Já pensou em ter um ‘Pelotão Mirim Ambiental’ formado para ajudar a difundir informações sobre a preservação do meio ambiente? Pois essa é a ideia da oficina que recebe este nome, realizada em Rio Branco (AC) por meio do projeto Consciência Limpa, da Fundação Rede Amazônica (FRAM).
Pela primeira vez na capital acreana, o projeto realiza diversas ações entre os dias 27 e 29 de novembro e, entre elas, o pelotão mirim, que acontece na escola estadual Dr. Pimentel Gomes no Bairro São Francisco.
A oficina busca incentivar crianças do 4° ano do ensino fundamental a terem maior consciência ambiental e cidadã, com foco na distinção dos tipos de resíduos sólidos e seu descarte adequado, nos 3R’s da sustentabilidade (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) e em gincanas para estimular o aprendizado das crianças sobre o tema.
“Está sendo tudo muito bom, eu ganhei a corrida (gincana de corrida sustentável), todos passaram direto e eu encontrei o papel alumínio e minha equipe que é a amarela, venceu. Eu gostei muito, muito mesmo. Aprendemos a importância de jogar os resíduos nos locais certos, não jogar os lixos no meio do mato e nem na beira do rio, pois pode escorregar para dentro dele e poluí-lo”, disse João Pedro Negreiros Lima, da turma matutina 4B, no primeiro dia da ação.
Da turma vespertina 4D, Livya Emmanuelle da Silva Lima também conseguiu encontrar o resíduo indicado na gincana e, com sua equipe, venceu a corrida sustentável. “Eu achei muito legal, gostei muito, aprendi várias coisas e eu queria que esse tipo de ação acontecesse em todas as escolas”, disse.
Foto: Larissa Marinho
A diretora da escola, Sebastiana da Silva, afirmou que esse tipo de projeto é importante para a conscientização da comunidade: “Além de criativo, complementa o currículo da escola e para o aprendizado das crianças, nem se fala”.
O professor Rodrigo Gomes, do CATRAIA Soluções Ambientais, levou uma reflexão sobre como projetos desse porte promovem o pensamento sobre os hábitos praticados pelas crianças. “É um momento que de fato damos uma pausa na rotina da escola e colocamos eles dentro desse contexto, até porque esses aprendizados são válidos para que eles apliquem no dia a dia e no contexto familiar, o que é necessário para que esse mudança que ocorre de forma gradual, aconteça”, justificou.
Com linguagem acessível, abordagem comunitária e estratégias de multiplataforma, a campanha Consciênciua Limpa reforça a democratização do conhecimento, o fortalecimento da cidadania ambiental e a promoção de soluções sustentáveis para a Amazônia.
Para o coordenador de projetos da FRAM, Matheus Aquino, as oficinas são o coração do Consciência Limpa. “Quando vemos crianças e adolescentes engajados, fazendo perguntas, compartilhando experiências e entendendo seu papel como agentes de mudança, percebemos a potência transformadora do projeto. O Pelotão Mirim Ambiental não forma apenas multiplicadores de conhecimento, mas jovens protagonistas comprometidos com o futuro do Igarapé São Francisco e de toda a cidade”, afirma.
Ao longo dos três dias, moradores tem acesso a oficinas práticas, palestras de conscientização, ações de mobilização e o ‘DIA D’, que reúne serviços gratuitos, apresentações culturais. A formatura do ‘Pelotão Mirim Ambiental’, iniciativa que trabalha educação socioambiental com crianças do entorno do igarapé São Francisco está marcada para ocorrer no sábado (29).
Pesquisadores buscam conhecer biodiversidade dos insetos da Amazônia no alto das árvores. Foto: Luiza Caires/USP Imagens
Do alto de uma torre de 40 metros em uma reserva nas proximidades de Manaus (AM), o biólogo Dalton Amorim se assombra.
“O que vemos aqui é de tal beleza e complexidade que explode o coração. Temos 360 graus, até o limite do horizonte, de floresta primária pura, com todos esses tons de verde-limão, verde-acinzentado, verde-alaranjado, verde-amarronzado, verde-escuro… Cada copa tem um formato diferente. É uma riqueza brutal e linda, até difícil de explicar para quem não pode vir aqui”.
Essa está longe de ser sua primeira incursão na Floresta Amazônica ou subida na torre da Reserva ZF-2, do Inpa, mas desta vez o professor da USP partiu de Ribeirão Preto (SP) com o objetivo de encerrar a primeira etapa de um trabalho sobre a biodiversidade de insetos da Amazônia, acompanhado pelo Jornal da USP.
O entomólogo (estudioso de insetos) tem várias décadas de experiência no laboratório e em campo, mas nunca deixa de se surpreender com o que encontra. Nem poderia. O que os cientistas já conhecem da fauna amazônica, especialmente dos insetos, são algumas gotas d’água num oceano de espécies, habitando cada canto da floresta e cada altura – daí a importância da torre e outras técnicas inovadoras de coleta.
Expandir o conhecimento sobre os insetos da Amazônia está, na verdade, no centro dos planos de um megaprojeto que o professor sênior coordena, o BioInsecta – e que é parceiro de outra enorme empreitada, o BioDossel. Este último tem sede no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e é liderado pelo professor da instituição José Albertino Rafael.
