Vista aérea da Companhia Docas de Santana, que pertencia a ALC de Macapá-Santana. Foto: Reprodução/Arquivo/CDSA
A região de Macapá-Santana, no Amapá, desempenha papel estratégico no cenário econômico do estado. Instituída como Área de Livre Comércio (ALC), a localidade foi criada com o objetivo de fortalecer a integração da Amazônia Oriental ao restante do país, incentivar a permanência da população e atrair investimentos produtivos.
Macapá concentra a maior parte da atividade empresarial cadastrada na ALC, enquanto Santana se destaca por sua posição geográfica, abrigando o principal porto do estado. Juntos, os dois municípios respondem por mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) do Amapá.
Santana, localizada a cerca de 20 quilômetros da capital, é considerada a segunda maior cidade do estado. Sua economia é fortalecida por setores de comércio, serviços e exportações, com destaque para o Porto de Santana, que possibilita o escoamento de grãos e outros produtos para diferentes mercados.
Apesar do potencial, desafios como infraestrutura deficiente, gargalos logísticos e necessidade de maior divulgação dos incentivos fiscais ainda limitam o pleno aproveitamento das oportunidades na região de Macapá-Santana.
Macapá concentra empresas e comércio ativo
Foto: Divulgação/Prefeitura de Macapá
Na parte voltada a Macapá, o levantamento mostra que havia 1.189 empresas cadastradas até 2013. Destas, 87% atuavam no setor de comércio, 10% em serviços e apenas 1,77% na indústria sem projeto aprovado. Esse cenário confirma a predominância das atividades comerciais na capital, sustentadas pela demanda interna e pelo papel de centro administrativo do estado.
As compras no mercado nacional por empresas da capital reforçam essa concentração da área de Macapá-Santana. Em 2012 e 2013, mais de 95% do volume total foi direcionado ao comércio. Já a indústria sem projeto aprovado representou menos de 1% do total, revelando a pouca participação do setor industrial na economia de Macapá.
Em relação às exportações da região, Macapá aparece com menor representatividade. Em 2012, o município respondeu por 3,9% do total exportado pelo estado. Em 2013, essa participação subiu para 6,75%, ainda com baixo impacto diante do volume movimentado por Santana.
Santana: logística e exportações em destaque
Santana possui cerca de 109 mil habitantes e apresentou um PIB de R$ 1,2 bilhão em 2010, equivalente a 15% do PIB estadual. O município abriga o Distrito Industrial do Amapá e o Porto Público da Companhia Docas de Santana, considerado estratégico para exportações.
A vocação logística da cidade se confirma nos números das exportações. Nos três primeiros trimestres de 2013, Santana exportou mais de US$ 58 milhões, quase o dobro do registrado no ano anterior. Entre os principais produtos enviados ao exterior estão madeira em partículas, óleo de soja, bagaços da extração de soja e derivados do açaí.
Outro destaque é a atuação de empresas voltadas exclusivamente à exportação, como a Sambazon, que trabalha com produtos oriundos do açaí. Além disso, companhias de fora do estado, especialmente de Mato Grosso, já investem na instalação de silos no porto, visando ao escoamento de grãos.
Desafios estruturais e perspectivas do comércio
Apesar dos avanços, a ALC de Macapá-Santana enfrenta entraves. Entre os principais estão a precariedade da infraestrutura portuária, deficiências no abastecimento de energia elétrica e limitações de internet. Também são apontadas questões fundiárias e a ausência de políticas consistentes de divulgação dos incentivos fiscais disponíveis.
No caso de Santana, há ainda o abandono de áreas destinadas ao Distrito Industrial e a necessidade de regulamentação da chamada Zona Franca Verde, que prevê incentivos para produtos com matérias-primas regionais.
As propostas em discussão incluem a criação de fóruns empresariais, ampliação da parceria entre Suframa, governos locais e entidades como o Sebrae, além da melhoria logística no porto e no distrito industrial. Tais medidas visam transformar o potencial estratégico da região em desenvolvimento efetivo e comércio seguro.
Papel estratégico para o Amapá
O conjunto Macapá-Santana permanece como eixo central da economia amapaense. Com participação majoritária no PIB estadual e localização privilegiada às margens do Rio Amazonas, os dois municípios reúnem condições de expandir atividades industriais, comerciais e logísticas.
