerações de torcedores apaixonados pelos bumbás. Além disso, o festival ajuda a manter viva a essência de um povo que canta, dança e celebra a sua história com orgulho e paixão.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o patrimônio cultural é formado pela união dos saberes, fazeres, expressões, práticas e seus produtos, que remetem à história, à memória e à identidade do povo, por esse motivo é muito importante a preservação e a manutenção da tradição folclórica dos bumbás de Parintins.
Ponto facultativo e folga prolongada para muitos são uma boa chance para sair da rotina e aproveitar os dias de descanso em meio à natureza. Rondônia tem cachoeiras, trilhas e paisagens que muita gente ainda não conhece, perfeitas para quem quer se refrescar, relaxar ou se aventurar sem ir muito longe.
Para quem quer aproveitar os dias de descanso e fazer viagens curtas, veja cachoeiras que são verdadeiros refúgios em meio à natureza:
Vale das Cachoeiras
A cachoeira principal tem 32 metros de altura e é cercada por mata nativa. Para chegar até ela, os visitantes enfrentam uma descida íngreme, seguida de uma caminhada de cerca de 600 metros em meio à floresta. O Vale também oferece opções para os amantes da aventura: o parque aquático local abriga o segundo maior toboágua do Brasil, com 43 metros de queda, atração perfeita para quem gosta de adrenalina.
📍 Localização: Nova União (RO), próximo a Ouro Preto do Oeste (RO).
A Cachoeira Ratunde impressiona pelo cenário selvagem e imponente: são mais de 50 metros de queda em meio a cânions e mata fechada, ideal para quem busca isolamento e contato intenso com a natureza. O local é muito procurado por mochileiros e aventureiros que praticam camping rústico — é comum visitantes montarem barracas e passarem a noite na região.
📍 Localização: Linha P-28, km 20, Alto Alegre dos Parecis (RO).
A Rota das Cachoeiras conta com uma sequência de sete quedas interligadas por uma trilha de aproximadamente 7 km. O trajeto oferece pontos para banho, áreas de descanso e paisagens de tirar o fôlego. É uma rota pouco explorada, perfeita para quem quer se desconectar e curtir a natureza em estado quase selvagem.
A Cachoeira da Serra tem cerca de 30 metros de altura e forma piscinas naturais de águas claras ao pé da queda. O local, em meio à serra e à vegetação preservada, conta com trilhas bem demarcadas, área para camping e pontos de apoio rústicos. O ambiente é ideal tanto para famílias quanto para aventureiros em busca de trilhas leves.
📍 Localização: Linha 37, km 36, Teixeirópolis (RO).
Estudantes amapaenses foram destaque em feira científica internacional. Foto: Glauber Ribeiro/Acervo pessoal
Três estudantes de escolas da rede pública do Amapá foram destaque na Genius Olympiad, uma das maiores feiras científicas internacionais sobre sustentabilidade. O evento aconteceu em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, entre os dias 9 à 13 de junho.
Carlos Antony e Guilherme Alvim, ambos da Escola Estadual Elias Trajano em Porto Grande, e Débora Almeida, estudante da Escola Estadual Mário Quirino em Macapá, conquistaram bolsas de estudo no Rochester Institute of Technology (RIT), onde o evento aconteceu.
Na feira, foram inscritos ao total 2.723 projetos de 84 países. Desses projetos, 832 foram selecionados. Apenas 33 projetos foram selecionados em todo o Brasil, 3 deles são de Macapá e Porto Grande.
O Carlos Antony, de apenas 17 anos, foi destaque no evento. O aluno da Escola Estadual Elias Trajano, é promissor no cenário científico internacional. O adolescente, além da bolsa, conquistou uma Honorable Mention, ou Honra ao Mérito, pelo projeto Reciclo BOT.
Carlos Antony recebeu menção honrosa no evento. Foto: Glauber Ribeiro/Acervo pessoal
O projeto de Carlos, se trata de um robô de monitoramento ambiental feito de materiais recicláveis, o que garantiu a bolsa de US$ 14 mil por ano para cursos superiores na RIT.
“Nosso objetivo era criar uma ferramenta de baixo custo para monitorar a fauna e a flora da Amazônia. Conseguimos desenvolver um protótipo eficiente com peças descartadas. [..] Agora, vamos mostrar que o Amapá também produz ciência de nível internacional”, disse.