Vista do alto da torre ZF-2, na reserva do INPA em Manaus – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Os espécimes com que os projetos vão trabalhar alcançam números grandiosos, na casa das centenas de milhares a serem identificados e estudados, com a perspectiva de várias novas espécies sendo descritas. “A gente não pode fazer isso com meia-dúzia de pesquisadores de uma ou de duas instituições. Precisamos reunir a força taxonômica do País, e inclusive a de outros países, para que a gente consiga chegar ao elemento essencial da pesquisa, que é a espécie”, diz Rafael.
Amorim estima que a proporção de espécies ainda desconhecidas em relação às conhecidas pode ser de 90% a 98% da fauna de insetos da Amazônia. Um estudo dele e de colaboradores, publicado em 2022, aponta que mais de 60% da biodiversidade de insetos na Amazônia vive acima do solo, indo de 8 a 30 metros de altura, no chamado dossel da floresta.
Graças à parceria com o Inpa, a coleta não se limita a apenas um ponto da floresta. A partir de um experimento anterior, coletando espécimes de maneira estratificada nas alturas de 8, 16, 24 e 32 metros, os pesquisadores verificaram que a fauna que vive na parte alta da floresta (dossel) é muito diversa da fauna que habita a área onde hoje normalmente são feitas coletas, o solo – onde há mais facilidade de acesso. “Foi um resultado surpreendente e isso nos estimulou a desenvolver um projeto mais consolidado com coletas temporalmente mais extensas”, conta Rafael.
Inseto encontrado na Floresta Amazônica. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Assim, o trabalho recente aconteceu durante 14 meses em três interflúvios, que são as áreas limites entre bacias hidrográficas, separadas por grandes rios (Amazonas, Madeira e Solimões). O professor do Inpa explica que o objetivo é conhecer a fauna que habita cada ponto e também ver o quanto há de “turnover faunístico”, ou seja, de substituição de fauna entre um ponto e outro.
“A partir do momento em que a gente tiver esses dados, poderemos começar a extrapolar os resultados para a Amazônia como um todo e sensibilizar os órgãos financiadores da importância de realizar coletas em outros locais. Esse tipo de coleta agora está centrado nas proximidades de Manaus, com um ponto fora do triângulo que é no Maranhão, em Gurupi, onde a gente conta com a parceria da Universidade Estadual do Maranhão. Mas a Amazônia é imensa”, reitera.
O conhecimento gerado sobre as espécies não ficará restrito aos taxonomistas, que identificam e classificam os seres vivos. “Os dados de biodiversidade e estrutura vertical da fauna de insetos vão alimentar estudos de ecólogos da floresta por muitos anos. Esses dados também vão ser usados por engenheiros florestais e cientistas da conservação para decisões na proteção da floresta”, exemplifica Amorim em entrevista anterior a Leandro Magrini no Jornal da USP.
Pesquisadores trabalham na coleta de exemplares dos insetos. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Inovação nas armadilhas
“Os insetos são extremamente importantes devido à sua interatividade com a dinâmica da floresta e também com as populações que vivem nela, mas desconhecemos a maioria das espécies e sua distribuição, principalmente os que vivem no alto das árvores – o lugar menos coletado e estudado na região amazônica e em outros biomas”, diz o técnico do Inpa Francisco Felipe Xavier Filho – o Chico, enquanto trabalhava na retirada de uma armadilha.
Coletar além do nível do solo exige um grau maior de complexidade. O pontapé inicial para esta amostragem da vida nas alturas se deu na torre ZF-2. “Essa torre foi construída numa cooperação com o Japão no final da década de 1970, especialmente para medidas meteorológicas. E desde o começo da década de 1980, os pesquisadores do Inpa têm coletado insetos dessa floresta, em várias alturas. Isso já foi mostrando uma diversidade muito especial no dossel da Amazônia”, relata Dalton Amorim.
Em 2017, José Albertino Rafael e seu grupo colocaram armadilhas de interceptação de voo encaixadas em vários pontos: no solo, a 8, 16, 24 e a 32 metros. “Foi aí que a gente viu realmente o impacto que um projeto do tipo poderia ter”, ressalta Amorim.
Nesse primeiro piloto, com a torre metálica, os cientistas praticamente não tiveram problemas. Mas com os dois novos megaprojetos, o objetivo passou a ser comparar diferentes áreas, e construir torres em cada uma delas teria um custo extremamente alto.
“Então tínhamos que desenvolver uma estratégia para coletar de maneira estratificada, e para isso nós buscamos um desenho, rabiscamos muitos papéis, e fomos ao campo testar a elevação das armadilhas”, relembra Rafael.
Cascata de armadilhas para coleta dos insetos. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Os pesquisadores buscaram as árvores emergentes, aquelas que crescem e se abrem somente acima dos 30 metros, chegando até cerca de 60 metros de altura (mas com alguns registros de árvores com até 80). Elas passaram a fazer o papel da torre, com as armadilhas ancoradas nos seus galhos mais fortes. “Após conseguir passar uma corda nesses galhos, levantamos as armadilhas e elas ficam suspensas em intervalos padronizados, de sete em sete metros, chegando até os 28 metros, que é a altura média do dossel na Amazônia Central”, detalha o professor do Inpa.
