O 6º Festival Municipal Sandro Rogério, realizado dentro da programação do Arraiá do Povo, ocorreu no dia 28 de junho. O concurso é organizado pela Liga Junina de Macapá (Ligajum), sendo um dos três principais do estado. Cada grupo tem 30 minutos para realizar a apresentação.
A ‘Simpatia da Juventude’ e a ‘Luar do Sertão’ dividiram o 1º lugar na categoria estilizado, já a ‘Piriguetes dos Matutos’ ganhou no tradicional. O corpo de jurados composto por nove julgadores levou em consideração quesitos como tema, conjunto, marcador, criatividade, dentre outros:
A última noite do 58º Festival Folclórico de Parintins, realizada neste domingo (29), foi marcada por um dos momentos mais simbólicos e emocionantes da história recente do Boi Garantido: a despedida de Denildo Piçanã do posto de tripa do boi e a passagem oficial do legado para seu filho, Denison Piçanã.
Denildo José Matos Ribeiro, conhecido no universo do bumbá como Denildo Piçanã, encerrou sua trajetória como intérprete do item 10, função que exige não apenas preparo físico, mas domínio cênico, conexão com o público e profundo conhecimento da tradição do boi-bumbá. A atuação de Piçanã por quase três décadas o tornou uma das figuras mais emblemáticas da história do Garantido.
A revelação da troca de gerações foi feita de maneira poética, no meio da apresentação do espetáculo “Garantido, Boi do Brasil”. Coube ao amo do boi, João Paulo Faria, anunciar a passagem do bastão em forma de verso:
“São 30 anos de história que agora eu vou recordar, foi no ano de 95, que começou a bailar, de Parintins, o boi de pano, o melhor tripa que há”.
Em seguida, o apresentador oficial do bumbá, Israel Paulain, confirmou a transição: “O lugar, carregado de tradição familiar, agora passa a ser ocupado pelo filho, Denison Piçanã”.
A surpresa provocou forte reação nas arquibancadas do Bumbódromo, que vieram abaixo com aplausos, gritos e lágrimas de emoção dos torcedores do boi vermelho e branco. Muitos acompanharam atentos a evolução do novo tripa, que deu seus primeiros passos como sucessor do pai naquele mesmo instante, dentro da arena.
A família Piçanã, natural de Parintins, mantém um vínculo profundo com a história do Garantido. Denildo assumiu o posto de tripa em 1995, e desde então se destacou pela maneira como dava vida ao boi de pano durante as apresentações. Sua performance era marcada pela fusão de força física, leveza nos movimentos e ritmo sincronizado, resultando em uma interpretação que encantava o público e mantinha viva a essência do item.
Durante os 30 anos em que esteve à frente do personagem, Denildo Piçanã ajudou a construir a identidade do Garantido no Festival de Parintins. Cada entrada na arena era aguardada com expectativa, e sua forma de conduzir o boi era vista como parte central da magia do espetáculo.
Nas redes sociais, torcedores manifestaram carinho e reconhecimento: “Foi de arrepiar, difícil segurar a emoção. Amor puro pela arte que atravessa gerações. A arte transforma. A arte é vida”, escreveu um dos seguidores da página oficial do boi nas plataformas digitais.
Além da emoção causada pelo gesto, a cerimônia improvisada dentro do espetáculo marcou a continuidade da tradição familiar Piçanã dentro do item 10 do Garantido. Denison, agora responsável por carregar o peso simbólico e artístico do cargo, deu início a uma nova era, assumindo publicamente o compromisso de manter vivo o espírito do boi encarnado.
O espetáculo apresentado naquela noite, “Garantido, Boi do Brasil”, fez parte do projeto artístico mais amplo deste ano, com o tema “Boi do Povo, Boi do Povão”. A apresentação exaltou as raízes populares do Brasil, com homenagens à cultura indígena, afro-brasileira e aos bois de outras regiões do país.
O momento da despedida de Piçanã foi cuidadosamente encaixado dentro do espetáculo, representando não apenas o fim de um ciclo pessoal, mas também a continuidade de uma linhagem cultural profundamente ligada à identidade do Festival de Parintins.
Com a saída de Denildo e a entrada de Denison, o nome Piçanã continua presente na arena. A família segue representando um dos elementos mais tradicionais do festival: o homem por trás do boi, responsável por dar movimento, vida e emoção ao símbolo maior da disputa folclórica entre os bois de Parintins.
