Mostra de Cinema de Tiradentes chega à 29ª edição com produções da Amazônia. Foto: Divulgação/Embratur
Em temporada de Globo de Ouro para o cinema brasileiro no mundo, a Embratur promove a estreia nacional e internacional dos cinco curtas-metragens vencedores da segunda edição do Edital Brasil com S. Com foco no bioma amazônico, seus povos e saberes, a iniciativa amplia a visibilidade de narrativas e realizadores da região, fortalecendo a presença do cinema brasileiro contemporâneo no exterior e promovendo a imagem do país.
A primeira exibição aconteceu em 31 de janeiro na Sessão Cine EmbraturLab, durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG). Neste dia 5 são apresentadas no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema de curta-metragem no mundo.
O edital estruturado pela Agência oferece mentorias especializadas em roteiro, direção e produção, além de consultoria para distribuição no mercado externo. O suporte técnico conta com a parceria do Projeto Paradiso Multiplica, com orientação do diretor Marcelo Botta em roteiros, e das especialistas Denise Jankar e Allexia Ferreira nas etapas de difusão internacional. Com isso, a iniciativa consolida um ciclo completo de fomento ao audiovisual, para além do apoio financeiro.
O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, destaca a importância do momento para a promoção do Brasil a partir do turismo de tela.
“Com o ‘Brasil com S’, não estamos apenas financiando filmes, mas estruturando uma estratégia de soft power que utiliza a nossa identidade cultural e a sustentabilidade da Amazônia como diferenciais competitivos. Estar em Tiradentes e em Clermont-Ferrand mostra que o audiovisual brasileiro tem força para emocionar o público interno e, ao mesmo tempo, atrair o turista internacional que busca experiências autênticas, com consciência ambiental e sustentabilidade”, completou Freixo.
Festival francêsaborda a Amazônia
No Festival de Clermont-Ferrand, a Embratur marca presença inédita com um estande no Marché du Film, em cooperação com a Kinoforum, para promover o audiovisual nacional, servindo como ponto de encontro e divulgação, produções que enaltecem a Amazônia.
A estratégia de promoção conta com a distribuição de catálogos, operação de website dedicado e de um coquetel de networking realizado no dia 4 de fevereiro para ampliar parcerias globais. A agenda inclui, ainda, a exibição dos filmes para produtores, agentes de vendas e programadores internacionais na sala George Conchon.
Mostra de Tiradentes
Na Mostra de Tiradentes, a Agência reforça a conexão entre cultura e promoção de destinos turísticos brasileiros. Além da sessão de encerramento com os curtas da Amazônia, a delegação da Embratur realizou um workshop para realizadores em 30 de janeiro.
A atividade detalhou as ações de integração entre o setor audiovisual e as estratégias de mercado da Agência, reforçando a visibilidade de narrativas regionais em plataformas de grande alcance.
Cidade de Tiradentes. Foto: Caio Reisewitz / Divulgação
Destino competitivo
A circulação das obras em festivais estratégicos posiciona o Brasil como destino competitivo e diversificado por meio do soft power. O trabalho conjunto com a Universo Produções e a Kinoforum garante que os produtos audiovisuais funcionem como vitrines para a sustentabilidade e a riqueza cultural do país. O investimento no setor impulsiona a economia criativa e atrai novos fluxos de visitantes internacionais interessados na experiência turística brasileira.
O tambatinga, peixe usado na produção do biofilme, é resultado do cruzamento de tambaqui com pirapitinga. Foto: Fábio Rosa Sussel/Divulgação
Usando como matéria-prima a pele do peixe amazônico conhecido como tambatinga, pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos (SP), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um biofilme que pode ser usado na embalagem de alimentos.
Essa espécie, resultado do cruzamento entre a fêmea do tambaqui (Colossoma macropomum) e o macho da pirapitinga (Piaractus brachypomus), é reconhecida por seu excelente desempenho de crescimento e por representar uma fonte valiosa e sustentável de matéria-prima rica em colágeno.
Por causa de sua origem tropical, a pele da espécie pode conter níveis mais elevados de aminoácidos, o que pode melhorar as propriedades funcionais e estruturais da gelatina derivada dela.
No trabalho, apoiado pela FAPESP no âmbito do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fundação, o animal foi utilizado como base para a produção de biofilmes, polímeros biodegradáveis, para substituir, mesmo que apenas em partes, os filmes (materiais finos e flexíveis) utilizados em embalagens de alimentos feitos de material sintético, como petróleo. Os resultados foram publicados no periódico científico Foods.
“Trabalhamos há mais de 25 anos no desenvolvimento de filmes à base de biopolímeros, como proteínas e polissacarídeos, com o objetivo de aplicar esse material em embalagens de alimentos e diminuir o impacto ambiental, já que existem muitos problemas ligados ao acúmulo de embalagens sintéticas na natureza”, conta o engenheiro de alimentos Paulo José do Amaral Sobral, professor do Departamento de Engenharia de Alimentos do campus da USP de Pirassununga, no interior de São Paulo, que deu apoio ao trabalho realizado pelo zootecnista Manuel Antonio Chagas Jacintho e pela engenheira de alimentos Fernanda Ramalho Procopio, ambos da Embrapa.
O primeiro passo do experimento do biofilme é limpar as peles dos peixes e submetê-las a um processo de extração da gelatina com água quente e ácido acético (para retirar as impurezas).
Na sequência, os filmes são preparados a partir desse material usando 2 gramas de gelatina para cada 100 gramas de solução formadora de filme. O resultado é um material transparente, flexível e com superfícies uniformes.
Além disso, o biofilme se mostrou bem resistente, com excelente capacidade de bloquear os raios ultravioleta e menor permeabilidade ao vapor de água em comparação com outros materiais à base de gelatina relatados na literatura.
Essas descobertas destacam o potencial da pele de peixe, geralmente considerada um resíduo industrial, como matéria-prima renovável e de alto valor para a produção de biopolímeros sustentáveis.
Apesar dos bons resultados, o material obtido apresentou uma limitação: sensibilidade à umidade.
“Por esse motivo, por enquanto, eles só têm aplicação em produtos desidratados, como nozes e castanhas”, afirma Sobral.