Ao bater na tela das armadilhas, os insetos caem em coletores com álcool absoluto – para preservar o DNA – pendurados nas pontas delas. Depois de duas semanas, quando chega o momento da coleta, os frascos ficam repletos de moscas, mosquitos, grilos, pernilongos, louva-a-deus, gafanhotos, mutucas e mariposas, entre outros. São centenas de milhares de exemplares que terão um pedaço do DNA sequenciado e seguirão para uma enorme rede de especialistas em cada um dos grupos de insetos. Eles vão identificar os que forem de espécie conhecida, e descrever aqueles cujas espécies forem novas.
“A gente está coletando em uma escala em que nunca ninguém coletou e nossos resultados vão ser inéditos na literatura científica”, anima-se Amorim.
Mas como conhecimento vale muito mais quando compartilhado, um artigo recém-publicado pelos pesquisadores inclui uma espécie de manual de construção da cascata de armadilhas. No texto, eles ressaltam que o sistema pode ser replicado em todo o mundo, em qualquer floresta, para explorar a diversidade de insetos e sua dinâmica.
Como sequenciar tantas amostras num espaço de tempo relativamente curto, seja nos laboratórios do BioInsecta, em Ribeirão Preto, ou nas instalações do Inpa, em Manaus? Quem explica é Miriam Silva Rafael, pesquisadora do Inpa há mais de 30 anos que integra o BioDossel com foco no sequenciamento de DNA.
“A nossa meta a atingir é de 320 mil espécimes sequenciados. Ela é pautada no barcode [código de barras], usando um método bem eficiente que permite sequenciar muitos bichos de uma só vez numa placa de 96 poços. O que dá uma perspectiva bem promissora de que em dois anos, três no máximo, podemos sequenciar todo esse material e enviar aos especialistas para as suas respectivas análises de interesse”, anuncia ela, ressaltando, porém, que isso só está sendo possível após uma série de atualizações nos procedimentos.
Trabalho de análise é realizado nos laboratórios do Inpa em Manaus. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
“O método que a gente segue já sofreu bastante adaptações, exatamente para que não tenhamos tropeços. E já temos uma boa quantidade de bichos sequenciados com essa metodologia, que foi realmente padronizada para trabalharmos com as amostras” comemora a cientista, ao lembrar dos desafios vencidos.
“A gente já superou os maiores desafios, entre eles, conseguir amplificar o DNA do maior número de espécies em cada placa de PCR, sendo que temos bichos de diferentes tamanhos, variando entre ‘PP’, pequeno, médio e grande”.
A PCR à qual a cientista se refere é a sigla em inglês para Reação em Cadeia da Polimerase, uma técnica que produz milhões de cópias de uma determinada região de DNA partindo de uma quantidade bem pequena. Isso é o que os pesquisadores chamam de amplificar o DNA.
Nesta etapa, a professora do Inpa conta que a maior dificuldade foi fazer adaptações para os diferentes tamanhos dos insetos e dos fragmentos de DNA, adequando o tempo de programação de ciclagem – processo de aquecer e resfriar repetidamente a amostra, permitindo a amplificação de sequências específicas (cada repetição do ciclo dobra a quantidade de DNA). “Esses foram os nossos maiores gargalos – mas ainda bem que já ‘foram’, com o verbo no passado”.
Educadores em ação
Levantar informações para os cientistas é só um dos braços do projeto BioInsecta, que tem ações voltadas para educação, extensão e divulgação científica. Um primeiro produto neste sentido é o podcast Antena Cultural, que traz o diálogo entre o cotidiano das pessoas e aspectos culturais relacionados aos insetos. Os primeiros episódios foram feitos por alunos de iniciação científica para um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e o podcast continua, agora com bolsas da Universidade e da Fundação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
Os programas alternam uma discussão sobre o fazer científico e sobre o inseto no cotidiano. “Escolhemos um inseto e, a partir dele, buscamos relações com a arte, literatura, música, e com narrativas que vêm da infância – memórias afetivas que têm a ver com esses insetos, da culinária, das superstições e da religião”, explica Marcelo Motokane, professor da USP em Ribeirão Preto que integra o BioInsecta.
“A ideia é que o inseto não está presente só em casa, na floresta ou no jardim, mas está presente na sua cultura. É mostrar para as pessoas que a biodiversidade tem a ver com a cultura delas e que, uma vez que acabamos com a biodiversidade, um pedaço da cultura vai junto.”
Em outubro, no mês das crianças, o inseto escolhido foi a abelha. “Fomos a uma creche ouvir o que as crianças sabem sobre abelhas”. O formato é sempre esse, entrevistas com as pessoas em geral e também um especialista falando daquele inseto. No episódio, um especialista em abelhas e uma criança de três anos falam.
“E aí a gente pergunta para essa menininha: ‘Toda abelha pica?’. Ela fala: ‘Não, arapuã não pica’.” E o pesquisador conta que nem toda abelha tem ferrão, nem toda abelha pica, nem toda abelha vive em sociedade. Existe um conhecimento da ciência que uma criança de três anos também tem”, diz Motokane.
Em outra ação de extensão, a nutróloga Suzane Torquato, da etnia Sateré Mawé, foi convidada para falar sobre o uso de formigas na gastronomia, em um ciclo de palestras que envolve diferentes cosmovisões sobre a biodiversidade. Suzane deu ainda uma oficina gastronômica para jovens no Sesc em Ribeirão Preto. “A gente tem feito essas trocas e diálogos, nas confluências entre outras epistemologias e a ciência biológica”, diz o professor da USP.
O tema insetos é também alvo de pesquisas com foco na educação, orientadas por Motokane. “Tenho alunos que relacionam a literatura, os insetos e a educação para a biodiversidade, em busca de metodologias de ensino mais adequadas para a questão da conservação.” Uma pesquisa de mestrado, por exemplo, trabalha com A Metamorfose, de Franz Kafka, fazendo relações com o medo de insetos. Um outro projeto trabalha com narrativas de povos originários sobre formigas.
Até mesmo os produtos de extensão do BioInsecta viram temas de pesquisa em educação. “Em uma das pesquisas, a gente usa os podcasts em sala de aula para entender como podem ajudar o professor a aproximar os alunos da ciência e da conservação da biodiversidade.”
O jornalismo científico completa o rol de ferramentas utilizadas pelo BioInsecta para chegar além dos muros da academia. O doutor em Biologia Comparada Leandro Magrini, que também se especializou em divulgação científica, toca esta parte, produzindo uma série de matérias publicadas em diferentes veículos, atendendo a pedidos de outros jornalistas que desejam noticiar os trabalhos, e cuidando da página do projeto no Instagram, @bioinsecta. O apoio é da Fapesp, pelo programa Mídia Ciência.
Mais ao norte do País, o BioDossel, do Inpa, também investe nas ações de extensão. “A gente vai às escolas de Manaus mostrar o que fazemos dentro da floresta aos estudantes, com idade de 8 a 17 anos”, conta o técnico do Inpa Francisco Xavier Filho.
“Eles ficam apaixonados ao saber que existe esse tipo de trabalho científico dentro da floresta, do lado da cidade em que moram. Perguntam, ficam curiosos e vibram quando a gente mostra os frascos com os insetos: ‘Nossa, existe tudo isso?’. Alguns até perguntam: ‘Mas vocês matam esses insetos?’. Aí a gente explica que eles foram sacrificados, que alguns exemplares deram a vida para que outros bilhões de insetos e outros animais e plantas da floresta sejam mais bem conhecidos e, assim, preservados”, relata.
“Os estudantes ficam empolgadíssimos, querem conhecer os lugares onde a gente trabalha, e até se vestir como a gente, falar como os cientistas e técnicos. A maioria deles nunca caminhou nessa floresta que está do lado de casa, então começam a pensar diferente quando recebem estas informações de alguém que por esses anos todos caminhou, como eu e outros colegas. A mentalidade muda sobre termos que cuidar dessa floresta, usando seus recursos de uma forma correta e sustentável”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Luiza Caires
Na vida, muitas vezes somos surpreendidos com mensagens que nos fazem refletir sobre nosso comportamento passado. No meu trabalho na Rede Amazônica, cheguei a atuar em todas as áreas sociais da vida. Lembro de acompanhar de perto um grupo de dança, cujo nome era Ritmo Quente, comandado por um grande amigo e ótimo dançarino, que estava completando um livro de dez anos de atividades e junto com uma bela companheira chamada Claudia. A gravação do festejo veio precedida de outras matérias, sempre com esta dupla especialmente simpática.
Passados alguns dias, estava eu na redação da TV Amazonas escrevendo sobre as minhas matérias quando fui comunicado de que Claudia tinha chegado e solicitaram que eu a atendesse. Imediatamente fui recebê-la. Na sala da recepção a encontrei bastante emocionada e imediatamente me falou: “Dudu, você é meu pai!”.
Me surpreendi e, olhando nos olhos dela, me coloquei a escutar a história que me contava. “Quando você trabalhava na STAR SHIP (eu era DJ), você conheceu minha mãe e estiveram juntos algumas vezes, e em consequência disso ela ficou grávida e jurou que nunca você saberia. E assim foi feito até que, lamentavelmente, ela veio a óbito. Como sempre quis lhe falar, estou livre para te comunicar. Não quero nada! Tudo que quero é que você saiba”.
Tivemos uma longa conversa e, como tinha que apresentar o Globo Esporte, combinei com ela para encontrá-la no sábado para uma aproximação maior durante um café da manhã. Nos abraçamos longamente e dei um beijo na sua testa. Fiquei ansioso para ouvir mais, além de começar a pensar no que fazer para ajudá-la mais.
Foi uma semana longa, e na sexta-feira recebo um comunicado, um telefonema de alguém que não se identificou, me comunicando que Claudia tinha sofrido um acidente e tinha falecido. Ela estava na parada de ônibus em frente a antiga Universidade de Tecnologia do Amazonas (Utam) e um carro capotou na curva e a atropelou. A pessoa disse mais: que ela já tinha sido enterrada e desligou.