Se superados os gargalos de infraestrutura, a região poderá consolidar-se como porta de entrada e saída de produtos amazônicos para mercados internacionais, além de fortalecer o comércio local. A continuidade de políticas públicas voltadas à ALC é decisiva para garantir que os benefícios se traduzam em crescimento sustentável e oportunidades para a população.
A Fundação Rede Amazônica (FRAM), por meio do projeto ‘Expofeira na Rede’, promove a iniciativa ‘Juventude na Expoferr’, durante a Expoferr Show 2025, maior feira agropecuária e de negócios de Roraima.
O projeto tem como principal objetivo aproximar e estimular o interesse dos estudantes da rede pública estadual no universo econômico, social e cultural do Estado, além de proporcionar uma visão empreendedora para as diversas oportunidades apresentadas durante a Expoferr.
Realizada em parceria com a Secretaria de Educação e Desporto de Roraima (SEED-RR), a ‘Juventude na Expoferr’ foi realizada durante toda a semana sempre das 13h30 às 17h, reunindo cerca de 240 alunos.
Além disso, a ação conta ainda com o apoio de dois produtores culturais, responsáveis por coordenar as visitas guiadas e promover atividades de integração e aprendizado.
Foto: Willame Sousa
“A proposta é proporcionar uma imersão prática e inspiradora no ambiente da feira, permitindo que os alunos compreendam, de forma vivencial, como funcionam os setores produtivos do estado, como agricultura, pecuária, inovação tecnológica e economia criativa”, explicou o especialista em projetos na FRAM, Denis Carvalho.
De acordo com Carvalho, os estudantes tiveran a oportunidade de interagir com os empreendedores para que compreender os processos de produção e comercialização e refletir sobre as possibilidades de carreira com o empreendedorismo local.
Programação da Juventude na Expoferr
5 de novembro
Duas turmas do Colégio Estadual Militarizado Professor Camilo Dias, localizado na Rua Tenente Guimarães, 382, bairro Liberdade.
Foto: Willame Sousa
6 de novembro
Duas turmas da Escola Antônio Carlos da Silva Natalino, situada na Rua José Francisco, 1339, bairro Jóquei Clube, Boa Vista.
Foto: Willame Sousa
7 de novembro
Uma turma do Colégio Camilo Dias e uma da Escola Antônio Carlos, encerrando o ciclo de visitas.
Expofeira na Rede
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.
Ilustração do Orthobunyavirus oropoucheense, que transmite a febre Oropouche. Imagem: Ademildo Mendes/SVSA
A febre Oropouche alarmou o Brasil em 2024 ao se expandir além de sua abrangência típica, limitada à Amazônia, e alcançar estados das cinco regiões do país: 22 das 27 unidades federativas já registraram pelo menos um caso confirmado em laboratório. O Espírito Santo liderou o ranking, com 6,3 mil testes positivos só no ano passado — número que equivale a 45% dos 13,8 mil casos registrados no Brasil em 2024 e 39% do total de 16,2 mil pessoas infectadas nas Américas como um todo nesse mesmo período.
Em 2025, o vírus não diminuiu o ritmo. De acordo com o boletim epidemiológico mais recente da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), publicado em 13 de agosto, já houve 12,7 mil casos confirmados desde janeiro. Destes, 11,8 mil ocorreram no Brasil, com 6,3 mil no Espírito Santo, e os demais distribuídos por outros países latino-americanos e caribenhos. Além do próprio Brasil, os países mais afetados são Panamá (501 casos) e Peru (330). Segundo os dados do Ministério da Saúde até 30 de outubro, foram 11.930 casos, cinco óbitos confirmados e dois sob investigação.
No estado de São Paulo, o crescimento foi significativo, passando de 8 casos em 2024 para 161 até setembro deste ano, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde.
A expansão da doença, que é causada pelo vírus Orthobunyavirus oropoucheense (OROV), para fora da região amazônica intrigou infectologistas e epidemiologistas. Um novo estudo, conduzido por pesquisadores da Unesp, da USP e do Instituto Butantan, identificou os principais fatores que favoreceram essa movimentação, e estão empregando esses dados para prever, na medida do possível, seus próximos passos.
