Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro adotar novas estratégias, defendem pesquisadores

Artigo publicado por mais de 60 estudiosos defende que solução deve ser transnacional, envolvendo Brasil, Peru e Colômbia.

Rio Amazonas. Foto: Gabriel de Oliveira

Em junho de 2022, as mortes do indigenista da FUNAI Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips projetaram a Terra Indígena do Vale do Javari, no Oeste do Amazonas, para o noticiário global. A dupla foi vítima de uma emboscada enquanto navegava de barco no rio Itacoaí a caminho de Atalaia do Norte (AM). O mandante do crime, Rubén Dario da Silva Villar, buscava proteger seus esquemas ilícitos de pesca e garimpo ilegal na floresta amazônica – atividades comuns na região, mas que colocam em risco a sobrevivência das comunidades indígenas.

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Quatro anos se passaram e o Vale do Javari continua na mira de criminosos, cujas atividades ilegais ameaçam a soberania territorial e a continuidade cultural dos povos que vivem na região. Apesar da repercussão internacional das mortes de Pereira e Phillips, muitos outros indigenistas seguem atuando em defesa para a sobrevivência dos povos nativos da Amazônia e correndo risco de vida, sem que isso chame muita atenção.

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Para trazer mais visibilidade a esta questão, a revista Nature Sustainability trouxe um artigo, assinado por 66 pesquisadores de mais de 50 instituições, chamando a atenção para a importância de proteger a área do entorno das terras indígenas, por razões que extrapolam a demarcação territorial.

Representando a Unesp, participaram da elaboração do texto os pesquisadores Michel Eustáquio Dantas Chaves, geógrafo e professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Faculdade de Ciências e Engenharia, câmpus de Tupã, e Rodrigo Lilla Manzione, engenheiro agrônomo e professor do Departamento de Geografia e Planejamento da Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação, câmpus de Ourinhos.

Chaves explica que a escolha do Vale do Javari como foco do artigo se deveu a sua característica de fronteira trinacional, confrontando Brasil, Peru e Colômbia. As densas florestas que ocupam a região dificultam o acesso para ações de fiscalização e de policiamento efetivo. Por outro lado, as terras indígenas ali situadas possuem recursos de interesse econômico, e em suas fronteiras já ocorre a extração de madeira para o comércio ilegal e a retirada de ouro do solo.

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É justamente a proteção dessas fronteiras que o grupo de pesquisadores procura tematizar no artigo. Eles ponderam que, no caso das unidades de conservação ambiental em território brasileiro, a legislação prevê a existência de zonas de amortecimento ao seu redor, que atuam como escudos ecológicos oferecendo uma camada extra de proteção à biodiversidade que reside no seu interior.

No entanto, no caso das terras indígenas demarcadas, como as do Vale do Javari, não existe uma área de proteção equivalente. Essa ausência favorece a aproximação das atividades ilícitas aos povos originários.

O artigo analisa o impacto dessas atividades sobre o ambiente, combinando dados do desmatamento na região coletados pelo Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES), feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e dados de cobertura florestal e mudanças de uso da terra registrados na plataforma MapBiomas.

Os resultados mostram que a faixa de 200 km de extensão ao redor do Vale do Javari, que poderia servir como zona de amortecimento, experimentou uma perda de área florestal 187,5 vezes maior do que a registrada no interior do território demarcado, demonstrando a importância de ações de preservação no entorno.

“No artigo, fizemos um chamado à ação para a proteção concreta de terras indígenas e povos originários em isolamento voluntário porque os próprios indígenas não têm como buscar essa atenção”, diz Chaves.

“E muitas pessoas que estão no entorno dessas terras não pensam em conservação, mas sim em desmatamento, rotas para escoamento de produtos ilícitos e da produção agropecuária. Inclusive com rodovias cortando as terras indígenas. Por exemplo, há projetos para transformar a região de confluência entre Amazonas, Acre e Rondônia em uma zona de desenvolvimento agropecuário”, relata Chaves. “É por isso que devemos pensar na criação de zonas de amortecimento para terras indígenas, a fim de que haja efetiva proteção”, completa.

O desafio da sobrevivência dos povos isolados

A Terra Indígena do Vale do Javari abriga cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor: Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina. Também vivem ali dois povos classificados como de contato recente, Korubo e Tsohóm-Djapá, e pelo menos 14 grupos que se mantêm em isolamento voluntário. Isso torna a região a maior concentração de povos isolados e de contato recente do país.

Chaves explica que os modos de vida dos indígenas que vivem em isolamento sequer estão totalmente documentados. “Então, qualquer abertura de clareira na floresta, queimada ou poluição do ar com fumaça ou da água com mercúrio, por exemplo, já é um ataque a esse estilo de vida”, conta o professor.