Foi um grande impacto! Foi o fim do início de uma bela história. Hoje, passado tanto tempo, me pergunto: será que ela veio se despedir para concluir um ciclo de vida? Como nada sabia dela, além do que ela me falou, fica para sempre a alegria de tê-la conhecido antes da partida. Sempre a amarei pelo pouco que convivemos como pai e filha. Deus te ilumine.
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Lançado na 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém (PA), o minidocumentário “Açaí Nativo: Fruto da Amazônia” reúne histórias de comunidades ribeirinhas extrativistas na Ilha Jacaré Xingu, em Cametá (PA).
Na produção, de aproximadamente 10 minutos, os ribeirinhos relatam como aprenderam a extrair o açaí, a relevância do fruto para a sua dieta, seu sustento e como o alimento se tornou uma identidade regional.
“O açaí é mais do que um alimento e fonte de sustento para quem vive de sua extração — é também tradição, cultura e um pilar da sociobioeconomia amazônica, valorizando saberes locais e fortalecendo modos de vida que integram floresta, pessoas e economia”, afirma Sara Leal, diretora do filme e coordenadora de Comunicação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Açaí é um dos frutos típicos da Amazônia. Foto: Reprodução/IDAM
Açaí é identidade cultural
A produção faz parte do projeto Cadeias Produtivas Sustentáveis no Pará, que produziu dados qualificados sobre as cadeias do cacau e do açaí para subsidiar estratégias de impacto socioeconômico, ambiental e de fortalecimento da sociobioeconomia no Estado.
O projeto é uma realização do IPAM em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca do Estado (Sedap Pará), com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
Assista:
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia, escrito por Sara Leal
O garimpo ilegal na Amazônia é um dos problemas na região que receberam atenção nos últimos anos, com ações de combate por diversas entidades. O Ministério Público Federal (MPF) promoveu, no dia 13 de novembro, um ciclo de palestras para apresentar um panorama sobre a atuação do órgão contra a prática irregular de minérios na região amazônica na Green Zone (Zona Verde) da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) em Belém (PA).
O procurador da República Gilberto Naves Filho alerta que o garimpo ilegal na Amazônia é preocupante, especialmente em regiões próximas à zonas de proteção ambiental e territórios indígenas. Uma delas é a região do Rio Tapajós, no Pará, que tem forte incidência de garimpo ilegal.
“A bacia do Tapajós é uma área altamente impactada pelo garimpo ilegal. O MPF tem uma alta demanda sobre as permissões de garimpeiros sem a prévia autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que é um requisito legal. Entendemos que essas permissões são ilegais, mineração em área de preservação permanente, sedimentos sem tratamento sendo jogados diretamente nos rios, ausências de bacia de sedimentação. Tudo isso preocupa muito o MPF, por isso entramos com ação judicial para pedir a anulação dessas permissões”, comenta o procurador.
Naves reforça que o garimpo ilegal é um problema que afeta a sociedade em todos os seus níveis e que os povos indígenas e comunidades tradicionais são os maiores prejudicados dessa problemática.
Área degradada pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Foto: Divulgação/HAY
“O garimpo ilegal é um enorme problema. No ponto ambiental, que causa danos graves ao meio ambiente; no ponto de vista da saúde pública devido à contaminação do mercúrio nas águas dos rios, prejudicando povos indígenas e comunidades; e o dano social, através da violência e conflitos até mesmo dentro das comunidades tradicionais, que estão pagando um preço altíssimo e incalculável”, pontua o procurador.
Os estudos apontam níveis alarmantes de contaminação dos povos tradicionais por mercúrio, o que afeta especialmente mulheres e crianças.
“O MPF tem tido uma atuação muito firme pelo cumprimento da lei e pelo combate à essa ilegalidade, com toda energia e rigor que a situação merece. Temos tido uma postura de muita cobrança às autoridades públicas para que esse problema seja resolvido. Ainda é um desafio, mas é uma tarefa que a gente precisa vencer. O garimpo ilegal tem que acabar”, assegura.
Especial COP30
A entrevista com o procurador da República, Gilberto Naves Filho, faz parte de uma sequência especial dedicada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – Conferência das Partes (COP30) do programa ‘Bate-papo na CBN’, da rádio CBN Amazônia Belém (102,3 FM ).
Com o olhar de quem vive na região, o programa reuniu informações e entrevistas sobre toda a movimentação da 30ª edição do encontro mundial realizado em Belém (PA), realizado entre os dias 10 e 22 de novembro.
Procurador da República, Gilberto Naves, abordou sobre o tema do garimpo ilegal na Amazônia. Foto: Reprodução/Youtube – CBN Amazônia
Ainda no programa, a gerente executiva da ‘Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura’, Carolle Alarcon, avaliou sobre as primeiras impressões da COP30.
“Eu acho que teve alguns bons marcos, tivemos falas importantes como André Corrêa do Lago (presidente da COP) fazendo menção de que é a COP da Amazônia, da floresta, da realidade. Eu acho que teve muita realidade ao longo dessa semana, dos negociadores entenderem o que é uma chuva amazônica, o que é o calor, de ver a presença da sociedade civil organizada, seja por manifestações ou pela multiplicidade de eventos paralelos. Foram muitos pontos positivos”, pontuou.
