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Quinta, 01 Dezembro 2022

Rosalina da Silveira, a professora morta no Acre que atrai fiéis em busca de milagres

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O cemitério mais antigo da capital acreana, o São João Batista, inaugurado em 1909, possui diversos residentes célebres em suas sepulturas, incluindo o ex-governador Edmundo Pinto, assassinado em 1992 em um quarto de hotel em São Paulo, e membros de algumas das famílias mais tradicionais de Rio Branco

No entanto,  o túmulo de uma professora, Rosalina da Silveira, assassinada aos 20 anos, no começo da década de 1940, está entre os mais visitados por sua suposta capacidade de fazer milagres.

De acordo com o historiador Marcus Vinícius das Neves, as versões divergem um pouco, mas a história da professora Rosalina Sousa Silveira permeia o imaginário coletivo da população de Rio Branco, pouco mais de sete décadas, após o assassinato da jovem por um presidiário que teria se apaixonado por ela.
Após morte trágica, professora ganhou fama de milagreira. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Segundo Neves, Rosalina era uma professora muito jovem que dava aula no antigo Grupo Escolar 7 de Setembro, onde hoje é o Palácio das Secretarias, no Centro da capital e morava mais ou menos em frente ao atual Colégio de Aplicação, na Avenida Getúlio Vargas.

Na mesma época, funcionava também no Centro da capital, a Penitenciária Ministro Vicente Rao, onde hoje está a sede da Prefeitura de Rio Branco. Inaugurada no final da década de 30 só foi desativada no final dos anos 40, quando o governador Guiomard Santos inaugurou a Colônia Penal fora da área urbana. "Muito provavelmente essa penitenciária foi desativada em razão do que aconteceu com a professora Rosalina", comenta Neves.

Atrás da penitenciária havia uma área separada apenas por um alambrado onde os presos tomavam sol. Um desses presos era um homem conhecido apenas como Lázaro, que segundo o historiador, seria extremamente violento e evitado pelos próprios presos.

"O único amigo que ele tinha era um jornalista de nome Praxedes, que o visitava regularmente e acabou se tornando o pivô do caso da professora Rosalina", conta.

Penitenciária Ministro Vicente Rao funcionava no Centro de Rio Branco. Foto: Reprodução/Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Elias Mansour

Para ir de casa para o trabalho a professora passava todos os dias pela penitenciária. Até que um dia teria atraído a atenção de Lázaro, que então teria passado a desenvolver obsessão por ela. "Ele se encantou pela beleza da professora e ficou a partir desse dia sempre esperando por ela", diz o historiador.

Analfabeto, Lázaro teria então pedido ao jornalista que escrevesse uma carta em seu nome para a professora declarando seu amor. Praxedes teria tentado convencer o amigo a desistir da ideia, contudo não conseguiu e acabou atendendo ao pedido feito pelo presidiário e escreveu a carta. No entanto, a carta nunca foi entregue a Rosalina.

Nas semanas seguintes Lázaro passou a pressionar Praxedes por uma resposta da professora. O jornalista teve então a ideia de escrever ele mesmo a resposta de Rosalina. "Ele forjou uma mentira para contentar o Lázaro. E aí começou um processo em que o Praxedes escrevia as cartas do Lázaro para a professora e o próprio Praxedes escrevia as respostas da professora para o Lázaro", conta.

A situação teria se sustentado durante algum tempo até que a professora se apaixonou por um comandante de avião e ficou noiva. "A notícia se espalhou rapidamente, chegou nos ouvidos do Lázaro e ele ficou furioso", diz Neves.

Em 1941, era comum no Acre, que os presos fossem utilizados para realizar serviços de manutenção urbana. Foi o que ocorreu no dia 25 de novembro de 1941, Lázaro estava fazendo um trabalho na praça e portava um terçado, quando então viu a professora saindo de casa para ir ao trabalho. Furioso ele correu até ela e cravou o objeto no peito de Rosalina que não resistiu e morreu, inocente em toda a história. 

Família de Rosalina deixou o Acre após morte da professora. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Traumatizada, a família de Rosalina deixou o Acre e, segundo o historiador, ainda hoje os parentes restantes da professora acreditam que a história possa ter outros fatores. "Como se tivesse um conluio de autoridades para proteger os assassinos, ou como se algumas autoridades já soubessem que o assassinato iria acontecer e não tivessem feito nada", comenta.

Já os destinos de Lázaro e do jornalista Praxedes se perderam na história. Segundo o historiador, alguns relatos dizem que o presidiário teria se matado na cela no dia em que seria libertado. Outros dizem que o jornalista também teria ido embora do Estado, assim como a família de Rosalina, mas nenhuma fonte parece ser confiável no caso deles. 

Milagreira 

Após a morte trágica de Rosalina, sua história começou a atrair curiosos e foi então que começaram os relatos de milagres atribuídos à professora. Para Marcus Vinícius, isso pode ser explicado pela própria cultura acreana.

"Fazem parte da cultura popular acreana, de raiz nordestina, esses traços do cristianismo primitivo em que a fé se manifesta nas pessoas comuns e está presente na dor e no sofrimento dos oprimidos", explica.

Neves diz ainda que o caso da professora Rosalina é apenas um entre vários casos de fé popular que existem na cultura acreana. "É o caso de São João do Guarani, seringueiro que morre debaixo de uma árvore após os maus tratos do patrão; de Santa Raimunda do Bom Sucesso, uma índia jaminawá que morre grávida; e é o caso de Amin Contar, um comerciante assassinado injustamente", afirma.

Uma das pessoas que todos os anos acende uma vela para Rosalina é a servidora pública Wanda Soares, de 51 anos, que cresceu ouvindo a mãe contar a história da professora. A primeira vez que ela fez um pedido foi agora em 2014, porém diz que são muitos os relatos de pessoas que tiveram uma graça atendida pela professora.

"Todas as pessoas que vem pedir para ela alcançam as coisas. A fé vem de Deus e da boa índole dela e pela forma como ela morreu", conta. 


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