Carlos explicou que o projeto surgiu a partir da percepção do descarte incorreto de lixo na região amapaense, o que gera um grande prejuízo ao meio ambiente.
“Não foi somente da minha autoria, como também de meus amigos e colegas, Gustavo Braga e Pablo Cleo, que é o robô para monitoramento ambiental, introduzido na floresta amazônica, de baixo custo, acessibilidade e monitoramento dentro da floresta amazônica. Tendo em vista os problemas internos que nós temos aqui na região norte do Brasil e até mesmo fora da região” , disse.
O professor orientador, Glauber Ribeiro, contou que o momento representa uma conquista não somente para os estudantes, mas para toda a rede pública de ensino do Amapá.
Robô sustentável destaque em feira científica nacional é de autoria de estudantes amapaenses. Foto: Carlos Antony/Acervo pessoal
“Ver nossos alunos brilhando na Genius Olympiad, uma das maiores feiras científicas do mundo, é a prova de que a educação transforma, mesmo diante das dificuldades. Como orientador, sinto um orgulho imenso em ver o esforço, a dedicação e o talento desses jovens sendo reconhecidos internacionalmente. Isso mostra que investir em iniciação científica é investir no futuro, na autoestima dos nossos estudantes e na valorização da ciência produzida na Amazônia”, disse.
Projeto de combate ao Aedes Aegypti
A aluna Débora Almeida, de 16 anos, da Escola Estadual Mário Quirino, em Macapá, levou aos Estados Unidos um projeto sobre o extrato etílico natural. O extrato possui uma ação letal sobre as larvas do mosquito Aedes Aegypti.
Débora garantiu bolsa de estudos nos EUA com projeto desenvolvido no Amapá. Foto: Débora Almeida/Acervo pessoal
“É um extrato etílico a partir da Rosa do deserto e Citronela, que atuam no controle populacional das larvas do mosquito Aedes aegypti, principais agentes de doenças tropicais. Para os testes de letalidade, contamos com o apoio do IEPA, que nos forneceu as larvas do mosquito, de linhagens suscetível e resistente a testes. Nosso produto foi 100% letal sob as larvas avaliadas”, explicou.
Débora, que também garantiu a bolsa de US$ 12 mil anuais, disse que repercussão do projeto se tornou a realização de um sonho.
“Tudo isso é fruto de nossos esforços, do nosso estudo e empenho. Digo que isso é um sonho realizado, a educação me proporcionou estar em lugares que jamais imaginei chegar, ainda mais aos 16 anos. Agradeço também a minha orientadora, professora Dra. Rose Trindade. Ela me ensinou tudo o que sei, me motivou e acreditou no meu potencial”, contou a estudante.
Projeto de realidade virtual sustentável
Outro talento amapaense que foi destaque na feira, foi o aluno Guilherme Alvim, também da Escola Elias Trajano, de Porto Grande. Com o projeto Matrix, um óculos de realidade virtual feito a partir de papelão PVC e garrafas pet, o estudante conquistou a bolsa de US$ 12 mil anuais.
“Minha expectativa na RIT está voltada para os estudos ambientais e sustentabilidade. É uma área que me inspira, pois contribui com soluções sustentáveis para o avanço do mundo. Estou muito feliz e empolgado com essa oportunidade, que com certeza vou abraçar com entusiasmo”, disse Guilherme.
Guilherme é filho da professora de português da Escola Elias Trajano, Maria Gaildes. A educadora expressa o orgulho e a emoção que sente ao ver o filho alcançar voos cada vez maiores.
“É um orgulho enorme ver o Guilherme saindo de Porto Grande para o mundo. Ele estudou sempre em escola pública e agora vai mostrar que daqui também saem grandes ideias”, disse.
Estudante levou óculos de realidade virtual sustentáveis ao evento internacional. Foto: Guilherme Alvim/Arquivo Pessoal
As bolsas da RIT são destinadas a cursos de graduação com duração mínima de quatro anos e cobrem parte das despesas. Os estudantes agora prosseguem com a inscrição e precisam buscar recursos adicionais para que mudança seja concretizada.
O estudantes e orientadores tiveram o apoio do governo do estado, por meio das Secretarias de Educação (Seed) e de Ciência e Tecnologia (Setec), que articulou passagens, hospedagem e alimentação. Apoiaram também a Prefeitura Municipal de Porto Grande e Câmara de Vereadores de Porto Grande.