Vermelho no Palmares e azul na Baixa: conheça quem desafia a divisão dos territórios de Caprichoso e Garantido

Rivalidade de cores e paixões em Parintins revela respeito e convivência entre torcedores do Caprichoso e Garantido.

Rua dividida em Parintins. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Parintins respira boi-bumbá o ano inteiro, mas nos dias que antecedem o Festival Folclórico, a rivalidade entre Caprichoso e Garantido transborda das arquibancadas para as ruas, as fachadas das casas e até os pequenos detalhes de decoração. A cidade se pinta, literalmente, de azul e vermelho, conforme o território de cada boi. Mas há exceções que desafiam a lógica.

O Festival de Parintins acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, na cidade de Parintins, interior do Amazonas, e movimenta a ilha com a tradicional disputa entre os bois Caprichoso e Garantido.

Em 2025, o Boi Caprichoso entra na arena com o tema “É Tempo de Retomada”, celebrando a força da cultura popular e a resistência do povo amazônida.

Já o Garantido defende o título com o lema “Boi do Povo, Boi do Povão”, reafirmando suas raízes populares e o vínculo profundo com a alma vermelha da Baixa do São José.

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No bairro do Palmares, reconhecido como reduto do Caprichoso, bem na esquina das ruas Benjamin Rondom e Padre Vitor, um ponto vermelho rompe a hegemonia azul. É uma espécie de encruzilhada Garantido dentro do coração Caprichoso.

O comerciante Elanilson Gomes foi quem puxou esse “piquete” encarnado. Ele e os vizinhos decidiram enfeitar o espaço e “desafiar” a galera contrária. Tudo, é claro, com muito respeito.

“Nós viemos da Baixa e moramos aqui há 25 anos. Costumávamos sempre enfeitar as casas apenas com as bandeirinhas, mas dessa vez decidimos ir além. O pessoal do contrário viu e também começou a se mexer”.

A organização foi tanta que o grupo encomendou um boi Garantido de fibra e colocou o “garrote” bem no coração do bairro. “A gente encomendou o boi ano passado, mas só chegou esse ano. Eles viram e quiseram um pra eles também, mas não chegou há tempo”, disse rindo.

O vermelho ali não passa despercebido. É símbolo de pertencimento — ainda que cercado por um “turbilhão” azul por todos os lados.

Já do outro lado da cidade, na Baixa da Xanda, tradicional bastião do Garantido, a cena se inverte. Entre ruas pintadas de vermelho e branco, há um local que chama atenção justamente pelo silêncio das cores: não tem vermelho, só branco. Mas não é neutra. É uma casa azul. Uma casa Caprichoso, encravada no território do boi contrário.

E por lá essa história fica mais engraçada quando contada. É que na casa em questão mora o seu Edson “da Baixa”, pai da Mãe Catirina do Caprichoso.

Leia também: Você sabe qual a origem do Festival Folclórico de Parintins?

Ao Grupo Rede Amazônica, ele contou que nunca hasteou uma bandeira do Caprichoso em respeito aos vizinhos perrechés.

Já os vizinhos, que usam a escada do seu Edson para pendurar as bandeirinhas e enfeitar as ruas de vermelho e branco, também não provocam o comerciante e toda vez só enfeitam a frente da casa dele com a cor neutra.

Já os vizinhos, que usam a escada do seu Edson para pendurar as bandeirinhas e enfeitar as ruas de vermelho e branco, também não provocam o comerciante e toda vez só enfeitam a frente da casa dele com a cor neutra.

“Nós pertencemos à esse bairro, somos dessa comunidade, da Baixa do São José e, ainda que seja o reduto do contrário, somos uma família Caprichoso”.

Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Ali, o branco é um sinal de respeito — respeito por uma família que não torce para o Garantido, mas que vive no coração vermelho da cidade. É o reconhecimento de que a rivalidade existe, é forte, é cultural, mas que também pode conviver com a liberdade de escolha e com a independência de ser diferente, mesmo cercado pela paixão do outro.

E esses pontos fora da curva revelam que, mesmo numa ilha onde a rivalidade é tradição, há espaço para a convivência — ainda que carregada de provocações saudáveis, olhares curiosos e muito respeito. Porque, no fim, todo parintinense sabe: na ilha da magia, até as fachadas falam.

Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

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