Será que as araras realmente conversam com os humanos? Especialista explica relação comunicativa

Entenda como funciona a comunicação entre as araras e de que forma ela se relacionam com os seres humanos.

Com alta capacidade de aprendizagem, memória e associação, araras podem relacionar palavras a pessoas, objetos e situações. Foto: Divulgação

Quem já viu uma arara “respondendo” a uma pessoa provavelmente ficou com a impressão de que a ave entende exatamente o que está sendo dito. Mas será que esses animais realmente compreendem as palavras da mesma maneira que os seres humanos? A resposta é mais complexa — e revela o quanto a inteligência das aves pode surpreender.

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Segundo a bióloga e mestre em Botânica Joana Corbellini, não é possível afirmar que uma arara tenha consciência de sua própria identidade da mesma forma que uma pessoa. Quando uma ave parece corrigir alguém que a chama de “papagaio”, por exemplo, o comportamento pode estar relacionado à sua capacidade de aprender e associar determinadas palavras a situações específicas.

Araras, papagaios, periquitos e cacatuas fazem parte do grupo dos psitacídeos, conhecido pela elevada capacidade de aprendizagem, memória e associação. Algumas dessas aves conseguem estabelecer associações referenciais, relacionando vocalizações a objetos, cores, formas, quantidades ou situações. Um dos exemplos mais conhecidos na ciência é o papagaio-cinzento-africano Alex, estudado pela pesquisadora Irene Pepperberg, que demonstrou experimentalmente a utilização de palavras em contextos específicos.

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Imagem colorida mostra araras, animais da Amazônia
Foto: Germano Roberto Schüür

Como uma arara consegue imitar a voz humana?

Ao contrário dos seres humanos, que produzem a voz principalmente por meio das pregas vocais, as aves utilizam uma estrutura chamada siringe, localizada na região inferior da traqueia. Nos psitacídeos, o controle preciso da língua, do bico e do trato vocal permite modificar os sons e reproduzir padrões bastante semelhantes à fala humana, inclusive ritmo e entonação.

Mas não significa que a ave tenha uma “voz humana”. Ela utiliza um sistema anatômico completamente diferente para produzir sons que apresentam características acústicas semelhantes às nossas palavras. A explicação para a impressão de que as aves conversam com seus tutores também passa pela vida social desses animais, já que na natureza as araras e papagaios utilizam vocalizações para manter contato e interagir com outros indivíduos. Quando vivem em ambientes domésticos, os seres humanos passam a fazer parte desse grupo social.

Assim, a ave pode aprender que determinadas vocalizações provocam respostas, como atenção, interação ou alimento. Isso ajuda a explicar comportamentos como dizer “oi” quando alguém chega, chamar uma determinada pessoa ou repetir sons que provocam alguma reação.

O problema é que inteligência não significa domesticação, portanto, a capacidade de aprender e interagir com humanos pode tornar as araras fascinantes, mas também é justamente um dos motivos pelos quais elas não são animais adequados para a maioria das residências.

Araras são animais silvestres, altamente sociais, inteligentes e ativos. Precisam de espaço para movimentação e voo, interação social, enriquecimento ambiental, estímulos cognitivos e alimentação específica. Além disso, possuem vocalização naturalmente intensa, bico muito potente e podem viver várias décadas.

Quando mantidas em ambientes pouco estimulantes, submetidas a confinamento prolongado ou sem interação adequada, podem apresentar alterações comportamentais, como agressividade e vocalização excessiva. Também podem desenvolver comportamentos como arrancar as próprias penas, situação que pode ter diferentes causas e requer avaliação veterinária.

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Tocantins
Arara-canindé. Foto: Reprodução/Instituto Arara Azul

A origem da arara

A origem do animal também é um ponto fundamental. No Brasil, animais silvestres não devem ser retirados diretamente da natureza para serem mantidos como animais de estimação. Quando houver aquisição legal, é necessário verificar a procedência e a documentação, evitando contribuir com o comércio ilegal e o tráfico de fauna.

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Foto: Reprodução/Agência Belém

Para Joana, conhecer melhor a inteligência e a complexidade comportamental das araras também aumenta a responsabilidade sobre a forma como esses animais são tratados.

A capacidade de imitar a fala humana pode ser fascinante, mas representa apenas uma pequena parte da biologia desses animais. Antes de querer uma arara em casa, é preciso compreender que se trata de uma ave silvestre altamente social, longeva e cognitivamente complexa, cujas necessidades dificilmente são atendidas adequadamente em uma residência convencional.

*Com informações da assessoria

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