O pesquisador considera ser necessário continuar o trabalho para possibilitar o uso do biopolímero obtido da pele do tambatinga em embalagens de alimentos, produtos farmacêuticos e biomédicos, agregando valor econômico ao setor da aquicultura e promovendo uma cadeia produtiva integrada e ambientalmente responsável.
O coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA) da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), Arnaldo Carneiro, é geógrafo, ecólogo da paisagem e pesquisador aposentado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
A OTCA tem como função promover a cooperação entre os oito países da Pan-Amazônia (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), com foco na proteção dos ecossistemas por meio do desenvolvimento sustentável.
No ORA, Arnaldo Carneiro e sua equipe estão focados nos temas de mudanças climáticas, desmatamento, biodiversidade, queimadas e água, estudando a vulnerabilidade futura da Pan-Amazônia a incêndios florestais e a relação das florestas com o oceano.
Carneiro conta, na primeira edição de 2026 da newsletter Um Grau Meio do IPAM Amazônia, sobre a integração amazônica e da Pan-Amazônia, as lacunas no enfrentamento à emergência do clima e a ideia de criar uma NDC coletiva para a região.
O que é a Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: A Pan-Amazônia é um conceito que foi construído pelo Brasil. O Brasil sempre se referiu à Amazônia como um pedaço do seu país, mas quando se deu conta de que a Amazônia tem espaços fora, chamou isso de Pan-Amazônia.
É uma expressão que integra as Amazônias dos outros oito países. Mas quando você vai nesses países, Pan-Amazônia é uma expressão que eles não utilizam. Usam “Amazônia” para falar do todo.
Hoje em dia eu me refiro à Amazônia brasileira, à Amazônia colombiana… e quando estou em reunião nos países, falamos da Amazônia na sua totalidade.
De que forma o Tratado assinado em 1978, em Brasília, acompanhou as transformações dos últimos 50 anos?
Arnaldo Carneiro: Se você olhar a geopolítica da época, você vai encontrar muitas ditaduras no entorno da Amazônia, inclusive no Brasil. A grande preocupação dos militares era a manutenção da soberania territorial. Então, foi nesse ambiente que se criou o TCA (Tratado de Cooperação Amazônica).
Conforme a história foi caminhando, os temas foram evoluindo, a OTCA foi se adaptando e esses temas foram sendo incorporados. Criado em 2021 pela OTCA, o ORA (Observatório Regional Amazônico), serve como centro de referência para informações essenciais sobre a gestão compartilhada e sustentável da Amazônia.
Na atualidade, o grande tema no ORA é a questão das mudanças climáticas e a trajetória perigosa em que estamos, na Amazônia inclusive, que pode nos levar a um ponto de não retorno.
Quais foram os principais avanços para a conservação amazônica no período? E quais lacunas persistem?
Arnaldo Carneiro: Se a gente olhasse um gráfico, teve um momento de grande expansão sobre a Amazônia. Nesse afã de integrar para não entregar, os militares começaram a promover a criação de infraestruturas, digamos, entre os anos 1970 e 1990. Já nos anos 1990, o Plano Real criou outro pico de desmatamento na Amazônia, porque o consumo de madeira também cresceu.
Nos anos 2000, Marina Silva trouxe a sociedade civil para dentro do governo e teve um movimento de transparência de informação genial, criando uma capacidade absurda na ciência e nas ONGs da Amazônia. O governo recebia uma maçaroca de aportes, análises e sugestões para políticas públicas, que bem aplicadas, criaram um impacto enorme no desmatamento na Amazônia brasileira. Se você olhar a curva, nos anos 2000 a gente realmente derrubou o desmatamento para níveis que são parecidos com os atuais.
Muitas áreas protegidas e territórios indígenas foram definidos nos anos 2000 e 2010. Foram décadas de muito crescimento e solução para direitos de quilombolas e indígenas. Ainda temos pendências, uma dívida socioambiental é enorme. Mas nós avançamos muito.
Também aprendemos que uma fatia do desmatamento (30 a 35%), que eu trato como social, é realizada por pequenos produtores que estão em assentamentos, ribeirinhos, todos desassistidos e com pouco acesso a soluções que poderiam reduzir seus impactos.
O desafio é implementarmos uma série de políticas orientadas a estes grupos sociais e que permitam integrar economicamente e socialmente. Acho que nós ainda estamos patinando nesta agenda.
De que maneira a geopolítica regional e global influencia nesse cenário?
Arnaldo Carneiro: Hoje em dia, a gente já vive eventos extremos na Amazônia. A grande pergunta é quem é o vilão dessa história. A questão ainda é o papel global e o papel regional.
O ingresso de umidade na Amazônia, a partir do Atlântico, depende da temperatura oceânica: se a temperatura oceânica sobe demais, temos eventos climáticos mais sêcos no interior da Amazonia. Se essa temperatura dos oceanos cai demais, acontece o contrário, temos grandes ciclos de enchentes.
Com isso, a gente tem uma ideia do impacto global, porque é a poluição da América do Norte que determina a temperatura do Atlântico Norte. É o aquecimento global provocado pela Europa e pelos Estados Unidos, principalmente.
Esse é um tema que a gente traz para os chanceleres, porque as mudanças climáticas na Amazônia têm um fator global que é o hemisfério Norte. Nós somos do hemisfério Sul. Então isso traz uma agenda política Norte-Sul para dentro da OTCA.
Pan-Amazônia estuda criar NDC coletiva com o objetivo de proteger a região. Foto: Gabriel S. Fernandes/Shutterstock
Como a região se organiza para lidar com as mudanças climáticas?
Arnaldo Carneiro: A gente vai começar a fazer campanhas internacionais. Nossa campanha de comunicação tem que sair desse raio de oito países da OTCA e expandir para Europa, Estados Unidos e Ásia. Temos que estar nas mídias e fóruns de maneira permanente..
O mundo se acostumou e a mídia adora publicar os dados do desmatamento e o papel que eles têm nas mudanças climáticas. Então, o mundo quando vê isso, acha que todo o impacto sobre o clima global vem do desmatamento da Amazônia. E isso é uma inverdade. De uma certa maneira, são padrões de consumo do hemisfério Norte sustentando as emissões que estão criando impactos sobre a Amazônia.
