Imagem: Divulgação
Por Olímpio Guarany*
Em 1954, o psicólogo Leon Festinger se infiltrou em uma seita que acreditava no fim do mundo. Quando a profecia falhou, os mais fervorosos não abandonaram a crença; criaram justificativas fantasiosas: a fé do grupo era tão grande que salvou a humanidade. Festinger chamou isso de dissonância cognitiva — o desconforto de ver a realidade contradizer suas convicções. Para aliviar a dor, o cérebro distorce os fatos antes de admitir o erro.
No Brasil, poucos fenômenos expõem essa dinâmica com tanta clareza quanto o bolsonarismo. E nenhum lugar sofre mais com suas consequências do que a Amazônia.
O bolsonarismo se construiu sobre pilares que se anulam. Discurso de família e moral cristã convive com comportamentos que os violam. Combate à corrupção esbarra em rachadinhas. Liberalismo econômico cede a intervencionismo. Mas é na pauta ambiental que a dissonância atinge seu ponto mais crítico.
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O discurso sempre foi claro: a Amazônia é um entrave, e sua proteção seria um “impedimento” ao agronegócio. As políticas de seu governo refletiram isso — o desmatamento aumentou 73% durante sua gestão, com média anual de 11.396 km², contra 7.145 km² no período anterior. Em janeiro de 2025, a devastação na Amazônia Legal cresceu 68%, atingindo 133 km². Diante desses números, a narrativa não se abala. Para o adepto, aceitar que o ídolo contribuiu para a destruição seria admitir que apoiou a devastação de terras indígenas, o garimpo ilegal e a morte de povos originários. O custo psicológico é insuportável.
Para evitar o colapso, o cérebro aciona válvulas de escape. A atribuição externa joga a culpa no governo Lula, na mídia ou no STF — o erro nunca é interno. A deslegitimação da fonte descarta dados do INPE e do Imazon como “mentira comunista”. A reinterpretação seletiva transforma desmatamento em “necessidade”, grilagem em “regularização” e garimpo em “geração de emprego”. A comparação descendente minimiza o erro: “Sim, desmatou, mas olha o que o Lula fez.”
Há ainda o efeito custo afundado: o bolsonarista radical investiu tempo, relações familiares e identidade nessa crença. Admitir que a política ambiental foi um desastre seria admitir que brigou com parentes e construiu sua vida em torno de uma farsa. É mais fácil dobrar a aposta, radicalizar e criar teorias da conspiração.
Enquanto essa ginástica mental acontece nos centros urbanos, a Amazônia paga o preço. Terras indígenas como a Yanomami viram a devastação avançar. A fiscalização foi esvaziada. O discurso de ódio contra defensores da floresta foi normalizado. A dissonância, aqui, não é apenas um fenômeno individual — tornou-se uma política pública tóxica, que permite a destruição impune e acelerada.
A dissonância é uma escolha confortável, mas a Amazônia não oferece conforto. Enquanto o apoiador se esconde em justificativas, o garimpo avança e o mercúrio envenena o futuro. Ele sabe disso — e por isso nega com tanta violência. Porém, a dissonância não apaga um hectare de floresta nem ressuscita um peixe. A verdade, aqui, tem cheiro de fumaça e cor de rio barrento. A floresta não negocia com a psicologia, e contra a realidade não há desculpa que segure.
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Sobre o autor
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
*O conteúdo é responsabilidade do colunista