O artigo publicado no periódico PLOS One em julho explica que a infecção pelo vírus tem se mostrado mais comum em lugares que registram temperaturas e índices de precipitação acima da média. Essas condições favorecem a reprodução tanto do vírus quanto de seu vetor Culicoides paraensis, um inseto conhecido popularmente como mosquito-pólvora ou maruim. O aumento das chuvas e do calor se deveu, em parte, ao fenômeno de aquecimento global e ao fenômeno El Niño, que ocorreu entre 2023 e 2024.
Um dos autores do artigo é Tiago Salomão, pós-doutorando no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp, no câmpus de Rio Claro, que pesquisa a interação entre mudanças climáticas e doenças com potencial epidêmico. Ele diz que as chamadas mudanças no uso da terra constituem outro fator que contribuiu para a explosão de casos a partir de 2024.
Conforme a mata nativa é removida para dar lugar a pastagens, plantações de soja e outras monoculturas, a biodiversidade diminui. Isso representa menos predadores e competidores capazes de interagir com a população de maruins, que se beneficia desse contexto e se expande.
“Em biomas preservados, há mais concorrência com outros insetos e os Culicoides não conseguem se multiplicar no mesmo ritmo”, diz ele.
A nova pesquisa sustenta que alguns cultivos, como banana, dendê e algodão, se mostram especialmente benéficos para a subsistência dos Culicoides, devido ao acúmulo de matéria orgânica em decomposição no solo, que serve de alimento às larvas. Os dados também mostram que regiões denominadas “periurbanas”, de transição entre campo e cidade, são mais afetadas do que ambientes exclusivamente rurais ou urbanos, e que a existência de indicadores socioeconômicos menos favoráveis também se reflete em uma quantidade maior de casos.
Além dessas variáveis ambientais, é provável que uma mudança no genoma tenha aumentado a transmissibilidade do vírus OROV. Experimentos de laboratório com células de mamíferos isoladas mostram que uma cepa recente atinge concentrações até cem vezes mais altas que a versão comum ao se multiplicar em laboratório –- e pode ser que essa variante consiga driblar a memória imunológica de pessoas que já haviam contraído a doença no passado.
Mapa prevê áreas de risco de incidência da febre Oropouche
Determinar quais características tornam uma região mais ou menos suscetível à oropouche ajuda a prever onde novos surtos ocorrerão em um futuro próximo. Os pesquisadores incluíram no estudo um mapa de zonas suscetíveis [veja abaixo] — que previu corretamente, por exemplo, a chegada recente do OROV às praias paulistas.
“Em 2024, houve sete casos de febre Oropouche no litoral sul de São Paulo, na região do Vale do Ribeira”, conta Salomão. “Este ano, até junho, o número já tinha chegado a 130. E a doença apareceu em Ubatuba, no litoral norte, com 30 casos registrados”, diz. “Essa foi uma contribuição importante do trabalho: por meio de análise preditiva, conseguimos verificar as áreas de maior suscetibilidade”.
Camila Lorenz, pesquisadora no Departamento de Parasitologia do Instituto Butantan e primeira autora do artigo, já havia aplicado a mesma metodologia no passado para entender a distribuição geográfica do vírus do Nilo Ocidental, outra doença tropical negligenciada.
“Nos dois casos, Nilo Ocidental e Oropouche, identificamos os lugares em que a doença foi reportada e inserimos no software”, explica Lorenz. “A seguir, acrescentamos informações sobre o clima, o uso do solo e dados socioambientais. O programa então apontou quais variáveis estavam mais relacionadas com a distribuição dos casos”, diz ela.
Essa análise permite identificar sutilezas como a temperatura ambiente ideal para o vetor e o vírus. “Quando está muito frio, os insetos ficam inativos, letárgicos. A temperatura ótima está por volta dos 27 °C”, explica Lorenz.
“Uma temperatura acima disso não é favorável, porque afeta o comportamento das pessoas, além do próprio vetor. Por exemplo: sabe-se que, no caso do Aedes aegypti, que transmite a dengue, nos dias muito quentes a tendência é ficarmos mais em casa, em lugares com ar-condicionado, e evitamos atividades ao ar livre. Isso reduz o contato com o mosquito”, explica.