Em 2024, por exemplo, tivemos uma grande seca e grandes incêndios. Isso é outra coisa que nos interessa muito: em que medida as mudanças climáticas criam vulnerabilidades na Amazônia e predisposição a incêndios. Este ano estamos começando um projeto com uma ferramenta para ter um olhar muito mais acurado sobre os incêndios, com uma frequência muito rápida.
Quando você olha para os nossos planos e compromissos nacionais, cada país define a sua NDC. Mas nós somos países colonizados, não? Costumamos carregar muito naquilo que é a mitigação: “preciso mostrar que eu tô derrubando o desmatamento, que eu tô diminuindo as queimadas, que eu tô reduzindo o meu impacto”. Quando você olha para a adaptação, eu diria que nós não estamos carregando muito na tinta não.
Há uma série de fatores que a gente tem que começar a pensar para as populações amazônicas, sejam elas urbanas ou rurais, que hoje nós não estamos pensando.
Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, com as piores temperaturas em 2023, 2024 e 2025. Quais são os impactos dessa realidade na Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: Eu diria que a adaptação vai ser um problema sério para os amazônidas. A escassez de chuvas ou a abundância extrema de chuvas, que gera outro impacto, além do calor. As cidades na Amazônia já formam ilhas de calor, não são bem adaptadas ao que vem pela frente. Seja em cidades pequenas, médias ou grandes, as construções não estão adaptadas às mudanças climáticas e às altas temperaturas.
A OTCA pretende criar uma “NDC coletiva” dos países amazônicos?
Arnaldo Carneiro: Houve uma tentativa, um movimento no ano passado, mas que não prosperou como a gente desejava, justamente para termos uma NDC amazônica.
Se você olhar a NDC brasileira, ela se refere a programas que estão associados à Amazônia, por exemplo, o PPCDAm. Os outros países, nem todos fazem isso. Muitas vezes, não fazem referência explícita a uma intenção referente à Amazônia.
O que nos interessa é olhar para as ações. Nós vamos fazer ora um monitoramento, ora fazer uma análise crítica, então a gente vai talvez ter uma ação mais influente no momento da revisão da agenda.
Como chegar ao consenso sobre o clima quando países amazônicos seguem caminhos opostos? O Brasil, por exemplo, com novas frentes de exploração fóssil, e a Colômbia, que declarou sua porção de Amazônia livre de petróleo.
Nesse tema em particular do petróleo, não houve consenso na OTCA. Alguns países amazônicos têm forte dependência da exportação de óleo e gás. Então cada país deve seguir com a sua estratégia econômica.
Em 2026, qual seria a melhor notícia para a proteção da Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: A melhor notícia para 2026 não seria um único anúncio, mas uma percepção clara de que a região Pan-Amazônica entrou em um ponto de virada positivo e mostrando que a cooperação regional, a ciência e o financiamento podem trabalhar juntos.
Também, a Amazônia não deve mais ser entendida apenas como uma “floresta ameaçada”, mas como uma infraestrutura planetária para a regulação do clima, da água e da biodiversidade, necessária para a segurança alimentar, energética e climática na América do Sul e no mundo.
O governo federal desenvolveu na Terra Indígena Yanomami um projeto que une criação de peixes, roças com plantio de mandioca, batatas, arroz e criação de galinha. A iniciativa é desenvolvida na comunidade Sikamabiu e foi inaugurada oficialmente no dia 2 de fevereiro de 2026.
Chamada de unidade demonstrativa, a iniciativa visa fortalecer a segurança alimentar no território, que está há três anos em situação de emergência, e foi desenvolvida como resposta à grave crise humanitária enfrentada pelos povos Yanomami e Ye’kwana, causada pelo garimpo ilegal na região.
Sikamabiu fica na região do Baixo Mucajaí, no Sul de Roraima, dentro do território Yanomami. Na localidade, vivem ao menos 400 indígenas, distribuídos em cerca de 30 famílias. A maioria é do povo Xiriana (ou Xirixana), subgrupo dos Yanomami.
O polo com sistemas de piscicultura, criação de aves e o plantio de lavouras tradicionais será o primeiro de uma série de oito que devem ser implantados no território ainda neste ano. Estão previstas iniciativas em comunidades das regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu. O cuidado com as roças, os galinheiros e os tanques de peixes será de responsabilidade dos próprios indígenas.
O investimento para a implementação do projeto é de R$ 1,8 milhão, com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A execução é feita pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com apoio logístico da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR) participa da parceria com aulas e formação em piscicultura. Ao todo, 34 indígenas foram capacitados e ficaram responsáveis pelo cultivo e pela multiplicação do conhecimento na comunidade.
Plantio de subsistência na Terra Indígena Yanomami. Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo
Além disso, no âmbito da piscicultura, o projeto tem o apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), que atuou na construção dos açudes de criação dos peixes. Os tanques são feitos de geomembrana – uma espécie de manta sintética impermeável, o que garante maior eficiência e durabilidade na criação de peixes.
Nesta segunda, a cerimônia de inauguração do polo deve ter a presença do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, da presidente da Funai, Joênia Wapichana, aa diretora substituta da Casa de Governo, Cleide de Souza, a secretária nacional de Aquicultura do MPA, Fernanda de Paula, e de outras autoridades do governo federal.
Terra Yanomami
Com quase 10 milhões de hectares, a Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil em extensão territorial. Localizado no Amazonas e em Roraima, o território abriga 31 mil indígenas, que vivem em 370 comunidades.
O povo Yanomami é considerado de recente contato com a população não indígena e se divide em seis subgrupos de línguas da mesma família, designados como: Yanomam, Yanomamɨ, Sanöma, Ninam, Ỹaroamë e Yãnoma.
Terra Yanomami. Foto: Ascom | MPI
O território está em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal, a partir da posse de Lula (PT), começou a criar ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e cestas básicas. Além de enviar forças de segurança a região para frear a atuação de
Roiti Metuktire, 35 anos, carrega no sangue a luta coletiva pela proteção do seu território, a Terra Indígena Kayapó, situada no norte de Mato Grosso. Das dezenas de netos de Raoni Metuktire, maior liderança indígena, ele está entre os três que assumiram diretamente o legado tio-avô em levar a luta pela terra adiante.
