Conservação florestal garante a produtividade do cacau no Pará e na Bahia, mostra estudo

Entre 1985 e 2021, municípios que conservaram ou recuperaram sua cobertura florestal registraram aumento na produtividade do cacau, chegando a 65% no Pará.

Foto: Jeser Andrade Arango/Pixabay

A conservação de florestas favorece a produtividade do cacau na Bahia e no Pará, estados líderes na produção brasileira do fruto, que é o principal ingrediente do chocolate. É o que aponta estudo publicado no dia 30 de janeiro, na revista ‘Environmental Conservation‘ por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e de Goiás (UFG).

No Pará, municípios que preservaram suas florestas tiveram aumento de cerca de 65% na produtividade do cacau desde a década de 80. Já municípios que sofreram forte desmatamento tiveram perdas de produtividade, alguns com reduções de mais de 40%. A maioria dos municípios baianos perderam produtividade ao longo do período de monitoramento, mas aqueles que recuperaram suas florestas tiveram perdas menos acentuadas.

Os pesquisadores reuniram dados históricos sobre a produção do fruto em 161 municípios da Bahia (101) e do Pará (60). A área analisada abrange cerca de 552 mil hectares, o que representa 93% da produção nacional. A equipe calculou a diferença na produtividade entre os períodos de 1985 a 1987 e 2019 a 2021, comparando métricas como variação da cobertura florestal, da extensão de terras cultivadas e do nível de fragmentação florestal, assim como as áreas totais municipais e a porcentagem dedicada ao cultivo.

“Independentemente do histórico de uso do solo nas regiões estudadas, nosso trabalho deixa claro que a perda de cobertura florestal é um fator determinante para a queda na produção”, ressalta Gustavo Júnior de Araújo, pesquisador do ITV e autor principal da publicação. “Os municípios da Bahia vêm sofrendo com a degradação da Mata Atlântica desde o século 18 e a conversão de florestas para agricultura nessa região foi muito intensa”, explica o pesquisador.

O estudo também revelou que os efeitos sobre as propriedades produtoras podem variar conforme o tamanho da área de cultivo. Em municípios paraenses nos quais o cacau não é o principal produto agrícola, a maior cobertura florestal beneficiou apenas grandes propriedades – aquelas com mais de 10 hectares –, possivelmente devido aos maiores recursos financeiros desses produtores. Florestas densas aumentam a distância até centros comerciais e dificultam o acesso a tecnologias, o que pode limitar a lucratividade das pequenas propriedades. Já na Bahia, a produtividade, em ambas as escalas, foi menor em municípios com maior fragmentação florestal.

As conclusões alertam para a necessidade de repensar as práticas agrícolas utilizadas. “Em busca de retornos financeiros mais rápidos, muitos produtores recorrem a monocultivos de cacau a pleno sol, com variedades clonais”, relata Araújo. “Além das incertezas sobre a sustentabilidade desse modelo, a expansão dos monocultivos pode reduzir as florestas naturais e os serviços ecossistêmicos essenciais à cacauicultura”, complementa.

Araújo explica que a conservação das florestas é essencial para a regulação climática natural, proteção do solo, polinização e controle biológico de pragas, por exemplo.

O autor defende a implementação de práticas que equilibram a produção e a conservação das florestas como passo fundamental para uma cacauicultura mais eficiente e ecológica.

“É necessário incentivar políticas públicas que promovam os benefícios dos sistemas agroflorestais, apoiar financeiramente os produtores na transição para sistemas mais sustentáveis e fomentar a pesquisa sobre a viabilidade e os impactos dos monocultivos de cacau”, aponta. Araújo e sua equipe devem continuar contribuindo com a investigação de questões como a influência da diversidade genética das plantas, do clima e dos microrganismos presentes no solo, atentando para a rentabilidade dos produtores de cacau aliada à conservação da floresta.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

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