Gerente executiva da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Carolle Alarcon, avaliou a primeira semana da COP30. Foto: Foto: Reprodução/Youtube – CBN Amazônia
A gerente também explicou sobre a participação da Coalizão Brasil na COP30, que apresentou uma proposta de transformação da agricultura e dos sistemas alimentares.
“Nós apresentamos uma proposta que levantou pontos em dois eixos: o olhar para a floresta, para biodiversidade e a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares. 75% das emissões do efeito estufa do Brasil vem do uso da terra como agricultura, agropecuária, então não tem como não falar de transição climática sem falar dessa agenda da floresta. A coalização apresentou isso e ficamos muito felizes de poder trabalhar com essa pauta, de ver essa agenda sendo trazida para a discussão aqui na COP30″, finalizou.
Com oito episódios, os programas da rádio, apresentados pela jornalista Brenda Freitas, também ganharam versões especiais no canal Amazon Sat e no Portal Amazônia.
Assista as entrevistas completas no terceiro episódio da edição especial do programa:
A iniciativa Banzeiro da Esperança é uma parceria entre Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Rede Amazônica (FRAM) e Virada Sustentável, com patrocínio do Banco da Amazônia (BASA). Esta edição do Banzeiro da Esperança é uma jornada de conexão, troca de saberes e transformação com foco na COP30.
Foto: Reprodução/Dossiê de registro do Bem Cultural
A ourivesaria da cidade tocantinense de Natividade (TO) foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil na 111ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A arte é um bem cultural definido pela produção e uso de um conjunto de joias artesanais – feitas com ouro e prata extraídos da própria região – como crucifixos, colares, cordões, gargantilhas, brincos, pingentes, pulseiras e anéis.
Para a confecção das joias, são empregadas distintas técnicas, sendo a filigrana a mais valorizada. Trata-se de um delicado entrelaçado de hastes finas de ouro, algumas com a espessura de um fio de cabelo, com laterais serrilhadas, técnica cujas raízes remontam à região do Minho, em Portugal, e que se aclimataram ao território do atual estado do Tocantins durante o período colonial, com a chegada de artesãos que aqui se fixaram.
O dossiê de registro ressalta que a ourivesaria de Natividade emerge como um bem cultural que vai além da simples confecção de joias de ouro e prata.
Seu valor reside na sua capacidade de sintetizar técnicas artesanais, história e identidade local, refletindo as complexas relações entre tradição, fé, arte e memória elaboradas historicamente em território tocantinense.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou a relação da ourivesaria com a história da cidade e com o trabalho da população negra, inclusive dos quilombos: “Ao longo de gerações os ourives de Natividade têm preservado e inovado na fabricação o fabrico de técnicas e hoje se tem um patamar artístico único no Brasil”.
Para o superintendente do Iphan no Tocantins, Danilo Curado, o reconhecimento reverbera as transformações sociais e culturais do interior do Brasil central. “A cultura do Brasil profundo ganha reconhecimento nacional e a partir disso todo o país vai conhecer esta arte, além do reconhecimento ao trabalho destas pessoas” destacou.
Foto: Reprodução/Dossiê de registro do Bem Cultural
As joias nativitanas, em especial aquelas com inspiração nas formas e símbolos da natureza brasileira (como a flor do maracujá) e nas manifestações religiosas (como os corações nativos e os diversos símbolos cristãos) são peças carregadas de significados, não apenas no plano material, mas também no simbólico e no social. Elas permeiam o cotidiano e as festividades religiosas, sendo um dos pilares da identidade cultural da comunidade nativitana e de outros municípios do sudeste tocantinense.
Segundo o parecerista Nelson Fernando Inocencio, membro do Conselho, o resultado desse trabalho são peças carregadas de significados não apenas no plano material, mas também simbólico e social.
“A continuidade e revitalização do ofício, com o apoio de iniciativas comunitárias garantem que essa a ourivesaria permaneça viva, transmitida para novas gerações de artesãos de diferentes extrações sociais, raciais e de gênero e continue a gerar desenvolvimento na região, contribuindo para a redução das desigualdades”, concluiu.
Uma nova espécie de orquídea, cientificamente denominada Pleurothallis labajosi, foi descoberta na floresta amazônica do nordeste do Peru e sul do Equador por pesquisadores peruanos. A descoberta confirma que essa região abriga uma biodiversidade excepcional, grande parte da qual ainda desconhecida.
A informação foi divulgada pela Universidade Nacional Toribio Rodríguez de Mendoza (UNTRM), que especificou que a descoberta foi feita por cientistas do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável de Ceja de Selva (INDES-CES) da referida universidade.
Após destacar que a descoberta da nova espécie de orquídea reforça a relevância desses ecossistemas como refúgios de flora única, a UNTRM especificou que a orquídea foi registrada no Parque Nacional Podocarpus (Equador) e em duas áreas de alta diversidade na Amazônia (Peru):
a comunidade de Diosán, localizada no distrito de Granada, província de Chachapoyas;
e na Área de Conservação Privada Huaylla Belén – Colcamar, localizada no distrito de Colcamar, província de Luya.
