“Há uma relação direta entre o clima e o desmatamento”, alerta geógrafo

A Floresta Amazônica, maior floresta tropical do mundo, passa por um processo de transformação devido ao avanço do desmatamento, e dos efeitos das mudanças climáticas globais.

Floresta Amazônica. Foto: Reprodução/Polícia Federal

A Floresta Amazônica, maior floresta tropical do mundo, passa por um processo de transformação devido ao avanço do desmatamento, e dos efeitos das mudanças climáticas globais. Esse processo ameaça levar o bioma a um ponto onde o retorno se torna inviável, e a floresta pode colapsar, perdendo sua capacidade de regular o clima, armazenar carbono e manter a biodiversidade.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Segundo o doutor em geografia Deivison Molinari, professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é fundamental compreender que as mudanças climáticas não são um fenômeno recente, mas assumiram características distintas a partir da ação humana.

“Na Terra já acontecem mudanças climáticas antes do ser humano surgir, como as atividades vulcânicas, a separação dos continentes e as glaciações, vistas nos filmes da Era do Gelo. No entanto, as mudanças climáticas que estão sendo discutidas hoje referem-se ao que o ser humano tem interferência, sobretudo por duas variáveis: a demanda de recursos naturais e o processo de industrialização”, explicou o professor. 

De acordo com Molinari, a demanda de recursos naturais como a água, energia e combustíveis fósseis para a mobilidade de carros, além do processo de industrialização com o uso de combustíveis fósseis, carvão e petróleo, vão determinar muitos impactos negativos ao clima.  

Leia também: Mudanças climáticas ameaçam biomas brasileiros e destacam papel do ecoturismo na COP 30

O papel da floresta 

A Amazônia, apesar de ser uma floresta do Brasil, cumpre funções vitais para todo o planeta. Os chamados ‘rios voadores’, massas de vapor d’água transportadas pela atmosfera, garantem chuvas que irrigam desde o Centro-Sul do Brasil até outras partes da América do Sul, mantendo um equilíbrio climático. 

Floresta Amazônica vista de cima
Foto: Reprodução/Mapbiomas

Com o desmatamento esse ciclo é interrompido, já que menos árvores significam menos evapotranspiração, resultando na redução de chuvas e no aumento da temperatura.

“A Amazônia tem um papel muito importante, pois boa parte das chuvas que ocorrem no sul e no sudeste brasileiro vem da região. Se desmatar a Amazônia, menos umidade será levada para outras regiões do mundo, o que afeta o globo”, afirmou Molinari. 

Os impactos locais e imediatos

Além das mudanças globais, o desmatamento também traz efeitos negativos para as pessoas, já que cidades como Manaus (AM) já enfrentam ondas de calor mais intensas, ilhas de calor urbano e a diminuição das áreas verdes. 

Além disso, a redução da floresta modifica o regime de chuvas, prolonga o período seco e aumenta a ocorrência de queimadas. 

“Há poucas áreas verdes, poucos fragmentos e o calor é muito grande. Há uma relação direta entre o clima e o desmatamento em grande e em pequena escala”, afirmou o professor. 

Leia também: Riscos das mudanças climáticas e da poluição por microplásticos para a saúde dos igarapés da Amazônia são analisados em pesquisa

Área desmatada da Floresta Amazônica
Área desmatada da Floresta Amazônica. Foto: Mayke Toscano/ Gcom-MT

Um estudo publicado na Nature Communications analisou dados de 35 anos (1985–2020) para medir os impactos combinados das mudanças globais e do desmatamento sobre a Amazônia. 

Os resultados mostram que a cobertura florestal caiu de 89,1% para 78,7% no período, as pastagens aumentaram de 4,2% para 14,8%, a temperatura máxima do ar subiu em média 2 °C, sendo 83,5% desse aumento atribuídos ao aquecimento global e 16,5% ao desmatamento, a precipitação na estação seca caiu 21 mm e em regiões onde mais de 28% da floresta foi derrubada, a estação seca já dura cinco semanas a mais do que em 1979. 

Se esse limite for ultrapassado, a floresta úmida pode se converter em um ecossistema mais seco, semelhante ao Cerrado ou à Caatinga, e atingir uma perda irreversível de biodiversidade. 

Efeito dominó 

O cientista Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em seu estudo sobre ‘As mudanças climáticas globais e a floresta Amazônica’ também alerta para os riscos das interações entre o clima e o desmatamento, destacando que a redução da densidade da madeira, a morte de árvores por estresse hídrico e a liberação de carbono do solo aumentam a vulnerabilidade da floresta. 

Caso atinja uma situação extrema, existe um risco de um ‘efeito estufa fugitivo’, em que o processo de aquecimento global escaparia do controle humano.

Leia também: Editais são lançados pelo governo federal para restaurar áreas no Arco do Desmatamento: R$ 79 milhões

Floresta Amazônica
Fragmento de floresta Amazônica. Foto: Vinicius Braga

De acordo com o estudo, se a trajetória atual não mudar, até 2035 a Amazônia pode registrar:

  • Aumento de 0,62 °C na temperatura máxima;
  • Redução de 7,3 mm nas chuvas da estação seca;
  • Liberação crescente de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄).

Isso compromete não só a floresta, mas também setores da economia, como a agricultura, que depende das chuvas mantidas pela floresta, e a produção de energia hidrelétrica, ameaçada pela redução da vazão dos rios.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui 

Meios de preservação 

O climatologista e catedrático do Instituto de Estudos Avançados da USP, Carlos Nobre, durante sua apresentação na SciBiz Conference 2025, destacou no painel ‘Amazônia e a busca de soluções para evitar o ponto de não retorno’ as possíveis soluções para se evitar atingir o limite. 

O primeiro passo é zerar o desmatamento, especialmente em áreas de floresta intacta, ao mesmo tempo que é preciso investir na restauração de áreas degradadas, para recuperar o ciclo hidrológico e aumentar a resiliência do bioma.

Além disso, também é necessário fortalecer o papel dos povos indígenas e comunidades tradicionais, reconhecidos como os principais guardiões da floresta.

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Lucia Alberta Baré: amazonense é nomeada nova presidenta da Funai

Antes de assumir funções de direção na Funai, Lucia Alberta Baré atuou por oito anos na Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira (AM).

Leia também

Publicidade