Lendas transformam pôr do sol em momento de conexão espiritual em cidade do Amazonas

Entre os Tukano e os Baniwa que vivem em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, duas lendas dão sentido ao momento em que o sol se despede do dia, transformando o fenômeno em um ritual sagrado.

Pôr do sol em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM

O pôr do sol em São Gabriel da Cachoeira, às margens do Rio Negro, no Amazonas, é mais do que um espetáculo de cores para os povos originários da região. Entre os Tukano e os Baniwa, duas lendas diferentes dão sentido ao momento em que o sol se despede do dia, transformando o fenômeno natural em um ritual sagrado.

A ligação entre as visões ancestrais com a cultura do município amazonense se justifica: São Gabriel da Cachoeira é a terceira cidade mais indígena do Brasil, segundo Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 93,2% da população pertencente às etnias distribuídas no município. Para a maior parte dos habitantes, o pôr do sol segue sendo um dos símbolos mais fortes da união entre mito e realidade.

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O céu tingido de laranja, vermelho e roxo reflete nas águas escuras do rio e impressiona moradores e turistas. Mas, para os povos indígenas, o espetáculo vai além da estética: é um momento de respeito e silêncio, em que se reafirma a conexão espiritual com os antepassados.

Relatos da beleza do pôr do sol

De acordo com a Secretaria de Cultura do Município, na tradição Tukano, o sol mergulha nas águas do Rio Negro para descansar e renovar suas forças, sendo acompanhado por espíritos que garantem a continuidade da vida.

A visão da etnia sobre o fenômeno natural já foi alvo de estudos internacionais. O antropólogo britânico Stephen Hugh-Jones, esteve na Amazônia em 1979, e passou um tempo com o povo Tukano.

A experiência resultou na publicação sobre a lenda no estudo ‘From the Milk River: Spatial and Temporal Processes in Northwest Amazonia‘ (Do Milk River: Processos Espaciais e Temporais no Noroeste da Amazônia, em tradução literal).

“O sol é visto como um operador do tempo e do espaço, responsável por ordenar o ciclo da vida e garantir o equilíbrio entre o dia e a noite”, diz trecho do estudo.

o pôr do sol é lindo em São Gabriel da Cachoeira
Município de São Gabriel da Cachoeira. Foto: Divulgação/Amazonastur

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Já para os Baniwa, o pôr do sol simboliza a passagem do tempo e a harmonia entre os mundos, com os ancestrais guiando o astro em sua travessia para assegurar equilíbrio entre natureza e humanidade.

“O pôr do sol entre os Baniwa é também um marcador de tempo, que orienta práticas sociais e agrícolas, funcionando como um mapa cosmológico”, explica a pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas, Silvana Rossélia dos Santos.

O pesquisador americano Robin Wright, especialista na cosmologia Baniwa, destacou no estudo “História Indígena e do indigenismo no Alto Rio Negro”, a crença indígena sobre o fenômeno:

“Cada pôr do sol é entendido como um ritual de passagem, em que os ancestrais conduzem o sol para o mundo espiritual, reafirmando a ligação entre presente e passado”.

A comunicadora Yngrid Duarte, que saiu de Brasília para acompanhar uma comitiva que levou donativos para comunidades indígenas na cidade, ressaltou a experiência vendo o pôr do sol:

“O pôr do sol foi muito bonito, parecia que estava saindo faísca do céu, teve várias rajadas, foi mágico, encantado. Acho que isso explica muito sobre a cidade”.

Guias locais costumam compartilhar essas histórias durante passeios de barco, destacando a importância da preservação cultural e ambiental.

Ambas as tradições reforçam que o pôr do sol é mais do que um fenômeno natural — é um momento sagrado de conexão entre mundos.

*Com informações de Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

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