Projeto prevê aumento de 300% na produção de açaí em Terra Indígena no Pará

Estimativa é da Funai, que desenvolve o projeto junto às comunidades. 

Indígenas da etnia Tembé que habitam as aldeias Frasqueira, São Pedro e Pinowá serão beneficiados com um aumento de aproximadamente 300% na produção de açaí na Terra Indígena Alto Rio Guamá (Tiarg), localizada no nordeste do Estado do Pará. O território abrange 279 mil hectares em parte dos municípios de Santa Luzia do Pará, Nova Esperança do Piriá e Paragominas. O aumento da produção será gradativo, devendo atingir a estimativa de 300% nos próximos anos, em decorrência de um projeto desenvolvido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) junto à comunidade.

A Tiarg abriga inúmeros açaizais nativos. Muitos passam por processo de queda significativa na produtividade, conforme relatado dos indígenas. Dodô Bacaba, da Aldeia Pinoá, afirma que em 2021 eram comercializadas entre 450 e 500 latas de açaí por dia, no mês de dezembro, auge da safra na região. No ano seguinte, segundo ele, a produção não passou de 200 latas por dia.

“Isso aponta o grau de envelhecimento ao qual os açaizais da região vêm passando, preocupante tanto do ponto de vista da segurança alimentar quando do escoamento da produção para fora da aldeia, na comercialização do fruto”, diz o engenheiro agrônomo Eliezo Pinheiro, lotado na Coordenação Técnica Local (CTL) da Funai em Belém, responsável pela elaboração e execução do projeto para frear a queda da produção e aumentá-la progressivamente ao longo dos anos.

Foto: Joao Elysio Guerreiro de Carvalho/Funai

O projeto para o aumento na produção de açaí na Tiarg foi implementado inicialmente em três etapas, em agosto, setembro e outubro de 2023, e está tendo continuidade com o engajamento dos indígenas em transmitir as técnicas para parentes de outras aldeias.

“Temos esse compromisso de mostrar para nossos parentes [indígenas] como se faz para melhorar a produção. É simples, não tem mistério. O que o pessoal da Funai passou para nós foi fácil de aprender, pois aconteceu no próprio açaizal (além da parte teórica)”,

disse o jovem indígena Marcelo Tembé, que habita a Aldeia Pinowá.

O manejo de açaizal nativo foi desenvolvido numa área pré-selecionada pelos 32 indígenas envolvidos no projeto, obedecendo técnica conhecida como manejo de mínimo impacto, que consiste basicamente na preservação do açaizal com espécies florestais e frutíferas, mantendo um ecossistema que beneficia fauna, flora e os próprios aldeados que dependem da economia do açaí para manter o sustento de suas famílias.

De acordo com Eliezo Pinheiro, para o êxito do projeto foram fundamentais as técnicas utilizadas e as medidas de segurança adotadas para que os indígenas não corressem qualquer risco durante a atividade. “O uso de botas, capacetes e outros equipamentos são sempre imprescindíveis para o desenvolvimento desse tipo de atividade [manejo de açaizais]. Um acidente com um indígena botaria tudo a perder”, afirma o agrônomo da Funai.

Foto: Joao Elysio Guerreiro de Carvalho/Funai

Etapas 

A transmissão de conhecimento no projeto de manejo de açaizais começou, em cada etapa, com palestra em linguagem simples e apresentação, para os indígenas, de números relacionados à produção em gráficos. Eles foram incentivados a esclarecer todas as dúvidas que surgissem. E assim o fizeram, deixando a apresentação sabendo o que fariam no próximo dia, quando começou a atividade em campo.

“A interação entre indígenas e técnicos da Funai foi fundamental para que tudo desse certo [o êxito do projeto]. Sem a participação direta dos indígenas é sempre muito difícil avançar”, constata Shirleno Paes, que chefia a CTL da Funai em Belém e participou das atividades.

As outras etapas do projeto foram desenvolvidas em campo, em um hectare selecionado em cada aldeia escolhida, e ocorreram concomitantemente. Com a derrubada da vegetação próxima (mistura ao solo se transforma em adubo orgânico), os pés de açaí passam a consumir todos os nutrientes do solo, ganhando vigor e melhorando a qualidade do fruto. Os novos pés que nascerem facilitarão a colheita, pois terão no máximo 10 metros, evitando que os indígenas tenham que subir nas árvores muito altas para apanhar os cachos de açaí.

Ainda em campo, os indígenas selecionaram os pés de açaí e as árvores que ficariam entre eles, obedecendo critérios estabelecidos anteriormente, como valor econômico, tradição cultural e importância medicinal, como árvores de Andiroba, por exemplo. “O legal dessa ação [manejo de açaizais] é o respeito à nossa cultura, é ouvir o que temos a dizer”, resume o indígena Antônio de Assis Santos Tembé.

“Contribuir para a segurança alimentar dos indígenas e ainda oferecer opção para comercialização é muito importante para as comunidades indígenas. O aumento da produção será bem visível depois desse projeto de manejo”, afirma o indígena da etnia Gavião Ricardo Totoré, que chefia a Coordenação Regional da Funai no Baixo Tocantins, à qual a CTL do órgão sediada em Belém está subordinada.  

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