Tibira do Maranhão foi o primeiro caso relatado de morte por homofobia no Brasil. Foto: Reprodução/Gravura do livro de Claude Abbev
Tipificada como crime desde 2019 no Brasil, a homofobia é um dos problemas sociais mais graves do país. Mesmo com avanços na luta por direitos nas esferas políticas, acadêmicas e sociais, os números da violência contra a população LGBTQIAPN+ ainda são alarmantes e os registros de homicídios influenciados pela “LGBTfobia” (intolerância à comunidade LGBT) passam dos milhares desde o século passado.
Um desses casos é o do Tibira do Maranhão, assassinado em 1614 com anuência de religiosos da Igreja Católica em razão de sua orientação sexual e considerado o primeiro crime homofóbico documentado do Brasil. Cometido há mais de 410 anos, a morte de Tibira foi resgatada em 2014 pelo historiador brasileiro Luiz Mott, ao publicar o livreto chamado ‘São Tibira do Maranhão – Índio Gay Mártir’, com o relato da execução do indígena que hoje é reconhecido como símbolo de resistência pela causa gay.
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Com base no documentário Tibira do Maranhão, do canal no Youtube Museu da Transviada, conheça a história do indígena da etnia tupinambá que foi acusado de sodomia por missionários franceses e executado por um tiro de canhão em plena praça pública no Maranhão, o que se tornou o primeira caso registrado de morte por homofobia do Brasil.
Homofobia trazida pela colonização europeia
De acordo com o levantamento feito pela produção, o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo era comum entre os povos tradicionais. Indígenas como os guaicurus, potiguaras, guaranis e tupinambás viviam com múltiplas formas de viver o gênero e o desejo. Um dos exemplos eram as cudinas, indígenas do povo Mbayá-Guaicuru que mesmo nascidos do sexo masculino, se apresentavam e desempenhavam funções sociais femininas em suas comunidades.

Porém, a chegada da colonização europeia no território brasileiro mudou a forma da vivência plural desses povos originários, classificando os indígenas como “pecadores, devassos, falsos, aberrações e desformes de alma”.
Tal forma de organização, segundo o audiovisual, aterrorizava tanto os missionários cristãos quanto a população europeia que começava a ocupar a região do Maranhão, que naquela ocasião se tornara o centro de uma tentativa francesa de colonizar o país, numa disputa entre holandeses e portugueses.
Em 1612, uma expedição com centenas de franceses chegou à ilha onde hoje fica São Luís, capital do Maranhão, e fundou o Forte de São Luís, em homenagem ao rei da França, Luis XIII.
A partir de então, os franceses iniciaram fortalecer as relações com os povos indígenas da região, aprendendo suas línguas, convivendo em comunidades e, ao mesmo tempo, convertendo-os ao cristianismo. Os missionários europeus passaram a batizar os indígenas, atribuindo nomes cristãos, redefinindo os comportamentos certos e errados, iniciando ali uma imposição religiosa, controle e transformação dos modos de vida.
Foi nesse contexto que a história de Tibira aconteceu, através dos escritos de Yves D’Évreux, frade franciscano que estava em posição de liderança na época da colonização. Em sua obra intitulada ‘Viagem ao Norte do Brasil’, ele detalha a captura, julgamento, batismo e o assassinato do indígena, durante sua expedição na região amazônica.
A captura e julgamento de Tibira
De acordo com registros, D’Évreux descreve Tibira de forma bruta: “Um pobre índio, bruto, mais cavalo que homem, fugiu para o mato por ouvir dizer que os franceses o procuravam, e ao seus semelhantes, para matá-los e purificar a terra de suas maldades, por meio do Evangelho e da religião católica”.