Conhecimento sobre febre oropouche ainda tem lacunas importantes
A febre Oropouche apresenta sintomas similares aos da dengue: febre de até 40 °C e dores características atrás dos olhos, nos músculos e nas juntas. Náuseas, vômitos, fotofobia e irritação na pele são outros sinais comuns. Ela é causada por um arbovírus do gênero Orthobunyavirus, isolado e descrito em 1955 a partir do sangue de um silvicultor em um vilarejo às margens do Rio Oropouche, em Trinidad e Tobago, um país insular caribenho localizado a apenas 15 km do litoral venezuelano.
Aves e primatas não humanos são hospedeiros comuns, bem como a preguiça-de-bentinho, um mamífero amazônico. É normal que um mosquito transmita a doença de um animal infectado para um humano saudável, ainda que, nas cidades, predomine o contágio de humano para humano.
Trata-se da segunda arbovirose mais comum do Brasil, atrás apenas da própria dengue. Belém registrou 11 mil casos durante um surto particularmente grave em 1961. Entre 1978 e 1980, anos em que houve um pico de disseminação, houve 130 mil infectados confirmados nas Américas, a maioria no Brasil. Estima-se que, ao todo, meio milhão de casos tenham ocorrido país afora durante a segunda metade do século 20.
Porém, como a febre Oropouche raramente é fatal, os sintomas não costumam durar mais de uma semana e muitas vítimas habitam assentamentos inacessíveis por via terrestre, a testagem deixa a desejar, e a febre é severamente subnotificada. Hoje, na Amazônia, 60% da população vive a mais de 10 km de distância da UBS mais próxima. Esse problema de infraestrutura dificulta a análise da série histórica: não sabemos até que ponto a doença realmente aumentou no Norte do país ou se, na verdade, ela permanece estável e o crescimento que testemunhamos ocorreu simplesmente porque hoje é possível diagnosticar mais pessoas.
Esse não é o único mistério no caminho das pesquisas sobre a febre Oropouche. Por exemplo: sabe-se que há lugares em que a doença já apareceu sem que houvesse registro da presença do vetor principal. Por isso, “especula-se que outros mosquitos além do maruim, como o Culex quinquefasciatus [nome científico do pernilongo ou muriçoca comum em todo o Brasil] e o próprio Aedes aegypti, sejam vetores, mas não há nada comprovado ainda”, diz Salomão. “Essa incerteza, por si só, dificulta bastante a determinação de todos os fatores-chave causadores do surto de 2024. Algum vetor ali está exercendo esse papel”.
De acordo com Salomão e Lorenz, os dados não permitem cravar se a febre Oropouche se tornará endêmica no Centro-Sul brasileiro ou se haverá novas ondas nos próximos meses. Uma coisa, porém, é certa: com o aumento na temperatura média da atmosfera e das águas, causado pelas emissões de gases de efeito estufa, e a destruição de fatias enormes do Cerrado e da Amazônia para dar lugar à agropecuária, as variáveis associadas à disseminação do OROV não tendem a melhorar em um futuro próximo.
“Se a temperatura muda em 1 °C ou 2 °C, já mudam uma série de outros fatores por trás da transmissão”, diz Lorenz. “É por isso que o pessoal está tão preocupado com o aquecimento global. O que vai acontecer? Não sabemos. Pode ser que o vírus se adapte ou pode ser que não haja transmissão”.
Para a pesquisadora, é importante que as autoridades caprichem cada vez mais na testagem dessa e de outras doenças tropicais tradicionalmente negligenciadas, de modo a gerar dados epidemiológicos precisos — e manter os pesquisadores um passo à frente dos vírus.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Bruno Vaiano
A tradicional damurida, prato típico das etnias Wapichana e Macuxi, é um dos destaques culturais da Expoferr Show 2025, principal feira agropecuária de Roraima. O evento, que ocorre de 4 a 8 de novembro no Parque de Exposições Dandãezinho, em Boa Vista, reúne mais de 300 expositores e espera atrair cerca de 550 mil visitantes durante cinco dias de programação voltada ao agronegócio, tecnologia e cultura regional.