A entrega do posto reforça o papel da transmissão geracional no Festival de Parintins, onde arte, cultura e identidade caminham juntas, ano após ano, na maior celebração folclórica do Norte do Brasil.
O boi-bumbá Garantido conquistou o título de campeão do 58º Festival Folclórico de Parintins. A vitória foi confirmada na tarde desta segunda-feira (30), após a apuração das notas dos jurados na Ilha Tupinambarana, a 369 km de Manaus, no Amazonas. Representando a Baixa do São José, o boi encarnado venceu as três noites do festival, garantindo seu 33º título na história da disputa.
Com o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’, o Garantido levou para o Bumbódromo uma celebração das raízes amazônicas e da força do povo tradicional, com espetáculos que uniram crítica social, espiritualidade e exaltação cultural. Cada uma das três noites apresentou subtemas que dialogaram com a ancestralidade, a resistência e a identidade popular.
Primeira noite
Na estreia, o Garantido levou a Lenda Amazônica ‘Tapyra’yawara’. Um dos pontos altos foi a apresentação da nova rainha do folclore, Lívia Christina, na alegoria ‘O Povo Negro da Amazônia’, que deu visibilidade à herança afro-amazônica.
A segunda apresentação do boi encarnado começou em clima de carnaval, com a presença de um casal de mestre-sala e porta-bandeira, unindo o samba carioca ao boi-bumbá. Isabelle Nogueira, a cunhã-poranga, brilhou em uma indumentária inspirada no urubu, reforçando a simbologia da vida e da morte nos povos da floresta.
A apresentação teve ainda um momento de forte impacto político e cultural com a toada ‘Olhar de Curumim’, cantada por David Assayag. A música denuncia o genocídio indígena e, durante sua execução, o Garantido formou uma bandeira do Brasil humana no centro da arena.
Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM
Terceira noite
Na noite decisiva, o Garantido encerrou sua participação com o espetáculo ‘Garantido, o Boi do Brasil’, enaltecendo a cultura popular como símbolo de resistência nacional. O início trouxe uma homenagem aos bois de outras regiões do país, seguida pela lenda de Iara, encenada por Lívia Christina.
A toada ‘Vermelho’, em tributo a Chico da Silva, emocionou o público, enquanto um desfile de artesãs indígenas ressaltou o protagonismo feminino ancestral. A apresentação se encerrou com um ritual de cura do povo Tukano, encerrando o festival com espiritualidade e emoção, apesar de pequenos problemas técnicos com algumas alegorias.
Com o tema o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’, as três noites do boi-bumbá Garantido no 58° Festival Folclórico de Parintins, exaltam sua origem na Baixa da Xanda, suas conexões com os povos indígenas, quilombolas e a cultura popular brasileira em um conjunto de apresentações que dialogaram com o passado, o presente e as lutas contemporâneas do país.
Veja quais lendas, mitos, figuras e rituais foram apresentadas ao público nesta edição:
1ª noite – 27 de junho: Somos os povos da floresta
Lenda amazônica – Tapyra’yawara
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
A Tapyra’yawara é uma figura mítica da Amazônia, descrita nas cosmologias de povos indígenas da região. representando não apenas um ser mitológico, mas também uma figura espiritual de grande poder e influência. O nome “Tapyra’yawara” é derivado do Tupi, onde “tapir” se refere à anta e “-iauara” à onça, resultando em uma representação que combina características de ambos os animais. simbolizando forças da terra e da água, da vegetação densa e das águas impetuosas, tornando-se um ser fundamental nas narrativas que tratam da interação entre seres humanos e o meio ambiente na Amazônia.
Desde o início da colonização da Amazônia os brancos têm ouvido dos indígenas suas histórias. Na crença do povo Maraguá, a Tapyra’yawara é um dos grandes e temidos espíritos dos felinos- um dos seis espíritos protetores da natureza, habita junto aos demais espíritos na Ãgaretama – o mundo espiritual, mas quando se manifesta, aparece exclusivamente nos igarapés. Entre troncos de árvores submersos, costumam nadar. E quando anda, de longe se ouve os barulhos dos galhos de paus quebrando enquanto passa. Seu cheiro forte é quase insuportável, porém é sua maior característica. Quem o sente, tem grande dor de cabeça e tonteira.
