Quais lendas inspiraram as toadas dos bois no Festival de Parintins 2026?

Conheça as lendas do Curupira e do pajé Pindova'úmi'ga que os bois da estrela e do coração, respectivamente, irão apresentar no Bumbódromo de Parintins neste ano.

Lendas do curupira e pindova’úmi’ga serão retratadas por Caprichoso e Garantido no Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

O Bumbódromo de Parintins (AM) será palco de um mergulho profundo nas raízes místicas e na ancestralidade da Amazônia. Isso porque os bois Caprichoso e Garantido prometem levar, para as três noites do Festival Folclórico de Parintins, duas narrativas que serão destaque absoluto nas toadas deste ano: no lado azul, a lenda do Curupira, guardião supremo da floresta, e pelo lado vermelho, a odisseia de Pindova’úmi’ga, a saga mitológica do xamã e guerreiro ancestral do povo indígena Parintintin.

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Além do espetáculo visual, as composições deste ano se apoiam em densas pesquisas antropológicas e históricas, transformando o folclore em um manifesto de preservação ambiental e exaltação aos povos originários.

Confira a história das lendas:

Boi Caprichoso – Trilha do Curupira

Lenda do curupira
Lenda do Curupira será apresentada pelo Caprichoso durante o Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

“Teus pés em remoinho formarão a assombração, assombração, assombração”. A nova toada do Boi Caprichoso constrói uma narrativa envolvente que mistura suspense e crítica social, ambientada nas profundezas da Floresta Amazônica. A inspiração é lenda do Curupira.

Descrito como um menino de cabelos vermelhos e pés virados para trás, o Curupira é considerado o guardião das florestas e dos animais. Segundo a lenda, os pés invertidos servem para confundir caçadores e invasores, deixando rastros que indicam a direção oposta à que ele realmente segue.

De acordo com a tradição popular, o Curupira protege a natureza castigando quem caça por diversão, derruba árvores de forma ilegal ou desrespeita a floresta. Embora no imaginário popular o Curupira seja frequentemente reduzido a uma “história para assustar crianças”, a antropologia e a história enxergam a narrativa sob outra perspectiva.

A primeira menção escrita à entidade foi feita pelo padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na época, sob o olhar colonizador e católico, os jesuítas o descreviam como um “demônio” que aterrorizava os indígenas. A toada é repleta de versos que fazem referência direta ao personagem clássico do folclore brasileiro, como no trecho “De onde vem o assovio?”, que se refere à tática do Curupira para confundir caçadores e invasores com sons agudos e imprevisíveis. O refrão explosivo “Fogo de Curupira! Bota pra correr!” marca a obra como um grito de resistência.

A composição do Boi Caprichoso reinterpreta o guardião da mata por meio de símbolos da cosmologia indígena. Os pés invertidos, descritos no verso “Teus pés em remoinho formarão a assombração”, representam o poder de despistar quem tenta seguir seus rastros. Na segunda metade, a toada se transforma em um manifesto ecológico. O trecho “Rasga a mata viva o monstro correntão” denuncia o uso da corrente de aço arrastada por tratores — uma das práticas mais destrutivas do desmatamento ilegal.

Leia também: 6 lendas folclóricas para conhecer a cultura na Amazônia Internacional

Boi Garantido – Pindova’úmi’ga

Odisséia de Pindova’úmi’ga será apresentada pelo Garantido durante o Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

“No segundo céu, se tornará Yvá’gan’ga… o povo que veio do céu é Parintintin”. A nova toada do Boi Garantido mergulha nas origens místicas da Amazônia e celebra a espiritualidade indígena. Na crença dos indígenas Parintintin, Pindova’úmi’ga é um grande chefe xamã.

A lenda conta que o guerreiro indígena viajou entre o céu e as profundezas das águas para criar os Yvága’nga, o povo do céu, que se manifestam através da fumaça, caminham pelas águas, transformam-se em animais sagrados como a onça-pintada e atuam como protetores das matas e das águas da Amazônia.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA) a lenda foi difundida em povos originários dos rios Madeira, Maicí e Ipixuna, no Amazonas. A toda mergulha na jornada xamânica do guerreiro que atravessa os três mundos — o céu, o rio subterrâneo e a terra — em busca do local ideal para erguer sua okara, a praça central que simboliza o coração da aldeia.

A narrativa poética descreve suas metamorfoses espirituais: revestido de uma armadura feita de pele de arraia e escamas afiadas, o herói mergulha nas águas amazônicas para desvendar os segredos dos peixes encantados. Ao retornar à superfície, transforma-se em onça-pintada, enfrentando visagens e espíritos da floresta.

Mas, como lembra a letra, “em todos os cantos da terra já tinham donos e guardiões”, e o pajé precisa buscar outro destino. Guiado por Kawnadu, a harpia divina, ele atravessa a barreira entre mundos, alcança o “segundo céu”, onde ergue sua aldeia.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

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