A distribuição da damurida na Expoferr Show 2025 simboliza a valorização da gastronomia indígena dentro de um dos maiores eventos do Norte brasileiro. A feira, que já se consolidou como vitrine do agronegócio, incorpora cada vez mais elementos culturais, transformando-se também em um espaço de celebração das identidades regionais.
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.
Pesquisadora viajou até a região para conhecer e conversar com a população sobre a realidade vivida por ela e os impactos na saúde. Fotos: Mariana Inglez/Acervo pessoal
Comunidades ribeirinhas da Amazônia localizadas na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, estão trocando alimentos tradicionais por produtos industrializados, aumentando risco de doenças graves e perda de qualidade de vida, como mostra um estudo realizado no Instituto de Biociências (IB) da USP. A pesquisa, que tem como autora a bioantropóloga Mariana Inglez, foi premiada na categoria Inclusão Social e Cultural e Redução das Desigualdades da 14ª edição do Prêmio Tese Destaque USP.
O estudo analisa esse fenômeno de transição nutricional como um processo de nutricídio, termo criado pelo médico Llaila O Afrika, em 1993, para descrever a perda nutricional caracterizada pela dificuldade ou total falta de acesso a uma alimentação saudável em populações à margem da sociedade, o que influencia a saúde e continuidade de culturas alimentares tradicionais.
Entre 2019 e 2023 a pesquisadora acompanhou de perto as comunidades. Os dados coletados por Mariana mostram que, em duas décadas, o consumo de alimentos industrializados cresceu de forma significativa. Na dieta, a participação de carboidratos provindos de alimentos comprados passou de 14% para 33%, a de proteínas de 13% para 33%, e a de gorduras de 21% para 71%. Esse avanço reflete uma substituição de dietas tradicionais por produtos industrializados ricos em energia e pobres em nutrientes.
“Quando falo nessa transição nutricional, estou falando da substituição de alimentos que fazem parte da identidade de um povo, que têm uma relação com o ambiente e uma relação com aspectos simbólicos, culturais e afetivos. Geralmente são alimentos muito mais saudáveis”, diz Mariana em entrevista ao Jornal da USP.
O resultado encontrado durante a pesquisa etnográfica — abordagem que implica convívio e imersão na rotina das pessoas que colaboraram com o estudo — mostra que a dieta antes baseada em farinha, peixe e frutas locais tem sido substituída por produtos comprados, como arroz branco, açúcar, óleo vegetal, refrigerantes e macarrão instantâneo.
Mapa retirado da tese indica a região do estudo em que se buscou entender o estado de saúde da população.
“Esse processo já era percebido pela população”, afirma Mara, habitante de uma das comunidades visitadas em Caxiuanã. A reportagem optou por não identificar o sobrenome da moradora e o nome da comunidade para preservar sua segurança e privacidade, em acordo com a escolha da pesquisadora.
“Antes a gente consumia basicamente alimentos naturais, por exemplo, o peixe que a gente pescava, a caça, a farinha que produzimos aqui mesmo. No café da manhã, tomava com uma farinha de tapioca ou uma tapioquinha. Hoje em dia, houve um avanço na questão da alimentação industrializada”, afirma.
Através de dados quantitativos, a bioantropóloga comparou seus resultados com informações coletadas nos mesmos locais, entre 2002 e 2009, por Bárbara Piperata, uma das principais referências em antropologia nutricional na Amazônia, que foi orientadora de Mariana quando ela esteve fora do Brasil, na The Ohio State University (EUA) durante o doutorado sanduíche.
Com uma abordagem biocultural, o objetivo de Mariana foi conduzir uma pesquisa que integrasse dimensões biológicas, socioculturais, econômicas e ambientais para compreender a alimentação, saúde e modos de vida na região. Tudo a partir de um ponto de vista decolonial, valorizando a vivência das populações ribeirinhas. Esse é um modelo novo de pesquisa que traz as populações para dentro do estudo da alimentação e as coloca no centro do debate das relações entre saúde humana e ambiental, aspectos culturais, sociais e o enfrentamento às desigualdades.
