Inpa receberá nova área de experimentação para testes com o SARS-COV-2

Este será o primeiro laboratório/biotério de nível de biossegurança 3 (NB3) do Amazonas e um dos primeiros da região Norte

O Amazonas ganhará um reforço significativo nas pesquisas com o SARS-COV-2, o vírus causador da Covid-19. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) vai ampliar o Laboratório Temático Biotério Central (LTBC) com a instalação de um módulo de biossegurança nível 3 (biomódulo NB3), para manipular microrganismos altamente patogênicos e de alto risco para população, a exemplo do SARS-COV-2.

Este será o primeiro laboratório e biotério de nível de biossegurança 3 (NB3) do Amazonas e um dos primeiros da região Norte. Junto com o Inpa, o Instituto Evandro Chagas, do Pará, aprovou projeto na Chamada Pública MCTI/Finep que selecionou propostas de apoio financeiro à execução de projetos institucionais para adequação e implantação de infraestrutura física de Laboratórios e Biotérios de nível NB3, destinados à pesquisa, desenvolvimento e inovação para o desenvolvimento de vacinas, tratamentos e estudos ligados à Covid-19.

Bioterio Central. Foto: Cimone Barros/INPA

A nova área de experimentação permitirá ainda que se teste com total segurança os extratos obtidos (de plantas, fungos e animais) e as substâncias que deles são isoladas. Com isso, será possível avaliar a capacidade de plantas, microrganismos e animais de conterem substâncias antivirais, no momento contra o SARS-COV-2. Mas a estrutura permitirá que, no futuro, outros patógenos altamente nocivos de interesse mundial ou local também possam ser trabalhados.

“O objetivo maior é encontrar substâncias ativas contra esse patógeno tão danoso aos seres humanos [SARS-COV-2]. Nós trabalhamos muito para encontrar substâncias ativas. No Inpa, o nosso trabalho já rendeu substâncias antitumorais e antituberculose, a partir de plantas amazônicas, as quais estão na fase pré-clínica. Esperamos também que possamos encontrar substâncias antivirais”, revelou a coordenadora institucional do projeto, a pesquisadora Cecília Verônica Nunez.

Inaugurado em 2012, o Biotério Central é um dos cinco laboratórios temáticos do Inpa e um dos biotérios mais modernos da região. Segundo o responsável pelo Biotério Central do Inpa, o tecnologista Leonardo Brandão, a estrutura multiusuária já produz animais de laboratório de alta qualidade sanitária e genética, isentos de contaminação, proporcionando maior confiabilidade nas pesquisas realizadas pelo Inpa e outras instituições.

“O Biotério Central foi construído e estruturado com equipamentos adequados para nível de segurança NB2, o que nos permite a realização de ensaios em animais com patógenos classificados neste nível de biossegurança, ou seja, para pesquisas com diversas enfermidades como malária e leishmaniose, mas não para o SARS-COV-2”, disse Brandão. 

Bioterio Central. Foto: Cimone Barros/INPA

A principal diferença entre os níveis dos laboratórios é na estrutura de segurança para os pesquisadores que manipulam os microrganismos patogênicos. Uma estrutura NB3 tem cabines de segurança biológica adequadas, sistemas de circulação de ar e outras especificidades de segurança de forma que o pesquisador não se contamine. Todos os equipamentos de proteção individual (EPIs) são descartáveis e protegem totalmente o pesquisador. E esse ar não pode circular para outras áreas. “Cada nível de segurança (NB1 a NB4) permite que determinados organismos possam ser manipulados, dos menos transmissíveis (NB1) a altamente transmissíveis pelo ar (NB4). O SARS-COV-2 pode ser manipulado em nível de segurança 3”, explicou Nunez.

Para poder equipar o Inpa e realizar os testes sobre a Covid-19, é necessário alterar a atual estrutura do Biotério, e o projeto da Finep permitirá a condução das novas pesquisas com Covid-19 e outras doenças que exigem esse ambiente de segurança. O projeto “Implementação de um laboratório NB3 no Laboratório Temático Biotério Central do Inpa” foi aprovado no valor de R$ 2.864.200,00 e terá 12 meses para execução. A assinatura do convênio ocorreu em 26 de novembro de 2020. 

Bioterio Central. Foto: Cimone Barros/INPA

Estrutura

Segundo Nunez, o projeto prevê a instalação de um biomódulo de 72 metros quadrados anexo ao LTBC (Biotério Central), com estrutura de NB-3. A estrutura original continuará disponível para manipular animais (roedores) e patógenos de nível 2 e apenas na nova área é que serão realizados os experimentos com os microrganismos que exigem nível biossegurança 3.

“Desta forma, os espaços ficam melhor distribuídos e poderemos continuar atendendo aos diversos grupos de pesquisa do Inpa e das instituições parceiras, bem como poderemos atender às novas demandas”, destacou Nunez, doutora em química com atuação em bioprospecção de plantas e de microrganismos endofíticos (vivem dentro de plantas sem causar sintoma aparente da infecção).

O projeto abre novas possibilidades de pesquisas. Segundo a pesquisadora, com a atual pandemia da Covid-19, os poucos centros no país que contam com estrutura NB3 estavam direcionados para o auxílio com o diagnóstico e tratamento de pacientes e não tinham condições de receber amostras de outras regiões do Brasil para testar.

Ao conseguir montar essa nova estrutura no Inpa será possível testar a extratoteca (biblioteca de extratos), além das substâncias já isoladas pelo grupo de pesquisas liderado por Nunez (GP – Sociedade-Natureza: bioprospecção, biotecnologia e dinâmicas econômicas e sociais) e dos colaboradores, no Inpa. “Seremos um laboratório de ponta na região norte do país”, conta a coordenadora do projeto.

Cecília Nunez lembra que os equipamentos de pequeno porte foram cortados do projeto aprovado na Finep e orçamento adicional será necessário. “Ainda precisaremos solicitar outros recursos, pois eles são de fundamental importância para complementar os ensaios previstos. Mas, uma vez que conseguimos o recurso mais significativo e estaremos equipados para a realização do grande ensaio sobre o vírus SARS-COV-2, esperamos que possamos encontrar outras fontes de fomento”.

Parceiros

O projeto do Inpa conta com a colaboração da pesquisadora Clarice Weis Arns (Unicamp), que possui elevada experiência em virologia e faz parte da “Rede Vírus-MCTI” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e da “Força Tarefa Coronavírus” da Unicamp e “Força-Tarefa contra a Covid-19” do Instituto de Biologia da Unicamp. Clarice Weis Arns é quem cederá o vírus SARS-COV-2 e estará auxiliando o Inpa a montar a estrutura e treinar as equipes, junto com o responsável pelo Biotério Central, o tecnologista Leonardo Matos, que já possui treinamento em laboratório NB-3.

Também estão engajados no projeto pesquisadores do Inpa que desejavam ter linhagens altamente patogênicas de bactérias e fungos, mas que não poderiam ser manipulados nas estruturas existentes. São eles: João Vicente Braga de Souza, Maurício Morishi Ogusku, Adrian Martim Pohlit, Ceci Sales-Campos, Gemilson Soares Pontes e Helyde Albuquerque Marinho. O projeto conta ainda com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD-Fiocruz-Amazônia) e do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA). 

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