Tapyra’yawara atua como um protetor das florestas, prevenindo a exploração desenfreada e o uso irresponsável dos recursos naturais. Esse espírito das onças é visto como uma espécie de vigilante que, ao observar as ações humanas, pode intervir de maneira punitiva, especialmente quando detecta práticas prejudiciais ao meio ambiente, como a caça excessiva e o abuso dos recursos da floresta. Sua intervenção é vista como uma forma de restaurar a ordem e corrigir os desequilíbrios provocados por aqueles que infringem as leis naturais.
Em sua apresentação explica que o povo negro da Amazônia é diverso, presente do Acre à foz do rio Amazonas. Vozes silenciadas por séculos agora reverberam por autoafirmação e lutam por certificações de territorialidades quilombolas, urbanas e rurais. Gente como o Mestre Irineu, criador do Santo Daime no alto rio Juruá; como Dona Xanda, líder quilombola de Parintins, mãe do mestre Lindolfo, criador do Boi Garantido; e como o mestre Damasceno, da Ilha do Marajó, são exemplos de lideranças de uma afroamazoneidade que partilha saberes, territórios e vidas com os povos originários.
Quando soam os tambores nas festas de São Sebastião e São Benedito, em várias comunidades amazônicas, esse povo negro e plural expressa sua cultura e fé em caboclos, encantados, voduns e orixás, fazendo a gira girar na busca constante por paz, direitos e liberdade. O Garantido, boi do Quilombo da Baixa, que tem o branco da paz de Oxalá e o vermelho da justiça de Xangô, neste ano regido por Iansã, apresenta no item 15, Figura Típica Regional: O Povo Negro da Amazônia
Ritual indígena – Moyngo, a iniciação maragareum
Os Ikpeng vivem na região do Médio Xingu, segundo os anciões, o pajé Maragareum, em um transe profundo, recebeu revelações das deusas ancestrais: rios de almas cantando em tons sombrios, homens-peixe ossificados emergindo das águas, onças aladas rugindo no céu e uma floresta habitada por primatas medonhos e escorpiões de fogo. Para romper o ciclo do mal, os Ikpeng realizam o rito de iniciação Moyngo, no qual um primogênito é escolhido para proteger os segredos da terra.
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
O menino iniciado recebe a fumaça ancestral, que permite aos espíritos sagrados tatuarem seu rosto com os signos das feras da mata e dos rios. Ungido com as ervas ankuingo, que carregam os segredos da floresta, ele é revestido com a otxilat, uma armadura divina que o protegerá em sua jornada pelo mundo dos mortos. Camuflado com a tez da floresta, o iniciado percorre um caminho obscuro até a maloca do céu, onde deve encontrar os segredos da terra e vencer o mal.
Em um estado de nirvana induzido pela fumaça e pelo rapé, o pajé Ikpeng-txipaya enfrenta e vence as feras antagônicas, abrindo o caminho para o iniciado retornar como um guerreiro vidente. Guiado pelas árvores caminhantes, que guardam os segredos da terra, o jovem Ikpeng assegura a continuidade da floresta sagrada e da linhagem de seu povo, evitando que a floresta e sua cultura desapareçam. Essa narrativa épica e ritualística revela a profunda conexão dos Ikpeng com o cosmos, a natureza e a luta pela preservação de sua identidade e sabedoria ancestral.
2ª noite – 28 de junho: Terra brasileira
Lenda Amazônica – A lendária epopeia de Tamapú
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
Na era pré-colombiana, tempo da formação de impérios e grandes cacicados, quando humanos e animais se falavam, quando natureza e cultura se entrelaçavam em amores e lutas, o guerreiro Tamapú se apaixonou pela princesa do Palácio dos Ossos, a mulher ave de rapina com corpo plumado, a filha do rei do império dos urubus. Esse amor será levado à prova.
O Urubu Rei submeterá Tamapú a sacríficos e torturas. O Guerreiro vai enfrentar camirangas, carcarás, aranhas e formigas gigantes, só assim poderá se casar com princesa. O amor superará a dor. Da paixão vem a coragem e força que faz o guerreiro derrotar os gigantes do temido reino dos urubus. A princesa se despe da plumagem, se torna uma bela cunhã, a Cunhaporanga que com Tamapú viverá!