Com a ajuda dos indígenas, Tibira foi encontrado, imediatamente amarrado e levado para o Forte de São Luís do Maranhão, “donde deitaram-lhe ferros aos pés; vigiaram-no bem até que chegassem os chefes principais de outras aldeias para assistirem ao seu processo e proferirem sua sentença e sua morte”, como descreve o relato.
O documentário mostra que, após o término do julgamento e a confirmação da sentença de execução, foi oferecido ao condenado a possibilidade de receber o batismo. E, segundo o relato, disseram que apesar de sua má vida passada, caso aceitasse o batismo, sua alma iria diretamente ao céu, no momento que se separasse do corpo. O indígena acreditou e pediu para ser batizado.
Antes do batismo, um outro padre francês, identificado como Louis de Pézieux e conhecido como “tatu-uaçu”, foi até o alojamento franciscano e perguntar ao Yves se o próprio padre iria realizar o batismo. A decisão, no entanto, foi negativa, pois de acordo com D’Évreux, batizar Tibira poderia reforçar entre os indígenas a ideia do que os franciscanos eram figuras misericordiosas e compassivas, capazes de interceder junto as autoridades para salvar condenados da morte e que isso abriria espaço para questionamentos.
Na ocasião, para Yves, preservar a autoridade era mais importante do que qualquer gesto público de compaixão. Decidiu-se, então, que o batismo de Tibira seria realizado pelo próprio Tatu-uaçu, que realizou o ato após brevemente instruí-lo na fé cristã por meio de intérpretes e sem as cerimônias formais da igreja. Segundo os escritos, Tibira recebeu o batismo com tranquilidade e sem demonstrar tristeza, na presença dos principais lideres indígenas de sua etnia.
Após o julgamento, Karawatapirã, um dos líderes indígenas, dirigiu-se a Tibira e, num discurso com elementos da cosmologia indígena com noções cristãs recém-introduzida, teria dito que “como filho de Deus, sua alma seguiria diretamente para o céu, livre da influência do diabo, para viver no céu junto com Tupã” (que significa ‘Deus’ para os povos originários). Acrescentou, ainda, que “caso desejasse, poderia pedir à Tupã para ter os cabelos compridos e o corpo de mulher antes que um corpo de homem, e que lá ficaria ao lado das mulheres”.
Ainda segundo os próprios relatos escritos de D’Évreux, ele demonstrou incômodo com a interpretação errônea da possibilidade de Tibira escolher um corpo de mulher após a ressureição. Para o padre, tratava-se de uma distorção da doutrina cristã, resultado da compreensão imperfeita de um líder indígena que não fora apropriadamente doutrinado na fé católica.
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Execução de Tibira

O diário de Yves relata que Tibira, antes da execução, teria dito: “Vou morrer, não mais vos verei. Já não temo o Diabo, pois agora sou filho de Deus. Não preciso mais levar comigo fogo, farinha, água, nem ferramentas para viagens além das montanhas, onde pensais que dançam nossos antepassados. Dai-me, porém, um pouco de petum, para que eu morra alegremente, com voz e sem medo”.
Petum seria um tipo de cigarro preparado a partir do tabaco, que era tradicionalmente utilizado pelos indígenas durante os rituais ligados à morte. Relatos descrevem que Tibira, de posse do cigarro, manteve-se sereno, cantava e ficou assim até o momento da execução. O condenado fora levado para a muralha do Forte de São Luís, em direção ao mar, onde foi amarrado na boca de um canhão.
Antes disso, porém, fez um pedido: que não lhe amarrasse o braço direito, para que pudesse continuar levando o petum à boca. E entre franceses e lideranças indígenas reunidos, coube a Karawatapirã acender a escorva do canhão. O disparo partiu o corpo de Tibira em duas partes: uma caiu junto à muralha e outra foi lançada ao mar e nunca mais foi encontrada. Segundo relatos, na mão que permaneceu junto à muralha, ainda estava o seu petum.
Após a execução, Yves descreveu Tibira como São Dimas, santo da igreja católica conhecido como o “bom ladrão da tradição cristã, aquele que, ao morrer na cruz ao lado de Cristo, recebe a promessa do paraíso”. Para o padre, a morte de Tibira seria, ao mesmo tempo, punição e salvação.
Significado de Tibira
Na íntegra dos relatos de D’Évreux, Tibira não foi citado com este nome, e sim como indígena. O termo Tibira, ou “Tivira”, deriva de Tevi, uma palavra que faz parte do tronco Tupi, grupo de línguas indígenas da América do Sul, utilizada para se referir ao ânus ou nádegas. Historicamente, a expressão era empregada entre os indígenas para designar indígenas associados a práticas homoafetivas.
Tibira, o primeiro mártir gay indígena das Américas

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A historia de Tibira ganhou visibilidade a partir dos estudos do antropólogo e historiador brasileiro Luiz Mott. Ao investigar a perseguição aos chamados sodomitas (habitantes da cidade bíblica de Sodoma que passou a designar pessoas que praticaram atos sexuais considerados contrários à moral religiosa), que o pesquisador encontrou os escritos de D’Évreux com o relatos de execução do indígena.
Em 1993, durante uma conferência, Mott utilizou o termo Tibira para se referir ao indígena descrito pelo padre franciscano, passando a ser o nome da figura histórica. A partir de então, Tibira virou o personagem contra a homofobia no Brasil, fato que motivou o pesquisador a propor, em 2014, a canonização do indígena como um santo homossexual, em analogia ao São Dimas, referenciado por D’Évreux após a execução de Tibira. A iniciativa recebeu o apoio da Santa Igreja Celta do Brasil, denominação cristã independente.
No ano de 2016, a praça Marcílio Dias, localizada no centro de São Luís, no Maranhão, ganhou uma lápide do Tibira do Maranhão, numa reparação histórica do personagem. Mais do que um marco histórico, o monumento representa o resgate da memória de uma história que ficou mais de quatro séculos silenciada e que, segundo Mott, volta à tona para reforçar a luta pelo fim da LGBTfobia.
Confira o documentário sobre a história do Tibira do Maranhão, produzida pelo canal Museu da Transviada, no Youtube:
