Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes.
Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque (AP), na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.
Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.
“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.
Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas. Foto: Stefan Walkowski /Wikimedia Commons
Muito além da malária
Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos.
Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.
“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.
O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.
A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Quem escolhe Parintins (AM) como destino no período do Carnaval para aproveitar a segunda maior festa da cidade, o Carnailha, com direito ao Carnaboi, encontra muito mais do que trio elétrico, toadas e apresentações culturais.
Com o tema ‘Da Ilha da Magia, vem pro meio da avenida, é o Carnailha’ em 2026, os eventos mantêm a proposta de valorizar a identidade cultural da cidade e movimentar a economia local.
Mas para quem vai conhecer a cidade neste período carnavalesco e deseja aproveitar outros espaços além das festas, algumas opções formam um roteiro simples, que contempla vários pontos turísticos. Confira:
Bumbódromo e Praça dos Bois
Foto: Michael Dantas/ Arquivo Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas
O principal cartão-postal de Parintins é o Bumbódromo. Inaugurado em 1988, o espaço foi construído especialmente para receber o Festival Folclórico e tem capacidade para cerca de 17 mil pessoas. Mesmo fora do período das apresentações oficiais, a arena pode ser visitada e é parada obrigatória para quem deseja conhecer o palco onde Caprichoso e Garantido se enfrentam nas três noites de espetáculo.
Nos arredores do Bumbódromo fica a Praça dos Bois, onde estão elementos que remetem aos bastidores das agremiações. Durante o Carnaboi, o espaço costuma receber ensaios, encontros de torcedores e programações culturais.
Catedral de Nossa Senhora do Carmo e Igreja do Sagrado Coração de Jesus
Foto: Reprodução/ Ponto Alto – Amazon Sat
A Catedral de Nossa Senhora do Carmo é outro ponto tradicional da cidade. Inaugurada em 1981, a igreja é dedicada à padroeira de Parintins e reúne romeiros especialmente entre os dias 6 e 16 de julho, durante os festejos religiosos. A construção teve início na década de 1950 e está ligada à história do Festival Folclórico, em que os bois-bumbás Caprichoso e Garantido se enfrentam, criado inicialmente para arrecadar recursos para a conclusão da obra.
Outro espaço religioso importante é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, fundada em 1945. Antes da construção da catedral, ela funcionava como principal templo da cidade. Localizada em área elevada, proporciona vista para o rio Amazonas e é procurada por visitantes interessados em contemplar o pôr do sol.
Foto: Jorge Luiz – Wikimedia Commos
Mercado Municipal
O Mercado Municipal de Parintins, inaugurado em 1937 e revitalizado em 2019, é parada estratégica para quem deseja experimentar a culinária local. Situado às margens do rio Amazonas, o espaço reúne boxes de peixes, ervas medicinais, frutas regionais e comidas típicas.
Foto: Yuri Pinheiro/ Secom Parintins
Entre as opções mais procuradas estão o pão com tucumã e queijo coalho, a tapioquinha, o jaraqui frito com baião de dois, a fritinha de crueira e sucos de frutas amazônicas. O mercado também concentra venda de artesanato, como colares, brincos e peças produzidas por artistas da região, o que o transforma em ponto de encontro entre moradores e turistas durante o Carnailha e o Carnaboi.
Orla: praças e pôr do sol
A orla de Parintins é um dos locais mais frequentados ao fim da tarde. A popular Praça Cristo Redentor, ou Praça Digital, fica às margens do rio Amazonas e conta com anfiteatro, píer, bares e restaurantes. O espaço recebe apresentações culturais e concentra visitantes que buscam apreciar o entardecer na ilha.
Foto: Clóvis Miranda/ Amazonastur
Outro ponto bastante visitado é a Praça do Comunas, oficialmente chamada Praça Judith Prestes. Durante o dia, especialmente em períodos festivos, o local reúne torcedores e moradores que aproveitam a vista do rio e o clima da cidade. Já a Praça Eduardo Ribeiro é referência para quem chega por via fluvial e costuma sediar feiras de artesanato indígena e regional.
Balneários
Para quem busca contato com áreas naturais e ambientes tranquilos em Parintins, o Balneário Cantagalo, localizado na comunidade do Aninga, destaca-se como um dos principais refúgios naturais nos arredores de Parintins.
A cerca de 8 quilômetros do centro da cidade, o balneário está situado às margens do Lago do Aninga e é conhecido por suas águas geladas de cor escura, típicas das lagoas amazônicas, que oferecem uma alternativa refrescante ao forte calor da ilha.
Durante o período de Carnailha e Carnaboi, o local costuma receber visitantes que desejam relaxar entre um compromisso e outro no centro cultural, apreciando o pôr do sol e a paisagem verde ao redor.
Além do banho de lago, o Cantagalo possui infraestrutura com um píer, serviços de bar e restaurante, lanchonetes e espaços para convivência, o que permite ao turista experimentar pratos regionais, como peixes frescos da pesca local, tacacá e frutos típicos da Amazônia.
O ambiente, cercado por aningais e sombras de árvores nativas, também possibilita a contemplação da fauna e flora amazônicas em um ritmo mais tranquilo que o da cidade. Para facilitar o acesso, alguns visitantes optam por acordos com mototáxis ou triciclos, já que o transporte público até lá é limitado, especialmente em períodos de grande movimentação na cidade.