Figura típica regional – Tacacazeira da Baixa
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
A criação do tacacá é atribuída às raízes culinárias indígenas. Indícios apontam que o prato é uma variação da mani poi, uma sopa que era consumida pelos povos originários do Brasil muito antes da chegada dos europeus na região. O primeiro registro escrito de que se tem notícia sobre o tacacá, remonta ao século XVI, de autoria do padre capuchinho Abbeville em sua descrição das práticas alimentares indígenas (Câmara Cascudo, 2004). A palavra tacacá deriva do nheengatu ou língua geral, o tupi veicular da Amazônia.
Seu preparo e consumo continuam sendo preservados de forma autêntica pelos habitantes da região, que mantêm viva a tradição ancestral. A mandioca brava, um ingrediente fundamental na elaboração do tacacá, é um símbolo de grande relevância no Brasil, tanto cultural quanto historicamente.
É vendido em barracas nas ruas, praças, arraiás e feiras de Parintins, o tacacá não é apenas uma iguaria local, mas um símbolo de pertencimento e resistência cultural. As tacacazeiras são as responsáveis por preservar e transmitir essa tradição, muitas vezes herdada de suas mães e avós. Na Baixa do Boi Garantido, durante o período do Festival Folclórico de Parintins, o aroma do tacacá se mistura ao som dos tambores e ao colorido das apresentações, criando uma atmosfera mágica e inesquecível. As tacacazeiras, com seus trajes típicos e sorrisos acolhedores, são parte fundamental dessa festa, oferecendo não somente o alimento, mas também um pedaço da história e da identidade do povo parintinense.
Ritual indígena – Ritual Ajié
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
Na cosmovisão Madija Kulina, existem os mundos da terra e da água, o submundo e o mundo superior. Tocorimes são espíritos, seres não humanos habitantes destes universos. O ritual Ajié é a grande festa anunciada, rica e farta de comida, bebida, música, dança e alegria. Chegam Madija Kulina dos rios Jutaí, Purus, Juruá e os parentes Kanamari, Katukina e Kaxinawá.
Quando maracá, jojori e torori espalham seu som pelo ar, é sinal que o Ajié vai começar. Tinturas de urucum e jenipapo lhes darão a aparência da onça. O rapé e a ayahuasca os levarão a patamares sobrenaturais. Cantos evocam tocorimes dos vários mundos. O urutal é mal presságio. A confraternização se fragmenta, a festividade alegre se torna tensa, os conflitos espirituais afloram, o temor se espalha, a guerra é iminente. Somente a grande força do Tocorime Onça poderá apaziguar e trazer a alegria de viver aos Madija!
3ª Noite – 29 de junho: Bois do Brasil
Lenda Amazônica – Deusa das Águas
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
O Boi Garantido apresenta na 3ª noite o item 17, Lenda Amazônica, a ‘Iara, a Deusa das Águas’. Na Amazônia profunda, existe uma deusa guardiã: a senhora dos rios, lagos, igarapés e paranás. É a fascinante Iara, um ser com cauda de peixe e corpo de mulher.
Presente nos remansos e corredeiras, dominando banzeiros nos furos e peraus, Iara pune aqueles que ameaçam suas águas, mas protege os que sabem viver em harmonia com seus mananciais. No reino das águas de Iara, botos e tantos outros seres encantados celebram sua existência. Em noite de festa, chegam Mariana, Janaína e Iemanjá, mães das águas que vieram homenagear a deusa protetora das águas da Amazônia.
Figura típica regional – Artesã indígena
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
Para o Garantido mulheres artesãs representam a força da luta ancestral em defesa de suas culturas, territórios e modos de vida tradicionais. O artesanato das mulheres indígenas expressa saberes milenares, transmitidos de geração em geração. São grafismos, cerâmicas, cestarias, artes plumárias, colares, pulseiras, brincos, braceletes, cocares e maracás. No passado colonial, toda essa riqueza material foi tomada para compor coleções em museus ao redor do mundo.
Hoje, são verdadeiras joias feitas de sementes e fibras naturais, um tesouro ecológico que reafirma a identidade e garante renda para as mulheres Tikuna, Kokama, Baniwa, Sateré-Mawé, Hixkaryana e tantas outras indígenas da Amazônia. As artesãs indígenas são guardiãs da floresta; suas artes são sublimes formas de preservação. São elas as homenageadas nesta noite, no item 15, Figura Típica Regional.