Há alguns anos, Roiti trabalha para que sua região seja conservada e as tradições de seus antepassados mantidas. Para isso, coordena o Núcleo de Gestão e Proteção Territorial do Instituto Raoni, que desde a sua fundação, em 2001, capta recursos e estrutura ações para proteger a floresta e a vida que se encontra nela.
Roiti embarcou em uma jornada de conhecimento que é compartilhada diariamente com as cinco comunidades que compõem o território e tem tido bons resultados.
Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso. Foto: Reprodução/Instagram-@minpovosindigenas
Hoje, a terra indígena Capoto-Jarina, no norte de Mato Grosso, região do Xingu, tornou-se referência em gestão e proteção territorial. Segundo Roiti, é reconhecida entre as populações indígenas como a mais protegida das cinco comunidades que compõem a terra indígena Kayapó.
Isso devido à ausência de ilícitos ambientais e de desmatamento ativo, com sistemas robustos de monitoramento e vigilância, forte articulação comunitária e diálogo internacional consolidado.
Como tudo começou
Na cultura Kayapó, a floresta, a água, os animais e todos os seres vivos não são recursos, mas condições essenciais de existência.
“No mundo indígena, tudo vem da floresta. A gente caça, planta, busca o alimento. Se isso é tirado, o indígena praticamente morre, porque nossa cultura não é baseada na compra, mas na relação com o território”, explica Roiti.
Terra indígena Kayapó. Foto: Divulgação/Polícia Federal
As mudanças no entorno da terra indígena Kayapó começaram a afetar diretamente o cotidiano dos indígenas no interior do território, algo que os mais velhos vinham percebendo. Foi em 2009, em um grande incêndio, que acendeu o alerta: o fogo estava mais intenso e mais frequente do que em outros períodos.
Sem acesso à tecnologia ou a dados climáticos na época, as lideranças passaram anos tentando entender o que estava acontecendo. A busca por parcerias, a partir de 2014, deu início a estruturação de uma área específica de monitoramento territorial, incorporando ferramentas tecnológicas e aproximando o conhecimento tradicional de sistemas modernos de análise ambiental.
Virada com a tecnologia
A formação de jovens passou a ser central nessa estratégia. Roiti saiu do território em 2019 para estudar e nesse movimento passou a enxergar de forma mais clara os impactos do avanço do agronegócio e da lógica predatória ao redor da terra indígena Kayapó. Onde antes havia floresta, hoje predominam grandes áreas de soja.
Ao retornar, sua luta tornou-se pessoal. Pai de três filhos, ele vê na proteção do território uma responsabilidade com o futuro.
“Quero que meus filhos possam dizer: essa é minha casa, é aqui que minha família existe, é daqui que vem o nosso alimento. Quero que eles vivenciem o que a gente viveu com a caça e a pesca, mas também que tenham acesso aos dois mundos”, afirma.
O trabalho no Instituto Raoni o aproximou mais do objetivo. Em 2017, a organização implementou, com o apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena (SOMAI) na terra indígena Kayapó.
O sistema monitora desmatamento e ameaças em terras indígenas, como o aumento da seca, a imprevisibilidade das chuvas, por exemplo. Integra conhecimentos científicos e tradicionais para a conservação ambiental.
A comunicação no território também passou por uma transformação profunda. Se até 2019 o diálogo entre as aldeias era majoritariamente por rádio, hoje, de acordo com Roiti, cerca de 90% da terra indígena Kayapó se comunica via internet. Isso facilitou o acesso à informação sobre mudanças climáticas, desmatamento e legislação ambiental, além de aproximar jovens das decisões coletivas.
Hoje, a implementação das brigadas de incêndio é considerada essencial para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Em 2024, apesar de todos os esforços, o território perdeu cerca de 17% de sua área para o fogo, de acordo com um levantamento do Greenpeace Brasil.
Em resposta, as comunidades passaram a investir em SAFs (Sistemas Agroflorestais). Reutilizam áreas já degradadas, evitam novos desmatamentos e reduzem o uso do fogo nas roças. Os resultados têm sido positivos, inclusive na recuperação de solos empobrecidos após anos de queimadas.
Terra indígena Kayapó. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
“Nosso objetivo é proteger o que resta de mata e floresta para que não apenas os povos indígenas possam viver nela, mas para manter um equilíbrio do qual todos os povos dependem”, diz Roiti.
Ainda assim, há desafios e obstáculos na implementação. Segundo Metuktire, o diálogo com anciãos e mulheres anciãs exige sensibilidade e persistência. Muitas práticas tradicionais dos kayapós exigem o uso do fogo, como a coleta de mel, a obtenção de penas para o artesanato ou a preparação do terreno para as roças.
A solução encontrada, de acordo com o coordenador, tem sido o manejo integrado, com queima prescrita e acompanhamento dos brigadistas. Além do diálogo ativo com os mais velhos para evitar ruídos e explicar a importância de não usar o fogo indiscriminadamente, mas aguardar os dados do monitoramento para agir.
Dessa forma, o respeito à cultura permanece e, ao mesmo tempo, incêndios de grandes proporções são evitados. O coordenador relata ter conseguido que cerca de 60% da comunidade se conscientizasse.
“A comunidade Capoto-Jarina se tornou um modelo de gestão de proteção do território. A nossa experiência tem sido procurada por outros territórios que desejam adaptar metodologias e alcançar feitos semelhantes”, explica Rioti.
O trabalho se destaca pela participação ativa de mulheres, jovens e lideranças, pelo respeito aos mais velhos e pela união de uma família ancestral que segue orientando decisões coletivas.
Essa pode ser a chave para garantir a floresta viva, prova que tradição e inovação podem caminhar juntas. “Acredito que como representação de uma liderança jovem, antigamente, para os mais velhos, a luta era feita com contos, pinturas, caça. Hoje, para nós, é tecnologia, papel, boa comunicação”, conclui Roiti.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia
A Foz do Amazonas fica na Margem Equatorial brasileira. Foto: Enrico Marone/Greenpeace
O vazamento de 15 mil litros de fluido ocorrido durante a perfuração exploratória de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, localizada na Margem Equatorial Brasileira, completa um mês nesta quarta-feira (4). A operação, realizada pela Petrobras, segue paralisada desde o incidente e as causas ainda não foram esclarecidas pela empresa estatal.