Foto: Yuri Pinheiro/ Secom Parintins
Outro destino que combina história e natureza é a Vila Amazônia, que fica a cerca de 20 minutos de barco da sede municipal. A vila representa parte significativa da trajetória histórica de Parintins e da região amazônica, pois foi um dos principais polos da imigração japonesa no Amazonas e do cultivo de juta nas décadas de 1930 e 1940 — época em que essa fibra era importante economicamente no Brasil.
O percurso fluvial até a Vila Amazônia percorre trechos do rio Amazonas e do Paraná do Ramos, permitindo ao visitante observar a vida das comunidades ribeirinhas, o vai e vem das embarcações e a paisagem exuberante formada por igarapés, árvores e pequenos assentamentos ao longo do grande rio.
Passeios em triciclos
Uma outra forma tradicional de conhecer Parintins é por meio do city tour de triciclo, meio de transporte característico da cidade. Em bicicletas ou motos adaptadas com cobertura, visitantes percorrem ruas, praças e pontos turísticos acompanhados por condutores que apresentam informações sobre a história local.
Pesquisadores da Unifap realizam a separação, catalogação de documentos históricos do TJAP.Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP
Pesquisadores do Centro de Memórias da Universidade Federal do Amapá (Unifap) estão catalogando processos judiciais com mais de 100 anos. O trabalho faz parte do projeto ‘Memórias Reveladas: a salvaguarda da história jurídica e cultural do estado do Amapá’, realizado em parceria com o Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP).
Os documentos mostram como era a vida social e política do Amapá desde o século XIX. Eles ajudam a entender acontecimentos que marcaram épocas e influenciaram a sociedade.
O Tjap disponibilizou cerca de 1.300 caixas, cada uma com 5 a 10 processos judiciais de diferentes áreas. Os documentos tem em média de 50 a 300 páginas. Quando os documentos estão muito danificados e não podem ser recuperados, eles são devolvidos ao tribunal.
O trabalho inclui limpeza, organização e descrição dos processos judiciais. As caixas são trocadas para garantir preservação. Os pesquisadores usam equipamentos de proteção durante a atividade.
Foto: Reprodução/ Rede Amazônica
De acordo com Elke Rocha, coordenadora do Centro de Memória da Unifap, o trabalho é minucioso e feito em etapas.
O objetivo é disponibilizar o acervo em formato físico e digital, ampliando o acesso para pesquisadores e estudantes.
“São documentos históricos, anteriores à era digital. Pesquisadores e advogados precisam ter acesso. É um trabalho minucioso, porque alguns processos têm mais de 100 anos”, disse Elke Rocha.
Os pesquisadores também anotam termos jurídicos para tornar a linguagem menos burocrática, sem perder o contexto histórico e judicial.
A bolsista Vitória Melo destaca que alguns casos antes eram registrados como homicídio e hoje são reconhecidos como feminicídio.
“Atualizamos os termos jurídicos. Nos arquivos antigos não havia essa nomenclatura, mas temos autorização para usar o termo feminicídio”, explicou.
Processos revelam casos emblemáticos
Entre os casos emblemáticos está o homicídio da diretora de uma escola localizada em Santana. Ela foi morta dentro da biblioteca da instituição. A riqueza de detalhes do processo faz os pesquisadores revisitarem o passado. Depois da curadoria, o material será entregue ao TJAP, que fará o arquivamento no Centro de Memória.
Experiência transformadora. Grandiosidade impressionante. Conexão profunda com a natureza. Estas são algumas das expressões ouvidas com frequência por pessoas que visitaram o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, o segundo maior da categoria no Brasil, com mais de 2 milhões de hectares.
O tamanho, por si só, já colocaria esta como uma unidade de conservação a ser visitada no Brasil. Mas o Jaú ainda reserva muito mais. Dono de uma biodiversidade absolutamente superlativa, o parque é responsável por proteger uma das maiores áreas de florestas úmidas no mundo.
Localizado no coração da Amazônia, a cerca de 3 horas de lancha da cidade de Novo Airão, o Parque Nacional do Jaú faz parte do Mosaico do Baixo Rio Negro, que abrange 11 unidades de conservação do estado do Amazonas.
A existência do Mosaico, inclusive, é representativa por envolver um dos grandes tesouros do Jaú: o envolvimento das comunidades locais em todos os processos, algo fundamental para a valorização da diversidade sociocultural e o desenvolvimento territorial.
Atualmente, cerca de 70 famílias vivem nas comunidades do Parque Nacional do Jaú — e são parte fundamental para que a visitação da unidade aconteça de maneira sustentável e regular, desde os barqueiros até a hospedagem.
A visitação do Parque Nacional do Jaú é um ótimo exemplo de como funciona o que o Instituto Semeia — organização que atua para incentivar a visitação nos parques do Brasil, fortalecer a gestão dessas unidades e apoiar o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde estão inseridas — costuma chamar de “ciclo virtuoso” das Unidades de Conservação.
O ciclo virtuoso funciona com:
a visitação: que acontece com turistas demandando produtos e serviços da população local, que para isso precisam dos ativos naturais conservados;
a geração de renda: com as pessoas da região gerando impacto econômico na comunidade;
a conservação: com o turismo trazendo visibilidade para a necessidade de conservar o meio ambiente.
