Sol e calor em Manaus. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
O avanço do período mais seco do ano no Amazonas, o chamado “verão amazônico“, escancara um contraste de temperaturas marcante no cotidiano de Manaus. Enquanto áreas arborizadas conseguem manter climas mais amenos, bairros altamente urbanizados de Manaus enfrentam temperaturas sufocantes por conta do fenômeno das ilhas de calor.
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As ilhas de calor acontecem quando superfícies construídas pelo homem, como asfalto, concreto, telhados e tijolos, absorvem o calor do sol durante o dia e o liberam lentamente para o ambiente. A falta de vegetação e a pavimentação fazem com que quarteirões inteiros acumulem radiação solar, elevando a temperatura do ar.
Diante desse cenário, a dra. Luciana Gatti, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), faz um alerta sobre a necessidade de adaptação urbana. Segundo a especialista, a explicação para o aquecimento desigual na cidade está no alto nível de urbanização e na impermeabilização do solo.
A intensa concentração de asfalto, concreto e telhados escuros faz com que o ambiente urbano funcione como um acumulador térmico: essas superfícies absorvem a radiação solar ao longo do dia e devolvem a energia na forma de calor, impedindo que os bairros consigam resfriar até mesmo durante a noite.
“Para a nossa sobrevivência, a gente precisa de cidades menos quentes”, destaca a pesquisadora.
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Por que Manaus sente tanto o impacto das ilhas de calor?
Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma combinação de fatores climáticos e de ocupação do solo torna Manaus vulnerável ao acúmulo de calor. A localização geográfica sob o clima equatorial já impõe, por natureza, taxas elevadas de umidade e alta incidência de radiação solar durante todo o ano. No entanto, é a transformação do espaço urbano que potencializa o problema.
Impermeabilização do solo: a pavimentação densa sobre antigas áreas verdes impede a infiltração da água da chuva. Sem água retida no solo para evaporar, a cidade perde o mecanismo natural de resfriamento da terra.
Retenção no asfalto e concreto: a predominância de materiais escuros na pavimentação e nas construções possui baixo índice de refletividade (albedo). Na prática, o asfalto e o concreto funcionam como ‘esponjas térmicas’ que absorvem a energia do Sol de dia e a liberam de noite.
Barreiras para a circulação do ar: o avanço acelerado e muitas vezes desordenado de construções e edifícios em diversos bairros cria bloqueios físicos. Essas barreiras impedem que as brisas úmidas sopradas pelos rios Negro e Amazonas circulem pela cidade.
De acordo com a meteorologista Andrea Ramos, o nível baixo dos rios durante a seca típica do verão amazônico, que ocorre entre julho e novembro, não produz diretamente uma massa de ar quente sobre Manaus. O que favorece o calor é o mesmo ambiente atmosférico que contribui para a estiagem: menor frequência de chuva, menor nebulosidade e maior incidência de radiação solar.
“Quando o solo e a vegetação perdem umidade, a energia solar deixa de ser utilizada na evaporação da água e passa a ser convertida em calor sensível, aquecendo diretamente o ar próximo à superfície. O calor atual deve ser interpretado principalmente pelo padrão atmosférico e sazonal”, pontua Andrea Ramos.

‘Urgente que o poder público comece a reverter isso’, avalia especialista
Para a pesquisadora do INPE, a falta de arborização urbana aliada aos materiais da construção civil transforma as cidades em ambientes hostis e perigosos durante eventos extremos de calor.
“O pessoal não tem as cidades muito arborizadas e isso faz com que fiquem mais quentes. É urgente que o poder público comece a reverter isso porque nós vamos ter cada vez mais ondas de calor, e elas serão mais intensas”, alerta Luciana Gatti. A cientista reforça que intervenções estruturais e atitudes simples nas moradias podem atuar como aliadas imediatas para aliviar o calor interno das casas.
“Pintar as casas de branco, inclusive no telhado ou principalmente no telhado, ajuda a refrescar porque a energia solar reflete. Quanto mais escuro o cimento ou o asfalto, mais capacidade de absorver calor ele tem. Ele absorve a radiação e segura o calor ali na casa”, explica Gatti.
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Como a umidade de Manaus agrava sensação de calor?
O impacto das ilhas de calor ganha contornos ainda mais críticos em Manaus devido às condições da atmosfera equatorial. Durante o verão amazônico, a redução de nuvens permite longas horas de incidência direta do Sol sobre o asfalto. No entanto, esse aquecimento severo ocorre em um ambiente que permanece com alta umidade relativa.
A meteorologista Andrea Ramos explica que essa combinação é o fator determinante para o risco à saúde humana na capital. Ela relata que quando a umidade está elevada, o suor evapora com menor eficiência, reduzindo a principal forma de resfriamento. Assim, uma temperatura de 36°C ou 37°C pode produzir uma sensação térmica significativamente maior do que o valor indicado pelo termômetro.
“No verão amazônico, há redução das chuvas e da nebulosidade, o que permite mais horas de incidência direta de radiação solar e maior aquecimento da superfície ao longo do dia. Em Manaus, esse efeito ocorre em um ambiente que continua relativamente úmido”, explica.
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Arborização como escudo: vegetação pode reduzir temperatura em até 4°C
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que a criação de corredores verdes e a arborização planejada têm capacidade de reduzir a temperatura ambiente em cerca de 4°C nos pontos mais críticos da cidade.
As especialistas destacam três medidas fundamentais de mitigação para conter as ilhas de calor em Manaus:
Arborização massiva: plantio de árvores em calçadas, quintais e canteiros centrais para gerar sombreamento e resfriamento por evapotranspiração.
Uso de superfícies claras: adoção de tintas e materiais refletivos em telhados e fachadas para evitar que a radiação fique retida nas moradias.
Proteção de igarapés e florestas urbanas: preservação dos fragmentos vegetais que funcionam como ‘janelas de respiro’ e ajudam a circular a brisa vinda dos rios para o interior dos bairros.
*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM
