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Terça, 28 Setembro 2021

Pesquisa brasileira indica que mudanças climáticas afetarão extrativismo na Amazônia

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Nos próximos 30 anos, as populações tradicionais da Amazônia que dependem da floresta como principal forma de alimentação e sustento econômico poderão sofrer sérios impactos devido às mudanças climáticas. Estudo desenvolvido por pesquisadores de cinco universidades públicas brasileiras avaliou esses potenciais impactos e aponta que as mudanças climáticas representam uma ameaça às espécies de palmeiras e árvores que são os principais produtos florestais extraídos nas reservas extrativistas (Resex) da Amazônia brasileira.

De acordo com os pesquisadores, "isso representa um perigo iminente à manutenção do modo de vida das populações tradicionais e ao futuro da biodiversidade na Amazônia. Entre os produtos que correm risco de desaparecer ou diminuir a produção nas reservas extrativistas brasileiras estão a castanha-do-brasil (também conhecida como castanha-do-pará), o açaí, a andiroba, a copaíba, a seringueira, o cacau e o cupuaçu".

Mapa de riqueza de espécies baseado na sobreposição dos modelos de adequabilidade ambiental projetados para o ano de 2050 das 18 espécies extrativistas analisadas para a Amazônia brasileira.

Neste estudo foram avaliadas 18 espécies de árvores e palmeiras utilizadas para consumo próprio ou venda em 56 reservas extrativistas da Amazônia brasileira. A partir de modelos computacionais, foram avaliados fatores climáticos históricos dos locais onde essas plantas vivem (temperatura, umidade, tipo de solo, dentre outras) e realizadas projeções para o ano de 2050, considerando as mudanças climáticas previstas pelos cientistas baseadas nas taxas de emissão de CO2. Os autores também fizeram o levantamento do número de pessoas e famílias envolvidas com as atividades de extrativismo vegetal realizadas nessas Resex e quais espécies eram utilizadas por elas.

Principais resultados

Os resultados indicam que, nos próximos 30 anos, as regiões climaticamente adequadas para o extrativismo desses produtos florestais terão reduzida em até 91% sua área total. As áreas mais ameaçadas são o Sul e o Sudoeste da Amazônia, regiões que atualmente já sofrem com queimadas, mineração e desmatamentos ilegais, como o estado de Rondônia, o Sul do estado do Pará e o Norte do Mato Grosso.

De acordo a pesquisadora da Universidade de Brasília, Jôine Cariele Evangelista-Vale, líder da pesquisa, "a verdadeira extensão dos efeitos das mudanças climáticas na Amazônia ainda é subestimada. Os cientistas já alertam há décadas sobre a perda acelerada da biodiversidade e suas consequências negativas. Devido às ameaças crescentes e contínuas das mudanças climáticas, as estimativas dos impactos sobre as populações tradicionais nas reservas extrativistas ainda não foram bem compreendidas".

A pesquisa aponta que as alterações climáticas previstas podem, em até 30 anos, reduzir a distribuição natural de 11 espécies nativas, e nove podem até mesmo desaparecer das reservas extrativistas onde elas são exploradas. Isso porque as mudanças climáticas interferem, por exemplo, na temperatura e distribuição das chuvas, fazendo com que as condições climáticas necessárias para a ocorrência dessas espécies nas reservas deixem de existir. Ainda de acordo com os resultados, 21 Resex podem perder uma ou mais espécies exploradas, enquanto quatro reservas, localizadas no estado de Rondônia, podem perder todas as espécies que são exploradas atualmente.

As maiores perdas podem ocorrer para a castanha-do-brasil (castanha-do-pará), com redução de 25% de sua área original de distribuição, que se tornará totalmente extinta em nove Resex onde atualmente é extraída. Essa espécie é extraída na grande maioria das reservas estudadas (50), comprometendo a renda de aproximadamente 2.239 famílias extrativistas e de 410 pessoas associadas a cooperativas. Somente em 2019 foram cerca de 30 toneladas de castanha-do-brasil produzidas no Norte do país, o que gerou cerca de U$ 23 milhões de dólares. O açaí também corre perigo e pode deixar de ocorrer em cinco Resex, afetando mais de 330 famílias.

