Anomalia da temperatura da superfície em mar em abril de 2026. Fonte: CPTEC/INPE
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM) publicaram uma nota técnica conjunta com as análises mais recentes sobre a possível evolução do fenômeno El Niño ao longo de 2026. O documento indica aumento da probabilidade de formação do fenômeno ainda neste ano, especialmente ao longo do segundo semestre.
De acordo com a nota técnica, a parte mais superficial do Oceano Pacífico equatorial encontra-se, desde o início do ano, em condições próximas da neutralidade. No entanto, o oceano subsuperficial vem apresentando sinais de aquecimento anômalo das águas.
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Essas anomalias se propagam em direção ao continente pelo Pacífico e afloram na superfície, especialmente na porção leste do oceano, onde a termoclina – camada que separa as águas mais profundas das superficiais – tende a se localizar mais próxima da superfície. O aquecimento das águas superficiais observado ao longo de abril reforça o indicativo de transição para o El Niño nos próximos meses.
Segundo previsões do Centro de Previsão Climática (CPC) da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), há cerca de 60% de probabilidade de estabelecimento do fenômeno no trimestre maio-junho-julho. As previsões da nota conjunta indicam ainda alta probabilidade, superior a 80%, de configuração do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até o início de 2027. A intensidade do fenômeno ainda não pode ser definida, embora exista a possibilidade de que o evento atinja, ao menos, intensidade moderada.

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, que altera a circulação atmosférica e influencia as condições meteorológicas e oceânicas em diversas regiões do planeta. Como explica o chefe da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do INPE, Enver Ramirez:
“O El Niño é um fenômeno que obedece às interações entre diversos componentes do sistema terrestre, principalmente entre o oceano e a atmosfera. Pequenas alterações podem impactar vários parâmetros, como a intensidade, a duração do evento e os efeitos que o fenômeno pode ter em diferentes regiões do planeta. Assim, mesmo que o ápice do evento aconteça no final do ano, alguns episódios associados ao fenômeno podem ser sentidos em diferentes regiões ao longo do seu desenvolvimento”, explica.
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Impactos diferentes no Brasil
No Brasil, os impactos do El Niño tendem a se manifestar de forma distinta entre as regiões. Em geral, há aumento da probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e déficit de precipitação em áreas da Amazônia, especialmente em sua porção leste, além de condições mais secas em partes das regiões Norte e Nordeste.
Essas características, no entanto, podem variar conforme a intensidade do fenômeno e a influência de outros fatores climáticos, como as condições do Oceano Atlântico, que têm se mostrado importantes especialmente para as regiões Norte e Nordeste.

A nota técnica também alerta para o risco de ocorrência de eventos climáticos extremos associados ao fenômeno e seus potenciais impactos em diferentes setores da sociedade e da economia, como abastecimento de água, segurança alimentar, geração de energia, mobilidade, saúde pública e atividades produtivas.
Nesse contexto, as instituições que assinam a nota destacam a importância do acompanhamento sistemático das condições oceânicas e atmosféricas, bem como das previsões meteorológicas e climáticas divulgadas pelos órgãos oficiais, uma vez que o monitoramento contínuo permite aprimorar as previsões e subsidiar ações de planejamento, prevenção, mitigação e resposta frente aos possíveis impactos identificados.
El Niño: preocupação mundial
A probabilidade do aumento do fenômeno El Niño também chamou a atenção de autoridades internacionais. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo também espera o aumento das temperaturas globais dos oceanos já para maio deste ano.
“É apenas uma questão de dias. 2027 provavelmente ultrapassará 2024 como o ano mais quente já registrado”, apontou Samantha Burgess, climatologista do observatório Copernicus da Europa.
O Centro de Previsão Climática (CPC) do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) dos Estados Unidos da América também alertou que há 82% de probabilidade do fenômeno se manifestar de forma forte ou muito forte neste e no próximo ano.
Essa previsão também deste serviço mantido pelo governo americano indica que há 96% de probabilidade de que esse fenômeno continue ocorrendo entre dezembro deste ano e fevereiro do ano que vem. Isso é corroborado por registros da temperatura da água do mar na zona equatorial central e oriental do Oceano Pacífico.
O fenômeno El Niño geralmente ocorre quando a temperatura do mar aumenta mais de 0,5 graus Celsius acima da média. Atualmente, segundo o CPC, esse valor permanece ligeiramente abaixo, no entanto, espera-se que aumente em junho.
“Em resumo, é provável que o El Niño apareça em breve (82% de probabilidade entre maio e julho de 2026) e continue durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27 (96% de probabilidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027)”, afirma o diagnóstico do CPC.
Em declarações à CNN, Michelle L’Heureux, cientista responsável pela previsão do El Niño no CPC, indicou que é possível que nos próximos meses esse fenômeno seja mais intenso do que nos anteriores.
Ele afirmou que isso dependerá da continuidade de certas tendências de mudança tanto na atmosfera quanto nas águas do Pacífico. Como exemplo, citou o enfraquecimento dos ventos equatoriais enquanto, simultaneamente, a temperatura do oceano aumenta.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) indicou esta semana que existe uma grande possibilidade de 2026 e 2027 figurarem entre os cinco anos mais quentes já registrados.
*Com informaçoes do INPE e da Agência Andina