Parque Nacional do Jaú: a grandiosidade da Amazônia conservada
Árvores históricas gigantes, bacia hidrográfica do rio Jaú protegida e uma biodiversidade extremamente rica, habitat de diversos animais. Já na chegada, feita normalmente de barco, não é incomum que o visitante seja acompanhado por bandos de papagaios e outras aves enquanto navega pelos igapós.
Uma das particularidades do Jaú é a possibilidade de encontrar duas “Amazônias” diferentes: uma no período de cheia (normalmente de março a agosto) e outra no período de seca (entre setembro e fevereiro).
O local é o mesmo, mas a mudança no clima muda a realidade. Enquanto na cheia as trilhas aquáticas são o ponto alto, na seca é possível visitar as praias e avistar os petróglifos, parte do rico patrimônio arqueológico do parque.
A importância da conversação para a biodiversidade
Uma das mais importantes funções de uma unidade de conservação como o Parque Nacional do Jaú é conciliar e integrar a conservação da natureza e a recreação/ecoturismo para as pessoas. As pesquisas também fazem parte deste contexto. Uma delas dentro do Jaú é o Programa de Monitoramento de Quelônios de Água Doce, uma parceria do ICMBio com a WCS Brasil, e que tem o apoio de diversas organizações.
Com mais de uma década de existência, o projeto conta com um forte vínculo com as comunidades locais. Afinal de contas, a utilização de quelônios (tartarugas, jabutis e afins) como alimento é algo comum historicamente na região.
Como parte de todo o processo, o Programa de Monitoramento promove o monitoramento comunitário com participação ativa das famílias que vivem no Parque Nacional do Jaú. O sistema conta com cursos e treinamentos para monitores locais, incluindo acompanhamento de toda a temporada reprodutiva dos quelônios – da desova à soltura.
Os quelônios são um dos grupos de vertebrados mais ameaçados do mundo. De acordo com dados do Programa de Monitoramento, cerca de 54% das espécies classificadas se enquadram em alguma categoria de ameaça.
Atrativos e atividades
Viver o Parque Nacional do Jaú é passear pela floresta amazônica, seja por via terrestre ou por via aquática. Não por acaso o local é parte dos Caminhos do Rio Negro, que conta com pelo menos 630km de trilhas mapeadas, seja para serem feitas a pé ou por caiaques nos igapós.
Durante os passeios pela imensidão do parque, são diversas as possibilidades de encontros que vão fazer qualquer visitante ter uma excelente experiência. Veja a seguir algumas delas:
Observação da vida silvestre e contemplação da natureza: como o filme “Dias Perfeitos” nos ensina, o termo em japonês komorebi é a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, enquanto balançam contra o vento. Isso pode ser multiplicado pela milésima potência no Parque do Jaú;
A imensidão das árvores: de uma magnitude raras vezes vista, as árvores gigantescas da Amazônia se fazem presentes no Jaú. Das magistrais samaúmas até as milenares macacarecuias, que recentemente foram apontadas como as mais antigas do bioma, as possibilidades de encontro com árvores majestosas são inúmeras.
As praias na área do rio Negro: passeio específico para a época das secas, as praias de areia branca e água doce são uma das maravilhas do Parque Nacional do Jaú. Um convite para o relaxamento, com banhos memoráveis nas águas do rio Negro.
Banho e cachoeiras nos rios Jaú e Carabinani: também ideal para época de secas. O rio Carabinani é local de diversas pequenas corredeiras e cachoeiras, perfeitas para banho e contemplação.
Trilhas a pé ou de caiaque: como citamos anteriormente neste mesmo texto, os Caminhos do Rio Negro oferecem diversas oportunidades de trilhas. Entre as trilhas terrestres, destacam-se a trilha do Itaubal, com cerca de 3,5km de extensão, e a trilha dos Igapós do Carabinani, com cerca de 3km, e duas trilhas que levam a contato com árvores gigantes: a da Sumaúma da Enseada e a Sumaúma de Base
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite.
Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com
Em julho do ano passado, visitei Alter do Chão pela primeira vez. Até então, só tinha escutado sobre o paraíso que havia aqui do lado, terra onde botos disputam a vitória em um festival belíssimo e o carimbó dá o ritmo da vida das pessoas que ali moram. Quem visita Alter realmente encontra tudo isso, mas há ali uma vila do tamanho de um universo.
Ouvir sobre a luta incessante dos moradores – em grande parte, indígenas Borari – contra empreendimentos estrangeiros que ameaçam a estabilidade do lugar, inclusive do maior aquífero de água doce do mundo, é ser testemunha de uma luta épica. A descrença de quem não entende o papel dos povos indígenas na defesa da natureza cai por terra em Alter do Chão, o que talvez seja o maior poder daquele lugar.
Dentre os pequenos e diversos momentos especiais que tive naquela orla, um em especial me ficou na mente: um casal de idosos, daqueles que a gente vê em filme mesmo, presenciava um pôr do sol também cinematográfico, provavelmente fazendo juras de amor à vista da Ilha do Amor.
Tive uma certeza: aquele casal dividia sua história com o rio, assim como todas as pessoas que tiram sustento de suas margens, cada catraieiro, cada pescador, cada cozinheiro, cada pessoa que tece Alter do Chão com fios de água. Naquele momento, percebi que eu e meus amores também tivemos, assim, nossa história enredada nos contos daquela correnteza.
Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Na época, eu não sabia, mas no mês seguinte seria assinado pelo Governo Federal o Decreto nº 12600, que prevê a privatização e a dragagem dos rios Madeira, Tocantins e do próprio Tapajós, que dá as margens de Alter do Chão. A medida é a mais nova declaração de apoio do governo ao agronegócio, que procura assumir o acesso concedido por esses rios para viabilizar o escoamento da produção de soja, milho e outras coisas que os estrangeiros compram dos barões do agro, mas faltam na mesa dos brasileiros.
No momento em que escrevo este texto, passam de quinze os dias em que os indígenas da região se mobilizam pela revogação do decreto, que foi apenas suspenso no dia 6 de fevereiro. O decreto não respeitou o direito constitucional dos povos indígenas de serem ouvidos acerca do impacto que tais empreendimentos causam em suas terras ancestrais, escrevendo mais um capítulo na longa história de negligência do Estado não apenas com os povos indígenas, mas contra o solo.
“Nós estamos em guerra” – declara Ailton Krenak. – “Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum”.
A afirmação do filósofo indígena não é tão chocante quanto um dia pareceu: dragar um rio é atentar não apenas contra sua vida – sim, porque estamos falando de um organismo vivo – mas de todos cuja história atravessa suas águas, em especial os povos indígenas.
Contudo, esse atentado contra o rio Tapajós não é menos do que um ato de guerra contra a própria Vida.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Krenak já havia profetizado que a COP 30 não traria um legado positivo para a Amazônia. Sediada no próprio Estado que hoje tenta sufocar o rio Tapajós e seus irmãos, a conferência escreveu suas promessas no vento. Ao contrário do que o leitor possa pensar, essa história não é separada da de nenhum de nós: somos todos afluentes dessa desgraça, pois embora suspenso, o decreto não fora revogado, e não seria a primeira vez que um desastre ambiental se deu por conta de uma manobra burocrática dessa natureza.
Não tenho vocabulário para fazer um negacionista entender como isso afeta toda a humanidade, e a luta solitária dos povos do Tapajós escancara uma verdade acerca da defesa da natureza contra grandes empreendimentos: não há raiva o bastante, não há revolta o bastante.
A Krenak, no entanto, não faltam palavras. Em “Futuro Ancestral”, ele nos conta a história de como o rio Watu resistiu às investidas contra esses inimigos sem rosto, mas com CNPJ:
“Quando penso no movimento do Watu, percebo sua potência: um corpo d’água de superfície que, ao sofrer uma agressão, teve a capacidade de mergulhar na terra em busca dos lençóis freáticos profundos e refazer sua trajetória. Assim, ele nos ensina a evitar um dano maior. No tal capitaloceno que estamos experimentando não restará nenhum lugar da Terra que não seja como o corpo desse rio, assolado pela lama. Ela alcançará todos os recantos do planeta, assim como os polímeros e os microplásticos alcançam a barriga de cada peixe no oceano […]. Achei isso escandaloso, mas não podemos nos render à narrativa de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir dos nossos sonhos, e dentro dos nossos sonhos estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais”.
Mais uma vez, as mentalidades indígenas dão ao mundo globalizado não apenas um alerta, mas também um curso de ação: precisamos mergulhar para resgatar possibilidades de mundos possíveis. Não ouvi-los, que é prática conhecida na sociedade brasileira, não trouxe sonhos, mas verdadeiros pesadelos: Brumadinho, Mariana, Belo Monte, Balbina, e diversos outros episódios que tiram o sono apenas enquanto são manchetes, não enquanto podem ser prevenidos.
No entanto, um tipo muito específico de milagre acontece quando essas vozes são de fato ouvidas. No mesmo texto, Krenak responde aos que defendem tais atentados contra a vida como única forma de desenvolvimento econômico. Ele traz a ideia de “envolvimento”, perdida quando o ser humano decidiu se separar da natureza para poder explorá-la com a consciência leve.
Envolver-se é misturar-se, é também ser envolvido, é fazer parte. É mergulhar na água que se quer dragar e pisar no solo que se quer asfaltar, é lembrar que ninguém é imagem e semelhança de Deus para como Ele se comportar. A terra não pertence a nós mais do que pertencemos a ela. Somos também criatura, somos também natureza. Violá-la é violar a nós mesmos, é atentar contra toda a beleza e vida que pulsa sob nossos pés.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Quando penso em envolvimento, penso no texto de Daniel da Rocha Leite e nas imagens de Maciste Costa, reunidos na obra “A história das crianças que plantaram um rio” (2013). Se precisamos de histórias para adiar o fim do mundo, nessas páginas eu vejo uma capaz de criar um universo inteiro.
Enquanto discutimos sobre dragar um rio, Leite e Costa falam sobre plantar um, em uma narrativa que celebra o poder da comunidade e da infância e a crença ingênua – quase infantil – necessária para que sonhos mudem o mundo. Sinto falta de narrativas assim, que misturem tão bem as infinitas possibilidades do sonho como caminho para criarmos uma realidade possível, bem-vivida, uma vez que, envolvidos não pela terra, mas pelos delírios de grandeza ilusória fomentados pelo mundo do capital, esquecemos que nem todo o dinheiro do mundo compra água numa terra devastada.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Se precisamos contar mais histórias para que o mundo siga existindo, quero me juntar a essas crianças e aprender a plantar rios, a criar cursos d’água com minhas próprias mãos, e quero isso não por conta de algum futuro utópico, mas para que eu mesmo possa bebê-la em uma realidade em que a crise hídrica expõe o óbvio: água é um recurso mais precioso que qualquer barra de ouro.