Ritual indígena – Ritual Bahsesé
Imagem: Reprodução/Revista Garantido 2025
Bahsese é um ritual de cura do povo Tukano, da região do Alto Rio Negro, que trata seus doentes por meio de uma medicina milenar baseada nas forças cósmicas.
Saúde, doença e cura estão entrelaçadas com as forças do universo. Para acessar essas forças, o povo Tukano conta com os kumuã, pajés que exercem atividades especializadas na arte milenar de curar, por meio da inalação do patu, kahpi, tabaco e paricá, que permitem a transcendência ao cosmo.
São três os kumuã especialistas na cura ritual do Bahsese: yai, que transcende e identifica a doença; o kumu, que prepara o corpo do paciente para a cura; e o baya, que evoca a força de Buhpó, o “avô do mundo”, ordenador do cosmo e senhor de todas as forças do universo.
Para o povo Tukano, Buhpó é o princípio e a essência de todo o conhecimento necessário para se alcançar a cura.
Bumbódromo de Parintins. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
Quem chega na cidade Parintins na época do Festival Folclórico não perde a oportunidade de registrar o momento em um dos maiores pontos turísticos da cidade amazonense: o bumbódromo. Mas você sabia que é possível participar de uma visita mediada na arena que recebe a disputa de Caprichoso e Garantido?
Saiba como é uma visita mediada pelo Bumbódromo. Foto: Divulgação
A visita ao Centro Cultural de Parintins acontece nos dias de festival, no final do mês de junho com agendamento prévio gratuito pelo site da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, sempre no dia anterior. São cerca de 40 minutos cada visita dividas por horário. Veja como é um dos trajetos oferecidos:
O projeto Arraiá Amazônico, promovido pela Fundação Rede Amazônica (FRAM) em Macapá (AP), tem reforçado o papel das festas juninas como instrumento de cultura, inclusão social e educação ambiental.
Inspirada nas celebrações tradicionais do Amapá, a iniciativa contempla uma série de ações que percorrem escolas públicas, instituições sociais e espaços de grande circulação, promovendo acesso à cultura popular e à cidadania.
Em meio à correria dos preparativos para o Festival Folclórico de Parintins, quando o Curral Zeca Xibelão, do boi Caprichoso, se transforma no verdadeiro quartel-general da Nação Azul e Branca, uma figura se destaca não apenas pela experiência, mas pela dedicação e respeito que inspira: Auxiliadora Pereira da Silva, conhecida carinhosamente como Dona Dora. Aos 75 anos, ela é mais que diretora do curral do Boi Caprichoso, é sua guardiã.
Natural de Parintins, Dona Dora carrega o Caprichoso no sangue desde antes de nascer. Ela conta que sua história com o touro negro começou ainda na barriga da mãe.
“Ela já era Caprichoso, então eu já nasci Caprichosa. Ou seja, desde criança brincava nos antigos ensaios, quando o curral era no Urubuzal, sob o comando do lendário Seu Luís Gonzaga. A gente brincava lá, ensaiava. A minha vida sempre foi o Caprichoso”, afirma Dora.
A história de dona Dora se mistura com a evolução do próprio curral. Ela começou como servente na escolinha, ainda nos tempos em que funcionava no Estádio Sagrado. Com o tempo, foi ganhando espaço, respeito e responsabilidade.
Hoje, é a diretora do espaço que concentra boa parte das operações da associação folclórica: desde logística, figurinos, atendimento aos sócios e até o setor social. “Tudo que precisam, vêm atrás de mim. Chave, sala, figurino, ensaio. Aqui a gente resolve”, brinca.
Mais do que trabalhar, dona Dora vive o boi. Seu olhar firme e sorriso constante refletem a paixão que move sua rotina. Quando questionada sobre as dificuldades do cargo, responde sem hesitar:
“A parte mais difícil? Acho que não tem. Porque eu gosto de tudo que eu faço aqui dentro. Eu amo estar aqui”.
Apesar da longa trajetória, dona Dora ainda se emociona como uma torcedora novata. Para ela, não há momento mais marcante do que ver o troféu de campeão chegar ao curral: “É quando a emoção explode. A gente vê que todo o esforço valeu a pena. É uma felicidade que não dá para explicar”.
Testemunha viva das transformações do Festival de Parintins, ela celebra a visibilidade que o evento ganhou com a era digital.
