Valdir Correia, o “Garotinho”: 10 curiosidades sobre os 50 anos de carreira do radialista amazonense

Entre gostos pessoais e lembranças de uma carreira cinquentenária, o "Garotinho" revela momentos importantes de sua vida dedicada ao rádio.

Valdir Correia, o “Garotinho”, é considerado referência do rádio amazonense. Foto: Reprodução/Instagram-valdircorreiaogarotinho

Uma das referências da comunicação amazonense, o radialista Valdir Correia se despediu no final de janeiro da Rádio Difusora do Amazonas, depois de uma trajetória de 50 anos. O “Garotinho”, como é carinhosamente conhecido, encerra um ciclo de meio século marcado por uma vasta contribuição que se confunde com até com a história do cenário radiofônico do estado.

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Com uma carreira marcada pela credibilidade e uma relação fiel com o público ouvinte, o comunicador de 76 anos dará lugar à terceira geração Anzoategui, grupo familiar ligado à Difusora.

Diante da transição histórica que mexeu com a imprensa amazonense, a equipe do Portal Amazônia conversou com o “Garotinho” e reuniu uma lista de 10 curiosidades sobre a vida e a atuação do radialista ao longo dessas cinco décadas dedicadas ao compromisso de informar a sociedade baré:

1. Acreano de nascença, mas amazonense da gema

Apesar de ser referência na comunicação do Amazonas, Valdir Correia de Melo é natural de Sena Madureira, município do estado do Acre. O radialista veio para Manaus no ano de 1957, quando tinha sete anos de idade, junto com os pais Guiomar Correia de Melo e Gercino Gomes de Melo e os irmãos Gelsa de Melo Trovão e Israel Correia de Melo.

Mesmo com sangue acreano, Valdir se considera amazonense e carrega uma gratidão por toda carreira consolidada no estado. Prova disso é o reconhecimento da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM), que concedeu o título de cidadão amazonense ao radialista.

“Tudo que tenho em minha vida eu devo ao Amazonas. Sou um cidadão amazonense concedido pela Assembleia Legislativa do Amazonas, o qual agradeço o querido Marcos Rotta pela autoria dessa honra que é ser reconhecimento amazonense. Minha carreira, minha família, meu legado, tudo eu conquistei aqui no estado do Amazonas, o qual sou muito grato”, afirmou Correia.

2. De animador de arraial à balconista

Antes de se tornar referência na rádio amazonense, Correia utilizava a voz para serviços comunitários nos bairro Educandos e adjacências: trabalhava no “serviço de alto-falante”, uma espécie de carro de som.

“Comecei no serviço ‘A Voz Progresso’, na estrada do Paredão (atual avenida Presidente Kennedy), da família Holanda, e saio de lá para ser animador de arraial no Morro da Liberdade. Também atuei no serviço de alto-falante do Zé Milton, o rei do forró, e da Voz Constantinopla, na Leopoldo Peres, onde pude trabalhar com grandes nomes da locução como Leonardo Marinho, F. Cavalcante, Raimundo Nonato, entre outros”, explicou Garotinho.

No entanto, Valdir revelou que atuou em outras profissões antes de ingressar de fato na comunicação.

“Era vendedor de pipoca no Circo Garcia, depois fui ‘promovido’ a vender bombom nos cinemas. Fui caminhoneiro. Meu pai tinha um caminhão para carregar pedra, tijolo e areia, e eu era motorista do papai, mesmo sem ter carteira. Depois de muito tempo, fui balconista da drogaria Menescal, farmácia tradicional e muito conhecida em Manaus, trabalhava das 7h às 18h. E a noite, virava taxista até meia-noite”, contou o radialista ao Portal Amazônia.

3. Jogador de futebol

Além de craque nos microfones, Valdir também era bom de bola. Paralelo ao dom de comunicar, o radialista entregava estilo e habilidade dentro das quatro linhas: defendeu as camisas do Arsenal, time amador do Santa Luzia, e do Nacional, clube onde jogou por cinco anos.

“Teve uma vez que o time do Arsenal disputou um torneio, chegamos na final e aí o treinador Barbosa Filho convidou o time para treinar na escolinha do Nacional. No primeiro dia, treinamos 10 minutos e aí o treinador tirou seis jogadores, mandou a gente tomar banho e merendar porque quatro da tarde íamos treinar no juvenil contra os profissionais do Nacional”, contou Valdir.