As análises, realizadas com 177 participantes, variando entre adultos, jovens e crianças, mostraram que toda a população ganhou peso nas últimas duas décadas, mas as mulheres foram as mais afetadas, o que significa que elas apresentam maior risco de doenças crônicas como hipertensão, obesidade e diabetes.
“Geralmente as mulheres deixam ‘as melhores partes’ para os parceiros e para as crianças. Então, são as primeiras que vão enfrentar a insegurança alimentar e aí, consecutivamente, as que mais vão consumir alimentos ultraprocessados, que não têm tanto poder nutritivo, mas que são mais calóricos”, afirma Mariana.
O estudo aponta que, embora programas de redistribuição de renda tenham contribuído com o combate à fome, houve um aumento na insegurança alimentar — situação em que falta acesso regular a alimentos na quantidade e qualidade necessárias para a sobrevivência. A pandemia de covid-19 agravou o problema, com a interrupção das cadeias de abastecimento e das fontes de renda nas comunidades.
Acesso a alimentação é essencial para a saúde. Foto: Mariana Inglez/Acervo pessoal
“Os povos tradicionais, negros, afro-indígenas, ribeirinhos e periféricos foram grupos mais vulneráveis durante a pandemia”, diz Mariana. Para ela, isso evidencia qual o perfil dos grupos que estão em maior fragilidade alimentar.
“É o sistema que vai influenciar quem consegue se alimentar bem e manter a sua cultura alimentar no Brasil. Um que começa desde a prática colonial”.
Outra causa do aumento do consumo de ultraprocessados é a inadequação das políticas públicas de alimentação. As cestas básicas entregues às comunidades, por exemplo, contêm mais alimentos ultraprocessados, não condizente com a cultura alimentar ribeirinha, e que também são ofertados na merenda escolar às crianças e jovens, em desacordo com as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB).
Criado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP em conjunto com o Ministério da Saúde (MS) em 2014, o guia apresenta informações e orientações sobre alimentação e nutrição para a sociedade em geral, serve de base para a atuação de profissionais de saúde e também para a formulação de políticas públicas.
As mudanças climáticas aparecem como um novo fator na piora da alimentação local. Com a diminuição das chuvas e o aumento da temperatura alterando a produção agrícola e diminuindo a disponibilidade de peixes nos rios, fica cada vez mais difícil depender exclusivamente dessas fontes. “Hoje em dia o feijão que vem é industrializado, mas antes a gente comia o feijão que plantávamos, [atualmente] raramente se planta aqui na nossa comunidade”, conta Mara.
Segundo Mariana, tendo contato direto com essas comunidades foi possível perceber que, se tiver escolha, a população ainda prefere se alimentar de maneira tradicional.
“Existe uma percepção local do que é uma comida de verdade que faz bem para a saúde, e não é comida ultraprocessada. Então, quando existe a possibilidade de escolher, vão comer um peixe cozido com farinha”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Maria Eduarda Oliveira (estagiária sob supervisão de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto)
O palco da Expoferr Show 2025, em Boa Vista (RR), foi tomado pela beleza, carisma e a simpatia das candidatas do tradicional concurso de Rainha da Expoferr, um dos momentos mais aguardados da maior feira agropecuária da Região Norte.
A campeã da 44ª edição é Larissa Pantoja, de 24 anos, que, com muita desenvoltura e presença marcante, conquistou os jurados e o público, levando para casa o título de Rainha Expoferr.
Expofeira na Rede
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.
Imagem aérea de queimadas na cidade de Altamira, Estado do Pará. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace
A Amazônia pode estar se aproximando de um ponto crítico em que a destruição da floresta provocaria mudanças climáticas irreversíveis, alerta a Climatempo. Às vésperas do início da COP30, que acontece este mês em Belém do Pará, se reacende o alerta sobre o papel decisivo da Amazônia na regulação do clima global. O avanço do desmatamento pode levar o bioma a um ponto crítico, a partir do qual a floresta não conseguiria mais se regenerar –desencadeando um ponto de não-retorno climático.
“Mesmo registrando a redução no ritmo de desmatamento da floresta amazônica, a área total devastada da Amazônia Legal já corresponde a cerca de 20% do bioma. O ritmo diminui, mas a floresta continua sendo derrubada”, ressalta Pedro Regoto, especialista em Clima e Mudanças Climáticas da Climatempo.