“Hoje, com a internet, o mundo inteiro tá vendo o boi. E ainda vai crescer muito mais. Eu convido quem não conhece a vir, porque é uma festa maravilhosa, até melhor do que o Carnaval do Rio de Janeiro”, assegura, com brilho nos olhos.
Conselheira, costureira e diretora do Curral. Dora desempenha vários papéis. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
No vaivém dos ensaios, confecção de alegorias e ajustes finais, dona Dora segue firme, orientando, costurando, resolvendo problemas e, sobretudo, mantendo viva a chama do Caprichoso.
Ela não veste apenas a camisa do boi: costura sua própria história na memória do Festival. E como toda guardiã, garante que cada detalhe do curral siga no compasso exato da paixão azulada.
No coração da Baixa da Xanda, um dos redutos mais tradicionais do Boi Garantido em Parintins (AM), nasceu uma paixão que atravessa décadas e se traduz em arte no Festival Folclórico mais emblemático do Brasil. Aos 48 anos, Élio Siqueira é coreógrafo e instrutor de dança, e hoje ocupa um dos cargos de maior responsabilidade dentro da associação folclórica: a coordenação geral do núcleo cênico-coreográfico do Garantido.
A relação de Élio com o Boi vem desde a infância. “Aqui em Parintins tudo é respirar boi, é respirar arte. Eu morava perto da Baixa da Xanda, e quando o Boi passava na Alvorada, a gente corria pra ver, mesmo sem poder acompanhar de perto por sermos curumins. Ficávamos só admirando. Foi ali que tudo começou”, relembra com carinho.
Inspirado por cenas que ainda carrega na memória, Élio menciona com emoção a toada ‘Compadre de Fogueira’, de Helen Veras, lançada em 2012. “Ela fala exatamente dessa sensação de quando o boi está na rua, dançando ao redor da fogueira… é muito forte. Traz à tona minha infância, minha conexão com o boi”, destaca.
Mas transformar sentimento em movimento não é uma tarefa simples. “A gente tem tudo pronto na cabeça: 6, 7, 8… Mas quando vamos repassar para os corpos dos bailarinos é diferente. Não são dançarinos profissionais. São voluntários da comunidade. E isso exige paciência, sensibilidade, tempo”, explica Élio, que hoje ensaia com sua equipe tanto no Curral Lindolfo Monteverde quanto na arena do Bumbódromo.
Apesar dos desafios, os momentos de emoção são muitos. Para ele, alcançar a nota máxima com um trabalho bem executado é o ápice.
“A gente fala que para o artista bastam os aplausos. Mas aqui é competição, e a nota também representa a sensação de dever cumprido. É a consagração do que foi sonhado e construído”, destaca o coreógrafo.
Élio também é um dos fundadores do tradicional grupo ‘Garantido Show’, criado em 1996 e considerado uma escola de talentos do Garantido. “Todos os coreógrafos que atuam hoje passaram por lá. E eu, junto com o Pedro Evangelista, somos os únicos da formação original que permanecem no grupo até hoje. Ano que vem completamos 30 anos de história”, contou.
Quando questionado sobre o que o Boi Garantido representava em sua vida, Élio foi direto: “Realização.”
“Pode parecer clichê falar de amor. E é amor também. Mas o Boi é onde a gente realiza sonhos, abre portas, transforma a vida. É por meio dele que eu cresci como artista, como pessoa, e me conecto todos os anos com o que há de mais verdadeiro em mim”, diz.
Em Parintins, quando o Festival Folclórico se aproxima, o Curral Lindolfo Monteverde se transforma em um verdadeiro quartel-general. É no galpão das alegorias que vibra o coração do espetáculo cênico que toma conta do Bumbódromo. Lá, em meio a ferros, isopor e tintas, atua o artista plástico Netto Barbosa, de 32 anos, um dos principais nomes por trás das impressionantes criações visuais do bumbá vermelho e branco.
A movimentação no galpão durante a retirada da alegoria que representa a lenda indígena Tapiraiauara já mostrava a dimensão do trabalho. Com 23 metros de altura e composta por nove módulos, a estrutura é resultado de um trabalho coletivo que envolveu mais de 20 profissionais, entre soldadores, escultores, pintores e artesãos.
“Esse é, sem dúvida, um dos maiores projetos que estou executando junto com a minha equipe”, afirma Netto, com brilho nos olhos.