Valdir Correia, o quinto agachado, da direita para a esquerda, no time da ACLEA. Foto: Reprodução/Acervo ACLEA

Bom marcador, Garotinho atuou de lateral-esquerdo pelo Leão da Vila Municipal, com um detalhe: era destro e jogou na posição por “irresponsabilidade” de um colega de time.

“Tinha um lateral chamado Roberto que vivia chegando atrasado, e aí o treinador estava se invocando com ele e disse: ‘Valdir, tu que fazer um teste na lateral esquerda?’ Eu respondi ‘olha, eu não chuto de esquerda’, e o treinador respondeu que o Nilton Santos (lendário jogador do Botafogo e considerado o maior lateral-esquerdo de todos os tempos) era destro, olha a comparação que ele fez (risos), e que eu tinha que fazer o teste porque se desse certo, o Roberto nunca mais voltaria. Deu certo, ele mandou Roberto ir embora e fiquei como lateral esquerdo o resto da vida”, contou Correia rindo.

4. Dirigente no clube do coração

Apesar de ter defendido as cores do Nacional, Valdir sempre se declarou torcedor apaixonado do Atlético Rio Negro Clube. Prova disso foi quando o radialista conciliou os trabalhos na rádio com o cargo de dirigente do Galo, entre os anos de 1998 a 2001, quando ajudou o time a conquistar o 16º título estadual, último troféu levantado pelo clube no Amazonense.

“Mesmo com a gente com pouco dinheiro, a gente conseguiu formar um bom time e conquistar o Amazonense. Nós tínhamos o São Raimundo que era tido como o melhor da região Norte e o Nacional com muito dinheiro. Todo mundo pensava que o campeão seria os dois clubes, mas foi o Rio Negro, com uma folha de R$ 35 mil. Isso para mim foi uma conquista e tanto”, contou Garotinho.

Rionegrino de coração, Valdir Correia foi dirigente do clube do coração, entre os anos de 1998 a 2001. Foto: Reprodução/Rionegrino.com.br

5. Início no Rádio

Foto tirada no campo da Usina Labor, no bairro Educandos. Foto: Jornal do Commercio

A relação de Valdir com a comunicação já dava seus sinais desde a infância. Quando tinha 13 anos, o pequeno Garotinho brincava de narrar partidas no campo da Usina Labor, localizado na avenida Leopoldo Peres, bairro Educandos, onde hoje funciona uma rede de supermercado.

“Quando criança, eu gostava de pegar duas latas de leite, amarrava um cordão de um lata para outra e ficava imitando uma transmissão dos jogos. Então, desde muito cedo, eu já brincava de fazer transmissão”, relembra Garotinho.

Já como uma das vozes de destaque nos serviços de alto-falante, Garotinho participou de um concurso da Rádio Baré, considerada a grande emissora radiofônica do Amazonas. Em meio a dezenas de concorrentes, Valdir foi escolhido para integrar o quadro de profissionais do veículo.

“Eram somente duas vagas nesse concurso, eu e o Raimundo Nonato, um dos maiores narradores esportivos do Amazonas, fomos selecionados para a Rádio Baré. Foi uma experiência maravilhosa porque a Baré era uma escola da comunicação amazonense”, frisou Correia, que foi chamado para ancorar programas esportivos na emissora.

Depois da Rádio Baré, Valdir trabalhou na Rádio Tropical (hoje, Rádio Cidade) até meados de 1970, quando foi convidado para ser o locutor oficial e narrador dos jogos transmitidos pela Rádio Rio Mar. O sucesso foi tanto que seis anos depois, o empresário Josué Cláudio de Souza contratou Garotinho para fazer parte dos quadros da Rádio Difusora do Amazonas, onde permaneceu por 50 anos.

Valdir Correia, Carlos Martins e Orlando Rebelo. Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente

6. Por que “Garotinho”?

Valdir explica porque ficou conhecido como “O garotinho”, apelido que nasceu de uma comparação feita por Josué Filho entre ele e José Carlos Araújo, um dos locutores de destaque do rádio nacional.

“Tudo começou quando o Zé Carlos Araújo começou a despontar no Rio de Janeiro. Era o terceiro da Rádio Globo, aí ele sai para ser o primeiro da Rádio Nacional, que tinha uma das maiores coberturas do Brasil. Como o grande Osmar Santos de São Paulo, o Pai da Matéria, já brincava com garotinho pra lá, garotinho pra cá, o Zé Carlos virou o Zé Carlos Araújo, o garotinho. Aí um dia o Josué Filho, no programa matinal, estava fazendo uma enquete e disse ‘é, tem o Garotinho do Rio e agora tem o Garotinho do Amazonas: Valdir Correia, o Garotinho da Difusora’. Aí pegou. Quase ninguém me chama de Valdir quando estou na rua, é só Garotinho”, explica Valdir.