“E naquela região tem um problema muito grave, que é o narcotráfico. O narcotráfico não respeita nada. Com tantas pressões e ameaças, o isolamento dos povos originários está cada vez menos respeitado; as pessoas, por meio de diversas atividades, estão tendo acesso a eles.”

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Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro adotar novas estratégias rapidamente, dizem pesquisadores
Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro . Foto: Gleison Miranda/Funai

Manzione cita o exemplo do Parque Indígena do Xingu. O território onde vivem os povos indígenas no parque é demarcado. Porém, as terras onde ficam as nascentes da bacia hidrográfica seguiram desprotegidas e estão agora cobertas por plantações de soja. Além disso, foi erguida naquela região a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que exigiu até a alteração do curso do rio Xingu, o que promoveu um fortíssimo impacto sobre a pesca e a cultura local.

Atividades ilícitas explodem na Amazônia

Os pesquisadores explicam que, até o momento, não há iniciativas para qualquer plano de ordenamento territorial para a região, menos ainda um que envolva os três países que compartilham suas fronteiras. “Acaba virando uma terra sem lei procurada por pessoas que são, muitas vezes, sem terra. E aqueles cuja terra é preservada por lei talvez nem saibam que a área que ocupam deveria estar protegida externamente”, explica Chaves.

O geógrafo pondera que, por se tratar de uma área de fronteira, as soluções não dependem unicamente do Brasil. É necessária uma articulação transnacional, envolvendo o rastreamento do dinheiro e das exportações para cortar o problema pela raiz. O problema apontado pelo professor, no entanto, é que tais atividades, na maioria das vezes, não estão associadas ao mercado legal, mas sim a um comércio clandestino que abastece outros países.

Um relatório divulgado no início de 2026 pela organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostrou que hotéis de luxo da Europa e dos Estados Unidos estavam importando madeira de áreas protegidas no Pará para a construção de decks, por exemplo.

Manzione aponta outro agravante: “quanto mais tempo leva para que se tome alguma iniciativa, mais essas atividades se consolidam. Há gerações de pessoas que vivem do corte de madeira e que só sabem fazer isso. Mesmo que se elimine a cadeia e congele recursos, vai permanecer um contingente populacional morando na região há décadas que vive disso.”

Uma forma de mitigar o problema, segundo Manzione, é abordando o aspecto financeiro. Tornar a atividade cara e rastrear o caminho dos produtos, a ponto de cessar o funcionamento da cadeia. Além disso, é preciso utilizar os dados de satélite para monitorar mudanças na floresta amazônica e identificar as principais zonas de risco. Essa segunda tática, porém, está ameaçada. 

Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro. Foto: Gleison Miranda/Funai

“Há um projeto de lei que foi aprovado a toque de caixa. Trata-se do PL 2564/25, que proíbe a aplicação de embargos e punições ambientais baseados exclusivamente em imagens de satélite ou ferramentas de detecção remota. Não se pode mais autuar crimes ambientais, como o desmatamento, utilizando apenas imagens de satélite; é preciso mandar alguém diretamente até essas áreas, que muitas vezes são inacessíveis”, alerta Manzione.

O projeto de lei foi aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e deve ainda passar pelo Senado. Ainda pode ser vetado, mas desperta preocupação entre as lideranças ambientalistas pelo retrocesso que pode ocasionar. Para Manzione, a decisão caminha na contramão de uma política de Estado de anos de desenvolvimento brasileiro, ofuscando o trabalho de sensoriamento remoto com base em imagens de satélite, com programas próprios, realizado por profissionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e envolvendo órgãos oficiais como o INPE, entre outros.

O risco das mudanças climáticas

Outro ponto abordado no artigo pelos pesquisadores é a questão das mudanças climáticas. A região do oeste da Amazônia tem grande importância para a geração de chuvas que, posteriormente, abastecem a agricultura e a pecuária do Centro-Sul do país. Logo, possíveis impactos em termos de avanço do desmatamento podem representar menos umidade na atmosfera e queda nas precipitações.

A atividade ilegal pode afetar, com o passar do tempo, o setor regularizado da agropecuária do país, que é responsável, na atualidade, por uma parcela significativa da renda nacional. “Se não houver a defesa da conservação da floresta, aliada às atividades de monitoramento, e se as leis ambientais não conversarem com as leis para a agropecuária, estaremos perdendo nos contextos ambiental, social e econômico”, explica Chaves.

Só assim, diz o pesquisador, pode-se construir uma via de desenvolvimento sustentável, em que a preservação ambiental anda lado a lado com a questão econômica. “Não há mais espaço para a dicotomia entre conservar e produzir. Nosso artigo chama a atenção justamente para isso, ao correlacionar o lado social dessa crise humanitária dos indígenas aos aspectos ambiental e econômico, dentro de um contexto de mudanças climáticas. Por isso, esperamos que a publicação contribua com discussões e ações que levem a sociedade a colher resultados efetivos, do ponto de vista da sustentabilidade.”

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Carolina Fioratti

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