Animais aquáticos sofrem com os impactos do El Niño em seu habitat. Arte: Magnific
Naqueles dias de calor, tudo o que se deseja é dar um mergulho na piscina ou no igarapé para refrescar, não é mesmo? Mas, quando as temperaturas se elevam radicalmente, até quem vive dentro d’água sente os impactos desse desequilíbrio no clima. O boto, animal conhecido na Amazônia como o ser encantado que, à noite, se transforma em um jovem galanteador vestido de branco e namora as jovens das comunidades ribeirinhas – quando está nas águas, em sua forma cor-de-rosa, é um dos mais afetados em períodos de secas extremas.
Isso acontece, pois, diferente de outros animais que conseguem se deslocar por terra, como ariranhas e lontras, eles ficam apenas no ambiente aquático. Logo, quando as chuvas diminuem e o nível da água baixa, eles podem ficar presos em trechos mais isolados dos rios.
É o que revela uma pesquisa feita por Gabriel Melo-Santos, doutor em Teoria e Pesquisa do Comportamento pela UFPA, pesquisador do Instituto BioMA (Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia) e do Grupo de Mamíferos Aquáticos Amazônicos, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.
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De acordo com Gabriel, os efeitos de fenômenos climáticos como o Super El Niño afetam diretamente a saúde desses animais.
“Durante o El Niño, a água esquenta muito, e os botos, como mamíferos, têm sua temperatura corporal constante. O organismo deles não funciona adequadamente ao enfrentar altas temperaturas. Eles podem até morrer. Isso já aconteceu em uma superseca, em 2023, quando centenas de botos morreram na Amazônia Central”, afirma ele.
O pesquisador frisa que, além dos botos, todo o ambiente aquático sofre com esses eventos intensos, resultado de décadas de exploração e degradação da natureza. Gabriel Melo-Santos afirma que um exemplo disso é quando os rios são fragmentados em pequenas partes para a construção de barragens, alterando o fluxo e a qualidade da água, gerando grandes mudanças nos habitats onde vivem animais aquáticos e diversas comunidades de peixes.
Tartaruga é o animal que mais sofre
Outro grupo de animais atingido pela crise climática são os quelônios, répteis marcados por suas carapaças ou cascos ósseos que possuem espécies aquáticas na Amazônia, como as tartarugas. De acordo com Iago Barroso, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOOL/UFPA), assim como os botos, as tartarugas também são impactadas pela vazão dos rios e pelo superaquecimento das águas, tendo em vista que são animais ectotérmicos, isto é, sua temperatura varia de acordo com a do ambiente em que estão.
No entanto algumas espécies de quelônios se caracterizam por suas necessidades ambientais bem específicas, como aquelas pertencentes ao gênero dos Podocnemis, como a Podocnemis expansa, mais conhecida como “tartaruga-da-Amazônia”.
“Quando diminui a vazão, fica menor a disponibilidade de planícies inundáveis, que também chamamos de ‘igapó’. Esses ambientes são importantes para a conservação da vida de várias espécies de quelônios na nossa região. São áreas de alimentação e de reprodução”, explica o biólogo sobre os animais.
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Além disso, no período de calor, os quelônios sofrem interferências que podem afetá-los desde o seu desenvolvimento nos ninhos. Em algumas espécies, a determinação sexual está associada à temperatura na formação dos ovos. Normalmente, em temperaturas mais quentes, há probabilidade de nascerem mais fêmeas.
Iago Barroso relata que esse possível desequilíbrio na proporção entre machos e fêmeas pode se tornar, a longo prazo, um fator de pressão sobre as populações de quelônios.
“Somado à redução das áreas de distribuição e a outras ameaças provocadas pelas mudanças ambientais, esse descompasso pode comprometer a manutenção dessas populações”, afirma ele.
Para enfrentar esses eventos, algumas espécies conseguem alterar suas atividades. Em vez de forragearem, ou seja, buscarem alimentos durante a manhã, elas fazem isso no início da noite. Mesmo assim, o especialista alerta que pode haver modificação na qualidade da alimentação desses animais, já que a mudança de horário influencia o fluxo das águas, das presas e da caça.

O que fazer ao encontrar um animal encalhado
Se você encontrar um animal aquático em sofrimento, com dificuldade de locomoção em um ambiente muito seco, entre em contato com um órgão ambiental, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), para fazer o resgate ou redirecionamento adequado o mais rápido possível. Por serem grandes e difíceis de manejar, uma pessoa sem experiência pode machucar um animal ou se machucar tentando ajudar.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Karina Moraes.