Podemos viver sem o ouro, mas não sem a água que sustenta a vida. Eis a moral desta história.
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
A Associação dos Artesãos e Extrativistas do Rio Jauaperi (AARJ), em parceria com a Expedição Katerre e o Mirante do Gavião Amazon Lodge, devolveram ao Rio Jauaperi, na divisa dos estados do Amazonas e Roraima, quase 8 mil quelônios ameaçados pela captura predatória.
Em vigência desde 2010 e inserido no Programa Monitora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) e no Projeto Quelônios da Amazônia (PQA) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Projeto Bicho de Casco mobiliza integrantes de seis comunidades ribeirinhas ao largo de 100 quilômetros de rio.
Os profissionais que se dedicam ao projeto são remunerados como uma forma de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), em seus diversos ofícios: piloteiro, vigilantes, coordenadores. Para incentivar o aumento da quantidade de novos quelônios, além do salário mensal pelo período de vigília das praias, é adicionada uma recompensa extra por filhote que cumpre o ciclo de coleta, eclosão, e amadurecimento para soltura. E um bônus de 10% do total gerado pela soltura para a comunidade que participou do projeto.
Neste último ano, o projeto também passou a contar com o apoio da Wildlife Conservation Society (WCS), na orientação e aplicação de cursos de manejo e conservação da fauna, de maneira a aprimorar técnicas necessárias para que os resultados sejam cada vez mais satisfatórios e promissores.
É por volta de setembro quando as tartarugas chegam para a desova. Dá-se então a procura de rastros de quelônios e o início da fiscalização das praias. No momento certo, os ovos são cuidadosamente coletados e realocados em chocadeiras – sendo cada ninho identificado e numerado –, onde se desenvolverão longe de predadores e da ameaça de saques ilegais – até a eclosão.
Com o devido registro de datas, depois de um período de 45 dias, entre janeiro e fevereiro, os filhotes estarão prontos e já fortalecidos para serem devolvidos em segurança à natureza. Esse processo aumenta as chances de sobrevivência dos animais, cuja taxa natural é de cerca de 1%. Contudo, sabemos que é ainda pouco perto da realidade de décadas atrás, quando em apenas uma praia, era possível observar ovos de quelônios na quantidade de milhões.
Ecoturismo
A Expedição Katerre organiza uma saída especial no mês de janeiro para que os visitantes possam participar desta ação de conservação de soltura dos quelônios, em um roteiro de sete noites pelos rios Negro, Jaú e Jauaperi. Junto aos membros da AARJ Extrativista, eles acompanham a contagem e se emocionam com o momento de retorno dos filhotes às águas.
Foto: Marcelo Roveri
Ruy Tone, um dos sócios da empresa de ecoturismo de base comunitária, fundada em 2004, incentiva a atividade como uma maneira de educar estes viajantes: “É uma forma de gerar consciência, e quando as pessoas retornam a esses ambientes, passam a valorizá-los mais”, afirma Tone.
Sobre a AARJ Extrativista: organização sem fins lucrativos fundada em 2004, localizada no Rio Jauaperi, na área da RESEX Baixo Rio Branco-Jauaperi (Decreto no 9.401 de 2018), na divisa dos estados do Amazonas e Roraima, que visa promover a geração de renda por meio do artesanato fazendo o uso sustentável de fibras naturais (cipó, raízes, cascas de árvore, sementes) e refugos de madeira reaproveitados de construções ou mesmo apreensões (itauba, louro, maçaranduba, rouxinho), além de incentivar as atividades de ecoturismo de base comunitária.
@sitah
Representa uma alternativa sustentável as atividades predatórias tão comuns na região. A Associação foi promotora principal do Acordo de Pesca do Rio Jauaperi ( I.N.99, 24/04/06), do Decreto (9.401 05/06/2018) da Reserva Extrativista, Baixo Rio Branco – Rio Jauaperi, e é reconhecida como responsável para o projeto de proteção dos quelônios ameaçados e lidera a luta a favor da preservação dentro da Resex.
Sobre a Expedição Katerre: desde 2004 realiza roteiros fluviais em comunhão com as comunidades ribeirinhas do Rio Negro. Partindo do município de Novo Airão, a 200 km de Manaus, os roteiros regulares ou charters exploram o Rio Negro e seus afluentes, percorrendo maravilhas naturais em meio a privilegiadas unidades de conservação entre as quais o Parque Nacional de Anavilhanas e a Reserva Extrativista do Baixo Rio Branco Jauaperi.
A frota é composta de três embarcações: o Jacaré-açu com 8 cabines-suíte climatizadas, e o Jacaré-tinga com 3 cabines-suítes climatizadas, e a mais recente aquisição o luxuoso La Jangada, que abre uma nota rota de navegação ao largo do Rio Solimões com destino a Tabatinga e paradas para vivências em áreas de reserva e aldeias indígenas. Entre os serviços a bordo, incursões na natureza conduzidas pelos guias locais que compartilham seus saberes sobre a Floresta, e uma tripulação formada por capitão, marinheiro, camareiras e cozinheiras que recebe os visitantes com acolhida e simpatia genuína.
