Carregamento de mercadorias no Armazéns Coimbra (2000). Foto: Acervo da família
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
A cofundadora do “ARMAZÉNS COIMBRA”, Branca Virgínia Seco da Costa Ferreira, nasceu em Portugal, na vila de Penacova, no Distrito de Coimbra, em 14 de julho de 1936. Filha de Heliodoro da Costa, proprietário de fornos de cal – indústria predominante naquela região – , e de Maria Branca Nogueira Seco, que conciliava as atividades domésticas com as de serviço às terras familiares, teve dois irmãos: Amândio Seco da Costa (in memoriam) e Maria de Lourdes Seco da Costa Passadouro.
Seus pais envidaram grandes esforços para que os filhos tivessem acesso ao restrito mundo da educação, privilégio de alguns à época. A dedicação aos estudos no Ensino Primário, fez com que sua Mestra convencesse seus pais a levarem-na para estudar em Coimbra, onde se formou, em 1956, na Escola do Magistério Primário de Coimbra.
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Numa época em que as mulheres deveriam ter como objetivo primeiro o casamento, Branca Ferreira definiu como prioridade o exercício da profissão do Magistério. Em 1959, por aprovação em concurso público, foi assumir a Escola Primária em Vilarinho do Alva, distante 20 km de sua casa no Casal de Santo Amaro (Penacova).
Professora dedicada, logo cativou os alunos e seus familiares, dentre os quais o tio de uma delas, que, vivendo no Brasil, no Amazonas, havia retornado à sua terra natal, pela terceira vez, com o propósito de construir uma casa para seus pais: o jovem Acácio Duarte Ferreira.
O forte e verdadeiro sentimento entre os dois impôs à jovem professora decisões difíceis, que marcariam doravante sua trajetória. Decidir pelo amor, levou a um conflito com os pais pela separação iminente: a distância não seria mais de 27 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Coimbra) ou ainda de 20 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Vilarinho do Alva), mas de milhares de quilômetros incluindo o Oceano Atlântico. Contudo, o tempo, com a evolução da tecnologia que foi diminuindo distâncias e facilitando deslocamentos, permitiu contornar.
Mas houve uma decisão amarga, que não pode ser revista nem contornada: a da desistência do exercício do Magistério. À época, em Portugal, o Decreto-Lei n.º 49473 determinava que o casamento das professoras do ensino primário dependia de autorização do Ministro da Educação Nacional, que só a concedia perante prova de situação moral e econômica do cônjuge compatível com o prestígio exigível para o exercício da função docente.
O casamento ocorrido, em 30.07.1959, no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Vila Nova de Ourém, em Portugal, selou as escolhas. No embarque em Lisboa em 25.01.1960 com destino ao Brasil, as últimas luzes avistadas sobre o Rio Tejo fizeram-na saber que ali se encerrava um ciclo de sua vida.
A Amazônia apresentou-se a ela em 18.02.1960, numa madrugada escura com uma leve neblina e uma chuva miudinha. Sob os olhares curiosos dos presentes ao cais do porto, o casal pisou o solo manauara. O casario à beira do rio mostrou uma realidade distante da imaginada, evidenciando desafios que somente a formação familiar e moral viriam a permitir enfrentar de forma exitosa, encontrando no nascimento da primogênita do casal, Socorro de Fátima Branca Seco Ferreira, em setembro daquele ano, uma razão a mais para lutar.

A percepção da árdua luta do esposo, no comércio que possuía na parte interna do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, e a disposição sempre presente de ajudar, fizeram com que suas visitas diárias para deixar a merenda fossem ficando a cada dia mais demoradas, na medida em que o ajudava no atendimento aos clientes e envolvia-se nas atividades burocráticas, entrando para o ramo do comércio.
A família ampliou-se com o nascimento da segunda filha, Acácia Branca Seco Ferreira, em Portugal, e, anos mais tarde, com o nascimento do benjamim, Acácio Sérgio Seco Ferreira, desta vez em Manaus. A ampliação da organização familiar aconteceu em paralelo com o seu crescimento na atividade comercial, que levaria à constituição, em 2.05.1967, de uma sociedade limitada com o seu esposo, em igualdade de condições – quer na participação societária, quer na gestão – , e que gira, há 59 anos, sob a designação de “ARMAZÉNS COIMBRA”, mas que a sociedade manauara conhece como a “Loja da D. Branca”.
Com sede inicialmente na Rua dos Barés, n.º 22, na parte externa do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, permanece o empreendimento no mesmo local, hoje sob o n.º 5. A reforma do mercado levou à transferência da sede da empresa, em 1977, para o local de funcionamento do seu depósito, localizado na Rua Mundurucus, n.º 90. Com a reabertura do mercado, o espaço, em 1980, passou a abrigar a Filial 1. Anos mais tarde, em 2006, uma nova reforma levaria à transferência dessa filial para o imóvel localizado na Rua dos Barés, n.º 264. O espaço subtraído à loja pela nova reforma do mercado limitou a oferta de produtos no local impedindo a transferência da Filial 1 e dando espaço à abertura, em 2014, da Filial 2.