A atividade exploratória, iniciada em outubro de 2025, divide opiniões colocando, de um lado, aqueles que enxergam a medida como promissora para a soberania energética do Brasil, e, do outro, quem classifica o ato como uma ameaça grave à biodiversidade amazônica. Com o vazamento de fluido no dia 4 de janeiro, os debates esquentaram novamente.
A equipe do Portal Amazônia reuniu pontos dessa discussão e o que dizem órgão nacionais, entidades ou comunidades envolvidos nessa ação exploratória.
Bacia sedimentar Foz do Amazonas fica na Margem Equatorial brasileira. Foto: Divulgação Petrobras
Localizada entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte, a Margem Equatorial Brasileira é uma região litorânea considerada “a nova fronteira do petróleo”. A área é dividida em cinco bacias, onde cada uma delas possui blocos exploratórios que são ofertados ou concedidos para estudos de exploração.
Um desses blocos é o FZA-M-059, situado a 500 km da foz do Amazonas e a 175 quilômetros da costa do Amapá. A 2.800 quilômetros de profundidade, o bloco é visto como uma reserva potencial de petróleo e há alguns anos vem sendo alvo de um debate acirrado entre ambientalistas e setores dos órgãos federais favoráveis à exploração.
Isto porque, em 2013, o bloco foi arrematado para a empresa estrangeira BP Energy. No entanto, a petrolífera enfrentou diversos entraves durante o processo de licenciamento ambiental junto ao Ibama. Diante disso, a empresa optou por desistir, em 2020, de operar o bloco.
Interessada, a Petrobras começou as tratativas para assumir a concessão dos blocos exploratórios, algo conquistado em abril de 2021, quando a estatal assinou o acordo de transferência do bloco.
O Bloco FZA-M-59 fica localizado a 500 km da Foz do Amazonas e está a 2.800 quilômetros de profundidade. Arte: Agência Petrobrás
Petrobras
Após assumir os direitos de concessão de seis blocos exploratórios da Margem Equatorial, incluindo o FZA-M-059, a Petrobras iniciou uma saga para obter o licenciamento ambiental junto ao Ibama. Os dois primeiros pedidos, em 2021 e 2023, foram indeferidos pela autarquia federal.
Em 2024, a empresa recebeu outra negativa do Ibama, desta vez sendo alertada a respeito das inconsistências técnicas no projeto e ausência de estudos sobre os impactos potenciais da exploração na região.
Sonda de perfuração NS-42, responsável pela perfuração do poço exploratório no bloco FZA-M-059. Foto: Agência Petrobras
Mas no dia 20 de outubro de 2025, a estatal recebeu a autorização do Ibama para iniciar a pesquisa exploratória de petróleo na Margem Equatorial. A operação iniciou imediatamente após a emissão da licença e permitiu apenas a perfuração para constatar a promessa do combustível no bloco FZA-M-059. Caso seja confirmada a presença de petróleo, a estatal precisará de uma nova licença para continuar com a exploração.
Críticas
Na época, a licença do Ibama concedida à Petrobras levantou uma série de críticas por parte de organizações de movimentos ambientalistas, povos indígenas, quilombolas e pescadores artesanais residentes na região da bacia sedimentar Foz do Amazonas.
Os manguezais ocupam uma área de 8 mil km² entre os estados do Pará e Maranhão. Foto cedida pelo Núcleo de Estudos em Manguezais – Nema/UERJ
Para o grupo, a ação exploratória oferece graves riscos ao meio ambiente, já que a região da Foz do Amazonas é considerada sensível devido a sua biodiversidade, composta pelo maior cinturão de manguezais do mundo (ocupa uma área de 8 mil km² e corresponde a mais de 80% dos mangues do país) e os recifes de corais que se estendem por 1.350 quilômetros ao redor da costa brasileira.
A ausência de estudos de impacto mais confiáveis e a falta de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também foram outros apontamentos feito pelo ambientalistas.
Além disso, pescadores temem que a exploração na Foz do Amazonas possa afetar a economia local, já que a região é uma das mais produtivas.
Pescador protesta contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Foto: Divulgação GTA
O Ministério Público Federal (MPF) chegou a ingressar, em junho, com uma ação na Justiça Federal do Pará pedindo a suspensão do leilão de 172 blocos de petróleo e gás, sendo 47 deles na Foz do Amazonas, pela falta de medidas previstas na legislação socioambiental, mas teve o pedido rejeitado. O órgão recorreu da decisão no último dia 24 de outubro.
Por outro lado, o governo brasileiro considera a Margem Equatorial brasileira com potencial energético para ser o novo “pré-sal”. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a região representa “o futuro da soberania energética” e que os investimentos podem chegar a R$ 300 bilhões nas próximas décadas e potencial de arrecadação em torno de R$ 1 trilhão.
Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, é um dos defensores da exploração do petróleo na bacia da Foz do Amazonas. Foto: Ricardo Botelho/MME
Segundo levantamento do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a exploração na Foz do Amazonas teria potencial de produzir 1,1 milhão de barris por dia, a partir de 2029.
Outros estudos apontam que a estimativa total de reservas na região pode alcançar 10 bilhões de barris – atualmente, o Brasil 16,8 bilhões de barris comprovados).
Para o ministério, a exploração na região da Foz do Amazonas tiraria o Brasil da dependência petrolífera estrangeira a partir de 2030.
Vazamento
No dia 4 de janeiro de 2026, cerca de 15 mil litros de fluido sintético vazaram para o oceano durante as atividades exploratórias da Petrobras no bloco 59 da Foz do Amazonas. O vazamento aconteceu em duas tubulações de apoio que ligam a sonda de perfuração ao poço Morpho.
Em nota, a Petrobras informou a atividade foi interrompida logo após a identificação do vazamento e reforçou que o líquido não oferece perigo ao meio ambiente.