Foto: Guilber Hidaka
Sobre o Mirante do Gavião Amazon Lodge: aberto em Agosto de 2014, às margens do Rio Negro, em frente ao Parque Nacional de Anavilhanas, abriga treze espaçosos bangalôs erguidos em madeira de lei que remetem a forma de barcos invertidos, conectados por caminhos trilhados e passarelas em meio à floresta nativa.
Seu restaurante Camu camu destaca os ingredientes amazônicos e seus peixes raros, em criações originais assinadas pela chef Debora Shornik, do restaurante Caxiri Amazônia, localizado no Centro Histórico de Manaus. Incursões pela Floresta fazem parte da estadia: trilhas guiadas pela mata; visitas às comunidades ribeirinhas; passeios de canoa pelos igapós na época das cheias; focagem noturna de jacarés e birdwatching com o acompanhamento de ornitólogo.
“Da Ilha da Magia, vem pro meio da avenida, é o Carnailha”. Esse é o jingle que anuncia a chegada do Carnailha 2026, o segundo maior evento cultural de Parintins, que ocorre nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro, na cidade amazonense.
O Carnailha 2026 é realizado na Avenida Paraíba, no Centro de Parintins, com entrada gratuita, mas também venda de mesas e camarotes. O evento acontece nos dias 15, com os blocos do grupo Irreverente; 16, com o desfile da chave Especial; e 17, com o Carnaboi.
A primeira noite do Carnaval da ilha da magia, neste domingo (15), promete muita diversão com o desfile dos sete blocos que compõem o grupo Irreverente. Confira a ordem da apresentação dos blocos e seus respectivos temas para o Carnailha:
1°: Bloco Invasão Na Folia
Abrindo o desfile, o Bloco Invasão na Folia entra na passarela do Circuito para homenagear o protagonista do carnaval: o folião.
Na voz do artista Rômulo Vlasak, o bloco dará o pontapé da festa com o tema ‘Avisa as inimigas que eu xê-gay para causar na Carnailha, calando a boca de quem tá torcendo contra, então toma, toma, toma’.
Para este ano, a diretoria anunciou a parintinense Kevillyn Barbosa, uma mulher trans de 22 anos, para carregar o estandarte do ‘Bloco das Butterfly’, e promete ser a revelação do Carnailha.
Bloco Invasão na Folia. Foto: Pitter Freitas
2°: Bloco Os Belezuras
O reconhecimento pela importância do empreendedorismo no setor de navegação de Parintins será o enredo que o bloco Os Belezuras levará para a passarela com uma homenagem ao empresário Amílcar Bentes, dono da Aliança Bentes Transportes.
Sob a composição de Éder Lima, o bloco irá homenagear a trajetória do empresário, marcada por diversas contribuições para o desenvolvimento da navegação do município, narrada através de marchinhas que vão levar emoção e muita diversão aos foliões.
Bloco Os Belezuras. Foto: Divulgação/Instagram-osbelezuras
3°: Bloco As Tiazinhas
Com o tema ‘Do Sujo ao Luxo’, o bloco As Tiazinhas irá resgatar a trajetória de 26 anos da agremiação, desde o início da brincadeira entre amigos até a tradicional agremiação que contagiou foliões. Além da história, o bloco também destacará a força da mulher através da liderança feminina do bloco, comandada pela presidente Francyane Teixeira, a vice Keyse Maria Godinho e a tesoureira Kelly Sarmento.
A história, a memória e a força dos laços afetivos construídos durante a criação do bloco serão narrados através da marchinha composta por Euler Nascimento.
Bloco As Tiazinhas. Foto: Pitter Freitas/Secom Parintins
Em 2026, o Bloco Pantera Cor de Rosa entra na avenida para contar a história de Gabriella Guarani, personalidade parintinense que representa a força, identidade e resistência LGBTQIAPN+. Também indígena, a homenageada é uma das maiores figuras artísticas da Ilha e reconhecida como um símbolo de coragem e representatividade.
Além da emoção que cerca a apresentação, o bloco não deixará de lado a irreverência, brilho e ritmos contagiantes, característicos de suas atuações no desfile.
Bloco Pantera Cor de Rosa homenageará Gabriella Guarani (ao centro), importante personalidade LGBTQIAPN+ de Parintins. Foto: Júlio Butel
Outra homenagem que promete ser marcante é o enredo do bloco Lagarto Salgado. Sob a presidência de Inês Bucal, o bloco do bairro da Francesa promete uma apresentação à altura do ícone do brega Wanderley Andrade.
Numa relação que mistura a essência do bloco com a irreverência, explosão e energia do ‘traficante do amor’, o bloco promete um desfile marcado por surpresas com alegria e muita festa, símbolos do músico popular do Norte brasileiro.
Wanderley Andrade será o homenageado do bloco Lagarto Salgado. Foto: Divulgação/Instagram-lagartosalgado
6. Bloco Chitara Da Chapada
Com o tema ‘Folias do Rei David – o Canto de Ouro na Realiza da Chapada’, o bloco homenageará uma das vozes mais reconhecidas da Amazônia: o levantador de toadas David Assayag. A homenagem se une com a história do bloco, já que David, além de folião, é um dos fundadores da agremiação, que surgiu nos anos 1980.
A novidade fica por conta das marchinhas, que terá as vozes de Edilson Santana e, claro, do próprio David. Uma apresentação que promete muita emoção e reverência à carreira do artista que carrega o legado cultural de Parintins.