Responsável por liderar a execução das alegorias, Netto detalhou o processo criativo. “Recebemos o conceito da Comissão de Arte. A partir disso, elaboramos uma maquete, planejamos as esculturas e começamos a execução no barracão, escultura de ferro, isopor, revestimento, pintura, decoração. É um processo longo e muito intenso”.
Netto, que cresceu imerso na cultura do boi-bumbá, carrega a paixão pelo Garantido no sangue. “Sou garantido, com certeza. Toda a minha família é. Meus pais são sócios fundadores. Tenho certeza que eles estão felizes vendo o resultado do nosso trabalho”, contou.
Netto acompanhou o translado de sua obra para o Bumbódromo de Parintins. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Mesmo exausto pela maratona de dias sem dormir, o artista se sente recompensado:
“É cansativo demais, mas quando a gente vê a reação da galera, o sorriso do torcedor vermelho e branco, tudo vale a pena”, afirmou Netto, se emocionando ao observar a grande figura do Tapiraiauara.
Imagine amar tanto uma festa cultural, que você atravessa estados, organiza um grupo com mais de 50 integrantes e, todos os anos, encara a jornada até a Ilha Tupinambarana para viver tudo intensamente. É isso que faz o coreógrafo paraense Robson Costa, responsável por levar o grupo de dança ‘Carimbó do Pará’ de Santarém para o Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, onde se apresenta ao lado do boi Caprichoso, especialmente no item 15: Figura Típica Regional.
Com sorriso fácil e bom humor, o coreógrafo faz alguns ensaios no Curral Zeca Xibelão, reduto da nação azul e branca, e logo desconstrói a ideia de distância. “A gente sabe que é bem perto, né? Santarém está no Pará, Parintins no Amazonas, mas o coração bate no mesmo ritmo”, brincou.
A relação entre Robson e o Festival começou há mais de oito anos, com um convite do amigo Jair Almeida para integrar o corpo de dança do Caprichoso. Desde então, seu grupo tornou-se parte essencial da cena coreográfica da agremiação.
“Nós atuamos no item Figura Típica Regional e é uma responsabilidade que a gente assume com muito carinho e seriedade”, explica.
Robson trabalha com itens oficiais do Caprichoso. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Do carimbó ao boi-bumbá
Levar a identidade cultural do carimbó para dentro da arena do Bumbódromo é um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, um dos principais encantos do trabalho de Robson. “É um entrelaçar de movimentos, ritmos e tradições. São culturas diferentes, mas que se completam dentro desse grande espetáculo que é o Festival”, destaca.
Apesar da distância, das dificuldades logísticas e dos desafios de adaptação às demandas do boi, Robson não se abala: “É tudo muito cauteloso, exige atenção e entrega. Mas no final, sempre conseguimos apresentar algo grandioso. O importante é manter o espetáculo vivo e autêntico”.
Emoção que atravessa fronteiras
Treinar o grupo no curral do Caprichoso é, segundo Robson, uma experiência única. “Dançar aqui dentro e depois no Bumbódromo é emoção pura, arrepia. A gente sente a realização tomando forma a cada ensaio, a cada gesto”, diz, com os olhos brilhando de entusiasmo.
Para ele, estar presente no Festival de Parintins é mais do que uma participação artística, é uma jornada emocional que se renova a cada ano.
“Desde pequeno acompanho o festival. Quem ama cultura, vive isso intensamente. E co00m o Caprichoso, a gente cria uma relação de amor mesmo. É isso que define minha trajetória aqui: amor”, declarou.
Parte da equipe “Carimbó do Pará”. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Ao longo dos anos, Robson testemunhou várias mudanças no festival. Segundo ele, a principal transformação foi o fortalecimento do intercâmbio cultural. “Os grupos que compõem o espetáculo vêm de diferentes lugares do Brasil. Isso aproxima pessoas, une tradições e enriquece ainda mais o Festival. É lindo ver essa troca acontecendo, ano após ano”, ressalta.
Em meio aos desafios e superações, Robson Costa é hoje uma ponte viva entre o Pará e o Amazonas, entre o carimbó e o boi-bumbá. Sua história representa o espírito colaborativo e apaixonado que faz do Festival de Parintins um dos maiores espetáculos culturais do Brasil.
E para Robson, em uma palavra, o que o Boi representa?