7. Primeira transmissão internacional

Cartaz divulgação - Valdir Correia, o Garotinho
Anúncio de transmissão de jogo narrado por Valdir Correia, o Garotinho. Foto: Reprodução/Acervo Amazon Sat

Valdir esteve presente na primeira transmissão internacional ao vivo feita por uma rádio da Amazônia. Foi em 30 de junho de 1989, no jogo entre Brasil x Venezuela, válido pelas Eliminatórias Sul-Americanas da Copa do Mundo. Com narração de Garotinho e comentários de Eduardo Monteiro de Paula, a rádio Difusora foi pioneira da Amazônia a registrar ‘in loco’ uma partida fora do país, que contou com a vitória brasileira por 3 a 0 em cima dos venezuelanos.

Leia também: Como foi a primeira transmissão ao vivo, em outro país, de uma rádio da Amazônia

“Até então, nenhuma emissora da região Norte tinha transmitido um jogo oficial da Seleção Brasileira fora do país. Você transmitia partidas nacionais, mas lá fora só ia Globo, Itatiaia, Rádio Nacional, não era fácil. Com meu atrevimento, eu e alguns colegas fomos atrás para comprar os jogos das eliminatórias, que serão dois, um na Venezuela e outro no Chile. Com Deus no coração, fomos em São Paulo, com pouco dinheiro e realizamos o grande sonho: o primeiro jogo internacional de uma emissora da região Norte ao vivo”, relembrou Correia, que narrou o seu primeiro jogo oficial do Brasil em 1976, quando a seleção canarinho enfrentou o Paraguai no Maracanã, também pelas Eliminatórias.

Valdir Correia, o Garotinho, com Dudu Monteiro de Paula
Valdir Correia, o Garotinho, e Eduardo Monteiro de Paulo, profissionais do jornalismo esportivo amazonense. Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

8. Entrevistas marcantes

Ao longo dessas cinco décadas, Valdir construiu um rica trajetória de entrevistas marcantes e coberturas jornalísticas no rádio amazonense. Ao Portal Amazônia, o Garotinho destacou as principais personalidades entrevistadas por ele.

“No cenário esportivo, entrevistei grandes estrelas do futebol mundial como Zico, Pelé, João Havelange e Roberto Dinamite. Já na parte cultural, tive o privilégio de conversar por telefone Julio Iglesias, na época que o cantor espanhol fez um show histórico de Réveillon na Ponta Negra, em 1995. Estive em todas as coberturas políticas desde quando entrei no rádio, na década de 1970, entrevistei todos os políticos que ocuparam os principais cargos em Manaus”, afirmou Garotinho.

9. A notícia mais triste

O radialista classificou a notícia da morte de Raimunda Holanda de Souza, esposa do radialista Josué Cláudio de Souza, como a notícia mais triste de sua carreira.

“Sem dúvidas, a da nossa querida Rai. Lembro que eu tinha acabado de entrevistar o então prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento, quando recebi a notícia que a dona Raimunda tinha falecido. Foi uma decisão bem difícil noticiar, por tudo que ela representava e representa até hoje tanto para a Difusora quanto para o Amazonas. Para mim, foi a notícia mais triste da minha carreira”, contou.

10. Preferências

Por fim, Valdir revelou ao Portal Amazônia um pouco sobre os seus gostos em relação à temas da nossa região. Confira:

  • Culinária

“A banana pacovã, bem assada com canela, para mim é a melhor, depois coloco o nosso abacaxi e a melancia”.

  • Comida

“Me perdoem, mas eu gosto muito de um churrasco bem feito. Depois, vem o nosso tambaqui e aquela caldeirada de tucunaré”.

  • Torce pra qual time brasileiro?

Depois do Rio Negro, sou botafoguense declarado.

  • Caprichoso ou Garantido?

Eu gosto dos dois (risos).

  • Artistas amazônidas

“Carrapicho, do saudoso Zezinho Corrêa, que foi sucesso mundial, depois o querido Teixeira de Manaus e o ícone Abílio Farias”.

  • Maiores jogadores nortistas que viu jogar

“O maior atacante histórico do Amazonas, Edson Piola, o grande goleiro Clóvis e o craque Dermilson”.

Entrevista

Em 2024, Valdir Correia concedeu uma entrevista para o jornalista Eduardo Monteiro de Paula para o programa Made in Amazônia, do Amazon Sat, onde revelou outras curiosidades de sua carreira. Confira:

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