A maior voz da Amazônia, David Assayag será o homenageado do bloco Chitara da Chapada. Foto: Pitter Freitas/Secom Parintins
7. Bloco Os Piratas
Depois de levantar o troféu em 2025, o Bloco Os Piratas volta à avenida com muita expectativa e torcida empolgada. Agora em busca do bicampeonato, o tema deste ano será ‘Empurra Pinga no Folião Que Hoje tem Revelação’, uma proposta voltada para os foliões que fazem o arrastão, a tradicional festa atrás do trio.
Um enredo também irá celebrar a força da cachaça como símbolo cultural e elemento mágico da folia, capaz de contagiar, libertar e revelar personagens na avenida carnavalesca.
Atual campeão do grupo Irreverentes, bloco Os Piratas vai em busca do bi no Carnailha 2026. Foto: Sidney Simas
Ouça os temas
Pelo segundo ano consecutivo, a Prefeitura de Parintins leva as marchinhas e os sambas-enredo do Carnailha às principais plataformas digitais, ampliando o acesso do público às músicas que vão embalar a festa em 2026.
O álbum ‘Carnailha 2026’ é composto pelas as marchinhas dos blocos:
A temporada 2026 do programa Sabores da Amazônia, do canal Amazon Sat, explora muito mais que ingredientes e receitas. Agora, o programa se aprofunda na trajetória dos chefs e ensina, com mais detalhes e alguns segredos, as receitas selecionadas.
O chef Manoel Brelaz, em Manaus (AM), é um dos convidados que abriu o coração e a cozinha para mostrar que a gastronomia tem o poder de contar histórias. A relação do chef com a cozinha começou dentro de casa, ainda na infância, quando ajudava a mãe nos afazeres domésticos.
“Somos cinco irmãos, e eu precisava ajudar meus pais, principalmente a minha mãe, nos afazeres de casa, e eu, como sempre, gostava muito de cozinhar. Ela é a minha inspiração para isso, tanto ela quanto o meu pai. Lembro do fogão de barro, da lenha, aquela coisa bem raiz do interior, que eu gosto e prezo muito por isso”, contou o chef.
Antes de se encantar pela gastronomia, aos 14 anos Manoel tinha outro sonho: cursar Administração. O chef acreditava que seguiria esse caminho, mas com a morte da madrinha, com quem morava e incentivava seu sonho, sentiu a necessidade de recomeçar do zero.
“Ela queria que eu fizesse administração, e eu achava que era isso que eu queria fazer também. E aí ela faleceu. Foi quando eu tive que recomeçar do zero. E aí foi quando a minha tia chegou para mim e falou ‘por que você não faz gastronomia?’. Foi quando eu decidi fazer o curso pelo Senac”, explicou Manoel.
De acordo com o chef, ao concluir o curso, seguiu direto para a faculdade, em que, paralelamente aos estudos, trabalhou para custear as mensalidades e as despesas. Ao longo do tempo, Manoel passou por diversas experiências sempre com foco na gastronomia amazônica.
“Eu pude empreender, gerenciar com pessoas e passar conhecimento focado para a nossa gastronomia amazônica, que é o que eu amo fazer, que é o que eu gosto de passar para as pessoas, e é o que está na veia mesmo. Sinto prazer e amor em fazer isso”, contou Manoel.
Depois de três anos à frente de um restaurante próprio, Manoel decidiu encerrar esse ciclo e buscar novos desafios. Chegou a atuar na gestão de uma clínica de saúde, mas foi na hotelaria que encontrou o espaço ideal para crescer profissionalmente.
Seis meses depois de iniciar nessa área, passou a integrar a equipe do Novo Hotel Manaus, onde construiu uma trajetória começando como cozinheiro, subchefe e, posteriormente, chef.
“Como chef do Novo Hotel Manaus, eu tenho o privilégio e a oportunidade de estar propagando cada vez mais a gastronomia amazônica. A Amazônia está na veia, está para a gente, está no mundo, está no foco, e é uma honra e uma satisfação levar isso para fora de Manaus”, concluiu o chef.
Pirarucu ao molho de camarão com purê de batata. Foto: Reprodução/Amazon Sat
A receita do episódio é Pirarucu ao molho de camarão com purê de batata. De acordo com o chef, o prato é regional e acessível com a proposta de mostrar que é possível preparar algo especial em casa. Confira:
Ingredientes
Pirarucu ao molho de camarão:
200 g de pirarucu temperado
Camarão a gosto
½ cebola picada
½ pimentão verde picado
½ pimentão vermelho picado
½ pimentão amarelo picado
1 pimenta-de-cheiro picada
4 dentes de alho picados
Azeite ou óleo a gosto
Sal a gosto
Pimenta-do-reino a gosto
Suco de limão a gosto
100 ml de água
1 colher de chá de farinha de trigo
200 g de creme de leite
Leite a gosto (para ajustar o molho, se necessário)
Cheiro-verde a gosto
Chicória a gosto
Manteiga ou margarina a gosto
Castanha de caju triturada (opcional, para finalizar ou dar textura)
Purê de batata
400 g de batata
Sal a gosto
Manteiga ou margarina a gosto
Creme de leite a gosto
Leite a gosto (para ajustar a cremosidade)
Modo de preparo
Chefe Manoel Brelaz. Foto: Reprodução/Amazon Sat
Antes de começar, prepare o ‘mise en place’, termo francês que significa deixar todos os ingredientes separados e prontos para uso.