Foto: Mayke Toscano/ Gcom-MT
Amazônia
A Amazônia é considerada um dos nove pontos de inflexão climáticos (tipping elements) do planeta – sistemas que, ao ultrapassarem determinados limites, podem sofrer alterações abruptas e irreversíveis, afetando o equilíbrio climático de todo o planeta.
No passado, estudos de modelagem apontavam que o tipping point (ponto de não-retorno) da Amazônia era atingir o limite de 40% de desmatamento. Pesquisas mais recentes, no entanto, indicam que o efeito combinado de desmatamento, das mudanças climáticas e do grande uso de fogo na floresta pode levar a um limiar bem mais baixo, entre 20% e 25%.
“Isso significa que um desmatamento acima desse patamar nos coloca cada vez mais perto de atingir um limite irreversível de degradação, o que pode levar a floresta a se transformar em savana e causar impactos diretos e irreversíveis sobre o clima global”, explica Regoto.
Além da Amazônia, o conceito de tipping elements, definido em 2008 pelo cientista britânico Timothy M. Lenton, inclui o gelo marinho do Ártico , a camada de gelo da Antártida Ocidental, a circulação termoalina do Atlântico Norte, o fenômeno El Niño no Pacífico Equatorial, as monções asiáticas, as florestas boreais do hemisfério Norte e o permafrost – o solo permanentemente congelado do Ártico.
Segundo Regoto, todos esses sistemas estão interligados. “Quando um deles entra em colapso, pode desencadear reações em cadeia em todo o planeta”, explica. “O degelo do permafrost, por exemplo, pode liberar o metano que está aprisionado há milhões de anos – um gás cerca de 80 vezes mais potente que o CO₂ no efeito estufa. Esse processo acelera ainda mais o aquecimento global e cria um efeito dominó climático, que pode escapar do controle humano”.
No caso da Amazônia, o especialista alerta que o ponto crítico está estimado em 40% de desmatamento. “Se a destruição atingir esse patamar, a floresta pode não conseguir mais se regenerar, dando lugar a uma savana. Esse processo alteraria profundamente o regime de chuvas e a temperatura do planeta”, ressalta.
Por isso, Regoto enfatiza que frear o desmatamento já não é suficiente. “Precisamos investir também na recuperação das áreas degradadas da floresta. Somente assim teremos chance de conter as mudanças climáticas de longo prazo”, afirma.
Os efeitos do aquecimento global já são percebidos no Brasil, com diversos recordes anuais na temperatura média. Em 2024, por exemplo, ela foi de 25,02oC, o que representou um aumento de 0,79oC em relação à média histórica de 24,23oC registrada entre 1991 e 2020, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).
Fenômenos como El Niño e La Niña
Os recordes de calor dos dois últimos anos culminaram com desastres climáticos de grande impacto, como as tragédias no litoral norte de São Paulo e no Rio Grande do Sul. “Fenômenos como El Niño e La Niña sempre existiram, mas agora estão mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas”, destaca Regoto. “O aquecimento global é o principal fator que potencializa esses extremos.”
Foto: Reprodução/Polícia Federal
Se o desmatamento da Amazônia e o degelo nas regiões polares continuarem, o planeta pode caminhar para um cenário de transformações irreversíveis. “Chegaremos a um ponto em que a adaptação será muito mais difícil e custosa. Precisaremos lidar com eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes”, alerta o especialista.
A Climatempo reforça que a ciência já oferece evidências claras: conter o desmatamento e restaurar ecossistemas é essencial para evitar o colapso climático. “A Amazônia é o coração climático do planeta. Proteger e recuperar a floresta é proteger a nós mesmos”, conclui Regoto.
O segundo dia da Expoferr Show 2025, realizada entre os dias 4 a 8 de novembro no Parque de Exposições Dandãezinho – localizado na BR-174 sentido Norte, na zona Rural de Boa Vista – conquistou não só os interessados em negócios, mas também os jovens estudantes.
Com vasta programação educativa e cultural, como a iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), a ‘Juventude na Expoferr’, a feira tem atraído a cada nova edição, mais jovens interessados em conhecer a própria cultura e também já pensar em possibilidades para o futuro.