O pesquisador Pedro Eisenlohr, orientador do trabalho, aponta que, pelos resultados, "nos próximos 30 anos, 21 Resex podem perder a adequação ambiental necessária à sobrevivência de pelo menos uma espécie de árvore extrativista. Portanto, o Estado brasileiro precisa desenvolver políticas públicas viáveis que mitiguem os impactos que as mudanças climáticas irão causar à biodiversidade como um todo, e também às famílias extrativistas. Demonstramos que famílias extrativistas podem sofrer diretamente os efeitos das mudanças climáticas em seu modo de vida e na segurança financeira e alimentar."

O estudo alerta que a falta de diagnósticos socioambientais nessas reservas torna difícil prever com mais precisão os impactos sociais e formas de mitigação. Para o grupo de pesquisadores, é urgente identificar locais prioritários para a implementação de políticas de conservação de espécies extrativistas, bem como para a criação de novas unidades de conservação.

As pesquisas científicas sobre a conservação da biodiversidade da Amazônia têm sido negligenciadas recentemente devido a cortes nos gastos com ciência e tecnologia por parte do governo brasileiro. Segundo relatório da pesquisa, infelizmente, o Brasil não tem sido um modelo de como apoiar políticas públicas de gestão socioambiental. Ainda há muitas lacunas sobre o censo dessas famílias e o quanto elas dependem desses recursos.

Para os pesquisadores, se administradas de maneira correta, as Unidades de Conservação de uso sustentável, como as Resex, podem atrair e manter diversas atividades econômicas ao longo do tempo, contribuindo para o crescimento econômico das regiões em que estão localizadas e para a conservação da biodiversidade.

Os autores apontam que a potencial extinção local de algumas espécies de plantas nas RESEX da Amazônia brasileira pode piorar a pobreza, potencialmente levando a um êxodo de povos tradicionais para as áreas urbanas e um aumento nas taxas de desmatamento nessas áreas protegidas no futuro.

O estudo sugere estratégias para mitigar as consequências das mudanças climáticas na Amazônia, como ações eficientes no combate ao desmatamento e às queimadas na região. Também indica a implementação das orientações resultantes dos acordos globais de combate à mudança climática.

Pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), participou da pesquisa o professor Samuel Gomides, que trabalha no Campus Oriximiná, com apoio da pesquisadora voluntária Talita Machado.

Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns

Ouriços de castanha do Pará/ Reprodução: Internet

As reservas extrativistas ocupam atualmente cerca de 150 mil km2 dentro de áreas da Amazônia Legal. A subsistência das famílias que vivem nas Resex baseia-se principalmente no extrativismo e, em pequena escala, na agricultura e pecuária de subsistência.

A Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, localizada no município de Santarém, fez parte da pesquisa. Segundo Gomides, nessa Resex não foram identificadas grandes perdas como em outras reservadas da Amazônia brasileira, mas alertou-se que há pesquisas que indicam que o estoque pesqueiro na região de Santarém tem sido afetado também pela sobre-exploração. Por conta disso, acrescentou: "É importante destacar que as alterações e impactos negativos que a biodiversidade na nossa região tem sofrido e como é importante que a sociedade e o governo se mobilizem para frear todos esses impactos e garantir a sobrevivência da população, principalmente aquelas tradicionais, ligadas diretamente ao consumo dos bens naturais da floresta, para que possamos garantir que as próximas gerações tenham acesso a esses tesouros das nossas florestas".

Publicação – O resultado da pesquisa foi publicado no periódico internacional Biological Conservation, no dia 8 de abril de 2021, e pode ser acessado AQUI (Climate change may affect the future of extractivism in the Brazilian Amazon).

Além da UnB e da Ufopa, participaram do estudo pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).


(*) Com informações da UFOPA

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