Nessas seis décadas, sob sua liderança, o Armazéns Coimbra atravessou tempos turbulentos, destacando-se sempre pela comercialização de produtos seletos e de boa qualidade, em especial o bacalhau. Sempre gerenciou o seu empreendimento como um ambiente familiar, onde cada colaborador sempre foi percebido como membro da família, resultando em vínculos de trabalho de mais de quatro décadas com alguns deles e até despertando sentimento filial em outros, como Maria Terezinha de Jesus Oliveira. Mestre na arte do convívio, soube fazer de cada fornecedor um parceiro e de cada cliente, um amigo.
O reconhecimento do seu empreendimento pelo seu nome resulta de uma trajetória alicerçada numa fé inabalável em Nossa Senhora de Fátima, marcada por trabalho árduo, jornadas exaustivas e intensa vontade de ajudar, a qual serve de inspiração aos netos Ataliba David Antônio Neto, Marcelo Acácio Ferreira David Antônio e Soraya Natasha Ferreira David Antônio, assim como a todos que a cercam.

Se o reconhecimento do seu trabalho para a consolidação do “ARMAZÉNS COIMBRA” é fato; também o é de que o empreendimento somente se tornou possível pela luta de seu cônjuge Acácio Duarte Ferreira. Esse jovem português, que, ao despertar para a mocidade num Portugal pós-Segunda Guerra Mundial marcado por forte repressão interna e pobreza, viu-se obrigado a deixar para trás sua família e sua terra natal.
Nascido, em 6.02.1930, na pitoresca aldeia de Vilarinho do Alva, localizada na freguesia de Pombeiro da Beira, pertencente ao concelho de Arganil, no Distrito de Coimbra, Acácio Ferreira – o filho mais velho do casal de agricultores Artur Duarte Ferreira e Eugênia Dias Soares – foi mais um dos inúmeros portugueses que participaram do forte movimento de emigração para o Brasil.
A Amazônia, cujos ciclos da borracha incentivaram a vinda de inúmeros portugueses que acabaram por dominar o comércio, havia, anos antes, atraído o seu tio Armindo Dias Soares, irmão de sua mãe, que, com muito trabalho, tornou-se sócio de duas lojas comerciais: Casa Dias e Renascença. Com a vida estabelecida, providenciou a vinda de dois sobrinhos, filhos de seus irmãos: Acácio Ferreira e Armando Soares.

Embalado pelo sonho de voltar a Portugal, neste solo manauara o menino fez-se homem a trabalhar arduamente, primeiro com o seu tio e depois no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, onde inicialmente trabalhou na parte interna. Logo, seria a sua vez de viabilizar a vinda do seu irmão caçula Armindo Soares Ferreira e, mais tarde, de sua irmã Maria da Piedade Lopes, já casada com Benjamim Duarte Lopes.
A preocupação em preparar-se para a atividade empresarial fez com que conseguisse a proeza de conciliar jornadas exaustivas de trabalho, que começavam ainda na madrugada, com intenso estudo para obter a formação em nível médio, em datilografia e tirar a carteira de condução para poder dirigir caminhão.
Com disciplina elevada e trabalhando como um mouro, conseguiu em pouco tempo juntar dinheiro para tornar-se sócio da Casa Batista, localizada na parte externa do Mercado e onde ainda hoje funciona a Filial 2. A sociedade feita com Manuel Rodrigues de Almeida deu origem a RODRIGUES & FERREIRA LTDA., que viria a ser sucedida pela empresa ACÁCIO DUARTE FERREIRA & CIA. LTDA., resultante da sociedade daquele homem visionário com sua esposa, e que foi registrada na Junta Comercial do Amazonas em 5.05.1967. A escolha do nome de fantasia “ARMAZÉNS COIMBRA” aviva a condição de emigrante de seus fundadores, que escreveram suas histórias de vida servindo à sociedade manauara.
Por Acácia Branca Seco Ferreira: Administradora, Contadora e Advogada. Membro da Academia Brasileira da Qualidade – ABQ; Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – IGHA; Membro da Academia Amazonense de Administração – ACAAD; Integrante do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade – CETUR-AM (FECOMERCIO-AM); Integrante da Diretoria da Associação Comercial do Amazonas – ACA; Integrante da Diretoria do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso Brasileira do Amazonas.
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Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