Confira nesta galeria alguns momentos que marcara o segundo dia:
Dezenas de alunos roraimenses participam de iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), a ‘Juventude na Expoferr’. Foto: Willame SousaJovens puderam conhecer animais essenciais para o crescimento da economia do estado. Foto: Willame SousaAlunos também puderam acompanhar projetos de inovação e tecnologia. Foto: Willame SousaEmpreendedores fazem parte da feira que investe na divulgação daquilo que é produzido em Roraima. Foto: Willame SousaCerca de 300 expositores fazem parte da feira este ano. Foto: Willame SousaUm dos momentos esperados pelos visitantes é o das competições equestres, como a prova de três tambores. Foto: Fernando Oliveira/Secom RRA vigilância sanitária também faz arte da equipe de segurança que monitora o evento. Foto: Divulgação/Sesau RRCorrida de cavalos também faz parte da programação esportiva. Foto: Artur Mucajá/Secom RROs leilões bovinos movimentam a economia local. Foto: William Roth/Secom RRShow de Natanzinho Lima encerrou o segundo dia. Foto: Artur Mucajá/Secom RR
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.
A maior e mais tradicional feira agropecuária do Norte do Brasil, a Expoferr Show 2025, é realizada entre os dias 4 a 8 de novembro no Parque de Exposições Dandãezinho, localizado na BR-174 sentido Norte, na zona Rural de Boa Vista.
Pela primeira vez, a Expoferr é realizada pelo Governo de Roraima com recursos do Governo Federal, repassados pelo Ministério do Turismo.
A expectativa é que mais de 500 mil pessoas passem pela feira e que o volume de negócios durante os cinco dias de evento chegue à marca de R$ 1 bilhão em prospecção.
Confira nesta galeria alguns momentos que marcara o primeiro dia:
A Expoferr Show 2025 começou no dia 4 de novembro. Foto: Willame SousaA Fundação Rede Amazônica está presente em mais uma edição da feira. Foto: Willame SousaLeilões de gado são parte da programação que atrai investidores ao estado. Foto: Willame SousaAções educativas e de orientação de empreendedores também fazem parte do evento. Foto: Divulgação/Secom RRSegurança foi preparada para atender o público e manter a tranquilidade da feira. Foto: Neto Figueredo/Secom RRDiversos pontos foram montados para serem “instagramáveis” e se tornarem recordação para os visitantes. Foto: Willame SousaDJ Larissa foi uma das atrações do evento que comandou os intervalos da programação musical local. Foto: Willame SousaO público esperado para este ano é de 500 mil pessoas nos cinco dias. Foto: Neto Figueredo/Secom RRShows nacionais, como o de Taty Girl, são muito esperados pelo público. Foto: William Roth/Secom RRShow de Murilo Huff também era um dos esperados para o primeiro dia da Expoferr. Foto: Neto Figueredo/Secom RR
Expofeira na Rede
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.
Montaria em touros, corrida de cavalos, prova dos três tambores, laço e vaquejada. Essas são algumas das atrações esportivas programadas para a 44ª Expoferr Show, queacontece no Parque de Exposições Dandãezinho, localizado na BR 174, zona rural da cidade de Boa Vista, capital roraimense, durante o período de 4 a 8 de novembro.
A competição da vaquejada, por exemplo, reúne competidores dos municípios de Roraima e do Amazonas, e movimenta o setor de serviços e o comércio local.
O prêmio chega a 131 mil reais para o campeão e a disputa ocorre nas categorias feminina, mirim, aspirante, amador e profissional, reunindo atletas experientes e novos talentos.
Segundo o organizador e representante da Vaquejada Coco Babaçu, Antônio Mota Neto, o número de inscritos superou as expectativas e mostra como o circuito de vaquejada se tornou um símbolo da Expoferr.
“Participei no ano passado e este ano está superando todas as expectativas. Tivemos 530 senhas antecipadas, um recorde. É a maior festa de vaquejada do momento e está sendo um sucesso total”, afirmou Neto.
Vaquejada na Expoferr 2025. Foto: Artur Mucajá/Secretaria de Comunicação de Roraima
O projeto Expofeira na Rede é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio de Amatur, Dois90, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) e Governo de Roraima.