O porto peruano de Chancay e o comércio transfronteiriço pan-amazônico

O porto é um projeto superlativo, liderado pela companhia marítima estatal chinesa Cosco Shipping Company com investimentos totais estimados em US$ 3,4 bilhões (cerca de R$ 19,7 bilhões).

Terminal marítimo de Chancay. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Ponto alto da viagem da delegação da Associação Pan-Amazônia, no período de 16 a 21 de fevereiro, à Lima e ao Panamá, foi a visita ao complexo portuário de Chancay. Inaugurado pelo presidente da China, Xi Jinping, em novembro de 2024, o novo Porto, em alguns anos, poderá se transformar num dos mais importantes da América do Sul. O complexo está localizado a cerca de 70 km ao norte da capital peruana, Lima. Trata-se de um projeto superlativo, liderado pela companhia marítima estatal chinesa Cosco Shipping Company com investimentos totais estimados em US$ 3,4 bilhões (cerca de R$ 19,7 bilhões).

A infraestrutura contará, após concluída, com 15 embarcadouros, escritórios, serviços logísticos e um túnel com 2 km de comprimento construído sob a cidade de Chancay para o transporte de cargas sem perturbar os moradores. Trata-se, em síntese, de um megaporto que visa tornar-se o principal hub logístico entre a América do Sul e a Ásia. Com 18m de calado, opera grandes navios, reduzindo em até um terço o tempo de transporte. A movimentação foca em produtos agrícolas, eletrônicos e cargas gerais, com potencial de 1 milhão a 6 milhões de TEUs/ano. Além de desafogar o porto de Callao, atualmente o principal ponto de entrada e saída de mercadorias do Peru.

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Apenas para efeito comparativa, o Porto de Santos registrou um recorde histórico em 2025, movimentando 5,9 milhões de TEUs, o que representa uma alta de 7,7% em relação ao ano anterior; enquanto o Porto de Paranaguá, após movimentar 1,5 milhão de TEUs em 2024, registrou números recordes ao longo de 2025, ultrapassando movimentação de 1,6 milhão de TEUs (medida equivalente a um contêiner de 20 pés). O porto é descrito como “inteligente e sustentável” equipado com sistemas modernos de automação, inteligência artificial e monitoramento 5G.

Possui infraestrutura de última geração, incluindo guindastes automáticos e veículos elétricos autônomos. As operações de carga, descarga e trânsito interno são efetuadas eletronicamente sob o comando de 750 empregados, dos quais apenas 20 chineses. Um ponto preocupante: enquanto a infraestrutura interna do Porto é altamente segura e moderna, a área ao redor enfrenta crescentes riscos de segurança pública, particularmente em relação ao tráfico de drogas, ora severamente combatido.

Dentre as principais vantagens operacionais do complexo, segundo estudos técnicos da Cosco Shipping Company, destacam-se:

  • 1. Logística com o Brasil: O porto é visto como uma rota estratégica para exportações brasileiras (especialmente soja e carne do Acre/Centro-Oeste) para a Ásia, podendo reduzir em até 7 mil km a distância;
  • 2. Cargas: Inicialmente movimentando contêineres e, posteriormente, carga geral e a granel;
  • 3. Conectividade: Integra a iniciativa da “Nova Rota da Seda” (Belt & Road) da China, com alta tecnologia, automação e conexão com o sistema portuário peruano e
  • 4. Vantagens: Capacidade para receber os maiores navios do mundo (18.000+ TEUs), facilitando o comércio direto e reduzindo custos de frete.

A estimativa do governo peruana é de que a duração das viagens de cargueiros do Peru até a Ásia cairia de 40 para 28 dias.

Explica-se: Anteriormente, os produtos exportados pela América do Sul precisavam subir para o norte, até portos como Manzanillo, no México, onde ocorria o transbordo para que fossem enviados para a China. Com o novo porto, abre-se uma rota direta e mais rápida por meio do corredor rodo-fluvial Chancay-Paita-Yurimaguas Iquitos-Tabatinga, além de potencializar o comércio fronteiriço Peru/Brasil em setores como logística de transporte, telecomunicações, agronegócio – alternativa para exportações brasileiras (soja, carne, minérios) pelo Pacífico – e hidrocarbonetos, base da química orgânica e principal elemento do petróleo e gás natural. Além da vantagem em termos geográficos, o grande calado da baía de Chancay confere ao porto capacidade de receber os maiores navios do mundo.

Leia também: Pan-Amazônia lidera missão ao porto peruano de Chancay e Canal do Panamá

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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