O Peru possui cerca de 3.000 variedades da espécie e, embora inicialmente parecesse semelhante a espécies conhecidas, a Pleurothallis labajosi provou ser distinta graças a características particulares, como o formato de suas folhas e a cor peculiar de suas flores, que varia entre o amarelo pálido e o vermelho-bordô.
Foto: Andina/ Divulgação
A confirmação de sua classificação como uma nova espécie de orquídea foi possível, após anos de pesquisa (2018–2024), que incluíram coletas em campo, análises laboratoriais e comparações com material de herbário de diversos países. O estudo indica que a falta de controle rigoroso torna a área onde esse tipo de orquídea é encontrado vulnerável ao desmatamento para a expansão da pecuária, uma ameaça constante às populações remanescentes.
O UNTRM afirma que, além de ser um avanço científico, essa descoberta é um apelo urgente para a proteção das florestas nubladas, ameaçadas pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas.
Documentar novas espécies é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de conservação eficazes e para a salvaguarda da riqueza biológica dos ecossistemas.
Por fim, o UNTRM afirma que a descoberta de uma nova espécie de orquídea, Pleurothallis labajosi, representa um marco para a ciência e a conservação. Encontrada nas florestas nubladas do sul do Equador e norte do Peru, essa espécie confirma que a região ainda abriga uma biodiversidade que permanece, em grande parte, desconhecida.
Conhecido por sua grandiosidade territorial – são 159.533,328 km² – , o município de Altamira, situado no Vale do Xingu, no Pará, também é famoso por sua contribuição histórica no desenvolvimento da região Norte.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população estimada da cidade em 2025 é de 138.749 habitantes. Pertence à Mesorregião do Sudoeste Paraense, foi oficialmente criado por meio da Lei Estadual nº 1.234, de 6 de novembro de 1911 após se emancipar do município de Souzel.
1. Grande extensão territorial
A primeira curiosidade é justamente sobre sua extensão territorial. Altamira é o maior município do Brasil e o terceiro maior do mundo em extensão territorial. Já imaginou um único município ser maior que 104 países (como Portugal, Grécia, Coreia do Sul, Islândia, Irlanda e Suíça)?
O município, que faz divisa com outros 13 e liga a região do Xingu a outras regiões do Pará, é composto por mais de 60 bairros e dois distritos localizados a mais de mil quilômetros da sede, Castelo de Sonhos e Cachoeira da Serra.
Município de Altamira. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira
2. Variedade de recursos hídricos
O território é rico em recursos hídricos e uma variedade de biodiversidade, já que sua posição geográfica, entre igarapés como Ambé e Panelas, torna sua paisagem privilegiada e faz da cidade um ponto essencial que atrai moradores e comerciantes de diversas regiões.
Orla de Altamira. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira
3. Monumentos naturais e culturais
Por ser cercado por igarapés, cachoeiras e praias de água doce, a cidade atrai visitantes durante o chamado verão amazônico, quando é mais fácil acessar esses locais. E, apesar de se destacar por esses monumentos naturais, a cidade também se destaca por monumentos culturais, como o ‘Monumento Indígena’, a ‘Pira Olímpica’, o ‘Memorial dos Pioneiros’ e o ‘Monumento da Integração Nacional’.
Monumento Indígena. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira
4. Variedade de Festivais
Por falar em cultura, a cidade reúne diversos eventos como o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, o Festival da Cultura e Jogos Indígenas do Xingu, a Feira de Exposição Agropecuária de Altamira, o Festival Folclórico de Altamira e o Altafolia. Muitas opções no decorrer do ano que mostram como a cultura local é rica e variada.
Festival Folclórico de Altamira. Foto: Evair Almeida
5. Transamazônica
A cidade conta com um marco histórico que representa o início da construção da Rodovia Transamazônica, em 1970. O general Médici presidiu a solenidade, sob diversas controvérsias, o que marcou também o processo de crescimento populacional, impulsionado pela rodovia.
Formada em sua maioria por migrantes nordestinos do Maranhão, Ceará e Piauí, a cidade é marcada pela presença de diversos povos originários e etnias indígenas que ajudam a moldar a identidade cultural da cidade com saberes e costumes tradicionais.
Manifesto destaca forma como fake news prejudicam as discussões. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Mesmo antes do seu fim – marcado para 21 de novembro – a COP30 já fez história ao contribuir para denunciar publicamente um dos maiores obstáculos às discussões sobre as mudanças climáticas: as fake news(notícias falsas) que iludem a opinião pública, atravancando discussões e impedindo a consolidação de consensos para enfrentar um problema que é de todo o planeta.
Em 12 de novembro, cerca de 400 organizações científicas, ambientalistas e sociais presentes em Belém para o evento lançaram um manifesto que solicita aos governos e entidades internacionais a promoção de medidas mais robustas para frear correntes de desinformação sobre questões climáticas. O documento reclama que as fake news sobre questões ambientais dificultam a adoção de políticas públicas e classifica essas informações falsas como uma ameaça à saúde, aos direitos humanos e à segurança.