Aqueça a panela, adicione um fio de azeite e doure o alho picado em cubinhos pequenos (brunoise). Em seguida, acrescente a cebola, os pimentões e a pimenta de cheiro e deixe refogar até que os ingredientes estejam levemente macios.
Abra espaço na panela e coloque o camarão limpo, se atentando para não passar do ponto e ficar borrachudo. Tempere com sal e misture delicadamente.
Em um recipiente separado, dissolva a farinha de trigo na água e despeje na panela para engrossar levemente o molho. Acrescente o creme de leite, mexa até atingir uma textura cremosa e finalize com cheiro-verde, ajuste o sal e reserve.
Para o pirarucu, tempere o filé com sal, pimenta e limão e deixe marinar por alguns minutos. Em uma frigideira quente, adicione manteiga e grelhe o peixe, virando de tempos em tempos, até que esteja dourado por fora e suculento por dentro.
Por fim, prepare o purê. Amasse bem as batatas ainda quentes, acrescente sal, manteiga e um pouco de creme de leite até atingir uma consistência cremosa e lisa.
Montagem
No prato, disponha o purê como base, coloque o filé de pirarucu grelhado por cima e cubra com o molho de camarão. Finalize com tiras de pimentão cortadas em julienne para dar cor e elegância.
“Mais regional do que isso, impossível”, afirma o chef.
O Amazonas registrou uma redução de 70% nos focos de calor em janeiro de 2026. De acordo com dados do Programa Queimadas (BD Queimadas), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram contabilizados 18 focos no período, enquanto em janeiro de 2025 foram 60 registros. Os dados são monitorados pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).
Na comparação com janeiro de 2025, a redução corresponde a 42 focos de calor a menos. O resultado reforça o cenário de queda observado no início de 2026, e indica menor incidência de alertas no território amazonense no recorte analisado.
A última vez em que o Amazonas registrou, em janeiro, um número inferior a 18 focos de calor foi em 2012, quando o estado contabilizou oito registros, segundo a série histórica do BD Queimadas.
O diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço, explicou que os dados do Inpe são acompanhados diariamente e subsidiam ações de prevenção, fiscalização ambiental e resposta às ocorrências em todo o estado.
Ainda segundo o gestor do Ipaam, a redução dos registros reflete o acompanhamento contínuo dos dados técnicos e o direcionamento das ações preventivas para áreas mais suscetíveis à ocorrência de queimadas.
“O monitoramento diário das informações do Inpe permite identificar os municípios com maior risco e orientar ações de prevenção e fiscalização. Esse trabalho técnico, aliado à integração entre os órgãos, tem sido fundamental para reduzir os focos de calor logo no início do ano”, destacou.
Redução de focos de calor é resultado de estratégias
O secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira, ressaltou que o resultado registrado em janeiro é reflexo do trabalho estratégico que vem sendo estruturado pelo Governo do Amazonas, com foco na prevenção e na atuação integrada entre os órgãos ambientais.
“O Governo do Amazonas já iniciou 2026 com planejamento e articulação institucional. Estamos atuando de forma antecipada, com foco no combate ao desmatamento e na redução dos riscos ambientais para o período mais crítico, que costuma ser a partir do segundo semestre”, destacou o secretário da Sema.
No ranking dos municípios com maior número de focos de calor em janeiro de 2026, Autazes, Barcelos e Lábrea (respectivamente, a 113, 399 e 702 quilômetros de Manaus) aparecem com dois registros cada. Em janeiro de 2025, o cenário era diferente: São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros da capital) liderou o ranking, com 16 focos, seguido por Guajará (a 1.476 quilômetros de Manaus) com oito, e Barcelos com seis registros.
Foto: Reprodução/Universidade Federal do Mato Grosso
Com apoio da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o documentário ‘A Fala da Liberdade da Mulher Moçambicana’, que retrata a escritora Paulina Chiziane, foi lançado em 27 de janeiro, em Maputo (Moçambique).
A produção intercontinental é dirigida pelo professor da UFMT Celso Luiz Prudente e tem lançamento previsto para novembro de 2026 no Brasil, durante a 22ª Mostra Internacional do Cinema Negro (MICINE).
Segundo Prudente, o filme parte de uma reflexão sobre a presença e a voz das mulheres em um país marcado por processos históricos de ruptura.
“O tema central do filme é a mulher moçambicana. Moçambique passou por uma revolução anticolonizadora e, ao mesmo tempo, soube se atualizar como uma referência no respeito à questão de gênero”, afirma.
Foto: Reprodução/ Universidade Federal do Mato Grosso
Documentário une países
Para o diretor, registrar essa trajetória no audiovisual também amplia possibilidades de formação e diálogo: “A revolução tecnológica, que dá mais espaço ao cinema e ao audiovisual, permite relações pedagógicas que podem ser muito bem adotadas”.
Além do recorte social, o documentário destaca a relevância cultural de Paulina Chiziane, primeira romancista de Moçambique vencedora do Prêmio Camões, um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. “Quando uma mulher africana integra essa galeria, isso reforça a emergência do respeito à questão de gênero”, avalia Prudente.
*Com informações da Universidade Federal do Mato Grosso