“A perda do fluido de perfuração foi imediatamente contida e isolada. As linhas serão trazidas à superfície para avaliação e reparo. Não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em total condição de segurança. A Petrobras adotou todas as medidas de controle e notificou os órgãos competentes. O fluido utilizado atende aos limites de toxicidade permitidos e é biodegradável, portanto não há dano ao meio ambiente ou às pessoas”, cita a empresa.
Vazamento interrompeu as operações exploratórias de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. Foto: Click Petróleo e Gás
Fiscalização, multa e retomada
A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) chegou a suspender as atividades na plataforma e anunciou a realização de duas auditorias, uma de 2 a 7 de fevereiro e outra nos dias 9 a 13 do mesmo mês. No entanto, após a primeira fase de inspeção, a ANP autorizou a retomada da perfuração exploratória.
“Considerando as análises técnicas realizadas e as medidas mitigadoras propostas pela Petrobras, concluiu-se não haver óbice (empecilho) ao retorno das atividades de perfuração no referido poço, a partir do recebimento deste ofício”, afirmou, em nota, a ANP.
Porém, a volta da operação ficou condicionada à alguns obrigações por parte da Petrobras como “a troca de todos os elementos de vedação usados nas conexões da tubulação por onde passam os fluidos e treinamento de todos os trabalhadores envolvidos no procedimento”.
Além disso, o Ibama aplicou uma multa de R$ 2,5 milhões à Petrobras após o vazamento do fluido no mar. O órgão alegou que a substância contém componentes classificados como de risco médio para a saúde humana e deu um prazo de 20 dias para o pagamento da multa ou apresentação de defesa administrativa.
O que dizem?
Ibama:
“A emissão da licença ocorre após rigoroso processo de licenciamento ambiental, que contou com elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), realização de três audiências públicas, 65 reuniões técnicas setoriais em mais de 20 municípios dos estados do Pará e do Amapá, vistorias em todas as estruturas de resposta à emergência e unidade marítima de perfuração, além da realização de uma Avaliação Pré-Operacional, que envolveu mais de 400 pessoas, incluindo funcionários e colaboradores da Petrobras e equipe técnica do Ibama“.
Petrobras:
“A Petrobras atendeu a todos os requisitos estabelecidos pelo Ibama, cumprindo integralmente o processo de licenciamento ambiental. Como última etapa de avaliação, a companhia realizou, em agosto, um simulado in loco, denominado Avaliação Pré-Operacional (APO), por meio do qual o Ibama comprovou a capacidade da Petrobras e a eficácia do plano de resposta à emergência. A companhia segue comprometida com o desenvolvimento da Margem Equatorial brasileira, reconhecendo a importância de novas fronteiras para assegurar a segurança energética do país e os recursos necessários para a transição energética justa”.
Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia:
“A Margem Equatorial representa o futuro da nossa soberania energética. O Brasil não pode abrir mão de conhecer seu potencial. Fizemos uma defesa firme e técnica para garantir que a exploração seja feita com total responsabilidade ambiental, dentro dos mais altos padrões internacionais, e com benefícios concretos para brasileiras e brasileiros“.
Cacique Edmilson, da aldeia Galibi, em Oiapoque (AP):
“A gente tá muito preocupado, desde quando começamos a ouvir sobre a exploração de petróleo, tirou nosso sossego, porque nosso território fica muito próximo da costa do Amapá, e nosso território é a nossa mãe, daqui que a gente tira nossa sobrevivência, do nosso território“.
Angela Barbarulo, gerente jurídica do Greenpeace Brasil:
“O licenciamento do Bloco FZA-M-59 atropelou requisitos fundamentais previstos na legislação ambiental brasileira e em tratados internacionais dos quais o país é signatário. A anulação da licença de operação é urgente, uma vez que ela foi concedida sem estudos que identifiquem e mitiguem adequadamente os riscos e impactos socioambientais“.
Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenção das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab):
“Nenhuma decisão que impacte a vida e os territórios indígenas pode ser tomada sem ouvir quem há milênios cuida da Amazônia. Autorizar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas sem esse diálogo é mais um ato de violação e desrespeito aos povos indígenas, que pagam a conta pelas ações do Estado e da iniciativa privada, que só estão preocupados com o lucro acima da vida“.
*Com informações do Greenpeace Brasil, MME e Petrobras
O corte de 17% no orçamento para fiscalização e prevenção de incêndios florestais em 2026 é um sinal de alerta, afirma a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar.
A pesquisadora defende que a política de combate e prevenção aos incêndios florestais no Brasil deve ser uma agenda progressiva, de construção permanente. Para isso, os investimentos devem ser constantes para evitar crises estruturais, principalmente em momentos de emergência climática.
“Pode parecer que, se você tem um ano mais quente ou mais seco, precisa de mais recursos. Mas, na verdade, é preciso manter o básico funcionando para que a prevenção ocorra. Quando chega um ano mais crítico, é importante que essa base esteja sólida para não lidar com uma situação de desestruturação, falta de recursos ou ausência de engajamento comunitário”, explica Alencar.
Entre as prioridades, a diretora destaca o fortalecimento das brigadas comunitárias, que atuam tanto no uso ordenado e responsável do fogo, quanto na resposta rápida aos focos de incêndio.
O aparelhamento da infraestrutura e o fortalecimento da comunicação, segundo a diretora, são fundamentais para manter o funcionamento das ações de manejo do fogo.
Queimadas. Foto: Divulgação/Secom AC
Crédito extraordinário não é soluçãopara os incêndios
A previsão do orçamento da Lei Orçamentária Anual (LOA) para fiscalização do meio ambiente e prevenção de incêndios florestais em 2026 foi de R$495,8 milhões, R$101 milhões a menos que no ano passado.
Com o atual cenário, o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) reabriu crédito extraordinário de R$ 53,6 milhões para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
O valor será dividido entre R$ 40,4 milhões para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e R$ 13,1 milhões para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ambos para o enfrentamento a incêndios florestais e desmatamento.
Foto: Reprodução/Greenpeace
“O crédito extraordinário é uma tentativa de remediar a insuficiência do orçamento que foi planejado. Mas isso não impacta no corte que foi feito de fato. O que é preocupante é que os incêndios são tratados no orçamento como um problema agudo, e não como um problema crônico”, explica Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM.