“Esse tipo de documento e as movimentações que o envolvem, principalmente em um momento emblemático como o da COP30, são algo necessário e importante. Isso gera um coro para uma causa que, muitas vezes, não está tendo muita visibilidade”, diz Liliane Lucena Ito, docente da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp, câmpus de Bauru, e que pesquisa o problema das fake news na área ambiental.
Liliane diz que as narrativas conspiratórias ou inverdades não só desviam a atenção de uma temática importante, como também criam preconceitos sobre regiões, etnias e movimentos sociais do campo.
“A disseminação de informações falsas, no ambiente digital, tem afetado muito a percepção das pessoas em relação às temáticas socioambientais”, avalia.
O manifesto traz um apelo pela adoção de medidas concretas voltadas para o combate à veiculação de conteúdos falsos na internet e nas redes sociais. Cabe aos governos articular as ações regulatórias que controlem as grandes empresas de tecnologia, diz a docente.
No entanto, os interesses políticos e econômicos atrelados às empresas têm resultado em uma oposição feroz às regulações. “A regulamentação é muito importante, não no sentido de censura, mas no sentido de uma responsabilização maior dessas big techs em relação ao que circula nas plataformas de redes sociais”, afirma.
O documento reclama que as fake news sobre questões ambientais dificultam a adoção de políticas públicas. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Combate às fake news tem diversas camadas
Outro desafio a ser superado são as bolhas ideológicas fortificadas pelos algoritmos, as quais passam a se tornar câmaras de eco desinformadoras. “O algoritmo, nas plataformas de redes sociais, privilegia e entrega conteúdos previamente curtidos, compartilhados e consumidos por cada usuário. Isso restringe o consumo da informação apenas àquele perfil”, explica Liliane.
A ação dos algoritmos impede que até mesmo as informações produzidas pelas agências de checagem, que oferecem muitas vezes um importante contraponto às fake news, acabem não alcançando o usuário. “Essa é a maior dificuldade: quebrar essa barreira e chegar até o público que precisa ser conscientizado”.
O apego a informações que confirmem vieses próprios, fenômeno chamado de pós-verdade, também é um problema. Neste tipo de comportamento, a pessoa se distancia da verdade factual, preferindo acreditar em seus afetos próprios. Transformar esse quadro passa por uma educação midiática, preferencialmente ministrada desde cedo. Esse tipo de abordagem, porém, além de ser pouco disponível no país, não gera retornos de curto prazo.
O texto do manifesto – que foi subscrito por importantes nomes do campo da luta contra as mudanças climáticas, como a Rede Internacional de Ação Climática e a ONG 350.org – ainda acusa companhias do ramo dos combustíveis fósseis de financiar campanhas coordenadas de desinformação.
Também solicita políticas voltadas a assegurar a integridade da informação sobre a crise climática que é divulgada em redes sociais, nos meios de comunicação tradicionais e na publicidade, além da proteção do trabalho desempenhado por jornalistas ambientais, cientistas e pesquisadores.
“É um documento que, com certeza, faz coro a todo o ativismo socioambiental. E contribui, não sei se a médio ou a longo prazo, para projetos de lei e políticas públicas nesse sentido. Então, com certeza, tem uma relevância”, analisa Liliane.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Marianna Montenegro
O guardião dos trilhos, o ferroviário Paulo Ramos. Foto: Emily Costa/Rede Amazônica RO
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Um trabalhador honrado e idealista. Assim se pode definir o ‘seu’ Paulo, que partiu nesta semana em Porto Velho, levando consigo histórias que eram só dele, embora também coletivas. Histórias que se confundem com a própria trajetória da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), onde começou a laborar aos 12 anos e à qual se manteve fiel por 66 anos.
Testemunho ocular da história, sua voz serena ecoou até em tribunais, quando defendeu maior atenção das instâncias de poder responsáveis pela preservação da memória. Nesse papel, fez mais do que muitas autoridades que, tantas vezes, usam a questão da memória apenas para aparecer, construir carreira política ou lucrar.
Paulo da Costa Ramos não conhecia essas vaidades. Ao lado de companheiros como José Bispo de Moraes, falecido em 2021, foi herói na luta permanente não apenas pela preservação física do complexo da EFMM, mas sobretudo pelos relatos que guardam muitas vidas.
EFMM em Porto Velho. Foto: Divulgação/Prefeitura de Porto Velho
Recordo-me de um dia de 2014, quando fui convidado pela dupla inolvidável para acompanhá-los numa visita ao antigo Cemitério da Candelária. Tomei verdadeiras aulas naquele encontro já distante e, ali, tive a certeza de que estava diante de dois heróis da resistência. Homens que sabiam muito da história regional, não por ouvir dizer, mas por vivência.
Paulo Ramos foi ferroviário, chefe de trem, memorialista e guardião da memória, vice-presidente da Associação dos ex-ferroviários da EFMM. Mais que um trabalhador, foi um símbolo de resistência cultural. Sua morte, aos 78 anos, deixa Rondônia órfã de uma voz simples e firme, que fez da lembrança um ato de coragem.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.