Segundo ela, quando o dinheiro é destinado em caráter emergencial, sua finalidade se torna apenas para o combate, o que provoca falha na prevenção. Por isso, o recurso deve ser melhor planejado, principalmente para a prevenção, que é essencial na contenção dos grandes incêndios.
As pesquisadoras apontam que as medidas de prevenção e combate impactam diretamente em políticas de restauração ambiental, pagamentos por serviços ambientais como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), bioeconomia, manejo florestal e até na produtividade do agronegócio.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia
O projeto Esperançar foi realizado na Resex Chico Mendes, localizada no extremo oeste da Amazônia brasileira, abrangendo cerca de 930 mil hectares. Foto: Aurelice Vasconcelos
Em dezembro de 2025, instituições iniciaram a implementação do Projeto Esperançar, na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no estado do Acre, que busca a integração entre as agendas de meio ambiente e cultura, tendo em vista a valorização dos modos de vida de povos e comunidades tradicionais e ampliação de ações de cultura em sus territórios.
O projeto é realizado no escopo do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Ministério da Cultura (MinC), Instituto Chico Mendes (ICMBio) e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O ACT visa identificar e valorizar os modos de vida, a diversidade cultural e a gestão socioambiental dos povos e comunidades tradicionais que vivem em Unidades de Conservação (UCs) de Uso Sustentável e Territórios Tradicionais.
A iniciativa ‘esperançar’ prioriza o incentivo à participação social na salvaguarda dos saberes tradicionais e no fortalecimento do Turismo de Base Comunitária (TBC) nas UCs federais, tendo a Resex Chico Mendes como espaço do projeto-piloto.
Na avaliação da secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT/MMA), Edel Moraes, a parceria reforça o compromisso do governo federal com a justiça socioambiental e a valorização das culturas tradicionais.
“A integração entre cultura e meio ambiente é o caminho para a proteção dos direitos das populações cujas formas de viver historicamente protegem os recursos da natureza”, destaca.
A chefe da Divisão de Turismo de Base Comunitária do ICMBio, Ana Carolina Barradas, explica que a escolha da Resex, incluindo a cidade de Xapuri, tem um forte valor simbólico.
“Esse território guarda a história e o legado de Chico Mendes, líder seringueiro, reconhecido como Herói da Pátria e Patrono do Meio Ambiente Brasileiro. Ele foi uma referência mundial na luta socioambiental e o criador das Reservas Extrativistas, uma política pública inovadora que valoriza o papel dos povos da floresta e das águas na conservação da natureza”, coloca.
Construção da Casa Tradicional do Seringueiro, realizada pelo projeto esperançar. Foto: Reprodução/Universidade Federal do Acre
Ainda segundo Barradas, o ACT e o Projeto Esperançar consideram experiências relevantes em curso em outras reservas extrativistas. Ele destaca como exemplo o levantamento de referências culturais realizado na Resex Marinha da Baía do Iguape, na Bahia, que serviu de base metodológica para a iniciativa, além das ações previstas para a Resex Marinha da Lagoa do Jequiá, em Alagoas.
Possibilidade de aplicação a outros territórios
Apesar de ter um foco inicial no Acre, a chefe da Divisão avalia que esse acordo tem alcance nacional.
“A partir das parcerias e dos potenciais identificados, o ACT também permite incluir ações e projetos em outros territórios tradicionais e unidades de conservação, sempre seguindo o plano de trabalho e respeitando a legislação vigente”, conclui.
Oficina de Construção da Casa Tradicional da Família Seringueira: Encontro de Mestres e Jovens Extrativistas com Saberes e Fazeres Tradicionais, realizada na Resex em agosto, através do projeto esperançar. Foto: Allen Ferraz/UFAC
O Projeto Esperançar deve ser implementado na Resex Chico Mendes pelas instituições signatárias do ACT até 2028, e contempla três eixos de atuação:
Fortalecimento das Organizações Comunitárias
Educação, Patrimônio Cultural e Comunicação
Sociobiodiversidade e Geração de Renda
Entre as atividades previstas no primeiro eixo estão:
capacitações em gestão territorial, socioambiental e patrimonial nas associações, organizações comunitárias e comunidades tradicionais do território;
apoio à elaboração de planos de ação e projetos;
fortalecimento do senso comunitário de identidade territorial, cultural e pertencimento;
apoio à realização de trocas de experiências com foco nas ações do ACT entre povos e comunidades tradicionais;
e a formação de Agentes Socioambientais e de Cultura para atuação no território, com equilíbrio de gênero e geracional.
No segundo eixo, as ações do esperançar concentram-se na formação e no fortalecimento das comunidades tradicionais, articulando TBC com as agendas climática, socioambiental e cultural.
Estão previstas a realização de cursos, oficinas e formações; a elaboração de inventários culturais e mapeamentos participativos; o desenvolvimento do Sistema de Informações Geográficas da Resex; a produção e curadoria de conteúdos que valorizem as histórias locais, as expressões culturais e a realidade socioambiental.
Casa Tradicional da Família Seringueira foi inaugurada à época, por meio do projeto esperançar. Foto: Allen Ferraz/UFAC
Além disso, também está previsto o fortalecimento das redes de comunicação comunitária e das capacidades em comunicação; o levantamento participativo de referências culturais; a construção de calendários de eventos locais para apoio ao TBC; o registro de histórias de vida de guardiões dos saberes tradicionais e da biodiversidade; o mapeamento e fortalecimento de instituições e pontos de cultura; e a elaboração do plano do Museu Território Tradicional da Resex Chico Mendes, em parceria com a Casa de Chico Mendes e o município de Xapuri.
No terceiro eixo, o projeto esperançar foca o planejamento, a governança e o fortalecimento do TBC na Resex. As ações incluem a elaboração do Plano Estratégico de TBC; apoio a iniciativas comunitárias na UC; construção participativa de uma proposta de norma nacional para o TBC, baseada nas experiências do ACT e no respeito aos seus sujeitos; a consolidação da governança da Trilha Chico Mendes, sua reestruturação e ampliação; a implantação de pontos de apoio aos visitantes e o incentivo a encontros e trocas de experiências, com destaque para a participação de jovens e mulheres extrativistas e de outros povos e comunidades tradicionais, voltados à formação e à economia da sociobiodiversidade.
*Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodversidade
Começou a notar o aparecimento de algumas bolhas na pele, dor e sensação de queimação em regiões específicas do corpo? É bom ficar em alerta, pois pode ser “cobreiro”. Esse é o nome como a herpes-zóster, doença viral de pele que atinge pessoas que nunca tiveram catapora ou não foram imunizadas contra ela, é popularmente conhecida.
Na oitava reportagem da série Nomes populares de doenças que ocorrem na Amazônia, a equipe do Portal Amazônia segue com a ajuda da médica generalista Júlia Edwirges para aprender mais sobre o “cobreiro”, doença comum no Brasil e que cerca de 94% dos adultos lidam com ela por toda a vida.
O que é o cobreiro?
Conhecida como cobreiro, a Herpes-zóster é uma doença contagiosa provocada pelo vírus Varicela-Zóster (VVZ ou Herpesvírus humano tipo 3), o mesmo responsável pela varicela, popularmente chamada de catapora.
Vírus Varicela-Zóster é causador da herpes-zóster e da catapora. Imagem: Reprodução/Fapes
O vírus causador de cobreiro permanece latente por toda a vida e costuma ser reativado em pacientes com mais de 50 anos, idosos e pessoas com quadro de baixa imunidade devido à quimioterapia e radioterapia.
Jovens com níveis altos de estresse também podem desenvolver a doença. Por outro lado, crianças e bebês raramente manifestam cobreiro, embora seja possível ocorrer a infecção.
Transmissão
Não é possível “pegar” o cobreiro, e sim contrair o vírus Varicela-Zóster. Seu contágio se dá através do contato direto de uma pessoa para outra infectada pelo VVZ, através do líquido que sai das pequenas bolhas (vesículas). Em casos raros, o vírus também pode ser transmitido por meio de secreções respiratórias.
A partir daí, para quem nunca teve catapora, o vírus desenvolverá primeiro a doença, que geralmente ocorre na infância e depois fica inativa, já que não é possível ter catapora duas vezes. Porém, se a pessoa infectada já teve catapora, mas não se vacinou, o herpes-zóster é reativado e o indivíduo para a apresentar a doença.
Sintomas
O principal e mais conhecido sintoma do cobreiro as pequenas bolhas preenchidas de líquido que se formam numa determinada região do corpo. Elas se restringem a um lado do corpo e surgem frequentemente na cintura, peito, abdômen e costas. Isso acontece porque o vírus do cobreiro afeta sempre um nervo próximo da medula espinhal.
Bolhas preenchidas de líquidos na pele são os sintomas característicos da herpes-zóster. Foto: Reprodução/Site Tua Saúde
No entanto, antes do aparecimento das bolhas, o indivíduo pode sentir coceira, dor intensa nos nervos e formigamento no local onde se desenvolve o cobreiro. Febre, mal-estar e dor de cabeça também são outros sintomas comuns do cobreiro que podem surgir antes das lesões na pele.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico do cobreiro é clínico, onde o/a dermatologista ou clínico geral avalia os sintomas, verifica o histórico de saúde do paciente (se já teve catapora ou se já se vacinou) e observa as características das lesões.
Confirmado o cobreiro, o médico especialista indica o uso de medicamentos antivirais, que podem acelerar a recuperação e prevenir complicações.
Além disso, remédios analgésicos também podem ser prescritos pelo médicos para reduzir o desconforto provocado pelas dores provenientes da doença.
Lavar as bolhas com água e sabão neutro, usar roupas confortáveis para preservar a região lesionada e colocar um pano úmido e gelado também são alguns dos cuidados recomendados para ajudar no alívio da dor e irritação da pele.
A forma de prevenir a Herpes-Zóster é por meio da aplicação de vacinas como a Tetravalente viral (que protege contra o sarampo, caxumba, rubéola e varicela) e a vacina Varicela, que são indicadas no calendário de vacinação infantil.
Existe também dois tipos de vacina contra a doença: a Shingrix, indicada para quem tem mais de 50 anos ou pessoas com mais de 18 anos com risco aumentado para herpes zoster; e a Zostavax, para quem tem mais de 50 anos e como rotina para pessoas acima de 60 anos.
A equipe do Portal Amazônia reitera que qualquer suspeita relacionada à doenças em geral deve ser tratada somente sob a supervisão de um médico devidamente certificado.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) firmaram um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) voltado ao fortalecimento do monitoramento hidrológico e climático na região amazônica. Com o documento, as instituições ampliam a parceria para o compartilhamento de dados hidrológicos e prognósticos climáticos.
Atualmente, o SGB e o INPA já realizam troca de informações no âmbito do Sistema de Alerta Hidrológico.
“O acordo vem justamente para oficializar essa grande parceria com o Inpa, que colabora com os boletins e prognósticos climáticos. O instituto reúne informações, que nos ajudam a compreender o cenário climático e transmitir esse conhecimento para a sociedade”, destacou a pesquisadora do SGB e Superintendente Regional de Manaus, Jussara Cury.
O Inpa contribui com prognósticos climáticos e análises meteorológicas, enquanto o SGB é responsável pela análise do cenário das bacias monitoradas por meio do acompanhamento das cotas fluviométricas, elaboração de gráficos das estações representados em hidrogramas, além dos modelos de previsão, gerando os boletins hidrológicos semanais.
Segundo com o pesquisador do Inpa Renato Senna, a união entre duas instituições é fundamental para gerar resultados positivos para a sociedade.
“É muito importante para o Instituto ter seu trabalho integrado aos órgãos operacionais, tornando nossas pesquisas úteis à segurança e ao desenvolvimento das comunidades amazônicas. Esse documento representa a formalização de anos de parceria institucional, cooperando na divulgação de informações relevantes para a segurança, a economia e o desenvolvimento da Amazônia Ocidental”, afirmou.
O acordo também abre oportunidade para pesquisas conjuntas, treinamento de pessoal e estímulo à publicação técnico-científica nas áreas de hidrologia, climatologia e geociências. O acordo tem vigência de cinco anos, podendo ser prorrogado, e não prevê transferência de recursos financeiros entre as instituições.